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Apaixonada por um coreano

Apaixonada por um coreano

Autor:: Cinthya Amaral
Gênero: Romance
Embarque na emocionante jornada de Julia em busca de sua verdadeira identidade. Superando perdas devastadoras e reforçando laços familiares profundos, Julia enfrenta um caminho repleto de desafios. Seu relacionamento com o enigmático cantor Young-Chul adiciona uma camada de sensualidade e descobertas no amor que deve vencer barreiras culturais irresistíveis. À medida que enfrentam esses desafios juntos, uma questão permanece: será que o amor de Julia e Young-Chul sobreviverá às provações que surgem em seu caminho? Descubra nesta história de amor e autodescoberta, onde cada página revela uma nova faceta de paixão, mistério e resiliência.

Capítulo 1 Prefácio

Eu já estava no segundo copo de uísque. O bar, vazio, prenunciava uma noite chuvosa, como já havia sido anunciado no telejornal da noite. Cada gota que deslizava pelo vidro da janela parecia contar sua própria história. Por um momento, me vi mergulhada em silêncio, revisitando cenas que ecoavam desde o dia em que pisei em Seoul. Essas memórias se misturavam às lágrimas contidas nos olhos, que eu teimosamente evitava deixar rolar.

O proprietário do bar, um homem de meia-idade que me tratava como filha, mantinha um olhar atencioso sobre mim. Desde o dia em que nos conhecemos, quando cheguei da Brasil e acabei do outro lado do mundo, na Coreia do Sul, construímos um vínculo que eu considerava como o de um querido tio. Mesmo de longe, do balcão, eu percebia a aflição estampada em seu rosto, preocupado com os pontos na minha cabeça, resultado do recente incidente. Porém, era a dor no meu coração que mais me turvava a mente.

Uma parte de mim é estrangeira, uma revelação recente que me conecta a um coreano incrivelmente rico. Isso virou minha vida de cabeça para baixo, mas não era esse o motivo por trás dos vinte pontos na minha cabeça e da minha embriaguez. Essa parte da história veio depois.

Ye-Jun aguardou o fechamento do bar antes de se aproximar da minha mesa. Eu estava absorta observando a chuva torrencial, tentando deixar de lado as complexidades da vida. As gotas grossas batiam no vidro, como lágrimas que escorriam livremente pelo meu rosto desgastado pela decepção e pela saudade.

- Min-Ji, você está bebendo demais hoje.

- Querido tio, sempre bebi muito. Desde que cheguei aqui, parece que aprimorei ainda mais esse "dom". Em dias como este, melancólicos e chuvosos, uma dose de destilado se faz necessária. Especialmente após os eventos trágicos que se desdobraram na minha vida, tenho sentido essa ânsia. Não fique chateado comigo. Peço que hoje seja mais que um tio, que seja meu amigo e me ofereça apoio. A empatia entre nós é algo quase surreal. Desde o primeiro olhar, lembra?

- Tudo bem, mas como tio, tenho que perguntar: você está bem? - apontou para o curativo na minha cabeça. -Ver esses pontos na sua cabeça me deixa impotente. Fui descuidado, baixei a guarda, não consegui evitar o pior.

- Tio, por favor, não me faça sentir pior do que já estou. Respondendo à sua pergunta, sim, os pontos vão cicatrizar, não foi nada grave. Uma cicatriz sempre estará ali, lembrando-me daquele dia. Mas o estrago mais profundo está dentro da minha mente e da alma, que sinceramente não sabe qual direção seguir. Fico me questionando por que isso teve que acontecer comigo.

- Não entendi uma palavra estranha que disse, e você não merecia de forma alguma o que aconteceu. A pessoa louca e perturbada que fez isso, que mandou fazer isso com você, é quem merece estar onde está, na prisão. Agora, quem pede um favor sou eu. Vamos parar com a bebida por hoje, estou ficando realmente preocupado. Você consegue me obedecer, por favor?

Ele me olhou confuso e então mudei de assunto:

- Aquele violão elétrico e a aparelhagem musical ainda funcionam? - apontei para o palco inativo naquela noite. Era uma plataforma em formato de meia lua, feita de madeira. A madeira estava desgastada, ao contrário dos fios e instrumentos musicais que pareciam nunca terem sido usados.

- Sim, eles funcionam. Às vezes, alguns amigos os usam e os clientes gostam.

- Nem parece que estão sendo usados. Os instrumentos estão em estado novo.

- Eu sempre troco e doo os antigos para escolas de música.

- Que incrível. Posso usá-los?

- Sim, claro. Este bar é todo seu.

Levantei-me, dirigi-me ao violão. Ajustei a banqueta, liguei o sistema de som e senti a vibração das cordas, acomodando-me em frente ao microfone. O violão estava afinado. Parecia que os instrumentos não ficavam ociosos por muito tempo.

- O que você pretende fazer? - titio perguntou, uma sobrancelha arqueada.

- Cantar uma bela canção brasileira. Por favor, grave tudo.

- Desde quando você canta?

- Há tantas coisas que não sabem sobre mim. Preciso aproveitar ao menos esse dom que ainda consigo lembrar que possuo. Herdei da minha mãe, ela cantava como um rouxinol. É um canto que transmite pureza e beleza. Dona Marta era assim, sua voz melodiosa encantava qualquer melodia.

Sentada, permiti que a nostalgia do momento tomasse conta do ambiente. Enquanto cantava "Outra Vez", de Roberto Carlos, as lágrimas não puderam ser contidas.

"Você foi o maior dos meus casos. De todos os abraços, o que eu nunca esqueci. Você foi dos amores que eu tive, o mais complicado e o mais simples pra mim. Você foi o melhor dos meus erros. A mais estranha história que alguém já escreveu. E é por essas e outras que a minha saudade faz lembrar de tudo outra vez...

Você foi a mentira sincera. Brincadeira mais séria que me aconteceu. Você foi o caso mais antigo. O amor mais amigo que me apareceu. Das lembranças que eu trago na vida, você é a saudade que eu gosto de ter. só assim sinto você bem perto de mim Outra Vez.

Esqueci de tentar de esquecer. Resolvi te querer por querer. Decidi te lembrar quantas vezes, eu tenha vontade sem nada a perder.

Ah, você foi toda a felicidade. Você foi a maldade que só me fez bem. Você foi o melhor dos meus planos, e o maior dos enganos que eu pude fazer. Das lembranças que trago na vida. Você é a saudade que eu gosto de ter. só assim, sinto você bem perto de mim Outra Vez.

- Qual é o significado dessa canção?

- Essa canção mergulha em um amor que transcende o tempo, envolvendo tanto o passado quanto o presente. Ela explora as dificuldades que foram trazidas à tona, as quais paradoxalmente fortalecem o vínculo entre os envolvidos. Além disso, aborda um relacionamento difícil que, apesar de ser repleto de prazer, sinceridade e intensidade, não está livre de complicações.

- E não é assim que todo amor deve ser?

- Será? Acho que o meu poderia ter sido menos complicado. Pelo menos um pouquinho.

Deixei o palco e retornei à mesa, observando um trecho da gravação, sem chegar ao final. Era uma carga pesada para um coração que vinha se despedaçando há mais de um mês. A gravação estava ótima, considerando ser algo amador. Quando estivesse sóbria, acrescentaria as legendas em casa.

- Não tinha ideia de que possuía uma voz tão bela. Estou impressionado.

- Sim, especialmente para cantar samba. Como mencionei, herdei isso da minha mãe. Meus avós costumavam contar que ela não falou, ela cantou suas primeiras palavras, com apenas um ano e meio de idade. Eles ouviam o rádio, e ela, de forma melódica, pronunciou duas palavras dessa mesma canção, "Outra Vez".

- E o que pretende fazer com esse vídeo?

- Vou editá-lo e te entregarei em um pendrive. Quando chegar o momento, quero que você o dê para... - A palavra não saiu. Minha garganta se fechou, criando um obstáculo em minha traqueia e estômago.

- Parece uma despedida, Min-Ji. Como se estivesse fugindo, partindo.

- Não estou fugindo. E não estou indo embora de forma definitiva. Não quero que você sinta tanto minha ausência. Planejo tirar umas férias prolongadas, mas vou voltar. Você é minha pedra angular na família Kang, embora não conte isso para a tia ou o vovô. Nem consigo me lembrar deles, isso parte meu coração.

Ye-Jun me puxou para um abraço fraternal.

- Supere isso e volte. Você precisa estar aqui. Para onde vai?

- Ainda não sei. Vou deixar esse pobre coração me guiar.

- Não sabe para onde vai, sabe pelo menos o que fará?

- Acho que vou escrever um romance que começa no Brasil e se desenrola na Coreia do Sul. A história de uma brasileira que caiu de paraquedas nesse país, o amou, mas...

Não concluí. Beijei de leve a bochecha daquele homem tão lindo, tanto por dentro quanto por fora, e saí caminhando na chuva fina.

- Tome um guarda-chuva - ele disse correndo atrás de mim até a porta.

Eu já estava quase na esquina e não olhei para trás. Deixei a água me molhar, era uma limpeza do corpo. A alma ficaria para depois. Cheguei ensopada em casa, mas nem preocupei se ficaria doente, ou não.

Após um banho prolongado, acomodei-me diante do computador para editar o vídeo. Não foi uma tarefa fácil e também não tinha certeza se a tradução para o coreano ficaria precisa. Optei por fazer a tradução em inglês, confiante de que ele compreenderia as palavras e a importância delas no momento apropriado.

*****

O voo, mesmo sendo já longo, pareceu ainda mais interminável. Não consegui pegar no sono, nem no primeiro trecho e muito menos no segundo, após a conexão na Suíça. A ansiedade de finalmente chegar se mesclava com a saudade da minha terra natal. Eu imaginava que no Rio de Janeiro me sentiria em casa, porém, aprendi que o lar não se limita apenas ao abrigo material, mas também é construído pelo amor que une as pessoas.

*****

Dois dias depois, eu estava no Brasil, sentada no Arpoador, vendo o pôr do sol com minhas companheiras fiéis, amigas de infância, e narrando a elas tudo o que me aconteceu.

Capítulo 2 Vida agitada

Rio de Janeiro.

2019

Entrei correndo pelos corredores do hospital. O microfone anunciava meu nome para uma cirurgia cardíaca de emergência. Trabalhava tanto no serviço público quanto no particular, ou seja, vivia para a medicina e ocasionalmente tinha vida social. Vivia cercada por duas melhores amigas, que também eram médicas. Desde a infância, me acalentavam o coração e gostavam, como eu, de músicas brasileiras, principalmente uma boa roda de samba na praia.

Graduei-me na Universidade Federal do Rio de Janeiro, conquistando o primeiro lugar em minha turma. Apesar disso, havia um elemento que sempre me afastava dos livros: o samba. Mesmo durante os períodos intensos de internato obrigatório antes da minha graduação, e até mesmo durante minha residência, sempre encontrava maneiras de não deixar de participar dos ensaios da minha escola de samba preferida. E minhas amigas leais estavam sempre ao meu lado.

A cardiologia sempre me fascinou, mas o impulso decisivo para escolher essa especialização veio de um problema cardíaco que meu pai enfrentou. No entanto, essa história um tanto dolorosa será compartilhada em outro momento.

No final da tarde, exausta após um plantão de trinta e seis horas e três cirurgias ao longo do dia, finalmente pude descansar. Minha residência abrange tanto cirurgia geral quanto cardíaca.

As fiéis amigas, que desde a infância, me escutavam falar que um dia seria médica, falam que adoro remendar os outros. Observando a minha paixão pelo ofício, acabaram por me seguir. A verdade é que vejo uma operação como um modo de curar, os olhos brilham quando posso realizar um procedimento cirúrgico e observar a pessoa acordar e passar pelo processo de recuperação.

Saí do hospital com o corpo todo dolorido. ngela e Lorena já me esperavam. Era quinta-feira e sempre que podíamos fazíamos um happy hour na orla. Todavia, naquele dia, sem saber ao certo o motivo, queria minha casa. A comida feita por mim e a cama pareciam me chamar de saudade. Talvez se eu fosse escutar uma boa música e beber cerveja, meu mundo não teria se transformado tanto.

Elas ainda insistiram, mas quando coloco uma coisa na cabeça, tem que ser muito, mas muito persuasivo, para me convencer.

- Vamos para a orla, para qualquer boteco que avistarmos pela frente, ou para o bar da laje?

- Hoje vou decepcionar vocês. Estou mega cansada. O plantão e três cirurgias, uma atrás da outra, me esgotaram. Beberei um vinho em casa e cairei na cama.

- Júlia...

Ah, esse é meu nome.

- Não conseguirão me convencer. A Júlia está fechada para balanço hoje. Aceitem, que dói menos. Não sei o que está acontecendo, sinceramente. Sabem que mesmo cansada, estou sempre disposta, mas nunca estive tão esgotada. Talvez seja até uma gripe, surgindo sem aviso prévio.

- Acredito na primeira opção. Você deve estar com febre ou uma virose. Já te vi realizar seis cirurgias em um plantão de vinte e quatro horas e ainda assim ir para a roda de samba. Seu corpo, mesmo exausto, parece esquecer toda a fadiga ao ouvir um tamborim ou pandeiro. Algo está realmente estranho. O corpo da morena sestrosa não consegue evitar mexer-se ao som do tamborim, como uma filha de sambista.

- Mas hoje não será assim. Talvez esteja com uma virose mesmo, pois meu corpo está todo dolorido. E, por incrível que pareça, sem vontade.

As duas se aproximaram de mim, colocaram brincadeira-mente a mão em minha testa para verificar se eu estava com febre. Afastei-me, fingindo repulsa, e dei um beijo no rosto das duas. Entrei no carro e segui diretamente para casa. No rádio, ouvi uma das músicas prediletas de papai e mamãe, "Outra Vez". As lembranças vieram na forma de saudade.

Eu morava na pequena comunidade coreana da Cidade Maravilhosa. Herdei o prédio dos meus pais, que ali viveram por mais de trinta anos, até sofrerem um acidente de carro no ano de 2016 e me deixarem órfã. Lembro de estar no hospital de plantão quando duas ambulâncias os trouxeram. Nesse dia, eu me desesperei. Precisou que me segurassem para eu não interferir nos procedimentos; foi sufocante, cheguei a machucar o braço. De nada adiantou, um dia depois enterrava papai. Na madrugada daquele fatídico dia, ele teve uma parada cardiorrespiratória. Já a mamãe, partiu cinco dias depois, devido a uma infecção hospitalar e falência múltipla dos órgãos. Morria a maior das porta-bandeiras da Portela, a escola de samba do seu coração.

Além do prédio de apartamento, construído na década de noventa, com quatro andares, oito unidades, eles tiveram um restaurante de comidas típicas, tanto brasileiras, pela mamãe, quanto coreanas, por papai. O ponto foi vendido a outro proprietário. O prédio de quatro andares foi construído por papai, para morarmos e termos a renda dos aluguéis. Eu vivia no primeiro andar, nem precisava do elevador e todos os inquilinos eram conhecidos de longa data. O mais novo ali morava a mais de quinze anos, ou seja, sempre estive amparada.

Estacionei o carro na garagem e, em vez de subir diretamente, passei pela portaria para recolher as correspondências. Já se passavam dois dias desde minha última visita em casa, e as contas sempre tinham seu jeito de chegar. O Senhor José e sua esposa, que trabalhavam ali há mais de 20 anos, me tratavam como uma filha querida. Ele era o porteiro e ela desempenhava o papel de zeladora. Viviam em uma edícula nos fundos do prédio. Seus dois filhos haviam sido criados ali, e embora casados atualmente, eles traziam seus netos nos finais de semana, para alegria dos avós corujas. Durante a noite, a partir das sete horas, outros dois seguranças assumiam o posto até as sete da manhã do dia seguinte.

Ao chegar na portaria, mesmo cansada, sorri.

- Boa noite, Senhor José. Há correspondências para mim?

- Estava de plantão? Já faz alguns dias que não a vejo.

- Sim.

- É por isso que há várias correspondências aqui. Estão aqui. No entanto, algo curioso aconteceu. Aquele homem de terno está sentado ali, esperando por você há um bom tempo, diria que muito, muito tempo. Nem mesmo se levantou para tomar um gole d'água. Estranhei a situação, mas também percebi que ele é abastado. O terno dele é de alta costura, e ele segura o livro e aquela pasta com um certo charme. - O Senhor José compartilhou os próprios comentários com um sorriso nos lábios.

- E quem é ele?

- Não disse. Até tentei perguntar, mas acredito que o inglês que a senhora me ensinou não foi suficiente para estabelecer uma conversa com ele.

Olhei na direção do sofá que ornava a portaria. Vi um homem alto, pelos traços, parecia coreano. Cabelos lisos e negros, idade na casa dos quarenta e poucos anos. Tinha uma expressão séria, mas, ao mesmo tempo, jovial. Ele lia um livro e parecia tão concentrado que não percebeu que o observava.

- Ele, ao menos, falou porque quer falar comigo, senhor José?

- Não, dona Júlia. Não disse nada. Acho que estou precisando de mais aulas de inglês. O pouco que ele falou, não entendi nada.

- Vou lá perguntar quem é e o que quer de mim.

- Ficarei aqui de olho. Pode ser perigoso. Vai que é um agente secreto querendo prender a senhorita, aí vou ter que dar um soco nele – riu de novo o senhor que tanto gostava de mim.

Deixei a bolsa no balcão e caminhei lentamente pelo saguão, até o sofá de couro, perto da janela, que dava para um pequeno jardim de inverno.

- Boa noite. O senhor está me procurando? – perguntei quando cheguei um pouco mais próximo do sofá vermelho, onde ele se sentara.

Sua presença era imponente, preenchendo o espaço ao seu redor com uma aura de sofisticação. Cada gesto, cada movimento, transmitia uma sensação de elegância natural, como se tivesse nascido para ocupar um lugar de destaque.

As palavras do Senhor José agora faziam todo sentido. O homem diante de mim carregava uma distinção inegável, algo que ia além de uma mera aparência atraente.

Respondeu em coreano. Perguntou quem eu era, acho que julgou que não entenderia.

- Me chamo Julia. O porteiro me disse que o senhor está à minha procura - respondi em coreano, já que papai fez questão que eu soubesse, apesar de nunca ter pisado na Coreia do Sul. Ele me ensinou o idioma e dentro de casa conversava comigo só na sua língua materna, era um modo de jamais esquecer suas origens, apesar de nunca ter voltado lá desde que chegara ao Brasil. Era o que eu sabia.

Ele levantou-se e fez uma reverência. Retribuí o cumprimento, outro ensinamento de papai, tratar os mais velhos com respeito e cordialidade. Ele fazia questão de manter a tradição, o respeito aos mais velhos e aos honoríficos corretos para se dirigir as pessoas.

- Fala coreano muito bem senhorita. Kang, Ye-Jun, ao seu dispor.

- Obrigada. Aprendi desde criança, com meu pai, mas em que posso ajudar?

- Poderíamos conversar em um restaurante? Estou com fome e vi que aqui ao lado há um restaurante com um cheiro bom. O cardápio parece bem apetitoso.

- É urgente? Serei bem sincera com o senhor. Passei trinta e seis horas em um hospital. Sou médica e estava de plantão. Estou muito cansada. Amanhã estarei de folga, podemos tomar café da manhã. Em qualquer lugar que eu me encostar agora, dormirei, por mais que seja séria a conversa. Sei que está me esperando há muito tempo, mas...

Capítulo 3 Pegadinha

- Sem problema, senhorita Kang. A que horas podemos tomar o desjejum e onde?

- Nesse mesmo restaurante que o senhor mencionou. Às oito da manhã, pode ser, ou se quiser mais cedo, sem problema, estou acostumada a acordar cedo, vida de médico é assim.

- Estarei aguardando, senhora. Às oito. Tenha uma ótima noite de sono e descanse.

Fiz a reverência e me despedi. No balcão, peguei minha bolsa e vi quando o cavalheiro saiu com o celular no ouvido.

- O que aconteceu, senhor José? Está chorando?

- Lembrei do seu pai quando vi vocês fazendo a reverência. Achava lindo quando ele vinha buscar o jornal pela manhã e me dava o bom dia daquela maneira. Sinto muita falta dele. Foi um homem tão bom, de coração brando, alegre, sempre cordial. Faz muita, mas muita falta.

- Eu também. Há anos que não a usava, tive medo de errar. Papai, em casa, me dava bom dia assim, antes de me beijar a bochecha e me fazer cócegas, é claro. Isso não podia faltar, jamais.

- Já te disse, menina Júlia, você é a mais brasileira das coreanas e a mais coreana das brasileiras.

- Como? Se nem ao menos conheço o país de meu pai? Só herdei os olhinhos puxadinhos - respondi sorrindo. - Só sei de onde ele veio, mas a história por trás da vinda dele ao Brasil, nada. Quer dizer, ele veio atrás da bela morena.

- Descobriu quem é o senhor de terno preto e o que quer da senhorita?

- Ainda não. Marquei um café da manhã no restaurante ao lado. Assim estarei perto de casa e do senhor. Será a minha proteção.

- Pode contar comigo sempre. Qualquer coisa, chamo a polícia na hora.

- Acho que não será preciso. Boa noite, a noite será curta para o sono que estou.

- Durma bem, menina, boa noite.

*****

Enquanto jantava uma gororoba qualquer que sobrara na geladeira de outro dia, frango desfiado requentado com arroz, pensei na fisionomia do senhor de terno. Parecia-se com papai. Olhei a foto dele sorrindo, colocada no aparador da sala, mas era loucura minha, aquele homem era muito alto e papai baixinho, além de outras diferenças. O cansaço do trabalho me deixava lesada. Naquele instante, um clique mental ecoou em minha mente quando me ocorreu que ele também havia se apresentado com o mesmo sobrenome que eu carregava. Um tremor de surpresa percorreu meu corpo enquanto eu processava essa descoberta. Balancei levemente a cabeça, numa tentativa de afastar aquela torrente de pensamentos frenéticos que ameaçava tomar conta de mim. Sentindo a necessidade de um breve intervalo, decidi me dirigir ao banheiro para um banho, buscando um momento de tranquilidade.

Depois do banho reparador, fui direto para o quarto. Apesar de estar apreensiva, adormeci de imediato, já que o cansaço do corpo era descomunal.

*****

Pela manhã, logo cedo, despertei ansiosa. Sentia-me estranha, insegura, pelo encontro que teria com o senhor de terno. Não queria ser a primeira a chegar, então arrumei algumas coisas em casa. Tomei um banho demorado, lavei o cabelo longo, até dar a hora. Passei na portaria e após dar um bom dia sorridente a José, sinalizei que já estava indo ao restaurante.

Entrei no estabelecimento, vazio nesse horário. Todos já tinham tomado seu café e partido para o trabalho. O senhor Kang, Ye-Jun, já me aguardava, sentado na mesa de canto. Trajava de novo um terno preto e adotava uma formalidade extrema, deixando-me ainda mais apreensiva. Estava muito quente, pois estávamos nos primeiros dias do verão, o que não ajudava a melhorar o clima do ambiente.

- Bom dia, senhor. Não está sentindo calor? Estamos em pleno verão carioca. E aqui, nessa cidade, o normal nessa época do ano é fazer quarenta graus. Com esse terno, vai sofrer.

Ele se levantou e me cumprimentou formalmente.

- Apesar do calor, estou a trabalho. Não posso, ainda, me dar ao luxo de vestir uma bermuda e camisa. Se não se importar, já pedi o desjejum completo.

- Prefiro meu pão com manteiga e café com leite, mas hoje o acompanharei - respondi sorrindo.

- A senhorita trabalha hoje? Talvez a conversa seja um pouco demorada.

- Seria meu dia de folga, mas já avisaram de uma cirurgia, que será inevitável. Avisei no hospital que irei só na parte da tarde. Não se preocupe. Só não posso faltar à tarde, pois além desse procedimento cirúrgico, também tenho alguns pacientes das cirurgias de ontem que preciso ver.

O arroz, a sopa de ovo e o Kim chi foram servidos. O homem de preto, como um bom coreano cavalheiro, me serviu primeiro. Esse gesto e até mesmo a maneira de pegar na colher, lembraram-me mais uma vez de papai, e a saudade apertou. Tentei disfarçar uma lágrima, e o senhor cordial, sem nada dizer, apenas me estendeu um guardanapo.

Logo que acabamos de comer, ele tirou uns documentos de uma pasta e colocou sobre a mesa.

- Vou tentar falar seu nome brasileiro, senhorita. Desculpe-me se sair errado. "Xúlia", não é?

Eu sorri.

- Mais ou menos. A pronúncia será difícil para o senhor. Tenho um nome coreano, papai fez questão de me dar, Min-Ji.

- Bonita escolha, típica de Kang, Don-Yun. Ao menos o que me lembro.

- Você conheceu meu pai? Ele veio para o Brasil com dezoito anos e nunca mais voltou ao país de origem. O senhor parece bem mais novo do que ele, apesar de ter se apresentado ontem com o mesmo sobrenome.

Pela respiração forte, como um suspiro saudoso, vi que teria uma revelação importante por trás daquela conversa.

- Min-ji, sou irmão de seu pai, Don-Yun. Estou falando sem o sobrenome, o qual é o correto, mas somos da mesma família, a Kang. Durante toda a sua vida, nosso pai o procurou por esse mundo todo. Ele colocou detetives particulares por toda parte, todavia jamais conseguiu achá-lo. Depois de muito tempo, descobrimos que ele mudou o nome para um brasileiro. Só agora soubemos do acidente que o matou, junto com sua mãe. Vim em nome do patriarca da família, seu avô. Ele quer conhecer a única neta e passar a herança do primeiro filho para você. Além...

- Espera, do que estamos conversando mesmo? É alguma brincadeira? Conversou com as minhas duas amigas loucas, que adoram contos de fadas, histórias da carochinha, etc.? Pode falar! É uma pegadinha por eu não ter saído ontem com elas, né? - Comecei a rir, sem parar.

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