"Que comece o jogo, irmão," ela sussurrou para a estrada vazia.
As palavras foram apenas uma nuvem de vapor no vento cortante, uma promessa feita às lanternas traseiras que acabavam de abandoná-la. Um momento atrás, ela estava dentro daquela bolha de calor e couro. Agora, estava do lado de fora.
A história de como ela chegou ali começou com um som.
Os portões pesados de ferro do Campo de Correção Selvagem rangeram ao se abrir. Era um som que lembrava um animal morrendo, metal gritando contra metal enferrujado.
Alvorada não piscou.
Ela permaneceu do outro lado do perímetro, o vento jogando areia e terra contra suas bochechas. Sua pele parecia apertada demais para o rosto. Seus olhos estavam secos. Parecia que não piscava há horas.
O diretor, um homem que atendia pela alcunha de Ferrolho e tinha um pescoço grosso como um toco de árvore, jogou um saco plástico transparente na terra, aos pés dela.
"Boa sorte, 402," ele grunhiu.
Ele não usou o nome dela. Ela não ouvia seu nome ser dito com nada além de desprezo há três anos.
Alvorada encarou o saco. Dentro havia uma escova de dentes, um pente barato e um pequeno caderno de couro. Não era algo que ela tivesse roubado; era algo que ela havia conquistado o direito de manter através de pura e teimosa sobrevivência, um segredo que ela contrabandeava costurando-o no forro fino de seu moletom todas as manhãs por um mês.
Era a vida dela. Era tudo o que possuía.
Ela se abaixou. Sua coluna estalou audivelmente. Seus movimentos eram rígidos, calculados, como uma máquina que não via óleo há muito tempo. Ela agarrou o saco antes que o vento o levasse.
Um Lincoln Navigator preto e alongado apareceu no horizonte, cortando as nuvens de poeira. Parecia um carro funerário.
Parou exatamente a três metros de distância.
O motorista saiu. Usava luvas brancas. Abriu a porta traseira, seus olhos disparando para o rosto dela por uma fração de segundo antes de desviar o olhar. Havia pena ali. Alvorada odiava a pena mais do que odiava o Ferrolho.
Ela caminhou em direção ao carro. Cada passo era uma negociação com seu corpo. Pé esquerdo, firmar. Pé direito, arrastar levemente. Não mancar. Não mostre a eles que você está quebrada.
Ela deslizou para o banco traseiro. A porta bateu, selando-a em um vácuo de silêncio e couro caro.
Corisco estava lá.
Seu irmão usava um terno azul-marinho que provavelmente custava mais do que todo o orçamento anual do campo. Ele digitava no celular, a testa franzida em aborrecimento. Ele não olhou para cima por um minuto inteiro.
O ar no carro cheirava a sândalo e ar-condicionado. Fez o estômago de Alvorada revirar. Ela estava acostumada com o cheiro de água sanitária e corpos sujos.
Corisco finalmente olhou para cima. Seus olhos a percorreram.
Ela usava a calça de moletom cinza e o casaco enorme que o campo lhe dera na saída. Estavam manchados e cheiravam a mofo de depósito.
O nariz de Corisco se enrugou. Ele tirou um lenço de seda do bolso e pressionou contra o rosto.
"Três anos," ele disse, a voz abafada pela seda. "Achei que você teria aprendido alguma higiene. Pelo menos tomado um banho."
Alvorada olhou para frente. Seus olhos estavam desfocados, olhando para a divisória entre eles e o motorista. Ela não disse nada.
O silêncio foi a primeira arma que ela forjou no escuro.
Corisco fechou sua pasta de couro com força. O som foi agudo na cabine silenciosa. "O gato comeu sua língua? Mamãe e Papai estão esperando um pedido de desculpas."
Alvorada virou a cabeça lentamente. Os músculos do pescoço pareciam cabos de aço. Seus olhos eram vazios.
"Um pedido de desculpas?" A voz dela era rouca, sem uso. "Pelo quê?"
Corisco piscou. Ele parecia genuinamente surpreso, então sua expressão endureceu em um escárnio. "Por quase arruinar a Pluma. Pelas drogas. Por ser um pesadelo de relações públicas."
Alvorada sentiu uma sensação fantasma no braço, a memória de uma agulha que ela não havia pedido. Ela viu o rosto de Pluma, manchado de lágrimas e perfeito, mentindo para a polícia.
Um sorriso pequeno, quase invisível, tocou o canto da boca de Alvorada.
"Então vocês definitivamente deveriam celebrar meu retorno," ela sussurrou. "Tenho tanto para contar a eles."
O rosto de Corisco ficou de um tom de vermelho que contrastava com sua gravata. Ele interpretou a falta de vida dela como arrogância. Ele odiava não ser a pessoa mais esperta da sala.
Ele apertou o botão do interfone.
"Pare o carro," ele ladrou.
Os freios foram acionados com força. O corpo de Alvorada voou para frente. Seu peito bateu nas costas do banco dianteiro.
Ela soltou um som pequeno e agudo quando o impacto atingiu suas costelas inferiores. Havia um hematoma profundo e agonizante ali, sobreposto a costelas que haviam trincado meses atrás e nunca se curaram direito. A dor se espalhou, branca e quente.
Corisco apontou para a porta.
"Se você vai ser uma vadia, pode ir a pé," ele disse. "Talvez a chuva lave esse fedor de você. Pense na sua atitude antes de pisar na minha casa."
Alvorada olhou pela janela. O céu estava roxo e preto, como um hematoma. Uma tempestade estava chegando. Eles estavam a quilômetros da propriedade, em um trecho solitário de estrada cercado por nada além de mato.
Ela não implorou. Ela não chorou.
Ela nem hesitou.
Alvorada alcançou a maçaneta. Empurrou a porta. O vento uivou, invadindo a cabine higienizada como um intruso físico.
Corisco parecia atordoado. Ele esperava que ela agarrasse seu braço, que implorasse, que fosse a bagunça dramática e emocional que costumava ser.
Alvorada saiu. Seus tênis tocaram o cascalho.
Ela bateu a porta. Bang.
O Lincoln não esperou. O motorista já estava voltando para o banco, a porta batendo um segundo antes do motor rugir. O carro arrancou, pneus cantando, levantando uma nuvem de poeira que cobriu a língua dela. Alvorada ficou na beira da estrada, apertando seu saco plástico contra o peito.
Ela assistiu as luzes traseiras desaparecerem na escuridão.
O céu se partiu.
Não houve aviso, nem garoa suave. Um raio rasgou as nuvens, iluminando a estrada deserta em um flash de luz branca e dura. O trovão seguiu um segundo depois, sacudindo o chão sob as solas finas de Alvorada.
Então a água veio.
Caiu em lençóis, pesada e fria. Em segundos, o moletom cinza de Alvorada estava encharcado, colado à sua estrutura esquelética como uma segunda pele. O frio não estava apenas na superfície; infiltrava-se em seus ossos, acordando cada velha lesão que ela colecionara nos últimos três anos.
Suas costelas machucadas latejavam. Seu ombro esquerdo doía.
Ela começou a andar. Manteve a cabeça baixa, apertando o saco plástico contra o estômago para manter o caderno seco. Aquele caderno era a única prova que ela tinha de que não estava louca.
Um caminhão passou rugindo, espirrando uma onda de lama marrom sobre as pernas dela. Alvorada se encolheu, pisando de lado no acostamento macio da estrada.
A lama estava mais escorregadia que gelo.
Seu pé esquerdo deslizou. Foi direto para uma vala de drenagem escondida pelo mato alto.
Crack.
O som foi nauseante, alto até mesmo sobre a chuva.
Alvorada desabou na lama. Ela não gritou. Gritar no campo atraía os guardas, e os guardas traziam dor. Em vez disso, ela mordeu o lábio até sentir o gosto de cobre. Sua respiração falhou em suspiros curtos e irregulares.
Ela olhou para baixo. Seu tornozelo já estava inchando, empurrando contra o tecido de seu tênis barato.
"Levante-se," ela ordenou a si mesma. Sua voz se perdeu no vento. "Levante-se, 402."
Ela tentou colocar peso nele. Manchas brancas dançaram em sua visão. Ela caiu de volta, a lama fria infiltrando-se em suas calças.
Feixes duplos de luz cortaram a escuridão atrás dela. Faróis de xenônio. Brilhantes. Caros.
Os feixes poderosos varreram a estrada, capturando o rosto dela por um momento único e brutal quando ela olhou para cima. Que seja um estranho, ela rezou. Que não seja o Corisco voltando para rir.
O carro diminuiu a velocidade. O ronco do motor era baixo, poderoso. Não era o SUV.
Ela apertou os olhos através da chuva. Era um Rolls-Royce Phantom prata. Ela conhecia aquele carro. Ela conhecia a placa: AM-I.
Seu coração martelou contra as costelas machucadas.
Afonso Carvalho.
A janela traseira desceu até a metade. Um rosto apareceu. Era nítido, angular, esculpido em mármore e tão frio quanto. Afonso olhou para a pilha trêmula de trapos na beira da estrada.
Alvorada limpou a lama da bochecha, tentando se esconder. Ela se sentia pequena. Sentia-se imunda.
"Entre," disse Afonso. Sua voz carregava sem esforço sobre a tempestade. Não era uma oferta; era uma ordem.
Alvorada balançou a cabeça. Ela não aceitaria a caridade dele. Não depois que ele ficou parado e assistiu eles a levarem embora três anos atrás.
Afonso franziu a testa. Ele parecia aborrecido, como se ela fosse um erro de agendamento no dia dele. "Não me faça mandar a segurança aí fora para te arrastar. Você sabe que eu vou."
Ele faria. Afonso nunca fazia ameaças vazias. Ele era um homem de negócios implacável; lidava com absolutos.
Alvorada pesou suas opções. Hipotermia ou humilhação.
Ela escolheu a sobrevivência.
Ela se impulsionou para cima, equilibrando-se na perna boa. Pulou em direção ao carro, rangendo os dentes contra a náusea que subia em sua garganta.
O motorista já estava fora, segurando um grande guarda-chuva preto. Ele estendeu a mão para o braço dela.
Alvorada recuou. Ela puxou o corpo para longe da mão dele, quase caindo no processo. "Não me toque," ela sibilou.
O motorista congelou.
Ela mesma agarrou a maçaneta e se puxou para o banco traseiro.
O calor a atingiu como um golpe físico. Era sufocante. Ela sentou na ponta do banco de couro cor creme, tentando evitar que suas roupas enlameadas tocassem em qualquer coisa. Água pingava de seu cabelo no tapete felpudo.
Ela se pressionou contra a porta, o mais longe possível de Afonso.
Afonso não se moveu. Ele estava sentado perfeitamente imóvel, as pernas cruzadas, um tablet no colo. Ele olhou para o tornozelo dela. Estava latejando, o inchaço visível até através do tênis.
Seus olhos cinzentos subiram para o rosto dela. Ele olhou para as covas de suas bochechas, as olheiras escuras sob seus olhos.
"Corisco?" ele perguntou. Uma palavra. Nenhuma emoção.
Alvorada olhou pela janela para a chuva borrada. Ela não respondeu. Apenas segurou seu saco plástico com mais força.
O silêncio no carro era mais pesado do que a tempestade lá fora. O único som era o ritmo dos limpadores de para-brisa e o zumbido dos pneus no asfalto molhado.
Afonso alcançou o pequeno console refrigerado entre os assentos. Tirou uma garrafa de água Evian.
Ele a estendeu para ela.
Alvorada encarou a garrafa. Sua garganta parecia forrada com lixa. Ela estava desidratada, tonta. Mas pegar aquilo parecia aceitar suborno.
"Pegue," disse Afonso.
Ela não se moveu.
Ele suspirou, uma expiração aguda pelo nariz. Inclinou-se e empurrou a garrafa na mão dela. As pontas dos dedos dele roçaram as costas da mão dela.
Alvorada se encolheu violentamente. Foi um espasmo de corpo inteiro, como se ele a tivesse queimado com um cigarro. A mão dela tremeu, e a garrafa de vidro pesado escorregou de seu aperto, caindo com um baque no tapete.
Afonso congelou. Ele puxou a mão de volta lentamente, os olhos se estreitando.
"Você tem medo de mim," ele declarou. Não era uma pergunta.
Alvorada correu para pegar a garrafa. Suas mãos tremiam. "Não. Minhas mãos estão apenas... frias. Escorregadias."
Ela quebrou o lacre e tomou um gole. Queria virar tudo de uma vez, mas forçou-se a dar goles pequenos e medidos. Não mostre fome. Não mostre sede. Não mostre necessidade.
Afonso a observava. Ele se lembrava de uma garota que falava pelos cotovelos, que costumava se pendurar no braço dele e implorar por atenção. Essa mulher era um fantasma.
"Eles te soltaram mais cedo," observou Afonso, o tom neutro, sondador. "Qual foi a razão oficial?"
Alvorada apertou a garrafa até os nós dos dedos ficarem brancos. Ela não olhou para ele, o olhar fixo na água balançando lá dentro. Deu um balanço de cabeça minúsculo, quase imperceptível. "Não sei," ela murmurou, as palavras quase inaudíveis.
A palavra pairou no ar. Não era uma mentira, nem uma resposta sarcástica. Era um vazio. Uma ausência de informação que ela se recusava, ou não podia, fornecer.
Afonso notou algo no pulso dela. A manga tinha subido um pouco quando ela bebeu. Havia uma marca ali. Um hematoma roxo escuro que circulava o osso. Uma marca de restrição.
Ele se inclinou ligeiramente para frente. "Deixe-me ver seu braço."
Alvorada puxou a manga para baixo, enterrando a mão no tecido. "A Pluma provavelmente está esperando por você. Você não deveria ser visto com a presidiária. É ruim para o preço das ações."
Afonso sentiu um flash de irritação. Ela estava desviando. E ela estava certa, mas ele odiava que ela estivesse certa.
"Você está muito atenciosa de repente," ele disse, a voz pingando sarcasmo.
Alvorada encostou a cabeça no banco e fechou os olhos. "Estou apenas cansada, Afonso. Deixe isso para lá."
O carro começou a diminuir a velocidade. Eles estavam entrando na Propriedade da Família.
Os portões de ferro - mais ornamentados que os do campo, mas ainda assim portões - se abriram. A casa principal surgiu à frente, um monstro de tijolos e vidro, resplandecendo com luzes. Parecia a boca de uma besta esperando para engoli-la inteira.
O Rolls-Royce deslizou até parar sob o pórtico.
Alvorada abriu os olhos. Através do vidro riscado de chuva, ela os viu.
Sua mãe. Seu pai. Pluma.
Eles estavam parados na varanda, emoldurados pelo brilho quente da entrada. Um retrato de família perfeito.
O motorista abriu a porta de Alvorada. O ar frio correu para dentro.
Alvorada respirou fundo. Hora do show.
Ela jogou as pernas para fora. Assim que seu pé ferido tocou o pavimento, o joelho cedeu. A dor foi cegante. Ela caiu para frente.
Afonso estava lá. Ele havia saído do lado dele e dado a volta mais rápido do que ela esperava. Ele a pegou pelo cotovelo, o aperto firme.
"Eu te peguei," ele murmurou.
Alvorada reagiu por instinto. Ela o empurrou para longe, com força. "Me solta!"
O grito ecoou sob o arco de pedra.
Afonso tropeçou um passo para trás, as mãos levantadas em rendição. Sua expressão escureceu.
Alvorada ficou em uma perna só, tremendo, segurando seu saco plástico. Ela olhou para ele, os olhos arregalados com um tipo de pânico selvagem. Então ela percebeu onde estava. Percebeu quem estava assistindo.
Ela endireitou a coluna.
"Eu consigo andar," ela disse, a voz caindo para um sussurro. "Não preciso da sua ajuda."
Ela se virou e mancou em direção à porta da frente, arrastando o pé inchado. Afonso ficou na chuva, olhando para as costas dela. Ele puxou o celular do bolso.
Digitou uma mensagem para seu chefe de segurança: Consiga o arquivo dela do campo. O verdadeiro. Hoje à noite.