Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Horror > Ana: O Preço da Exposição
Ana: O Preço da Exposição

Ana: O Preço da Exposição

Autor:: Xiao Zi Yi
Gênero: Horror
A notificação piscou. Um link de um velho amigo da faculdade, Leo: "Hilário" . Curioso, cliquei. A página carregou, escura, com um logotipo estranho: uma máscara estilizada. O nome do site? "O Clube Secreto" . Uma sensação estranha apertou meu estômago. Aquilo não parecia um site de memes. Não era. Um feed de imagens e gifs apareceu. Fotos de mulheres, claramente tiradas sem consentimento. Em academias, no transporte público, provadores de loja. Legendas nojentas. "Olha a vizinha gostosa do 302." "Manda mais!" Senti uma onda de repulsa. Eu já ia fechar a aba quando uma imagem em particular me fez parar. Granulada, mal tirada. Uma mulher dormindo, de lado, em uma cama. Quase toda coberta pelo lençol, mas o rosto visível. Meu coração parou. Não podia ser. Mas então meus olhos focaram em um detalhe: um pequeno ponto prateado brilhando em seu pescoço. Um colar. Com um pingente minúsculo em forma de lua. O colar que eu dei para Ana no nosso aniversário de cinco anos de noivado. Minha Ana. A mulher com quem eu ia me casar em seis meses. O ar sumiu dos meus pulmões. As mãos tremiam. Eu ampliei a imagem, rezando para estar errado. Era ela. Cada detalhe. A pequena pinta perto do lábio. O cabelo caindo sobre o travesseiro. Um zumbido começou nos meus ouvidos. Rolei para os comentários: "Essa aí tem cara de quem gosta." "Quem foi o sortudo que pegou?" "O noivo dela deve ser um corno manso." A última frase me atingiu como um soco. Humilhação e uma raiva cega tomaram conta de mim. Quem tirou aquela foto? Ela me traiu? Quem estava com ela? Eu não podia explodir. Não ainda. Eu precisava de provas. Gravei a tela. Cada comentário, cada imagem. Salvei em uma pasta escondida. Meu celular vibrou. Uma mensagem de Ana: "Pensando em você, meu amor. Mal posso esperar pra chegar em casa." Acompanhado de um emoji de coração. Olhei para a tela do celular, para as palavras de carinho, e depois para a tela do computador, para sua imagem exposta. A dissonância era avassaladora. Fui sufocado. Um nó na garganta. Tive que me segurar na mesa. Ana. A mulher que me mandava mensagem de amor. A mulher objetificada naquele esgoto online. Ou talvez, o mais aterrorizante: ela não fosse a mulher que eu pensava conhecer. Não dormi naquela noite. Nem por um minuto. Ana entrou em casa. Me encontrou no escuro, tensa. "Ricardo! Meu Deus, que susto! O que você está fazendo acordado?" Ela acendeu a luz. Pálida, com olheiras. Cansada. "A reunião se estendeu muito. Foi um inferno. Estou morta." Ela se aproximou para me beijar, mas eu me afastei instintivamente. Ela parou, confusa. "O que foi? Aconteceu alguma coisa?" Eu queria gritar. Jogar o laptop na cara dela. Mas as palavras não saíam. Eu apenas a encarei. "Nada. Só não consegui dormir." Minha voz soou oca. Ela tocou minha testa. "Você está bem? Parece pálido." Afastei sua mão. "Estou bem. Só cansado. Vou para a cama." Fui para o quarto sem olhar para trás. Minutos depois, ela entrou, deitou ao meu lado. "Boa noite, meu amor" , ela sussurrou. Eu não respondi. Apenas fiquei ali, rígido. Como ela podia dormir tão tranquilamente? A imagem da foto voltou: Ana dormindo, vulnerável, fotografada por alguém. E agora, dormindo ao meu lado. Quem é você, Ana? Quem é você de verdade? Naquela manhã, tomei uma decisão. Não ia confrontá-la. Não ainda. Eu ia descobrir a verdade sozinho. Abri o laptop. Comecei a pesquisar. Eu ia descobrir o que ela estava escondendo, custe o que custar. Os dias foram um inferno silencioso. Eu a observava, fingindo normalidade. Ela não notava, ou atribuía ao estresse. Me beijava, mandava mensagens carinhosas. Cada gesto de ternura dela era sal na minha ferida. Eu era um fantasma. Enquanto ela dormia, eu me tornava um detetive. O extrato do cartão de crédito dela. Despesas normais, mas algumas anomalias. Aplicativos de transporte em horários e lugares estranhos. Um hotel no centro, duas semanas atrás. No dia que ela disse que ficaria no escritório para uma "reunião importante" . Imprimi os extratos. Circulei as anomalias. Um padrão surgiu: sempre nas noites de terça ou quinta. O nó no meu estômago apertava. A traição parecia real, metódica. Não era um deslize. Era um plano. Eu precisava de mais. Provas irrefutáveis. Contratei uma detetive particular. Sofia. "Você tem certeza de que quer fazer isso, Ricardo? Às vezes, é melhor não saber." "Eu preciso saber" , respondi. Ela assentiu. "Ok. Me dê uma semana." Paguei em dinheiro. Saí oco. Eu tinha acabado de contratar alguém para destruir o que restava do meu mundo. A semana seguinte foi a mais longa da minha vida. Eu era um zumbi, esperando o golpe final. Finalmente, a mensagem de Sofia: só um anexo. Minhas mãos tremiam quando abri o arquivo. A foto: Ana sentada em um café, sorrindo. Um sorriso que eu não via há muito tempo. Mas ela não estava sorrindo para mim. Na frente dela, um homem segurando sua mão. Eu o reconheci. Pedro. O irmão da Ana. Eles não pareciam irmãos distantes. Pareciam um casal. Meu sangue gelou. Traição com o próprio irmão dela? Doentio, repulsivo. Uma segunda mensagem de Sofia: "Ficaram no café por uma hora. Depois foram para um hotel aqui perto. Ficaram lá por cinco horas. Ela saiu usando outra roupa." Li a mensagem. As palavras dançavam. Cinco horas. Outra roupa. O que mais eu precisava saber? A tela do celular se apagou. Vi meu reflexo: um estranho. Um homem derrotado. Fechei os olhos. Verdade. Um buraco negro. Anos de amor, de confiança, de planos. Tudo mentira. O que eu faria? Minha mente era um turbilhão de raiva e dor. Meu laptop apitou. Notificação do "Clube Secreto" . Com o coração pesado, abri. A discussão sobre a foto de Ana tinha sido reavivada. "Mestre69" postou um novo comentário: "A vagabunda dormindo foi bom, mas quero mais. Quero ver ação." "VoyeurSP" respondeu: "@ReiNoite, cadê você? Prometeu mais material." E então, "ReiNoite" respondeu. Minha raiva ferveu. "Calma, pessoal. O melhor está por vir. A mercadoria é de primeira, tem que ser preparada com cuidado." Junto com a mensagem, uma nova foto. Não de Ana. Mas um objeto que eu conhecia muito bem. Era o colar de lua. O da primeira foto. Mas desta vez, sobre uma mesa de madeira escura, ao lado de um copo de uísque e um cinzeiro. Senti um calafrio. Aquele colar nunca saía do pescoço de Ana. Ela o amava. Para estar ali, significava... que ela o tinha dado para aquele homem. Ou pior, ele o tinha tirado dela. A prova era inegável. O homem do fórum, o "ReiNoite" , era o mesmo homem com quem ela estava se encontrando. Pedro. O irmão dela. A conversa no fórum continuou. Cada vez mais depravada. "Preparar como?" , perguntou um usuário. "Tem que ser um vídeo bom. Sem censura." "Mestre69" : "Se ela for difícil, um remedinho na bebida resolve. Um 'boa noite, Cinderela' e ela fica mansinha. Aí dá pra fazer o que quiser, gravar tudo." "Isso! Bota pra dormir e a festa começa!" "A gente pode até fazer uma visita em grupo." O horror me paralisou. Estavam planejando drogar e estuprar Ana. E o irmão dela estava no centro de tudo. Uma fúria primordial explodiu dentro de mim. Não era mais sobre traição. Era sobre perigo. Ana estava em perigo iminente. Eu tinha que fazer alguma coisa. Agora. Peguei o celular para ligar para a polícia, mas hesitei. E se isso assustasse Pedro? Não. Eu mesmo tinha que impedi-lo. Levantei-me. A cama dela estava vazia. O carro dela não estava na garagem. Meu coração martelava no peito. Onde ela foi? O plano deles já estava em andamento? A imagem de Ana, drogada e indefesa. Tinha que encontrá-la. Antes que fosse tarde demais. Liguei para Ana. Caixa postal. De novo. E de novo. "Merda, merda, merda!" , gritei para o apartamento vazio. Lembrei-me: um aplicativo de rastreamento no celular dela. Instalei depois que o carro dela foi roubado. Com as mãos trêmulas, abri o aplicativo. A tela de mapa carregou. Um pequeno ponto vermelho piscou. Meu coração afundou. O ponto estava parado em um endereço na zona portuária. Galpões abandonados. Ruas mal iluminadas. Não havia motivo para Ana estar ali. A menos que ela tivesse sido levada para lá. Peguei as chaves do carro. Saí correndo. Dirigi como um louco. Costurando entre os carros. Ignorando semáforos. Cheguei à rua indicada. Galpões enferrujados. Janelas quebradas. Desliguei os faróis. Parei o carro a uma distância segura. O GPS indicava um grande galpão de tijolos. Não havia luzes, nem barulho. Abandonado. Saí do carro. Esgueirei-me pelas sombras. Uma pequena janela lateral. Limpei um pedaço do vidro. Olhei para dentro. Escuro. Mas a luz da lua entrava por uma claraboia. E então eu a vi. Ana. De pé, no centro do galpão. O mesmo vestido branco. E ela não estava sozinha. Ao lado dela, o braço em volta de sua cintura: Pedro. E o que vi em seguida quebrou o que restava do meu coração. Ana se virou para ele, sorriu e o beijou. Não um beijo de irmão. Um beijo longo, apaixonado. A cena me paralisou. A raiva virou um vazio gelado. Tudo era mentira. Ela não era uma vítima. Ela era cúmplice. Uma fúria cega tomou conta de mim. O som do meu próprio sangue pulsando nos ouvidos. Pura dor e raiva. Empurrei a porta do carro. Saí correndo em direção ao galpão. Eu ia acabar com aquilo. Eu ia fazê-los pagar. A poucos metros da porta, uma dor aguda, explosiva, na parte de trás da minha cabeça. O mundo girou. Luzes brancas. Minhas pernas cederam. Caí de joelhos. Escuridão. A última coisa: um par de botas parando na minha frente. E, ao longe, o rosto de Ana, me observando, sem nenhuma expressão, enquanto eu caía. Meu último pensamento: ela sabia. Ela fez parte disso. Isso foi uma armadilha. Acordei com um cheiro forte de mofo e poeira. A cabeça latejando. Escuridão. Tentei me mover. Mãos e pés amarrados a uma cadeira. Pânico. Lutei contra as cordas. Consegui afrouxar o nó dos pulsos. Depois, os pés. Levantei-me, tonto. No mesmo galpão. Vazio. Eles tinham ido embora. Consegui dirigir de volta para casa. Entrei no apartamento. Joguei-me no sofá. Não disse uma palavra. Apenas ali, olhando para o nada. A manhã chegou. A escuridão não se dissipou. Ana entrou. Cansada, mas agindo como se nada tivesse acontecido. "Bom dia, amor. Nossa, a reunião de ontem foi brutal. Mal consegui escapar." Ela se aproximou, mas eu não me movi. Fiquei em silêncio. Ela parou, sentindo a tensão. "Ricardo? O que aconteceu? Você está com uma cara péssima. E... o que é isso na sua cabeça?" Ela estendeu a mão. Eu me afastei bruscamente. Encontrei minha voz. Baixa, rouca. "Onde você estava, Ana?" Ela piscou, surpresa. "Eu já disse, na reunião. Foi no escritório do centro, por quê?" "Não mente pra mim" , eu disse, levantando a voz, "Não mais." Levantei. Peguei meu celular. Abri a galeria. Joguei o aparelho no colo dela. A foto que Sofia tirou. "Você estava aqui, não estava? Com ele." Ana olhou para a foto. Seu rosto ficou pálido. Mas vi raiva em seus olhos. "Você me seguiu?" , ela gritou. "Você contratou alguém para me espionar? Você não confia em mim?" Ela se levantou. Jogou o celular no chão com força. A tela se estilhaçou. "Depois de tudo que passamos, é assim que você me trata? Com desconfiança?" Lágrimas começaram a brotar. Eu já vira aquela atuação. Era uma performance. "Eu não acredito nisso" , ela soluçou, cobrindo o rosto. "Eu me mato de trabalhar, e você acha que estou te traindo?" Ela era boa. Mas então, uma imagem clara. O homem que me atacou. O rosto dele. Ele estava com ela e Pedro no galpão. Eles estavam juntos. Os três. "O homem que me bateu" , eu disse, a voz fria. "Ele estava com vocês. Eu vi." Ana parou de chorar. Seu rosto ficou vazio. Uma frieza calculista em seus olhos. A verdade me atingiu. Ela não apenas me traiu. Ela e o irmão dela, e aquele outro homem, armaram para mim. Eles me atraíram. Queriam me machucar. Ou pior. Eu quase morri. Olhei para a tela quebrada do meu celular. Um espelho do nosso relacionamento. Estilhaçado. O amor se transformou em pó. Restava o vazio gelado da sobrevivência.

Introdução

A notificação piscou. Um link de um velho amigo da faculdade, Leo: "Hilário" .

Curioso, cliquei. A página carregou, escura, com um logotipo estranho: uma máscara estilizada. O nome do site? "O Clube Secreto" .

Uma sensação estranha apertou meu estômago. Aquilo não parecia um site de memes. Não era.

Um feed de imagens e gifs apareceu. Fotos de mulheres, claramente tiradas sem consentimento. Em academias, no transporte público, provadores de loja. Legendas nojentas.

"Olha a vizinha gostosa do 302." "Manda mais!" Senti uma onda de repulsa.

Eu já ia fechar a aba quando uma imagem em particular me fez parar. Granulada, mal tirada.

Uma mulher dormindo, de lado, em uma cama. Quase toda coberta pelo lençol, mas o rosto visível.

Meu coração parou. Não podia ser. Mas então meus olhos focaram em um detalhe: um pequeno ponto prateado brilhando em seu pescoço.

Um colar. Com um pingente minúsculo em forma de lua.

O colar que eu dei para Ana no nosso aniversário de cinco anos de noivado. Minha Ana. A mulher com quem eu ia me casar em seis meses.

O ar sumiu dos meus pulmões. As mãos tremiam. Eu ampliei a imagem, rezando para estar errado. Era ela.

Cada detalhe. A pequena pinta perto do lábio. O cabelo caindo sobre o travesseiro.

Um zumbido começou nos meus ouvidos. Rolei para os comentários: "Essa aí tem cara de quem gosta." "Quem foi o sortudo que pegou?" "O noivo dela deve ser um corno manso."

A última frase me atingiu como um soco. Humilhação e uma raiva cega tomaram conta de mim.

Quem tirou aquela foto? Ela me traiu? Quem estava com ela?

Eu não podia explodir. Não ainda. Eu precisava de provas.

Gravei a tela. Cada comentário, cada imagem. Salvei em uma pasta escondida.

Meu celular vibrou. Uma mensagem de Ana: "Pensando em você, meu amor. Mal posso esperar pra chegar em casa."

Acompanhado de um emoji de coração.

Olhei para a tela do celular, para as palavras de carinho, e depois para a tela do computador, para sua imagem exposta.

A dissonância era avassaladora. Fui sufocado. Um nó na garganta. Tive que me segurar na mesa.

Ana. A mulher que me mandava mensagem de amor. A mulher objetificada naquele esgoto online.

Ou talvez, o mais aterrorizante: ela não fosse a mulher que eu pensava conhecer.

Não dormi naquela noite. Nem por um minuto.

Ana entrou em casa. Me encontrou no escuro, tensa.

"Ricardo! Meu Deus, que susto! O que você está fazendo acordado?"

Ela acendeu a luz. Pálida, com olheiras. Cansada.

"A reunião se estendeu muito. Foi um inferno. Estou morta."

Ela se aproximou para me beijar, mas eu me afastei instintivamente.

Ela parou, confusa. "O que foi? Aconteceu alguma coisa?"

Eu queria gritar. Jogar o laptop na cara dela. Mas as palavras não saíam. Eu apenas a encarei.

"Nada. Só não consegui dormir." Minha voz soou oca.

Ela tocou minha testa. "Você está bem? Parece pálido."

Afastei sua mão. "Estou bem. Só cansado. Vou para a cama."

Fui para o quarto sem olhar para trás. Minutos depois, ela entrou, deitou ao meu lado.

"Boa noite, meu amor" , ela sussurrou.

Eu não respondi. Apenas fiquei ali, rígido.

Como ela podia dormir tão tranquilamente?

A imagem da foto voltou: Ana dormindo, vulnerável, fotografada por alguém. E agora, dormindo ao meu lado.

Quem é você, Ana? Quem é você de verdade?

Naquela manhã, tomei uma decisão. Não ia confrontá-la. Não ainda. Eu ia descobrir a verdade sozinho.

Abri o laptop. Comecei a pesquisar. Eu ia descobrir o que ela estava escondendo, custe o que custar.

Os dias foram um inferno silencioso. Eu a observava, fingindo normalidade.

Ela não notava, ou atribuía ao estresse. Me beijava, mandava mensagens carinhosas.

Cada gesto de ternura dela era sal na minha ferida. Eu era um fantasma.

Enquanto ela dormia, eu me tornava um detetive.

O extrato do cartão de crédito dela. Despesas normais, mas algumas anomalias.

Aplicativos de transporte em horários e lugares estranhos. Um hotel no centro, duas semanas atrás.

No dia que ela disse que ficaria no escritório para uma "reunião importante" .

Imprimi os extratos. Circulei as anomalias. Um padrão surgiu: sempre nas noites de terça ou quinta.

O nó no meu estômago apertava. A traição parecia real, metódica. Não era um deslize. Era um plano.

Eu precisava de mais. Provas irrefutáveis.

Contratei uma detetive particular. Sofia.

"Você tem certeza de que quer fazer isso, Ricardo? Às vezes, é melhor não saber."

"Eu preciso saber" , respondi.

Ela assentiu. "Ok. Me dê uma semana."

Paguei em dinheiro. Saí oco. Eu tinha acabado de contratar alguém para destruir o que restava do meu mundo.

A semana seguinte foi a mais longa da minha vida. Eu era um zumbi, esperando o golpe final.

Finalmente, a mensagem de Sofia: só um anexo.

Minhas mãos tremiam quando abri o arquivo.

A foto: Ana sentada em um café, sorrindo. Um sorriso que eu não via há muito tempo.

Mas ela não estava sorrindo para mim.

Na frente dela, um homem segurando sua mão. Eu o reconheci. Pedro. O irmão da Ana.

Eles não pareciam irmãos distantes. Pareciam um casal.

Meu sangue gelou. Traição com o próprio irmão dela? Doentio, repulsivo.

Uma segunda mensagem de Sofia: "Ficaram no café por uma hora. Depois foram para um hotel aqui perto. Ficaram lá por cinco horas. Ela saiu usando outra roupa."

Li a mensagem. As palavras dançavam. Cinco horas. Outra roupa.

O que mais eu precisava saber?

A tela do celular se apagou. Vi meu reflexo: um estranho. Um homem derrotado.

Fechei os olhos. Verdade. Um buraco negro. Anos de amor, de confiança, de planos. Tudo mentira.

O que eu faria? Minha mente era um turbilhão de raiva e dor.

Meu laptop apitou. Notificação do "Clube Secreto" . Com o coração pesado, abri.

A discussão sobre a foto de Ana tinha sido reavivada.

"Mestre69" postou um novo comentário: "A vagabunda dormindo foi bom, mas quero mais. Quero ver ação."

"VoyeurSP" respondeu: "@ReiNoite, cadê você? Prometeu mais material."

E então, "ReiNoite" respondeu. Minha raiva ferveu.

"Calma, pessoal. O melhor está por vir. A mercadoria é de primeira, tem que ser preparada com cuidado."

Junto com a mensagem, uma nova foto. Não de Ana. Mas um objeto que eu conhecia muito bem.

Era o colar de lua. O da primeira foto. Mas desta vez, sobre uma mesa de madeira escura, ao lado de um copo de uísque e um cinzeiro.

Senti um calafrio. Aquele colar nunca saía do pescoço de Ana. Ela o amava.

Para estar ali, significava... que ela o tinha dado para aquele homem. Ou pior, ele o tinha tirado dela.

A prova era inegável. O homem do fórum, o "ReiNoite" , era o mesmo homem com quem ela estava se encontrando. Pedro. O irmão dela.

A conversa no fórum continuou. Cada vez mais depravada.

"Preparar como?" , perguntou um usuário. "Tem que ser um vídeo bom. Sem censura."

"Mestre69" : "Se ela for difícil, um remedinho na bebida resolve. Um 'boa noite, Cinderela' e ela fica mansinha. Aí dá pra fazer o que quiser, gravar tudo."

"Isso! Bota pra dormir e a festa começa!"

"A gente pode até fazer uma visita em grupo."

O horror me paralisou. Estavam planejando drogar e estuprar Ana. E o irmão dela estava no centro de tudo.

Uma fúria primordial explodiu dentro de mim. Não era mais sobre traição. Era sobre perigo. Ana estava em perigo iminente.

Eu tinha que fazer alguma coisa. Agora.

Peguei o celular para ligar para a polícia, mas hesitei. E se isso assustasse Pedro?

Não. Eu mesmo tinha que impedi-lo.

Levantei-me. A cama dela estava vazia. O carro dela não estava na garagem.

Meu coração martelava no peito. Onde ela foi? O plano deles já estava em andamento?

A imagem de Ana, drogada e indefesa. Tinha que encontrá-la. Antes que fosse tarde demais.

Liguei para Ana. Caixa postal. De novo. E de novo.

"Merda, merda, merda!" , gritei para o apartamento vazio.

Lembrei-me: um aplicativo de rastreamento no celular dela. Instalei depois que o carro dela foi roubado.

Com as mãos trêmulas, abri o aplicativo. A tela de mapa carregou. Um pequeno ponto vermelho piscou.

Meu coração afundou. O ponto estava parado em um endereço na zona portuária.

Galpões abandonados. Ruas mal iluminadas. Não havia motivo para Ana estar ali.

A menos que ela tivesse sido levada para lá.

Peguei as chaves do carro. Saí correndo.

Dirigi como um louco. Costurando entre os carros. Ignorando semáforos.

Cheguei à rua indicada. Galpões enferrujados. Janelas quebradas.

Desliguei os faróis. Parei o carro a uma distância segura.

O GPS indicava um grande galpão de tijolos. Não havia luzes, nem barulho. Abandonado.

Saí do carro. Esgueirei-me pelas sombras. Uma pequena janela lateral.

Limpei um pedaço do vidro. Olhei para dentro.

Escuro. Mas a luz da lua entrava por uma claraboia.

E então eu a vi. Ana. De pé, no centro do galpão. O mesmo vestido branco.

E ela não estava sozinha.

Ao lado dela, o braço em volta de sua cintura: Pedro.

E o que vi em seguida quebrou o que restava do meu coração.

Ana se virou para ele, sorriu e o beijou. Não um beijo de irmão. Um beijo longo, apaixonado.

A cena me paralisou. A raiva virou um vazio gelado. Tudo era mentira.

Ela não era uma vítima. Ela era cúmplice.

Uma fúria cega tomou conta de mim. O som do meu próprio sangue pulsando nos ouvidos. Pura dor e raiva.

Empurrei a porta do carro. Saí correndo em direção ao galpão. Eu ia acabar com aquilo.

Eu ia fazê-los pagar.

A poucos metros da porta, uma dor aguda, explosiva, na parte de trás da minha cabeça.

O mundo girou. Luzes brancas. Minhas pernas cederam.

Caí de joelhos. Escuridão. A última coisa: um par de botas parando na minha frente.

E, ao longe, o rosto de Ana, me observando, sem nenhuma expressão, enquanto eu caía.

Meu último pensamento: ela sabia. Ela fez parte disso. Isso foi uma armadilha.

Acordei com um cheiro forte de mofo e poeira. A cabeça latejando. Escuridão.

Tentei me mover. Mãos e pés amarrados a uma cadeira. Pânico.

Lutei contra as cordas. Consegui afrouxar o nó dos pulsos. Depois, os pés.

Levantei-me, tonto. No mesmo galpão. Vazio. Eles tinham ido embora.

Consegui dirigir de volta para casa. Entrei no apartamento. Joguei-me no sofá.

Não disse uma palavra. Apenas ali, olhando para o nada.

A manhã chegou. A escuridão não se dissipou.

Ana entrou. Cansada, mas agindo como se nada tivesse acontecido.

"Bom dia, amor. Nossa, a reunião de ontem foi brutal. Mal consegui escapar."

Ela se aproximou, mas eu não me movi. Fiquei em silêncio.

Ela parou, sentindo a tensão. "Ricardo? O que aconteceu? Você está com uma cara péssima. E... o que é isso na sua cabeça?"

Ela estendeu a mão. Eu me afastei bruscamente.

Encontrei minha voz. Baixa, rouca. "Onde você estava, Ana?"

Ela piscou, surpresa. "Eu já disse, na reunião. Foi no escritório do centro, por quê?"

"Não mente pra mim" , eu disse, levantando a voz, "Não mais."

Levantei. Peguei meu celular. Abri a galeria. Joguei o aparelho no colo dela. A foto que Sofia tirou.

"Você estava aqui, não estava? Com ele."

Ana olhou para a foto. Seu rosto ficou pálido. Mas vi raiva em seus olhos.

"Você me seguiu?" , ela gritou. "Você contratou alguém para me espionar? Você não confia em mim?"

Ela se levantou. Jogou o celular no chão com força. A tela se estilhaçou.

"Depois de tudo que passamos, é assim que você me trata? Com desconfiança?"

Lágrimas começaram a brotar. Eu já vira aquela atuação. Era uma performance.

"Eu não acredito nisso" , ela soluçou, cobrindo o rosto. "Eu me mato de trabalhar, e você acha que estou te traindo?"

Ela era boa. Mas então, uma imagem clara. O homem que me atacou. O rosto dele. Ele estava com ela e Pedro no galpão.

Eles estavam juntos. Os três.

"O homem que me bateu" , eu disse, a voz fria. "Ele estava com vocês. Eu vi."

Ana parou de chorar. Seu rosto ficou vazio. Uma frieza calculista em seus olhos.

A verdade me atingiu. Ela não apenas me traiu. Ela e o irmão dela, e aquele outro homem, armaram para mim.

Eles me atraíram. Queriam me machucar. Ou pior. Eu quase morri.

Olhei para a tela quebrada do meu celular. Um espelho do nosso relacionamento. Estilhaçado.

O amor se transformou em pó. Restava o vazio gelado da sobrevivência.

Capítulo 1

A notificação piscou no canto da tela do meu laptop, uma mensagem de um velho amigo da faculdade, Leo.

"Cara, você precisa ver isso. Hilário."

Junto com a mensagem, havia um link. Eu estava no meio do trabalho, planilhas e relatórios espalhados pela mesa, mas a procrastinação venceu. Um clique não faria mal.

A página demorou um pouco para carregar, exibindo apenas um fundo preto e um logotipo estranho, uma espécie de máscara estilizada. Parecia um fórum antigo, um daqueles cantos esquecidos da internet. O nome era vago, algo como "O Clube Secreto" .

Uma sensação de desconforto começou a se formar na boca do meu estômago. Aquilo não parecia um site de memes.

A página finalmente carregou, e um feed de imagens e gifs apareceu. Meu primeiro impulso foi fechar a aba. Eram fotos de mulheres, claramente tiradas sem que elas soubessem. Fotos em academias, no transporte público, em provadores de lojas. A legenda de uma delas dizia: "Olha a vizinha gostosa do 302" . Outra mostrava uma mulher de saia em uma escada rolante, com um comentário nojento embaixo.

Senti uma onda de repulsa. Que tipo de gente doente frequentava um lugar desses?

Eu já estava movendo o cursor para o "x" da aba quando uma imagem em particular me fez parar. A qualidade era ruim, granulada, como se tivesse sido tirada com um celular antigo e com zoom no máximo. Era uma mulher deitada de lado em uma cama, dormindo. Ela usava uma camiseta larga, e o lençol cobria a maior parte do seu corpo, mas seu rosto estava visível, virado para a câmera.

Meu coração parou por uma fração de segundo.

Não podia ser. Era só alguém parecido.

Mas então meus olhos focaram em um detalhe. Um pequeno ponto prateado brilhando em seu pescoço. Era um colar. Um colar com um pingente minúsculo em forma de lua.

O colar que eu dei para Ana no nosso aniversário de cinco anos de noivado.

O ar sumiu dos meus pulmões. O quarto, antes quente, de repente ficou gelado. Meu estômago se revirou violentamente, e eu senti um gosto amargo na boca. Era ela. Era a minha Ana. A mulher com quem eu ia me casar em seis meses.

Minhas mãos tremiam tanto que eu mal conseguia segurar o mouse. Cliquei na imagem para ampliá-la, rezando para estar errado, para ser uma coincidência cruel. Mas não era. Cada detalhe do seu rosto, a pequena pinta perto do lábio, a forma como seu cabelo caía sobre o travesseiro. Era ela. Sem dúvida alguma.

Um zumbido começou nos meus ouvidos, abafando todos os outros sons. Eu rolei para baixo, para a seção de comentários, e o que eu li me fez querer vomitar.

"Essa aí tem cara de quem gosta."

"Quem foi o sortudo que pegou?"

"Manda mais! Mostra o resto!"

"O noivo dela deve ser um corno manso."

A última frase me atingiu como um soco. Humilhação e uma raiva cega tomaram conta de mim. Eu queria socar a tela, quebrar o laptop, gritar até minha garganta ficar em frangalhos. Como aquilo foi parar ali? Quem tirou aquela foto?

Minha mente corria a mil por hora, cada pensamento mais doloroso que o anterior. Ela me traiu? Quem era o homem que estava no quarto com ela, tirando essa foto enquanto ela dormia? A imagem era íntima, vulnerável. Não era uma foto tirada por um estranho na rua.

Meu primeiro instinto foi ligar para ela, gritar, exigir uma explicação. Mas uma parte de mim, uma parte fria e repentinamente calculista, me parou. Eu não podia simplesmente explodir. Não ainda. Eu precisava de provas. Eu precisava entender o que diabos estava acontecendo.

Com os dedos trêmulos e os nós brancos de tanta força, comecei a agir. Abri um software de gravação de tela. Gravei tudo. Rolei por cada comentário nojento, cada imagem. Tirei screenshots de tudo, salvando em uma pasta escondida no meu computador. Cada clique era uma tortura, me forçando a olhar para a imagem da minha noiva sendo exposta e humilhada para um bando de anônimos doentes.

Enquanto eu salvava a última imagem, meu celular vibrou na mesa. Era uma mensagem de Ana.

"Pensando em você, meu amor. Mal posso esperar pra chegar em casa."

A mensagem veio acompanhada de um emoji de coração.

Olhei para a tela do celular, para as palavras de carinho, e depois para a tela do computador, para a sua imagem exposta. A dissonância era tão brutal, tão avassaladora, que eu senti como se estivesse sufocando. Um nó se formou na minha garganta, e eu tive que me segurar na mesa para não cair.

A mulher que me mandava uma mensagem de amor era a mesma que estava sendo objetificada naquele esgoto online. Ou talvez, e esse pensamento era o mais aterrorizante de todos, ela não fosse a mulher que eu pensava conhecer.

Capítulo 2

Eu não dormi naquela noite. Nem por um minuto.

Passei a madrugada inteira sentado na escuridão da sala, a única luz vindo da tela do laptop. As imagens e os comentários daquele fórum estavam gravados a fogo na minha mente. A cada hora que passava, a dor inicial se transformava em uma mistura tóxica de raiva, confusão e um sentimento profundo de traição.

Abri a pasta com as capturas de tela de novo e de novo, como um masoquista revivendo sua própria tortura. Eu ampliava a foto de Ana, procurando por qualquer pista. O quarto era genérico, paredes brancas, uma cabeceira de madeira escura. Poderia ser qualquer lugar. Um hotel, talvez.

Quem postou a foto usava um apelido, "ReiNoite" . Tentei procurar pelo nome de usuário em outras redes sociais, mas não encontrei nada. Era um fantasma.

Milhares de cenários passavam pela minha cabeça. Ela estava tendo um caso? Por quanto tempo? Quem era o homem? Ele a drogou e tirou a foto? Ou ela sabia? Ela participou? A ideia me deixava enjoado. A Ana que eu conhecia, a Ana doce, gentil, que ficava vermelha com qualquer elogio, jamais faria algo assim.

Mas a prova estava ali, brilhando na minha tela. O colar. Aquele maldito colar que agora parecia um símbolo da minha própria estupidez.

Por volta das duas da manhã, ouvi a chave na porta. Meu corpo ficou tenso. Era ela.

Ana entrou em casa na ponta dos pés, tentando não fazer barulho. Quando me viu sentado no sofá, no escuro, ela deu um pulo de susto.

"Ricardo! Meu Deus, que susto! O que você está fazendo acordado?"

Ela acendeu a luz. Seu rosto estava pálido, e havia olheiras escuras sob seus olhos. Seu cabelo estava um pouco bagunçado, e ela parecia exausta.

"A reunião se estendeu muito" , ela disse, bocejando e deixando a bolsa cair no chão. "Foi um inferno. Estou morta."

Ela se aproximou para me dar um beijo, mas eu me afastei instintivamente.

Ela parou, a confusão estampada em seu rosto. "O que foi? Aconteceu alguma coisa?"

Eu queria gritar. Queria jogar o laptop na cara dela e exigir que ela me explicasse aquela foto. Mas as palavras não saíam. Eu apenas a encarei, meu rosto uma máscara de pedra.

"Nada" , eu murmurei. "Só não consegui dormir."

Minha voz soou estranha, oca.

Ana franziu a testa, preocupada. "Você está bem? Parece pálido."

Ela tocou minha testa para ver se eu estava com febre. O toque dela, que sempre me confortou, agora me queimava a pele. Afastei sua mão gentilmente.

"Estou bem. Só cansado. Vou para a cama."

Levantei-me e fui para o nosso quarto sem olhar para trás. Eu a ouvi suspirar na sala.

Deitei na cama e fechei os olhos, fingindo dormir. Minutos depois, ela entrou no quarto, trocou de roupa e deitou ao meu lado. Senti o calor do seu corpo perto do meu, o cheiro familiar do seu perfume. Antes, isso era meu porto seguro. Agora, era uma fonte de agonia.

Ela se aninhou em mim, passando o braço pela minha cintura.

"Boa noite, meu amor" , ela sussurrou.

Eu não respondi. Apenas fiquei ali, rígido, ouvindo sua respiração ficar lenta e profunda enquanto ela adormecia.

Como ela podia dormir tão tranquilamente? Como ela podia agir com tanta naturalidade depois do que quer que tenha acontecido?

A imagem da foto voltou à minha mente: Ana dormindo, vulnerável, enquanto alguém a fotografava. E agora, ali estava ela, dormindo ao meu lado, na nossa cama, no nosso apartamento.

A mulher que eu amava, a mulher com quem eu dividia a vida, de repente se tornou uma estranha. Olhando para o teto no escuro, uma pergunta aterrorizante ecoava na minha cabeça sem parar.

Quem é você, Ana? Quem é você de verdade?

A noite se arrastou, e com a primeira luz do amanhecer, eu já tinha tomado uma decisão. Eu não ia confrontá-la. Não ainda. Eu ia descobrir a verdade sozinho.

Levantei-me silenciosamente, fui para a sala e abri meu laptop novamente. Comecei a pesquisar. Comecei a cavar. Eu ia descobrir o que ela estava escondendo, custe o que custar.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022