Ep.1
Foi difícil acordar esta manhã, queria ficar deitada o resto da vida nesta cama macia, e, não, não estava sozinha. Não desta vez e já faz alguns meses.
Estava nua ao lado de um corpo nu na minha cama, era bonito, atraente e gostoso. A noite foi gostosa. E eu gosto de ter um homem nu na minha cama. Diferente de Leon... Mas não posso mais pensar nisso.
E como todas as manhãs, o Sol entrava brilhante pela minha janela entreaberta do vigésimo andar, uma brisa suave fazia minha cortina esvoaçar e deslizar até minha cama e passar delicadamente sobre meu corpo. Uma manhã bela e de céu limpo, azulzinho, do jeito que gostava.
Acordei primeiro com aquele cheiro de sexo que ficou no ar a noite toda. Deixei o lençol úmido bem onde ele está deitado. Sobre meu orgasmo, meu gozo. Passei a mão em seu peito até chegar a seu pênis, duro. Incrível como eles tem ereção enquanto estão dormindo. Passei o dedo de leve na cabecinha e depois o masturbei enquanto ele dormia, queria vê-lo gozar, ejacular em sua barriga. Toda aquela porra brilhando no sol da manhã.
Deitei minha cabeça em seu peito e depois fui de mansinho até perto do seu pau, e o lambi com a ponta da minha língua. O homem nu se mexeu, depois coloquei a cabecinha inteira na minha boca, fechei os olhos e chupei. Como era gostoso, como me enchia de tesão. Depois o continue masturbando, sentindo cada vez mais duro na minha mão. Sem parar, para cima e para baixo. Ele se mexia e se contorcia, já sentia o tesão dominando seu corpo, e a mim também. Talvez ele pensasse que fosse um sonho bom. Eu beijava seu peito e o masturbava mais e mais, batia com mais vontade e com mais força, inteiro na minha mão. Adoro na minha mão, adoro apertar. Ele abriu os olhos lentamente e sua respiração aumentou no momento em que ele gozava, do jeitinho que eu queria, em sua barriga e na minha mão. Seu gozo escorria em meus dedos e eu provava um pouco do seu leite pela manhã. Bom, acho que já tomei meu café.
– Bom dia – eu disse enquanto ele tentava entender o que acontecia.
– Bom dia – respondeu o homem nu, enquanto se espreguiçava.
– Dormiu bem? – perguntei.
– Sim, muito bem – respondeu esfregando os olhos e com um leve sorriso. – Podia me acordar sempre assim.
– Não fiz nada, você quem teve uma ejaculação matinal.
– Sei – ele sorriu.
– Um adolescente na minha cama, vou ser presa.
– Não sou nenhum adolescente – ele sorriu e eu me levantei, nua, enquanto ele me observava.
Dei a volta na cama enquanto sentia seus olhos famintos no meu bumbum, o mesmo bumbum que ele sentiu de quatro a noite toda. Que ele deitou em cima e se esfregou inteiro até não aguentar mais. Fui tomar um banho quente e tirar do meu corpo toda aquela noite de sexo que tivemos juntos. Tinha meses que não transava e a última vez tinha sido com Leon. Foi muito diferente, mas não esperava outra coisa. Com Leon não era transar, eram fantasias colocadas em práticas. Foi assim que resolvi chamar tudo que aconteceu entre mim e ele.
A água quentinha espalhava a espuma do meu corpo que descia pelos meus seios e sumia entre minhas pernas, minha vagina, e levava toda aquela noite de prazer embora pelo ralo. Tinha a pele branca e às vezes rosada, corada, cor de orgasmo. Com marcas e hematomas da noite anterior. Nada sério e nada comparado a Leon naquele dia no quarto preto, da pantufa rosa e dos meus punhos roxos; Meus olhos castanhos estavam sempre atentos a novas coisas, novas aventuras e experiências. Acho que eu era atraída para isso. Fechei o chuveiro e me enrolei na toalha, prendi meu cabelo preto e longo, e voltei para o quarto.
O homem nu continuava na minha cama, mas aí vocês me perguntam: quem afinal estava na minha cama? Lembram-se do novo funcionário que arrumou emprego na pandemia? Então.
Seu nome é Renan, colega de trabalho, e depois de meses resolvi dar atenção a ele, eu precisava e não preciso dizer o motivo. Ele é divertido e era tudo que eu queria no momento. Estamos juntos já há três meses, a primeira vez que saímos, ele me deu flores, tudo para me levar para a cama, homem é muito bobo mesmo. Leon me deu um vibrador, acho que já dá para perceber a diferença entre um e outro.
O sexo é bom, não posso reclamar. Quando gozei pela primeira vez com ele eu estava por cima e depois de meses sem sexo eu esguichei sobre seu corpo, foi intenso e não consegui segurar e não tive tempo de avisar o que viria por aí, deixei seu pênis numa cachoeira quente de prazer, ele enlouqueceu e gozou na mesma hora. Fiquei aliviada que gostou. E estamos juntos até agora. Muito sexo e muita cama, às vezes cama até demais. Leon bugou minha cabeça. Que merda!
– Posso dormir aqui com você mais uma noite? – perguntou Renan, tinha o cabelo louro e um pouco longo, desgrenhado, e barba, meio rebelde e eu até gostava daquele visual. Descobri que ele era um ano mais novo que eu, não me incomodava. Ele tinha um jeito ingênuo que até algumas mulheres iriam gostar. Ele era aquele tipo de homem que elas gostam de provocar só para testar seu poder de sedução.
– Não, já te usei para o que precisa e agora pode ir embora. O dinheiro está na mesinha do lado da porta.
– Não sou teu garoto de programa – disse Renan, me puxou para a cama e me beijou.
– Então você faz isso de graça, meu Deus, você deveria cobrar.
– Você que deveria cobrar para ver esses orgasmos. Conheço uns caras que iriam enlouquecer com você.
– E você quer fazer uma parceria de negócios? Ainda não sei quanto custam meus orgasmos. Mas seria muito caro.
– Não quero dividir você com ninguém – disse e me deu cócegas.
– Chega. É hora do estagiário ir embora – disse para ele.
– Não sou um estagiário.
– Eu sei, você é meu estagiário – respondi.
– Então estou numa fase de teste com você? – perguntou Renan.
– Não se preocupe, está indo bem – disse.
Ele me libertou de seus braços e se levantou, nu, da cama. Como é bom ver um homem nu andando pelo meu quarto. Toda mulher deveria ter um homem nu na cama, só pra deixar lá e olhar de vez em quando. Bom, e usar também.
E, antes dele ir ao banheiro, ele me surpreendeu com uma pergunta. Eu deveria ter esperado por isso.
– Quem é Leon?
Respirei fundo e respondi:
– Foi... um ex alguma coisa. Não sei.
– Não sabe?
– Meu ex – resumi diretamente.
Disse o nome dele enquanto transava. Ainda bem que ele é legal. Se não, não teria acordado na minha cama. É, foi uma grande mancada.
Era domingo e eu tinha que fazer um monte de coisas em casa. E não ia conseguir com um homem tirando minha concentração o tempo todo. Na manhã seguinte, o trabalho seria na empresa. Eu fico três dias na empresa e outros dois em casa, em home office. Eles estavam testando um novo modo de trabalho depois da pandemia. A pandemia tinha passado, mas uma vez e outra voltava a tirar nosso sono com uma nova variante. De vez em quando ainda usava uma máscara. Parecia um fetiche. Bom, só na minha cabeça.
Depois do café ele foi embora, bom, eu já tinha tomado meu leite, então, só o admirei tomando do meu café. E, com toda vontade do mundo, arrumei a casa, só de calcinha e camiseta. E depois do intenso final de semana, no final de tarde, eu fui descansar. Maratonei uma série, a noite passou e eu dormi. Essa era minha rotina, e, assim, eu segui em frente.
Continua...
Ep.2
Na manhã seguinte, acordei cedo, tomei um banho, me arrumei e tomei meu café, sem o leite. Eu já estava saindo de casa quando ouvi um barulho do outro lado da porta. Achei que fosse minha vizinha, não conversava muito com ela, então sempre a deixava pegar o elevador primeiro e depois eu saia. Olhei pelo olho mágico, mas não era ela. E tive uma pequena surpresa quando vi a porta do apartamento 79 aberta. Há muitos meses isso não acontecia.
Saí na mesma hora, não que eu esperava ver Leon ali. Mas lá no fundo pensei nisso. Fiquei ali na frente do elevador prestando atenção no que acontecia lá dentro. Havia algumas pessoas arrastando coisas e falando baixo. Eu dei uma olhada de lado, de esguelha, disfarçando. O homem me viu e fechou a porta na minha cara. Eu desviei o olhar e entrei no elevador. Será que enfim ele estava sendo vendido?
Esqueci o assunto, não queria mais pensar nisso. Meu dia seria longo e eu precisava me concentrar. Quando cheguei à empresa, encontrei Renan no elevador, meu estagiário que peguei emprestado para serviços extras, como já ficaram sabendo. O elevador encheu e pouco nos falamos além de um "oi", afinal ninguém sabia sobre nós. Mas senti sua mão boba passear no meu bumbum. Ele usava roupa comum, não existia a formalidade de uma gravata, pena, adorava uma coleira.
Meu chefe já estava em sua sala, como de costume. Nancy, minha grande amiga, chegou depois, e, logo em seguida, Breno com seus óculos pretos de nerd, sempre tentei aproximar a Nancy dele. Nunca deu certo. Depois, foram chegando os outros funcionários da empresa. Cumprimentamos-nos com um breve bom dia. Sentei-me na minha mesa ao lado de Nancy, ela sabia o que acontecia entre eu e o estagiário.
– Alguma novidade? – perguntou Nancy, tinha um cabelo louro escuro, curto e algumas mechinhas. Ela era meio cheinha, como ela mesma dizia.
– Tinha gente no apartamento 79 – respondi.
– Não foi bem isso que perguntei – disse Nancy. Ela queria saber como foi à noite com o estagiário.
– Eu sei – eu ri baixinho.
– Você não vai começar com isso de novo? – disse Nancy, reprovou completamente o que aconteceu entre eu e Leon.
– Eu não disse que vi Leon, só disse que tinha gente no apartamento.
– Mas bem que queria – disse Nancy.
– Eu terminei com ele, não se lembra?
– E parece que isso não quer dizer muita coisa – disse Nancy.
– Acho que vão vender – disse, para acabar com aquele clima chato pela manhã.
– Tomara – respondeu ela. – Era a dona do apartamento que estava lá?
– Não, só vi alguns homens conversando e empurrando coisas – respondi. – Espero que não seja ela.
– Por que não. Ficou com medo depois do que aquela mulher disse? – perguntou Nancy.
A mulher a que Nancy se referia era Cléo. A primeira e única mulher com quem já transei naquele mesmo apartamento. Foi uma verdadeira loucura. Eu disse para ela o que aconteceu entre a gente, eu precisava desabafar com alguém. Ela me achou louca e nunca se imaginou fazendo sexo a três, quanto mais com outra mulher. "Ela disse que só teria coragem de chupar a própria pepeka, mas, mesmo a dela, ela nem alcança". Então, ela nunca faria isso.
– Ele usou você, Gabriele, na verdade, os dois usaram e se lambuzaram – disse Nancy. – E pelo o que você disse ele tem outra pessoa. E você sabe quem é.
– Sim, eu sei.
– Então esquece esse assunto e me diga como foi com Renan? – perguntou ela, baixinho.
– Você precisa arrumar alguém logo, Nancy, e parar de ouvir minhas historinhas eróticas – disse para ela com um sorriso.
– É só o que eu tenho por enquanto – disse Nancy. – O estagiário tem evoluído?
– Dia a dia – respondi.
– Nossa, assim ele vai da pepeka pra bundinha logo, logo – riu Nancy.
– Já foi – respondi, e rimos juntas.
Foi um longo dia de trabalho, e no final de tarde, eu quis me divertir um pouco com meu estagiário. Isso eu nunca tinha feito, mas a ideia despertou quando ele passou a mão no meu bumbum no elevador. Senti certo pânico misturado com uma excitação, com algo que não conseguia mais controlar. Numa sala de arquivos, enquanto estávamos tirando cópias de alguns papéis e documentos, nós ficamos sozinhos por breves minutos. Eu me curvei sobre uma copiadora e fiquei balançando meu bumbum lentamente, de um lado para o outro. Renan estava logo atrás de mim e não parava de me olhar. Eu coloquei a mão entre minhas coxas e subi, e continuei a rebolar.
– O que está fazendo? – perguntou ele, olhando para a porta. De repente alguém poderia entrar.
Eu me virei e perguntei:
– Gosta da minha bundinha?
– Claro, muito – respondeu surpreso com minha pergunta.
– Então bate uma pra mim.
– Quê? – perguntou, mais surpreso ainda, e olhou para a porta novamente.
– Bate pra mim. Agora! – disse olhando em seus olhos. Ele percebeu que era sério.
– Aqui?
– Sim, eu quero ver.
– Pode aparecer alguém – disse Renan.
– Já estão indo embora – disse Gabriele. – Bate. Agora! – fiz quase soar como uma ordem.
Nunca pedi para fazerem isso, e vocês? Mas acabei pedindo no impulso e nem pensei nas consequências.
Renan hesitou, olhou a volta e baixou o zíper da calça, colocou o pênis para fora e começou a se masturbar na minha frente. Ele parecia com medo de ser pego enquanto seu pau crescia em sua mão, e eu não conseguia parar de olhar. Estava ficando duro, bem duro.
– Imagina que você tá colocando na minha bundinha – disse só para provocar, ele bateu mais rápido olhando a toda hora para a porta. A cabecinha tava brilhando, eu queria colocar a boca ali. – Você quer colocar na minha bundinha?
– Sim... quero – disse ele, já falando com dificuldades.
– Se eu baixar a calcinha você coloca na minha bundinha? – o provoquei mais.
– Claro!
– Eu adoro quando você goza e me aperta com força. Adoro sentir seu pau no meu ânus quando eu to de quatro, minha buceta fica pingando. Gosta de olhar minha bundinha quando você come? Gosta de abrir?
– S-Sim, sim... – ele estava quase gozando.
– Gosta de chupar minha bundinha? Colocar a cara inteira nela?
– G-Gosto...
– Então goza, eu quero ver – eu disse.
Ele não respondeu, só gemeu, fechou os olhos e gozou na minha frente. Ele ejaculou várias vezes, vários jatos leitosos pingando no chão. Eu lambi os lábios enquanto via algumas gotas pingando daquela cabecinha que já esteve em minha boca. Eu apertei meu peito, e nessa mesma hora alguém entrou pela porta. Eu tirei a mão do peito e meu estagiário escondeu seu pau dentro da calça rapidamente.
– Já terminou, Renan? – perguntei qualquer coisa só para disfarçar.
– Que? Ah, sim. Já sim – disse Renan disfarçando seu pau duro dentro das calças.
O funcionário era Fábio, e é claro que ele desconfiou que algo estava acontecendo ali. Ele pegou algumas folhas, uma caixa e logo saiu, e, enquanto fechava a porta, ele olhou para o chão salpicado de um líquido branco e brilhante.
– Isso foi loucura – disse Renan arrumando a calça assim que ele saiu.
– Sim, foi. Mas foi bom. Não foi? – perguntei e me aproximei dele, o abracei, encostei todo meu corpo ainda sentindo seu pau que acabara de gozar.
– Foi sim – respondeu, me deu um beijo rápido e saiu. Acho que foi no banheiro se limpar.
Não sei o que estava esperando que ele fizesse. Como tentar me chupar, me enfiar o dedo ali mesmo e também me fazer gozar. Eu fiquei ali arrumando papéis com uma sensação de que estava sentindo falta de algo... diferente. Algo tinha mudado em mim.
Já estava exausta quando cheguei ao meu prédio, acho que tinha perdido o ritmo, estava mais cansada que antes, mais que o habitual. E sem dúvida foram as home office. Renan não veio comigo, eu queria aquela semana para mim.
Entrei no elevador e quando apertava meu andar, ouvi um barulho de salto que se tornava cada vez mais audível e mais rápido. Aquilo me soava familiar, eu conhecia aquilo, eu me lembrava daquilo. Afastei-me da porta e vi uma mão bloqueando a porta do elevador, e ela entrou com sua elegância e sua postura austera. Era Wanda. Fui para o fundo do elevador tão espantada que não consegui disfarçar. Ela me encarou por breves segundos tão fixamente que chegou a me intimidar, me assustar, depois se virou e apertou nosso andar. E não disse nada.
Ela ficou parada na minha frente com uma das mãos na cintura e a outra manuseando o celular enquanto o elevador subia.
Continua...
Ep.3
Quando chegamos ao andar, a porta se abriu e ouvi a vizinha do meu lado saindo com seu filho. Wanda saiu e eu depois, e a vizinha tomou o elevador. Fui direto para minha porta e Wanda ficou parada ali manuseando seu celular. Fiquei procurando as chaves na minha bolsa, nervosa. E, quando já entrava, pela primeira vez além de um bom dia, ela me fez uma pergunta antes que eu fechasse a porta:
– Tem carregador de celular?
– O-o quê? – perguntei, gaguejei e me senti uma idiota.
– Carregador de celular – disse Wanda me mostrando seu aparelho na mão.
– Sim, claro – deixei a porta aberta e entrei. Não a convidei para entrar, coloquei minhas coisas na mesa, e, quando percebi, ela já estava dentro do meu apartamento. Tomei um pequeno susto.
– Está tudo bem? – perguntou ela, fechando a porta. – Desculpe se já fui entrando.
– Não tem problema. Eu que não fui educada, deveria tê-la convidado a entrar. Afinal fomos vizinhas por alguns anos.
– Verdade – disse ela com um leve sorriso.
Fiquei olhando para ela completamente desconcertada, e por um instante esqueci o que ia fazer. Wanda usava as mesmas roupas pretas, a mesma elegância. Uma calça social e um terninho. O cabelo louro estava amarrado e ela usava um óculos de armação preto.
– Então?
– Ah, sim, carregador. Um momento eu vou pegar. Eu já tive um celular desse modelo, então... já vou buscar. Fique à vontade – disse e fui para o meu quarto.
Respirei fundo quando cheguei, só pensava em me acalmar. Afinal, por que tanto nervosismo? Só transei no apartamento dela com alguém que disseram que pertencia a ela. Isso é muito louco. Peguei o carregador no fundo de uma gaveta e saí do quarto. Ela estava de pé apreciando ou depreciando meu apartamento. Afinal, aquilo não tinha nada a ver com o dela.
– Está aqui – entreguei a ela.
– Obrigada. Posso carregá-lo um pouco?
– Sim... claro – não pensei que ela fosse ficar. Ela poderia até ficar com o carregador de presente, eu não precisava mais dele. E ela achou a tomada antes mesmo que eu dissesse o local.
– Odeio quando pegam minhas coisas sem minha permissão. Isso me deixa muito furiosa – disse Wanda, me encarando, seu leve sorriso tinha desaparecido. Foi estranho.
Por um momento não parecia que ela falava do carregador. Desviei o olhar, e disse:
– É, também odeio isso.
Ficou um estranho silêncio no ar, constrangedor, se fôssemos esperar até o celular carregar, era melhor que eu tivesse algum assunto. E então perguntei:
– Está vendendo o apartamento?
– Não, eu nunca o venderia, adoro ele. Vou ficar por alguns meses a trabalho. Então vai me ver com mais frequência, de novo, por aqui – disse Wanda.
– Que bom – disse, mas não fui sincera.
– Podemos conversar mais e até ser boas amigas, deveria ter dado mais atenção a você – disse Wanda. – Gabriele, não é?
– Ah, sim, Wanda – disse, confirmando que também me lembrava do nome dela – Por que dar mais atenção a mim? – perguntei, estranhei o que ela disse.
– É sempre bom conhecer um pouco nossos vizinhos. Nessas horas podemos precisar de... um carregador de celular emprestado ou qualquer outra coisa. Como agora – disse ela com um sorriso.
Verdade – respondi, e sorri meio que sem graça.
E mais um silêncio constrangedor, ela não parecia se incomodar com isso. Ela estava na minha casa como se estivesse na dela, e, eu, como se fosse uma intrusa, desconcertada no meu próprio apartamento.
– Achei que tinha se mudado? – então perguntei
– Nunca me mudei, eu uso o apartamento muito para o trabalho, quando estou na cidade e isso acontece com muita frequência. Estive fora só por alguns meses, mas agora estou bem aqui. Aluguei o apartamento para uma pessoa de confiança. Ele precisava de um espaço, um momento, e eu concordei. Acho que você o conheceu?
– Sim, claro, o vi algumas vezes. Muito discreto – respondi sem encará-la.
– Sim, ele é. Leon é um belo rapaz. O que achou dele? – perguntou e me encarou de forma estranha mais uma vez, como se quisesse chegar a algum lugar.
– Ele... era muito atraente – respondi.
– Sim, ele tem um jeito enigmático de atrair as mulheres. Deve ter percebido isso.
– Não dei muita atenção – menti. – Como eu disse, ele era muito discreto. Se quiser pode levar o carregador, eu não o uso – mudei de assunto, desconversei, era melhor.
– Não será necessário, só precisava de uma carga. Muito obrigado por sua gentileza – disse Wanda tirou o celular do carregador e abriu minha porta.
– Foi um prazer ajudar – disse.
– Eu tenho certeza que foi – respondeu e saiu. Tão elegante quanto entrou.
Fechei a porta assim que ela saiu e fiquei olhando pelo olho mágico. Pegou a chave na bolsa, abriu a porta e entrou. E a única coisa que eu pensava era: se ela sabia sobre mim e Leon? Aquela conversa foi muito estranha. Nunca conversamos, e, de repente, isso. "Empresta o carregador". Olhei pelo olho mágico novamente e depois mandei uma mensagem para Nancy.
– É o que dá ficar com alguém que já pertence a outra pessoa – disse Nancy.
– Não foi culpa minha.
– Se eu fosse você eu me mudaria. Vai que ela é alguma louca. Uma serial killer. Já até sei como seria nos jornais: "A dama de preto volta a atacar".
– Credo! Não exagera! – disse, sentindo um ligeiro arrepio.
– É melhor seu estagiário aparecer por aí com mais frequência. Só pra mostrar que você não está sozinha.
Aquilo era uma boa ideia.
Fui até o olho mágico por mais de uma vez. Tranquei bem a porta. Jantei, tomei um banho e relaxei um pouco. Mandei uma mensagem para Renan, perguntei como ele estava depois de hoje no trabalho. Quase que pedi que viesse dormir comigo.
– Está tudo bem? – perguntou ele.
– Sim, claro – não quis entrar em detalhes, não queria ter que explicar e não saberia como chegar a Wanda. Pois para falar nela eu teria que falar sobre Leon e eu não queria falar de ninguém.
A noite chegou e eu adormeci ali no sofá segurando o celular. A TV ligada ouvindo qualquer som que surgia em minha cabeça, como um eco distante. Barulho de carros, buzinas e freadas bruscas. Barulho de chave e de porta abrindo. Minha porta rangia de forma assustadora e um vulto negro surgia por ela. Era alta, muito alta, uma sombra gigantesca crescendo à minha frente. Tão perto e sufocante que me faltou ar. Algo brilhava em sua mão e me arrepiou quando encostou em meu pescoço, era gelada e afiada. Acordei com um grande susto levando a mão ao pescoço, na mesma hora em que o alarme do meu celular tocava, estava suada e resfolegando, era manhã e eu tive um pesadelo horrível com a Wanda.
Dormi no sofá enrolada no meu roupão. Acordei atrasada e fui até o espelho dar uma olhada no meu pescoço. É claro que tinha sido um sonho. Nancy só me assustou. Tomei um banho, me arrumei, e tomei meu café. Antes de sair, dei uma olhada rápida pelo olho mágico, não queria encontrar Wanda pelo caminho. Mas não adiantou nada, enquanto esperava o elevador ouvi chaves e a porta do apartamento 79 se abrindo. Wanda surgiu pela porta, aquilo era mais que uma coincidência, ela estava me rodeando. Ela parou do meu lado com sua mão na cintura, e disse:
– Bom dia.
– Bom dia – respondi, e entramos juntas no elevador.
Ela não disse mais nada e ficou parada na minha frente, como no dia anterior. Depois ela saiu, ela foi para o carro dela e eu para o meu.
Acho que esses encontros vão ser mais frequentes do que eu esperava.
Continua...