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Apreendido. Até que a morte finalmente me liberte

Apreendido. Até que a morte finalmente me liberte

Autor:: 17293Nhv
Gênero: Romance
Alexa acorda após uma bebedeira monumental sentada em um velho farol e sem nenhuma lembrança do dia anterior ou de como chegou lá, exceto que o sangue em suas mãos e roupas não é dela. Ela se permite navegar em sua mente e recapitular o que ela lembra dos últimos dias e daqueles momentos de sua vida que a levaram a ser a pessoa que está naquele farol hoje. Com muita paciência, ele terá que reconstruir as cenas apagadas de sua memória, tendo como únicas pistas: Uma faca ensanguentada, uma surra, um estupro e uma ressurreição Nem tudo que reluz é ouro e às vezes a morte é a única coisa que te liberta.

Capítulo 1 CAPITULO 1

Hoje, 21 de Novembro de 2015

Sentado nas margens do Farol, as poucas estruturas que sobrevivem à passagem do tempo, um salpico de swell contra os meus pés, fazendo- me cócegas. A maré ameaça subir pouco a pouco à medida que as horas passam. Ao longe observo um pequeno iate, e imagino a sua tripulação, um casal a apreciar o que para eles é um excelente dia de Verão, com um sol brilhante e um céu limpo; a brisa fresca do mar arrefece os seus rostos, enquanto um belo copo de vinho demasiado caro para qualquer outro mortal, aquece nas suas mãos. Uma conversa agradável, leve e divertida mantém- nos a rir durante horas a fio. Quando tiverem falado tempo suficiente, ele aproximar- se- á dela e começará a seduzi- la, com palavras doces, com carícias certas, escovar- lhe o cabelo do rosto, e começará a beijá- la como se temesse quebrá- la com o poder da sua paixão.

Desviei a minha atenção dessa linha de pensamento, o mais rapidamente possível. Respiro o mais fundo que os meus pulmões permitem, enchendo- os até à capacidade com ar salgado. Para mim é um dia triste, nublado, aborrecido e confuso; muito confuso.

Não sei como cheguei aqui, literal e filosoficamente falando. Viro- me para ver o único companheiro que amanheceu nos meus braços quando o sol começou a aquecer o meu rosto, uma garrafa de Smirnoff, agora vazia, com vestígios do que era, ou assim espero, o meu batom. A náusea ataca novamente, por isso levanto o meu olhar para o mar infinito para o apaziguar, abro a boca e inalo a brisa do mar, desfrutando do sal na minha boca e garganta.

O iate ainda está no mesmo lugar, flutuando, balançando nas ondas; aquele casal ainda lá está, feliz; e eu ainda estou aqui, sentado na margem de um velho farol, a minha maquilhagem manchada, cheirando a vómito, com o sabor ligeiramente cítrico da vodka, acariciando o meu paladar, refrescando- me mesmo depois de tantas horas. E à minha estranheza repousante; tentando a todo o custo evitar reviver as últimas horas de sanidade de que me lembro.

Algumas imagens voltam para mim, muitas delas o resultado de decisões precipitadas e desequilibradas e Smirnoff (Porque deveria eu ter Smirnoff?) Será que o comprei, será que o consegui? Oh Deus, será que o roubei?) E depois houve a chamada.

Essa chamada é o que me tem aqui sentado junto ao farol, essa chamada é o que me faz balançar os pés sem me importar se as ondas começam a amortecê- los. Esse apelo trouxe- me a este momento, desencadeando toda uma série de acontecimentos, de pesadelos que me trouxeram a este presente odioso, com um passado obscuro e sem futuro à vista. Porque se uma coisa é clara para mim, é que depois de hoje, não há futuro, e a única saída deste abominável presente está aos meus pés, naquela água fria e cintilante. À medida que o sol começa a sua lenta mas segura viagem para o topo do céu, tenho dificuldade em pôr os meus pensamentos em ordem. Uma presença, acariciando subtilmente a superfície da minha consciência, é uma peça de um grande puzzle do meu último dia; uma peça sem forma, sem princípio e sem fim, uma que não quero fazer, um labirinto que não quero andar, mas lá estou eu, lutando contra essa imagem, aterrorizado com o que ela possa significar ou o que eu possa descobrir se eu permitir que ela emerja de todo. Mas a minha obsessão com a organização não permite tal desordem em mim, mesmo aqui, no fundo de mim, tenho a necessidade de juntar as peças.

Fecho os olhos e deixo a memória tomar conta?

- É tudo?" pergunta o caixa da loja de bebidas.

- Parece meio aborrecido e cansado; é jovem, com olheiras escuras pronunciadas, cabelo desarrumado e negro, alguns cabelos brancos começam a aparecer no seu cabelo, dando- lhe a aparência de ter reflexos de luz. Onde antes se sentava segundos antes, muitas contas de serviços públicos parcialmente amassadas.

- Sim, eu respondo por inércia. - Eu respondo por inércia. Compreendo que tenho tão pouco desejo de falar como ele. Ambos queremos terminar a transacção e continuar a afogar- nos nos nossos problemas. No meu caso, tentarei afogar o meu problema; no seu caso, talvez ele já esteja a afogar- se no seu.

- Um chocolate, uma garrafa de Smirnoff, um batom, Coral Red. - Ele diz, listando os meus produtos para manter os seus pensamentos focados na minha conta, e não nos seus próprios pensamentos, o que o assombra a partir da sua cadeira. - São $15,37.

Entrego- lhe o Cartão de Crédito enquanto escavo na minha bolsa para obter algumas moedas de gorjeta. Algumas notas soltas tropeçam na minha mão, e um frasco de comprimidos salta para dentro.

- Obrigado", diz ele enquanto trocamos as minhas malas pela sua gorjeta.

- Para si. Boa noite. - E eu dou- lhe um pequeno e sincero sorriso.

- O mesmo para si. - Ele responde enquanto levanta um lado da boca naquele que deve ser o melhor sorriso que pode reunir nas suas circunstâncias.

***

Abro os olhos e esvazio os meus pulmões de ar que não sabia que estava a segurar. Não foi tão mau como eu temia. Pelo menos sei que não roubei o Smirnoff; só não sei que comprimidos eram esses. Esforço um pouco a minha criatividade para trazer clareza a esta imagem vaga do frasco de comprimidos, mas não tenho sucesso. Frustrado, deixo cair a minha cabeça para trás, e apercebo- me de algo. Abro os meus olhos e olho para a garrafa.

- Okay, isso não é Coral Red e não é a mesma garrafa da loja de bebidas", eu digo em voz alta.

Uma nova bolha de memória surge em mim e a chamada, essa maldita chamada.

Capítulo 2 CAPITULO 2

11 de Novembro de 2015

- Alooou? - Digo distraidamente enquanto faço zapping na te- visão.

- Alexa? - Pede uma mulher com uma voz rouca. Tão rouca que me soa como um gato a ronronar no ouvido.

- Sim, quem é? - A sua voz desperta a minha concentração.

- Sabe quem é. - Ela responde com arrogância.

Essa voz, eu já a ouvi antes. No início não percebo nada do que se está a passar. Olho estupidamente para o telefone para confirmar que há uma chamada em progresso, e não é a minha imaginação; mas sobretudo olho para ele na esperança de ver um número desconhecido ou o nome de um contacto existente na minha lista de contactos, o que me tranquilizará que estou no meio de uma piada, mesmo que seja péssima. No entanto, é um número que eu conheço muito bem.

- Está aí? Mais uma vez estou perturbado com a sua voz; está tão baixa que a vejo a vibrar no altifalante.

- Sim", respondo enquanto levo o telefone de volta ao meu ouvido.

Uma pequena e tímida voz dentro de mim pede- me para desligar, mas esse sexto sentido feminino, que se manifesta como uma pequena gota de água gelada a correr pela minha coluna, mantém- me colado ao telefone. Aperto- o com tanta força que tenho medo de o partir.

Quase consigo ver o sorriso a rastejar pelo seu rosto.

- Assim podemos nós. - Ela ronrona em divertimento e desliga o telefone sem outra palavra, e sem esperar pela minha resposta.

Com o meu telemóvel ainda nas mãos, vejo o anúncio do fim da chamada, como se à espera que o meu telemóvel me dê as respostas a todas as minhas confusões, olho para ele sem pestanejar, mas nada acontece. O que é que ela faz ao telefonar- me? Como é que ela tem o seu telemóvel... "Nós"?

***

21 de Novembro, 2015

Essa simples chamada foi o que me trouxe a este velho farol. Essa chamada pôs fim a tudo o que eu sabia e como o sabia. No entanto, sei que a dada altura lhe agradecerei por esse apelo, não hoje, mas talvez um dia. Essa chamada tirou- me do buraco em que eu estava e neste momento, na beira de um penhasco, estou melhor.

11 de Novembro de 2015

Senti- me como um idiota quando me apercebi do significado dessa chamada. A minha existência neste instante foi o seu escárnio. Como não o vi antes, como não soube? Ainda estava sentado na cama com as pernas apertadas, a boca seca, um gelado a derreter ao meu lado e completamente furioso e furioso.

* * *

04 de Outubro, 2015

- Olá!" digo alegremente, mesmo antes do Dominic dizer alguma coisa.

- Olá", ele responde com curvatura.

- Como está?" Tento outra abordagem. Eu sei que ele não gosta de receber chamadas no trabalho.

- Óptimo. Tudo bem?

O facto de ele perguntar, preocupado comigo, derrete- me um pouco o coração.

- Sim, está tudo bem. Eu só queria saber a que horas regressam a casa. Estou a preparar uma nova receita para o Buzzfeed. - Tento transmitir o meu entusiasmo. - Vai adorar!

O riso no fundo, incluindo o de Dominic, chama- me a atenção.

- Claro. Dê- me um segundo - diz Dominic, falando com outra pessoa. É sempre a mesma coisa, só tenho de esperar.

- O amor? - Peço para chamar a sua atenção.

- Ele está a chegar. - Mais uma vez, ele é rude, ele usa o seu tom seco comigo? Estou a começar a ficar irritado...

Eu sei que ele cobriu o receptor porque nem sequer o consigo ouvir respirar. Fecho os olhos e invoco toda a paciência que tenho no meu corpo para não explodir assim que ele volte à nossa conversa. Durante alguns segundos que parecem ser eternos, não ouço nada, até o ruído de fundo ser reactivado ao telefone.

- Alexa. Tenho de desligar. - Ele diz apressadamente. - Não vou ao jantar. Tenho muito trabalho para fazer. - Conheço- o tão bem, sei que ele estava a sorrir e que está a tentar parecer sério. Por outras palavras, ele está a mentir- me.

- Muito bem, vou esperar por si e comeremos juntos. - Mudo novamente a minha táctica. Não quero perder esta luta.

- Vou chegar tarde. Quando eu sair, irei com Noé.

Esse nome, cada vez que aparece na conversa, implica duas coisas: uma: ele não vem jantar; duas: ele não vem a casa; e bem, penso que implica três, porque quando o nome de Noé aparece, haverá sempre mulheres.

- Mas eu já fiz a comida. - Tento colocar uma voz de prostituta. Não posso deixar de me sentir arrastado a mendigar pelo seu tempo, mas empurro a sensação para fora da minha cabeça, o mais rápido que posso.

- Tenho de desligar. Eles estão à minha espera. - O riso no fundo repete- se, e desta vez ouço o riso das mulheres, o que faz ferver o meu sangue.

A luta nunca foi o meu forte, mas é claro para mim que mijar ao telefone é inútil, porque eventualmente ele vai sair de qualquer maneira, e eu não quero que ele saia chateado comigo, porque ele só será susceptível a qualquer outra situação que torne a sua noite mais brilhante e a minha pior.

- Tento parecer indiferente. - Tento parecer despreocupado, mas ele também me conhece e sabe que eu não estou bem, mas o mais doloroso é saber que ele não se importa. Nunca fui concorrente de Noé nem uma garrafa.

- Vai com calma, está bem? Eu amo- te. - Ele diz- me com aquela voz que me derrete, com aquelas palavras que me hipnotizam. A sua voz, quase a sussurrar- me ao ouvido, faz- me senti- lo mesmo ao meu lado.

- Eu sei... - Eu suspiro - Eu amo- te.

Dominic chegou a casa 20 horas após essa chamada.

***

11 de Novembro de 2015

Levantei- me e disse todos os palavrões que conhecia, os que não conhecia, e alguns inventaram criativamente. Ofendi todos os seus antepassados, e todos os seus parentes e amigos vivos.

- Tada! gritei para o ar.

Era isso que eu era, um grande e imenso tolo, por não me aperceber, por não querer ver o que estava sempre à minha frente.

Quando a raiva inicial passou, cansado de gesticular ao vento e de bater em caras imaginárias, sentei- me na cama, cobri o meu rosto com as mãos e chorei. Muitos momentos felizes passaram pela minha mente naquele tempo, muitas gargalhadas, sorrisos, lágrimas de felicidade e também de tristeza, de medo, mas pus esses últimos de lado da minha memória, como soube fazer após anos de prática.

Nada que eu pudesse fazer naquele minuto, nada que eu pudesse fazer naquela não- noite. Não sei quanto tempo demorei a recuperar o controlo dos meus soluços, e quando o fiz senti uma paz muito estranha dentro de mim, a paz de saber que o momento esperado tinha chegado, mas sem saber que momento era.

Recolhi o que restava do gelado, que já tinha sido invadido por grandes formigas, e deitei- o fora na máquina de lavar louça. Assegurei- me de que a porta da frente estava fechada e voltei para a sala. Uma cara olhou para mim. Era uma rapariga jovem, alguns quilos acima do peso, com cabelo fosco, seco e espancado puxado para trás num rabo de cavalo, usando uma blusa com o dobro do seu tamanho, calças manchadas e descalças descalças. Foi- me difícil compreender o que aquele espelho com a minha imagem me estava a dizer.

Não foi que tivessem gozado comigo, mas sim que eu tinha consentido e até encorajado. Como tudo o resto na minha vida, eu era o culpado da minha própria autodestruição. Sim, para eles Alexa Lassen era um arlequim colorido, um ser que alegrava a sua noite com muito riso e zombaria às suas próprias custas, um palhaço; mas eu tinha feito parte dessa situação quando me esqueci de mim e da minha pessoa e cedi ao conforto, um conforto que ironicamente me deixava desconfortável; porque nenhuma mulher gosta de depilação e todas sonham com o dia em que vai parar, mas quando isso acontece, ela não sente conforto nas suas pernas peludas.

Portanto, havia o que restava de mim. O meu cabelo outrora comprido e sedoso, cor de mel, era agora espancado, curto nos ombros, fosco, nem me lembrava da última vez que tinha ido a um cabeleireiro. Os meus olhos castanhos parecem- me aborrecidos e cansados. Até o meu nariz, a minha parte favorita do rosto, está vermelho e inchado de choro. As minhas roupas largas são velhas e gastas, não beneficiam a minha figura, que ao longo dos anos e do meu ganho de peso se deformou, não tenho uma gota de maquilhagem que realce as minhas maçãs do rosto, realça os meus longos cílios ou os meus lábios cheios. Todo o investimento que eu fiz na minha maquilhagem MAC está sentado no pó da minha cómoda. Quase consigo ouvir os consultores de beleza que me atenderam quando a comprei repreendendo- me por não cuidar da minha tez com os melhores produtos, por não aproveitar os pontos fortes do meu rosto e por não os realçar.

Como posso queixar- me de algo que eu próprio causei?

Capítulo 3 CAPITULO 3

21 de Novembro de 2015

Idiota. É assim que ainda me sinto desde aquele telefonema, mas por razões muito diferentes. Hoje estou certo da minha idiotice por não recordar o meu último dia, e especialmente considerando que poderia ser o meu último dia nesta existência. Só um verdadeiro idiota afoga os seus problemas em álcool, não aprendi nada nestes últimos cinco anos, quando o álcool ajudou, quando não me arrependi de beber enquanto organizava as minhas memórias confusas e, em alguns casos, procurava a minha roupa?

Sempre acreditei que quando bebesse, o meu gémeo maléfico surgiria para me humilhar e envergonhar. Como na altura em que ela me obrigou a participar num concurso de canto, naquele bar de merda, onde fui desqualificado quando o meu gémeo vomitou no meio do palco.

E o que aconteceu à promessa que fiz a mim próprio naquele dia fatídico de nunca mais beber? É isso que me está a incomodar neste momento. Deitei fora todo o esforço que fiz em todos estes meses sem beber.

As memórias que vivem em mim são dolorosas. O problema com a depressão é que ela o assombra mesmo que queira fugir dela. É um vilão bastante insistente que procura o seu infortúnio e se alimenta do seu infortúnio, do qual já tive muitos para o alimentar.

A minha vida tem sido sempre um desafio constante e contínuo. Tive grandes amigos que me apoiaram tanto nos meus piores momentos, e que eu apaguei da minha vida. Se os tivesse agora ao meu lado, se os tivesse há alguns dias atrás, talvez a minha história fosse diferente, primeiro: lembrar- se- ia da minha história; segundo: não me teriam deixado beber; terceiro: não estaria a assar sob este sol absurdo, auto- punindo a minha culpa. E a lista poderia continuar.

Mas sou novamente responsável pela minha autodestruição. Nunca quis explicar- lhes as coisas que estava a experimentar, porque não suportaria os seus olhos reprovadores, os seus julgamentos e muito menos as suas rejeições. Por isso, afastei- me deles. Evitar festas, celebrações, aniversários, reuniões. Ignorar chamadas, mensagens e e- mails. Devo dar- lhes crédito pela persistência e insistência; porque era difícil ignorá- los.

Mas o meu medo levou- me a melhor e no fim isolei- me neste novo mundo onde eu estava, um mundo que por sinal nunca gostei, mas era o mundo onde eu pensava pertencer. Por isso, tranquei- me na minha torre, a minha própria prisão pessoal. Da qual tenho a certeza de ter conseguido sair, mas será a minha saída uma verdadeira libertação?

O riso puxa- me para fora da pequena letargia em que eu estava a começar a afundar- me.

- Ai! Não sabíamos que estavas lá! ....

A rapariga pára a frase mesmo no meio, no momento em que repara que não é "eram" mas "são". Ela olha para a garrafa vazia com tanta repugnância como olha para mim. Reflexivamente tento arranjar a minha camisa, não sei porque a quero sem rugas quando deveria estar mais preocupado com o vómito que a adorna. Ela, claro, é perfeita num - demasiado curto - vestido de Verão Bershka, que destaca a sua figura perfeita em todos os lugares certos, com um drapeado quase angelical e delicado sobre a coxa; e ele, bem, como algo saído de um anúncio da República das Bananas, calções brancos, carrinhas azul claro para combinar com a sua camisa, óculos Ray Ban na cabeça, e uma cara tola agarrada à cintura. Ele ignora- me completamente, ele só tem olhos para ela. E opto por odiá- lo, não porque ele não olha para mim, mas porque ele pode olhar para ela assim; odeio- a não só pelo seu perfeito cabelo de cabeleireiro, mas por ter alguém a olhar para ela assim, mesmo que ela não retribua metade da devoção.

Não me preocupo em responder, por isso olho para longe deles e concentro- me no surf.

- É o seu aniversário, sabe, e nós queríamos um espaço para algo romântico", diz ela enquanto ele sorri para o seu cabelo, inalando o seu cheiro. A sua pele rasteja e ela não consegue deixar de sorrir.

Sei que ela me pede para sair, sei que está a ser educada, mas também sei que não me importo. Ignoro- a completamente. Alguns segundos de silêncio mais tarde, ele compreende primeiro que eu não me vou mexer. Ela não é bruta, está apenas esperançosa de conseguir o que quer. Ela está habituada a conseguir o que quer. A sua surpresa é que não será esse o caso hoje, pelo menos não de mim, ela não vai receber o que pede.

Ouço uma exalação de frustração e eles partem. Voo para a paz da minha solidão, mas qualquer vestígio de sono desaparece.

Não posso deixar de me lembrar do meu último aniversário. Não foi assim há tanto tempo, apenas três meses. Estava a celebrar o meu 27º aniversário em absoluta solidão, tentando convencer- me de que era isto que eu queria. A todos os que me convocaram, desenhei uma reunião imaginária onde estavam todos os meus amigos inexistentes. Era uma noite quente de Agosto, por isso mantive- me hidratado com limonada fria. Às 22 horas, após um telefonema do Dominic a dizer que não ia conseguir, porque me disse que havia muito trabalho na empresa, decidi tocar a canção de aniversário no Youtube e apagar a minha vela.

Poupei algumas fatias de bolo e devorei o resto sem vergonha, era o meu aniversário, e sem muito barulho celebrei mais um ano de vida, uma vida triste e vazia.

Lembro- me de me olhar ao espelho antes de ir dormir, e de fazer a mesma cara de nojo que a rapariga tinha há uns momentos atrás. Olhei para a mancha de vómito na minha camisa, e senti o mesmo nojo. Mas depois olhei para a mancha de sangue nas minhas calças. Levantei- o esperando encontrar uma ferida bastante desagradável para o justificar, mas não havia nada. O sangue não era meu.

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