A noite já ia alta enquanto Rosanna Williams permanecia deitada, ofegante, os olhos perdidos no teto e as bochechas ainda queimando.
Oliver Marshall, seu marido, havia voltado de mais uma reunião regada a bebida - dessa vez, com uma energia incomum. Na cama, ele não conteve o ímpeto, chegando a cinco vezes seguidas, deixando-a completamente exausta.
Na quarta vez, eles nem sequer se preocuparam com proteção.
Na última, os olhos dele ardiam com uma fome que a fez se esquecer de tudo. Era como se eles tivessem mergulhado juntos em um redemoinho de calor e descontrole.
A paixão era intensa no processo, mas no final, caberia a Rosanna enfrentar sozinha as consequências.
Oliver, aos vinte e oito anos, era o retrato da juventude bem-sucedida: dominava os negócios com a mesma intensidade com que dominava o quarto.
Nos três anos de casamento, ele sempre fora cuidadoso com preservativos, e Rosanna, no começo, também não pensava muito em filhos.
Mas nos últimos seis meses, algo dentro dela mudara. O desejo de ter um bebê com ele surgiu como uma chama silenciosa.
Oliver não era apenas bonito, mas também sabia exatamente o que fazer na cama. Bastava um sussurro rouco, uma provocação bem colocada, e ela se desarmava por completo.
Fazia um ano que Rosanna percebeu que seus sentimentos por Oliver haviam mudado. Do nada, tudo o que era frio se tornou intenso.
Ela havia se apaixonado por ele.
No entanto, o carinho de Oliver para com ela só aparecia na cama. Fora dali, Oliver era o mesmo homem distante e gelado de sempre.
"Não se esqueça de tomar as pílulas anticoncepcionais. Uma gravidez só complicaria as coisas", Oliver disse, a arrancando de seus pensamentos.
Rosanna apenas acenou com a cabeça, sentindo o estômago afundar.
Ela sabia que estava ovulando, mas considerando a embriaguez dele, mesmo que ela engravidasse, não poderia ficar com o bebê.
Mesmo assim, as palavras frias do marido feriram mais do que ela queria admitir.
Oliver vestiu o pijama e seguiu para o banheiro.
Rosanna o observava desaparecer pela porta antes de finalmente desviar o olhar.
O silêncio foi interrompido pelo toque agudo de um celular.
Rosanna pegou o aparelho e encarou a tela, onde o nome "Millie" piscava.
Millie Rogers, a secretária de Oliver, era sempre gentil e graciosa. Todos elogiavam Millie, que supostamente largara um emprego de ouro em Klenridge apenas para trabalhar ao lado de Oliver. Oficialmente, ela era apenas sua secretária, mas os rumores diziam que eles eram amantes.
Antes que Rosanna pudesse reagir, a mão de Oliver surgiu repentinamente, pegando o celular da sua mão.
"Millie", ele disse, a voz carregada de calor e afeição.
Rosanna sentiu o estômago virar. Nunca, em três anos, ele havia falado com ela assim. Seu tom com ela era sempre frio e cortante.
"Oliver, alguém está me assediando. Por favor, venha me buscar. Estou no Clube Zero...", a voz de Millie, visivelmente aflita, ecoou do outro lado da linha.
Rosanna ouviu tudo.
"Estou indo. Vou pedir para um amigo ir na frente. Se tranque em algum lugar seguro. Chamou a polícia?", Oliver respondeu, sério, enquanto se dirigia ao closet.
Ao mesmo tempo, Rosanna tremia de raiva. Ela nem se preocupou em calçar os chinelos enquanto o seguia.
Cerca de um mês antes, ela mesma experimentara o desespero: em plena gravação externa com a equipe da TV, a van tentou evitar um caminhão e acabou despencando numa vala.
Felizmente, ninguém morreu, mas todos saíram feridos.
A perna de Rosanna ficou machucada e sangrando muito. Apavorada e com dor, ela ligou para Oliver, mas o mesmo estava em um jantar naquele momento.
Apesar de ouvir seus soluços, ele disse friamente: "Se está conseguindo ligar, não deve ser tão grave."
Em seguida, ele desligou sem pensar duas vezes.
Mas agora, ali estava ele, correndo para os braços de Millie, mesmo bêbado, e sem pestanejar. O comportamento do homem deixava claro o quanto ele amava sua amante.
Com o celular ainda no ouvido enquanto murmurava palavras reconfortantes, Oliver vestiu o casaco e caminhou até a porta.
Rosanna não conseguia ouvir Millie claramente, mas podia ouvir seus soluços. Parando na frente da porta para impedir a saída do marido, mordeu o lábio e disse: "Você bebeu demais. Não pode dirigir assim."
"Está com ciúmes ou preocupada comigo?", ele questionou, erguendo o queixo dela com os dedos e um brilho nos olhos.
Enarando-o, Rosanna respondeu com voz suave e firme: "Estou preocupada com você."
"Guarde sua falsa preocupação", Oliver retrucou, a soltando sem qualquer carinho.
Antes que ela pudesse responder, Oliver a empurrou de lado, a fazendo perder o equilíbrio e cair no chão. Ele passou por ela como se nada tivesse acontecido e saiu.
O silêncio preencheu a casa.
Rosanna ficou no chão, sentindo uma amargura que parecia lhe retorcer as entranhas. Doía por dentro, mas nem chorar ela conseguia.
Seu rosto estava pálido, os olhos vermelhos, segurando as lágrimas com uma força que já não tinha.
Ela permanecia ali até que as pernas adormecessem. Quando finalmente se ergueu, não queria voltar para o quarto.
Ela se encolheu no sofá, olhos fechados, os pensamentos girando como um furacão.
De repente, o som de seu celular tocando rompeu o silêncio, a puxando de volta à realidade.
Pensando que poderia ser Oliver ligando, ela se levantou rapidamente e correu da sala para o quarto, atendendo a ligação sem pensar duas vezes.
"Rosanna! Seu marido acabou de causar um escândalo no Clube Zero por causa de Millie! Ele quebrou uma garrafa de cerveja na cabeça de um cara! Tinha sangue por toda parte! Foi uma loucura!"
Era Leah Ahmed, sua melhor amiga, do outro lado da linha.
Rosanna mal conseguiu reagir, murmurando um simples: "Ah."
Ela não estava surpresa, pois sabia até onde Oliver iria por Millie, e se Leah dissesse que ele havia matado alguém, talvez ela nem se espantasse.
O Clube Zero era o reduto dos ricos e poderosos em Qegan, onde Oliver costumava festejar com os amigos.
Leah continuou: "Um bêbado encurralou Millie perto do banheiro e tentou agarrá-la. Disseram que ela estava com marcas no peito e a calcinha já estava puxada para baixo. Ainda bem que ela teve o reflexo de se trancar no banheiro feminino..."
As palavras de Leah começaram a se perder no fundo da mente de Rosanna, que nem sequer percebeu quando a ligação terminou.
A mulher ficou ali, imóvel, segurando o celular com tanta força que os dedos ficaram brancos.
Como ela poderia não sentir raiva disso?
Tentando manter a calma, ela rolou a tela em busca de distração, mas as manchetes sobre a briga de Oliver já inundavam a internet.
As pessoas o chamavam de herói apaixonado, um homem corajoso que enfrentava qualquer um por amor.
Rosanna sentiu o estômago embrulhar. Ela não aguentava mais, então guardou o celular e apagou o abajur ao lado da cama.
Cercada pela escuridão, ela sentiu seus pensamentos se tornarem mais nítidos.
Nos três anos de casamento, Oliver jamais reconhecera o relacionamento deles em público, preferindo se cercar de mulheres em clubes, como se fosse solteiro. E Millie, confiante de sua posição privilegiada, fazia questão de lembrá-la disso.
Agora, ela se via questionando seu casamento com Oliver, uma união que já estava apodrecendo por dentro.
O som da porta se abrindo interrompeu o turbilhão de pensamentos. Rosanna olhou o relógio: cinco e meia da manhã.
Oliver voltou, mas não entrou no quarto e seguiu direto para o escritório.
Rosanna respirou fundo, saiu da cama, caminhou até a porta do escritório e bateu.
Nenhuma resposta.
Então, ela bateu novamente, dessa vez girando a maçaneta para abrir a porta e entrando.
"Eu te deixei entrar?", Oliver indagou rispidamente, incomodado com a interrupção repentina.
Rosanna ficou em silêncio por um instante, o coração acelerado. Em seguida, ela o encarou com firmeza, a voz carregada de certeza ao dizer: "Vamos nos divorciar."
O escritório estava mergulhado em penumbra, iluminado apenas por uma lâmpada fraca que lançava sombras suaves sobre o rosto de Rosanna.
Seu semblante revelava uma tristeza silenciosa, entrelaçada com uma determinação irredutível enquanto ela mencionava o divórcio. Ela não alimentava mais nenhuma esperança nesse casamento.
Do outro lado da sala, Oliver a fitava com intensidade. "Rosanna, você tem noção do que está dizendo?"
"Tenho. Quero o divórcio." Rosanna desviou o olhar, tentando esconder o tremor que denunciava o caos dentro dela.
O rosto atraente de Oliver assumiu uma expressão irônica e ele acendeu um cigarro com calma cruel, deixando que a fumaça girasse ao seu redor como uma cortina de desprezo.
As feições marcadas ficaram ainda mais rígidas sob a névoa, e seus olhos, escuros como a noite, permaneciam vazios.
Rosanna engoliu em seco, sufocando a amargura. "É melhor terminarmos agora do que seguir presos a um casamento sem amor."
"Você se esqueceu do nosso acordo pré-nupcial? Meus bens sempre são meus. Se nos divorciarmos, você sairá sem nada." Oliver deu uma longa tragada no cigarro.
Rosanna respondeu com um sussurro: "Eu sei."
Durante anos, o que a mantinha ali era a esperança frágil de que ele mudasse, de que algum sentimento verdadeiro brotasse entre eles.
Mas a forma como ele defendia Millie, sem qualquer constrangimento, destruíra qualquer afeto que ainda poderia existir.
"Três anos atrás, o Grupo Marshall fez um investimento de mais de cem milhões em Jiford, como presente de casamento para você. Esse projeto ajudou Preston a subir ao topo do governo local. Ainda nem tive lucro, mas você já quer fugir?", ele prosseguiu, com frieza calculada.
As palavras atingiram Rosanna como um golpe direto.
O nome de Preston Burton, seu padrasto, a sacudiu. Ela sabia que aquela manobra havia sido fundamental para que ele derrotasse os concorrentes e conquistasse o cargo atual.
O divórcio não era uma decisão impensada, pois ela ponderara sobre isso há muito tempo.
Mesmo que sentisse falta das raras vezes em que Oliver lhe mostrava gentileza, a ideia de ele bater em alguém por Millie partia seu coração.
Rosanna não aguentava mais.
"Você e a senhorita Rogers podem ficar juntos agora. Não vou mais atrapalhar." Ela esboçou um sorriso tênue, camuflando a dor sufocante que ameaçava transbordar.
"Millie e eu nunca sentimos que você estava no nosso caminho", Oliver respondeu, soprando anéis de fumaça, alheio à ferida que suas palavras abriam.
O modo como ele pronunciava o nome de Millie, como se fosse sagrado, fazia Rosanna se encolher por dentro.
Para ela, Oliver só demonstrava ternura nos raros momentos de intimidade - o resto era sempre frieza e indiferença.
Com os dentes cerrados, ela disse: "Cansei de viver assim. Cansei de não ser tratada com respeito."
O tom sarcástico voltou à voz de Oliver: "Você parece ter esquecido como se tornou minha esposa. Acha mesmo que tem direito de exigir respeito?"
Rosanna foi lançada de volta àquela noite chuvosa e humilhante de três anos atrás.
A lembrança ainda lhe causava náusea.
Ao perceber o silêncio dela, Oliver continuou: "Desde o começo, você sabia exatamente como esse casamento funcionaria, mas ainda assim tramou para se casar comigo, e Preston só conquistou o que tem hoje por minha causa. Se eu não quiser o divórcio, você fica. Ponto final. Eu não me importo se você é tratada com respeito ou não."
Rosanna empalideceu, e seu corpo inteiro tremeu.
Então, na mente de Oliver, o casamento deles não era nada mais do que um negócio.
No começo, ela também pensava assim, mas, com o tempo, as coisas mudaram. Dois anos ao lado dele a fizeram desejar mais - algo verdadeiro, algo que ele nunca teve a intenção de oferecer.
E era por isso que agora ela precisava esmagar o que restava desse sentimento tolo.
Felizmente, ainda dava tempo.
Oliver apagou o cigarro no cinzeiro e se retirou.
Pouco depois, o som do chuveiro vindo do banheiro preencheu o silêncio.
Rosanna sentiu o coração afundar.
Três anos de casamento, e nunca saíram juntos para um passeio, não assistiram a um filme, nem sequer dividiram uma refeição com tranquilidade.
A única proximidade real que conheciam era dentro do quarto.
Durante os dois primeiros anos, tudo o que existia entre eles era silêncio e frieza.
No terceiro, Oliver ensaiou pequenas gentilezas - uma palavra amável aqui, um presente inesperado ali, coisas que a fizeram, sem perceber, começar a se apegar.
Rosanna aprendera até a cozinhar para ele, mesmo não sendo algo natural para ela.
O café da manhã era seu único pretexto para prolongar alguns minutos ao lado dele.
Era patético, mas ela fazia mesmo assim.
Porém, Millie sempre dava um jeito de destruir qualquer esperança que surgisse.
Se Oliver realmente se importasse, por que mantinha o casamento deles em segredo?
Quando Oliver terminou o banho, foi direto para o quarto de hóspedes, como sempre.
No dia seguinte, Rosanna, exausta, ainda se levantou cedo e preparou o café favorito dele antes de sair para o trabalho.
Na TV Qegan, onde atuava como âncora de notícias financeiras, ela mantinha uma imagem impecável.
Apesar de a emissora não ter mais o mesmo prestígio de antes, seu programa seguia com audiência alta, e isso a tornava uma figura conhecida em Qegan.
Logo após bater o ponto, Rosanna começou a sentir fraqueza.
Ela abriu a gaveta, pegou alguns biscoitos que havia trazido de casa e comeu, se sentindo um pouco melhor.
Sua dieta era rígida, pois ganhava peso com facilidade, especialmente no rosto.
Para se manter pronta para as câmeras, ela tinha que seguir uma dieta rígida.
Todos os dias, a jovem se alimentava de forma simples: ovos, legumes, carne magra - o suficiente para manter a forma, mesmo estando magra demais para sua altura.
Com a glicose baixa, ela dependia de pequenas doses de açúcar para se manter em pé.
À medida que o Natal se aproximava, sua rotina se tornava mais intensa.
Além dos programas ao vivo - como Notícias Financeiras - e gravados, agora havia ensaios para a gala de fim de ano.
Enquanto almoçava no refeitório, ela escutou colegas cochichando e descobriu que a briga de Oliver no clube havia se tornado viral.
Tremendo, ela pegou o celular e checou as redes sociais.
Ali, Oliver e Millie eram retratados como um conto de fadas moderno - o bilionário charmoso e a garota simples.
Milhares de comentários pediam que ele se casasse com Millie.
O apetite de Rosanna sumiu, e ela mal conseguiu terminar o almoço calculado.
Na saída do trabalho, ela passou na farmácia para comprar a pílula do dia seguinte, escolhendo com cuidado a que prometia menos efeitos colaterais.
Mas, ao se dirigir ao caixa, encontrou Oliver.
Para piorar, ele não estava sozinho. Millie o acompanhava, enfaixada teatralmente na testa e com feridas visíveis nas mãos.
A expressão de sofrimento que ela exibia parecia feita sob medida para despertar pena.
Eles riam juntos, conversando baixo, como um casal apaixonado.
Mesmo já tendo presenciado cenas parecidas, Rosanna sentiu seu coração se apertar.
"Oliver", sua voz saiu firme, contida, lutando contra a emoção.
Oliver mal a olhou, seus olhos caindo sobre a caixa de pílulas. "Leve mais de uma. Não quero surpresas."
Essas palavras dele cortaram fundo, mas com Millie ali, Rosanna não teve escolha a não ser manter a compostura.
"Não se preocupe. Não haverá nenhuma", ela respondeu, abrindo um sorriso rígido.
As pessoas costumavam dizer que os filhos eram fruto do amor, mas para Oliver, eles não passavam de surpresas indesejadas.
Ou talvez só os filhos dela fossem vistos dessa forma.
Se fossem de Millie, tudo seria diferente.
"Que coincidência encontrar você aqui, senhorita Williams. Essas pílulas mexem com os hormônios, sabia? Até as melhores marcas podem adiantar a menopausa", Millie disse, com doçura venenosa.
Ela sabia muito bem que Rosanna era casada com Oliver, mas insistia em chamá-la de "senhorita Williams", e ele permitia.
Rosanna não respondeu e apenas se virou para concluir a compra.
Se Millie era tão especial assim, por que ele ainda não tinha oficializado a separação?
Afinal, três anos haviam se passado desde o casamento, e qualquer influência que Preston tivesse tido já se esgotara.
"Oliver bebeu demais ontem à noite e ficou mal o dia inteiro. Você, como esposa, não deveria ter cuidado melhor dele?", Millie acrescentou, num tom de falsa preocupação.
Rosanna se virou devagar, fitando Millie nos olhos. "Então você sabe que sou a esposa de Oliver, senhorita Rogers..."
Rosanna mantinha a postura firme, os olhos cravados em Millie com a frieza de quem já não tolerava mais ser provocada e traída.
"Senhorita Rogers, como funcionária de Oliver, você conhece perfeitamente o nosso relacionamento. E mesmo assim, continua forçando os limites e me provocando. É ingenuidade ou tem segundas intenções? Está tentando conseguir alguma coisa?"
"Sinto muito, senhorita Williams... Quero dizer, senhora Marshall", Millie se corrigiu às pressas, com um ar constrangido, levando a mão à boca como se tivesse cometido um deslize imperdoável. "Foi um engano. Por favor, não me leve a mal."
Ela parecia frágil e indefesa, como uma garotinha acuada.
Mas Rosanna não se deixou enganar. Ela sabia exatamente o que essa atuação significava: a velha tática de se fazer de vítima para arrancar a simpatia de Oliver.
"Dispenso seu pedido de desculpas. A coitada aqui é você, não é? Sempre a vítima", Rosanna zombou.
"Oliver, a senhora Marshall ainda está magoada comigo... Talvez seja por causa do que aconteceu ontem à noite no clube. Você poderia me ajudar a explicar as coisas para ela?", Millie pediu a Oliver.
Arrepiada dos pés à cabeça com o tom meloso da voz dela, Rosanna olhou para Oliver, esperando alguma reação.
Ele tragou o cigarro com calma, os olhos frios como pedra. "Não há nada que precise ser explicado."
"Tenho medo que ela pense que estou me metendo entre vocês dois, que sou sua amante", Millie acrescentou, com um toque ensaiado de inocência.
Sem hesitar, Oliver disse: "Millie, vá buscar meu remédio. Não perca tempo com conversas inúteis."
Ficou claro que, aos olhos dele, Rosanna não passava de uma figura irrelevante.
Silenciosamente, Rosanna deixou a farmácia.
Dentro do carro, suas mãos tremiam sobre o volante. Foram necessárias duas tentativas fracassadas antes que o motor finalmente ligasse.
Repetidamente, ela disse a si mesma para não se irritar.
Três meses antes, durante um exame de rotina, os médicos haviam identificado um pequeno nódulo de dois milímetros em seu seio esquerdo. Ela tinha um retorno agendado para a manhã seguinte.
Curiosa e um tanto apreensiva, ela havia perguntado a Leah, sua ginecologista e amiga, por que uma mulher da sua idade desenvolveria algo assim.
Leah respondera que a maioria das doenças surgia do estresse e da raiva. E no caso de Rosanna, ela acreditava que estar sempre irritada por causa de Oliver era a razão de sua doença.
Na hora, Rosanna zombara da ideia, mas, no fundo, ela sabia que Leah estava certa.
Porque, se fosse honesta consigo mesma, os últimos três anos foram um longo e doloroso desgaste. Ela se irritava com Oliver constantemente.
Se os sentimentos tivessem permanecido tão distantes quanto no início, talvez nada disso a afetasse. Mas o problema era exatamente esse - ela passara a se importar.
Enquanto o céu escurecia, ela dirigia sem rumo, como se fugisse de si mesma.
Só então percebeu o quanto estava sozinha, pois, além da Vila Nexus, não havia outro lugar para onde pudesse ir em toda Qegan.
A Vila Nexus - o suposto lar que dividia com Oliver - não lhe pertencia. Antes do casamento, ele a fizera assinar um contrato pré-nupcial, dando-lhe apenas o direito de morar ali temporariamente. Dada a forma como Oliver a tratava, toda vez que ela entrava na Vila Nexus, se sentia menos como esposa e mais como inquilina.
Voltar seria encarar mais uma noite em uma casa fria e silenciosa. Oliver quase nunca dormia lá, sempre envolvido em eventos sociais, chegando só pela manhã.
Para não enlouquecer com o vazio, ela se enterrava no trabalho.
Se não fosse pela necessidade de comprar a pílula do dia seguinte, ela ainda estaria no escritório agora.
Quando finalmente retornou, ela foi recebida pelo cheiro forte de cigarro impregnando o ar.
Oliver estava na sala de estar, de costas, junto à janela de vidro que ia do chão ao teto, falando ao celular.
Sua postura era altiva e controlada, a voz baixa, mas surpreendentemente gentil.
"O doutor Griffiths garantiu que não ficará cicatriz na sua testa. Mas, se ainda estiver preocupada, posso levá-la a Klenridge depois de amanhã, para consultar um especialista. E mesmo que fique uma marca... não vai mudar nada para mim."
Rosanna se lembrou da gaze branca na testa de Millie mais cedo. Ela não precisava adivinhar com quem ele falava - com certeza era Millie.
O alívio que sentira ao vê-lo em casa evaporou. Sem dizer uma palavra, ela guardou a bolsa, pendurou o casaco e foi direto para o banheiro. Lá, lavou o rosto e começou a aplicar o hidratante, quando notou Oliver parado à porta.
"Amanhã, às oito, a amiga da minha mãe chega em Qegan. Preciso que você vá buscá-la no aeroporto", Oliver disse friamente.
Rosanna conteve um suspiro. Sempre que ele a procurava espontaneamente, era para pedir algum favor.
"É uma amiga de longa data da minha mãe, além de uma parceira de negócios. Tire alguns dias de folga e mostre a cidade para ela. Tudo o que você gastar, eu cubro." Sem esperar resposta, Oliver se virou e caminhou em direção ao escritório, como se o assunto estivesse encerrado.
Rosanna sentiu o coração apertar. Lágrimas surgiram nos cantos de seus olhos enquanto ela ia ao escritório e dizia: "Arranje outra pessoa. Tenho outros compromissos amanhã."
"Está tudo resolvido. Karl cuidará da direção e das refeições. Só preciso que você a acompanhe."
Oliver nem levantou os olhos do computador, pois não a levava a sério.
Enquanto o encarava, Rosanna sentiu a raiva crescendo em seu peito. "Tenho uma consulta médica de retorno amanhã cedo."
"Retorno de quê?", Oliver perguntou.
"Do nódulo que encontraram no meu seio esquerdo. Te contei sobre isso. Amanhã é o retorno."
"É só um nódulo pequeno. Esperar dois dias não vai mudar nada", ele disse, sem desviar os olhos da tela.
Rosanna respirou fundo. "Demorei meses para conseguir essa consulta. Não vou remarcar."
Oliver respondeu com indiferença: "Você e minha mãe nunca se deram bem. Se conseguir se entender com a amiga dela, talvez isso ajude. Está decidido."
Rosanna quase protestou, mas quando encarou o olhar firme dele, cedeu. Após uma longa pausa, ela murmurou: "Tudo bem."
Depois de voltar para o quarto principal, ela percebeu que as lágrimas já escorriam.
O celular tocou e, ao reconhecer o número na tela, ela recusou a chamada sem hesitar.
Logo em seguida, apareceu outro número, da cidade de Jiford. Sem nem piscar, ela bloqueou o número.
Oliver permanecia no escritório a noite inteira, não pisando no quarto principal nem uma vez.
Na manhã seguinte, quando Rosanna acordou, ele já estava pronto para sair.
Ele tinha olheiras profundas, o que sugeria que mal dormira.
Ainda assim, sua presença continuava impecável, os movimentos contidos e elegantes.
"Karl estará esperando por você na garagem em trinta minutos", ele disse, checando o relógio.
O homem lhe lançou um breve olhar antes de se afastar em direção à porta.
Foi então que ela disse, quase num sussurro: "A senhorita Rogers é melhor anfitriã do que eu. Talvez devesse deixá-la receber a amiga da sua mãe."
Oliver parou, mas não olhou para trás. "Você ainda é minha esposa. Se Millie fosse recebê-la, isso só alimentaria os rumores de que temos algo além do profissional."
Então era isso... Ele a estava usando como escudo - não por respeito ou carinho, mas para proteger a reputação de Millie.
Rosanna sabia que quem conhecia seu estado civil já comentava sobre o escândalo no Clube Zero, onde ele agredira um homem por causa de Millie.
A porta se fechou atrás dele, e uma lufada de vento frio invadiu o ambiente.
A caminho do aeroporto, Rosanna se virou para Karl Price, o assistente de Oliver, e perguntou como o marido pretendia lidar com os rumores crescentes sobre ele e Millie.
Mas Karl sorriu com a mesma expressão ensaiada de sempre e deu de ombros, fingindo ignorância.
Não importava o quanto ela insistisse, ele não dizia nada.
Eles esperaram até às nove no aeroporto. Então, Karl recebeu uma ligação e, após uma breve conversa, franziu a testa. "Mudança de planos. Ela adiou a viagem. Vem na próxima semana."
Rosanna sentiu a raiva subir em ondas, mas conteve a expressão por causa de Karl.
Então, eles foram para o hospital. Após fazer o check-in, ela se deparou com uma longa fila, onde havia pelo menos uma dúzia de pacientes à sua frente.
Sem outra opção, ela esperou.
Quando finalmente teve acesso aos resultados do ultrassom, não entendeu as imagens, mas as palavras estavam lá, em negrito.
O nódulo em seu seio esquerdo havia crescido - de dois milímetros para dois e meio. Esse crescimento de meio milímetro em três meses, para Rosanna, parecia uma sentença.
Seu coração disparou, e o medo tomou conta de vez.