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Ao Amanhecer - Livro 1 - Trilogia Durante os Dias

Ao Amanhecer - Livro 1 - Trilogia Durante os Dias

Autor:: L. G. COELHO
Gênero: Romance
Chloe passou por um ano difícil e turbulento, perdeu ambos os pais e ficou com dívidas enormes, apenas tinha a casa e sua picape velha. Mas não desistiu, continuou seguindo a vida e vivendo os dias até o momento em que tudo mudou. Christopher Hutton, homem de sucesso no ramo dos negócios conhecido como o casado mais sexy do momento, mas vivendo em um casamento infeliz e apenas seguindo sem se importar com mais nada após a morte da falecida esposa e filha. Mas a vida pode mudar de uma hora para outra e tudo pode ficar confuso, chega em um ponto onde apenas um anjo pode fazer com que essas vidas se encontrem e se ajudem. Um romance triste e viciante que tem tudo para dar errado desde o começo mas que pode acabar dando certo.

Capítulo 1 Chloe e Julia

"Sua vida é sempre a mesma dia após dia.

Tudo o que faz, faz da mesma maneira, dia após dia.

Eu posso lhe mostrar um novo mundo, uma luz diferente.

Guarde seu corpo, seu coração, entregue sua alma para a noite e venha para mim.

Quando estiver sozinha, quando precisar de algo novo, venha para mim, quando estiver cansada.

Porque?

Porque tenho algo especial para você.

Só para você."

– Os noturnos por Flávia Muniz –

°•°•°• ♤ •°•°•°

–Chloe, pode ir agora querida. Aqui está o dinheiro por ter cuidado da farmácia está noite. -o senhor Gomes me entrega um bolinho de dinheiro, sorrio para ele mesmo com sono e cansada. Na verdade estou bem acabada hoje foi uma noite bem movimentada por alguma razão tinham muitas pessoas pela cidade.

Moro nessa cidade desde meu nascimento e nunca vi tanto movimento de pessoas de fora como vi ontem. Não que aqui seja uma cidade pequena, mas não podemos dizer que Wyoming é grande como outros lugares por aí. Deve ser por causa da temporada de esqui, mas mesmo nessa época as pessoas preferem lugares mais conhecidos do que um lugar como Wyoming.

–Sabe que quando precisar, pode chamar. -ele faz que sim, tiro o colete colocando no lugar e pegando minha bolsa e casaco por causa do tempo frio que se aproxima, os ventos sopram cada vez mais gelados nesse horário. Além de que, por aqui sempre está frio e ventando.

Agora não passa das cinco e trinta da manhã, as cafeterias começam a abrir, os pássaros voam no céu azulado ainda meio escuro, longe se vê os primeiros raios de sol e o vento ruge em meus ouvidos, mais um dia que estou aqui pai.

Espero que possa estar bem onde quer que esteja e que também esteja com a mamãe.

Respiro fundo e começo a andar, esse é um dos melhores horários do dia pra mim, o ar fresco batendo em meu rosto, as ruas quase que desertas, posso ir devagar e calma para casa.

Pego as chaves da minha velha picape azul, suspiro antes de andar até a mesma, faz anos que dirijo essa velhinha e agora ela está começando a dar problema mas fazer o que, é o que tenho, abro a porta que faz um barulho alto e dou uma risada baixa antes de entrar na mesma e começar a me preparar para dirigir de volta para casa, quero deitar e descansar por pelo menos quatro horas.

Na última semana o senhor Gomes tem me pagado por hora para cuidar da farmácia dele durante a noite, mas acho que não terei esse luxo na próxima semana já que o filho dele está vindo para a cidade para ajudar, então tenho que guardar meu dinheiro e pagar as contas atrasadas, além de conseguir comprar minha comida.

Entro na minha picape e jogo minha bolsa no banco de trás, ligo o carro saindo do estacionamento da farmácia, vou demorar uns bons minutos ate em casa já que moro em um local mais afastado da área central da cidade. Tenho que passar no posto e pedir ao John para completar o tanque, depois que troquei o motor não estava gastando tanto com gasolina, mas era sempre bom precaver, porque não sei quando terei dinheiro para isso de novo.

Paro em frente ao posto e não vejo o John, peço para o outro cara novo encher o tanque e vou até a lojinha de conveniência atrás de açúcar, quero fazer alguns doces e pães para vender ainda nesse fim de semana. Isso mesmo açúcar, em uma lojinha de posto, por incrível que pareça nessas lojinhas da cidade vende de tudo, pego dois pacotes grandes indo ate o caixa pagando e seguindo ate a picape, pago o valor do combustível e saio pela rodovia rumo ao meu lar, estou com tanto sono.

Minha casa é bem afastada da cidade, perto de um grande Fazenda Resort para família, uns bons quilômetros para lá na rodovia, primeiro foi uma chácara dos meus avós, depois virou uma propriedade com um imenso quintal que foi dada aos meus pais, agora é minha casa com um quintal um pouco grande na frente, herdei o lugar depois da morte dos meus pais no ano passado.

O sol já nasce atrás de mim quando entro na rodovia, a imagem linda vista do retrovisor me faz abrir meu melhor sorriso, mesmo em tempos difíceis o bom é sempre manter um sorriso, isso foi o que minha avó me ensinou, até hoje sigo suas palavras firme e forte.

Já estou no meio do caminho quando algo ao lado da estrada me chama atenção, posso até mesmo estar enganada, esfrego os olhos com a mão por um tempo, mas aquilo não é sonho ou delírio e na hora que me dou conta começo a me ajeitar para estacionar.

Paro o carro no acostamento e desço, vejo o grande baú preto desbotado que avistei de longe, mas o que me deixou encabulada foi ver uma garotinha de cabelos loiros vestida em roupas finas mesmo nesse tempo frio, ela dorme sob o baú segurando um ursinho de pelúcia branco escrito mamãe e com os pés em uma sapatilha gasta, seu rosto está pálido e mesmo com minha proximidade ela não parece despertar.

Não há ninguém na rodovia, ela parece sozinha, não há condições de leva-la comigo, mas também não posso apenas deixa-la aqui para morrer congelada. Suspiro frustrada e a pego no colo, leve como uma pluma, caminho com ela em meus braços a levando até a picape e a colocando no banco de trás, seu sono parece profundo, talvez tenha sido dopada e deixada aqui, pego o grande baú preto colocando de um jeito que possa impedi-la de cair do banco caso eu acabe dando uma freada brusca.

Vamos nessa, o que mais pode dar errado? Além de ser acusada de sequestro, nada mais pode dar errado. Certo. Entro na picape ligando e seguindo caminho pra casa, hoje a tarde vou ao delegado e entrego a menina, ela deve ter sido abandonada ou fugido sei lá, mas não há nada que possa fazer sobre isso, vou apenas levar ela até a polícia e depois voltar.

Como uma garota pequena como ela iria fugir sua anta? Penso comigo mesma e começo a rir sozinha, não sei o motivo mas minha consciência grita e me dou conta dos fatos, ela não deve ter mais do que quatro anos, com toda certeza foi abandonada na beira da estrada contando com a própria sorte. Vejo o grande portão de madeira, que mantenho quase sempre aberto para não ficar descendo do carro para abrir toda vez que chegou ou saio de casa. Já entro e me dirijo ao lugar que sempre deixo a picape protegida do sol, de baixo de uma árvore que tem um balanço de pneu em baixo.

Desligo a picape saindo para pegar a menina adormecida, entro em casa a colocando em meu quarto e voltando ao carro para pegar todas as coisas, um baú, minha bolsa e os pacotes de açúcar pata os doces e pães. Coloco o baú e minha mochila na sala e vou direto para a cozinha prendendo meus cabelos em um coque colocando uma touca, tenho que começar a fazer as geleias de maçã ainda hoje porque quero descansar mais tarde e as maçãs podem acabar estragando até amanhã.

Há três motivos para fazer geleias de maçã agora, mesmo estando cansada pela noite acordada e também por ter uma criança desconhecida em minha casa eu preciso fazer isso de qualquer maneira.

Primeira, tudo já estava quase tudo pronto, até mesmo as maçãs já estavam colhidas e em banho de água quente. Segundo, preciso vende-las para conseguir grana e pagar as dívidas médicas e de enterro dos meus pais. E terceira, isso me ajudará a sobreviver daqui algumas semanas quando eu já não tiver empregada na farmácia e a casa estiver sem luz.

Esse com certeza será um dos anos mais rigorosos pra mim, sem dinheiro para comprar comida, sem meus pais, tendo que proteger minhas plantas e também tendo que pagar as muitas dívidas que ficaram após meus pais morrerem ao mesmo tempo ano passado. Mas seguindo em frente tudo se resolverá, basta que eu tenha um pouco de esperança. Isso era o que minha mãe sempre me dizia, e o que vovó sempre dizia para ela, somente preciso me manter firme e com um sorriso no rosto e conseguirei vencer essa tempestade.

•°•• ♤ ••°•

Capítulo 2 Julia e Chloe

Já é quase hora do almoço, escuto um leve barulho nas escadas, olho para cima encontrando a garotinha, seus cabelos estão bagunçados, ela passa as mãozinhas nos olhos azuis e finalmente me encara, vejo a dificuldade em descer os degraus da escada e vou ao seu encontro. Essa casa é bem velha, cheia de tábuas soltas no piso, além de insetos e coisas que podem machucá-la, ainda mais que não sei de onde ela saiu então todo cuidado é pouco para ela não se machucar.

–Vem cá, eu ajudo você. -digo, vejo sua carinha de medo mas mesmo assim ela deixa que eu a pegue no colo e ande com ela até a sala. -Lembra de como chegou na beira da estrada?

Vejo ela balançar a cabeça em negativa, suspiro frustrada em saber sua resposta. Ela não deve falar ou apenas não confia em mim para falar algo, talvez não se lembra de nada antes de acordar por ser pequena. O que vou fazer agora?

–Está com fome? Não havia muita coisa no armário, fiz macarrão para nós duas. Gosta de macarrão? -vejo ela concordar duas vezes, não acho que vou obter resposta . Parece que ela não irá falar mesmo. –Vamos comer então.

Divido o macarrão em dois pratos, sento ela na cadeira do balcão, a casa não é grande, acho que meus pais queriam mais espaço para a estufa e o plantio do que conforto para eles, então acabaram deixando a casa pequena.

–Sabe comer sozinha? -ela afirma com a cabeça e começa a comer o macarrão em silêncio, seu rosto está vermelho e seus olhinhos curiosos olham tudo atenta e desconfiada. Enquanto ela dormia fiz trinta potes de geleia de maçã, doze de mamão, seis de abóbora e ainda fiz macarrão. Geralmente essas frutas não dão na região, mas por conta da estufa de meus pais tem um pouco de tudo, só não vendo as próprias frutas e legumes porque não dão a quantidade pedida pelos mercadinhos.

Há um total de três estufas em volta da casa, uma de frutas, uma de legumes e uma de verduras, as sementes compradas fora do país, o esforço de anos atrás que meus pais fizeram depois de suas viagens malucas. Esse lugar é o que eles sonharam a vida toda, mas pouco puderam desfrutar. Olho a garotinha na minha frente sem saber bem o que fazer com ela, tenho que ver se no grande baú dela tem alguma coisa que me diga quem é, de onde veio ou quem são seus pais.

–Quer mais? -questiono ao ver seu olhar para o prato, ela confirma. –Porque não pediu? Você não fala ainda?

–Eu... falo. -diz baixinho mas audível.

–Bom, então quando quiser comer ou fazer alguma coisa deve me falar tudo bem. -ela balança a cabeça e sorri, um sorriso doce, cheio de sentimentos reprimidos. –Enquanto termina de comer vou dar uma olhada em sua mala, talvez lá tenha algo que me ajude a encontrar de onde você veio.

Coloco um pouco mais de macarrão pra ela e vou em direção a sala, onde deixei o grande baú dela, suspiro olhando a grande bagunça. Vejo que é bem grande, mas não parece ter tanta coisa, já que é bem leve. Sento no chão abro as fivelas que fecham o baú, a primeira coisa que vejo é um pequeno bauzinho de madeira, o pego vendo que está fechado com chave, coloco de lado. Tem roupas, cremes de cabelo, escova de dentes, alguns brinquedos. A resposta deve estar no bauzinho, olho atentamente para vê se há outra maneira de abrir, mas parece que é somente com a chave, suspiro frustrada.

Escuto os passos meio hesitantes vindo em minha direção, olho para trás observando melhor a roupa que ela usa, um cardigã de lã e uma roupa de balé, nos pés um sapato fechado marrom antes parecia uma sapatilha mas agora olhando melhor é diferente, na beira da estrada ela segurava um ursinho de pelúcia branco escrito mamãe que deve ter ficado no quarto, somente agora reparo que ela usa um cordão em seu pescoço.

–Tem a chave? -ela confirma e tira o pequeno cordão de dentro da roupa, sorrio quando ela me entrega uma chave pequena e dourada. –Vamos descobrir o que tem aqui dentro.

Pego ela no colo a colocando sentada em meu colo e tiro o cordão dela, depois pego a chave respirando fundo antes de colocar a pequena chave na fechadura que destrava com duas voltas da mesma, abro me deparando com alguns papéis, pedaços de notícias, uma roupinha de bebê, uma caixinha de música a qual ela pega abrindo. A melodia de Mozart começa a tocar lenta, doce, macia aos ouvidos, uma pequena bailarina dança pela extensão da caixinha de espelhos dourados, é lindo e parece caro. Coloco ela ao meu lado depois de colocar apenas o cordão em seu pescoço sem a chave, parece se divertir com o toque doce da caixa de música.

Ela sorri ao escutar a próxima música e volto minha atenção aos papéis. O primeiro que pego é a notícia de um jornal de um casamento, na notícia diz :"O maior empresário de Londres Christopher Hutton casou-se com top model Isa Monet no dia doze de outubro desse ano."

Já ouvi falar desse cara, na época meus pais ainda eram vivos, pego o próximo jornal vendo uma notícia estranha: "Filha de Christopher Hutton desapareceu misteriosamente depois de ser mandada a um colégio interno para jovens bailarinas na França.", será que? Não pode ser possível? Ou pode?

Pego o próximo papel, todos com tópicos de notícias sobre o tal Christopher e a esposa, nada mais sobre a filha. Uma última matéria que está no fundo do baú diz: "As duas da manhã de ontem (vinte dois de Janeiro de dois mil e dezenove), o colégio interno para jovens bailarinas onde filha do renomado Sr. Hutton pega fogo matando alguns funcionários e a filha do Sr. Hutton a qual o corpo foi encontrado em um porão. Depois de dois meses desaparecida.". Deus isso não pode ser o que estou pensando que é, respiro fundo olhando dentro do bauzinho novamente e então vejo um registro de nascimento e o pego.

"Júlia Antonella Hutton, (09/04/2017) Nove do quatro de dois mil e dezessete, às oito da manhã.

Filha de Christopher Hutton e Paola Antonella Oliveira, neta de avós maternos, Giovanna Oliveira Antonella e Luiz Antonella, neta de avós paternos Emília Silva Hutton e Jonas Hutton.

Local do nascimento, hospital de base de Londres, bairro nobre, número 455-B.

Enfermeiros responsáveis e..."

Paro de ler, olho a menina na minha frente que ainda brinca com a caixinha de música, será que ela se lembra do pai? Parando para pensar, pelas datas ela ainda não fez aniversário, onde será que ela estava todo esse tempo, um ano após ser dada como morta, aparecer na beira de uma estrada quase do outro lado do estado do seu lugar de nascimento, será que o pai dela desconfia que esta viva? Será que alguém maltratou ela durante esse tempo? Onde será que ela estava até hoje?

–Tia? -sua voz tímida me despertou de meus devaneios e sorrio olhando seu rostinho rosado.

–Oi minha linda, vamos tomar um banho? -ela confirma devagar mas vejo seu corpo tremer de leve.

Não sei o que fazer com tais informações, por enquanto ficarei com ela, depois temos que ir até o xerife falar sobre ela, hoje ainda tinha que resolver isso. Escuto uma forte trovoada e logo a chuva cai forte, olho o relógio na parede marcando duas da tarde. Acho que meus planos foram frustrados por uma tempestade repentina.

–Vamos tomar banho e dormir. O dia acabou por hoje. -digo para ela que apenas sorri. Deus por favor ilumine meus caminhos, não deixe nada de mau nos atacar nesse momento de tormenta, tome conta de nós. Amém.

Faço uma pequena a oração antes de pegar ela no colo e fechar a caixinha de música, deixo os papéis jogados mesmo sem me importa, talvez amanhã eu consiga resolver isso, mas talvez não. Não sei o que fazer agora mas irei apenas dar um banho quente nela e tomar um também, acho que vou me sentir melhor depois que fizer isso.

•°•• ♤ ••°•

Capítulo 3 Chloe e Julia

Gosto de chuva, mas hoje não é um dia bom para ter chuva, preciso ir até a delegacia falar com o delegado e entrar em contato com aquele homem sobre sua filha, mas com esse tempo não vou conseguir nem chegar no carro. Dei banho em Julia e o pequeno corpo dela me deixou atordoada, há várias marcas em suas costas e braços, seus pés estão machucados e cheios de calos, mas ela só tem três anos e meio.

Como alguém pode fazer mau a uma criança? Praticamente um bebê. Olho sob a bancada os vidros de geleia agora frios, os pego colocando na caixa que levarei para a cidade amanhã. Julia está brincando com seus brinquedos na sala, praticamente cai um dilúvio ao lado de fora, meu coração está apertado por imaginar quanta dor essa criança passou até agora.

–Tia, posso te ajudar? -escuto a voz baixa e doce de Julia perto de mim, olho para ela despertando dos meus pensamentos tristonhos e sorrio.

–Oh, claro. Venha. -coloco ela sentada sob o balcão. –Pegue um pote por vez e passe pra mim, irei coloca-lo aqui.

Explico com calma para que ela não se machuque ou acabe se assustando, ela é linda, o seu jeitinho tímido, seus olhos curiosos, os cabelos loiros, para uma menina de três anos é bem grandinha, talvez tenha crescido assim por conta do balé. Vejo ela me estender um dos potes e sorrio por ela ter entendido facilmente, ainda por cima é uma menina inteligente. Quem será que fez isso com essa criança?

–Muito bem. -passo a mão em seus cabelos e ela sorri, um sorriso largo e bonito. –Como sabemos que a chuva não irá parar hoje, assim que terminar aqui iremos para o quarto, tenho várias histórias lá, irei ler uma pra você.

Ela sorri contente e sorrio de volta, com a ajuda dela fui preenchendo a caixa de madeira que uso para levar os doces até a cidade. Depois de meia hora colocamos todos em duas caixas, desci ela da bancada e subimos as escadas para o quarto. Deixei que ela escolhesse o livro, mas ao invés de escolher um dos livros infantis e que daria para ler rápido acabou que pegou um maio, Alice no país das maravilhas. Era meu livro favorito quando pequena, é pouco mais de três da tarde, quando começamos a lê-lo, ficou acordada até quase cinco horas mas então dormiu.

Observo por um momento seu rosto sereno, ela dorme agarrada ao ursinho de pelúcia exatamente como estava quando a encontrei na estrada. Cubro suas pernas e braços saindo do quarto deixando o abajur ligado e a porta aberta para caso acorde e fique com medo. Assim que sai do quarto o telefone da sala tocou, estranho, quase ninguém liga aqui porque sabe que meus pais morreram. Desço as escadas rapidamente indo até a sala, pego o telefone que fica na divisa da sala e cozinha atendendo.

–Alô. -digo ao atender mas por alguns segundos não há resposta.

–Não ouse aparecer com essa menina ou sofrerá as consequências. -escuto a voz grossa, parece modificada por algo.

–Quem é? -pergunto com um pouco de receio e medo.

–Isso é apenas um aviso, fique com a menina, mande para um orfanato, ou seja lá o que queira fazer mas não apareça com ela. -a voz parece mais feminina do que antes nesse final, antes de escutar um toque de fim da ligação escutei uma outra voz ao fundo, olho o telefone, agora apenas o som de tuuuuuuuuuu se faz presente.

Eles me ameaçaram, Deus, quem são essas pessoas? Porque não querem que eu apareça com a menina? O que esta acontecendo? Respiro com dificuldade até escutar um grito fino vindo do quarto, corro escada acima temendo pelo que pode estar acontecendo. Ao abrir a porta do quarto encontro Julia sozinha se debatendo na cama, ela parece sentir dor, seus olhos estão abertos mas não parecem me ver, há medo, agonia e desespero em seu rosto.

–Eu... não vou volta. -diz em meio aos gritos. -Por favor... não.

–Ei, não vai acontecer nada. Acorde é um pesadelo... -ou uma lembrança.

–Julia, eles não estão aqui. Escute minha voz, feche os olhos. -ela os fecha com força, me escuta mas não me vê.

–Respira fundo e abra. Vê? -digo e a mesma faz devagar, seu corpo treme e então ela vira a cabeça e me vê ao lado da cama segurando em seus braços e então sou surpreendida quando ela pula sobre mim chorando, seu choro é de partir o coração, um choro agoniante de dor e desespero.

–Shhh, vai ficar tudo bem. Você está aqui comigo agora. -digo abraçando ela forte enquanto a embalo, assim como minha mãe fazia comigo quando eu era pequena. O que fizeram com você bebê? Será que se lembra de cada detalhe? Cada pessoa? Cada lugar? Será que nunca foi feliz?

–Se você me ouvir...

Na escuridão...

Sei que vai ficar...

Mais forte então...

Quando você se for...

mais velho estará...

Só não escolha...

por se afastar...

As coisas vão mudar...

são fáceis pra pensar...

Então basta á você...

pra sempre acreditar...

em mim...

Se você não mentir...

calma ficará...

Você nunca fará...

um barulho pra acalmar...

pra acalmar...

Todas as luzes irão...

guiar o seu coração...

Se me ouvir agora...

Todos os medos irão...

Desaparecer...

Desaparecer...

Cantei a cantiga que minha mãe sempre cantava pra me acalmar quando tinha um pesadelo. Aos poucos durante a música ela se acalmou e só ficou abraçada à mim enquanto fungava e segurava minha blusa, acho que ela só precisa de um pouco de carinho e atenção para lhe fazer melhorar.

–Se sente melhor agora? -ainda abraçada à mim confirmou de leve, coloquei ela de volta na cama deitando ao seu lado e acariciando seus cabelos de leve.

–Tia, não me deixa eles me pegarem. A mulher mau e o homem mau, eles gostam de me trancar no porão. -diz baixinho e meu coração se aperta e a raiva me consome, essas pessoas deviam queimar até a morte. O medo dela é ate palpável.

–Shhh, nada vai te acontecer. Irei te proteger. -digo e volto a cantar baixinho. Meus pensamentos voam com todas as questões que não tinham repostas. Mas a que mas me deixava afoita e em tremenda duvida era em como ela tinha ido parar naquela estrada? Aos poucos senti que ela relaxou, senti sua respiração voltando ao normal, então vejo que adormeceu abraçada em mim, fecho meus olhos cansada depois de uma noite e um dia acordada, mesmo que não consiga resolver isso agora espero que amanhã eu consiga respostas.

•°•• ♤ ••°•

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