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Amores Perdidos: O Mar Chora

Amores Perdidos: O Mar Chora

Autor:: Anne
Gênero: Bilionários
O cheiro de maresia e a promessa de um futuro, era tudo que meu filho João e eu conhecíamos. Até que, num piscar de olhos, vi seu corpo tombar no cais, a vida escorrendo para a madeira. Os homens de Ricardo Mendes, o magnata que sufocava nossa vila, o mataram por ver o que não devia. Num último suspiro, João me pediu para "não me preocupar" com ele. Tentou, ainda ferido, realizar meu sonho de um "barco maior". Lutei, implorei por ajuda, mas a polícia me tratou como criminoso, meu barco foi apreendido, e até meu cunhado sugeriu que eu aceitasse o "dinheiro de compensação" do assassino de meu filho. Eles me roubaram tudo: meu filho, meu sustento, minha fé na justiça, até a honra de João, quando Ricardo jogou seu celular no mar, alegando que ele era um "idiota envolvido com drogas". Mas a dor me deu um novo propósito, uma frieza que nem a morte de um filho conseguiu apagar. Lembrei-me então da lenda do Anzol de Prata, um poder antigo concedido a poucos. E naquele dia, Pedro o pescador humilde, sumiu. Deu lugar ao Pedro que faria Ricardo Mendes e seus capangas aprenderem que o mar, ele sim, cobraria a dívida de sangue.

Introdução

O cheiro de maresia e a promessa de um futuro, era tudo que meu filho João e eu conhecíamos.

Até que, num piscar de olhos, vi seu corpo tombar no cais, a vida escorrendo para a madeira.

Os homens de Ricardo Mendes, o magnata que sufocava nossa vila, o mataram por ver o que não devia.

Num último suspiro, João me pediu para "não me preocupar" com ele. Tentou, ainda ferido, realizar meu sonho de um "barco maior".

Lutei, implorei por ajuda, mas a polícia me tratou como criminoso, meu barco foi apreendido, e até meu cunhado sugeriu que eu aceitasse o "dinheiro de compensação" do assassino de meu filho.

Eles me roubaram tudo: meu filho, meu sustento, minha fé na justiça, até a honra de João, quando Ricardo jogou seu celular no mar, alegando que ele era um "idiota envolvido com drogas".

Mas a dor me deu um novo propósito, uma frieza que nem a morte de um filho conseguiu apagar.

Lembrei-me então da lenda do Anzol de Prata, um poder antigo concedido a poucos.

E naquele dia, Pedro o pescador humilde, sumiu.

Deu lugar ao Pedro que faria Ricardo Mendes e seus capangas aprenderem que o mar, ele sim, cobraria a dívida de sangue.

Capítulo 1

O ar salgado da pequena vila de pescadores, que sempre me trouxe paz, hoje cheirava a sangue e desespero. Eu vi tudo à distância, do meu barco que se aproximava do cais. Um grito, um som oco de pancada, e o corpo do meu filho, João, caindo no chão de madeira. Corri, com o coração martelando na garganta, um tambor anunciando a desgraça.

Quando cheguei, meus joelhos cederam. João estava no chão, uma poça de sangue se formando sob sua cabeça. Dois homens, capangas que eu conhecia de vista, ambos trabalhando para Ricardo Mendes, o dono da maior frota pesqueira da região, guardavam o corpo como cães de caça. Um deles limpava o sangue de um porrete de metal.

"O que vocês fizeram?", gritei, a voz rasgando minha garganta.

O homem com o porrete, um brutamontes chamado Valdir, olhou para mim sem um pingo de remorso. Seus olhos eram frios, vazios.

"Ele não devia ter se metido onde não foi chamado. Viu o que não devia."

A lógica dele era torcida, uma desculpa cruel para a brutalidade. Ricardo Mendes estava comprando fiscais ambientais, forjando acusações contra nós, os pescadores artesanais, para tomar nossas áreas de pesca. João, meu filho, tinha visto a troca de envelopes, o aperto de mão sujo. Ele queria denunciar, queria justiça.

"Ele é só um menino!", supliquei, me arrastando em direção ao meu filho. "Ele só queria um futuro!"

"E agora ele não tem mais um", disse Valdir, com uma calma que me gelou a alma. "Ricardo Mendes não gosta de testemunhas. O moleque foi avisado para ficar quieto. Ele não ouviu. A culpa é dele."

A raiva e a dor explodiram dentro de mim. Ignorei os capangas e me joguei ao lado de João. Seu rosto, que poucas horas antes sorria com a expectativa dos resultados do ENEM, estava pálido e machucado. Seus lábios tremiam, tentando formar palavras.

"Pai...", ele sussurrou, o som quase inaudível.

"Estou aqui, filho. Estou aqui", chorei, segurando sua mão. "Vamos te levar para um hospital. Você vai ficar bem."

Eu tentei levantá-lo, mas meus braços tremiam sem força. O sangue dele manchava minhas mãos, minha camisa, minha alma. Era quente e pegajoso. A vida dele estava escorrendo por entre meus dedos.

João apertou minha mão com a pouca força que lhe restava. Seus olhos, já perdendo o foco, encontraram os meus.

"Não se preocupe... comigo, pai", ele falou, cada palavra uma luta. "Você... você tem que... realizar o seu sonho... comprar um barco maior..."

O sonho nunca foi meu, era dele. Ele queria que eu tivesse mais segurança, mais conforto. Ele queria se tornar engenheiro naval para proteger homens como eu. Mesmo à beira da morte, sua preocupação era comigo. A pureza dele naquele momento tornou a tragédia ainda mais insuportável. Uma lágrima escorreu pelo canto de seu olho e se misturou com o sangue em sua têmpora.

"Não, João! Você vai ficar bom! Você vai para a universidade! Você vai ser engenheiro!", eu gritava, desesperado.

Tentei me levantar para correr, gritar por ajuda, mas o segundo capanga, mais magro e com uma cicatriz no rosto, bloqueou meu caminho. Ele fechou o portão de acesso ao cais, trancando-o com uma corrente pesada. O som do metal batendo foi o som da nossa sentença.

"Ninguém entra, ninguém sai", disse o homem da cicatriz. "Ordens do chefe."

Do outro lado do portão, alguns pescadores começaram a se juntar, atraídos pelos gritos. Eles gritavam meu nome, perguntavam o que estava acontecendo, mas não podiam passar. Estávamos presos. A ajuda estava a poucos metros, mas um portão de ferro e a crueldade de Ricardo Mendes nos separavam dela.

O desespero tomou conta de mim. Olhei para os dois homens, meus olhos queimando de ódio e súplica.

"Me levem", eu implorei, a voz quebrada. "Deixem o menino. Eu fico no lugar dele. Me matem, façam o que quiserem, mas chamem uma ambulância para ele. Por favor, eu troco a minha vida pela dele!"

Eles apenas riram. Um riso baixo, debochado, que ecoou no cais junto com o som das ondas mansas que batiam na madeira. Para eles, nossas vidas não valiam nada. Éramos apenas obstáculos nos negócios de um homem poderoso. E meu filho, meu João, era o preço que eles estavam dispostos a pagar para manter seus segredos.

Capítulo 2

O corpo de João foi levado pela polícia local, a mesma polícia que recebia seu salário extra de Ricardo Mendes. Quando tentei ir junto, eles me empurraram, me trataram como um criminoso. Um deles, o sargento BASTOS, me disse que eu estava detido para interrogatório. A acusação? Agressão contra os homens de Ricardo. Era um pesadelo dentro de outro.

Depois de horas em uma sala mofada, me liberaram no meio da noite com um aviso para "ficar na minha". Consumido pela dor e por uma raiva impotente, fiz a única coisa que minha mente quebrada conseguiu pensar. Fui até a mansão de Ricardo Mendes.

A casa dele era um insulto à nossa vila, uma fortaleza de muros altos e vidro escuro que se erguia sobre nossas casas simples. O portão de ferro forjado parecia a entrada de um castelo. Toquei o interfone, minhas mãos tremendo.

"Quem é?", a voz metálica de um segurança soou.

"É o Pedro. O pai do João. Eu preciso falar com o senhor Ricardo."

Houve um longo silêncio. Eu podia imaginar as câmeras me observando, um pescador sujo de sangue e lágrimas na entrada de um palácio. Finalmente, a voz de Ricardo respondeu, fria e distante.

"O que você quer, Pedro?"

"Meu filho... eles mataram meu filho", minha voz falhou. "Seus homens... eles mataram João. Eu só quero justiça. Por favor, senhor Ricardo, o senhor é um homem poderoso, me ajude a descobrir quem fez isso."

Eu estava me humilhando, pedindo ajuda ao assassino do meu filho. Mas o desespero me deixou cego. Talvez, em alguma parte doente da minha mente, eu esperasse que ele tivesse um pingo de decência, que dissesse que foi um erro, um acidente.

"Eu não sei do que você está falando", ele respondeu, com o tom de quem espanta uma mosca. "Meus homens são pessoas de bem. Seu filho devia andar com gente errada. Agora, se me der licença..."

Antes que ele pudesse desligar, uma voz feminina soou ao fundo, abafada. "Ricardo, querido, quem é a essa hora? Deixe isso para lá e venha para a cama."

"Já vou, meu bem", Ricardo respondeu, e o interfone ficou mudo.

Fiquei parado, olhando para o portão fechado, a rejeição ecoando em meus ouvidos. O mundo girou. Meu celular tocou. Era um número desconhecido. Atendi.

"Alô? Pedro Henrique da Silva?", a voz era burocrática.

"Sim..."

"Aqui é do departamento de fiscalização da marinha mercante. Estamos ligando para informar que, devido a uma denúncia anônima de pesca ilegal e uso de redes predatórias, sua licença de pesca está suspensa e seu barco, o 'Estrela do Mar', está apreendido até segunda ordem."

O telefone escorregou da minha mão e caiu no chão. O barco. O barco que meu pai me deixou. O barco com o qual eu criei João. Meu único bem, meu sustento, minha vida. Eles não tinham apenas tirado meu filho. Eles estavam tirando tudo.

Minhas pernas fraquejaram e eu caí de joelhos no asfalto frio. A dor no peito era física, uma pressão esmagadora que me impedia de respirar. Eu gritei. Um grito animalesco, sem palavras, que vinha do fundo da minha alma rasgada. Gritei até meus pulmões arderem, até minha garganta ficar em carne viva.

No dia seguinte, no pequeno e improvisado necrotério da cidade, eu vi meu filho pela última vez. A funerária barata, a única que eu podia pagar, mal tinha conseguido disfarçar os ferimentos. Havia um hematoma escuro em sua testa. Seus olhos, que a morte não conseguiu fechar completamente, pareciam encarar o teto com uma pergunta silenciosa. Era o olhar da injustiça, de uma vida interrompida, de um futuro roubado. Ele não parecia em paz. Parecia que sua alma ainda estava ali, presa, esperando por algo que eu não podia lhe dar.

Meu cunhado, irmão da minha falecida esposa, apareceu no velório. Ele nunca gostou de mim, sempre me achou pequeno demais para a irmã dele. Ele se aproximou, não com um abraço, mas com um conselho envenenado.

"Pedro", ele disse, com uma falsa expressão de pesar. "Eu sei que é difícil, mas você precisa ser prático. Ouvi dizer que o Ricardo Mendes está disposto a oferecer uma... compensação. Um dinheiro para ajudar com as despesas, para você não fazer barulho."

Olhei para ele, incrédulo.

"Dinheiro? Você está falando de dinheiro? Eles mataram o meu filho!"

"E nada vai trazer ele de volta", ele retrucou, impaciente. "Você não tem como lutar contra um homem como o Ricardo. Ele é dono da cidade. Aceite o dinheiro, Pedro. Pague suas dívidas, compre outro barco quando a poeira baixar. É o mais inteligente a se fazer."

A frieza dele, a ganância disfarçada de pragmatismo, foi a última gota. O último pilar da minha fé na humanidade desabou. Olhei para o caixão do meu filho, para o rosto pálido e sem vida de João, e depois para o meu cunhado. E então, eu ri.

Não foi um riso de alegria. Foi um riso seco, quebrado, histérico. Um som horrível que saiu do meu peito vazio. Ri da crueldade do mundo, da falha da justiça, da traição daqueles que deveriam me apoiar. Ri porque, naquele momento, eu entendi. Não havia mais nada a perder. Minha esperança, meu amor, meu futuro... tudo estava naquele caixão. E o que sobrou de mim não era mais um pescador humilde. Era algo diferente. Algo mais sombrio, mais duro. A ilusão do amor e da família tinha acabado. Só restava o ódio.

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