Durante dez anos, eu dei tudo de mim ao meu marido, Davi. Tive três empregos para que ele pudesse fazer seu MBA e vendi a medalhinha de ouro da minha avó para financiar sua startup. Agora, prestes a abrir o capital da empresa, ele estava me forçando a assinar os papéis do divórcio pela décima sétima vez, chamando isso de uma "manobra de negócios temporária".
Então eu o vi na TV, com o braço em volta de outra mulher - sua principal investidora, Aurora Quintanilha. Ele a chamou de o amor de sua vida, agradecendo por ela "acreditar nele quando ninguém mais acreditou", apagando toda a minha existência com uma única frase.
Sua crueldade não parou por aí. Ele negou me conhecer depois que seus seguranças me espancaram até eu desmaiar em um shopping. Ele me trancou em um porão escuro, sabendo perfeitamente da minha claustrofobia paralisante, deixando-me ter um ataque de pânico sozinha.
Mas o golpe final veio durante um sequestro. Quando o criminoso disse que ele só poderia salvar uma de nós - eu ou Aurora - Davi não hesitou.
Ele a escolheu. Ele me deixou amarrada a uma cadeira para ser torturada enquanto salvava seu precioso negócio. Deitada em uma cama de hospital pela segunda vez, destroçada e abandonada, eu finalmente fiz uma ligação que não fazia há cinco anos.
"Tia Evelina", eu disse com a voz embargada, "posso ficar com você?"
A resposta da advogada mais temida de São Paulo foi instantânea. "Claro, querida. Meu jatinho particular está de prontidão. E Ariela? Seja o que for, nós vamos resolver."
Capítulo 1
Ponto de Vista de Ariela Ferraz:
Pela décima sétima vez, o advogado de Davi deslizou os papéis do divórcio pela nossa mesa de jantar. A madeira de jacarandá polida parecia fria sob meus antebraços, um contraste gritante com a humilhação que me consumia.
Dezessete vezes.
Era o número de vezes nos últimos seis meses que me pediram para me apagar legalmente da vida de Davi Moura.
Na primeira vez, eu gritei até minha garganta ficar em carne viva. Na quinta, rasguei metodicamente cada página em pedacinhos de confete, minhas mãos tremendo com uma raiva que parecia estranha e aterrorizante. Na décima, segurei um caco de um prato quebrado contra meu próprio pulso, minha voz um sussurro calmo e mortal enquanto dizia ao advogado dele que, se quisesse minha assinatura, teria que arrancar a caneta dos meus dedos frios e mortos.
Seu advogado, um homem chamado Dr. Arruda com olhos tão cinzentos e sem vida quanto um céu de inverno, realmente empalideceu e recuou para fora de casa naquele dia.
Ele ligou para o Davi, claro. Davi correu para casa, o rosto uma máscara de preocupação, e me abraçou por horas, sussurrando promessas em meu cabelo. Promessas de que tudo era temporário, apenas uma formalidade para os investidores, que eu sempre seria sua esposa, a única.
Eu acreditei nele. Eu sempre acreditava nele.
Mas agora, encarando a décima sétima versão do mesmo documento, uma exaustão profunda e oca se instalou nos meus ossos. Eu estava cansada. Tão cansada de lutar, de gritar, de acreditar.
"Ariela", disse o Dr. Arruda, sua voz um murmúrio baixo e ensaiado, feito para acalmar. "Já passamos por isso. É uma jogada estratégica. Uma dissolução temporária para apaziguar o conselho antes do IPO. Nada vai realmente mudar entre você e o Davi."
Eu não olhei para ele. Meu olhar estava fixo na televisão montada na parede da sala, visível logo acima de seu ombro. O som estava no mudo, mas as imagens eram cristalinas. Davi, meu Davi, estava na tela, seu sorriso tão brilhante e ofuscante quanto os flashes das câmeras explodindo ao seu redor. Ele estava em um palco, o braço envolvendo possessivamente a cintura de outra mulher.
Aurora Quintanilha.
A brilhante e pragmática capitalista de risco da empresa que liderava a rodada de investimentos de sua companhia. A mulher que a mídia apelidou de a outra metade do novo casal poderoso do "Vale do Silício brasileiro". O sorriso dela era controlado, sua postura perfeita. Ela pertencia àquele lugar, sob as luzes cintilantes, ao lado do homem que o mundo celebrava como um gênio que se fez sozinho.
"Ele se casará com você novamente assim que a empresa estiver estável", continuou o Dr. Arruda, sua voz um zumbido irritante no meu ouvido. "Isso é apenas... negócios. A família da Aurora tem uma influência imensa. A associação pública deles é uma garantia para o sucesso do IPO."
Uma garantia. Eu era o risco. A esposa secreta de seu passado pobre, uma relíquia de uma vida que ele estava desesperado para esquecer.
Eu tinha ouvido essas falas tantas vezes que elas perderam todo o significado. Eram apenas sons, ar vazio moldado em palavras que deveriam me controlar, me manter quieta e submissa nas sombras da vida que eu ajudei a construir.
Olhei para os papéis. Meu nome, Ariela Ferraz, estava impresso ao lado de uma linha em branco. O nome dele, Davi Moura, já estava assinado, sua caligrafia familiar e ambiciosa um testamento de sua eficiência.
"Tudo bem", ouvi a mim mesma dizer. A palavra foi tão baixa, tão desprovida de emoção, que por um momento não tive certeza se a tinha dito em voz alta.
Dr. Arruda piscou, sua máscara profissional vacilando. "Desculpe?"
Peguei a caneta que ele tão atenciosamente providenciou. Parecia pesada, como se fosse esculpida em pedra. "Eu disse, tudo bem. Eu assino."
Um lampejo de choque, rapidamente substituído por um alívio indisfarçável, cruzou seu rosto. Ele esperava outra briga, outra cena, outra demonstração desesperada e patética da esposa inconveniente. Ele provavelmente tinha o Davi na discagem rápida, pronto para relatar o último colapso.
Mas não havia mais nada em mim para entrar em colapso. Eu era apenas uma casca oca.
Minha mão nem tremeu quando assinei meu nome. A tinta fluiu suavemente, um rio negro rompendo um laço de dez anos. Cada letra era uma pequena morte. A-r-i-e-l-a. F-e-r-r-a-z. Parecia o nome de uma estranha.
No momento em que a caneta se levantou do papel, o Dr. Arruda arrebatou o documento como se temesse que eu pudesse mudar de ideia. Ele o guardou em segurança em sua pasta de couro, os cliques das travas ecoando como tiros na casa silenciosa.
"Você tomou a decisão certa, Ariela. A decisão sábia", disse ele, já recuando em direção à porta, seu trabalho finalmente, abençoadamente, concluído. "Davi ficará muito satisfeito."
Ele fechou a porta atrás de si, deixando-me sozinha na casa cavernosa que nunca pareceu realmente um lar.
Por um longo momento, não me movi. Então, meus ossos pareceram se dissolver. Meu corpo desabou para a frente, minha testa repousando na superfície fria e implacável da mesa. Eu era uma âncora que finalmente fora solta, afundando em um oceano sem fundo de desespero silencioso.
Na televisão, o espetáculo silencioso continuava. Um repórter agora entrevistava Davi. Ele estava radiante, magnético, o homem por quem eu me apaixonei. Ele se inclinou para o microfone, seus olhos encontrando os de Aurora na multidão.
As legendas apareceram na parte inferior da tela.
"Eu devo tudo a uma pessoa", o rosto sorridente de Davi dizia ao mundo. "Aurora Quintanilha. Ela não é apenas minha principal investidora; ela é minha inspiração, minha parceira e o amor da minha vida. Quero agradecê-la por acreditar em mim quando ninguém mais acreditou."
As palavras pairaram ali, um epitáfio digital para toda a minha existência.
Acreditar nele quando ninguém mais acreditou.
Uma risada amarga e silenciosa escapou dos meus lábios. Lembrei-me de um apartamento apertado de um quarto que sempre cheirava a café velho e Miojo. Lembrei-me de trabalhar em três empregos - garçonete, faxineira, bartender - com as mãos em carne viva e o corpo dolorido, apenas para que ele pudesse pagar a mensalidade do seu MBA. Lembrei-me de vender a medalhinha de ouro da minha avó, a única coisa que me restava dela, para pagar os custos do servidor quando sua startup de tecnologia estava à beira do colapso.
Lembrei-me do dia em que fomos ao cartório, apenas nós dois. Ele não podia pagar por um anel de verdade, então me deu uma aliança de prata simples que comprou de um vendedor na feirinha da Praça da República.
"Um dia, Ariela", ele sussurrou, seus olhos brilhando com lágrimas contidas enquanto a deslizava no meu dedo, "eu vou te comprar uma ilha. Vou te dar o mundo inteiro. Isso é só o começo. Para nós."
Agora, sua promessa de um mundo inteiro estava sendo oferecida a outra mulher, na televisão ao vivo, para todos verem.
Meu mundo tinha acabado de acabar.
Meus dedos, dormentes e desajeitados, procuraram meu celular. Rolei por contatos que não via há anos, passando por nomes que pareciam fantasmas. Encontrei o que estava procurando. Evelina Medeiros. Minha tia distante. Uma temida e respeitada sócia sênior de um dos maiores escritórios de advocacia de São Paulo.
Meu polegar pairou sobre o botão de chamada. Não nos falávamos há cinco anos, desde uma briga amarga por causa de Davi, um homem que ela chamou de um sociopata charmoso desde o momento em que o conheceu.
Pressionei o botão.
Ela atendeu no segundo toque, sua voz tão afiada e precisa quanto eu me lembrava. "Ariela?"
Um soluço, o primeiro som real que fiz o dia todo, rompeu meu peito. "Tia Evelina", eu disse com a voz embargada. "Eu posso... posso ficar com você?"
Não houve hesitação, nenhum 'eu te avisei'. Apenas um calor repentino que cortou a névoa gelada em minhas veias. "Claro, querida. Estou em uma reunião agora, mas está quase no fim. Meu jatinho particular está de prontidão. Vou mandá-lo te buscar em três horas. Apenas faça uma mala. Leve tudo o que você quiser guardar."
Sua voz era calma, imponente, uma tábua de salvação nos destroços. "E Ariela? Seja o que for, nós vamos resolver. Estou a caminho."
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Ponto de Vista de Ariela Ferraz:
Davi ligou uma hora depois, sua voz leve e animada, tingida com a satisfação de um homem que acabara de conquistar o mundo.
"Oi, amor. O Arruda me disse que você assinou. Sabia que você faria isso por mim. Por nós."
Por nós. As palavras eram um comprimido amargo na minha língua. Ele fez parecer que eu tinha acabado de concordar em trocar de provedor de TV a cabo, não em dissolver nosso casamento.
"Para comemorar, reservei uma mesa no Terraço Itália", disse ele, a voz transbordando de excitação. "Nosso lugar. Use aquele vestido vermelho que eu amo. Te vejo às oito."
Ele não esperou por uma resposta. Ele nunca esperava.
Eu fui. Coloquei o vestido vermelho. Sentei-me à sua frente no restaurante no topo do prédio, as luzes da cidade piscando abaixo como um tapete de estrelas caídas. Foi aqui que ele me disse pela primeira vez que sua empresa havia garantido seu financiamento inicial, suas mãos tremendo de euforia enquanto segurava as minhas sobre esta mesma mesa.
Agora, aquelas mesmas mãos repousavam casualmente sobre a toalha de mesa branca, a um mundo de distância de mim. Ele falava animadamente sobre o IPO, sobre valor de mercado e opções de ações, sobre a capa da Forbes Brasil que ele estava programado para fotografar na próxima semana. Ele era uma supernova, queimando tão intensamente que não conseguia ver a pessoa sendo consumida por suas chamas.
Levantei minha taça de vinho. "A você, Davi", eu disse, minha voz surpreendentemente firme. "Você conseguiu tudo o que sempre quis."
Ele sorriu, batendo sua taça contra a minha. "A nós, Ariela. Nós conseguimos tudo o que queríamos."
Ele não percebeu a finalidade no meu brinde. Ele não viu o adeus em meus olhos.
Bebi o vinho em um longo gole, o vintage caro com gosto de cinzas na minha boca. Para mim, Ariela Ferraz. Esta bebida é para você. Para a sua liberdade.
Depois que o garçom limpou nossos pratos, Davi deslizou uma pasta fina sobre a mesa. "Isso é para você", disse ele, seu tom magnânimo. "Um pequeno agradecimento. Dez por cento das minhas ações pessoais. Assim que abrirmos o capital, você estará com a vida feita. Nunca mais terá que se preocupar com dinheiro."
Meu sacrifício, minha juventude, todo o meu futuro, destilado em uma carteira de ações. Um pacote de demissão.
Uma risada amarga ameaçou borbulhar, mas eu a engoli. Apenas assenti, meus olhos traçando o horizonte.
O celular dele vibrou. Uma mensagem de sua secretária. Ele olhou, uma leve carranca vincando sua testa.
"Droga. É a Aurora. Ela está no bar do hotel aqui embaixo, precisa discutir algo urgente sobre os registros da CVM." Ele se levantou, já vestindo o paletó. "Desculpe, amor. O dever chama. Termine aqui. O carro está te esperando lá embaixo."
Ele se inclinou para beijar minha bochecha, um gesto superficial e distraído. Então ele se foi, deixando-me sozinha com as luzes cintilantes e uma pasta cheia de dinheiro sujo de sangue.
Eu não fiquei. Não conseguia. Deixei a pasta na mesa e caminhei em direção aos elevadores. Quando as portas se abriram, ouvi suas vozes de um nicho isolado perto do bar.
"Sinceramente, Davi, era realmente necessário jantar com ela hoje, de todas as noites?" A voz de Aurora estava carregada de um tom impaciente e possessivo.
"Foi a última vez, eu prometo", a voz de Davi era um murmúrio baixo e apaziguador. "Ela assinou os papéis. Eu tinha que entregar a transferência das ações e dar um último adeus. Agora acabou. Completamente."
"Ótimo. Mal posso esperar para pararmos de nos esconder. Já se passaram três anos, Davi. Estou cansada de ser seu segredinho sujo."
Três anos.
O número me atingiu como um golpe físico. Três anos de suas mentiras, suas garantias, suas promessas de que tudo era temporário.
Um garçom carregando uma bandeja de comida saiu da cozinha, indo em direção à mesa deles. Na bandeja havia um prato de vieiras grelhadas com risoto de açafrão - o mesmo prato que eu acabara de comer. Davi tinha pedido para mim, alegando que era a especialidade do chef.
Ele havia pedido a mesma refeição para nós duas. Eu nem valia o esforço de uma escolha diferente. Eu era uma cópia carbono de um adeus.
Uma onda de náusea e tontura me atingiu. Tropecei para trás, minha mão procurando a parede para me firmar. Meus dedos roçaram uma escultura de vidro decorativa em um pedestal.
O mundo inclinou.
Ouvi o barulho doentio do estilhaçar antes de sentir a dor. A escultura se quebrou no chão de mármore. Um caco de vidro, afiado como uma navalha, cortou a palma da minha mão. Sangue, escuro e chocantemente vermelho, brotou instantaneamente, pingando no chão branco imaculado.
"O que foi isso?" ouvi Aurora perguntar.
Passos. Eles apareceram no final do corredor, seus rostos iluminados pela luz suave. Os olhos de Davi se arregalaram quando me viu, segurando minha mão ensanguentada.
Por uma fração de segundo, um lampejo do antigo Davi surgiu. Pânico. Preocupação. Ele deu um passo em minha direção. "Ariela? O que aconteceu?"
Mas então ele encontrou o olhar afiado e questionador de Aurora. Ele congelou.
"Davi, quem é essa?" Aurora perguntou, sua voz pingando gelo. Seus olhos percorreram meu simples vestido vermelho, meu rosto chocado e o sangue se acumulando a meus pés com desprezo indisfarçável.
O rosto de Davi ficou em branco. O breve lampejo de preocupação desapareceu, substituído por uma máscara fria e aterrorizante de indiferença. Ele olhou do rosto exigente de Aurora para o meu, ensanguentado. E ele fez sua escolha.
Ele se virou para Aurora, balançando a cabeça levemente. "Eu não a conheço", disse ele, sua voz plana e desdenhosa. "Apenas uma hóspede desastrada, eu suponho. Vamos. O hotel vai cuidar disso."
Eu não a conheço.
As palavras ecoaram no silêncio súbito e ensurdecedor da minha mente. Dez anos da minha vida, dez anos de amor e sacrifício, apagados em uma única e brutal sentença. Ele olhou para mim, sua esposa, a mulher que lhe deu tudo, e me declarou uma estranha.
Apenas uma estranha.
Ele nem me deu um segundo olhar enquanto guiava Aurora para longe, seu braço firmemente em volta da cintura dela, protegendo-a da desagradável visão da minha existência.
Minhas pernas cederam, e eu caí no chão, a dor na minha mão uma pulsação surda e distante em comparação com a ferida aberta que ele acabara de rasgar em meu peito.
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Ponto de Vista de Ariela Ferraz:
"Isso vai precisar de pontos", disse o médico no pronto-socorro, sua voz gentil. "É um corte profundo. Quase certamente deixará uma cicatriz."
Uma cicatriz. Mais uma para adicionar à coleção que Davi me deixou, embora as outras não fossem visíveis na minha pele.
Lembrei-me de uma vez, anos atrás, quando me cortei com papel enquanto o ajudava a organizar suas anotações de pesquisa. Era uma coisinha de nada, mal um arranhão, mas ele agiu como se eu tivesse sido mortalmente ferida. Ele limpou com um lenço antisséptico, aplicou cuidadosamente um curativo e beijou meu dedo, seus olhos cheios de uma ternura que fez meu coração doer de amor.
Aquele homem se foi. Ou talvez nunca tenha existido. Tinha acabado. Isso, finalmente, estava irrevogavelmente claro.
Meu celular vibrou com uma mensagem dele.
Davi: Fiquei sabendo que você sofreu um acidente. Sua mão está bem? Pedi para minha secretária cuidar das despesas médicas. Avise-a se precisar de algo.
Ele estava terceirizando sua preocupação. Ele não conseguia mais nem se dar ao trabalho de fingir.
Eu: Estou bem. Não preciso da sua ajuda.
Paguei a conta eu mesma com o que restava das minhas economias e peguei um táxi de volta para casa. O silêncio lá dentro era uma presença física, pressionando-me de todos os lados. Engoli dois analgésicos e caí em um sono agitado e sem sonhos no sofá.
Fui acordada horas depois. A porta da frente estava se abrindo. Davi estava em casa. Eram quase 3 da manhã. Ele se moveu pela sala escura, sua silhueta recortada pela luz da lua que entrava pelas janelas do chão ao teto. Ele cheirava levemente a perfume caro - o perfume de Aurora - e a uísque.
Ele me viu no sofá e seus movimentos pararam. Ele se aproximou e ajoelhou-se ao meu lado, sua mão estendendo-se para acariciar meu cabelo. "Ariela", ele murmurou, sua voz grossa de sono e álcool. Ele se inclinou, seus lábios encontrando os meus.
Eu me afastei, uma dor aguda e lancinante subindo pelo meu braço a partir da minha mão suturada. "Não", sussurrei, a palavra mal audível.
Ele recuou, a testa franzida em confusão. Na penumbra, pude ver um lampejo de surpresa em seus olhos, como se não pudesse compreender minha rejeição. Eu nunca o havia rejeitado antes.
"Desculpe", disse ele, sua voz clareando um pouco. Ele suspirou, passando a mão por seu cabelo perfeitamente penteado. "Foi uma noite infernal. Sinto muito pelo que aconteceu no hotel. Foi... complicado."
Ele olhou para mim então, seu olhar suavizando para a sinceridade ensaiada que eu conhecia tão bem. "Você sabe que é a única para mim, certo? Você sempre será a Sra. Moura. Minha única esposa."
Minha única esposa. O título parecia uma piada. Uma piada cruel e patética. Eu era a esposa que ele mantinha escondida no sótão, aquela que ele estava pagando para desaparecer.
Ele pareceu tomar meu silêncio como aquiescência. Ele se levantou, espreguiçando-se. "Vou dormir no escritório hoje à noite. Não quero te acordar."
Ele desapareceu pelo corredor, deixando-me sozinha com a dor latejante na minha mão e o vazio no meu peito.
Mais tarde, a dor na minha palma me acordou novamente. Fui na ponta dos pés até a cozinha para pegar mais analgésicos. Ao passar pelo escritório, ouvi o murmúrio baixo de sua voz. Ele estava ao telefone. Pressionei meu ouvido contra a porta, meu coração uma pedra fria e pesada no peito.
"Sim, os papéis estão assinados", ele dizia, sua voz nítida e profissional agora, todos os vestígios de sono e álcool desaparecidos. "O Arruda tem o original. Podemos anunciar oficialmente meu estado civil como 'divorciado' para o conselho amanhã de manhã."
Houve uma pausa. Eu podia imaginar a pessoa do outro lado, provavelmente Aurora, fazendo uma pergunta.
"Eu sei, também fiquei surpreso que ela concordou tão facilmente", continuou Davi, uma nota de satisfação presunçosa em seu tom. "Ela sempre foi... emotiva. Mas acho que ela finalmente entendeu que isso era para o melhor. Ela é mais sensata do que eu imaginava."
Sensata. Ele achava que eu estava sendo sensata. Ele não tinha ideia de que eu simplesmente havia desistido.
"Não se preocupe, querida", disse ele, sua voz baixando para aquele tom íntimo e acariciante que ele costumava usar apenas comigo. "Tudo está nos trilhos. O IPO é em um mês. Naquele dia, na frente do mundo inteiro, eu vou me ajoelhar e te pedir em casamento."
Ele estava dando a ela a minha proposta. A que ele havia me prometido.
"Eu sei, eu sei. Eu também te amo." Outra pausa. Suas próximas palavras foram mais frias, mais afiadas, carregadas de um veneno que fez meu sangue gelar.
"Ela? Não, não teremos mais problemas. Honestamente, Aurora, você tem que entender... os anos que passei com ela, lutando para sair da pobreza... aquilo não era vida. Era um pesadelo. Um capítulo vergonhoso que mal posso esperar para encerrar de vez."
Meu corpo começou a tremer incontrolavelmente. Um som baixo e gutural escapou da minha garganta, algo entre um soluço e um grito. Tapei a boca com a mão boa, mordendo os nós dos dedos para abafar o barulho.
Um pesadelo.
Meu sacrifício, meu amor, toda a minha juventude... tudo era apenas um pesadelo vergonhoso do qual ele mal podia esperar para acordar.
Lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes e silenciosas. A dor na minha mão não era nada. Uma dor surda e distante. A ferida real estava na minha alma, um vasto buraco negro onde meu coração costumava estar.
Tropecei para longe da porta, minha visão embaçada. Uma risada, alta e histérica, arranhou minha garganta.
Ele estava certo. Era um pesadelo. E eu finalmente, finalmente tinha acordado.
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