"Quebrou? Como assim, Pedro?" Sua voz mal saiu quando Pedro, o homem que eu amava e que parecia ter o mundo aos seus pés, desabou na minha frente.
Ele chorava, dizendo que havia perdido tudo em um investimento errado.
Eu não hesitei. Fechei minha confeitaria chique, a "Doce Luana" , o sonho da minha vida, e usei todas as minhas economias para abrirmos uma padaria humilde num bairro operário.
Minhas mãos, antes delicadas para macarons, viraram puro calo de tanto sovar pão.
Eu trabalhava 16 horas por dia. O Pedro dizia que me ajudava, mas estava sempre no celular.
Até que, um dia chuvoso, ouvi a risada dele nos fundos da padaria.
"Cara, você não acredita. A padaria está bombando. A 'padeira' aqui leva jeito pra coisa."
Era o Gustavo, o melhor amigo dele.
"E aí? Ela já juntou quanto nessa brincadeira de pobre?"
"Quase duzentos mil. A idiota guarda tudo numa caixa de sapatos. Acha que é pra 'nossa padaria dos sonhos' ."
Meu mundo desabou. "Padeira" ? "Idiota" ?
Eles estavam rindo de mim.
"Isso paga a entrada do carro novo da Isabela. Você é um gênio, cara. Fazer a confeiteirazinha de luxo virar padeira de bairro pra bancar sua vida... épico."
Isabela, a socialite que ele dizia não ter mais contato.
Pedro continuou, a voz pingando desprezo: "Ela realmente acreditou que eu tinha falido. Que eu, Pedro Alcântara, ia acabar meus dias vendendo pão de sal num muquifo desses."
"Ela é tão patética. Tão... comum."
Eu era a "padeirazinha" , a "idiota" , a "princesinha" que ele usou para financiar a vida dele e o casamento com outra.
Meu corpo inteiro tremia de raiva e humilhação.
Eu ia confrontá-lo? Chorar? Eu não sabia o que fazer, mas uma coisa era certa: ele não teria o prazer de me ver desmoronar.
Peguei o dinheiro da caixa registradora e o resto do meu suor, guardado na caixa de sapatos.
Minha antiga vida, meu apartamento, meu sonho, tudo foi destruído por ele.
Mas algo acendeu dentro de mim.
Aquele Pedro, o homem que eu amava, tinha rasgado meu coração e minha alma.
Agora, ele sentiria a força da padeira que ele tanto desprezou.
"Quebrou? Como assim, Pedro?"
A voz de Luana saiu baixa, quase um sussurro. O barulho da batedeira profissional, que antes era música para seus ouvidos, agora parecia um ruído irritante no fundo da sua confeitaria chique, a "Doce Luana" .
Pedro estava na sua frente, o rosto bonito contorcido numa máscara de desespero. Ele segurava as mãos dela com força.
"Eu perdi tudo, Lu. Tudo. Um investimento que deu errado, meu pai me cortou, eu... eu não tenho mais nada."
Luana olhou para ele, para o homem que amava há três anos. O homem charmoso, de família rica, que parecia ter o mundo aos seus pés. Ela sentiu o coração apertar. Não de dúvida, mas de uma compaixão imensa.
"Calma, meu amor. Calma. Nós vamos dar um jeito. Você tem a mim."
Ela o abraçou, sentindo os ombros dele tensos. Não hesitou por um segundo. A confeitaria dela era um sucesso, ela tinha economias, um nome no mercado. Podia sustentá-los até ele se reerguer.
"Eu vou fechar a loja por um tempo" , ela disse, com a decisão se formando rapidamente em sua mente. "Vou pegar todo o dinheiro que guardei. A gente pode recomeçar. Abrir algo menor, mais simples. Uma padaria de bairro, talvez? Até você resolver suas coisas."
Pedro a olhou, os olhos brilhando.
"Você faria isso por mim, Luana?"
"É claro que eu faria" , ela respondeu, beijando o rosto dele. "A gente está junto nisso."
Em menos de um mês, a "Doce Luana" , com suas vitrines elegantes e doces finos, fechou as portas. Luana liquidou o estoque, encerrou contratos e juntou cada centavo que tinha. Ela entregou tudo para Pedro.
Eles alugaram um pequeno ponto num bairro operário, um lugar que cheirava a graxa e a comida barata. A nova vida de Luana começava antes do sol nascer.
O cheiro agora não era de baunilha francesa e chocolate belga, mas de fermento e farinha barata. Suas mãos, antes acostumadas com a delicadeza de um macaron, agora estavam ásperas e doloridas de sovar pão de sal. O calor do forno industrial era implacável, grudando o cabelo em seu rosto suado.
Ela trabalhava dezesseis horas por dia. Pedro "ajudava" , mas passava a maior parte do tempo no celular, supostamente tentando resolver seus "negócios falidos" . Luana não reclamava. Ela amassava, assava, limpava o chão, atendia no balcão. Via o cansaço no espelho, as olheiras fundas, as unhas quebradas. Mas via também o dinheiro entrando.
A padaria, com seus pães quentinhos e o sorriso cansado mas genuíno de Luana, começou a fazer sucesso no bairro. As pessoas gostavam dela. Em seis meses, a caixa registradora estava sempre cheia no fim do dia. Ela guardava todo o dinheiro numa caixa de sapatos debaixo da cama do pequeno apartamento que dividiam.
Era para o futuro deles. Para quando Pedro se reerguesse.
Numa terça-feira chuvosa, o movimento estava fraco. Luana estava limpando o balcão quando a porta dos fundos, que dava para um beco, se abriu. Pedro entrou, rindo ao telefone. Ele não a viu ali.
"Cara, você não acredita. A padaria está bombando. A 'padeira' aqui leva jeito pra coisa."
Luana parou, o pano sujo na mão. A voz era de Pedro, mas o tom era diferente. Zombeteiro.
Ela se escondeu atrás de uma prateleira de pães, o coração começando a bater de um jeito estranho.
A voz do outro lado da linha era alta o suficiente para ela ouvir. Era Gustavo, o melhor amigo de Pedro.
"E aí? Ela já juntou quanto nessa brincadeira de pobre?"
Pedro soltou uma gargalhada.
"Quase duzentos mil. A idiota guarda tudo numa caixa de sapatos. Acha que é pra 'nossa padaria dos sonhos' ."
Luana sentiu o ar faltar. Padeira? Idiota? Caixa de sapatos?
O que estava acontecendo?
"Duzentos mil? Porra, Pedro! Isso paga a entrada do carro novo da Isabela. Você é um gênio, cara. Fazer a confeiteirazinha de luxo virar padeira de bairro pra bancar sua vida... épico."
O nome "Isabela" caiu como uma pedra no estômago de Luana. Isabela era a socialite com quem Pedro dizia que não tinha mais contato.
Pedro continuou, a voz pingando desprezo.
"Qual é, Gustavo. Eu precisava desse dinheiro. E foi divertido, vai. Ver a princesinha toda orgulhosa das mãos cheias de calos, cheirando a fermento... Ela realmente acreditou que eu tinha falido. Que eu, Pedro Alcântara, ia acabar meus dias vendendo pão de sal num muquifo desses."
Ele cuspiu no chão do beco.
"Ela é tão patética. Tão... comum. Mas tenho que admitir, o dinheiro que essa 'padeira' faz tem um cheiro ótimo."
A risada dos dois homens ecoou pelo beco. Para Luana, soou como o barulho de seu mundo se partindo em mil pedaços. Ela ficou paralisada, o pano caindo de sua mão no chão sujo de farinha.
O choque inicial deu lugar a um frio que subiu pela espinha de Luana. Ela se encolheu ainda mais atrás da prateleira, cada palavra que ouvia cravando em sua mente. Aquele era Pedro. O homem para quem ela estava sacrificando seu corpo, seu sonho, seu futuro.
E ele estava rindo dela.
"E quando você vai largar essa coisa, Pedro?" , a voz de Gustavo soou novamente, metálica e distante pelo telefone. "A Isabela já está ficando impaciente. Casamento marcado, festa, lua de mel... você precisa sair dessa vida de mentira."
A palavra "casamento" fez o estômago de Luana revirar. Casamento? Com Isabela?
"Calma, cara. Só mais um pouco. Deixa ela juntar mais uns trocados. Cada centavo dela é um luxo a mais pra mim e pra Bel. Ela não suspeita de nada. Acha que eu sou a vítima aqui, o coitadinho que perdeu tudo."
Pedro deu uma pausa, e Luana podia imaginá-lo olhando ao redor, com nojo daquele lugar que ela construiu com suor.
"Sabe o que é mais engraçado? Ela fechou a 'Doce Luana' . Aquela confeitaria que era a vida dela. Cheia de prêmios, de clientes ricos. Ela jogou tudo no lixo por mim."
Ele riu de novo, um som baixo e cruel.
"Ela acha que está me ajudando a recomeçar. Mal sabe ela que está apenas financiando a festa do meu noivado. Acha que o dinheiro na caixa de sapatos é para 'nós' . É hilário. Ela, uma padeira. Comigo. É uma piada."
As palavras dele eram como tapas na cara de Luana. Padeira. Ele repetia essa palavra como se fosse um xingamento. A profissão que sua mestra, Dona Clara, a ensinou a amar. A profissão que deu dignidade à sua família. Agora, na boca de Pedro, era uma ofensa.
Ela se lembrou das noites em que chegava em casa exausta, os pés inchados, e Pedro a abraçava, dizendo: "Você é minha heroína, Lu. Obrigado por esse sacrifício."
Mentira. Tudo mentira.
Enquanto ele dizia aquelas palavras, ele a desprezava. Enquanto ela contava as moedas no fim do dia, feliz por estarem construindo algo juntos, ele estava planejando seu casamento com outra mulher.
"A família dela deve estar adorando, né?" , zombou Gustavo. "A filha que era uma chef renomada agora é uma Zé Ninguém."
"Eles nem sabem" , respondeu Pedro, com um tom de superioridade. "Ela se afastou de todo mundo pra viver essa farsa comigo. Do mentor dela, aquele chef Ricardo... de todo mundo. Ela está sozinha. Só tem a mim. E ela acredita em cada palavra que eu digo. É fácil demais. Gente como ela... é ingênua. Acredita em amor, em sacrifício. Não entendem de dinheiro, de status."
Luana fechou os olhos com força. As lágrimas que ela se recusava a derramar queimavam por dentro. O amor que ela sentia se transformou em pó, em cinzas. A dedicação, o cansaço, a esperança... tudo era uma piada de mau gosto contada por ele.
Ela se sentiu nua, exposta, humilhada de uma forma que nunca imaginou ser possível. Não era apenas a traição com outra mulher. Era o desprezo. O nojo que ele sentia dela, da sua origem, do seu trabalho.
Ele não a amava. Ele a usava. Ele a via como uma ferramenta, uma fonte de renda descartável.
O som da ligação terminando a trouxe de volta à realidade. Ela ouviu os passos de Pedro se aproximando da porta da padaria. Seu corpo inteiro tremia. O que ela ia fazer? Confrontá-lo? Gritar? Chorar?
Ela se lembrou de cada pão que amassou. De cada cliente que atendeu com um sorriso. De cada moeda que guardou na maldita caixa de sapatos. Tudo para ele. E para ele, não valia nada. Pior, era motivo de riso.
Uma onda de náusea a invadiu. O cheiro de pão quente, que antes a confortava, agora parecia o cheiro da sua própria estupidez.
Ela se olhou no reflexo embaçado de um dos fornos de inox. Viu uma mulher cansada, com farinha no cabelo, o avental sujo. A "padeira" . A "idiota" .
E pela primeira vez em seis meses, ela sentiu um arrependimento tão profundo que doeu fisicamente. Arrependimento por ter acreditado. Por ter amado. Por ter fechado a sua loja, o seu sonho.
Por ter se permitido ser reduzida a isso.