A manhã começou como qualquer outra. Eu e Hikaru estávamos a caminho do trabalho, conversando sobre coisas banais, quando tudo aconteceu de repente. Um carro surgiu do nada e me atropelou. Não cheguei a me ferir gravemente, apenas algumas escoriações leves, mas o susto... o susto foi imenso.
Fui levada ao hospital por precaução. Lá, fizeram vários exames, inclusive um Beta-HCG - o que achei estranho, mas aceitei sem questionar muito. Enquanto esperava os resultados, deitada, conectada ao soro e tentando me acalmar, notei algo que me incomodou profundamente: Hikaru recebeu uma ligação e, sem dizer uma palavra, saiu da sala para atender.
Aquilo me pegou desprevenida. Nunca houve segredos entre nós. Sempre soubemos tudo um do outro, cada pensamento, cada detalhe. Ele nunca desligava o telefone perto de mim, muito menos saía às pressas com o olhar tão... estranho.
Tentei racionalizar. Talvez fosse algo do trabalho, talvez não quisesse me preocupar ainda mais. Mas o tempo passou. O soro acabou. E ele... não voltou.
Mandei uma mensagem. Nada. Nem visualizou.
A inquietação cresceu no meu peito. Será que teve acesso aos meus exames antes de mim? O médico que me atendeu era amigo dele parede conhecê-lo da época da resistência. E se... e se ele soubesse de algo que eu ainda não sei?
Tudo hoje está estranho demais. O acidente. A ligação. O silêncio.
Talvez eu esteja exagerando. Talvez seja só cansaço, ou ansiedade. Mas não consigo afastar essa sensação incômoda de que alguma coisa está errada. Muito errada.
E, no fundo, algo me diz que, depois de hoje, nada mais será como antes.
O ponteiro do relógio parecia debochar de mim. Já passava das duas da tarde e Hikaru ainda não havia voltado. As mensagens continuavam sem resposta. O silêncio dele doía mais do que as escoriações no meu corpo.
Foi então que o médico entrou novamente no quarto, segurando uma prancheta. O rosto estava neutro, mas seus olhos... havia algo ali, como se pesasse as palavras antes mesmo de abri-las.
- Laura - disse com uma voz calma, quase paternal. - Seus exames estão todos normais. Nada grave por causa do acidente. Mas há algo importante que precisamos conversar.
Meu coração acelerou. Senti um frio na barriga. O tipo de frio que antecede um vendaval.
- O Beta-HCG deu positivo. Parabéns... você está grávida.
Por um momento, não consegui reagir. Minha mente congelou. Grávida? De verdade? Eu olhei para o teto branco, depois para o soro pendurado, depois para a porta... esperando, desejando, que Hikaru entrasse e ouvisse isso comigo.
Mas ele não estava ali.
O médico continuou falando, dando instruções, sugerindo o pré-natal... mas tudo parecia distante, abafado, como se eu estivesse debaixo d'água. Só uma frase ecoava na minha cabeça:
"Você está grávida."
Depois que o médico saiu, fiquei sozinha com a notícia. Passei os dedos pela barriga, tentando sentir algo - qualquer coisa - que confirmasse que aquilo era real.
Hikaru precisava saber. Ele sempre disse que sonhava em ser pai. Ele falava disso com os olhos brilhando. Mas agora... onde ele estava?
Já passava das três quando recebi alta. Voltei para casa com a sensação de que tudo tinha mudado e, ao mesmo tempo, nada fazia sentido. Hikaru continuava me ignorando não atendeu minhas ligações. Não respondeu mensagens.
Mas, no fundo, algo me dizia que as respostas queria, era algo que não estava pronta para ouvir.
De repente, minha boca secou. A voz simplesmente... não saía.
Fiquei paralisada, como se meu corpo tivesse se desconectado da alma. O ar parecia preso nos pulmões, as pernas não obedeciam aos comandos do meu cérebro. Só conseguia olhar. Olhar ele ir embora.
Ali estava Hikaru. Postura ereta, passos firmes, a silhueta que tantas vezes procurei no meio da multidão agora sumia diante dos meus olhos - sem pressa, sem hesitação. Eu ainda conseguia ver sua nuca, os ombros largos, a calma no andar. Mas não houve sequer um olhar para trás.
Nada.
Ele foi embora como se não deixasse nada para trás. Como se eu... não fosse nada.
E então, o mundo desabou ao meu redor. Fiquei ali, imóvel no saguão do prédio, transformada em uma estátua com olhos marejados. O silêncio gritava dentro de mim. As perguntas vinham como socos no estômago:
Por quê?
Por que agora?
Por que desse jeito?
A única coisa que ele disse antes de partir foi:
"Estou voltando para o Japão."
A frase martelava na minha mente. Fria. Seca. Vazia.
Sem um abraço.
Sem um beijo.
Sem um olhar.
Sem uma explicação.
Como se os sete anos que vivemos lado a lado não significassem absolutamente nada.
Subi ao apartamento sem me dar conta de como cheguei lá. As pernas se moviam, mas minha mente ainda estava parada no saguão. Senti como se o mundo estivesse girando sem mim.
Ao entrar, tudo ainda carregava o cheiro dele. A caneca preferida na pia. Um livro virado de cabeça para baixo no sofá. A camisa dele pendurada na cadeira. Tudo igual - menos ele.
Revirei gavetas, abri o armário, procurei sinais, alguma pista, qualquer coisa que pudesse me explicar como o respeitado, atencioso e apaixonado Dr. Hikaru Minato pôde simplesmente desaparecer da minha vida... sem ouvir uma palavra minha.
Sem saber que estou grávida.
Como ele pôde? Como alguém consegue ser tão frio? Até ontem, ele me abraçava no escuro e sussurrava que me amava. Até ontem, fazíamos planos. Até ontem, o futuro tinha nosso nome.
E agora, ele se foi.
Me senti... abandonada.
De novo.
Primeiro, minha mãe biológica me deixou. Agora, Hikaru. Como se amar alguém fosse um convite ao abandono. Como se, por mais que eu amasse, nunca fosse o suficiente para alguém ficar.
Caí no chão da sala, abraçada à própria dor. Chorei até não restar força. Até não restar resistência. Só o vazio - e uma vida crescendo dentro de mim que ele nem sabe que existe.
Sete anos de amor. Sete anos de cumplicidade.
E agora... só restava o silêncio.
Um silêncio que escondia mais do que a ausência.
Escondia um segredo.
Uma verdade.