Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Romance > Apaixonado pela primeira-dama do morro
Apaixonado pela primeira-dama do morro

Apaixonado pela primeira-dama do morro

Autor:: T.M.
Gênero: Romance
Renato, um policial infiltrado no tráfico de uma das maiores favelas do Rio de Janeiro, ao fazer a sua primeira missão, com o intuito de conseguir provas para incriminar o chefe do morro e quem sabe conquistar um pouco da admiração do seu pai, se apaixona pela misteriosa primeira-dama da favela, mulher do seu alvo. Apesar de nunca querer a mesma mulher mais de uma vez, ele percebe que as coisas eram diferentes com aquela doce e intensa mulher e o seu amor, tão errado e impossível, pode colocar todo o seu trabalho e sua vida em risco.

Capítulo 1 O início

Renato

Hoje é o meu primeiro dia como policial infiltrado. Estudei muito para passar no concurso e ser um policial e me esforcei ainda mais para ser notado e conseguir uma oportunidade de mostrar o meu trabalho. Eu nunca quis ser policial, mas sempre soube que seria. Não tem como fugir, está no sangue da nossa família. Meu avô e meu pai eram policiais brilhantes e eu, como único filho homem, não teria um destino diferente. Achei que ia ganhar os parabéns do meu pai por estar me esforçando tanto e colocando a minha vida em risco, mas recebi em troca apenas algumas palavras de desdém. O meu relacionamento com o meu pai nunca foi próximo. Ele viveu para o trabalho de forma que nem a minha mãe aguentou e o deixou e seguiu a sua vida. No fundo, eu acho que ele me culpa por isso, pois ela queria um pai para o filho e se casou novamente. De qualquer forma, preciso me concentrar, estou subindo a comunidade para me instalar na quitinete que eu aluguei em um local estratégico. Disse para o dono do lugar, que eu estava desempregado e que fazia alguns bicos consertando celulares e aparentemente a minha desculpa foi bem acolhida.

Quando chego no bar, onde pegaria as chaves do lugar, sinto que estou sendo observado por um homem mal-encarado e logo o reconheço, se trata do Pivete, braço direito do chefe do morro. Ele se aproxima de mim e pergunta:

__Você quer alguma parada?

__Não, obrigado. Estou tentando parar.

__O que faz aqui então? Você tem cara de playboy.

__Minha família não me aceita bem, faço uns bicos consertando celular. Preciso recomeçar a minha vida. Aqui é o lugar ideal, pois preciso de um emprego de verdade e fica perto do centro, além de ter um aluguel que eu posso pagar.

__Então você conserta celular?

__Sim.

__E desbloquear, você sabe? Tem vários lá na boca que vieram da pista, mas estão bloqueados. Você sabe dar jeito?

__Na maioria, sim.

__Firmeza. Amanhã passo aqui para te levar até lá.

Fico aliviado quando o homem se afasta. Eu sabia que ele estava me testando, afinal, ele não era traficantezinho pequeno para ficar me oferecendo drogas. Ele era a porra do braço direito do chefe. Claro que queria me testar e por incrível que pareça, acho que passei no teste. Ótimo, pois preciso me aproximar deles o quanto antes.

Aderbal era o meu senhorio e dono do bar, que me entrega as chaves. O lugar era uma espelunca, mas era perfeito para o que eu precisava, pois não podia aparecer por lá ostentando, senão iria ter que provar de onde vinha o meu dinheiro.

Eu arrumo minhas coisas e entro em um site onde estão armazenados todos os dados da operação, com fotos e informações de cada um que eu preciso para conhecer o funcionamento do morro. Elas só podem ser acessadas por uma senha que apenas eu tenho, pois se descobrem que sou policial, com toda a certeza serei torturado e morto.

Depois de me organizar, desço do meu quarto e vou dar uma volta pela comunidade. Preciso conhecer as pessoas e me enturmar. Sento em um restaurante simples, quase um bar e peço um PF. Estou com fome apesar de estar acostumado a um estilo de vida mais luxuoso, já que sou policial federal e tenho um ótimo salário, que com os investimentos certos, me rendem um bom dinheiro a cada mês, me delicio com o prato de feijoada com arroz que eu recebo. Tudo era muito simples, mas com um tempero espetacular.

Enquanto eu comia, fui informado do baile que teria mais tarde na quadra de esportes da comunidade. Perguntaram se eu ia, mas ainda estava reticente, porém, quando me disseram que todo mundo ia, acabei assentindo e disse que estava tudo bem, afinal, seria uma ótima forma de conhecer as pessoas.

Fui para o lugar que agora eu iria chamar de casa, pelo menos, se tudo desse certo, pelo próximo mês. Tomei um banho e fui descansar.

Depois de algum tempo dormindo, arrumei as minhas coisas de técnico de celular e as deixei expostas em uma mesa, bem como os meus documentos falsos em cima da mesinha ao lado da minha cama. Eu precisava me antecipar, pois caso invadissem o lugar para saberem da minha vida, iriam encontrar o que eu queria que eles vissem.

Eu era responsável por conseguir provas contra o maior traficante do país. Ele era conhecido por sua crueldade e por ser escorregadio, de forma que já tinha sido preso uma vez, mas não conseguiram mantê-lo lá, porque não tinham nada que o incriminasse. Era uma questão de honra para a corporação, por isso, eu estava autorizado a fazer quase tudo para conseguir prender o Coringa e ter material para deixa-lo preso pelo resto da sua vida.

Eu não estava de férias e toda a minha dúvida em relação a ir ou não ao baile caíram por terra e eu me arrumei e fui.

Não foi difícil encontrar o lugar, pois de longe dava para ouvir o funk alto tocando, bem como ver várias mulheres, com roupas minúsculas indo para lá. Apesar de nunca ter ido a um baile funk na favela, ele não era muito diferente das baladas caras que eu frequentava. As pessoas estavam atrás de alguma diversão e não havia nada de errado nisso. O único problema era que estavam tão acostumados com o poder paralelo do tráfico, que já não se importavam com os "caras" desfilando com armamento capaz de manter uma pequena guerra, para baixo e para cima.

Depois de observar a forma que eles estavam, finalmente percebi que estava como um estranho, quase um extraterrestre, pois eu vestia apenas um jeans e uma camisa preta, enquanto os caras estavam em sua maioria de bermuda, sem camisa e ostentando armas e enormes cordões de ouro, bem diferente do meu estilo.

Quando entrei no baile, logo encontrei algumas pessoas com quem havia feito amizade mais cedo e fiquei ali conversando banalidades. Eu percebi que algumas mulheres me comiam com os olhos, mas eu não me abalei. Eu não estava ali para casos e romances e sim para fazer o meu trabalho e sumir dali o quanto antes.

O Pivete estava lá e quando me viu, acenou para que eu fosse até onde estava. Ele estava em um camarote reservado para o Coringa e seus amigos e eu não hesitei em ir até ele.

Quando cheguei, logo fui recebido por Pivete:

__Coé, do celular? Vem aqui para eu te apresentar para a tropa.

Eu fingi naturalidade, mas estava tremendo por dentro, pois não existia a possibilidade, nem em um mundo ideal, de estar vivo em um ambiente daqueles se soubessem a minha verdadeira identidade.

Enquanto o funk rolava solto e as mulheres rebolavam sensualmente naquele camarote, fui levado a um lugar um pouco mais afastado e fiquei de frente para o meu alvo: o Coringa.

__Fala tu, é verdade que sabe desbloquear celular?

__Sei sim. Trabalho com isso, na verdade faço uns bicos.

__Amanhã você brota lá na boca com o Pivete, se der certo, tá empregado. Agora pode colar por aí e curtir o meu camarote.

Eu agradeci e peguei uma cerveja e depois de conversar um pouco com o Pivete, que achava que estava fazendo o empreendimento do ano, que era desbloquear os celulares que eles roubavam, encostei no muro, que tinha uma visão privilegiada da pista onde estava acontecendo o baile e acabo travando o meu olhar em uma morena dos olhos verdes, com os cabelos compridos e cacheados, que mais parecia uma artista de cinema de tão linda.

Apesar de estar morrendo de curiosidade de saber quem era aquela mulher, me contive e fiquei quieto, pois estava em um campo minado, mas se não estivesse disfarçado, faria de tudo para beijar aqueles lábios que estavam convidativos.

Depois de um tempo, a morena sumiu e apesar de ainda estar com a imagem dela na cabeça e repetir para mim mesmo que podia ter muita coisa boa e preciosa no morro, me assusto quando a vejo do lado do Pivete.

__Quem é o menor?

__Ele é um morador novo. Conserta celular.

__E por que ele está aqui?

__Ele vai começar a trabalhar com a gente amanhã. Claro, se o chefe aprovar.

Enquanto ela e o Pivete conversavam sobre mim em minha frente, mal conseguia processar o que eles diziam, pois o meu sinal de alerta estava gritando que ela poderia me colocar em confusão, em especial, pela forma que falava com um dos homens mais temidos do morro. Ela podia ser irmã dele ou de algum outro homem de confiança do Coringa.

De qualquer forma, ela era linda...

__Linda, prazer.

Meus pensamentos foram interrompidos por ela, que me deixou confuso. Será que ela conseguiu ler a minha mente?

__Meu nome é linda. Você é surdo?

Quando ia responder a ela, Coringa aparece e a segura pela cintura e a beija na boca de forma intensa e depois diz:

__É bom que seja surdo e cego para você, senão eu mato ele.

Droga! Ela é mulher da porra do chefe do morro.

__Não dá ideia para ele. Se precisar de alguma coisa é só me falar. Está vendo aquela mulher ali?

Ela apontou para uma garota de uns vinte anos, que estava dançando no camarote.

__Sim.

Respondi sem entender.

__Ela quer desenrolar com você, mas cuidado, ela é a irmão do Pivete, não sei se ele vai entender legal.

Eu precisava sair dessa confusão o mais rápido possível, pois além de não querer que o Coringa achasse que eu queria ficar com a mulher dele, não podia me envolver com a irmã do braço direito dele.

__Desculpe, mas não posso.

Coringa me olhou e perguntou:

__Você tem alguma novinha? A irmã do Pivete não é mulher para ser amante não.

__Não, eu não tenho ninguém, mas meu coração está fechado para o amor, pelo menos por enquanto. Preciso me recuperar e enquanto isso, não quero me envolver com ninguém.

Coringa olhou para a mulher e disse:

__Viu? Pode parar de querer bancar a casamenteira e fala com a Fabiele para deixar o cara em paz.

Depois disso, despistei um pouco e fui embora. Amanhã seria um outro dia e eu precisava estar descansado e com a cabeça no lugar.

Capítulo 2 A primeira-dama

Linda

Depois que o baile acabou, voltei para casa com o Bruno. Ele não gosta que ninguém chame ele assim, prefere Coringa, mas comigo ele é flexível.

Eu não o amo, nunca o amei. Acabei ficando com ele por conveniência. Ele me acolheu quando perdi os meus pais em uma operação da polícia. Eles dizem que querem levar a paz para a favela, mas no fundo, pouco se importam com as vidas dos moradores.

Eu tinha sonhos e planos para o futuro. Estava terminando o Ensino Médio e já pensava em fazer o vestibular para tentar entrar para a faculdade federal. Eu sonhava em ser psicóloga e ajudar as pessoas a entender e enfrentar os seus próprios fantasmas, mas tudo foi perdido. Agora eu é quem era a fantasma. Antes disso tudo, me chamava Beatriz, mas agora eu adotei o vulgo que o Bruno me deu e só permito que me chamem de Linda. Não é que eu me ache linda, mas sim porque ter outro nome me ajuda a esquecer um pouco do passado e dá a falsa sensação de que eu tenho uma vida nova.

Não me orgulho em morar com o homem que faz tantas coisas erradas e acabar sendo conivente com elas, mas esse foi o meu destino. Eu odeio a lei e a polícia, pois nada aconteceu com os assassinos dos meus pais, eles foram inocentados e nem acesso ao processo eu tive. A partir disso, decidi que iria largar tudo e quando achei que estava no fundo do poço, o Bruno me resgatou. Eu devo a ele estar viva e bem e quando ele se declarou, não consegui negar a ele o meu sim.

Estava tudo muito confortável para mim, pois durante esses três anos que estou com ele, nunca senti desejo por nenhum outro homem, na verdade, achei que não era mais capaz disso. Pois mesmo que o Bruno me enchesse de presentes e de ter me dado o status de primeira-dama do morro, eu não conseguia sentir nada por ele, mesmo ele sendo bonito e chamando a atenção de várias mulheres que querem o meu lugar.

Eu não vou negar que me esforço para deixar o meu homem satisfeito, mas o oposto nunca acontece e o máximo que consigo fazer é fingir. Não gosto do toque dele em meu corpo, mas já acostumei.

O problema é que quando percebi o olhar daquele homem estranho no baile, senti que o meu corpo estava pegando fogo e quando troquei algumas palavras com ele, vi o quanto ele era bonito e atraente. De qualquer forma, eu já era comprometida e o amor não era para mim. Deixe ele por conta da Fabiele, com certeza ela vai fazer um ótimo proveito dele.

Quando amanheceu, eu acordei com a cabeça doendo e voltei a dormir. O Bruno saiu cedo, como de costume. Parece que ele nunca descansa e sempre está fazendo alguma coisa, não é à toa que ele se tornou o traficante mais poderoso do país. De qualquer forma, eu gosto assim. Não ia suportar a ideia de ter o Bruno no meu pé o dia todo, com certeza eu enlouqueceria.

Renato

Acordei cedo no outro dia e fiquei esperando o Pivete. Ele cumpriu o que disse e chegou bem cedo e me levou até a boca. Depois de me apresentar para o resto do pessoal que não me viu ontem, ele me levou até um cômodo onde ficavam os celulares que foram roubados, mas que não conseguiram desbloquear. Tinha um adolescente que fazia o trabalho para eles, mas apenas as coisas mais simples e os que ele não conseguia, deixava guardado lá.

Depois de pegar meus equipamentos e o meu notebook na mochila, com a autorização e pedido do Pivete, comecei a mexer em um celular, que parecia ser um daqueles bem caros e após algum tempo, entreguei a ele, já desbloqueado.

O Pivete ficou maravilhado, pois já estava convencido de que aquele celular iria para o lixo e levou para mostrar para o Coringa.

Pouco tempo depois, ele voltou dizendo que eu estava contratado e que agora era o técnico de celulares da boca e que eles estavam ficando modernos.

Mesmo estando satisfeito em poder estar ali, eu não podia negar que estava um pouco frustrado, pois o mais perto de um crime grande que eu encontrei provas, foi dos celulares roubados, mas que isso era peixe pequeno para mim. De qualquer forma, eu precisava ganhar a confiança dos caras e quem sabe ter acesso a coisas mais pesadas, por isso, comecei a desbloquear os celulares e a consertar os que estavam estragados, em alguns casos, tirava as peças de um e colocava no outro, dando um jeito de colocar os celulares aptos para o uso novamente.

No fundo, eu me sentia um babaca por estar ajudando um bandido, mas eu precisava fazer esse sacrifício.

Linda

Quando deu por volta de meio-dia, eu me levantei e fui para o mercadinho fazer compras, pois estava sentindo falta de comer comida de verdade e não aquele monte de besteiras que o Bruno trazia. Na volta, lembrei que o Bruno me pediu para comprar algumas frutas e achocolatado para deixar na geladeira da boca, pois o estoque dele havia acabado e quando terminei, fui até lá para levar o que me pediu.

O cara novo estava lá, mas dessa vez, desviou o seu olhar de mim. No fundo eu gostei. Não quero mais problemas para a minha vida.

Eu deixei as sacolas com as compras na cozinha e depois fui até a sala do Bruno, que estava cheio de desejo e tentou ter relações comigo ali.

__Está louco Bruno? Tem gente ali fora e pode ouvir.

__Só um pouco, gatinha. Me alivia aí.

__Não mesmo. Se quiser, em casa a gente conversa.

__Tudo bem, vou cobrar.

__Pode cobrar.

Ufa! Consegui me esquivar do Bruno. Imagina só ter que encarar ele e ainda correr o risco de ser ouvida? Tô fora.

Antes que eu saísse da sala, o Pivete entra correndo e chama o Bruno para ir até a casa do Menor, pois ele estava conversando com um policial na rua e eles iam tirar essa história a limpo. Eu não gosto da forma agressiva do Bruno, mas odeio policiais e só de imaginar que eles podem estar tramando alguma coisa contra nós, fico doida.

Quando saí e fui para a cozinha, já que o Bruno pediu para eu esperar por ele, pois ia voltar comigo para casa, pois ele queria trocar de roupa e tomar um banho, encontro o cara do celular tomando um copo de água e os nossos olhos acabam se cruzando por um instante.

Renato

Eu estava me refrescando um pouco, pois além do calor, estava com um baita desejo, pois sabia que a morena gostosa estava ali, mas não imaginava que iria encontrar com ela.

Quando os nossos olhos se cruzaram, tive vontade de pegar ela no colo e jogar ela em cima daquela mesa que estava entre nós e fazer com ela o que ela quisesse. Estava pronto para ser usado pela mulher mais gostosa do mundo.

O meu cérebro, que tentava me deixar lúcido, me lembrou que além de linda, ela era perigosa e por isso era para eu me manter longe, por isso, desviei o olhar novamente, pedi licença e saí.

Apesar dela ser linda e eu estar incrivelmente atraído, ela era uma deles e no fim de tudo, deveria ser presa como todos os outros, pois ninguém era inocente ali.

Depois de um tempo, percebi que o lugar estava silencioso demais e pensei que ela havia ido embora, mas quando o Coringa e o Pivete voltaram, acabei vendo ela novamente, que estava esperando o marido.

Capítulo 3 Não é a polícia!

Linda

Droga, eu estava atraída por aquele homem. Sei lá, parecia que ele tinha um ar de mistério nele, além de ter uma nuvem pesada nos olhos, como se sofresse assim como eu.

Eu sei que não é loucura da minha cabeça e que ele me olhou com desejo. Eu não sou pretensiosa, mas sei que sou bonita e não é por passe de mágica. Eu me cuido, faço exercícios físicos e tento me alimentar bem. Ter uma boa imagem foi tudo o que me restou. Por dentro eu sou vazia, mas por fora demostro ser feliz e estar sempre bonita é um trunfo para aparentar estar bem. Sei que devia procurar ajuda profissional, mas o ódio me consumiu de uma forma tão grande, que desisti de lutar.

Eu não me lembro mais do nome do cara que está na minha frente, mas não me importaria em dar uns beijos nele, ainda bem que ele está saindo, senão o clima ia ficar ainda mais quente entre nós.

Nunca fui assim. Eu era recatada e sonhava com um amor, mas agora sei que isso tudo é besteira.

O Bruno acabou de voltar com o Pivete. Foi uma sorte o cara do celular não estar mais aqui perto de mim, senão o Bruno iria saber que eu estava olhando para ele com malícia e tudo o que eu não preciso é de um homem ciumento na minha cola.

O Bruno voltou para casa comigo e foi tomar um banho. Eu vi que tinha sangue nas suas mãos e que elas estavam vermelhas. Com certeza ele bateu em alguém e como tinha ido na casa do Menor para esclarecer o fato dele estar desenrolando com a merda de um policial, deve ter no mínimo quebrado a cara dele. Não gosto de violência, mas não posso negar que não senti nem um pingo de pena do Menor. A polícia só quer destruir o povo pobre e sofrido da favela e é preciso manter eles longe de nós.

Quando ele saiu do banheiro, enrolado na toalha, percebi que ele estava excitado e me olhava com vontade. Eu nunca gostei muito de ter relações. O Bruno foi o meu primeiro e único homem. Ele se aproximou, me beijou, me jogou na cama e deitou sobre mim.

Eu cedi. Como sempre, fingi que tinha chegado ao meu ápice. Eu sabia que era loucura o fato do Bruno nunca ter conseguido me satisfazer, mas no fundo achava que o problema era comigo.

O sonho do Bruno era ter um filho comigo, mas eu não queria ter uma família. Eu era uma pessoa destruída, que morava com um traficante procurado. Sabia que o nosso destino não era o dos melhores e não ia colocar uma criança no mundo para sofrer.

As mulheres falavam que eu era doida por isso, já que o sonho de qualquer novinha era de engravidar do chefe e viver uma vida boa às custas dele.

Realmente dinheiro não era problema para o Bruno, ele tinha tanta grana que não sabia como gastar, já que a gente não podia descer da favela. Nossa casa era simples por fora, mas extremamente luxuosa por dentro. Não perdia em nada para as casas de bacana que a gente via na televisão. Eu sabia que o Bruno ficava com outras mulheres de vez em quando. Ele era poderoso e elas se esfregavam nele, mas eu não me importava, pois sabia que ele sempre voltava para mim e se um dia não voltar, não tem problema, eu quero que ele seja feliz, mas sei que no fundo, mulher nenhuma me supera. Ele é louco por mim e mesmo depois de três anos, toda vez que fica comigo, fica com um sorriso bobo no rosto.

Quando a gente desceu do quarto para a sala, me deparei novamente com o... droga, como é o nome dele mesmo? Renan, Raul... sei lá, o cara do celular e fiquei constrangida. Eu estava com os cabelos molhados do banho, bem como o do Bruno. O idiota do Pivete começou a zoar o Bruno dizendo que agora ele estava leve e caindo na risada. Eu já estava acostumada com essas brincadeiras idiotas, mas fiquei com vergonha do cara.

O Pivete disse que eles tinham vindo para o almoço, pois soube que teria comida de verdade naquela casa pela primeira vez no mês e eu aproveitei a deixa e fui correndo para a cozinha preparar a comida, assim ficaria longe dos olhos daquele homem que toda vez que me olhava, parecia que arrancava um pedaço meu.

Renato

Depois que o Coringa saiu com a primeira-dama dele, apareceu uma mulher muito bonita que queria falar com o chefe e como ele não estava, o Pivete levou ela para um quarto.

Pouco tempo depois, deu para ouvir os gemidos, que eles não faziam questão de abafar, bem como o ranger da cama no chão e as batidas na parede.

Menos de vinte minutos depois, a mulher sai se arrumando, com o Pivete logo atrás e dá uma piscada para mim, que dou um jeito de desviar o olhar.

A louca vem procurar o chefe, dá para o amigo e braço direito dele e depois ainda tenta flertar comigo. Se ela não tem medo da morte, eu tenho.

Quando ela deixa a casa que funciona como a boca, eu olho para o Pivete e como sinto que tenho abertura com ele, pergunto:

__Quem é essa mulher?

__Por que quer saber? Está interessado?

__Não sou louco. É porque ela chegou procurando pelo Coringa e depois foi com você, sei lá. Fiquei confuso.

O Pivete caiu na gargalhada e disse:

__Ah, Renato! Você é um comédia mesmo. Essa mulher é uma interesseira. Veio atrás de dinheiro e droga. De vez em quando o Coringa pega ela, mas ele não está nem aí se depois mais duzentos caras vão pegar ela também. Ele não liga. Come e dá o que ela quer, quando não está afim, passa para mim ou para quem estiver na boca. A fiel dele é a Linda. É só com ela que a tropa não pode mexer, senão ele mata a gente. É bom que você já fica avisado, se tiver vontade para o lado da Linda, corta o seu pau fora, mas não tenta enfiar ele nela, tá certo? Agora se arruma aí, vamos para a casa do Coringa, ficar com essa periguete me deixou cheio de fome e a Linda vai fazer comida.

__Mas será que ele não vai se incomodar se eu for?

__Claro que não, você agora é parte da tropa.

Eu fiquei satisfeito pelo convite, estava prestes a entrar na toca do lobo e conhecer melhor como funciona o seu esquema de segurança e as suas movimentações.

Quando a gente chegou, bati de frente com o Coringa e a primeira-dama dele. Eles estavam com os cabelos molhados e pela cara dele de satisfação e a dela de vergonha, eles estavam se pegando no quarto. Eu me senti estranho, como se estivesse com inveja dele. Até parece, ter inveja de bandido...

Quando ela saiu e foi para a cozinha, me senti mais aliviado e a tensão que tomava o meu corpo foi passando aos poucos.

A gente começou a conversar sobre uma carga de droga que estava para chegar. Não era algo que me interessava por um todo, já que aquilo era coisa pouca, mas saber a forma que ele operava era uma preciosidade para a corporação, mas ainda não podia falar nada, pois se eles se precipitassem eu estaria morto.

O Coringa começou a preparar algumas carreirinhas de droga e passou para o Pivete, que aspirou um pouco e depois ele e logo passaram o prato para mim. Eu tentei dizer que estava parando, mas eles insistiram e eu por um instante, não soube o que fazer.

Eu era um policial disfarçado e não um criminoso, então, vendo que os dois estavam já bem alterados pela droga, peguei o prato, me abaixei e em uma manobra rápida, puxei o pó do prato com o dedo e o descartei no bolso. Quando me levantei, fingi que havia me drogado e percebi o olhar de aprovação deles.

Quando a Linda terminou de fazer o almoço, nos sentamos na luxuosa sala de jantar deles e comemos. Era muito estranho estar ali, sentado com o meu maior inimigo, aliás, o maior inimigo do estado todo, já que além de levar droga pelo estado todo, ele era também um assassino cruel.

A gente estava no final da nossa refeição, que por sinal, estava maravilhosa, a danada da mulher cozinhava muito bem. Eu estava muito mais tranquilo, pois consegui desviar o meu olhar dela na maior parte do tempo, de repente, o rádio do Pivete começa a tocar insistentemente e a gente começa a ouvir barulho de tiros, a boca rival estava fazendo um ataque no território do Coringa e pelo visto estavam bem próximos.

Eu percebi o olhar de desespero da Linda, que meio que teve uma crise de pânico, mas o Coringa olhou nos olhos dela e disse alto:

__Beatriz, não é a polícia! Aqueles vermes nunca mais vão encostar as mãos em você.

Fiquei confuso com aquilo tudo, mas não era o momento para aquilo, em alguns minutos eu poderia estar morto. Queria muito estar com a minha arma agora, pois com ela eu me garantia.

O Coringa pegou um armamento pesado e se aprontou para sair com o Pivete e me perguntou:

__Sabe mexer com arma?

__Muito pouco, quase nada.

Tive que mentir, como ia explicar que tenho treinamento profissional, além de ser o melhor da minha turma com as armas? Era melhor pagar de inexperiente.

Ele então pegou duas pistolas e entregou uma nas mãos da Linda, ou Beatriz, não sei e uma nas minhas mãos, bem como um rádio.

__Proteja ela com a sua vida. Vá para um esconderijo que tem no meu quarto e só saia de lá quando eu passar o rádio.

Não seria um problema para mim proteger uma mulher. Eu podia querer prendê-los, mas não era tão cruel ao ponto.

Os dois saíram correndo e pudemos ouvir o tiroteio acontecendo.

Linda me levou para um quarto secreto, blindado e à prova de sons, que só dava para chegar até ele por uma passagem secreta atrás da cama deles. Era um esconderijo perfeito. Se eu não tivesse visto, nunca imaginaria.

Linda estava apavorada. O lugar era pequeno, devia ter no máximo dois metros quadrados, o que nos obrigou a ficar bem próximos. Eu queria abraçar aquela mulher e a tranquilizar, mas seria um ato muito ousado, ainda assim, tentei conversar um pouco com ela.

__Ei, vai dar tudo certo. Daqui a pouco você vai estar bem novamente.

__Eu nunca mais vou ficar bem... Não importa o desfecho disso. Eu detesto ficar aqui, parece que o ar está acabando.

__Calma, tem ar suficiente para nós dois aqui. Tente respirar fundo, vai te ajudar a relaxar.

Eu me sentia um pervertido, pois mesmo com o risco de morrer, não conseguia tirar o olho daquela mulher. A forma que o seu corpo se movia por causa da sua respiração estava quase me matando. Eu precisava colocar a minha cabeça no lugar, pois só pensava em beijar a sua boca.

__Achei que você já fosse acostumada a esses ataques. Não é algo comum aqui?

__O Bruno faz de tudo para não acontecer, pois sabe que eu tenho trauma.

__Bruno e Beatriz. Esses são os seus nomes?

Ela me olhou rapidamente e disse:

__Já foram no passado. Agora eu só uso o vulgo que o Coringa me deu: Linda. Gosto da ideia de ter uma vida nova.

__O nome combina com você.

Droga! Aonde estou com a cabeça? Cantei a mulher do chefe!

Ela me olhou e ao invés de agradecer, perguntou:

__Qual é o seu nome mesmo? Não posso te chamar de cara do celular, né?

__Renato.

__Isso! Renato. Quase me lembrei.

__Você está mais calma agora?

__Não muito, mas preciso fingir.

__Vamos fazer um acordo então? Seja você mesma. Não precisa fingir ou se esconder na pose de primeira-dama destemida. Prometo que não conto para ninguém.

Ela abriu um doce sorriso para mim e respondeu:

__Como posso acreditar em um homem que encheu a cara de droga há pouco tempo?

Eu ri, ela era esperta e por isso contei a ela um pequeno segredo.

__Eu não usei, mas o seu marido e o Pivete não iam me deixar em paz até que eu usasse, por isso, escondi no bolso.

Mostrei a ela os resquícios de pó no meu bolso e ela me olhou incrédula.

__É difícil ver alguém da tropa que não use drogas. O Bruno, aliás, Coringa, quase nunca está puro de tudo.

__E você, usa?

__Não, nem de bebida eu gosto. Prefiro estar sempre consciente.

__E como você relaxa?

Droga, fui indiscreto novamente, essa mulher está me deixando doido.

__Você não acha que está querendo saber demais?

__Desculpa, é porque estou nervoso. Não me leve a mal.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022