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Anjo Sombrio - Irmãos Dvorak - Livro II

Anjo Sombrio - Irmãos Dvorak - Livro II

Autor:: Gray Queen
Gênero: Bilionários
Uma mulher marcada por um relacionamento violento. Um homem marcado por um erro do passado. Um encontro capaz de mudar suas vidas. Matteo é um homem fechado que guarda suas dores e sentimentos para si. Enquanto Ayla é uma mocinha em busca de um recomeço. Em "Anjo Sombrio", o recomeço não precisa ser doloroso. Lembranças não ofuscam o prazer, e o amor está a um ramal de distância. Te convido a conhecer os Dvorak. *É necessário ler o primeiro livro para entender algumas partes desta história.

Capítulo 1 I

Ayla Garcia

- Você enlouqueceu, minha filha? O que pensa em fazer se deixá-lo? O que vai comer? Onde vai morar? O seu pai não vai permitir que volte para casa e ...

- Mãe, eu não estou feliz. Ele me bate por qualquer motivo.

- Isso é normal. Acha que é a única? Os homens são assim, precisam extravasar a tensão do dia de...

- Eu não acredito que estou ouvindo isso. - Levantei indignada. Estávamos sentadas no sofá da sala da casa dos meus pais.

- Seu pai fez isso várias vezes e nem por isso o deixei. Somos felizes.

- Não são não. - Fiquei abismada. Como nunca percebi que algo assim acontecia. Enquanto andava de um lado para o outro na sua frente, recordei vários momentos que sugeriam os maus-tratos; as constantes marcas no rosto e corpo dela que geralmente aparecia e era associadas a tombos. Imaginar que minha mãe suportava a dor de uma agressão constante doeu muito. - Isso não é normal e não vou agir como se fosse. Eu posso trabalhar, não sou nenhuma inútil.

- Quem você acha que vai te dar emprego nessa cidade? Você vai ser considerada uma adultera. Ninguém vai querer sequer estar perto. Estamos em uma cidade pequena, com pensamentos ultrapassados.

- Então eu vou embora. Posso conseguir trabalho na casa de alguma família longe daqui, pelo menos até conseguir algo melhor.

- Você não está pensando direito, filha, só volte para sua casa e seja uma boa esposa.

***

Acordei com a sensação do ônibus parando. Agradeci mentalmente por acordar e estar longe daquele pesadelo. Naquele dia, eu saí da casa dela aos prantos. Isso aconteceu muito depois da primeira vez que Roberto me agrediu. Eu esperava que não fosse acontecer novamente, mas depois da terceira vez, decidi dar um basta e visitei a casa dos meus pais e contei para minha mãe o que vinha acontecendo. Naquele dia me perguntei se realmente era algo comum, com o qual eu teria que me acostumar. Demorou para "cair a ficha" que minha mãe estava errada, não só em aceitar aquilo como normal, como ao me deixar literalmente viver as mesmas dores que viveu. Se morar com um homem significava se entregar a todo tipo de tortura eu poderia muito bem viver sozinha, não existia sexo que valesse a minha paz de espirito, muito menos minha saúde física. Se não era possível trabalhar e refazer minha vida na cidade onde nasci, faria em outra. Lutaria com todas as minhas forças. E seria feliz. Eu não seria como minha mãe.

A pessoa ao meu lado se levantou e começou a pegar suas coisas no bagageiro sobre nossas cabeças. Foi só assim que percebi que o ônibus havia não só parado, mas que chegamos em algum lugar de desembarque.

- Já estamos em São Paulo? - perguntei para a moça que viajou ao meu lado.

- Sim. Estamos no Terminal Rodoviário Tietê.

- Obrigada. - Era exatamente o meu ponto final. Pelo menos pelos próximos minutos, pois ainda faltava muito para chegar à casa de Helena.

Levantei também e peguei minha única mala, pequena o bastante para viajar comigo. Vez ou outra olhava ao meu redor, como se alguém pudesse aparecer de repente e me levar de volta. Só de pensar nisso meu corpo doía onde estava ferido. Segurei as lágrimas e peguei os transportes necessários para chegar até onde minha amiga de colégio morava.

Ela me esperava no ponto de ônibus. Não havia mudado muito apesar de ter passado tantos anos. Seus cabelos ainda era longos e negros, sua pele morena, desde a primeira vez que a vi que a comparo com as figuras de índias nos livros de história. Vê-la me fez recordar da nossa infância, de como éramos felizes e inocentes. Meus olhos se encheram de lágrimas com a saudade.

Ela veio correndo e me abraçou com força. Até tentei disfarçar a dor que seu abraço causou, mas ela percebeu.

- Não acredito que aquele miserável teve coragem de te machucar - falou indignada.

Lembrei da nossa conversa por telefone, onde expus brevemente o pesadelo que se tornou a minha vida com o meu companheiro.

- Eu tenho medo de te prejudicar vindo para a sua casa - confessei. Não tinha ideia se Roberto era louco o bastante para tentar me encontrar, mas no fundo sentia que essa possibilidade não era infundada. Alguém como ele poderia ser capaz de qualquer coisa.

- Gata, meu marido é policial e está louco para colocar aquele crápula atrás das grades. Ele odeia homem que machuca mulheres, crianças, idosos, qualquer um mais fraco. - Sua voz demostrava todo o orgulho que sentia do marido e todo o asco que dedicava a pessoas como Roberto.

- Fico que feliz que esteja casada com alguém assim. - Suspirei lembrando que os primeiros meses com Roberto foram incríveis, ele me tratava com rainha. Foi só um ano após começarmos a morar juntos que ele começou a se mostrar. Bebia demais e reclamava demais, e reclamar se tornou pouco, só se acalmava depois de descontar sua frustração em mim. E eu, idiota, nunca pensei em revidar. Afinal, a bebida o deixava assim, e ele passava os dias seguintes se desculpando e me mimando.

- E logo você também vai encontrar um homem de verdade que vai te fazer esquecer tudo aquilo.

"Obrigada" era uma palavra muito fraca diante do que Helena fazia por mim, então simplesmente a fiz parar de andar, coloquei a mala no chão e a abracei com força, ignorando qualquer dor. Se não fosse o apoio dela, acho que estaria morta nas mãos de Roberto. Ela foi a pessoa que me estendeu a mão, que me ofereceu refúgio.

***

A casa de Helena era um pequeno sobrado pintado de azul. Nos aproximamos e vi o homem baixo e corpulento com um menininho de uns dois anos tentando saltar do seu colo.

- Amiga, esse é o meu marido Michael e o nosso filhotinho Gabriel. Amor, essa é a minha amiga Ayla.

- Seja bem-vinda, Ayla. - Sua voz era grave. Devia impor respeito diante dos marginais que prendia. Isso devia compensar o fato de que era quase da minha altura.

- Obrigada! - respondi timidamente. Preferia que a primeira vez que visse o marido da minha amiga fosse em uma situação diferente.

Entramos e Helena me instalou em um quarto com uma cama de solteiro e um guarda-roupa. O quarto tinha a parede pintada com ilustrações de desenhos animados, foi o que me fez perceber que estava usurpando o quarto do pequeno Gabriel.

Apesar da boa vontade deles, eu não podia abusar e, no mesmo dia em que cheguei, pedi a Helena para me emprestar o computador. Precisava de trabalho urgente.

Ela falava o tempo todo que eu precisava descansar, que podia procurar um trabalho depois que estivesse menos dolorida, mas insisti. Já tinha um mês desde a última vez que Roberto me feriu. Ele devia estar esperando o meu corpo se recuperar para começar novamente. Pois morrerá esperando, desgraçado!

Quando encontramos o anúncio das vagas na Dvorak, ela me contou sobre a fama deles em tratar os funcionários com um membro da família e me mostrou várias reportagens sobre eles em sites importantes. Me inscrevi em uma das vagas de secretária, pois tinha experiencia em carteira, trabalhei dos dezoito até os vinte e cinco como secretária do único dentista da cidade. Só sai porque Roberto me obrigou dizendo que eu estava tendo um caso com o meu chefe. Foi aquela a primeira vez que ele me bateu. Eu devia ter dado um basta naquele dia, mas achei que a culpa foi minha - por sei lá qual motivo - e continuei achando que a culpa era minha todas as vezes. E quanto mais me esforçava para não atiçar sua ira, algo sempre acontecia.

A todo momento meus pensamentos se desviavam para tudo o que vivi nesses quatro anos em que estive com Roberto. Perdi o perdi o emprego, perdi o dom de sorrir com sinceridade, perdi peso, perdi a paz de espirito... e assim vai uma imensa lista de perdas que será difícil de recuperar, mas que estou disposta a tentar. Pelo menos eu ainda estava viva, teria uma segunda chance.

Deus, eu te imploro que me conceda essa chance. Pedi enquanto aguardava a primeira entrevista para o processo seletivo na Dvorak.

***

Apesar de estar suando frio e com as mãos tremulas de nervosismo, fiz um boa entrevista. A pessoa que me entrevistou se chamava Juliet e foi muito gentil. Perguntou sobre a minha experiencia e motivo de estar em uma cidade como São Paulo. Fui sincera contando sobre o que fazia no consultório e contei que estava na cidade em busca de uma vida melhor. Ela também me perguntou se eu tinha filhos ou algo que me impedisse de viajar com o CEO caso fosse necessário. E respondi que estava a disposição. Pretendia fazer alguns cursos para aperfeiçoar meus conhecimentos, mas sempre encaixaria com meus horários na empresa. Por fim, ela agradeceu e me pediu para aguardar um telefonema. Eu já tinha um celular, Helena me emprestou um dos dela, pois o marido tinha dado um novo modelo no último natal e ela estava com três. Segundo ela, guardando para quando fosse no interior levar para alguns primos que não poderiam comprar.

Quando o telefonema aconteceu quase tive um treco de alegria. Fui contratada. Começaria na próxima segunda-feira. Meu novo ano começaria oficialmente no dia vinte e cinco de fevereiro. Deus ouviu as minhas preces e me ajudou a ser escolhida entre tantas pessoas tão experientes quanto eu, ou talvez até mais.

Eu já respirava mais aliviada depois de alguns dias. Já não olhava mais para todos os lados como se Roberto fosse aparecer do nada. Só os pesadelos que eram constantes. As lembranças dos piores momentos.

A segunda chegou rápido. Helena me ajudou a me arrumar com uma das roupas que trouxe comigo, da época em que trabalhava no consultório, e seguimos juntas para o ponto de ônibus. Ela dava aulas em um bairro vizinho e seu marido ficava com o pequeno Gabriel até a mãe dela chegar. Sua mãe cuidava da casa e da criança e era paga por isso. Segundo ela, não tinha sentido pagar a estranhos por algo que ela podia fazer.

O meu ônibus chegou primeiro. Depois dele pegaria trem e metrô até chegar a Dvorak, no centro da capital. De Franco da Rocha até lá era uma pequena viagem.

O medo que senti de me atrasar e perder a vaga antes mesmo de começar passou assim que entrei no imponente edifício da empresa. Em pensamento, prometi a mim mesma que sairia mais cedo nos próximos dias e que assim que tivesse condições devolveria o quarto do Gabriel e alugaria um lugar mais próximo à empresa.

A recepcionista simpática me mostrou um grupo de pessoas e me orientou a aguardar com eles. Me aproximei do lugar, ficando um pouco afastada. Até que vi uma mulher chegando e se aproximando do grupo. Ela foi ousada e cumprimentou a bela morena que também esperava. Quando vi aquilo me recriminei por me esconder quando deveria conhecer pessoas e começar uma nova vida. Em um rompante - antes de perder a coragem -, me aproximei delas e me apresentei. Foi um alivio perceber que eram pessoas boas e logo estávamos conversando com mais pessoas do grupo. Até que a mesma mulher que me entrevistou apareceu e apresentou dois homens que pareciam saídos de novelas. Eram tão belos que nem pareciam reais. Os olhos deles... Eu nunca esqueceria olhos tão lindos e singulares. Nem sabia que era possível ter olhos cinzas.

Apesar do susto inicial, a impressão sobre a beleza passou rápido. Eu estava tão intimidada com tudo que mal prestei atenção nos dois homens que falavam. Eu queria absorver as palavras deles e não ver se eram bonitos ou não. Já sabia que homens de novelas só namoravam mulheres de novelas. As fofoqueiras do salão de beleza na minha cidade sempre falavam sobre isso. Então para que sonhar que um daqueles homens poderia ofuscar o pesadelo que estava em meu coração?

Depois das poucas semanas morando em Franco da Rocha, também fui capaz de entender como tudo é diferente, mais rápido, com menos sentimento. Não que eu estivesse acostumada a qualquer sentimento além de dor e tristeza, há anos não tinha nada além disso. E a cidade nem era grande, comparado a capital onde ficava a Dvorak, mas comparado de onde vim parecia gigante.

Por poucos segundos recordei da minha vida na minha pequena cidade e cheguei a sentir saudade. Foi por poucos segundos. Logo a imagem de Roberto se formou na minha mente levando a saudade da minha antiga vida.

Quando vi os dois homens se afastando, me senti perdida. Eu não seria a secretária de um deles?

Fiquei parada em um canto esperando enquanto via os outros seguirem seus rumos, com medo de que a minha contratação tivesse sido um engano e eles me mandassem embora.

E agora, o que faço?

Capítulo 2 II

Matteo Dvorak

Anos antes

- Vamos trocar de lugar, agora você vai dirigir. - A voz do meu tio saiu mole por causa do excesso de álcool.

- Não. Amanhã. Já está escuro - aleguei sentindo o medo de errar ser mais forte que o de arriscar.

- Só uma volta - disse já parando o carro e tirando o cinto. - Não tenho sobrinho covarde.

Ele saiu do carro. Ainda tentei insistir, mas me vi no volante com meu tio ao lado ditando o que eu tinha que fazer para dirigir.

Apesar dele dar mais atenção a garrafa de cerveja que bebia, estava tudo indo bem até que vi Maria atravessando a rua. Era para eu diminuir a velocidade, mas o carro acelerou de uma vez.

Olhei para baixo e pisei no freio.

- Olha para frente! - meu tio gritou nervoso.

Apavorado olhei para frente ao mesmo tempo em que ele gritava para eu colocar o pé no freio e empurrava o meu pé. E o carro acelerou outra vez... e aconteceu. Foi tudo rápido, quando dei conta o corpo voava sobre o carro.

Dias atuais

Gael muitas vezes me tirava do sério. Eu não sou como ele, não sou como Apollo. Sempre fui na minha, e talvez tenha ficado ainda pior depois daquele acidente. Meus pais me falaram para eu não me culpar, mas era impossível, mesmo que fingisse que não me afetava para não preocupá-los. Acidente ou não, eu matei alguém. Uma pessoa cheia de vida que nunca mais sorriria ou sofreria. Isso matou algo em mim.

Tentei seguir com a minha vida, juro que tentei. Até me apaixonei pela primeira vez, o que foi uma grande decepção. A garota era fácil demais, ao ponto de ser pega transando com meu primo, filho da mulher que matei. Zeen me odiava e imagino que tenha feito aquilo só para me machucar. Estava no seu direito. Mas isso também mexeu comigo. Eu era um adolescente, tinha perdido a minha virgindade com ela. E por causa desse incidente fechei o meu coração e todas as mulheres com as quais sai eram profissionais ou interesseiras. E eu sempre deixei claro que elas nunca seriam nada para mim, somente uma fonte de prazer descartável. Feio, não é? Eu devo ser um monstro. Ou não. Elas não são obrigadas a nada.

Elas nem eram as que mais me irritava. Gael estava em primeiro lugar. Não leve a mal, eu amo o meu irmão, mas quando ele me olha tentando me decifrar tenho vontade de socar o seu rosto. Por ser alguns míseros minutos mais velho, acha que está no direito de cuidar de cada passo dos seus irmãos. Estou pensando seriamente em seguir o exemplo de Apollo e sair pelo mundo me divertindo e me encontrando. Tenho certeza que meu irmão mais "velho" dará conta de tocar a Dvorak sem nenhum problema.

Como acordei de péssimo humor, mal terminei o café da manhã e me levantei. Estava saindo da sala de jantar quando me lembrei das novas contratações.

- Você vai querer que eu esteja ao seu lado quando for receber os novos contratados? - perguntei.

Eu já sabia a resposta, mas fiz questão de perguntar:

- Óbvio! Mesmo que você não diga nem cinco palavras, acho essencial.

Só balancei a cabeça concordando e sai. Queria passar na banca e comprar jornais antes de ir para a empresa. Era trabalho da minha secretária, só que estávamos em transição para uma nova. A última teve que sair por exigência da família - marido que queria a esposa em casa depois do casamento - e a provisória não parecia ter esperança de efetivar. Só podia ser isso, porque ela não fazia nada direito.

Quando cheguei na empresa, não demorou e Gael e eu tivemos que receber os novos membros da família Dvorak.

Enquanto meu irmão fez um pequeno discurso, apenas dei as boas-vindas quando me passou a palavra. Sei que ele ficou com raiva, mas preferi evitar falar, pois não era muito bom com as palavras quando acordava de mal humor.

Logo saímos do saguão em direção às nossas salas. Foi só quando entrei na minha sala que percebi que levei comigo o sentimento de que algo estava faltando. Demorou alguns segundos para eu perceber que o problema era a mesa da minha secretária... vazia.

- Droga! - resmunguei batendo o punho fechado na mesa onde a minha secretária nova deveria estar.

Entendi a merda que fiz, afinal não sou tão monstro assim.

Podia esperar que alguém a trouxesse, mas resolvi voltar e buscá-la. Seria péssimo deixar a pessoa que praticamente seria a minha sombra na empresa chegar no primeiro dia e ficar jogada esperando alguém disposto a orientá-la a onde ir. Era esperar demais que ela andasse com uma foto minha e adivinhasse o andar onde trabalharia. Merda!

Quando sai do elevador, a vi. Só podia ser ela porque não havia mais ninguém com ar de novato.

Ela estava encolhida no canto e a Juliet ia em sua direção, mas desistiu ao me ver. Acho que queria saber o que eu faria antes.

Diferente da mulher na foto do currículo que vi alguns dias atrás, Ayla Garcia parecia magra e tímida demais. Vê-la encostada na parede com um olhar perdido em direção a Juliet, o jeito como torcia as mãos uma na outra... Não sei. Ela despertou o meu lado protetor.

Ela viu que Juliet me encarava e desviou para mim o seu olhar cheio de expectativa. Um olhar assustado e meigo.

- Senhorita Garcia, desculpe deixá-la para trás. Foi um erro causado pela minha distração - disse parando perto dela e indicando com um gesto da mão para caminharmos em direção ao elevador. Era nosso trabalho orientarmos nossas secretárias, afinal assim elas aprenderiam nosso jeito de trabalhar bem mais facilmente.

Ela começou a caminhar na direção indicada. Não me passou despercebido o fato de que suas mãos tremiam, muito menos que o seu vestido social cinza e preto era muito maior que o seu número. Ela parecia perdida dentro daquele tecido.

Apesar de tudo, era uma bela mulher. Seus cabelos loiros e lisos iam até os ombros em um corte repicado e seus olhos eram de um verde que se assemelhava a uma esmeralda bem lapidada. Devia ficar um arraso se cuidasse mais da beleza que possuía.

- Não tem que pedir desculpas, senhor Dvorak. - Sua bela voz, baixa e suave, me tirou da análise.

- Me chame de Matteo, é a principal regra para trabalhar comigo - comentei tentando melhorar o clima de primeiro dia.

- Sim senhor - respondeu simplesmente.

- Me acompanhe. Vamos ao trabalho - disse assim que a porta do elevador se abriu.

Esperava sinceramente que o jeito tímido dela não atrapalhasse no trabalho. Os poucos dias com uma secretária ruim já foram suficientes. E se ela fosse realmente um bichinho assustado, fugiria na primeira conversa de corredor que escutasse. Afinal, meu jeito introspectivo causa muitos comentários, sei bem o que falam por ai. Segundo dizem; eu sou o irmão sombrio, Apollo o bon vivant e Gael o poderoso chefão.

Capítulo 3 III

Ayla Garcia

O dia foi bem longo e tenso. Matteo Dvorak mexia comigo de um jeito estranho. Ele me deixava nervosa. Nunca tinha visto olhos como os dos irmãos Dvorak, e ele era muito grande, fazia eu me sentir um criança ao seu lado. E ainda tinha que lidar com o fato de que vez ou outra me pegava imaginando como seria beijá-lo. Um pensamento idiota para alguém que acaba de literalmente fugir de um relacionamento.

Eu tentava agir profissionalmente e sorrir sempre que podia. O bom de o dia ter sido tenso é que nem parei para pensar no meu passado.

No fim da tarde, ele passou pela minha mesa, desejou um bom descanso e se foi.

Desliguei o computador, peguei as minhas coisas e suspirei enquanto me dirigia ao elevador.

Foi no elevador que encontrei Rubia. Conversamos um pouco e na saída também encontramos Dominique. Rubia se foi com o seu namorado, depois de nos avisar para não perdermos nosso emprego porque queria continuar nos encontrando. Helena me falou tudo que sabia sobre a empresa e eu já sabia que não podia errar ou a minha vaga estaria nas mãos de um dos muitos desesperados por uma.

Dominique foi comigo até a estação e seguimos em direção diferentes.

Enquanto seguia até a casa de Helena, meu coração se mostrou mais leve. Algo me dizia que minha vida seguiria por melhores caminhos e que Rubia e Dominique seriam importantes em minha vida. Havia me sentido ligada a elas desde o primeiro momento. Era isso que estava faltando em minha vida, amizade, liberdade, amor-próprio, e mais algumas coisinhas. Eu conquistaria tudo com esforço e dedicação. E não fugiria de amar outra vez. Deixar Roberto ser a única lembrança do que é um relacionamento amoroso estava bem longe dos meus planos. Se eu tinha medo de viver aquilo tudo novamente? Claro. As feridas não estavam completamente cicatrizadas, nem no meu corpo nem na minha alma. Mas eu tinha mais medo de perder as esperanças e mais medo ainda de nunca ter a família que sempre sonhei.

Suspirando, olhei para o teto do metrô. E agradeci.

"Deus, obrigada por me trazer até aqui."

***

Os dias passavam e eu estava cada vez mais acostumada com o trabalho. Quase sempre via a Rubia, que me ajudava a fazer o meu trabalho. Ela se sentia inútil sendo secretária de alguém que não vinha trabalhar.

No fim de semana Helena me levou para uma volta no Parque Municipal Benedito Bueno de Morais. Foi um sábado maravilhoso. Helena e seu marido pareciam muito felizes, era a típica família de comercial enquanto brincavam com o pequeno Gabriel. Olhá-los me faziam lembrar do filho que perdi. Doía pensar que uma vida foi ceifada por causa da maldade e ciúmes de Roberto, mas imaginar que uma criança poderia sofrer o mesmo que eu me faz agradecer a Deus por levar o meu anjinho ao céu logo nas primeiras semanas. Se é um pensamento cruel... Não sei. O que sei é que uma criança poderia morrer se tivesse passado pela metade do que sofri. As palavras de Roberto sobre o que faria com um filho que tivéssemos me congelava.

"Eu me casei com você para ter uma mulher para fazer comida e ser comida, não para sustentar nenhum catarrento. Engravida para você ver o que faço com "a coisa". Meus cães adoram carne."

Lembrar daquilo era mais assustador do que lembrar da surra que levei naquele dia, por simplesmente dizer a ele que poderia estar grávida.

***

Na segunda feira fui trabalhar com um animo a mais. Queria ver Rubia e Dominique. E qual não foi a minha surpresa quando Rubia chegou na minha mesa quando eu estava saindo para o almoço.

- A Dominique foi demitida - disse triste.

- O que? Por que? - perguntei incrédula. De nós três, Dominique era a que tinha o melhor cargo e se mostrava tão feliz ao falar do seu trabalho.

- Segundo as fofocas dos corredores, ela chegou atrasada sem justificativa válida.

- Você tem algum telefone, e-mail, endereço dela? Não queria perder o contato.

- Não tenho nada, mas pode deixar que dou um jeitinho e consigo com alguém do setor dela ou do RH. Agora vamos almoçar que estou faminta. Com um belo bife na minha frente consigo raciocinar melhor. - Colocou a mão na barriga para ilustrar o quanto estava com fome. Rubia era linda até fazendo careta.

Fomos almoçar e acabamos não tendo a chance do nos falar mais naquele dia.

Fui para casa pensando se realmente perderia o contato com Dominique. Ficaria muito triste. Já sentia que éramos amigas.

Para meu alivio, antes que Rubia conseguisse os contatos de Dominique, ela reapareceu na quarta-feira com a novidade que seria readmitida. Uma novidade maravilhosa. Almoçamos juntas e marcamos de ir a um bar. Seria a primeira vez que eu sairia desde que cheguei em São Paulo. Liguei para Helena e ela ficou muito empolgada.

O namorado de Rubia nos levou e nos deixou no bar. Isso depois de se despedir com um beijo de cinema prometendo que voltaria após terminássemos nossa reunião de meninas.

Rubia e eu estávamos curiosas para saber o que aconteceu com nossa amiga, então quase cai quando a ouvi dizer:

- Eu caí na lábia do Dono do mundo... Foi isso. Cai na lábia dele e por causa de um mal-entendido besta me atrasei e fui demitida, mas ele resolveu.

Claro que exigimos maiores explicações e detalhes. Saber que nossa amiga estava envolvida com um dos trigêmeos mais desejados da América Latina era uma novidade e tanto. Nem preciso dizer que pesquisei tudo que podia sobre a família e a empresa depois que comecei a trabalhar na Dvorak.

Nos divertimos naquela noite. E no fim, o namorado de Rubia voltou e nos levou para casa.

No dia seguinte, voltamos a rotina nos nossos trabalhos.

Sendo que na minha rotina estava inserido ser tola e sonhar com meu chefe. Ele era muito surrealmente lindo e sua gentileza para comigo me fazia viajar. A imaginação não teria nada de perigoso, enquanto não saísse da minha mente.

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