- Escreva!
- Sim, meu dono. - Respondo com a voz baixa, a cabeça inclinada, os olhos fixos no chão de batida. Aprendi cedo que encará-lo só traz mais dor. O meu padrasto odeia ser olhado nos olhos - como se enxergar sua própria podridão o queimasse por dentro. Eu, por outro lado, agradeço por não ver sua cara repulsiva. Seu cheiro é suficiente para me fazer querer vomitar. Se eu tivesse a chance, o mataria sem hesitar, como quem mata um inseto.
- Espero que suas tarefas estejam sendo feitas dentro do prazo que lhe dei. - Sua voz é fria, sem vi terra da, como se cuspisse veneno a cada sílaba.
Ele nunca está satisfeito. Nunca. Nunca sorri, nunca me dirige um olhar que não seja de desprezo. Eu, na verdade, nem desejo ser notada. A invisibilidade é meu último refúgio.
- Sempre faço no prazo, meu dono. Não gosto de decepcionar o sen... - Não termino a frase. Sua mão cruel estala contra meu rosto, arrancando-me qualquer tentativa de dignidade. A dor arde, mas não é nova. Já não me assusto. Aprendi a fugir em pensamento. Fecho os olhos e me vejo sob um céu azul, onde nuvens se transformam em algodão doce. Eu quase consigo sentir o gosto do açúcar derretendo nos lábios rachados. É assim que sobrevivo: sonhando em meio à tortura.
Enquanto ele me violenta mais uma vez - sem remorso, sem piedade - eu me desligo. Não há carinho, nem palavras. Só brutalidade. Como se eu fosse culpada de algo. Como se ele precisasse de um motivo para me destruir. Mas ele não precisa. Basta a existência dele, doente e amaldiçoada.
Lutei. Lutei por anos, até onde consegui. E mesmo quando não havia forças, continuei lutando dentro de mim. Mas chegou o dia em que o inferno ultrapassou os limites. Aquela cena... aquela cena maldita... ela não sai da minha cabeça. Ainda assim, me agarro à coragem da rainha Ester - minha inspiração. Ela enfrentou a morte pelo seu povo. Eu enfrento um carrasco, dia após dia, ano após ano. Um monstro capaz de esmagar, matar, dilacerar... quantas vezes for preciso.
Será que existe esperança além da mata espessa? Além dos lagos escuros que nos cercam? Eu não sei. Nunca ultrapassei essas fronteiras. Nunca vi o mundo além dessas árvores.
Vivemos numa casa velha, úmida, cercada por mato por todos os lados. Só o terreno à nossa volta é limpo - e ainda assim, sob os gritos do meu padrasto que obriga meus irmãos, ainda crianças, a domar a natureza com suas pequenas mãos. Ele cuida dos plantios, diz que é para nossa alimentação, mas mal temos o que comer.
Ele escolheu viver isolado. E nos arrastou para esse exílio forçado. As correntes em meus tornozelos são frias, cortam minha pele até o osso. O vento que entra pelas janelas é a única coisa que me lembra que existe um mundo lá fora. Um mundo que talvez seja livre. Um mundo que talvez eu nunca conheça.
- Coma tudo. - Digo a Kauã, meu irmão mais velho por minutos. Ele e Lucas são gêmeos. Têm olhos cor de caramelo como os de mamãe. São tudo o que tenho de belo neste mundo.
- Amanhã vamos à cidade buscar adubo. Os plantios estão morrendo, a terra está ruim... e o demônio está possesso. - Kauã fala baixo, como se nossas palavras pudessem despertar a fúria de quem mora no cômodo ao lado.
Mesmo tão novos, eles já entendem que o que vivemos não é vida. São prisioneiros. Somos todos. Mas eles ainda têm uma chance. E eu me agarro a isso com cada pedaço que me resta de alma.
- Kauã, assim que ele se distrair, corra. Vá pedir ajuda. Vocês precisam fugir, o mais longe possível. E só voltem quando souberem que podem me resgatar. - Minha voz treme. Não de medo. De esperança.
Tentamos fugir tantas vezes. Perdi a conta. Às vezes ele os pegava. Outras vezes, era eu. E agora, acorrentada há mais de oito anos, mal consigo andar. Meus tornozelos são feridas abertas. Minha pele branca exibe com horror cada marca do tempo, cada hematoma, cada rachadura na carne.
- Iremos conseguir, irmã. Eu prometo. - diz Kauã, com lágrimas contidas. Ele sempre foi o mais sensível, enquanto Lucas, com seus doze anos, é puro cálculo. Foi ele quem, aos sete anos, enfrentou nosso padrasto com os punhos. Inseparáveis, os dois são minha maior fonte de esperança.
Nos primeiros anos, eu ficava por eles. Hoje, são eles que não fogem por mim.
A cidade para onde vão com meu padrasto é nosso único elo com o mundo. Lá, todos acham que meus irmãos são órfãos acolhidos por um bom samaritano chamado Geraldo. Mas ninguém sabe de mim. Ninguém sabe que existe uma garota presa entre as paredes da casa no fim do mundo. Literalmente.
Mamãe e papai construíram essa casa sozinhos, fugindo de famílias que rejeitavam seu amor. Aqui viveram por quase trinta anos, até que uma doença levou meu pai e, pouco depois, a chegada do monstro selou nosso destino.
Eu tinha dez anos quando vi minha mãe ser assassinada. A cena se repete nos meus sonhos e pesadelos - porque hoje em dia, tudo se mistura. Nunca soube quando Geraldo se infiltrou em nossas vidas. Mamãe vendia receitas caseiras na cidade, bolos e pães deliciosos. Se fecho os olhos, quase sinto o cheiro, o gosto da margarina derretendo...
Mas mamãe se foi há dez anos. E eu fui com ela.
Hoje sou um corpo sem identidade, sem direito, sem voz. Vivo pelos meus irmãos. Sonho com a liberdade deles. A minha? Já não conto com ela. Sei que, assim que fugirem, a ira do carrasco cairá sobre mim com força dobrada. E mesmo assim... eu suportarei.
Porque a certeza de que eles estarão livres... é o que me faz aguentar até o último segundo do meu destino.
Termino de abotoar as mangas da minha camisa social - uma das cinco reuniões do dia está prestes a começar, ou talvez terminar. Nem sei mais. Com a queda repentina das ações da Adidas, meus acionistas têm se debatido feito peixes for a d'água, tentando recuperar o prejuízo através de outras oportunidades de investimento. Para mim, a perda foi mínima, um arranhão na superfície de um império. Mas não é sobre perder pouco - é sobre não perder nada. No jogo financeiro, quem hesita, afunda. E eu? Eu nasci para nadar contra a corrente.
Igor, meu braço direito e vice-presidente da corretora que fundei há onze anos, vai ter uma semana longa. Longa e intensa. Eu confio nele, mas a ausência de um general sempre exige mais dos tenentes. Aos 35 anos, com o patrimônio que construí, não posso mais errar. Esta viagem ao Mato Grosso não é um capricho de milionário entediado - é uma estratégia traçada há sete meses. Tenho terras lá, muitas. Oportunidades ainda adormecidas sob a poeira vermelha do centro-oeste. Pode ser gado. Pode ser extração. Pode ser energia. Desde que renda. Desde que produza.
Nasci em São Paulo, filho de dois médicos - exemplos de virtude e dedicação. Mas não herdei essa vocação. Não quis vidas salvas, quis cifras, quis poder. Aos dezenove, alcancei meu primeiro milhão. Aos trinta, já flertava com os trilhões. A análise fria de gráficos e probabilidades virou minha religião. Hoje, ensino os melhores do mundo a multiplicar o que têm. Mas, por trás dos ternos caros, dos números brilhantes e da imagem de gênio inabalável... existe o caos. Os demônios. Os pecados. Alguns, imperdoáveis. Outros, deliciosamente irresistíveis.
- Pretende voltar que dia? - pergunta Breno, meu primo e assessor, enquanto ajeita suas malas com precisão quase militar.
- Depende do que vou encontrar. Carlos disse que há uma família vivendo naquelas terras. A mãe morreu. Quero entender o cenário com meus próprios olhos. - Carlos é homem de confiança do meu pai, trabalha nas redondezas há anos. Quando compramos aquela região, o preço era irrisório, ninguém via valor ali. Agora, o mundo mudou - e eu também. Se há vida naquele fim de mundo, ela vai trabalhar para mim. Ou sair do caminho.
- São caipiras. Não vão nos dar trabalho. - Breno comenta com um meio sorriso. Ele pensa como eu. Age como eu. Por isso confio tanto nele. Também é meu advogado, e redige meus contratos - inclusive os mais íntimos. Como os das submissas.
- Letícia já está pronta? - pergunto, impaciente. Mesmo em viagens de negócios, não abro mão dos meus prazeres. Eu trabalho duro. Eu domino mais ainda.
- Claro. Está no jatinho desde as nove. Doida pra agradar. - responde ele, com aquele tom cínico que conheço tão bem.
Letícia é minha atual submissa. Está comigo há pouco mais de cinco meses. As relações com elas duram, no máximo, seis. Tudo é regido por contrato, cláusulas transparentes, acordos consensuais. Domínio e entrega. Limites bem definidos. Eu não pratico sadismo extremo, não gosto de ver dor real. Mas sou dominador. E gosto de ter o controle. Gosto do silêncio da submissão. Do olhar que implora. Do corpo nu que se curva, entregue, só meu.
O voo até minha mansão no Mato Grosso leva duas horas. Depois, mais duas até Rondonópolis, e dali, quase uma hora para chegar em Pedra Preta. Pequena. Simples. 80 mil habitantes vivendo em um lugar que o tempo quase esqueceu. Casas velhas dividem espaço com novas construções. O centro é composto por comércios modestos. Não é bonito, mas é funcional. E é daqui que vai sair o próximo capítulo do meu império.
Check-in feito em uma pousada sem luxo, mas com uma senhora cordial chamada Carolina. Ela é daquelas que sabem mais do que dizem, e me observa como quem já adivinha que não pertenço àquele lugar. Levo Letícia para explorar a cidade - não tem muito a oferecer, mas o calor é abrasador e o museu local serve como distração por alguns minutos.
Quando voltamos, já é fim de tarde. No quarto abafado, saio do banho e encontro minha submissa como eu gosto: ajoelhada, nua, oferecendo-se com a respiração acelerada. As pernas abertas. A pele trêmula de expectativa.
Minha toalha cai ao chão. Ela sorri, os olhos baixos. Obediente. Pronta.
- Desce. - ordeno, a voz baixa, grave. Letícia entende. Sempre entende. Ela rasteja até mim, seus lábios prontos para me servir. Fecho os olhos por um instante e, pela primeira vez em dias, silencio os pensamentos. Amanhã, bem cedo, vamos às terras. Hoje... hoje é noite de prazer.
Sento-me na soleira da porta como quem repousa no colo de uma velha amiga. É a única que me resta. A madeira gasta, áspera e quente do sol da tarde, me oferece o silêncio que tanto preciso. Meus irmãos e o homem que se intitula nosso guardião seguiram para a cidade vizinha. Uma vez por mês, esse ritual se repete: eles partem para buscar mantimentos, e eu fico - sempre fico.
A cada partida, acende-se em mim uma fagulha secreta: talvez dessa vez meus irmãos fujam. Talvez escapem da prisão disfarçada de lar. Mas a esperança já me parece um vestido velho, puído demais para vestir de novo. Nem mesmo quando buscamos ajuda das autoridades, conseguimos qualquer mudança. Eles sabiam. Todos sabiam. E escolheram ignorar. A verdade é simples e suja: os bolsos deles estavam cheios do meu silêncio comprado, do meu corpo corrompido e esmagado por mãos que deveriam ter me protegido.
Me levanto devagar, como quem carrega o peso de cem anos, e deixo a porta para trás. O vento, morno e rarefeito, sopra contra a minha pele como um sussurro de consolo. Agradeço pelas árvores que rodeiam nossa casa, únicas testemunhas silenciosas do inferno que vivemos. Sem energia elétrica, são elas que nos protegem do calor e dos mosquitos que, famintos, rasgam a pele durante as noites abafadas.
Na cozinha - se é que posso chamar este espaço apertado e de paredes mofadas assim - ajeito uma tigela de legumes que consegui juntar. O gerador a diesel ainda consegue manter a geladeira funcionando, embora ela mal resfrie o que quer que seja. O frango descongela sobre o peitoril da janela, exposto ao sol ardente. Preciso estar com o jantar pronto antes que eles retornem, mesmo sabendo que o fogão a lenha pode não colaborar.
Coloco água para o arroz - meia xícara para cada um de nós, e duas para ele. Ele sempre come mais. Sempre exige mais. E nós, com olhos famintos e estômagos vazios, aprendemos a engolir a fome junto com a raiva. Hoje, por causa da viagem, tivemos uma refeição extra, um almoço mísero. Um luxo.
Enquanto mexo no arroz, meus olhos se perdem na plantação de couve. Folhas verdes, vibrantes, cheias de vida. Foi ali, entre essas folhas, que mamãe me ensinou a plantar, a colher, a cuidar. Sinto uma pontada aguda no peito. Uma saudade feroz. Ela costumava me acariciar os cabelos durante a noite. Sua presença era um porto seguro depois que papai morreu. Mas o destino foi cruel. E quando ela partiu - assassinada pelo próprio homem que hoje nos escraviza - tudo perdeu o sentido.
A casa tem chão batido, e é sobre esse chão que esfrego uma velha vassoura, mesmo sabendo que nunca ficará limpo. Já arrastaram meu rosto aqui tantas vezes, como castigo por minha "rebeldia", que o chão parece me conhecer melhor do que eu mesma. As lágrimas descem pesadas, sem pudor, pois agora estou sozinha. É o único momento em que permito que a dor transborde. A Esther forte, destemida, morreu junto com minha mãe. O que restou vive apenas pelos irmãos. Por eles, eu continuo. Por eles, respiro. Sonho que um dia, talvez, não voltem. Que consigam escapar. E quando isso acontecer... o meu fim será bem-vindo.
Termino a limpeza e me arrasto até o pequeno banheiro, o único lugar onde as correntes que me prendem me permitem entrar. É precário, com um esgoto improvisado, sem dignidade alguma. Tomo banho rápido, porque não quero que meus irmãos tenham que buscar mais água do que já o fazem. Quando volto, visto meu velho vestido, outrora rosa. Hoje, ele é uma mistura de cinza e tempo. Já faz anos que não cresço. Não porque meu corpo tenha parado, mas porque a vida estagnou em mim.
Olho-me no espelho rachado. A mulher que vejo não é mais uma menina. Tenho 22 anos, mas me sinto milênios mais velha. Não terminei o ensino fundamental, nunca conheci o mundo além dessa cerca enferrujada. Eu deveria estar estudando, dançando em alguma festa, vivendo um primeiro amor. Mas aqui estou, com a alma ferida e o corpo violado mais vezes do que consigo contar.
Já perdi a conta de quantas vezes morri em vida.
Ligo o rádio. Nosso velho rádio a pilha, herdado de papai. É o único som que me traz consolo. O único objeto que o monstro ainda não destruiu. Que assim permaneça. Enquanto a música toca, termino de lavar nossas roupas na pia da cozinha. Meus braços estão marcados pelas correntes, acostumadas a me prender e limitar. Foi o castigo que recebi por desafiá-lo. E, se voltasse no tempo, desafiaria de novo. E de novo. Porque cada palavra que gritei foi para proteger meus irmãos.
Mas a verdade é que há muito não há mais resistência. Cada vez que ele me viola, cada vez que seus olhos doentes percorrem meu corpo, sinto que partes de mim morrem. Meus sonhos evaporaram. Meus desejos desapareceram. A Esther que acreditava em liberdade virou poeira junto ao sangue derramado nesse chão.
Mas mesmo sendo prisioneira, ainda carrego uma fé silenciosa.
Talvez eu não me salve. Talvez meu destino seja apodrecer nesta casa de madeira e sofrimento. Mas meus irmãos... meus irmãos vão viver. Eles serão livres. Serão homens de bem, fortes e corajosos. Sobreviventes. E se isso for tudo o que eu conseguir dar ao mundo, então minha dor terá servido para algo.
O som suave do rádio preenche a casa vazia, embalando minha solidão. E eu continuo. Por eles. Sempre por eles.