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Apagado Nunca Mais: Minha Sinfonia

Apagado Nunca Mais: Minha Sinfonia

Autor:: Erastus Szabo
Gênero: Moderno
Vendi meu baixo Fender vintage, uma relíquia, para pagar a faculdade de medicina do Jonas. Acreditei na promessa dele de que conquistaríamos o mundo juntos. Dez anos depois, encontrei uma pasta oculta no laptop dele intitulada "Estratégia de Saída". Lá estavam os detalhes sórdidos de como me deixar na rua, sem teto, enquanto ele instalava a tutora da nossa filha na minha casa. Ele não estava apenas me traindo. Ele estava, metodicamente, me apagando da existência. Pela câmera da babá, assisti a ele rindo enquanto Cris, a tutora "angelical", vestia meu roupão de seda e zombava da minha música, chamando-a de barulho infantil. Ele disse a ela que eu não passava de um degrau, uma conexão com a influência do meu pai que ele finalmente havia superado. Eu não gritei. Não implorei. Silenciosamente, reuni as provas, protegi meus bens e entreguei a ele os papéis do divórcio que estilhaçaram sua reputação cuidadosamente construída. Mas quando Cris, enlouquecida pelas mentiras dele, arrastou nossa filha para a beira de um penhasco coberto de neve, Jonas finalmente caiu de joelhos. Ele chorou, implorando por uma segunda chance, jurando que eu era a única mulher que ele amou. Olhei para o homem que planejou minha ruína, depois para minha filha, que enxergava através dele. - É tarde demais, Jonas - eu disse, minha voz mais fria que o vento cortante. Virei as costas e caminhei pela neve, segurando minha filha com força, deixando-o sozinho no frio, com nada além de seus arrependimentos.

Capítulo 1

Vendi meu baixo Fender vintage, uma relíquia, para pagar a faculdade de medicina do Jonas. Acreditei na promessa dele de que conquistaríamos o mundo juntos.

Dez anos depois, encontrei uma pasta oculta no laptop dele intitulada "Estratégia de Saída". Lá estavam os detalhes sórdidos de como me deixar na rua, sem teto, enquanto ele instalava a tutora da nossa filha na minha casa.

Ele não estava apenas me traindo. Ele estava, metodicamente, me apagando da existência.

Pela câmera da babá, assisti a ele rindo enquanto Cris, a tutora "angelical", vestia meu roupão de seda e zombava da minha música, chamando-a de barulho infantil.

Ele disse a ela que eu não passava de um degrau, uma conexão com a influência do meu pai que ele finalmente havia superado.

Eu não gritei. Não implorei.

Silenciosamente, reuni as provas, protegi meus bens e entreguei a ele os papéis do divórcio que estilhaçaram sua reputação cuidadosamente construída.

Mas quando Cris, enlouquecida pelas mentiras dele, arrastou nossa filha para a beira de um penhasco coberto de neve, Jonas finalmente caiu de joelhos.

Ele chorou, implorando por uma segunda chance, jurando que eu era a única mulher que ele amou.

Olhei para o homem que planejou minha ruína, depois para minha filha, que enxergava através dele.

- É tarde demais, Jonas - eu disse, minha voz mais fria que o vento cortante.

Virei as costas e caminhei pela neve, segurando minha filha com força, deixando-o sozinho no frio, com nada além de seus arrependimentos.

Capítulo 1

O vento gelado castigava meu rosto, atravessando o sobretudo como se eu estivesse nua. Era um lembrete brutal do frio que se instalara nos meus ossos muito antes da chegada do inverno. Puxei a gola com mais força, observando os flocos de neve começarem sua dança lenta contra o céu cinzento de Gramado. Eram exatamente 15h. O horário que combinei com ele.

Um sedã preto, importado e ostensivo, deslizou até o meio-fio. O vidro desceu com um zumbido suave, revelando o perfil de Jonas. O maxilar marcado, o cabelo escuro perfeitamente alinhado... estava tudo lá, intocado pela ruína que ele trouxe para nós. Ele ofereceu um sorriso tenso, quase profissional.

- Camila. Pontual como sempre. - A voz dele era macia, um charme ensaiado que um dia me desarmou. Agora, parecia lixa esfregando em uma ferida aberta.

Não retribuí o sorriso.

- Jonas.

Ele destravou a porta do passageiro, um convite silencioso. Hesitei. Meus olhos varreram o interior de couro polido. Um cheiro doce e enjoativo, como perfume floral barato, impregnava o ar. Não era o meu cheiro. Não mais.

Ele pigarreou.

- Está congelando aí fora. Entra.

Entrei. O calor do carro foi imediato, mas inútil para derreter o gelo entre nós. O silêncio se esticou, denso e sufocante. Ele apertava o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.

- Como está a mamãe? - perguntei, minha voz plana, cortando o silêncio.

Os ombros dele relaxaram visivelmente.

- Ela... ela tem perguntado por você.

Eu já sabia. A demência de Dona Helena avançou rápido desde que saí de casa. Nos momentos de lucidez, ela chorava por uma nora que estava viva, mas ausente. Na confusão, ela simplesmente sentia falta da bondade que eu sempre lhe dediquei.

- Ela acha que a Cris é uma estranha - ele continuou, com um tom que não consegui decifrar. Piedade? Vergonha? Eu não me importava.

- Vou encontrá-la na consulta médica mais tarde - avisei. - Estarei lá para o acompanhamento.

Ele assentiu.

- Obrigado, Camila. Isso significa muito. Para ela e para mim.

Não respondi. A gratidão dele soava oca, uma performance para uma plateia de um só: ele mesmo.

Ele tentou me entregar o cartão de crédito dele.

- Deixe-me pagar seu café.

Empurrei a mão dele de volta.

- Já paguei.

O olhar dele demorou no meu rosto.

- Você parece cansada, Camila. Está comendo direito?

- Estou ótima. - Minha resposta foi seca.

- Nossa consulta é em uma hora - disse ele, olhando o relógio no painel. - Podemos almoçar algo rápido.

- Não, obrigada. - Olhei pela janela, vendo as luzes da cidade borradas pela neve que caía. - Encontro você lá. Tenho coisas para resolver.

Ele suspirou, um som longo e arrastado, desenhado para evocar simpatia. Não funcionou.

Ele dirigiu por alguns quarteirões e parou em frente a um café familiar. Empurrei a porta, deixando o ar frio invadir o carro.

- Camila, espera - ele chamou.

Virei-me. Ele me observava, com os olhos sombreados.

- Como você tem estado, de verdade? - perguntou.

- Já estive melhor - respondi com honestidade. - E estarei melhor ainda quando isso acabar.

Ele estremeceu. Os primeiros flocos de neve, delicados e frios, começaram a grudar no meu cabelo. Tremi, não pelo frio, mas pela lembrança de como as palavras dele costumavam me aquecer.

- Você deixou seu baixo na garagem - disse ele de repente, apontando para o banco de trás. Um Fender vintage, coberto de poeira, estava parcialmente visível sob um cobertor. - Eu pretendia te entregar.

Olhei para o instrumento, depois para ele.

- Pode ficar aí.

- Mas você amava tocar isso - insistiu ele, com um desespero estranho na voz. - Era seu. Eu comprei para você.

- Algumas coisas só juntam poeira, Jonas - sussurrei. - Elas deixam de ser úteis.

A neve caía mais forte agora, uma cortina branca descendo entre nós.

- Camila, por favor - a voz dele estava embargada. - Não vá. Volte para casa. A Gabi sente sua falta. Eu sinto sua falta.

Ele saiu do carro, estendendo a mão para mim. A neve já começava a acumular em seu terno escuro.

- Para onde eu voltaria? - perguntei, soltando uma risada amarga. - Para o apartamento da Cris? Ou para o antigo quarto dela na nossa casa? Qual deles é o "lar" agora, Jonas?

O rosto dele desmoronou.

- Ela foi embora. Ela não está mais lá. Por favor, Camila. Podemos consertar isso. Só... volte. Não assine aqueles papéis amanhã. Por favor.

Os olhos dele imploravam. Reconheci o olhar, o charme desesperado que ele usava quando queria algo. Mas desta vez, era diferente. Havia medo genuíno ali.

Ele levou a mão ao pescoço, afrouxando o nó da gravata e abrindo levemente a camisa. Meu olhar foi atraído para a clavícula dele, para a pequena tatuagem ali. Uma Clave de Fá. Estava desbotada agora, uma sombra do preto vibrante que já foi.

- Isso - disse ele, a voz grossa de emoção, tocando a tatuagem. - Isso foi para você. Você era minha música, Camila. Meu tudo. Minha inspiração.

Lembrei do dia em que ele fez aquilo. Namorados na faculdade, cheios de sonhos. Ele, um estudante de medicina obstinado; eu, uma baixista de coração selvagem tocando em bares esfumaçados. Ele me disse que era uma promessa, um símbolo do nosso futuro. Ele seria o cirurgião, eu seria a estrela do rock. Conquistaríamos o mundo.

- Você ia ser uma estrela do rock - continuou ele, a voz mais suave. - Eu ia ser seu maior fã. E eu sou. Ainda sou. Olhe para mim, Camila. Por favor. Estou implorando. Não me diga que não se importa mais com isso.

Olhei para ele, realmente olhei, como se visse um estranho. O homem que segurou a mão do meu pai, que prometeu cuidar de mim. O homem que usou as conexões do meu pai para subir a escada do sucesso e se tornar um renomado cirurgião ortopédico. O homem que, em algum lugar do caminho, esqueceu a mulher que o amava incondicionalmente.

- Por que eu deveria me importar com essa tatuagem, Jonas? - perguntei, com uma calma perigosa. - Quando você sussurrava no ouvido da Cris, você contava a ela sobre sua "música"? Você mostrava a ela o seu "tudo"?

Ele congelou, a mão ainda na Clave de Fá. O rosto dele ficou cinza.

- Não, Camila, não foi assim. - O celular dele vibrou, uma intrusão estridente. Ele ignorou. - Por favor, apenas escute...

Mas o telefone tocou de novo, insistente. Ele olhou para a tela, depois para mim, com um lampejo de pânico nos olhos. Atendeu, a voz caindo para um tom gentil e tranquilizador.

- Mãe? O que foi? Não, não, estou aqui. Está tudo bem.

Ele estendeu o telefone para mim, a mão tremendo.

- É a mamãe. Ela parece transtornada.

Peguei o telefone, meu coração afundando. A voz de Dona Helena crepitava do outro lado, fina e em pânico.

- Camila? É você, querida? Elas... elas estão tentando pegar minha bolsa. Tem uma garota estranha aqui, ela fica me dizendo o que fazer. Onde você está, Camila? Sinto sua falta.

Minha respiração falhou. As palavras foram um soco no estômago. Olhei para Jonas. Ele estava lá, de cabeça baixa, a imagem da derrota.

- Por favor, Camila - ele sussurrou, a voz falhando. - Venha para casa. Só pela mamãe. Eu sei que você ainda se importa com ela.

Ele estava certo. Eu me importava. Dona Helena era inocente nessa sujeira toda, uma mulher doce que sempre me tratou como filha. Meu pai, no leito de morte, me fez prometer cuidar dela. Uma promessa que eu pretendia manter, mesmo que o filho dela fosse um mentiroso e traidor.

Engoli em seco, a amargura descendo rasgando.

- Tudo bem - disse, a palavra saindo com esforço. - Eu vou. Mas só por ela.

Ele relaxou, aliviado.

- Obrigado. Obrigado. Eu te levo. Podemos pegar a Gabi no caminho.

Voltei para o carro, o cheiro doce de perfume barato agora me sufocando. Eu sabia por que ele queria que eu voltasse. Não por amor, não por nós. Ele queria me usar, de novo, para apagar outro incêndio dele. Mas por Dona Helena, desta vez eu faria o meu papel. Só mais essa vez.

Capítulo 2

O cheiro de perfume barato, enjoativo e doce, ainda impregnava o couro macio do carro de Jonas, uma presença fantasma que gritava verdades sem dizer uma palavra. Meu baixo Fender, meu velho amigo, jazia esquecido no banco de trás, acumulando uma nova camada de poeira. Parecia um símbolo de tudo o que foi negligenciado, tudo o que foi deixado para desaparecer.

Jonas dirigia com facilidade, as mãos - as mesmas mãos que realizavam cirurgias complexas - agora segurando o volante, nos guiando pela neve que engrossava. Eu o observava, um estranho ocupando um espaço familiar.

- Você se lembra - ele começou, a voz suave, quase uma súplica - do seu pai me dizendo que eu tinha mãos feitas para a cirurgia? Ele disse que eu tinha um dom.

Olhei para ele, depois voltei a olhar pela janela.

- Eu lembro. - Minha voz saiu sem vida.

- Ele ficou tão orgulhoso quando entrei na residência. Disse que eu estava destinado à grandeza. - Ele fez uma pausa, com um tom nostálgico. - Ele sempre viu algo em mim, algo que nem eu mesmo via.

Ele não precisava dizer mais nada. Eu conhecia a história de cor. Meu pai, o renomado Chefe de Cirurgia, acolheu o jovem e ambicioso Jonas, vindo de uma origem humilde. Ele viu potencial, talento bruto e uma fome quase desesperada de sucesso. Ele abriu portas para Jonas que teriam permanecido trancadas para qualquer outra pessoa.

O carro foi preenchido pelos acordes melancólicos de uma velha música indie, de uma banda que amávamos na faculdade. A mesma banda em que eu tocava. Minha garganta apertou.

- Camila - ele murmurou, os olhos encontrando os meus brevemente no retrovisor. - Parece que foi em outra vida, não é? Todos aqueles sonhos, todo aquele... futuro.

- Foi em outra vida - cortei, antes que ele pudesse se afundar mais em sua nostalgia fabricada. - E esse futuro incluía você e a Cris, não incluía? Bem na época em que você decidiu que a Gabi precisava de uma tutora.

A mão dele apertou o volante. Os nós dos dedos, já brancos, pressionaram com mais força contra o couro escuro.

Lembrei do boletim da Gabi, um mar de notas vermelhas, seus olhos geralmente brilhantes nublados de frustração. Ela era uma sonhadora, minha Gabi, mais interessada em desenhar criaturas fantásticas do que em álgebra.

- Precisamos fazer algo, Jonas - eu disse, segurando o papel amassado. - Ela está com dificuldades.

Ele acenou com a mão, dispensando o problema.

- Crianças passam por fases. Ela vai recuperar.

Mas eu insisti.

- Não, não desta vez. Ela precisa de ajuda. Uma tutora.

Ele concordou, quase rápido demais.

- Conheço a pessoa certa. Uma estudante de enfermagem brilhante. Cris Lee. Ela trabalhou na recepção do hospital por um tempo. Muito articulada, boa com crianças, precisa de dinheiro extra.

Ele a descreveu em termos elogiosos, praticamente uma santa. Jovem, ansiosa, respeitosa. Cris chegou, uma visão de inocência juvenil em suéteres pastéis e um sorriso tímido. Ela era deferente, quase medrosa, sempre me agradecendo profusamente pelos menores favores.

- Oh, Dona Camila, é muita gentileza sua - ela sussurrou quando comprei um casaco novo para ela no inverno. - A senhora é como um anjo.

Um anjo. Uma cobra em pele de cordeiro, isso sim. Uma víbora que eu acolhi na minha casa.

Eu vi tudo, eventualmente. Os olhares demorados, os toques "acidentais", as mensagens tarde da noite. E então, a filmagem da câmera da babá. Meu coração se estilhaçou em um milhão de pedaços, não apenas por mim, mas pela tola ingênua que eu fui. Ela estava ensinando a Gabi, claro. Ensinando o Jonas a trair a esposa, a desmontar uma família peça por peça, bem debaixo do meu nariz.

O carro virou levemente, entrando na entrada arborizada familiar. Nossa entrada. A casa estava lá, elegante e imponente, emoldurada pela neve caindo. Tudo parecia igual. O gramado bem cuidado, as decorações de Natal de bom gosto piscando na varanda. Mas nada era igual. A casa era apenas uma concha bonita, oca por dentro, corroída pela mentira.

A porta da frente se abriu antes mesmo de Jonas colocar o carro no parque. Dona Helena estava lá, uma figura frágil em um xale tricotado à mão, os olhos arregalados com uma mistura de confusão e alívio.

- Camila, minha querida! - ela gritou, a voz trêmula. Ela correu para frente, ignorando Jonas completamente, e me envolveu em um abraço apertado e desesperado. O cheiro dela, uma mistura reconfortante de lavanda e talco, preencheu meus sentidos. - Você voltou! Eu disse a eles que voltaria. Onde você esteve? Aquela garota estranha... ela está tentando pegar minhas coisas. Ela disse que eu não precisava mais disso. - Ela apertava um álbum de fotos gasto contra o peito.

Meus olhos encontraram os de Jonas por cima do ombro dela. O rosto dele era uma máscara de vergonha e arrependimento.

Então, de trás de Dona Helena, uma visão emergiu. Cris. Ela estava usando meu roupão de seda, aquele que Jonas comprou para o nosso aniversário no ano passado. Pendia frouxo em sua estrutura pequena, uma paródia cruel de elegância. O cabelo dela estava úmido, como se tivesse acabado de sair do banho. Um sorriso tímido, quase triunfante, brincava em seus lábios enquanto ela olhava para mim, depois para Jonas.

- Oh, Dona Helena - ronronou Cris, a voz pingando falsa preocupação -, a senhora não deveria estar no frio. Venha para dentro. E Camila - acrescentou ela, o olhar afiando -, bem-vinda ao lar. Faz tempo, hein?

Capítulo 3

Desvencilhei-me gentilmente do abraço de Dona Helena, meus olhos fixos em Cris. O roupão de seda, o *meu* roupão, balançava com os movimentos dela. Senti uma raiva fria crescendo dentro de mim, mas a forcei para baixo. Eu estava aqui por Dona Helena, não para um barraco com a Cris. Ainda não.

- Estou aqui para ajudar a Dona Helena com a consulta médica - declarei, minha voz calma, inexpressiva. - Jonas e eu vamos levá-la.

Dona Helena agarrou minha mão.

- Sim, querida. Essa garota... ela diz que mora aqui agora. Ela fica tentando me dizer o que fazer. Diz que eu não deveria usar minhas próprias roupas. - Ela gesticulou vagamente em direção a Cris, a testa franzida em confusão. - Ela não é da família, é?

Meu coração doeu por ela. Essa mulher doce, que sempre me acolheu, me tratou com afeto genuíno. Lembrei dela agitada na cozinha, me ensinando suas receitas, especialmente sua famosa canja de galinha. Era o gosto de casa, de conforto.

E agora, a casa ainda cheirava vagamente àquela canja, um fantasma de conforto em um lar cheio de traição.

Meu olhar vagou para o canto da sala de estar, onde uma capa de contrabaixo empoerada estava encostada na parede. Não o meu Fender, mas um velho contrabaixo acústico, uma relíquia dos meus dias de faculdade. Lembrei da emoção do palco, a pulsação da música fluindo através de mim, meus dedos voando pelas cordas.

Jonas era meu maior fã naquela época. Ele ia a todos os shows, gritava meu nome, os olhos cheios de admiração.

- Você vai ser famosa, Camila - ele me dizia, com o braço em volta da minha cintura, me puxando para perto depois de um set particularmente selvagem. - Uma estrela do rock. E eu estarei bem aqui, te aplaudindo.

As palavras dele, antes uma promessa, agora pareciam uma piada de mau gosto.

Então meu pai adoeceu. O brilhante Chefe de Cirurgia, derrubado por uma doença súbita e agressiva. No leito de morte, ele segurou a mão de Jonas, a voz fraca.

- Cuide da minha menina, Jonas. Ela é boa demais para este mundo.

Jonas prometeu, os olhos cheios do que eu acreditei ser tristeza e compromisso genuínos.

A carreira dele, alimentada pelas conexões do meu pai e sua própria ambição implacável, disparou depois disso. Ele se tornou o menino de ouro, o cirurgião com o toque de Midas. E eu? Eu desisti do baixo, desisti dos bares esfumaçados e das jams tarde da noite. Tornei-me a esposa perfeita do cirurgião, gerenciando nossa casa enorme, oferecendo jantares elegantes, mantendo a imagem imaculada dele. Troquei meus sonhos pelos dele, acreditando que eram *nossos* sonhos.

Quando meu pai morreu, meu mundo desabou. Jonas, sempre o forte, me segurou.

- Vou cuidar de tudo, Camila. Apenas apoie-se em mim. Para sempre.

Para sempre. Que piada.

Encontrei a filmagem da câmera por acidente. Um alerta no meu celular, uma notificação que eu geralmente ignorava. Mas naquela noite, algo me fez clicar. E lá estava. Não a Gabi lutando com o dever de casa, mas a Cris, jogada no colo do Jonas, os lábios colados. Os gemidos suaves, os sussurros carinhosos. Meu mundo fraturou tudo de novo.

Lembrei da fúria gélida que me consumiu. Invadi o escritório dele, o laptop ainda aberto, a prova condenatória ainda na tela.

- O que é isso, Jonas? - Minha voz foi um som gutural, cru, que mal reconheci.

Ele olhou para cima, a expressão uma mistura de culpa e aborrecimento.

- Camila! O que você está fazendo? Espionando?

- Espionando? - gritei, a fachada de calma se estilhaçando. - Esta é a minha casa! Meu casamento! E isso... isso é uma traição!

Ele se levantou, elevando-se sobre mim. Cris, uma sombra atrás dele, se encolheu.

- Não seja histérica, Camila. Não é o que você está pensando.

- Não é o que eu estou pensando? - Avancei nele, minhas mãos voando, desesperada para apagar a imagem da minha mente. Ele segurou meus pulsos, o aperto como ferro. Então, ele me deu um tapa. Forte. Minha cabeça estalou para trás, a dor aguda um eco chocante da ferida mais profunda.

- Você está me humilhando! - sibilou ele, os olhos queimando com uma fúria fria que eu nunca tinha visto dirigida a mim. Ele me empurrou para longe, em direção à porta. Cris, choramingando, aninhou-se ao lado dele. Ele acariciou o cabelo dela, o olhar ainda fixo em mim, desprovido de calor.

Tropecei para fora, deixando-os no escritório opulento, o segredo deles agora dolorosamente exposto. Os outros funcionários, as empregadas, as cozinheiras, eles deviam saber. Os olhares desviados, os sussurros abafados, de repente faziam sentido. Eu fui a última a saber, a idiota.

Desabei no jardim coberto de neve, o frio cortante um conforto estranho contra a humilhação ardente. As lágrimas congelavam nas minhas bochechas. Meu celular vibrou. Uma mensagem de um número desconhecido.

"Ele nunca te amou, sua vaca frígida. Ele me disse que você era apenas um troféu. Estou dando a ele o que você nunca pôde."

Cris.

Uma nova onda de náusea me atingiu. Eu queria gritar, atacar. Queria expô-los, derrubar a fachada cuidadosamente construída dele. Mas as palavras do meu pai ecoaram na minha mente: "Mantenha sempre sua dignidade, Camila."

Então, eu tentei. Contatei um advogado, reuni as provas que pude. Mas Jonas, com seu poder e suas conexões, estava sempre um passo à frente. Ele ameaçou cortar meu acesso a Dona Helena, lutar pela custódia total da Gabi, me sangrar financeiramente. Ele deixou claro que eu não era nada sem ele.

No meu desespero, considerei ir a público, expor a infidelidade. Mas ele me avisou.

- Você vai arruinar nossas reputações, Camila. Pense na Gabi. Pense na mamãe.

As palavras dele, manipuladoras como eram, funcionaram. Hesitei. Comecei a me perder, a acreditar no *gaslighting* dele. Talvez fosse minha culpa. Talvez eu fosse muito fria, muito insensível. Afundei em uma depressão profunda, me negligenciando, negligenciando tudo. Gabi começou a me evitar, sentindo a tensão, a tristeza que se agarrava a mim como uma mortalha.

Então, numa noite sem dormir, sentada no escuro, olhando para o teto, um pensamento perfurou a névoa do desespero. Lembrei de um velho drive de backup esquecido no escritório de Jonas. Eu o tinha encontrado enquanto procurava os álbuns de fotos antigos da Gabi. Dentro, não fotos, mas uma pasta oculta. Documentos financeiros. E-mails. Um plano detalhado. O plano dele para me deixar sem nada, para garantir que eu permanecesse dependente dele após o divórcio. Um último e cruel giro da faca.

Meu coração ficou dormente. Ele não era apenas infiel; ele era malicioso. Ele não estava apenas entediado; ele estava planejando minha destruição. Naquele momento, vendo a traição fria e calculada exposta em preto e branco, os últimos vestígios do meu amor, da minha esperança, da minha dúvida foram arrancados. Foi um despertar frio e duro.

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