Everleigh Roman acordou com uma dor de cabeça lancinante por causa da luz do sol.
Ela gemeu, virando-se na cama.
Sua bochecha roçou em algo incrivelmente macio. Cetim fresco, escorregadio e caro. Não a mistura de algodão que tinha em sua cama no minúsculo apartamento estúdio do qual estava sendo despejada.
Ela estendeu a mão às cegas para o copo de água que deveria estar em sua mesa de cabeceira. Seus dedos roçaram em mogno, depois em papel. Papel grosso e texturizado.
Evie abriu um olho com dificuldade. O quarto girou, um caleidoscópio de bege e dourado. Ela forçou sua visão a focar no documento sob sua mão.
Certidão de Casamento.
Seu coração bateu com força contra suas costelas, um golpe físico que a deixou sem ar.
Ela se sentou, o lençol se acumulando em sua cintura.
Ela não estava usando seu vestido.
Ela estava vestindo uma camisa social branca, com as mangas arregaçadas, o tecido cheirando a cedro e algo mais sombrio, como chuva no asfalto.
- Não - sussurrou Evie. - Não, não, não.
Flashes de memória a assaltaram. A gala de caridade. O sorriso desdenhoso de Darrin ao dizer que ela era inútil sem ele. O bar aberto. Tanta vodca. E então... um homem. Uma gravata. Ela se lembrava de agarrar uma gravata de seda, puxando um rosto para o seu. Lembrava-se de exigir que alguém a salvasse.
Ela olhou ao redor. Aquilo não era um quarto; era um reino. Janelas do chão ao teto com vista para o Central Park, móveis que provavelmente custavam mais do que a mensalidade da sua faculdade.
Na mesa de cabeceira, ao lado de uma abotoadura de platina que brilhava maliciosamente ao sol, havia um bilhete.
Evie o pegou, sua mão tremendo tanto que o papel chacoalhava. A caligrafia era afiada, agressiva.
Saí a negócios. A noite passada foi... memorável. - G.
G.
Ela havia se casado com um homem cujo nome começava com G.
Ela pressionou a base das mãos contra os olhos, tentando se lembrar de um rosto.
Nada.
Apenas um borrão de um maxilar definido, a sensação de mãos grandes e quentes em sua cintura, e olhos que pareciam o fundo do oceano.
Seu celular vibrou contra a madeira, um zumbido violento que a fez pular.
Ela o pescou de debaixo de um travesseiro que tinha o cheiro dele.
Dezoito chamadas perdidas. Todas de Illa.
Ela deslizou o dedo na tela, levando o celular ao ouvido. - Illa?
- Evie! Meu Deus, você está viva? - A voz de Illa era um grito que perfurou sua dor de cabeça. - Você sumiu! Em um minuto você estava chorando por causa do Darrin perto da escultura de gelo, e no seguinte tinha desaparecido. Você foi sequestrada? Está em uma vala?
- Estou em... um hotel - grasnou Evie. - Illa, acho que fiz uma besteira.
- Que tipo de besteira? Você matou o Darrin? Porque se matou, eu conheço um cara que pode dissolver um corpo.
Evie olhou para a certidão novamente. O selo estava em relevo. Parecia assustadoramente oficial. - Pior. Eu me casei.
Silêncio. Então, o som de algo se quebrando do outro lado da linha.
- Venha. Para. Cá. Agora - ordenou Illa, com a voz mortalmente séria. - Traga o papel. Não fale com ninguém.
Evie desligou e saiu da cama apressadamente. Suas pernas pareciam gelatina, com músculos doendo em lugares que fizeram seu rosto esquentar. Ela vislumbrou seu reflexo no espelho acima da cômoda. Seu cabelo era um ninho de pássaro, e ali, bem na curva de seu pescoço, havia um hematoma. Um chupão. Uma marca escura e possessiva.
Ela esfregou o rosto no banheiro, tentando lavar a vergonha. Encontrou seu vestido da noite anterior jogado sobre uma cadeira, mas o zíper estava rasgado do tecido.
- Ótimo - ela murmurou. - Simplesmente ótimo.
Ela não tinha escolha. Puxou a camisa do homem para mais perto do corpo e pegou o trench coat pendurado na porta. Ele a engoliu por inteiro, envolvendo-a naquele mesmo cheiro de cedro. Parecia ser abraçada por um fantasma.
Sua bolsa estava no aparador. Dentro, enfiado ao lado de seu batom, havia um cartão de crédito preto. De metal pesado. Sem nome, apenas números. E um post-it com uma senha.
Ela o encarou. Isso era um pagamento? Ela era...
Ela enfiou o cartão de volta na bolsa. Não ia pegar o dinheiro dele.
Ela ia consertar isso. Anulação.
Divórcio. O que quer que fosse preciso para apagar esse homem de sua vida antes do meio-dia.
Ela abriu a porta e saiu para o corredor. Estava vazio.
A descida de elevador foi uma eternidade.
Ela observou os números caírem, seu estômago revirando junto com eles. - Você é Everleigh Roman - disse ao seu reflexo. - Você sobreviveu à morte de seus pais. Você sobreviveu ao sistema de lares adotivos. Você sobreviveu ao Darrin. Você pode sobreviver a um erro de bêbada.
O saguão era uma catedral de mármore. Ela manteve a cabeça baixa, agarrando o casaco ao seu redor.
- Sra... Senhora?
Evie congelou.
O porteiro estava estendendo um chaveiro eletrônico. - O cavalheiro deixou isto para a senhora. O sedã preto lá na frente.
Ela olhou para o carro. Era elegante, predatório e provavelmente valia mais do que sua existência inteira.
- Não - disse ela, com a voz trêmula. - Vou pegar um táxi.
Ela passou por ele, saindo para o ar úmido de New York. Chamou um táxi, praticamente mergulhando no banco de trás.
- Para onde? - perguntou o motorista.
- 15 Central Park South - disse ela. A fortaleza de Illa.
Enquanto o táxi entrava no trânsito, Evie agarrou a certidão de casamento em seu colo, com os nós dos dedos ficando brancos.
Ela não sabia quem era aquele homem. Não sabia por que ele concordou em se casar com uma garota bêbada e chorona. Mas ela ia descobrir e, então, ia fugir para o mais longe possível.
Os olhos do porteiro se demoraram no chupão em seu pescoço.
Ela ajeitou a gola para cima e praticamente correu para o elevador.
Illa estava esperando na porta antes mesmo que as portas do elevador se abrissem.
Ela usava um quimono de seda que custava mais que o aluguel de Evie, seu rosto uma máscara de antecipação trágica.
"Para dentro", ordenou Illa, agarrando o braço de Evie e a puxando para o hall de entrada. "Tire os sapatos. Desembucha."
Ela arrancou o envelope da mão de Evie antes que ela pudesse sequer falar. Illa o rasgou, puxando o certificado com a precisão de uma cientista forense.
Seus olhos percorreram o papel. Então, se arregalaram. Continuaram se arregalando até Evie pensar que poderiam saltar do crânio de Illa.
"Everleigh Roman e... Williams?", sussurrou Illa, seu dedo traçando o sobrenome.
O primeiro nome era uma mancha escura e feia. "O que é isto, uma mancha de vinho? Não consigo ler o primeiro nome dele. Mas Williams?"
Evie desabou no sofá branco e macio de Illa. "Eu sei. Ele assinou o bilhete com um 'G'. Tenho o chamado de Gus na minha cabeça. Parece nome de avô. Ou de um negociante de antiguidades."
Illa olhou para Evie, com o rosto pálido. "Evie. Você sabe quem é Williams?"
"Existem mil Williamses em New York", disse Evie, esfregando as têmporas. "Ele provavelmente é gerente de um fundo de cobertura ou algo assim. Ele tinha um quarto legal."
Illa soltou um suspiro que soou como um pneu esvaziando. "Certo. Certo. Claro." Ela riu, um som nervoso e agudo. "Por um segundo, eu pensei... mas não. Isso é impossível."
"Pensou o quê?"
"Meu irmão mais velho tirânico", disse Illa, estremecendo. "O nome dele começa com A, não com G. E, além disso, não o chamamos pelo primeiro nome. Nós o chamamos de 'Senhor' ou 'Por Favor, Não Me Mate'. Ele é um tubarão. Se ele se casasse, estaria na primeira página do Wall Street Journal, e a noiva teria sido aprovada por um comitê de advogados."
"Viu?", disse Evie, sentindo uma onda de alívio. "Não é ele. Meu Gus me deixou um bilhete. Foi educado."
"Meu irmão não conhece o significado da palavra educado", confirmou Illa. Ela caminhou até a enorme janela que ia do chão ao teto e dava para o parque. "Ele mora bem ali. Prédio ao lado."
Ela apontou para o terraço da cobertura adjacente ao dela. Estava separado por um vão de talvez seis metros, perto o suficiente para jogar uma pedra, longe o suficiente para exigir uma ponte.
"Aquele é o covil dele", disse Illa. "Não olhe por muito tempo. Você pode virar pedra."
Evie tremeu, apertando mais o trench coat. "Bem, fico feliz por não ter me casado com ele."
"Você pode ficar aqui", disse Illa, virando-se de volta para Evie. "Seu ex-namorado Darrin provavelmente está de tocaia no seu apartamento. Você está sem-teto e casada. Precisa de uma base de operações."
"Mas... seu irmão está bem ali."
"Ele está ocupado", descartou Illa. "Ele está no meio de uma aquisição hostil de alguma empresa de tecnologia. Ele não pisa naquele terraço há meses. Você estará segura."
Ela levou Evie ao quarto de hóspedes. Era lindo, arejado e, infelizmente, o quarto mais próximo do terraço vizinho.
"Acomode-se", disse Illa. "Vou pegar um pouco de água com mel para essa ressaca."
Assim que ela saiu, o celular de Evie vibrou. Uma mensagem de um número desconhecido.
Acordada? Dor de cabeça?
Seu coração deu um pulo. Era ele. Gus.
Evie digitou de volta, furiosa. Quem é você? Precisamos conversar. Eu quero o divórcio.
A resposta veio instantaneamente. Três pontos dançando na tela.
O divórcio não está na agenda de hoje. Beba um pouco de água. Estou fora da cidade. Conversaremos quando eu voltar.
Evie encarou a tela. A audácia.
Eu não vou esperar, ela digitou. Isso é um erro.
Você não achou que foi um erro na noite passada, ele respondeu.
O rosto de Evie ardeu. Ela jogou o celular na cama bem no momento em que Illa entrou com uma caneca fumegante.
"Com quem você está brigando?", perguntou Illa, de olho no celular.
"Com ninguém", disse Evie rapidamente. "Só... com o Gus."
Illa revirou os olhos. "Gus. Parece nome de encanador. Ou de um golden retriever."
A noite caiu rapidamente na cidade. Depois de um jantar de sushi de delivery que Evie mal conseguiu manter no estômago, ela se retirou para o quarto de hóspedes. Precisava de ar.
Ela abriu a porta de vidro corrediça para a varanda. A cidade zumbia lá embaixo, um rio de luz e ruído. O ar estava frio, mordiscando suas pernas nuas sob a camisa grande que ela ainda usava.
Evie olhou para a esquerda. O terraço vizinho estava escuro, uma laje de concreto e sombra. Illa disse que ele era um tirano. Um monstro.
Então, uma faísca.
Um brilho minúsculo e alaranjado se acendeu na escuridão da outra varanda.
Evie congelou.
Uma figura se destacou das sombras.
Ele era alto. De ombros largos. Estava encostado no parapeito, virado para o parque, com um cigarro na mão.
A fumaça flutuou em sua direção, trazendo aquele cheiro. Cedro. Chuva.
Sua respiração falhou. A silhueta... o jeito como ele estava parado, com o peso em uma perna, os ombros tensos... parecia familiar. Visceralmente familiar.
Ele virou a cabeça.
Evie não conseguia ver seu rosto, apenas o ângulo agudo de uma mandíbula e o brilho dos olhos refletindo as luzes da cidade. Ele estava olhando diretamente para ela.
Pânico, frio e agudo, disparou em seu peito. Era o irmão de Illa? Ou era...
Não. Não podia ser.
Evie recuou, tropeçando no batente da porta, e puxou as cortinas para fechá-las. Seu coração martelava contra suas costelas como um pássaro preso.
"É só o irmão", disse a si mesma. "Só o vizinho assustador."
Seu celular vibrou na cama.
Durma bem, Evie. Os vizinhos podem ser barulhentos.
Ela encarou a mensagem, o sangue sumindo de seu rosto.
Ele sabia. Ele sabia onde ela estava.
Na manhã seguinte, Everleigh estava sentada na ilha da cozinha de Illa, tomando um café, quando seu celular vibrou novamente.
Não era uma mensagem de texto desta vez. Era uma notificação.
Convite para baixar: Enigma.
"O que é isso?", Illa perguntou, debruçando-se sobre o ombro de Evie, com um pedaço de torrada pendendo da boca.
"Não sei. Um convite para um aplicativo."
Illa semicerrou os olhos. "Enigma? Isso é criptografia de nível militar. O servidor fica em um bunker na Suíça ou algo assim. Meu irmão usa. Todos os caras paranoicos de Wall Street usam."
Uma mensagem de Gus apareceu no aplicativo de mensagens normal de Evie.
Mensagens de texto normais não são seguras. Baixe este.
Evie franziu a testa. "Ele é paranoico."
"Ele é rico", corrigiu Illa. "Baixe."
Evie baixou. A interface era austera, em preto e branco.
Sem fotos de perfil. Apenas um contato listado: Gus.
Eu mudei seu número, dizia a primeira mensagem. Para impedir que seu ex ligue. O novo chip está com o porteiro.
Evie ficou irritada. "Ele mudou meu número? Sem perguntar?"
"Maníaco por controle", Illa murmurou, mastigando sua torrada. "Com certeza é rico."
Evie digitou de volta. Você não tem o direito de controlar minha vida.
Eu tenho todo o direito, veio a resposta. Sou seu marido. E guardo rancor de homens que fazem minha esposa chorar.
Evie encarou a palavra esposa. Parecia estranha na tela.
Dez minutos depois, o porteiro entregou um pequeno pacote. Dentro havia um smartphone novinho em folha, de última geração, e um cartão SIM.
Evie trocou os chips. O silêncio foi imediato. Chega de enxurrada de mensagens de ódio de Darrin. A sensação era... mais leve.
O aplicativo Enigma apitou.
Para me desculpar pela decisão unilateral, e para demonstrar sinceridade, você precisa de um anel.
Evie revirou os olhos. Nós vamos nos divorciar. Eu não preciso de um anel.
Enquanto estivermos legalmente casados, você usará meu anel, ele escreveu. É uma questão de princípio para mim.
"Uma questão de princípio?", Illa zombou, lendo por cima do ombro de Evie. "Ok, isso é estranhamente formal. Talvez ele seja um primo distante? Tipo, um primo de terceiro grau, duas vezes afastado, que tem uma concessionária de carros em Jersey?"
Você é mandão, Evie digitou.
Um momento depois, um arquivo de áudio apareceu no chat.
Ela apertou o play.
"Seja boazinha, Evie."
A voz era baixa, rouca. Era a voz do quarto de hotel.
O rosto de Evie ficou vermelho como um pimentão.
Illa pegou o celular. "Toque de novo."
Ela ouviu, seus olhos se arregalando. "Ok. Essa voz? Essa é a voz de um homem que nunca voou na classe econômica. Essa é uma voz de jato particular."
Ela devolveu o celular, com um brilho travesso no olhar. "Vamos testá-lo."
"Testá-lo?"
"Se ele quer te comprar um anel, deixe que compre. Veremos se ele é um vendedor de carros de Jersey ou... outra coisa." Illa pegou o celular de Evie e digitou. Tudo bem. Mas eu quero escolhê-lo.
Vá em frente, Gus respondeu instantaneamente. Me envie o link.
Illa abriu o navegador em seu iPad e foi direto para o site da Harry Winston.
"Illa, não!", Evie tentou pegar o tablet. "Isso é loucura."
"Psiu", Illa deu um tapa na mão dela. "Se ele for falso, vai sumir no segundo em que vir o preço. Se for de verdade... bem, você ganha um anel."
Ela não foi para a seção de anéis de noivado. Ela foi para a Alta Joalheria. A parte que não tinha preços listados, apenas "Preço sob consulta".
"Isso é demais", disse Evie, sentindo-se tonta enquanto Illa rolava por diamantes do tamanho de uvas.
"É um teste de estresse", insistiu Illa.
No cômodo ao lado, em um escritório à prova de som, Agustus Williams estava sentado na cabeceira de uma mesa de mogno. Doze homens de terno discutiam sobre uma fusão.
Seu celular vibrou. Ele olhou para o aparelho, e o canto de sua boca se contraiu. Ele levantou uma mão. A sala ficou instantaneamente em silêncio.
"Pausa de cinco minutos", disse ele, sua voz não deixando espaço para discussão.
Ele abriu o aplicativo. Olhou para o link que Illa havia enviado. Era uma página genérica. Ele sabia exatamente o que ela estava fazendo. Illa. Sua irritante e intrometida irmã mais nova.
Ele abriu sua galeria e selecionou uma foto que havia tirado em uma exibição particular na Sotheby's na semana anterior.
De volta ao apartamento de Illa, o celular de Evie apitou.
Uma imagem carregou. Não era um link. Era a foto de uma pedra bruta, não lapidada. Ela brilhava com um fogo rosa vibrante e interior.
Você gosta desta?, dizia a legenda. Ou prefere lapidada?
Illa ofegou. Foi um som de choque puro e genuíno. Ela deixou a torrada cair.
"Isso...", ela apontou um dedo trêmulo para a tela. "Isso é um diamante rosa bruto. Evie, isso não é de um site. Isso é de um catálogo de leilão. Um particular."
"É caro?", Evie perguntou, sentindo-se como uma criança.
Illa olhou para ela, com o rosto mortalmente sério. "Essa pedra? Poderia comprar este prédio inteiro. Duas vezes."