Já teve o mesmo sonho, diversas vezes, a ponto de conseguir distingui-lo da vida real?
É engraçado como um sorriso convidativo e lábios bem desenhados podem ser um referencial, mesmo que, às vezes, demore para reconhecê-lo. Pode ser esquisito, mas sempre tenho o mesmo sonho: estou de volta à mansão Delamont, em algum evento importante, porque todos os convidados estão com roupas de festa, e um sorriso em especial chama a minha atenção. Eu não consigo ver o seu rosto devido à penumbra do jardim e da iluminação malfeita para a noite, mas seu olhar é direcionado a mim, assim como o seu sorriso. Tento me aproximar, mas conforme tento chegar mais próximo, mais distante a pessoa parece ficar; até o momento em que some de vez. Sempre o procuro em meio aos jardins bem decorados de Nick e Laura e, como numa brincadeira do destino, irritantemente acordo sempre no mesmo momento.
Parece um carma; um carma que, até então, não fazia ideia que estava apenas começando.
Bem-vindos a história de Duda e Andrew.
Capitulo 1
Encaro o ponteiro do relógio, que descansa na parede a minha frente, percebendo que já se passou uma hora desde que estou sentada nessa poltrona à espera da entrevista.
Bocejo, mais uma vez, e lembro-me da noite mal dormida por causa do pesadelo que tive. Mesmo que não seja um pesadelo realmente, sempre penso nele, dessa forma, já que sempre que acontece fico parecida com um dos zumbis do The Walking Dead, por ter um sonho que me deixa com uma sensação de familiaridade.
Cheguei há poucas horas no último andar desse prédio para fazer uma entrevista de emprego. Uma das recepcionistas, com caras e bocas de modelos famosas, me arrastou até essa segunda recepção e estou aqui desde então.
- Senhorita Maria Eduarda Castro Teixeira.
Epa! Meu nome aí!
- Eu mesma! - falo, já me levantando, e quase me arrependendo ao dar de cara com a loira de lindos cabelos lisos, olhos cristalinos e levemente puxados.
- Come with me! - OK! Eu sabia que a vaga era para pessoas bilingues, mas é estranho ouvir um brasileiro falando em inglês, mesmo assim.
Sinto as minhas pernas tremerem à medida que a acompanho pelos vastos corredores do enorme escritório de advocacia. Subimos dois lances de escadas e andamos mais alguns metros até nos depararmos com mais uma recepção. É do estilo de uma pequena saleta, parecida com um hall de espera, na verdade. Há uma mesa de frente para mim, e noto não haver ninguém trabalhando nela, fazendo-me perceber que talvez a vaga de recepcionista seja para este setor. Há duas portas ao meu lado esquerdo, e leio as plaquinhas presidência em cada uma delas. Ok, Duda! Não precisa fugir com o rabo entre as pernas agora! Vai lá, porque você consegue!
- Fique aqui! A senhora Ferraz já irá atendê-la - a loira fala seca. Ela bate duas vezes numa das portas e logo me deixa sozinha.
Meio minuto depois, a porta finalmente é aberta, revelando uma mulher que aparenta estar entre as casas dos trinta e quarenta anos. Seu rosto, que aparentemente é quadrado, está escondido pelos cabelos escuros e fartos; um emaranhado ondulado e bem cuidado que possui um brilho gutural. Seus olhos, tão negros quanto a noite, me esquadrinham da cabeça aos pés enquanto assisto petrificada e quase de boca aberta sua beleza negra quase que ofuscar todas as modelos da recepção.
- Pode se sentar, senhorita Teixeira! - o seu tom de voz rouco me lembra um pouco de Luce, uma amiga querida, e noto os seus olhos, quase de águia, me analisarem insistentemente; parecendo a minha antiga chefe: dona Sophia.
Faço o que me pede e sento-me de frente para ela, notando-a colocar os seus óculos de grau e analisar o que parece ser o meu currículo. Ela volta o olhar para mim e fala:
- Boa tarde! Sou Marla Ferraz, sócia da Ferraz e Collins. Você já havia ouvido falar da nossa empresa, senhorita... - Ela encara o papel e logo volta o olhar para mim. - Maria Eduarda?
- Sei que é bem-conceituada e que está há anos no mercado.
- Me alegra saber que está a par dos nossos negócios. Pelo o que diz aqui, a senhorita tem vinte e sete anos e não possui filhos, certo? – Retorna o seu olhar para a folha de papel, quando confirmo com a cabeça, e continua: - Fala fluentemente inglês e estudou administração na U.V.A, além de ter feito um estágio de seis meses no banco que pertence à família Delamont. - Marla tira os óculos e parece me observar. - Notório, mas vejo que não possui muita experiência.
Experiência para atender telefone e servir café? Fala sério!
- Como pode ver, trabalhei alguns meses na área. - Aponto para o papel, que parece um brinquedo em suas mãos.
- Sim, diz aqui seis meses. - Ela me mostra o documento. - Mas a vaga é de secretária, como pode observar. A Ferraz e Collins, como você mesma disse, é uma conceituada empresa de advocacia. Aqui trabalhamos com grandes firmas existentes no Brasil e também no exterior. O Banco dos Delamont é um dos nossos clientes mais antigos, inclusive. Preciso de uma pessoa que trabalhe e saiba organizar o escritório - assinto e ela continua: - Eu e meu sócio, o Dr. Collins, somos parceiros há anos e estamos precisando de uma pessoa de confiança para lidar com as nossas agendas, e isso não será fácil. Inclusive, por causa do temperamento do meu sócio, que como eu posso dizer... - ela finge pensar colocando um dedo na boca - é três vezes pior do que o meu.
- Bom, senhora Ferraz, eu estudei muito para estar aqui e dediquei cada dia da minha vida a isso. Eu trabalhava de dia como empregada doméstica para ter como me sustentar e sustentar os meus cursos à noite. Eu parei a minha vida para isso e posso dizer que dou conta do recado! - Seus olhos fitam-me com uma curiosidade explícita neles, e sinto os meus dedos suarem conforme roçam uns nos outros por baixo da mesa. Ela solta o ar devagar e parece divagar nos pós e contras de me contratar.
- Eu te darei essa chance. - Um sorriso involuntário se abre em meus lábios. - Você começa amanhã. Passe no RH, eles lhe entregarão o seu uniforme e prepararão os seus documentos. - Ela me estende as mãos e cumprimento a minha mais nova chefe.
- Obrigada pela oportunidade. Garanto que não irá se arrepender!
- Espero mesmo! E espero, também, que isso se estenda ao meu sócio. - Ela é taxativa. - Bem-vinda à Ferraz e Collins.
Saio de sua sala e olho para o meu futuro local de trabalho. O arranjo de lírios parece solitário em cima da mesa, e uma voz alta me chama a atenção. Voz, não! Gritos.
- Não quero saber, Catarina. Esse é um erro grotesco, a senhora tem noção que se perdermos esse caso perderemos um dos nossos melhores clientes? Que merda! - grita. - Ajeite essa porra ou você nunca mais advogará para mim. - Ela sai um pouco embolada, talvez devido à porta fechada, não sei, mas consigo ouvir bem essa frase.
Levanto uma sobrancelha ao escutar mais gritos, e um aparelho de telefone ser desligado bruscamente. Começo a caminhar para o lado de fora o mais rápido que consigo. Se esse for o meu futuro chefe, prefiro conhecê-lo apenas amanhã.
- Você o quê? - Luce grita do outro lado da linha. Estamos em meio a uma chamada de vídeo, mais precisamente em meu apartamento com Laura e o pequeno Nick, que brinca com os cabelos ruivos da mãe. Laura é minha amiga, assim como Luce.
Eu e Laura nos conhecemos na mansão Delamont, onde trabalhei como empregada doméstica enquanto a ruiva trabalhava como babá. Laura e nosso antigo chefe, agora seu marido Nikolas Delamont, se apaixonaram perdidamente após se envolverem intimamente. Laura nunca comentou como chegaram onde estão agora, mas acredito que tenha algo a ver com os mistérios existentes no sobrenome Delamont. Já Luce, conheci através de Laura, uma vez que elas já eram amigas desde a época em que moravam no mesmo prédio que, por ventura, moro hoje em dia.
Faz dois anos desde que Nick Jr. nasceu, e agora já possuo um "ap" para chamar de meu.
Fiz seis meses de estágio no Banco de Nick, o que me ajudou bastante e, desde então, procurava um novo emprego em meu ramo. Laura e Nick me incentivaram ajudando-me com um empréstimo para comprar o meu pequeno "cafofo" no mesmo prédio em que Luce continua morando, porém, como nossa amiga está de plantão no hospital em que trabalha, tive que contar a novidade por telefone.
- Não acredito, garota! Agora que tu não é mais uma sem teto e nem desempregada, só falta tirar essa teia de aranha do meio das pernas e arranjar uma boa de uma.... - Arregalo os olhos, mas Laura é mais rápida:
- Cala essa boquinha, Luce! Temos menores aqui! - Minha amiga aponta para o filho, que brinca com o seu boneco como se não tivesse uma louca falando merda a torto e a direito. Sorrio, mesmo ainda não estando acostumada com o vocabulário de minha vizinha e amiga. Nick bate palminhas, e eu e a mãe dele achamos graça. Ele está cada dia mais fofo e parecido com o pai.
- Eu já disse que não quero saber de homem na minha vida, não é porque terminei com Gustavo que... - começo a me explicar, porém Luce é curta e grossa:
- Pela décima vez, Duda, acorda. O cara está sempre te traindo com jovens, coroas e, se duvidar, até com homens.
- Luce... - Laura sibila sacudindo os cabelos avermelhados para ambos os lados enquanto Luce dispara:
- É sempre o mesmo ciclo: ele termina com você, aí do nada quando está bem financeiramente, dá um jeito de voltar, e você acaba cedendo. Tá mais do que na hora da senhorita encontrar outra pessoa.
- Luce! - Laura fala mais alto, e meus olhos se enchem de água ao lembrar-me da última vez em que, de fato, Gustavo e eu terminamos.
Gustavo é meu ex-namorado, ele sempre foi importante para mim, e sei que do jeito torto dele, ainda me ama. Eu o amei desde o dia em que cheguei na mansão de Nikolas. Gustavo já trabalhava para a família Delamont como jardineiro e motorista, enquanto sua irmã Izabela trabalhava na cozinha. Sua mãe Damiana até hoje trabalha como governanta, e o seu pai, o senhor Josefo, sempre comandou o quadro dos motoristas.
Lembro-me da primeira vez que o vi: ele usava uma calça jeans escura e estava sem camisa. Seus músculos protuberantes, expostos ao sol, e o suor escorrendo pelo seu corpo atraiu-me como íman. Seus cabelos, sempre cortados em estilo militar, estavam molhados e, assim que suas íris escuras me fitaram, juro que senti o meu coração tamborilar forte dentro do peito. Eu segurava uma mochila velha e pesada no ombro, mas naquele momento, nem mesmo ela havia me feito desviar o olhar. Gustavo passou por mim sem nem mesmo me dirigir a palavra.
Ele nunca havia me olhado de forma diferente, muito pelo contrário. Gustavo ficou a fim de Laura, assim que colocou os olhos nela. Minha sorte – somente dizendo assim – foi que ela nunca manifestou interesse por ele e, num belo dia, um dia perfeito – diga-se de passagem –, ele enfim me notou.
Quando finalmente fui pedida em namoro, a felicidade foi tanta que juro que vi estrelinhas e coraçõezinhos por todos os lados. Foi em uma noite de Natal. Havíamos discutido, porque ele havia cismado com um vestido que eu estava usando e, no fim, fui pedida em namoro. Uma noite de sorte, na verdade. Pelo menos esse era o meu pensamento na época. Durante aqueles tempos, eu sentia literalmente que vivia um conto de fadas por estarmos juntos. No começo, foi perfeito! Mesmo com o ciúme excessivo e a forma como isso afetava nas minhas amizades e nas minhas roupas, mas com o tempo, o jeito mulherengo dele começou a me incomodar. E foi nesse momento, que eu comecei a perceber que o conto de fadas, parecia livros de terror. Hoje, eu me sinto quebrada, porque ele levou tudo de bom que existia em mim: o meu primeiro amor, a minha primeira transa e a minha primeira desilusão amorosa.
As meninas não fazem ideia, mas foi ele quem terminou comigo pela última vez. Ele arranjou uma nova namorada, e tem saído com ela desde então. A mulher é rica, e ele basicamente vive às custas dela. Esse sempre foi um dos principais motivos para discutirmos: o trabalho dele.
Sim, vocês não entenderam errado.
Há muito tempo, Gustavo deixou de ser motorista dos Delamont e basicamente virou acompanhante de luxo, como ele mesmo passou a se intitular.
Sempre foi desse jeito, ele me deixava e ficava com uma mulher rica que o bancasse. Depois que elas se cansavam, ele sempre dava um jeito de voltar para mim. E, como a idiota que sou, sempre o aceitei.
Eu ouvia as suas histórias tristes, os seus pedidos de perdão e até mesmo suas juras de amor. Eram sempre as mesmas desculpas.
Mas o que eu poderia fazer? Estou sozinha nessa cidade, as minhas irmãs mais novas moram em São Paulo e minha mãe também. Eu ainda não consegui trazê-las. Vim para o Rio estudar e tentar algo melhor, porém, o melhor está demorando demais. Sempre tento ajudá-las como posso, enviando quantias consideráveis por mês e elas se viram como podem. Leandra tem dezenove anos e Maria Quitéria dezessete. Lê já trabalha em casa de família enquanto Kika continua estudando. Minha mãe, dona Cecília, já se aposentou e não aguenta mais trabalhar devido à idade. E, sinceramente, prefiro que ela não trabalhe. Enquanto eu puder, irei ajudá-la no que for preciso e retribuir tudo o que fez por nós. Ela nos criou sozinha depois que nosso pai faleceu e nossos avós paternos nos deram as costas.
- Desculpe, amiga, as vezes esqueço de como você é sensível. - Luce fala fazendo-me sorrir fracamente.
- Não, você está certa, preciso mesmo de algo que me deixe contente! Que tal uma noitada, sábado à noite?
- A três? - Luce se levanta e começa a dar pulinhos animada.
- Ei, eu tenho cinco pestinhas para criar, tá! - Laura emenda rindo.
- Ah, para de graça, Lau, cê tem a Damiana e mais quinhentos empregados naquela casa, sem contar que tem duas babás. Dê um pouco de trabalho para elas. Alice e os gêmeos nem são mais tão pequenos assim. - Luce retruca.
- Tá bom... Vou falar com Nick e fazer a cabeça dele, mas não acho que ele vai aceitar isso muito bem. No mínimo, vai aparecer lá de supetão para ver se estou bem ou se algo aconteceu comigo. - Laura fala rindo, e eu concordo.
Nick é superprotetor demais.
Nick e Laura são casados e possuem cinco filhos: Alice, Dora e Felipe do primeiro casamento dele; Vitória é filha do segundo casamento e Nick Junior é filho dos dois. Para encurtar a história, Nikolas vivia num casamento de aparências com Sophia Delamont, e eu e Laura trabalhávamos para eles. Nick vivia depressivo por causa da morte de sua primeira esposa e, com a chegada de Laura, mudou drasticamente. Ele se apaixonou por minha amiga e, depois de muitos problemas e desentendimentos, enfim conseguiram ficar juntos. Fim!
Ah, não! Tinha fantasmas também.... Mas a minha amiga não gosta muito de falar sobre disso...
- Tá bom, vou falar com Dani também. - Luce refere-se ao próprio namorado. - Agora vou voltar, gente, beijos e amo vocês. Até sábado! - A morena grita eufórica. - Tchau, Nick, manda beijo para titia! - ela fala com o meu afilhado, que tenta beijar o telefone.
- "Tau titia!" - ele fala sua língua de bebês.
- Tchau, amiga! - Laura e eu dizemos juntas e desligamos em seguida.
Passamos uma tarde animada e, depois de um tempo, um dos motoristas de minha amiga vem buscá-la. Assim que ela sai, vejo-me mais uma vez sozinha rezando para que dê tudo certo no dia seguinte. À noite, resolvo preparar um jantar leve e, depois de tomar uma sopinha de legumes, me jogo uma ducha quente, resolvendo me deitar em seguida. Recosto-me na cabeceira da cama, lembrando-me dos momentos quentes que passei com Gustavo aqui. Pego o meu Kindle e começo uma leitura aleatória, porém, sou impedida de continuar, uma vez que ouço a campainha tocar insistentemente.
Levanto-me com calma e coloco um roupão de seda que ganhei de Laura. Calço um par de chinelos encaminhando-me posteriormente até a porta.
Observo através do olho mágico e vejo Gustavo do outro lado. Meu coração acelera e sinto as minhas pernas fraquejarem. Encosto as costas na porta e fecho os olhos, escutando a campainha voltar a tocar. Sinto a minha respiração entrecortada, lembrando-me de nossa última vez juntos. Da forma rude como ele falou que me amava, mas que não poderia continuar com uma simples empregada doméstica.
Ele não pode fazer isso comigo. Não agora! Não de novo!
- Abre para mim, Duda! Eu preciso de você. - Ele desfere socos na porta, deixando-me nervosa. - Se não abrir, juro que vou arrombar essa porra dessa porta!
Pior que sei que ele faria isso, Gustavo é capaz disso e muito mais quando quer algo. Respiro fundo e giro a chave devagar mesmo sem estar convicta disso.
Com ele é sempre assim: na hora que ele quer, do jeito que ele quer. Nunca como eu quero.
Sinto a palma da mão escorregar na maçaneta, devido ao suor frio, e minhas pernas tremulam. Ao abrir a porta, encaro os olhos vermelhos e desfocados à minha frente.
- Por que você está fugindo de mim, Duda? - ele pergunta alto, e noto que bebeu, uma vez que o cheiro de cerveja é nítido. Gustavo parece ainda mais bonito do que há seis meses, quando nos vimos pela última vez.
Ele me puxa bruscamente e olha dentro dos meus olhos. Seus olhos intensos e negros como sua alma.
- E-eu n-não e-estou fugindo!
- Pois acho que está. Por que mudou o seu número de telefone? Tentei te ligar durante a semana toda. - Ele intensifica o aperto em meu braço e seu olhar recai sobre o meu decote.
Fecho os olhos e meu coração acelera mais quando sinto-o inspirar profundamente o meu pescoço. De repente, mais uma vez, uma lembrança insistente começa a me fazer duvidar do poder que achei que tinha sobre mim. Imagens dos seus lábios em torno do meu corpo me causam uma espécie de febre, e sinto a minha pele dormente.
"Você consegue, Duda!" A voz da doutora Marisa me vem à mente, e tento não pensar no maldito dia que deixei de frequentar às reuniões semanais.
- Me dá mais uma chance, Duda. - Tento puxar o ar, pois sinto que estou sufocada.
- E-eu não quero mais, Gustavo! - Abro os olhos e começo a empurrá-lo. - Sai daqui, faz esse favor para nós dois e me esquece!
- Eu adoro quando você faz isso! Só me deixa com mais tesão! - Seu sorriso malicioso me faz tremer mais.
Eu sei o que ele quer. Penso em todas as vezes que precisei ir às reuniões para mulheres com transtornos psicólogos. Mulheres que tiveram términos conturbados e que não conseguiam se libertar disso. Minhas amigas nunca souberam dessa fase, mas em meu último término precisei tomar até remédios para conseguir dormir.
Ele não pede licença para entrar em meu apartamento, e automaticamente dou alguns passos para trás quando vejo-o vir em minha direção. Seus dedos tocam a minha pele e sinto dormência por toda a extensão onde toca. Seu hálito quente me deixa atordoada, e a sensação apenas piora quando sou imprensada contra a parede e seus lábios reivindicam os meus com aspereza e de forma sôfrega.
Minha vontade é de gritar, dizer que não o quero mais, que não aceitarei suas migalhas e que não sou mais aquela garotinha boba que ele tirou a virtude, mas a quem eu quero enganar? Eu não consigo dizer absolutamente nada, nem fazer nada. Sempre foi assim.
Estou há seis meses sem sexo, e seus lábios são convidativos demais. Tanto que não consigo parar de beijá-lo também. As lembranças se misturando com o desejo que está cada vez mais vívido em cada toque. Vejo o momento em que ele fecha a porta atrás de si e começa a tirar as peças de roupas que estou usando. Faço o mesmo por ele, sabendo o quanto é errado, mas a verdade é que, nesse momento, eu não quero mais pensar.
O despertador toca no momento que estou quase conseguindo me aproximar do rapaz em meu sonho. Acordo desorientada, mas ao sentir um braço pesado em torno de mim, as lembranças retornam quase que automaticamente: Gustavo.
Suspiro devagar me sentindo a pessoa mais suja do mundo. Levanto-me lentamente, tentando não fazer muito barulho, ouvindo-o reclamar que ainda é cedo.
- Eu vou trabalhar, Gustavo, você precisa levantar e sair. - Tento parecer categórica. Sei que é tarde demais para me sentir arrependida, mas confesso que talvez não consiga me olhar no espelho.
- Trabalhar? - Ele senta-se, parecendo atordoado, enquanto esfrega os olhos com as mãos. Tento não olhar para o seu peitoral nu. - Vai trabalhar em quê? Não estava desempregada?
- Começo hoje! - falo o mais seca possível e encaminho-me para o banheiro. Ele precisa entender que mesmo que tenhamos transado, não temos nada.
Abro o chuveiro e, enquanto lavo os meus cabelos longos e meu corpo, divago pensando no quanto ele deve pensar que sou idiota. Por que ceder de novo? Por que, sabendo do quanto ele se torna babaca depois? Suspiro pesado enquanto visto um roupão felpudo após sair do chuveiro, notando-o parado no batente da porta com uma carranca no rosto.
Deus! Por que ele precisa ser tão lindo e tão idiota?
- Como assim? - Vai trabalhar aonde? Já disse que você não precisa disso! Eu te sustento, ganho bem para isso! - fala nitidamente irritado, e o encaro incrédula.
- Como assim, pergunto eu. Você quer o quê? Voltar como se nada tivesse acontecido? Nós terminamos, Gustavo! - Tento não chorar, mas meus olhos embaçam.
- Terminamos, mas ontem você bem que gostou, não? - Bufo. - Eu sei que você tá puta comigo, Duda, mas esses trabalhos... – faz aspas com os dedos –, são o que me sustentam, me dão lucro e poderiam te sustentar também, caso quisesse. - Dá de ombros.
- Você é louco se pensa que vou te aceitar de volta e assim. - Começo a secar os cabelos com a ajuda do secador e tomo coragem para me olhar no espelho. Percebo as duas bolas escuras em volta dos meus olhos e resolvo passar um pouco de base e rímel a fim de esconder as olheiras. Deslizo um batom claro em meus lábios para tirar a palidez deles.
- Para que essa porra? - ele aumenta o tom de voz, fato que me deixa assustada. - Vai trabalhar num bordel?
- Como é que é? - encaro-o perplexa.
- Não sabia que pra trabalhar limpando chão, precisava de tanta maquiagem. - Ele tira sua cueca e entra no box, e eu fico encarando-o, perplexa, através do reflexo do espelho.
Gustavo sempre se mostrou irritado quanto a maquiagens, roupas curtas e decotadas que as vezes uso. Tudo o que ele adora nas ruas! Pura hipocrisia.
- Eu não vou trabalhar como doméstica. - falo tristemente. Sinto-me mal por ele pensar que eu só consigo fazer isso na vida.
Ele olha para mim conforme ensaboa o corpo. Seu rosto é um misto de autoridade e curiosidade e, quando percebe que não mudarei de opinião em relação a maquiagem, bufa. Se fosse noutra época, eu com certeza retiraria a maquiagem para não o chatear, mas hoje em dia não penso mais dessa forma.
Após o banho, noto que ele está vestido com a mesma roupa do dia anterior e encaminha-se emburrado para fora do quarto enquanto termino de me arrumar. Ando devagar até a cozinha, sentindo o aroma convidativo de café, e vejo-o servir duas xícaras assim que me aproximo do cômodo. Pego uma delas conforme ele continua:
- Então vai trabalhar aonde, Duda? Não acha que tá arrumada demais, não? - Assisto seus olhos descerem pela blusa branca social que estou usando e a saia lápis que escolhi para o meu primeiro dia.
- Demais? - encaro-o enquanto puxo o ar devagar. - É isso que te incomoda? Me ver trabalhando em algo novo e que não seja limpando casa?
Sinto a minha cabeça latejar ao ver a respiração dele se desregular. É a primeira vez que o contrario e não tenho certeza se foi uma decisão sábia.
- Vou perguntar somente uma vez, Duda. No que vai trabalhar? - ele fala cada palavra pausadamente aproximando-se devagar com olhos raivosos. A coragem recém-adquirida por mim torna-se quase nula quando vejo-o tomar a caneca de minhas mãos trêmulas, colocando-a em cima da mesa à medida que toma a minha cintura para si.
- V-vou tra-trabalhar n-na mi-minha área numa empresa de advocacia no Centro do R-rio.
- Você sabe que é minha, não sabe? - Ele beija os meus lábios de forma animalesca e não consigo me desvencilhar. Sinto seus dedos se afundarem na minha pele e não consigo formular uma frase sequer; as palavras parecem se engasgar na minha garganta. Queria conseguir expulsá-lo daqui, mas simplesmente não consigo.
Sinto as lágrimas apontarem nos meus olhos, e ele parece notar ao olhar dentro dos meus olhos, porque seu semblante muda drasticamente e seu sorriso, antes malicioso, torna-se complacente.
- O que foi, linda? - Gustavo desliza seus dedos suavemente pelo meu rosto, enxugando cada gota que tenta cair pelas minhas bochechas. - Eu estou de volta, meu bem, tudo vai ser como era antes.
- Gustavo, eu preciso mesmo ir. - falo pausadamente sentindo uma sensação desconfortável no peito.
- Eu sei. Só não esqueça... - Ele me dá mais um beijo estalado nos lábios. - Você é minha!
Gustavo pega uma maçã na fruteira e sai do meu apartamento logo em seguida.
Assim que vejo-o sair, respiro com mais tranquilidade. Sinto-me completamente desconfortável com a situação e com a mania que ele tem de aparecer quando bem entende e de desaparecer com a mesma proporção. Sinto-me acuada, perdida como há muito tempo não me sentia e, principalmente, sentindo-se coadjuvante em minha própria história. Minha vida não pertence mais a mim, pertence ao algoz que continua assombrando-a e tornando todas as minhas certezas em incertezas.