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Amor e Vingança : Atraída pelo meu Inimigo

Amor e Vingança : Atraída pelo meu Inimigo

Autor:: Juliana Fontes
Gênero: Romance
Sara perde o pai e descobre que herdou todas as dívidas dele, inclusive com um agiota. Para conseguir pagar tudo, aceita a vaga de assistente do mais importante magnata da cidade, o CEO da Vanderbilt Enterprise, maior empresa de transportes do país. Theodore Vanderbilt, além de seu novo chefe, é filho do homem responsável pela morte de seu pai. Tom era sócio de seu pai e o enganou no passado, fazendo-o se afundar nas bebidas e entrar no vício de jogos de azar. Sara agora se vê dividida entre o desejo de vingança e uma paixão avassaladora, que não pode ser ignorada. Sara e Theo terão que enfrentar não só os fantasmas do passado, mas também o futuro incerto que os espera. Será que o amor deles poderá sobreviver a tantos segredos, intrigas e mentiras? Com diálogos afiados, cenas sensuais, perigos eminentes e uma protagonista que desafia todos a seu redor, esse romance vai ganhar seu coração. É um romance contemporâneo adulto, enemies to lovers, com cenas hot, apimentadas, quentes, mas sem vulgaridades.

Capítulo 1 Vanderbilt Enterprise

SARA WALKER

– Ai, amiga... Não sei, não... Meu pai acabou de falecer e já deve estar se revirando no túmulo só de pensar que eu possa conseguir um emprego na empresa do seu maior inimigo de todos os tempos.

– Relaxa, amiga! Primeiro, porque o inimigo dele já está aposentado e afastado da empresa. Segundo, quem comanda a empresa é o filho dele, que não tem nada a ver com a sacanagem que o Sr. Tom Vanderbilt fez com seu pai. Terceiro, você nunca vai nem esbarrar com o Theodore Vanderbilt, a sala do CEO fica na cobertura do prédio da empresa e a vaga à qual você vai se candidatar é para ficar no 4º andar, o que é muito, muito distante. São 20 andares de diferença!

– Mesmo assim, Brenda... A empresa leva o sobrenome dele: Vanderbilt Enterprise. Sabe quantas vezes na vida ouvi meu pai xingar os Vanderbilt? Milhões!

– Bom, se seu pai não quisesse você trabalhando para eles, Sara, não deveria ter se afundado em bebidas e jogos de azar, nem morrido de repente e deixado de herança uma enorme dívida para você pagar...

Brenda tinha razão. Se eu não aceitasse esse emprego, como pagaria tantas dívidas deixadas por meu pai? Tinha um agiota já no meu pé, querendo a devolução do dinheiro emprestado, e esse valor só aumentava a cada dia. Deus me livre pensar no que um agiota é capaz de fazer para não ter prejuízo. Me dava arrepios só de imaginar.

Paramos em uma cafeteria que ficava na esquina da Vanderbilt Enterprise. Estava lotada, mas eu precisaria de uma dose dupla de café se eu fosse entrar na empresa que levava o sobrenome do arqui-inimigo do meu recém-falecido pai. Que saudade eu sentia dele!

Podia não ser o melhor pai do mundo, mas era esforçado. Desde quando minha mãe morreu no meu parto ele teve toda a sua vida virada de ponta a cabeça. Imagina perder o amor da sua vida e ainda ficar sozinho cuidando de uma recém-nascida, ainda mais sendo pai de primeira viagem?

Mulheres costumam ter esse dom do cuidado mais aflorado. Ele não havia tido preparo algum para isso. Ninguém nunca está preparado para a chegada de um bebê, muito menos um pai solo. Foi então que começou a beber e se meter com jogos de azar. No fundo, me sinto culpada por ele ter tido essa vida infeliz. Não foi à toa que infartou tão jovem, aos 51 anos.

Minha vez na fila havia chegado. Agora, mais do que nunca, eu precisava de um balde de café. Pedi o maior do cardápio. Puro e preto. Me arrependi logo que a atendente falou o preço. Ali, em Boston, especialmente em Back Bay, o preço das coisas era um absurdo, muito diferente de Medford, cidade em que eu vivia. Brenda pegou um menor para evitar o vício e o gasto em excesso. Saímos da cafeteria e fomos em direção à portaria da Vanderbilt Enterprise.

Estávamos caminhando em silêncio. Brenda notou que eu estava perdida em meus pensamentos e achou melhor não interromper. Ela sabia como os últimos dias tinham sido difíceis para mim. Meu pai era a única família que eu tinha.

Os parentes da minha mãe se afastaram depois do falecimento dela. Culparam meu pai por não ter levado minha mãe mais cedo para a emergência quando começou o trabalho de parto.

Meu pai me contava histórias sobre minha mãe e sempre reforçava como ela era teimosa e que eu havia herdado essa teimosia dela. Ele dizia isso com um sorriso no canto dos lábios. Eu sabia que eu era o orgulho do meu pai, a única coisa que havia dado certo na vida dele.

Os parentes da minha mãe não acreditaram quando ele disse que insistiu para levar Diana assim que começaram as contrações, mas ela continuava dizendo que era cedo demais e que não queria ficar tanto tempo assim no hospital.

Quando ele percebeu que Diana estava ficando muito pálida e com muitas dores, parou de obedecê-la e a colocou no carro à força. Os médicos disseram que se meu pai tivesse demorado mais 5 minutos, além de perder minha mãe, também teria me perdido. Devo minha vida a ele duplamente.

Os saltos estavam me matando. Fazia tempo que eu não usava uma roupa social. Estava acostumada a trabalhar de casa, como escritora freelancer. Meu uniforme preferido era pijama e chinelo. E, para melhorar meu dia, eu tinha sempre uma grande caneca de café a tiracolo. Meu pai garantia que a garrafa térmica estivesse sempre abastecida. Nossa, como sinto a falta dele!

Estava difícil de me concentrar em meus pensamentos com aquela saia do terninho feminino que a Brenda me emprestara subindo acima do meio das minhas coxas.

Será que existiam terninhos confortáveis? Pelo visto, se eu fosse aprovada para a vaga, teria que usar muito esse tipo de roupa. Teria que parcelar tudo no cartão de crédito que ainda me restara e ir pagando com o valor do salário que eu recebesse.

De repente, bati forte contra alguma coisa e vi meu café duplo virar da minha mão e cair em meus seios, me queimando e ensopando a camisa branca social que Brenda também me emprestara. Minha atenção saiu rapidamente dos meus pensamentos e focou naquela muralha de terno azul bem à minha frente. De onde ele havia surgido?

– Ahhhhh... Olha o que você fez! Não olha por onde anda? Além de ter me queimado, você arruinou a roupa que eu iria usar agora em uma entrevista para um emprego que eu preciso muito! – vociferei, sem pensar, contra o rapaz que estava tão perto que eu nem conseguira ver seu rosto, já que era bem alto.

Ele deu dois passos para trás, olhou dentro dos meus olhos com aquele olhar hipnotizador, e disse calma e pacientemente, mas com muito sarcasmo:

– Eu que deveria olhar por onde ando? Você que bateu em mim enquanto eu estava passando para ir até meu carro. Estava tão distraída que nem sei como conseguiu andar a rua toda sem bater em nada até agora – rosnou ele. – Sinto muito por ter arruinado sua roupa, mas a culpa foi toda sua! – aumentou a voz ao se referir que a culpa era minha.

Meu sangue ferveu e fiquei cega de ódio por um instante. Dei um passo à frente para enfrentá-lo, apesar de ser bem mais baixa que ele, em meus 1,60 m. Parei ao sentir a mão de Brenda apertar meu braço e me puxar para trás. Minha amiga estava tão pálida e nervosa que, por um momento, esqueci minha raiva e lembrei que eu estava fazendo um escândalo na frente da empresa em que ela trabalhava. Fiquei vermelha na hora, respirei fundo e soltei entredentes:

– Peço desculpas pelo acidente, senhor.

Acidente? Estava era no mundo da lua... Ouvi o cara de terno dizer baixo ao se virar e seguir caminhando. Respirei fundo para não voar no pescoço dele e esganá-lo.

Fui me acalmando, e minha visão foi deixando de ficar turva de raiva. Agora eu conseguia ver com mais clareza a cara de pânico de Brenda. Olhei por trás dela, na direção do canalha que me queimou e me fez desperdiçar todo o meu café. Mesmo de costas, era um homem que chamava atenção. As mulheres ao seu redor quase quebravam o pescoço para olhá-lo passando.

Ele parou no meio-fio e, em frente a ele, uma Mercedes preta lustrosa estacionou, linda. O motorista desceu e abriu a porta de trás para o homem que derramou meu café. Ele parou diante da porta aberta e olhou para trás, na minha direção. Minha respiração parou.

Aquele não era um homem qualquer. Tinha as feições de um deus grego esculpido à mão por Deus. Seus olhos eram de um verde tão potente que eu conseguia enxergar sua profundidade mesmo de longe. Aquele queixo quadrado era a perdição de qualquer mulher. Ele, ainda sério, balançou a cabeça negativamente, entrou na Mercedes e o motorista fechou a porta. Não dava mais para vê-lo por trás daqueles vidros escuros.

Brenda entrou no meu campo de visão e gritou:

– Você ficou MA-LU-CA? – falou pausadamente para que eu percebesse o tamanho da minha burrada. – Aquele com quem você acabou de gritar era simplesmente Theodore Vanderbilt, CEO e filho do fundador da empresa para a qual você está prestes a fazer uma entrevista para a vaga de assistente de gerente.

Meu coração parou por alguns segundos. Aquela era a chance da minha vida e eu havia acabado de arruiná-la.

Capítulo 2 Eu gostava mais da sua outra versão.

THEODORE VANDERBILT

Que dia estressante! Liguei mais uma vez para o meu pai e disseram que ele não queria falar comigo. Desde que resolvera se aposentar andava muito esquisito. Se isolou na fazenda da família que ficava no interior da cidade e não atendia mais minhas ligações. O sinal do celular não pegava bem lá, então eu ligava para o fixo, só para ouvir algum dos empregados me dispensar a pedido de meu pai.

Já faziam 2 meses que eu não tinha nenhum contato com ele. Droga! Dei um soco na mesa e algumas coisas saíram do lugar. Eu estava à beira de ter um colapso.

Ouço uma batida tímida à porta e a vejo se abrir lentamente. Denise, minha mais nova assistente, apareceu só com os olhos, deixando o restante do corpo protegido atrás da porta.

– Senhor Vanderbilt, o rapaz do aplicativo chegou. Devo mandá-lo entrar?

– Denise, eu mandei você cancelar TO-DAS as minhas reuniões de hoje! Como você quer deixar alguém entrar agora? Você está de brincadeira comigo? – gritei a todo pulmão.

A porta se fechou imediatamente, e eu pude ouvir o fungar de quem estava começando a chorar. Será que realmente pedi a ela para cancelar minhas reuniões ou fiz isso só na minha cabeça?

Droga! Talvez a menina nem tivesse culpa. Mas agora também já foi. Detesto gente que não aguenta uma bronquinha à toa e já cai no choro. Essa assistente não foi uma boa escolha. Nenhuma das outras cinco dos últimos 3 meses foram. Todas eram sensíveis demais. "Ou eu que estou ficando extremamente insensível?", pensei, mas logo me desviei desse questionamento.

Seria melhor eu voltar para casa antes que eu fizesse mais alguém cair em prantos. Precisava acalmar meus nervos antes que eu tivesse um infarto aos 32 anos!

Arrumei as coisas da minha mesa que saíram do lugar, peguei uns itens que ia precisar e coloquei na minha pasta de couro legítimo preta. Ao sair pela porta, notei Denise com o rosto muito vermelho e inchado. Minha gerente de finanças conversava com ela, em um tom apaziguador.

Parei em frente ao elevador. Karol veio na minha direção e parou ao meu lado, me olhando de cara feia. Ela me conhecia desde menino, quando eu vinha visitar meu pai na empresa. Karol cuidava de mim, me dava biscoitos e arrumava itens de escritório para eu brincar enquanto meu pai estava participando de reuniões.

Era a única ali que não tinha medo de falar certas verdades na minha cara. Me tratava como uma mãe que dá bronca num filho. E isso sempre foi muito bom para mim, que cresci quase sem uma mãe por perto. A minha saíra pelo mundo quando eu tinha apenas 6 anos. Queria desbravar as coisas boas do mundo e criança dava muito trabalho.

Fui criado pelas diversas babás que meu pai foi contratando pela vida. Nunca duravam muito, pois meu pai não cumpria os horários de chegada e as deixava presas na minha casa até ele aparecer. Uma delas chegou a perder o Natal com a família.

Mesmo recompensando com dinheiro, nenhuma ficava. Valorizavam a família, o que eu achava incrível, já que a minha não estava nem aí para minha existência.

– Theo, não acredito que você gritou de novo com a Denise – disse Karol, com aquele tom de mãe que quer brigar e, ao mesmo tempo, passar a mão na cabeça do filho.

– Karol, ela não cancelou minhas reuniões, como pedi. E eu estava uma fera quando ela entrou. Acabei perdendo um pouco a razão.

– Um pouco? Ah, Theo... Você era um menino tão doce. O que te fez ficar assim tão parecido com seu pai? Eu gostava mais da sua outra versão.

– Eu também – respondi com sinceridade, pois eu achava a minha versão criança muito mais divertida. Não tinha problemas, boletos para pagar, nem uma empresa para administrar.

– Acho que você vai precisar de uma nova assistente.

Revirei os olhos para ela e entrei no elevador que acabara de chegar. Eu detestava aquela coisa toda de processo seletivo. Olhei para ela com um olhar carinhoso e pedinte.

– Nem pensar, Theo! Cansei de procurar assistentes e você espantá-las em menos de 1 semana de trabalho. Se vira!

A porta do elevador se fechou. Karol tinha o dom de me acalmar e irritar de novo em menos de 5 minutos. Que mulher geniosa! Era a única mulher na minha vida que tinha coragem de me enfrentar. Talvez fosse por isso que eu gostava tanto dela.

Acho uma chatice essas mulheres que não se valorizam e fazem de tudo para chamar minha atenção. Parece que dinheiro fala mais alto que personalidade hoje em dia.

Saí do elevador e fui direto para as grandes portas de vidro da saída. Vi que o gerente de marketing, Steve, estava vindo em minha direção querendo falar algo, mas fiz um gesto com a mão dispensando-o e indicando para deixar para outra hora.

Ele para de andar e assente com a cabeça, visivelmente frustrado. Minha irritação ainda está à flor da pele. Não é o momento de conversar com ninguém.

Mal saio pela porta da empresa e uma mulher de estatura baixa, carregando um balde de café, bate em cheio no meu braço, derramando café por toda sua blusa branca, deixando-a transparente e com o sutiã de renda em evidência. Imediatamente, desviei o olhar, para não parecer um tarado.

Vi quando o semblante da moça saiu de distração para ódio mortal em segundos. Por um momento, achei graça. Então, ela começou a gritar, falando sobre como eu arruinei sua blusa e seu dia.

Parece que ela teria uma entrevista na minha empresa e estava reclamando comigo que chegaria toda suja na entrevista. Estava me culpando pela própria distração. Meu sangue ferveu, mas respirei fundo, pois não queria ser o cara que fazia duas mulheres chorarem no mesmo dia.

Apesar de deixar claro que a culpa era toda da distração dela, ainda me solidarizei com a blusa arruinada. Eu sabia que a vaga aberta era justamente para assistente do gerente de marketing que queria falar comigo agora há pouco.

Sabia também da má fama dele com as mulheres. Ele já estava no meu radar quanto a isso. Qualquer reclamação de assédio e ele rodaria. Pobre garota que ia fazer entrevista com ele vestindo essa blusa transparente. É entregar ouro a bandido.

Senti uma raiva repentina me dominar com esse pensamento. Imaginei aquela criatura de pequena estatura, magra, mas com preenchimento natural nos locais certos, olhos cor de mel, cabelo castanho escuro e liso preso em um coque, tão vulnerável sob os olhos daquele tarado.

Vulnerável? Ela quase voou no meu pescoço por causa de um café derramado, imagina o que faria com o Steve. Mesmo assim, pensar nela dentro da mesma sala que Steve fez minha raiva aumentar por completo. Cerrei os punhos nas laterais do meu corpo, tentando me controlar. Ouvi-a, de repente, se desculpar pelo acidente.

– Acidente? Estava era no mundo da lua... – falei em voz baixa assim que me virei e fui em direção ao meu carro. Se eu ficasse mais um segundo ali, pegaria ela, colocaria no ombro e a enfiaria dentro do meu carro, mesmo berrando, só para garantir que ela não chegasse perto daquele pervertido.

Antes de entrar no carro, olhei para trás, na direção dela. Queria me lembrar de cada detalhe daquela baixinha raivosa que me atacou e, mesmo em um momento de muito estresse, me fez sorrir por tanta braveza. Parecia um Pinscher latindo para um Pitbull.

Não podia negar que se tratava de uma menina corajosa. Mal sabia ela que estava aos berros com o CEO da empresa para a qual iria fazer uma entrevista. Pela cara pálida da menina do marketing que estava ao lado dela, sua amiga não fazia ideia de quem eu era.

Chegou a puxá-la para trás para impedi-la de voar no meu pescoço. Era muita raiva para uma mulher tão pequena. Tinha traços de menina, mas a personalidade de leoa. Sorri ao pensar nela novamente. Balancei a cabeça para tirá-la dos meus pensamentos. Pela janela, vi uma loja feminina da qual eu gostava muito do estilo.

– Milton, pare o carro. Me deixe aqui e arrume onde estacionar. Eu te ligo para me buscar daqui a alguns minutos.

Capítulo 3 Eu estou sempre certa

SARA WALKER

Passei no balcão de entrada da Vanderbilt Enterprise para fazer minha identificação. Não acredito que eu iria para uma entrevista naquele estado deplorável. Até na foto de cadastro ficou registrada a blusa toda manchada de café. Que vergonha!

Brenda foi entrando na frente porque já estava atrasada depois daquela confusão que causei. Acho que ela nunca mais vai me perdoar, mesmo eu insistindo em dizer que CEO não costuma conhecer seus funcionários e nem devia saber que ela trabalhava lá. Brenda afirmou que ele conhecia todo mundo da empresa, mesmo não sabendo exatamente os nomes. Acho muito difícil um cara com a responsabilidade e falta de tempo dele se importar em saber quem são as pessoas que trabalham para ele.

Recebi o crachá para entrar e fui direto para o quarto andar. "Será que isso foi um castigo do meu pai por eu estar aqui tentando uma vaga na empresa do seu inimigo?" pensei comigo. "Não viaja, Sara. Seu pai tem mais o que fazer agora do que vir aqui só para te castigar por algo que tenha feito." falou uma voz na minha cabeça. Respirei fundo para acalmar meus nervos. Eu precisava muito daquela vaga ou não teria dinheiro algum para começar a dar ao agiota.

Sentei na sala de espera, aguardando minha vez de ser chamada. Uma vontade de chorar estava presa na minha garganta. Eu não aguentava mais ser aquela mulher forte o tempo todo. Às vezes, eu sentia falta de ser só a menininha do papai, que deitava a cabeça no colo dele para chorar enquanto ele passava a mão pelo cabelo e dizia que tudo ia ficar bem. Meus olhos marejaram e eu engoli o choro mais uma vez. Eu só queria a certeza de que tudo ficaria bem de novo. A morte de papai acabara com toda a convicção que eu tinha de que venceria na vida. Ele era meu maior incentivador. E agora eu estava sozinha.

Uma moça morena com traços elegantes, cabelo com tranças afro e muito bem-vestida, parecendo uma modelo de meia-idade, se aproximou de mim e pediu que a seguisse. Achei que estava me levando para a entrevista, mas chamou o elevador. Será que a entrevista seria em outro andar? Todos os meus concorrentes estavam sendo apenas chamados pelo nome e entrando em uma salinha logo após o corredor que ficava em frente a sala de espera.

Já sei! Ela deve estar educadamente me levando para fora da empresa, pois não estou vestida adequadamente e ela não quer alarde. Ai, que vergonha! Aquele desgraçado me paga! Estava tão distraída em minha briga interior com o cara do café que nem reparei o elevador se deslocando, só vi quando ele abriu em outro andar. Também não percebi qual era, mas, sem dúvidas, era muito mais bonito que o anterior. Tinha uma vista de tirar o fôlego. Ufa! Ela não estava me expulsando da empresa.

A moça elegante parou diante de uma mesa, pegou uma caixa de tamanho médio e me entregou.

– Aquela segunda porta é o banheiro. Você pode se trocar lá – afirmou, sem mais rodeios, a mulher.

"Uau! Essa empresa deve ser incrível! Viram que eu estava suja de café e estão me oferecendo trocar de roupa antes da entrevista. Que máximo!" pensei entusiasmada. Peguei a caixa, dei um sorriso animado para a moça e fui.

Meu Deus! Não podia ser verdade. Dentro da caixa tinha um lindo vestido vermelho de marca, caríssimo e de muito bom gosto. Era exatamente o meu número. Fiquei confusa. Que empresa doida é essa? Mas coloquei o vestido, porque mulher nenhuma se negaria a vestir aquela beldade. Ele vestia perfeitamente no corpo e realçava tudo o que ela tinha de melhor. Parecia um vestido mágico, feito pela fada madrinha da Cinderela para me deixar ainda mais bela. Fiquei de boca aberta ao me olhar no espelho. Nunca me sentira tão linda! Até esqueci a tristeza que havia me tomado há pouco.

A tal moça estava me esperando bem na porta do banheiro.

– Uau! Ficou lindo em você. Foi uma excelente escolha. Agora vamos para sua entrevista. – falou empolgada – Ah, e eu, na pressa, acabei não me apresentando. Sou Karoline Sanders, mas pode me chamar de Karol. Sou a gerente de finanças da Vanderbilt Enterprise.

– Pera aí... Você disse "finanças"? Então tem algo errado, Karol. Eu vim fazer entrevista para a vaga de assistente do gerente de marketing.

– Sim, eu fiquei sabendo – ela riu como se soubesse de alguma piada interna que eu estava de fora – Mas houveram algumas mudanças de plano. Pode entrar.

Ela abriu uma sala muito ampla, toda de vidro, mostrando uma vista linda de toda a cidade de cima. Aquele andar devia ser muito alto. E o dono daquela sala tinha muito bom gosto. A decoração era bem masculina, mas realmente de ótimo gosto. Os móveis eram de madeira em tom caramelo, assim como o sofá de couro e a cadeira giratória que ficava por trás de uma mesa toda de vidro. Apesar de muitos itens de escritório, a mesa estava impecavelmente organizada.

Karol fechou a porta e fui me aproximando aos poucos da mesa principal, maravilhada com todo aquele luxo. De repente, a cadeira giratória, que antes estava virada para a paisagem, se virou para ela. Ah, não! Não pode ser!

– Ficou muito bem em você o vestido. Eu realmente tenho bom gosto. – proferiu em tom acolhedor, mas com uma cara muito séria e intimidadora – Pelo menos, ficou muito melhor do que aquela camisa cheia de café.

– F-foi você o v-vestido? – questionei gaguejando, sentindo a raiva subir pela minha garganta – Não acredito! O que você quer de mim? Não sei com que tipo de mulher você está acostumado, mas eu não sou assim! Não quero vestidos caro nem nada de luxo em troca de...

– Em troca de quê? – perguntou ele. Eu sabia que tinha um sorrisinho sarcástico por baixo daquela máscara de seriedade. Ele se levantou e estava vindo em minha direção – Vamos, me diga. Em troca de quê? Para que você acha que te chamei em minha sala e te dei um vestido caro? Vamos lá, me conte o que sua mente maldosa pensou sobre mim.

Agora ele estava muito perto. Eu queria gritar com ele, mas meu corpo não correspondia. Fiquei muda, estática, com o coração acelerado e as mãos suando frio. Ao ouvir suas palavras fui sentindo um calor tomando todo o meu corpo. Senti meu rosto ardendo e ficando vermelho, certamente ressaltando minha vergonha no meu semblante tão branco. O que aquele homem estava fazendo comigo? Eu precisava sair dali correndo. Foi andando ao meu redor, muito perto do meu corpo, me analisando. Me senti uma manequim em uma vitrine.

– O que você quer de mim? – consegui repetir de forma ríspida.

– O que você acha? – sussurrou tão perto da minha orelha que senti todos os pelos da nuca e do rosto se arrepiarem. Aquele era o homem mais lindo que já vira e ele estava sussurrando em meu ouvido, brincando com as sensações do meu corpo. Aquela pele bronzeada, ressaltando os olhos muito verdes, os braços musculosos... Sacudi a cabeça para tirar ele do pensamento.

Ele saiu abruptamente de perto de mim e quase senti minhas pernas falharem. Aquele homem tinha um poder sobre mim que eu nunca tinha visto acontecer. Também nunca tive um namorado para despertar certas sensações em mim.

De repente, um sinal de alerta gritou em minha cabeça: ele é um Vanderbilt! Recobrei minha sanidade imediatamente.

– Se eu soubesse, não precisaria perguntar, não acha? – respondi de forma rude e determinada.

– Justo. Você está certa.

– Só para você saber, eu estou sempre certa – pela primeira vez, vi um sorriso se estampar naquele rosto de deus do Olimpo.

Então, ele apenas jogou uma bomba no meu colo:

– Eu te chamei aqui para te contratar como minha assistente.

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