Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Romance > Amor sombrio - os rastros que você deixou
Amor sombrio - os rastros que você deixou

Amor sombrio - os rastros que você deixou

Autor:: Maddu Nascimento
Gênero: Romance
Daniela Sanchez, uma jornalista recém divorciada começa a investigar ondas de assassinato que está assolando sua cidade, não imagina estar prestes a conhecer o lado mais sombrio do amor. Ela conhece o atraente e gentil advogado que está disposto a ajudá-la em qualquer coisa, Ethan Cesarini. Eles têm a sintonia perfeita. Mas tudo muda quando surge um novo detetive responsável pelo caso. Ela não esperava que conhecia aquele detetive intimamente de anos atrás. Gregory Martinelli está de volta em sua vida, mesmo que agora ele se recuse a abaixar as barreiras e a armadura emocional que carrega desde a última vez em que a viu. Daniela saberá fazer sua escolha e será capaz de lidar com as consequências de cada uma delas?

Capítulo 1 Respira

Daniela

- Sua incompetente! – a voz do meu chefe esbravejou e eu tive que fechar os olhos porque aquilo me pegou desprevenida. – Eu estou exausto de você chegar atrasada. E ainda tem a coragem de me pedir para sair cedo?

Baixei os olhos e com a voz trêmula, ignorei o meu choro e disse baixinho:

- Sinto muito. Eu só pensei que como eu já entreguei as matérias pendentes com antecedência, o senhor poderia... – minha voz estava embargada, o choro preso na garganta, o que não amoleceu nada no coração cruel e frio do meu chefe.

- O quê? – ele gritou outra vez e eu tenho quase certeza que as paredes de vidro do seu escritório balançaram. - É assim que você acha que vai conseguir escrever algum artigo que você acredita que irá mudar sua vida e que será mais útil para a sociedade que você tanto pede? – ele falou cada uma das palavras que ficaram presas em minha boca. – Isso não é profissional. Você não é nada profissional.

Assenti rapidamente e então, sai correndo da sua sala e me tranquei no banheiro para chorar. Aquela humilhação diária doía como se fosse a primeira vez. Durante seis meses eu era recebida, todos os dias, com aquele tratamento. Me perguntei por que me esforcei tanto numa faculdade de jornalismo só para ouvir todos os dias o quanto eu não era capaz.

Precisei interromper meu choro quando meu celular vibrou no bolso da calça. Uma nova mensagem.

Érica: Amiga, precisamos nos encontrar hoje. Tenho novas estatísticas e imagens de câmera de segurança. E infelizmente, mais vítimas. Te encontro no restaurante de sempre?

Queria responder a minha amiga que eu estava quase desistindo de investigar mais aquela matéria porque eu não era uma jornalista tão profissional assim, como o meu chefe fez questão de apontar, mas eu queria muito ajudar a combater a nova onda de crime que crescia na nossa cidade. Então tudo que fiz, foi confirmar o encontro com minha amiga. E corri até o meu cubículo para seguir com mais um dia de trabalho sofrido.

***

Quando finalmente o relógio bateu quatro horas da tarde, eu saí daquela redação quase que correndo. Ao chegar na rua, eu olhei para o alto e respirei fundo. Eu sentia como se estivesse sufocada durante o dia todo. Ultimamente, eu sentia como se tudo estivesse escorrendo da minha mão e tudo que eu deveria supostamente saber fazer, era respirar. Mas nem isso, eu conseguia mais. E como se o verdadeiro gatilho de tudo aquilo acontecer pressentisse, ele se personificou em minha frente.

- Daniela. – Sua voz firme fez os pelos do meu corpo arrepiarem. – Por que você não me atende?

Comecei a andar em frente, ignorando o homem que me seguia.

- Você não está me ouvindo? – Benício gritava atrás de mim. – Eu vou precisar tirar os meus filhos de você para que você possa me encarar em um tribunal?

Parei abruptamente e minha bolsa esbarrou no seu corpo que estava muito próximo de mim.

- Eu não atendi porque eu estava muito ocupada trabalhando, tentando seguir com a minha vida que você roubou por anos. – Estou gritando, sentindo a raiva invadir cada poro do meu corpo. – Eu preciso trabalhar porque você fez questão de me foder financeiramente e tudo que você faz é dar esmolas que você chama de pensão para os nossos filhos.

Percebi que estava possessa de raiva quando nenhuma lágrima ameaçou cair dos meus olhos. Acho que passei quinze anos tão presa em um casamento que mais me fez chorar que sorrir, que agora o meu momento de cautela acabou.

- Você não precisa ser tão descontrolada todas as vezes. – Foi tudo que ele disse, mostrando o completo canalha narcisista que ele sempre foi.

Como a gente pode se enganar tanto por uma pessoa só pela maneira que ela sorria? Eu lembro que um dos verdadeiros motivos para que o meu coração se acelerasse pelo Benício, foi pela maneira que ele sorria. Mas agora, o seu sorriso não me demonstrava nada além da imagem de um diabo. Acontece que o nosso coração se engana. E acho que o meu nunca acertou.

- Preciso ver as crianças. – Foi tudo que ele disse.

- Não é o seu dia. – Respondi e voltei a andar em frente.

- Eu preciso ver as crianças hoje, ou será você que chegará até a mim, implorando para ter um dia com elas.

Me virei para responder um alto "vai se ferrar" para ele, mas antes que isso acontecesse, Benício voltou a andar na direção oposta da rua, me deixando boquiaberta e extremamente assustada.

Não bastava que ele tivesse tirado tudo de mim. Todos os meus anos de juventude e a possibilidade de ter um amor de verdade. Ele ainda queria tirar, as únicas coisas boas que ele me deu, os meus filhos. Não porque Benício se importava com eles, mas apenas para me atingir.

Então, cega de ódio e extremamente convicta que não deixaria aquele cafajeste tirar os meus filhos de mim, eu segui em frente e quando dei por mim, estava entrando em uma nova firma de advocacia que abriu na cidade.

Fazia pouco mais de dez minutos que estava sentada na cadeira da recepção, encarando a fachada branca, atrás de uma placa de mármore que dizia Cesarini & Almeida, quando a recepcionista me informou que eu seria a próxima a ser atendida. Ela me guiou até uma das salas daquele largo corredor e eu entrei no escritório do advogado que se identificava como Sérgio Almeida.

Eu comecei relatando a minha situação, mas antes que eu pudesse terminar, ele me interrompeu para dizer quanto custaria seu serviço.

- Meu honorário é de 2440 a cada encontro. – Sua voz estava imparcial. – Se isso for possível para você, garanto que sua situação não será um problema.

Levei um choque no mesmo instante. Fiquei sem reação e tenho certeza, que tive um sobressalto. Eu não esperava uma resposta tão direta assim e sobretudo, eu não tinha tanto dinheiro assim.

Eu tinha aluguel de casa para pagar além de suas contas, três filhos para sustentar e eu não recebia nem tudo aquilo que ele me cobrava no trabalho.

Com a voz enfraquecida e a ponto de desabar, eu me levantei daquela cadeira.

- Muito obrigada, eu... Eu entrarei em contato. – Minha voz saiu como um sussurro antes que eu saísse de sua sala.

Atravessei a recepção e cheguei à porta giratória de vidro correndo, e eu não conseguia enxergar nada. As lágrimas estavam me cegando, a dor começando a arrancar cada fôlego meu.

No entanto, eu fui impedida de seguir em frente, quando dei de cara com uma fortaleza rígida em minha frente. O corpo, completamente engravatado, me impedia de seguir em frente. Sussurrei uma "desculpa" ao perceber que havia esbarrado em alguém e tentei seguir em frente.

Mas seja aquela pessoa quem fosse, não me permitiu seguir. Ele segurou meus braços com gentileza e com a voz doce e extremamente empática, disse:

- Você está bem? Precisa de ajuda?

- Eu estou bem. – Eu disse, mas o soluço alto que saiu do fundo da minha garganta me traiu.

O homem apenas continuou me segurando e pareceu não ter sido convencido pela minha resposta tão convicta. Então, com vergonha e extremamente mortificada, olhei para cima, encarando o seu rosto, só para segurar a respiração outra vez.

Ele era extremamente alto e por Deus, lindo de viver! Acho que nunca havia encontrado alguém tão bonito assim, naquela cidade. Os olhos verdes, como se duas esmeraldas fossem esculpidas em seu rosto, a pele clara, sobrancelhas espessas e o cabelo escorrido e escuro que caia como dominó na frente do seu rosto.

- Você está mesmo bem? – ele perguntou outra vez e eu voltei para si. Por um momento, acho que perdi meu equilíbrio.

- Sim. Estou. Obrigada. – Minha voz saiu completamente afetada e comecei a encarar o chão.

- Mas você está chorando. – Ele disse, quando sem nenhuma permissão, levantou meu rosto e enxugou uma lágrima solitária que descia dos meus olhos.

Meu coração errou uma batida no mesmo instante, a pele do meu rosto, onde ele deslizou os dedos queimavam como se fossem brasas.

- Desculpe. – Sussurrei outra vez. – Se eu contar minha história para você, você também iria chorar. – brinquei, mas a sua mão continuou segurando meu braço em um toque atencioso e gentil.

Meu coração bateu forte outra vez, acho que ele gostou disso.

- Você pode tentar me contar. – Ele disse enquanto se afastou e nos sentamos nos bancos de mármores em frente aquela firma.

Não sei em qual ponto da minha vida eu estava para sentar em um banco de praça, em pleno final de tarde, e desabafar a minha vida com um estranho que eu nem sabia o nome. Mas por alguma razão, talvez pela forma que ele segurava minha mão e passava confiança, ou talvez pela forma com que seus olhos brilhavam, que eu percebi que podia confiar naqueles olhos de esmeralda que reluziam esperança.

- Estou em processo de divórcio e o meu ex marido quer tirar os meus filhos de mim. Acho que se ele for para os tribunais ele me vencerá porque bem... Ele tem um emprego melhor que o meu, ganha bem melhor também e com certeza, poderá pagar um advogado. Eu não tenho e nem posso nada disso. – Soltei o ar com força. – Arrisquei vir nessa firma, mas o honorário é bastante alto e eu não tenho condições.

Ele me olhou, atentamente. Algo cintilava em suas írises, uma atenção, empatia e não sei, um cuidado que nunca vi antes e jamais imaginaria que um estranho poderia oferecer. Me senti um pouco idiota no momento e me levantei daquele banco.

- Enfim, já estou melhor. Obrigada por me ouvir, é... Como se chama? – perguntei, a curiosidade me vencendo.

Ele se levantou no mesmo instante.

- Ethan. – Ele pronunciou e eu nunca ouvi um nome tão forte e atraente sendo pronunciado como ele fez. – Ethan Cesarini.

- Cesarini? – repeti e olhei para a fachada da firma. Seu nome estava estampado ali. – Meu Deus! – arfei. – Perdão, eu não quis falar da sua firma, eu só...

- Prazer, Ethan Cesarini. Seu advogado. – Ele me estendeu a mão.

- O quê? – meu coração voltou a bater acelerado. – Não, eu não posso pagar. Mas muito obrigada.

- Que espécie de advogado eu seria se eu não ajudasse quem precisa? – perguntou, a voz baixa e bem próxima do meu rosto. Um hálito de menta e extremamente embriagante me abraçou. Acho que perdi meu equilíbrio outra vez.

- Você está falando sério? – perguntei, minha voz coberta de esperança.

- Sim. Apenas me dê seu contato e em breve, marcaremos uma reunião.

Involuntariamente e nem um pouco profissional, eu me joguei e abracei aquele homem. Ele cambaleou por um instante e sorriu, surpreso. Sua risada tocou diretamente no meu coração.

Dei o meu e-mail e nome para Ethan e ele me entregou seu cartão.

- Obrigada. – Eu disse outra vez, quase chorando de gratidão.

- De nada. – Ele disse, a voz também parecia afetada pela maneira que ele também me encarava. – Eu vou te salvar, Daniela.

E dizendo isso, ele se despediu de mim e entrou em sua firma.

Uau! Meu coração estava celerado e eu estava suando. Sentia um calor me invadir, cada átomo do meu corpo queimava. Tudo aquilo foi de zero a cem muito rápido.

Assim que consegui me recuperar, segui até o restaurante onde Érica estava me esperando. Ela havia me mandado mensagem há 40 minutos avisando que estava saindo de casa. No entanto, eu não encontrei minha amiga no restaurante. Liguei repetidas vezes, mas Érica também não me respondia.

Eu estava preocupada e naquele dia, eu estava precisando muito da minha amiga, por isso que peguei um táxi e fui direto até o seu apartamento. A luz da lua já brilhava alta no céu quando bati na sua porta.

- Érica! – gritei, chamando mais uma vez. Mas não obtive respostas.

Eu soube que ela estava em casa porque uma música clássica estava entoando e eu fiquei surpresa ao descobrir o estilo musical eclético da minha amiga.

Como provavelmente Érica não iria me ouvir chamado, eu peguei a chave extra, que ela havia me dado meses antes, da bolsa e encaixando na fechadura da porta, destranquei.

A sala estava completamente escura assim que entrei e ao acender as luzes ao meu lado, um grito tão alto que fez as janelas de vidro vibrarem, esbravejou da minha garganta.

Érica estava ali. O seu corpo estava ali.

Comecei a tremer, os olhos enchendo de água e a minha respiração me traindo. Enquanto eu observava, horrorizada, aquela cena.

Érica sentada na poltrona, sua cabeça tombava para frente enquanto marcas vermelhas marcavam seu pescoço. Seus olhos estavam arregalados, e bem acima do seu peito, o seu coração havia sido arrancado porque não restava nada ali, além de um buraco e um espaço oco.

Com as mãos trêmulas, peguei o telefone, quase não podia digitar o número da polícia, enquanto sentia meu ar sendo arrancado de mim. Informei aos policiais onde estava e o que estava acontecendo, tudo isso enquanto uma dor, um horror, um medo arrancavam cada lembrança que eu vivi com Érica.

- Quem fez isso com você? – me perguntei ao encarar aquela cena.

Notei que tudo ao redor estava perfeitamente organizado. E foi, com grande dor, que percebi as plaquinhas enumeradas de 1 a 6 em cada canto daquela cena. O trabalho que só um perito saberia fazer. Um trabalho que só ele saberia fazer.

Quis gritar ao perceber que Érica havia sido mais uma vítima daquele psicopata que viva assolando a cidade nos últimos meses. Vítima da pessoa que juntas, estávamos lutando para descobrir e salvar outras mulheres.

Ao caminhar pela cena do crime, eu notei a placa número 5, e bem ali, estava um cartão que dizia:

"Não fui, na infância, como os outros

E nunca vi como os outros viam.

Minhas paixões eu não podia

Tirar das fontes igual à deles;

E era outro o canto, que acordava

O coração de alegria

Tudo o que amei, amei sozinho."

- Edgar Allan Poe

E foi nesse instante, enquanto lia aquelas palavras, que notei bem ao seu lado o coração da minha amiga. Gritei mais uma vez e nesse exato instante, os policiais atravessaram aquela porta, as armas apontadas, e logo depois, suas mãos vacilaram ao observar aquela cena fantasmagórica. Assisti quando o policial pegou o seu rádio e após algumas coordenadas, afirmou:

- Foi ele.

Os policiais falaram comigo, me fizeram perguntas e eu não conseguia falar. Não conseguia pensar. Eu estava sentada na cadeira da cozinha e não conseguia parar de chorar enquanto encarava os olhos abertos da minha amiga do outro lado da sala, completamente sem vida porque alguém decidiu simplesmente tirar aquilo dela.

Mais policiais peritos chegaram na cena de crime e observei um homem vindo em minha direção.

- O detetive responsável por essa investigação chegou. – Um policial falou ao meu lado. – Ele irá te fazer algumas perguntas.

- Senhorita. – Sua voz soa grave e extremamente pesada. – Sou o detetive Martinelli.

E antes mesmo que aquele homem pudesse continuar, levantei a cabeça com os olhos cercados de lágrimas, ao ouvir aquele nome e eu juro, naquele instante, mesmo não sabendo como era possível, meu coração voltou a se quebrar.

Gregory.

Eu reconheceria aqueles olhos azuis em qualquer lugar. Mesmo depois de todos esses anos. E de repente, estou de volta ao passado.

Capítulo 2 Emoção privada

Gregory

Eu estava acordado desde a noite anterior, encarando o quadro negro coberto de fotos das recentes cenas de crime que assolavam a cidade. Vejo e revejo, todas as provas encontradas nas duas cenas dos assassinatos e me frustro outra vez ao perceber que nada me indicava a menor dica de qual porra estava acontecendo.

Estou bufando e esvaziando a sexta caneca de café e a deixando sobre minha mesa. Estar de volta naquela cidade me deixava incomodado e o pressentimento, a fodida sensação de que quem quer seja aquele maníaco, ele não iria parar.

Não tínhamos nada daquele crápula. Nada além da doentia maneira de organizar a cena do crime e bancar o poeta. Nem mesmo relações entre as vítimas. Ele não deixava passar nada. Mas esse era o meu trabalho. Eu que precisava descobrir.

E foi exatamente por isso, ao ouvir as exatas palavras ao atender o telefone: "foi ele", que eu me senti extremamente frustrado e culpado.

Em meu carro, atravessei a cidade com o carro na velocidade máxima, a lua já estava alta e eu não tirava da cabeça que aquela morte, daquela vez, foi culpa minha.

Ao chegar no apartamento da vítima, os policiais forenses já fotografavam a cena. Caminhei lentamente entre eles e olhei cada mínimo detalhe.

- Acreditamos que a morte tenha sido por volta das quatro e meia da tarde. – O legista me informou quando me aproximei do corpo.

Observei os olhos da vítima, uma mulher na casa dos trinta anos. O cabelo loiro caia sobre o rosto, colocando minha luva, afastei seu cabelo para observar seu pescoço. Marcas vermelhas cobriam sua pele pálida, exatamente como fora com as outras vítimas. Logo abaixo, os botões do seu vestido estavam perfeitamente abertos, nem um rasgão, o que indicou que não houve sinal de luta. O que confirma a minha teoria, que assim como as outras vítimas, ele arrancava o seu coração após a morte. Observei o espaço oco no seu peito, nada além de um fundo escuro e vermelho.

- Asfixia. – falei em uma voz alta ao dar a volta e observar que a nuca da mulher não apresentava nenhuma marca. – Provavelmente ele a ataca de frente e assiste enquanto a vítima para de respirar.

Andei até a mesa de centro da sala e encontrei o maldito poema, junto com o coração da vítima. Mesmo cara, três assassinatos em menos de dois meses.

- Assassino em série. – Murmurei e levantei o poema em mãos até notar a marca de sangue marcando uma digital. – Quem tocou isso? – perguntei, em voz alta.

Todos os peritas me encararam. Era óbvio que aquela digital não seria daquele serial killer, foi comprovado que estava lidando com um desgraçado esperto e jamais deixaria uma prova tão estúpida.

- Acredito que foi da testemunha que encontrou a vítima. – Adam, o policial que me ligou informou da cozinha.

Caminhei em sua direção, extremamente irritado por permitir que a cena do crime fosse corrompida. No entanto, me calei ao perceber que a testemunha estava ali, a cabeça abaixada, os cabelos ruivos escondiam todo o seu rosto.

- O detetive responsável por essa investigação chegou. – Adam informou. – Ele irá te fazer algumas perguntas.

- Senhorita. – Comecei falando, baixo. – Sou o detetive Martinelli.

A testemunha levantou a cabeça lentamente e a primeira coisa que observei foram seus lábios, trêmulos, o rosto completamente molhado e só então, levei um soco grande na boca do estômago.

Seus lábios se entreabriram, os olhos castanhos arregalados, parecia que via um fantasma em sua frente. Claramente, eu via. Mas fiz o melhor que podia para que aquilo não me afetasse. Não mais.

- Eu gostaria de fazer algumas perguntas. – Foi tudo que falei.

E ela piscou os olhos confusos. Não esperava que essas fossem as minhas próximas palavras.

- O quê? – ela sussurrou e aquela voz rouca atingiu um lugar coberto de mágoa e lembranças que eu aprendi a esconder profundamente.

- Como você chegou até aqui? – comecei a perguntar. – Você notou a ausência da sua amiga e...

- Não. – Ela me interrompeu no mesmo instante e se levantou daquela cadeira.

Seu rosto parou muito próximo do meu e senti o meu peito se expandir consideravelmente. Meus olhos pararam novamente no seu lábio e eu engoli em seco.

- Você não lembra de mim? – ela voltou a sussurrar e dessa vez, acho que vacilei por um minuto.

Porque isso significava que ela sabia quem eu era. Que ela me enxergou. Ao menos uma vez, ela tinha me visto.

- Daniela, certo? – perguntei, lutando para manter aquilo o mais profissional que podia. – Como foi você quem encontrou a vítima, você precisará me acompanhar até a delegacia.

Ela balançou a cabeça em negativa e um sorriso doloroso pintou seus lábios. Aquilo doeu dentro de mim do mesmo jeito que doía, como tantos anos antes. Percebi que o rancor que eu trazia não era páreo pela maneira que eu supostamente ainda me importava. E ainda diziam que o tempo curava tudo. Besteira.

- Eu iria encontrar a Érica em um restaurante, como sempre fazíamos. Mas ela não apareceu. Liguei e não atendeu. E então eu vim até aqui. E a encontrei. – Ela começou a falar rapidamente, como se tivesse se recuperado do transe ao ter me reencontrado. – Quando cheguei, tocava uma música clássica no vinil. Provavelmente, ele deixou tocando.

Encarei aquela mulher no mesmo instante. A irritação voltou a tomar conta de mim, dessa vez tinha algo a mais do que só apenas ela se meter na cena do crime.

- Então você decidiu parar a música? – eu perguntei e ela assentiu. – Assim como também tocou naquele poema?

- Sim. – Ela confirmou e levantou o queixo, me encarando.

Sorri frustrado e fiz uma breve anotação no meu bloco de notas.

- Como jornalista, eu pensava que você soubesse como não corromper provas em uma cena de crime. – Resmunguei, irritado.

- Como... Como você sabe que eu sou jornalista? – ela perguntou surpresa.

Mordi a língua no mesmo instante. Como eu continuava idiota e sem ter controle de palavras ao estar perto dela. Exatamente o mesmo idiota de anos atrás.

- Adam vai acompanhar você até a delegacia. – é tudo o que eu digo ao dar as costas para Daniela.

Quando estava totalmente longe da sua influência, eu pude respirar. Peguei os demais relatórios com os peritos e permiti que o corpo fosse levado pelos legistas. Ao sair do prédio, encontrei Adam ainda na frente do edifício.

- Gregory, ela se recusa a ir comigo. – Ele disse, vindo em minha direção.

Antes que pudesse responder, Daniela apareceu e ficou entre mim e Adam.

- Eu não sei qual síndrome de deus você tem agora, mas você não vai me deixar de lado dessa investigação. – Sua voz estava alta e ela falava muito próximo de mim, ao ponto de eu sentir o seu perfume e eu percebi, com tristeza, que o seu cheiro ainda era o mesmo. – Pode me deixar de lado da sua vida, mas não disso.

- Te deixar de lado? – minha voz também subiu algumas oitavas e a indiferença que eu tanto tentei manter se dissipou. – É engraçado logo você falando isso.

- O que você quer dizer? – ela me encarou confusa e levou a mão até o relicário em seu pescoço. – Você está... O colar. – Ela interrompeu o seu surto de raiva no mesmo instante e me encarou.

- Do que você está falando? – perguntei, em alerta.

- Érica não estava usando o colar. – Ela diz, os olhos voltando a ficarem marejados. – Ela nunca tirou. Era o nosso colar da amizade.

Fechei os olhos com força e esmurrei o ar.

- Um maníaco que coleciona souvenir. É claro. – Murmurei, a frustração me engolindo.

Daniela estava a meio passo de cair no choro e eu sentia como se sua dor, me queimasse também. Percebi o desejo, mesmo que imprudente, de protegê-la ainda estava ali.

- Danie... – eu tentei falar, mas no mesmo instante um homem parou ao seu lado e concluiu minha palavra.

- Daniela. – Ele chamou seu nome e ela o encarou no mesmo instante, seus olhos brilharam e aquilo foi o suficiente para me fazer recuar e permitir que a indiferença retomasse seu lugar.

- Ethan! – ela sussurrou o seu nome.

O homem de terno e gravata a olhou também, e eu odiei o que aquele olhar significava.

- O que você está fazendo aqui? Eu... – ela começou a falar e voltou a enxugar suas lágrimas.

- Eu estava com um cliente no restaurante ao lado e percebi as viaturas aqui em frente. Fiquei preocupado e vim descobrir o que aconteceu. E então, vi você.

Ela sorriu para ele, parecia encantada por sua gentileza. E eu assistia tudo aquilo, sendo o espectador da sua vida, assim como fui anos antes. E claramente aquilo não mudou e não mudaria.

- Com licença. – Me interrompi, na frente daquele homem. – Senhorita, você precisa me acompanhar agora.

Ethan me encarou no mesmo instante. O olhei de volta e discretamente toquei no meu distintivo. Aquilo pareceu não o abalar nem um pouco. Senti mais raiva.

- Um minuto. – Aquela guerra crescente foi interrompida quando o celular de Daniela tocou.

Quem era aquele cara? Não era o Benício, Daniela não tinha irmãos. E pelo que eu saiba, também não tinha amigos. A última hipótese fez um bolo subir na minha garganta e eu percebi que a maneira que eu me mantinha informado de tudo que ela fazia, já não era mais suficiente.

- O quê? – Daniela gritou no telefone e eu a encarei no mesmo instante. Ethan fez o mesmo. – Mãe! Não. Meu Deus...

Daniela começou a soluçar e ao desligar o celular, informou:

- O meu ex marido pegou os meus filhos da casa da minha mãe. Sem permissão e... Eu... – Daniela começou a soluçar e puxar o ar que parecia sumir dela a cada segundo.

E nesse exato instante, observei quando Daniela perdeu o equilíbrio e tudo que amparou sua queda foram braços firmes.

Capítulo 3 Sentir

Daniela

Eu tinha absoluta certeza que ainda estava viva. Porque apesar de não sentir nada do meu corpo e sobretudo, os meus olhos permanecerem fechados, eu ouvia, conscientemente duas vozes masculinas se expressando calorosamente acima de mim.

- O que está fazendo? – a voz. Aquela voz familiar. Eu ainda conhecia aquele tom em qualquer lugar que eu fosse.

- Ela está fraca. Preciso leva-la ao hospital. – Outra voz masculina, e eu também reconheci. Era Ethan.

Lentamente, consegui sentir o meu corpo, assim como as luzes da lua, dos postes e das sirenes das viaturas naquele espaço começaram a brilhar através das minhas pálpebras.

- Eu não vou deixar. – Gregory falou. – Você acha que eu iria permitir que um desconhecido a leve desacordada em seu carro?

- Eu não sou desconhecido. Sou advogado da Daniela.

- Isso não quer dizer nada para mim. – Gregory respondeu, direto e um tanto cruel.

E antes que aquilo prolongasse, meu corpo finalmente recobrou sua consciência e eu abri os olhos e foi quando percebi que estava sendo amparadas por longos braços. Toquei os bíceps que me seguram, só para notar que estava nos braços de Ethan. Ele tinha cheiro amadeirado e de erva doce, um cheiro tão embriagante que por um segundo, aliviou o caos que estava o meu coração. Um arrepio percorreu todo o meu corpo quando me vi tão próxima dele.

Acho que deixei soltar um gemido de exaustão porque, de repente, a guerra que aqueles dois homens travavam, foi interrompida e eles me encararam com atenção enquanto eu voltava a ficar em meus próprios pés.

- Daniela. – Ethan chamou meu nome, suas mãos tocando a minha e vi preocupação em suas írises.

- Eu estou bem. – disse, mas eu sabia que nunca estive tão quebrada quanto estava naquele dia.

Voltando a olhar em frente, eu o vejo. Gregory está impassível, me encarando. Não consigo ler o que está por trás de suas brilhantes írises azuis e mais uma vez, o meu coração acelerou. Como ele havia mudado tanto? Não digo apenas por personalidade, mas a sua aparência...

Ele estava totalmente diferente daquilo que um dia eu já conhecera. Gregory estava com uma barba cheia, músculos fortes em seus braços cobertos pela camisa social preta, o cabelo cheio e loiro estava úmido e penteado para trás. O distintivo pendurado no pescoço. Quanto tempo mesmo havia passado?

Mas existia algo nele eu ainda podia ver, enquanto ele me encarava, mesmo que tão cruamente daquela maneira. Ele ainda tinha o olhar de menino que eu gostava em um homem, os olhos de anil. E tenho certeza de que se ele sorrisse, nem que seja por meio segundo, aquele sorriso lírico ainda estaria ali.

- Quem é você? – Gregory quebrou o silêncio outra vez, encarando Ethan ao meu lado. – E por que você está aqui?

Ethan deu uma risada abafada e o encarou. Jamais senti uma tensão tão forte e estúpida no ar. Sobretudo porque Gregory agia de um jeito, mas suas palavras estavam demonstrando outra coisa. Uma indiferença que chegava a doer. Se bem que naquele dia, tudo me doía.

- Desculpe, eu sou suspeito de algo? – Ethan perguntou, ironia cobria sua voz.

Eu estava completamente exausta naquele ponto do dia e eu não estava psicologicamente estável para ouvir dois homens formados travando uma espécie de batalha insensível e inútil.

- Vocês podem prolongar isso por toda a noite, eu não me importo. Mas me excluam dessa narrativa, porque eu estou indo buscar os meus filhos. – Avisei, interrompendo aquele conflito.

No mesmo instante, Ethan me encarou.

- Eu posso acompanhar você. Preciso saber com o que iremos lidar no tribunal.

Pisquei os olhos rapidamente, fazendo as minhas lágrimas se afastarem. Eu esperava, de algum modo, que aquilo não chegasse aquele ponto. Confirmei com a cabeça para Ethan e meus olhos esbarraram com os de Gregory. Ele continuava me encarando, havia uma névoa cobrindo os seus olhos, algo parecido como frustração. Mas talvez, eu já não sabia ler suas entrelinhas como costumava.

- Preciso... – ele começou a falar e eu apenas assenti.

- Você não pode deixar a cena do crime e eu nem esperava que fizesse. – disse, engolindo em seco. – Apenas encontre quem fez isso com minha amiga.

Dizendo isso, dei as costas a Gregory e Ethan me guiou até o seu carro. Dei as coordenadas da casa do meu ex marido e ele partiu avenida a fora. Um silêncio invadia o espaço e eu lutava para deixar minha mente ocupada. Não podia desabar. Não naquele momento.

- Você está bem? – Ethan me perguntou, seus olhos estavam presos na estrada. – Você pode conversar comigo, sobre qualquer coisa.

Soltei um longo suspiro e deixei minha cabeça tombar no assento do carro. Uma lágrima silenciosa me traiu.

- Eu acabei de ver o corpo da minha amiga de infância. – Dei um sorriso coberto de dor. – Alguém decidiu que ela não merecia mais viver.

Ethan me encarou no mesmo instante, seus lábios estavam entreabertos, surpresos. Vi empatia em seus olhos, uma espécie de compreensão com minha dor que me senti acolhida.

- Eu sinto muito. – Ele sussurrou, os olhos voltaram para a estrada. – Não deveríamos enterrar ninguém que amássemos até estarmos velhos.

Assenti, sua voz estava sombria, como se aquilo também o lembrasse de uma dor que todavia não havia curado.

- Você já perdeu alguém? – a curiosidade me venceu.

- Eu nunca tive nada para eu perder. – Ele deu um sorriso amargo e em seguida ligou o som do carro e percebi que ele não queria mais conversar sobre aquele assunto.

Respeitei o seu espaço e juntos seguimos todo o trajeto sendo engolidos por nossa dor em silêncio.

Quando Ethan parou o carro em frente à minha antiga casa, eu desci do automóvel em passos rápidos e segui direto até a porta daquela casa. Bati uma, três, oito vezes.

Benício por fim, apareceu e eu adentrei aquele espaço. Segui direto para o segundo andar. Ouvi seus passos atrás de mim. Ignorei totalmente.

Segui até o quarto de Carolina, ela estava na frente do computador quando escancarei a porta. Ela apenas olhou para mim, revirou os olhos e como se adivinhasse o que eu estava fazendo ali, pegou a mochila e começou a sair do quarto.

- O que você pensa que está fazendo? – Benício gritava atrás de mim enquanto eu seguia para o segundo quarto.

- Mateus. – Chamei o meu filho que estava com o fone de ouvido enquanto desenhava em seu caderno. – Você pode pausar esse desenho por alguns minutos enquanto voltamos para casa e me esperar lá embaixo?

Ele apenas deu de ombros e assentiu, passando por mim.

- Daniela! – Benício gritava o meu nome enquanto eu iria procurar a Isadora no terceiro quarto.

Encontrei a minha caçula dormindo, coberta pelos lençóis rosas e eu esperava que ela estivesse tendo lindos sonhos. Meu coração se apertou ainda mais no peito e com muito cuidado, me aproximei da cama e a segurei em meus braços.

- Oi, meu amor. É a mamãe. – Sussurrei enquanto a equilibrava em meu abraço. – Vamos voltar para casa.

Da porta, Benício ameaçava voltar a falar, mas algo na maneira que eu olhei para ele o fez calar. Desci as escadas com Isadora nos meus braços e Mateus e Carolina me seguiram até o carro de Ethan que me esperava na frente de casa.

- Carol, olhe sua irmã por um instante. – Deixei Isadora com minha filha mais velha enquanto os dois se acomodavam no banco de trás.

Em passos rápidos, voltei até a casa que um dia já foi meu lar. Encontrei Benício na porta, me encarando.

- Você é louca? – ele estava gritando assim que parei na sala. – O que você pensa que...

E antes mesmo que ele continuasse com aquela frase, a palma da minha mão acertou o seu rosto. Ele me encarou completamente surpreso. Mas eu não tinha nada para perder, nada além de ódio por ele.

- Nunca mais se aproxime dos meus filhos sem permissão. – Eu rosnei. – E saiba que nós dois iremos para o tribunal. E que os poucos dias que você tem com eles, serão reduzidos para nenhum.

Me afastei dele, indo em direção a porta. Quando Benício gritou:

- Como está a Érica?

Parei de andar no mesmo instante, ainda de costas. Senti uma faca perfurando meu coração. E eu fui forte o suficiente para não cair no choro bem ali. Eu sabia que Benício não gostava da minha amiga, mas aquele comentário... Aquilo me fez amaldiçoar todos os dias que dormi ao seu lado.

- Pessoas boas sempre são arrancadas de nós. – Respondi, me virando para o olhar. – Mas mal posso esperar para o dia em que você vai retornar para o inferno.

Dizendo isso, voltei para o carro. E presenciei uma cena que fez o meu coração, por um segundo, se aquecer. Ethan estava no meio de uma conversa animada sobre algum desenho em quadrinho que Carolina e Mateus gostavam. Pela primeira vez, depois de presenciar tantos momentos de brigas e discussões entre mim e seu pai, eu os vi sorrindo verdadeiramente. Aquilo me deixou feliz.

Encarei Ethan e eu gostaria que ele soubesse que só por causa daquilo, eu estava ainda mais encantada por conhecê-lo.

***

Ao voltar para casa e agradecer a Ethan por sua ajuda, eu informei que o meu desejo a partir daquele instante, era a guarda unilateral dos meus filhos. Ele me disse que faria tudo o possível para que eu tivesse aquilo. E de alguma maneira, eu confiei nele.

Depois de deixar todos os meus filhos em seus quartos e me certificar que eles estavam bem, dormindo e a salvo. Eu fui até a sala de estar da minha casa.

Me permiti sentar-se no chão assim que pousei os olhos na mancha rubra de vinho no tapete da sala e relembrei quando Érica e eu bebemos, pela última vez, e ela deixou cair sua taça no meu tapete. Sorri e levei a mão até o relicário em meu pescoço e naquele momento, no meio da madrugada, eu deixei que aquela dor me engolisse.

Eu não conseguia aceitar que a minha amiga se foi daquele jeito tão cruel, ela ainda estava tão viva em mim. Eu nunca conheci alguém que era tão apaixonada por viver como Érica era. Ela era sempre espontânea, sempre pisava além do que seus pés permitiam.

- Eu ainda tinha tantas coisas para te perguntar. – Digo, soluçando, me perdendo em minha dor. – Eu queria que você tivesse me ensinando a ser como você. – Lágrimas continuam a deixar minha camiseta encharcada.

Eu sentia como um pedaço de Érica tivesse sido arrancado de mim. Lembrei de todas as gavetas de sonhos acumulados que ela havia deixado e eu gritei até minha garganta doer.

Eu me sentia sozinha. Sentia medo. Medo de perder mais do que eu já havia perdido. Tinha medo de perder os meus filhos, que eles também fossem tirados de mim. Me perguntei se havia feito o certo em me separar, se aquilo seria o melhor para os meus filhos. Eu tinha tanto medo de machucar seus corações o forçando a verem seus pais brigando diariamente, que talvez eu tenha feito isso de todo jeito.

Todas as minhas dores e traumas foram interrompidas quando o meu celular começou a tocar. Número desconhecido.

Enxugando as lágrimas e tentando controlar meus soluços, atendi. Aquela voz falou diretamente para o meu coração.

- Daniela. – Gregory estava chamando o meu nome. – Preciso que esteja aqui amanhã para apanharmos seu depoimento.

Quis perguntar como ele havia conseguido meu número. Quis perguntar por que ele havia mudado tanto e como nos perdemos. Mas tudo que fiz foi concordar.

- Ok.

Houve um longo minuto de silêncio no outro lado da linha. Eu ouvia sua respiração pesada, sentia o seu cansaço e acho que senti alguma preocupação enquanto ele apenas permanecia em silêncio comigo. Depois de três minutos, ele me desejou boa noite e finalmente desligou.

Eu estava a meio passo de me entregar a minha dor novamente, quando o meu celular voltou a acender com um bipe. Uma nova mensagem.

Gregory: Dessa vez, venha sem advogado.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022