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Antes de Eu Partir

Antes de Eu Partir

Autor:: Rafael_ramires
Gênero: Romance
A Professora Maria Alice sempre sonhou com a história de amor que tanto estudou nos livros em toda a sua vida. Ao invés disso teve um casamento infeliz, foi traída, não teve filhos e ainda descobriu ser portadora de uma doença degenerativa grave. Decidida a desistir da vida, ela embarca em um trem para realizar uma última vontade antes do fim. Durante a viagem, conhece César. Um aluno novo na universidade, mas que possui a mesma esperança romântica que um dia ela teve. Este encontro cria um novo capítulo naquilo que seria o ponto final da história de Maria Alice. Inicia uma história de amor impossível entre a professora e seu aluno. Movida a paixão, preconceito, intolerância, dúvidas, medos, diferenças e incertezas. Tendo como principal inimigo: o tempo...

Capítulo 1 Um Dia Ruim

A manhã terminava com muita chuva. Enquanto água escorria pela janela do lado de fora do carro, por dentro, lágrimas desciam pelo rosto da professora Maria Alice. Ao seu lado estavam três grandes envelopes remetidos por clínicas especializadas em diagnósticos. No seu colo, um companheiro que sempre ajudou-a enfrentar momentos ruins: o livro. Naquele momento era Anna Karenina. Nem mesmo a história preferida, do casal que enfrentou toda a sociedade para viver o amor proibido, conseguia fazê-la superar a última notícia.

O telefone não parava de tocar. Até mesmo o motorista demonstrou certa inquietude. A professora respirou fundo e enxugou parcialmente suas lágrimas.

- Alô?

Disse sem muito entusiasmo.

- Malicinha, meu amor! Está tudo bem? Pegou os resultados?

A voz do outro lado do aparelho falou. Somente uma pessoa chamava desta forma.

- Peguei sim, Yolanda. Deu positivo. Todas as avaliações apontam para Esclerose Múltipla Avançada.

Novamente as lágrimas aqueceram o rosto.

- Que isso, amiga. A gente sabia que este era um resultado possível. Se te cuidar bem, vai ter muito tempo ainda. Dá para viver uma vida quase normal.

- Yoyô! Eu não quero uma vida quase normal. Eu quero a minha vida! Você fala assim, porque não é contigo!

-Oi! Sou eu, a Yoyô. Sua colega e melhor amiga, esqueceu? Eu tenho o Róger, lembra?

- Desculpe. Me desculpe... O médico disse que o tempo de vida normal, sem aparecerem as sequelas maiores é de cinco anos.

- Tu já chegou em casa? O Ildo já sabe?

- Ainda não. Estou a caminho. Estou reunindo forças para contar para ele.

- Quer que eu vá na tua casa?

- Não precisa. Eu te ligo se precisar. Fica bem, amada.

- Liga mesmo! Também te amo.

E desligou. Durante o caminho Maria Alice viu passar o filme de sua vida. Todos os seus sonhos, expectativas, esperanças e conquistas passaram voando pelos seus olhos. Eram mais de 30 anos de vida inteiramente dedicada para a academia. Tinha se tornado professora para entender melhor o mundo dos livros, das grandes histórias épicas, sagas, aventuras, e principalmente, os romances. Aquelas histórias de amor que fazem suspirar com o casal do livro.

Por muito tempo sonhou que sua vida seria assim. Encontraria um príncipe encantado, casaria, teria filhos e uma velhice em que contaria aos netos suas aventuras da juventude. A realidade não poderia ter sido mais cruel. A família lhe convenceu quem deveria ser o príncipe encantado.

Na época um promissor soldado, de família militar, conservador, simpático e considerado um bom partido. Era um homem bom e Maria Alice estava começando a se apaixonar por ele, quando percebeu que não engravidaria. O maior sonho dele era ter filhos. A mudança dele foi imediata. Passou a tratar a mulher com muita indiferença. Manteve seu casamento por 'honra", mas não a união. Deu tudo que o dinheiro poderia oferecer para sua esposa, mas não lhe deu amor.

O único prazer da vida dela era a universidade. Os alunos eram a família que ela se sentia bem em pertencer. As coisas só não eram piores porque Yolanda sempre esteve do lado em todos os momentos. Aquele dia não seria exceção.

- É aqui, senhora?

Disse o motorista diminuindo a velocidade do veículo.

-Sim, a casa azul com grade. Pode estacionar atrás do carro vermelho.

Ela desceu do veículo. Respirou fundo para conter suas lágrimas. O maior desafio do dia estava ainda por começar. Teria que dizer ao marido sobre sua doença, mas temia que ele não entendesse a situação do jeito certo. Ao mesmo tempo, reservava uma fagulha de esperança em seu coração de que ele aceitaria tudo de bom grado e ofereceria alguma ajuda. A amizade que fosse, seria um grande prêmio.

Quando chegou a porta, viu seu marido. Ele a recebeu sem cerimônia alguma. Estava falando ao celular.

- Sim. Entendi... Claro, que entendo... Quer que eu espere por você?... Sim, ela acabou de chegar. Não demora muito. Com todas essas novidades algumas mudanças vão ser feitas ainda hoje... Eu te espero. Até depois.

Por um instante o peito dela se acalmou. Ao que parecia, Yolanda já havia adiantado um passo e ele foi muito receptivo. Ainda que seu rosto não demonstrasse, o coração já abria um sorriso tímido. Logo que entrou deixou suas coisas de lado e já iniciou. Queria terminar aquela situação de uma vez.

- Eu tenho uma coisa para dizer e não é muito boa.

Ela antecipou. Ele replicou.

- Eu também, mas acho que é uma coisa que vai ser boa para nós dois.

Maria Alice respirou fundo, para chamar a atenção de sua coragem.

- Você vai esperar ela chegar?

- Vou. Assim, resolvemos todos juntos.

Então, o alívio tocou o corpo da professora. Ela ficou feliz em saber que sua amiga de fato não a abandonara nem mesmo naquele momento de indecisão. O homem permanecia em silêncio no seu lugar. Levantou-se apenas quando percebeu movimentação de veículo na frente da casa. Maria Alice também se aproximou da porta. Seu principal alicerce acabava de chegar. Era todo o apoio de que ela precisava. O marido abriu um guarda-chuva para ir buscar a mulher que estava saindo do carro. Quando olhou para a rua, um arrepio correu pelas suas costas.

Aquele não era o carro de Yolanda.

Capítulo 2 Um Dia Normal

- Eu ataco!

Disse César sacudindo no meio da mão um dado de 20 lados. Em seguida deixou rolar em cima da mesa e o número 18 ficou com a face para cima. O resultado provocou uma reação de surpresa nas outras pessoas na mesa.

- Meu efeito, age agora. Não esquece de você está mais forte!

Lembrou Joana, uma das pessoas no grupo. Um jogador, sentado atrás de uma barreira de livros analisou o resultado, fez um cálculo rápido e concluiu.

- Você acerta! Com o efeito especial da companheira, vocês derrotam o terrível Mago Amenophus e seu experimento monstruoso. Parabéns! A vitória é de vocês!

Foi o que disse o jogador arrumando seus óculos. O grupo de jovens continuou a parabenizar César pela sua jogada e Joana pelo suporte. Ao mesmo tempo guardavam os livros e todo o material usado na partida. A menina despedia-se dos amigos enquanto César organizava as suas coisas.

Os dois eram amigos desde a infância. Se conheceram ainda nos tempos de criança, quando eram colegas de escolinha. Por serem filhos únicos, foram tratados como se fossem irmãos de pais separados. Durante a adolescência a relação deles, que já tinha muita intimidade e cumplicidade, ganhou uma nova cor.

Por um período de dois anos eles namoraram, mas logo quando iniciaram a faculdade a relação amorosa terminou. Não porque deixaram de gostar um do outro, mas pelo fato de estarem em momentos diferentes. César queria dedicar a sua vida para os estudos acadêmicos, exclusivamente. Joana já trabalhava na gestão da empresa de automóveis dos pais e desejava formar família com o rapaz.

Com interesses tão desencontrados, decidiram que a melhor alternativa era a relação manter-se apenas na amizade. César jamais deixou de confiar a sua vida a Joana, mesmo que não enxergasse algo além de amizade. Ela, por outro lado, havia decidido que a família que tanto sonhava em ter começava pelo rapaz. Aceitou a condição que ele deu de seguir a carreira de estudos, concordou com a separação, mas jamais deixou de gostar do rapaz. Ele chegou a trocar de faculdade para manter o foco na carreira. Afinal, o rompimento ainda era recente.

Quando terminou de organizar suas coisas, César arrumou sua mochila. Foi surpreendido com Joana carregando dois copos de suco.

- Somos uma dupla boa até mesmo no RPG.

Iniciou Joana dando um dos copos para César.

- A gente funciona bem para algumas coisas.

- Na minha opinião, funcionamos bem em tudo.

- Não, Jô! A gente já falou sobre este assunto. Nossos desejos para o futuro são diferentes demais.

- Eu sei, eu sei. Desculpe. Não vou mais insistir. Queria apenas comemorar nossa vitória de hoje.

- Tudo bem. Tu me conhece bem demais. Não posso esquecer disso jamais.

Quando terminou de tomar o suco, devolveu o copo e juntou sua mochila. A ação dele deixou-a inquieta.

- Você não quer dormir aqui? Podemos pedir uma pizza e assistir um filme. Estreou uma série nova, sexta-feira.

- Nem dá. Quero rever meu projeto antes de dormir. Amanhã tenho que apresentar para a professora e ver se ela aceita me orientar para o trabalho. Me recomendaram a professora Maria Alice Miranda. Já ouviu falar?

- Sim, conheço. É minha tia, aquela lesada.

- Sério? Não me lembro dela.

- Na verdade, nem eu. Faz muitos anos que não nos vemos. Ela é casada com o meu tio Ildo. Uma vez ela e minha mãe discutiram. Tio Ildo bateu na minha mãe por causa daquilo. Eu não lembro bem o que elas discutiram, mas recordo de ver meu pai expulsando tio Ildo da minha casa. Depois disso, mais de 10 anos depois eles fizeram as pazes. Ela nunca mais voltou aqui em casa.

- Eu lembro do tio Ildo, mas achei que a esposa dele era a Anatércia.

- Ela é a namorada que ele ficou mais tempo. O casamento deles sempre foi uma piada de mau gosto. Só aquela tapada que nunca percebeu.

- Então, tu não serve de referência para puxar assunto com ela?

- Não acho interessante. Mudando de assunto... Esqueci de você tinha

trocado de faculdade. Vai querer carona?

- Desculpe ter que falar nela, mas o estudo dela é exatamente o que eu quero para competir pela bolsa em Portugal. Da carona, não precisa. Vou de trem. E a sua faculdade é em Canoas. A minha agora é São Leopoldo. Nem daria muito certo.

- Eu não me importaria de te levar. A gente só precisaria sair um pouco mais cedo. Se você dormisse aqui seria mais fácil...

- Bem, Jô. Eu preciso ir agora. Essa semana tenho que finalizar o projeto para a bolsa e a pesquisa que quero orientação.

Joana demonstrou sua insatisfação, mas não disse nada. César deu-lhe um beijo no rosto e saiu pela porta. Joana ficou frustrada e sentiu-se derrotada. Tinha planos para aquela noite que foram descartados. O pior era admitir que ele ficaria afastado dela o resto da semana.

Foi guardar o seu material do jogo e percebeu um livro de tamanho diferente dos seus. Ele estava embaixo da pilha de RPG junto de uma pasta de arquivos. Nem o formato ou tamanho eram dos livros comuns de jogos deste tipo. Deveria ser de algum dos outros amigos do grupo. Na capa estava escrito: Romantismo no Brasil na era digital. De Maria Alice Miranda. Fez uma careta amaldiçoando a autora. Dentro da pasta, a primeira folha dizia: "Romance na literatura luso-brasileira e seus principais autores". Lembrou que aquele era o projeto de César. Pegou o celular para fazer uma ligação para o amigo voltar e buscar o livro e seu projeto. Pensava que teria uma segunda chance de convencê-lo a passar a noite lá. Ele voltaria correndo buscar o projeto, assim que percebesse que tinha esquecido.

Antes de terminar de digitar o número do rapaz, ela voltou atrás em seu pensamento. Se ele voltaria correndo assim que percebesse que havia esquecido, ela não precisaria ligar. Além disso, tinha uma segunda vantagem. Sem o projeto para apresentar, faltaria tempo para encontrar um orientador para a seletiva em Portugal. Ela não queria que ele fosse, de qualquer jeito. Guardou os livros da professora que ele admirava e o projeto na estante, mas deixou os de RPG na mesa. Sentou-se no sofá ligando a sua televisão. Continuou a digitar no celular aguardando ser atendida.

- Alô! Queria pedir uma pizza. Pode anotar o meu pedido?

Capítulo 3 Um Dia para Esquecer

Maria Alice olhava atenta para o carro que parava em frente à sua casa. Tinha reparado que não era da sua amiga Yolanda. Por um momento culpou-se por não perceber. Ildo, seu marido, jamais tinha sido tão zeloso com Yoyô. Ele, por sua vez, abraçou a pessoa que desceu e protegeu da chuva. A professora percebeu de quem se tratava. Seu coração pareceu ter parado por um segundo e todo o seu corpo arrepiou de frio quando eles entraram na casa. Ildo continuava sendo gentil com sua convidada. Maria Alice esforçou-se para voltar a falar.

- O que ela faz aqui?

Disse sem nenhuma preocupação com o trato social.

- Já lhe digo, Maria. - Falou Ildo para sua esposa. - Vou ali buscar as coisas, meu bem. Já volto. Bem rapidinho.

Deu um beijo na testa da mulher que recém tinha chegado e caminhou para o interior da casa.

- Tudo bem, Maria Alice?

Disse a visita.

- O que você faz aqui, Anatércia?

- Eu vim... quer dizer... o Ildo não te contou?

- Contou o quê?

O homem voltava para a companhia das duas mulheres. Trazia consigo duas malas de viagem e uma mochila. De dentro dela retirou uma pasta. Pousou em cima da mesa. Depois disso virou-se para sua esposa. Ela impediu que ele começasse a falar.

- O que você não me contou, Ildo?

- Estou indo embora.

- Como assim, agora? Qual o motivo?

- Nosso casamento já acabou faz tempo. Eu não tenho mais nenhuma atração por você, não temos nada em comum, nem interesses, nem nada. Construímos essa casa enorme, cheia de coisas, fizemos nossas carreiras, mas no fim. O que temos?

- Eu não estou conseguindo entender o que você quer dizer com tudo isto, mas acho que não precisamos discutir isto na frente de sua secretária... a gente podia ir...

- Ela está grávida, Maria.

Essa frase foi como uma apunhalada no peito. Maria Alice sentiu as pernas afrouxarem. Tratou de sentar-se antes de perder completamente a força nos membros. Ela não havia conseguido engravidar durante o período fértil de sua vida e já não tinha idade para isto. Nunca tinha entendido a razão, mas a ciência alegava que era um problema nos óvulos que produzia.

O homem sentiu que havia dado um violento golpe contra sua esposa. Repetiu a frase, com um ar de misericórdia. Maria Alice sabia exatamente o que isto significava para ele. O sonho de Ildo, desde os tempos de quartel era formar uma família grande e com muitos filhos. Ensinar o caminho da ordem e da disciplina. Coisas que tanto adorava, mas que nunca foi possível. Pelo menos não até aquele momento.

Percebeu que não tinha como voltar atrás na decisão dele. Sentia raiva, tristeza, mágoa, inveja e uma dor que não conseguia descrever em seu próprio orgulho. A única maneira de descarregar este peso era com suas lágrimas. Ildo respeitou. Pelo menos por um momento.

- Eu não queria que fosse desse jeito. Por esta razão, preparei isto.

Apontou para a pasta em cima da mesa.

- São os documentos iniciais de nosso divórcio. Ali fala que eu abro mão dessa casa, das nossas economias e de tudo o que conquistamos juntos. Estabelece também que continuarei mantendo planos de saúde e uma pensão igual ao seu salário. Você merece este cuidado por todo o tempo que dedicou ao nosso casamento.

Ela reuniu forças para falar. Tinha tanta coisa a dizer, milhares de coisas passavam pela sua cabeça, sentimentos se manifestando. Optou por começar pela raiva.

- Quanto tempo faz que...

- Dois meses...

- Quanto tempo faz que vocês me traem?

- Pelo menos uns três anos.

- Ela tem idade para ser sua neta.

- Mas vai me dar um filho. E isso é o que importa.

- Não para mim. Na verdade, eu nem deveria me preocupar. Olhe isto.

Ela mostrou os envelopes com os exames. Ildo pegou e leu atentamente. Anatércia apenas observava. Estava claramente assustada.

- Então... quer dizer que além de não poder ter filho, você está com uma doença degenerativa incurável. Esclerose múltipla.

- Sim. Se você me respeita, como diz, então me ajude a ter um fim de vida bom. Eu posso até ajudar a cuidar do seu filho, em troca.

- Eu já fiz tudo o que eu poderia por ti. Como disse, vou manter o plano de saúde e tu poderá fazer o tratamento ou pagar para pessoas cuidarem de ti. Eu já decidi, Maria. Vou embora cuidar da minha família agora. Tu deveria fazer o mesmo.

Maria Alice não conseguia responder. Soluçava demais e sua visão estava completamente embaçada. Havia sido agredida de diversas formas diferentes naquele dia. Mal conseguiu ouvir quando Ildo disse-lhe adeus e fechou a porta.

A única vontade que tinha naquele dia era de chorar até que seu corpo ficasse seco e desidratado. Pensava nos momentos que havia sido feliz com o marido, mas também em como ele estava distante nos últimos anos. Dias sem voltar para casa, reuniões com amigos e diversos comentários de parentes sobre a companhia de Anatércia. Se culpou por ter sido ingênua e não perceber a traição tão evidente, por não ser jovem como a outra e mais ainda, por não conseguir ter feito seu marido feliz. Sentia que tinha fracassado como esposa e como mulher.

Maria Alice sentia como se já estivesse morrido e que seu corpo apenas não tinha percebido. Embora não fosse muito religiosa, pedia a Deus naquele momento que lhe tirasse todo o seu sofrimento. Que a levasse embora para viver em paz e felicidade, nem que fosse nos pós vida. Percebeu que nem mesmo o todo poderoso lhe dava atenção. Seus exames médicos provavam isso.

Secou as lágrimas e caminhou até seu quarto. Já tinha ideia do que precisava fazer.

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