Acabei de sair de uma cirurgia de apendicite, ainda tonta com a anestesia, mas a dor no meu coração era assustadoramente real. O meu noivo, Pedro, estava ao meu lado, quando a notícia do incêndio no prédio do meu pai, onde ele trabalhava, apareceu na TV do quarto do hospital. O meu pai... ele estava lá!
Quando pedi a Pedro que ligasse para o meu pai, o telemóvel dele tocou. Era a sua mãe, em pânico, a implorar que ele salvasse a sua ex-namorada, Laura, presa no mesmo incêndio. A Laura! Pedro, olhando de mim para a porta, sem hesitação, abandonou-me ali, recém-operada e a temer pela vida do meu pai.
Deixou-me sozinha, com o anel de noivado a queimar no meu dedo, enquanto ele corria para salvar o seu "verdadeiro amor" . O meu pai voltou, chamuscado e ferido, e viu a minha deceção. O noivado, planeado para daqui a dois meses, desfez-se nas minhas mãos quando lhe entreguei o anel.
Depois, a futura sogra, Sofia, apareceu para me chamar de "oportunista" e vangloriar-se de como a Laura, "a pobre coitadinha", tinha ficado com o meu Pedro, convenientemente alojada na casa dele!
Como é que uma pessoa podia ser tão cega? E aquela Laura... por que é que o apartamento dela, convenientemente, estava no mesmo prédio do incêndio? Onde se encaixava esta peça?
A raiva borbulhou. Não ia ficar deitada. Ia descobrir a verdade. E eles iam pagar.
Quando saí da sala de cirurgia, a noite já tinha caído. A anestesia ainda turvava os meus sentidos, mas a dor no meu coração era clara e aguda.
O meu noivo, Pedro, estava ao meu lado, segurando a minha mão com força.
"Como te sentes, Ana? O médico disse que correu tudo bem."
A sua voz era suave, mas eu não conseguia olhar para ele. Os meus olhos estavam fixos na televisão do quarto do hospital.
Uma notícia de última hora passava em rodapé: "Incêndio de grandes proporções consome edifício de escritórios no centro da cidade. Várias vítimas presas nos andares superiores."
O edifício era o da empresa do meu pai.
Tentei levantar-me, mas a dor da cirurgia de apendicite aguda prendeu-me à cama.
"O meu pai... preciso de ligar ao meu pai."
Pedro pegou no meu telemóvel da mesa de cabeceira.
"Calma, Ana. Eu ligo."
Ele discou o número, mas antes que pudesse chamar, o seu próprio telemóvel tocou. Era a sua mãe, a minha futura sogra, Sofia.
Ele atendeu, e a voz dela, cheia de pânico, ecoou pelo quarto silencioso.
"Pedro, meu filho! A Laura está presa no incêndio! Ela ligou-me a chorar, disse que o fumo está por todo o lado. Tens de a ir salvar! Ela está no décimo quinto andar!"
Laura. A sua ex-namorada.
Pedro olhou para mim, o rosto pálido.
"Mãe, a Ana acabou de sair da cirurgia. Não a posso deixar."
"O que é mais importante? Uma simples cirurgia de apendicite ou a vida da Laura? Ela vai morrer, Pedro! Tu és a única esperança dela! Vai agora!"
A chamada terminou abruptamente.
Pedro ficou paralisado, o telemóvel na mão. Ele olhava para mim, depois para a porta, o conflito estampado no seu rosto.
Eu agarrei o seu braço, a minha voz um sussurro rouco.
"O meu pai também está lá, Pedro. A empresa dele é nesse prédio."
Ele não parecia ter ouvido. A sua mente estava noutro lugar, com outra pessoa.
"A Laura... ela tem pavor de fogo desde criança", murmurou ele, mais para si mesmo do que para mim.
Ele soltou a sua mão da minha.
"Ana, desculpa. Eu tenho de ir. A Laura precisa de mim."
"E eu? E o meu pai?"
"O teu pai é um homem adulto, ele saberá o que fazer. E tu estás segura no hospital. Eu volto logo."
Ele nem esperou pela minha resposta. Virou-se e correu para fora do quarto, deixando-me sozinha com a minha dor e o som da sirene das notícias.
As lágrimas que eu segurava finalmente rolaram pelo meu rosto.
Eu estava noiva daquele homem. Em dois meses, iríamos casar-nos.
E ele deixou-me, recém-operada, para salvar a sua ex-namorada.
Peguei no meu telemóvel com as mãos a tremer e liguei para o meu pai. A chamada foi direta para o correio de voz. Tentei de novo. E de novo. Nada.
O desespero começou a tomar conta de mim.
Horas mais tarde, o meu pai entrou no quarto. A sua roupa estava chamuscada, o rosto coberto de fuligem e o seu braço estava numa ligadura improvisada.
"Pai!"
Corri para ele, ignorando a dor aguda na minha barriga. Ele abraçou-me com o seu braço bom.
"Está tudo bem, minha filha. Eu estou aqui."
"O que aconteceu? Eu estava tão preocupada!"
"O fogo começou no andar de baixo. O fumo espalhou-se rapidamente. Fiquei preso com alguns colegas, mas os bombeiros conseguiram chegar até nós. Torci o pulso a ajudar a arrombar uma porta, mas estou bem."
Ele sentou-se na cadeira ao lado da minha cama, o seu corpo exausto finalmente a ceder.
"E o Pedro?", perguntou ele, olhando à volta. "Ele não estava contigo?"
Eu não consegui responder. Apenas abanei a cabeça, e as lágrimas voltaram.
O meu pai entendeu tudo sem que eu precisasse de dizer uma palavra. A sua expressão endureceu.
Nesse momento, Pedro entrou no quarto. A sua roupa também estava suja de fumo, e ele parecia exausto, mas ileso.
Quando me viu nos braços do meu pai, ele parou.
"Ana... Sr. Almeida... Eu posso explicar."
O meu pai levantou-se lentamente. A sua voz era baixa e perigosa.
"Explicar o quê, Pedro? Explicar porque é que a minha filha, a tua noiva, estava sozinha e apavorada depois de uma cirurgia enquanto tu estavas noutro lugar?"
"A Laura estava presa! Ela ia morrer! Eu tinha de a ajudar!"
"E a minha filha? E eu? O prédio da minha empresa estava em chamas, e tu nem sequer te lembraste de mim?", disse o meu pai, a sua voz a subir de tom.
"Eu sabia que o senhor era capaz de se safar sozinho! A Ana estava segura aqui!"
"Segura? Ela estava a ligar para o pai que ela pensava que podia estar a morrer, sozinha! Tu fizeste uma escolha, rapaz. E não foi a minha filha."
Pedro olhou para mim, os seus olhos a suplicar.
"Ana, por favor. Diz alguma coisa."
Eu olhei para ele, o homem que eu amava, e senti um vazio gelado.
"O meu pai tem razão, Pedro. Tu fizeste uma escolha."
Tirei o anel de noivado do meu dedo. A joia cara pareceu subitamente barata e sem valor. Estendi-lha.
"Acabou. Não me posso casar com um homem que me deixaria para salvar outra pessoa."
Os olhos dele arregalaram-se, chocados.
"Ana, não podes estar a falar a sério! Por causa disto? Foi uma emergência!"
"Sim, foi. E nessa emergência, eu não fui a tua prioridade. O meu pai não foi a tua prioridade. A Laura foi. Fica com ela."
Ele não pegou no anel. A sua expressão mudou de súplica para raiva.
"Isto é ridículo! Estás a ser egoísta! A vida de uma pessoa estava em risco!"
"A vida do meu pai também!", gritei, a minha voz a falhar. "E eu precisava de ti aqui!"
"Estás a exagerar. O teu pai está bem, tu estás bem. Estás a fazer uma tempestade num copo de água só para me fazeres sentir culpado!"
O meu pai deu um passo à frente.
"Sai. Agora."
Pedro olhou para o meu pai, depois para mim, e finalmente saiu do quarto, batendo a porta com força.
Eu desabei na cama, a soluçar. O meu pai sentou-se ao meu lado e abraçou-me, deixando-me chorar no seu ombro.