Casei-me com Marcos numa mentira para salvar a vida dele.
Três anos se passaram, e ele me odiava.
Eu suportei sua frieza, humilhações e o desprezo de todos, enquanto ele e Sofia, sua amiga de infância, me torturavam repetidamente.
Fui humilhada publicamente, forçada a deixar meu emprego e até a abrir mão da minha reputação, tudo para proteger a boa imagem de Sofia.
Perseguida por ela, sofri um aborto devastador e, em vez de consolo, Marcos me amaldiçoou, me dizendo para morrer.
Naquele dia, eu entendi. Não importava o quanto eu sofresse, Marcos nunca acreditaria em mim.
Então, com o coração partido, uma raiva gélida tomou conta de mim.
Decidi desaparecer para sempre da vida deles.
Deixei-o com a culpa e a mulher que ele escolheu, enquanto eu, em um ato de desespero e liberdade, forjei minha própria morte.
Eu não estava apenas fugindo; estava renascendo das minhas cinzas.
Ele, que tanto me desprezou, agora viveria assombrado pela minha ausência.
O amor deles seria a sua eterna prisão.
Mas a vida continua, e o destino tinha para mim um novo recomeço, ao lado de alguém que sempre me amou e confiou em mim.
O amor é a maior mentira de todas.
Para salvar a vida de Marcos, Ana Paula inventou uma mentira, uma que, por consequência, destruiu a reputação da amiga de infância dele, Sofia.
A partir daquele momento, a confiança que Marcos tinha nela se desfez completamente.
O pai de Ana Paula a aconselhou a desistir, mas ela teimou, insistindo que conseguiria provar seu valor e reconquistar o coração dele. Vendo sua determinação, o pai lhe deu um prazo de um ano, se ela não conseguisse a confiança de Marcos até o fim desse período, teria que voltar para casa e aceitar um casamento arranjado.
Finalmente, o dia chegou. Quando Marcos a abandonou mais uma vez por causa de Sofia, Ana Paula sentiu a obsessão que a consumia se apagar.
Tudo começou com um boato que se espalhou pela empresa, dizendo que Sofia estava se intrometendo no relacionamento de Ana Paula e Marcos. A situação piorou quando alguém postou fotos no grupo de trabalho, mostrando Sofia de braços dados com Marcos em um shopping. As fotos tinham marca d'água de data e hora, e se espalharam como fogo.
Aquele era o aniversário de Marcos.
Ana Paula tinha preparado um bolo e esperou por ele em casa por três horas, mas ele nunca apareceu.
No dia seguinte, todos na empresa acusavam Sofia de ser leviana, de ser uma interesseira.
Antes que Ana Paula pudesse sequer pensar em procurar Sofia para esclarecer as coisas, a porta de seu escritório foi arrombada. Sofia, acompanhada de uma amiga, invadiu a sala com o rosto vermelho de raiva.
Sem uma palavra, a mão de Sofia voou e atingiu o rosto de Ana Paula com força. O estalo ecoou pela sala silenciosa.
"Ana Paula, foi você quem mandou fazer isso?"
A pergunta veio carregada de fúria. Ana Paula, com a bochecha ardendo, mal teve tempo de processar o que estava acontecendo.
Antes que pudesse formular uma resposta, Marcos chegou.
O alívio que ela sentiu durou apenas um segundo. Sofia se virou, correu para os braços dele e desabou em lágrimas.
"Marcos, estou tão magoada, tantas pessoas estão me xingando..."
Marcos a abraçou com força, consolando-a, e então seus olhos se fixaram em Ana Paula. Por um instante, um lampejo de dor pareceu cruzar seu rosto ao ver a marca vermelha e o inchaço na bochecha dela.
Ele se aproximou lentamente.
"Dói?"
A pergunta foi baixa, quase um sussurro.
"Sim", Ana Paula assentiu, os olhos se enchendo de lágrimas. Uma pequena esperança brotou em seu peito, pensando que finalmente receberia um pouco de compaixão.
Mas a mão de Marcos se ergueu e, em vez de um carinho, ele esfregou com força o local do tapa, fazendo a dor se intensificar.
"Se dói, por que você não aprende?"
O corpo de Ana Paula enrijeceu. O desapontamento a atingiu como uma onda gelada, afogando a pequena chama de esperança.
"Eu já te expliquei tantas vezes que Sofia é apenas minha vizinha, uma amiga. Por que você insiste em fazer essas coisas por ciúmes? Três anos atrás você já a prejudicou tanto, não foi o suficiente?"
"Eu não fiz...", Ana Paula tentou se defender, a voz fraca.
"Cale a boca!", Marcos gritou, sua voz cortando o ar e silenciando os murmúrios dos colegas que observavam a cena. "Os atos sujos que você fez e a grande mentira que você inventou três anos atrás, preciso contá-los para que todos saibam?"
Uma grande mentira.
As palavras ecoaram na sala, e os olhares curiosos se voltaram para ela. Sim, ela havia contado uma grande mentira, uma mentira cujo verdadeiro propósito ninguém conhecia.
Os sussurros dos colegas eram como agulhas perfurando sua pele. A "grande mentira" que Marcos mencionou era a âncora que a prendia a essa vida de desconfiança.
Na cabeça de todos, a história era simples e sórdida. Três anos atrás, Ana Paula, uma mulher desesperada por status, embebedou Marcos e o levou para a cama. Dias depois, ela apareceu com a notícia de uma gravidez, forçando-o a um casamento que ele não queria.
Mas os meses passaram, e a barriga de Ana Paula nunca cresceu.
O que tornava tudo pior era o que aconteceu naquela mesma noite. Enquanto Ana Paula supostamente o seduzia, sua amiga de infância, Sofia, foi agredida por bandidos em um beco escuro. Desde então, Sofia sofria de uma doença oculta, uma fragilidade que a assombrava.
Marcos se sentia consumido pela culpa. Ele acreditava que, por estar com Ana Paula, não conseguiu chegar a tempo de salvar Sofia, condenando-a a um sofrimento permanente.
A partir daquele dia, a palavra de Ana Paula não valia mais nada. Qualquer conflito entre ela e Sofia, não importava a verdade, a culpa era sempre dela.
Mas a verdade era muito mais complexa.
Ele não sabia que ela o forçou a se casar para salvar sua vida. Marcos tinha uma doença rara, uma condição que só podia ser tratada em um hospital particular de elite, um hospital que pertencia e atendia exclusivamente à família Silva. Para ter acesso ao tratamento que salvaria sua vida, ele precisava se tornar um membro da família Silva.
Ana Paula se lembrava da conversa com seu pai como se fosse ontem.
"Ana Paula, por que você não conta a verdade a ele? Você sabe que um casamento sem confiança não pode durar."
Ela, na época, respondeu com a confiança ingênua da juventude.
"Marcos vai confiar em mim, pai. Ele vai."
Afinal, antes de tudo aquilo, Marcos havia sido tão gentil com ela. Ela não queria que o homem que amava secretamente por tantos anos sentisse apenas gratidão por ela pelo resto da vida. Ela não queria um "obrigado". Ela queria um "eu te amo".
Mas a gentileza de Marcos se tornou exclusiva para Sofia. O sorriso dele se tornou uma visão rara, um fantasma do passado. Mesmo assim, Ana Paula não desistiu. Ela podia esperar. Esperaria o dia em que sua sinceridade e seu amor derreteriam o gelo no coração dele.
O suspiro de seu pai naquela época ainda ecoava em sua mente.
"Faça o que quiser. Mas eu só te dou um ano. Se você ainda não conseguir a confiança dele até lá, volte para a capital e se case com aquele rapaz da família Costa."
Quando Ana Paula voltou a si daquela lembrança dolorosa, Marcos já havia levado Sofia embora. Ela estava sozinha no meio do escritório, ajoelhada no chão, com os olhares de pena e desprezo de seus colegas cravados nela.
Às oito da noite, ela estava em casa. Uma mesa cheia de comida, preparada com esmero, esperava por Marcos. O telefone tocou. Era seu pai.
"Ana Paula, você se arrependeu? Quer voltar para casa? O rapaz da família Costa continua perguntando sobre você."
Ela mexeu a colher na tigela de mingau, a comida intocada, e balançou a cabeça, mesmo sabendo que ele não podia ver.
"Não, pai. Eu não vou voltar. Marcos e eu estamos bem."
A voz de seu pai aumentou de tom, a preocupação evidente.
"Ele te tratou daquele jeito na frente de todos, e você ainda está tão obstinada?"
Era óbvio que seu pai já sabia do ocorrido. Com sua influência, nada passava despercebido.
"De qualquer forma, eu não vou voltar", ela respondeu, a voz mais firme do que se sentia. "Marcos vai confiar em mim."
"Você, menina...", seu pai suspirou, um som de impotência e amor frustrado. "Então não se esqueça do que prometeu ao papai. Ainda faltam três meses."
Sim. Um ano. E restavam apenas três meses. Ela precisava se esforçar mais.
Às dez da noite, Marcos finalmente chegou em casa.
Seus olhos passaram pelas velas vermelhas na mesa, pela comida fria e, por fim, por ela. Ana Paula estava vestida com uma camisola sexy, maquiada com elegância. Um desejo profundo brilhou nos olhos dele por um instante, mas ele o suprimiu com uma brutalidade que a feriu.
"Você fez Sofia ser xingada o dia todo, e ainda tem tempo para se arrumar toda?"
O sorriso que ela ensaiara congelou em seus lábios.
Marcos caminhou em direção ao quarto, batendo a porta atrás de si. Antes de fechá-la completamente, ele deixou uma ordem fria.
"Esta noite você vai dormir no sofá. Reflita bem sobre tudo o que você fez a Sofia. Só me procure quando tiver pensado bem."
Ela se virou e revirou no sofá a noite inteira, o sono uma miragem distante.