(AVISO: *PARA LER ESTE LIVRO, PRECISA LER O PRIMEIRO PARA SE ENTENDER A HISTÓRIA.*)
"O amor não se vê com os olhos, mas com o coração." - William Shakespeare
Quando ligo o motor pela primeira vez após a restauração, o ronco baixo e constante do Bel Air ressoa pela garagem da tia Rouse como uma respiração que voltou aos pulmões. Meu peito se enche de algo que não sinto há anos - talvez seja orgulho, talvez seja só alívio de ver que consigo consertar o que está quebrado.
Dou a primeira volta pelo quarteirão com as mãos trêmulas no volante, o motor respondendo a cada toque do acelerador como se nunca tivesse estado parado. O carro conversa comigo através das vibrações familiares, do som particular de cada marcha engrenando. Papai dizia que cada carro tem uma personalidade própria. O Bel Air tem a dele - teimoso quando está frio, mas leal quando aquece.
Este não é meramente um carro que restaurei. É um pedaço do meu pai que consegui trazer de volta à vida. Cada parafuso apertado, cada peça substituída, cada hora passada debaixo do capô foi como costurar de volta uma parte de mim que achei que tinha se perdido para sempre.
❤️🌻❤️
Agora, dirigindo pela primeira vez de volta para casa, sinto o peso de cada quilômetro que me separa do passado nas costas. O Bel Air não é só meu meio de transporte - é minha declaração. Passei anos provando para mim mesma que posso reconstruir coisas. Talvez seja hora de tentar reconstruir outras.
Dirijo pela estrada sinuosa, sozinha na escuridão que engole tudo além do alcance dos faróis. O motor do Bel Air ronca baixinho, uma conversa íntima entre metal e combustão que aprendi a decifrar durante os meses que passei desmontando cada peça dele. Minhas mãos conhecem cada vibração no volante, cada mudança no som do motor - é como dirigir uma extensão de mim mesma. O couro do banco, rachado em alguns pontos, mas ainda macio ao toque. Moldou-se ao formato do meu corpo durante as longas horas de estrada que me trouxeram até aqui.
O ar da noite entra pela janela entreaberta, trazendo o cheiro de terra úmida misturado com sal marinho e algo que não consigo identificar completamente. Talvez sejaunicamente o cheiro de casa, aquele aroma que só reconhecemos quando voltamos depois de muito tempo longe - uma mistura de memórias e nostalgia que se infiltra pelos poros da pele. Meus dedos tamborilam no volante, seguindo não a música country baixinha que toca no rádio, mas um ritmo próprio, nervoso, ansioso. Sete anos. Sete longos anos fugindo deste lugar, de conversas inevitáveis, desta decisão que venho adiando desde que soube da notícia.
A cada quilômetro percorrido, o nó no estômago se aperta mais, como se meu próprio corpo estivesse me alertando sobre o que estou prestes a enfrentar. Porque voltar para casa deveria ser fácil, natural, reconfortante - mas não é. Não quando você saiu da pior forma possível, com palavras que não pode mais retirar. Não quando deixou tanta coisa quebrada para trás, tantos pedaços espalhados que talvez nunca consiga juntar novamente.
A estrada sobe íngreme entre as árvores que se fecham como paredes escuras de cada lado. De repente, após uma curva mais acentuada, a paisagem se abre diante de mim como uma ferida antiga que ainda dói ao mais leve toque. O mar se estende até onde a vista alcança, suas águas escuras refletindo a luz prateada da lua cheia que pende baixa no céu estrelado. As ondas batem nas pedras lá embaixo com um som ritmado e hipnótico que costumava me acalmar quando criança, quando tudo era mais simples. Mas agora esse mesmo som parece estar me chamando de volta para algo que não sei se estou pronta para enfrentar, conversas que venho evitando há tempo demais.
Paro o veículo na beirada da estrada, numa faixa de terra batida que sempre serviu como mirante improvisado. Preciso de um minuto. Só um minuto para respirar, para preparar o coração para o que vem pela frente.
Saio do carro e me apoio no capô ainda quente, sentindo o calor do motor aquecendo minhas coxas através do jeans desbotado. A brisa marinha bagunça meus cabelos - os mesmos cachos castanhos e rebeldes que sempre recusaram qualquer tentativa de domesticação, que papai dizia ter herdado diretamente da vovó Moira, que morreu antes de eu nascer, mas que vive em cada foto pendurada nas paredes da casa.
"Cabelo de fada irlandesa", ele brincava, passando a mão na minha cabeça quando eu era pequena e reclamava que meu cabelo era impossível de pentear. "As fadas irlandesas são teimosas por natureza, Mally. É por isso que são tão especiais."
A lembrança surge sem avisar e me pega completamente desprevenida, como sempre acontece quando penso nele. Meu peito se aperta numa dor familiar que já deveria ter aprendido a carregar, mas que ainda me pega de surpresa em momentos como este. Cinco anos sem ouvir sua voz, cinco anos sem seus abraços que sempre conseguiam fazer tudo parecer menos assustador, menos complicado.
Respiro fundo, enchendo os pulmões com o ar salgado que carrega consigo todas as memórias desta costa que conheço como a palma da minha mão. Esta é a mesma lua que eu observava da janela do meu quarto anos atrás, deitada na cama antiga de ferro que rangia sempre que me mexia, planejando fugas impossíveis e sonhando com um mundo maior do que nossa pequena cidade litorânea. Era quando tudo ainda fazia sentido, quando o futuro parecia uma estrada reta à minha frente. Quando papai ainda estava vivo, ainda estava lá para me guiar quando eu me perdia. Quando eu ainda não havia estragado tudo com minha teimosia e meu orgulho ferido.
Uma estrela cadente risca o céu numa linha brilhante e efêmera. Instintivamente, fecho os olhos e faço um pedido idiota, infantil, como se fosse criança de novo e ainda acreditasse que desejos pudessem consertar o que está irremediavelmente quebrado. Como se o universo me devesse esse favor depois de tudo que aconteceu.
Fico ali por mais alguns minutos, deixando o vento bagunçar meus cabelos e levar embora parte da ansiedade que carrego no peito. A paisagem é exatamente como lembro - selvagem e bonita, indomável como as pessoas que escolheram viver aqui. Rochas pontiagudas se erguem da água como dentes antigos, e a espuma branca das ondas brilha fantasmagórica sob a luz da lua. É um lugar que nunca muda, que permanece igual enquanto nós, meros mortais, envelhecemos e nos transformamos e, às vezes, nos perdemos pelo caminho.
Finalmente volto para o automóvel. O Bel Air liga na primeira tentativa - sempre faz isso, como se soubesse instintivamente que preciso que pelo menos algo na minha vida seja confiável, previsível. O som do motor é como uma canção familiar, um acalanto mecânico que me acompanha há tantos quilômetros.
Encontrei este abandonado entre outras carcaças de metal enferrujado. Estava em estado deplorável - coberto de ferrugem alaranjada, com o motor praticamente morto, os bancos de couro rasgados e o para-brisa trincado. Mas era "dele". Reconheci imediatamente, mesmo depois de tanto tempo, mesmo transformado numa sombra do que havia sido. Era o mesmo Bel Air azul-marinho que papai vendeu durante o escândalo, quando precisava desesperadamente de dinheiro para pagar as dívidas e reabrir a loja. O mesmo carro em que ele me ensinou a dirigir nas tardes de domingo, suas mãos enormes cobrindo as minhas pequenas no volante de baquelite...
"Um carro tem alma, Mally", ele dizia, enquanto ajustava minha posição no banco para que eu alcançasse os pedais. "Você trata bem dele, respeita a máquina, e ele te leva onde precisa ir. Mas, o mais importante que isso - ele te traz de volta para casa."
Como ele estava certo. Como sempre, estava certo sobre essas coisas simples e fundamentais da vida.
Passei uns quatro anos e meio restaurando cada peça, cada parafuso, cada centímetro de metal. Tia Rouse me ensinou tudo que sabia sobre mecânica - como desmontar um motor peça por peça, como trabalhar com chapa e solda, como dar vida nova ao que outros considerariam somente lixo sem valor. Ela tem mãos de ouro para consertar qualquer coisa que tem motor, e paciência infinita para uma sobrinha perdida que foi para a sua casa toda desajeitada, que de alguma forma estava procurando um propósito, uma maneira de canalizar toda a dor e culpa que carregava.
Nas noites longas e silenciosas em que trabalhava até tarde na oficina dela, com as mãos sujas de graxa e o corpo dolorido de tanto esforço físico, eu conversava com o Bel Air como se ele pudesse realmente me ouvir e entender. Contava sobre os anos difíceis longe de casa, sobre a culpa que carrego como uma pedra no peito, sobre como sinto falta do papai todos os dias, sobre como ainda ouço sua risada ecoando em minha mente nos momentos mais inesperados. Falava sobre mamãe, sobre como o que ela pensaria de como fui covarde demais para voltar e enfrentar a tempestade.
"O passado não é um pacote que possamos guardar e esquecer." - Emily Dickinson.
E naquele cantinho discreto, escondido embaixo do carpete gasto do lado do motorista, ainda estão lá as iniciais que gravei quando tinha sete anos com a lâmina de um canivete que roubei da gaveta do papai: *M + A*.
Já no assoalho, aos pés do banco traseiro, tem o M❤️H, que coloquei ali quando tinha quinze anos. Marcas profundas no metal, evidência permanente de quando eu era criança boba demais para entender que algumas pessoas simplesmente não estão disponíveis para ser amadas. Que alguns corações já pertencem irrevogavelmente a outros, que alguns sonhos são impossíveis por definição.
Papai encontrou as iniciais uma vez, alguns meses depois de fazer. Estava limpando o carro numa tarde ensolarada de sábado, assobiando baixinho como sempre fazia quando estava concentrado numa tarefa. Levantou o carpete para aspirar por baixo e ficou olhando para as letras por um longo tempo, sem dizer nada. Eu estava observando da janela da sala, com o coração batendo tão forte que tinha certeza de que ele conseguiria ouvir dali de baixo. Mas quando finalmente falou comigo sobre o assunto, só sorriu com aquela gentileza infinita que sempre teve e disse que o carro guardava boas memórias, que minha "travessura" seria uma lembrança doce para sempre. Ele sempre soube ver o lado bom das coisas, sempre conseguiu encontrar beleza até nos meus erros mais óbvios, mesmo quando eu só conseguia enxergar a bagunça que havia virado a minha vida.
O motor do Bel Air ronca suave e confiável enquanto subo a última parte da estrada, aquela subida íngreme que sempre fez o carro que a mamãe tinha antes de adoecer esquentar demais. Papai o vendeu logo após descobrirmos a sua doença. Lembro-me de que mamãe falava muito mal do carro e que queria que vendesse, pois ela não aguentava mais aquele carro. Sempre dando problemas com ela, mas quando era com o papai, ele funcionava maravilhosamente bem, me fazendo rir de suas falas.
Cada curva conhecida revela mais da paisagem que ainda conheço de cor, mesmo depois de tanto tempo longe. São as mesmas árvores, os mesmos muros de pedra, as mesmas casas espalhadas pela encosta como se tivessem nascido naturalmente da terra. Quando finalmente avisto o portão de ferro forjado que marca a entrada da propriedade, meu coração falha uma batida e depois dispara descontroladamente.
A casa se ergue majestosa contra o céu estrelado, exatamente como deixei na memória. É a mesma construção imponente de pedra cinzenta que sempre me pareceu saída de um conto de fadas quando criança. As janelas estão escuras como olhos fechados, mas posso sentir que a casa está me observando voltar, reconhecendo minha presença depois de tanto tempo de ausência. É uma sensação estranha e reconfortante ao mesmo tempo, como ser recebida por um amigo muito querido que guardou seu lugar durante toda a sua ausência.
O jardim que mamãe cuidava com tanto carinho e dedicação ainda está lá, um pouco mais selvagem talvez, mas ainda reconhecível. Mesmo na escuridão, posso distinguir o formato familiar das roseiras trepadeiras no caramanchão de madeira pintada de branco, as hortênsias gigantes que formam muros naturais, o canteiro de lavanda que sempre perfumava o ar nas tardes de verão. A lagoa artificial onde aprendi a nadar nas tardes quentes de julho brilha como um espelho estilhaçado, refletindo a luz prateada da lua, suas águas escuras ondulando gentilmente com a brisa noturna.
A floresta densa de carvalhos centenários e pinheiros altíssimos se estende muito além dos limites da casa, misteriosa e acolhedora como sempre foi. Quando éramos crianças, eu e as crianças da escola, inventávamos histórias fantásticas sobre duendes travessos e fadas benevolentes que viviam escondidos entre as árvores mais antigas. Histórias bobas de criança, fantasias inocentes, mas que conseguiam tornar tudo mais mágico, mais cheio de possibilidades infinitas. Agora, olhando para aquela escuridão verde, sinto uma pontada de saudade daquela época em que acreditar em magia era a coisa mais natural do mundo.
- Esqueci como você era linda - sussurro para a casa, deixando as palavras se perderem na brisa noturna.
É reconfortante e assustador ao mesmo tempo, como reencontrar um amor antigo depois de anos sem contato. A casa parece exatamente igual, como se o tempo tivesse parado aqui, congelado no momento exato em que parti, esperando pacientemente que eu voltasse para colocar tudo em movimento de novo. É uma ilusão cruel e consoladora, essa sensação de que nada mudou quando na verdade tudo mudou irremediavelmente.
Paro o carro na garagem lateral, longe da entrada principal da casa. Não estou pronta ainda para o grande encontro, preciso me aproximar lentamente, como quem testa a temperatura da água antes de mergulhar. Saio do carro e meus passos no cascalho soam excessivamente altos na quietude absoluta da noite, cada pisada ecoando entre as paredes de pedra como pequenas explosões. Seguro as chaves velhas na mão - as mesmas de sempre, guardadas cuidadosamente durante todos esses anos longe, mais uma coisa que não mudou num mundo que parece ter se transformado completamente. O metal está frio contra minha palma suada, pesado com o peso de todas as memórias que carrega.
Caminho lentamente pela trilha de pedras que leva à porta principal, a mesma trilha que percorri milhares de vezes quando era criança, adolescente, aos dezoito cheia de sonhos e planos. Meus pés conhecem cada pedra solta, cada desnível do caminho. As plantas do jardim me cumprimentam silenciosamente - a lavanda que sempre amei, as rosas brancas que mamãe dizia serem minhas favoritas, a trepadeira de jasmim que perfuma o ar com sua doçura intoxicante.
Na porta principal de madeira maciça, hesito com a mão estendida em direção à fechadura. Esta chave abre muito mais do que uma simples casa. Abre todas as memórias cuidadosamente trancadas que deixei aqui quando parti, todos os arrependimentos que se acumularam como poeira nos cantos esquecidos da alma, todas as palavras que nunca tive coragem de dizer, todas as chances que desperdicei por orgulho ou medo ou pura teimosia.
Como gostaria de poder abraçar papai mais uma vez, somente uma vez. Sentir o cheiro familiar do sabonete de glicerina que ele sempre usava, ouvir sua risada contagiante quando contava aquelas piadas ruins que só ele achava engraçadas, sentir a segurança dos seus braços me protegendo do mundo. Pedir desculpas sinceras por ter sido tão teimosa, tão orgulhosa, tão cega para o que realmente importava. Por não ter estado lá ao lado dele quando mais precisou do meu apoio, quando estava enfrentando sozinho a tempestade que destruiu tudo que construímos como família.
Respiro fundo, enchendo os pulmões com o ar perfumado do jardim noturno. O passado não muda, isso aprendi da maneira mais dolorosa possível. Mas talvez eu ainda possa consertar algumas das coisas que quebrei quando fiz o que fiz. Talvez ainda haja tempo para pelo menos tentar remendar alguns dos estragos que causei. Talvez a esperança seja a única coisa que vale a pena carregar quando voltamos para casa depois de tanto tempo perdido.
Com mãos trêmulas, giro a chave antiga na fechadura que não mudou. A porta se abre lentamente, como se também estivesse hesitante depois de tanto tempo, revelando a escuridão familiar do corredor de entrada. Um cheiro inconfundível me invade - cheiro de casa verdadeira, de móveis antigos bem cuidados, de flores secas e cera de abelha, de memórias guardadas em cada canto como tesouros preciosos esperando para serem redescobertos.
É hora de enfrentar tudo que deixei para trás. É hora de finalmente voltar para casa de verdade, não apenas geograficamente, mas emocionalmente. É hora de parar de fugir e começar a consertar o que ainda pode ser consertado, de aceitar o que não pode ser mudado e de encontrar uma maneira de seguir em frente carregando o melhor do que fomos juntos como família.
"Para nós dois, 'casa' não é um lugar. É uma pessoa." - Stephanie Perkins.
Entro devagar, como se estivesse pisando em solo sagrado depois de anos de exílio. O cansaço me pesa nos ombros como chumbo derretido, cada músculo do meu corpo protestando contra as longas horas de estrada. Não tenho energia nem para procurar o interruptor da luz - na verdade, nem sei se quero iluminar completamente este primeiro reencontro com meu passado. Prefiro deixar que a escuridão me proteja por mais alguns minutos da realidade total do que deixei para trás.
Retiro meus sapatos, os deixando no pequeno armário da entrada, caminho pelo corredor no escuro, meus pés descalços encontrando o caminho por pura memória muscular, como se meu corpo lembrasse de cada tábua do assoalho, cada desnível do chão de madeira envelhecida. É impressionante como nossos músculos guardam memórias que nossa mente às vezes prefere esquecer. Sete anos longe, mas meus pés ainda conhecem exatamente onde pisar para evitar a tábua que range perto da escada, onde o tapete persa está levemente dobrado na beirada.
Na sala de estar, a luz prateada da lua se infiltra pelos vitrais coloridos que mamãe escolheu com tanto cuidado, pintando os móveis familiares com tons etéreos de prata, azul e dourado. Pequenos arco-íris de luz dançam nas paredes quando as nuvens se movem no céu, criando um caleidoscópio silencioso de memórias. Está tudo exatamente como vi antes de partir, como se o tempo tivesse se recusado a passar dentro destas paredes. Os porta-retratos de prata polida sobre a lareira ainda exibem sorrisos congelados no tempo, as almofadas de veludo do sofá ainda estão arrumadas com o mesmo cuidado obsessivo que mamãe sempre teve, até mesmo a pilha desarrumada de revistas de automóveis que papai deixava estrategicamente na mesa lateral - como se fosse voltar a qualquer momento para folheá-las mais uma vez.
A visão me aperta a garganta. É reconfortante e devastador ao mesmo tempo, essa sensação de que nada mudou quando na verdade tudo mudou irremediavelmente. Papai nunca mais vai se sentar naquela poltrona de couro gasto para ler suas revistas. Nunca mais vai deixar a xícara de café pela metade na mesinha de centro porque se distraiu com algum artigo sobre flores raras.
Subo as escadas com passos pesados que ecoam no silêncio absoluto da casa, cada degrau rangendo familiarmente sob meu peso. Minha mão desliza pelo corrimão de carvalho polido, sentindo cada entalhe, cada marca que o tempo deixou na madeira. Lembro de todas as vezes que subi e desci correndo por estas escadas - criança atrasada para a escola, adolescente fugindo de broncas, jovem adulta saindo para "encontros" que papai fingia não saber que eram encontros e eu mentia dizendo serem, somente para que eu conseguisse esquecer o amor que parecia querer fazer o meu coração parar.
Minha antiga plaquinha ainda está pendurada na porta do quarto, as letras de madeira entalhada já desbotadas pelo tempo e pelos anos de sol que entra pela janela do corredor: "Mally O'Brien". Passo os dedos trêmulos pelas letras familiares e um sorriso melancólico escapa sem eu perceber, involuntário como uma lágrima. Papai fez essa plaquinha quando eu tinha apenas cinco anos, depois que reclamei durante semanas que não tinha um "quarto de verdade" como as outras crianças da escola, que tinham placas com seus nomes na porta. Isso logo após eu ir brincar na casa de uma criança da escolinha e olhar a plaquinha com seu nome, comida e fosse a coisa mais linda do mundo.
Ele passou três tardes inteiras na oficina, trabalhando com aquelas mãos enormes para entalhar cada letra com perfeição, lixando até que ficasse lisa como seda. Quando terminou, disse que agora eu tinha não só um quarto de verdade, mas o quarto mais bonito da casa inteira. E eu acreditei nele, como sempre acreditava em tudo que papai dizia.
Empurro a porta e entro no meu antigo refúgio, no santuário da menina que um dia fui. Os móveis cobertos por lençóis brancos impecáveis parecem fantasmas benevolentes de uma infância que às vezes sinto que pertenceu a outra pessoa, em outra vida. A cama de ferro forjado onde dormi por dezoito anos. A escrivaninha onde fiz milhares de deveres de casa e escrevi cartas de amor para alguém que nunca as recebeu, pois todas foram queimadas ou jogadas no mar. A estante repleta de livros que li e reli até decorar páginas inteiras.
Tudo coberto, protegido, preservado como um museu de memórias.
As paredes de vidro ainda oferecem a mesma vista panorâmica que me hipnotizava quando criança e que ainda tem o poder de roubar minha respiração. O mar infinito e escuro se estende à esquerda até o horizonte, onde se mistura com o céu estrelado, suas ondas batendo num ritmo eterno contra as rochas lá embaixo. À direita, as luzes espalhadas da cidade piscam como estrelas caídas, cada pontinho de luz representando uma vida, uma família, uma história acontecendo simultaneamente à minha. Mais adiante, o terreno da casa dele, que faz o meu coração disparar.
Caminho até a cama, tiro o lençol que a cobre e me jogo nela, sem tirar a colcha de linho que ainda cheira a lavanda - o perfume que mamãe sempre usava para perfumar as roupas de cama. Tia Rouse havia mencionado durante uma das suas conversas telefônicas demoradas que papai deixou instruções detalhadas para os funcionários cuidarem da casa, mantivessem tudo exatamente como era, cada objeto no seu lugar designado.
"Para que eu pudesse matar a saudade e as lembranças não se percam", foram as palavras dele, segundo ela me contou com a voz embargada.
Mesmo sabendo que talvez eu nunca voltasse, ele quis preservar cada detalhe, cada memória, como se a casa fosse um templo dedicado aos bons momentos que vivemos aqui como família.
Olho para o teto onde ainda brilham, fracas mas persistentes, as estrelas fosforescentes que colamos numa noite de inverno quando eu tinha oito anos e estava com receio de dormir no escuro. Papai subiu na escada comigo, cada um colando uma de cada vez, enquanto mamãe reclamava lá de baixo que íamos quebrar o pescoço naquela aventura perigosa. Mas ele só ria e dizia que algumas magias valem qualquer risco.
As estrelas ainda brilham fracamente na escuridão, pequenos guardiões celestiais velando meu sono como fizeram por tantos anos. Algumas já desbotaram quase completamente, outras ainda emanam aquela luz verde pálida que costumava me acalmar nas noites de tempestade. São como pequenas âncoras me ligando à criança que fui, lembretes silenciosos de uma época em que acreditava em magia e finais felizes.
Meus olhos se fecham sem minha permissão, o cansaço vencendo finalmente a ansiedade que me manteve alerta durante toda a viagem.
❤️🌻❤️
Um barulho metálico e persistente me desperta de supetão, arrancando-me brutalmente de um sonho que já não consigo lembrar. Minha cabeça gira violentamente quando me levanto rápido demais, o mundo oscila por alguns segundos antes de se estabilizar. O som continua vindo de algum lugar dentro da casa - algo metálico batendo ritmicamente, como se alguém estivesse mexendo em ferramentas ou manipulando equipamentos pesados.
Tateio desesperadamente pela bolsa no escuro, meu coração já começando a acelerar com a adrenalina do medo. Procuro o celular entre as coisas espalhadas, derrubando batom, chaves, carteira no chão. A tela acende e mostra um mísero um por cento de bateria, a luz fraca mal conseguindo iluminar meus dedos trêmulos.
- Mas que merda... - resmungo entre dentes, estalando a língua em irritação. - Por que não carreguei essa porcaria logo que cheguei?
O barulho metálico ecoa novamente, mais próximo agora, vindo definitivamente do andar de baixo. Meu estômago se contrai numa bola gelada de pânico. Alguém está dentro da minha casa, mexendo em coisas que não deveria mexer, invadindo o santuário que papai tanto se esforçou para preservar.
Ligo a lanterna fraca do celular e saio do quarto em passos cautelosos, cada movimento calculado para fazer o mínimo de barulho possível. Os passos no corredor soam amplificados no silêncio absoluto da casa, cada tábua do assoalho antigo rangendo sob meus pés descalços como gritos de advertência. Desço as escadas devagar, uma de cada vez, colando o corpo na parede e seguindo o barulho que agora identifico como vindo definitivamente do porão.
Na mesa do corredor, pego um vaso pesado de cerâmica azul que mamãe trouxe de uma viagem a Portugal - se tem alguém invadindo minha casa, pelo menos vou fazer um estrago considerável na cabeça do desgraçado antes que ele me machuque.