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As Cinzas da Minha Mãe, Minha Fúria Desencadeada

As Cinzas da Minha Mãe, Minha Fúria Desencadeada

Autor:: Weeble
Gênero: Romance
Meu marido, Caio, me forçou a assisti-lo com sua amante, Jéssica, chamando isso de minha "educação" sobre como ser uma mulher. Essa foi a minha realidade por meses, até mesmo no nosso aniversário de casamento. Ele se recusou a pagar pelo tratamento que salvaria a vida da minha mãe, causando sua morte. Depois, ele deixou Jéssica me espancar com tanta violência que eu perdi o bebê que nem sabia que estava esperando, me deixando incapaz de ter filhos para sempre. Como se não bastasse, Jéssica quebrou a urna da minha mãe na minha frente e deu suas cinzas para um cachorro comer, tudo isso enquanto Caio assistia. As últimas palavras da minha mãe foram: "Pare de implorar a ele." Ela me deixou um número de telefone do meu tio distante, um homem poderoso que eu mal conhecia. Quando liguei para ele, ele enviou um jatinho para me levar para São Paulo. Agora, estou de volta. Não como a esposa destruída que ele descartou, mas como a nova CEO de sua empresa em colapso, pronta para tirar tudo dele.

Capítulo 1

Meu marido, Caio, me forçou a assisti-lo com sua amante, Jéssica, chamando isso de minha "educação" sobre como ser uma mulher. Essa foi a minha realidade por meses, até mesmo no nosso aniversário de casamento.

Ele se recusou a pagar pelo tratamento que salvaria a vida da minha mãe, causando sua morte. Depois, ele deixou Jéssica me espancar com tanta violência que eu perdi o bebê que nem sabia que estava esperando, me deixando incapaz de ter filhos para sempre.

Como se não bastasse, Jéssica quebrou a urna da minha mãe na minha frente e deu suas cinzas para um cachorro comer, tudo isso enquanto Caio assistia.

As últimas palavras da minha mãe foram: "Pare de implorar a ele."

Ela me deixou um número de telefone do meu tio distante, um homem poderoso que eu mal conhecia.

Quando liguei para ele, ele enviou um jatinho para me levar para São Paulo.

Agora, estou de volta. Não como a esposa destruída que ele descartou, mas como a nova CEO de sua empresa em colapso, pronta para tirar tudo dele.

Capítulo 1

Perspectiva de Calista

Meu estômago se revirou, um nó frio e familiar se formando enquanto a voz de Caio, carregada de desprezo, atravessava as paredes finas do quarto de hotel.

"Você é simplesmente... insatisfatória, Calista."

Ele nem se deu ao trabalho de amenizar o golpe. Não mais. Apertei o roupão de seda ao meu redor, o tecido fazendo pouco para afastar o frio que se instalara no fundo dos meus ossos.

Do outro lado do quarto, Jéssica deu uma risadinha, um som brilhante e triunfante que me cortou por dentro. Seus dedos finos, adornados com um anel que reconheci como meu - um presente de Caio no nosso primeiro aniversário - traçavam padrões em seu peito. Ele estava sem camisa, casual, completamente à vontade em sua infidelidade.

"Ela sempre foi, não é?" Jéssica ronronou, seus olhos, escuros e brilhantes, encontraram os meus por cima do ombro nu de Caio. Um sorriso perverso brincava em seus lábios, um segredo compartilhado entre eles, uma arma contra mim.

Eu fiquei ali, forçada a assistir. Essa era a ideia distorcida de "educação" de Caio. Ele afirmava que eu precisava aprender a ser mulher, a agradar um homem. Jéssica, mal saída da adolescência, era supostamente minha tutora. Todo fim de semana, por meses, essa tinha sido a minha realidade. No fim de semana do nosso aniversário de casamento, nada menos. Que apropriado.

Jéssica se desenrolou de Caio, caminhando em minha direção com falsa preocupação.

"Você está bem, Calista? Você parece um pouco pálida."

Ela estendeu a mão, seus dedos cravando em meu braço. Uma dor aguda, depois uma sensação de queimação. Suas unhas eram longas, recém-feitas. Eu não vacilei, não lhe dei essa satisfação.

"Aqui." Enfiei a mão no bolso do roupão, tirando uma nota nítida de cem reais. Minha mão tremeu um pouco, mas só eu notaria. "Isso é pelo seu... tempo."

Jéssica arrancou o dinheiro, seus olhos se estreitando.

"Só isso? Pelo meu tempo? Caio me dá um duro danado, sabia?" Sua voz era um choramingo infantil, mas seus olhos continham um brilho predatório. Ela deu um tapa mais forte no meu braço, a dor agora irradiando até meu ombro.

"Jéssica!" A voz de Caio era ríspida, uma falsa repreensão. Ele estava vestindo seu pijama de seda caro, um sorriso presunçoso no rosto. "Seja legal."

Ela saltou de volta para ele, esfregando o pulso com um exagero teatral.

"Ela me beliscou! Ela está com tanto ciúme, Caio."

Ele a envolveu com um braço, beijando sua testa.

"Minha pobre bebê. Eu sei, ela simplesmente não entende nossa conexão especial." Ele olhou para mim então, seu olhar frio, desprovido de qualquer calor que um dia teve. "Viu, Calista? Algumas mulheres sabem como apreciar os esforços de um homem."

Ele tirou um maço grosso de notas da gaveta da mesa de cabeceira, colocando-as na mão de Jéssica.

"Vá em frente, querida. Compre algo bonito para você. Ignore-a."

O sorriso de Jéssica voltou, largo e vitorioso. Ela mandou um beijo para ele, depois lançou um olhar triunfante em minha direção antes de desaparecer no quarto ao lado. A porta se fechou com um clique, deixando Caio e eu em um silêncio denso de acusações não ditas.

"As contas médicas da sua mãe chegaram hoje," eu disse, minha voz plana, sem emoção. Eu me recusei a deixá-lo me ver desmoronar.

Caio suspirou, passando a mão por seu cabelo perfeitamente penteado.

"De novo? Essa mulher é um poço sem fundo. Quanto é desta vez?"

"É o tratamento experimental," expliquei, minha garganta se apertando. "Os médicos dizem que é a melhor chance dela. É muito, Caio. Mais do que esperávamos."

Ele zombou.

"Mais do que você esperava. Eu te disse, se ela não consegue se recuperar, ela não consegue. Por que desperdiçar bom dinheiro?" Ele fez uma pausa, depois acrescentou com um sorriso presunçoso: "Além disso, Jéssica não pede pagamento. Ela está aqui porque quer estar. Ela valoriza minha companhia, ao contrário de algumas pessoas."

Minhas mãos se fecharam ao meu lado. Valoriza sua companhia. As palavras pareceram um golpe físico.

"Eu vou resolver isso," eu disse, minha voz mal um sussurro.

"Bom. E não se esqueça que temos aquele baile de caridade na próxima semana. Tente parecer menos um fantasma, Calista. E talvez," ele se inclinou, sua voz baixando para um sussurro zombeteiro, "eu até te dê uma noite de núpcias de verdade. Sabe, pelos velhos tempos. Depois que Jéssica te ensinar uma coisa ou duas."

Eu apenas assenti, meus olhos fixos em um ponto na parede atrás dele. O dinheiro que ele dera a Jéssica pelo "tempo" dela queimava no meu bolso. Eu o usaria. Mas não para o que ele pensava.

Mais tarde, deitada na cama fria e vazia que um dia compartilhamos, a memória da voz fraca da minha mãe ecoou em meus ouvidos. O quarto do hospital era estéril, branco, cheirando a antisséptico e desespero. Eu tinha ligado para Caio, desesperada, implorando para que ele aprovasse os fundos para o tratamento dela.

"Caio, por favor," eu havia suplicado ao telefone, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "É vida ou morte. Só desta vez."

Tudo o que ouvi em resposta foi um gemido suave, depois a risadinha abafada de Jéssica, seguida pela risada baixa e possessiva de Caio. Ele sabia que eu estava ouvindo. Ele queria que eu ouvisse. Ele desligou sem dizer uma palavra.

Minha mãe, frágil e se apagando, havia entendido. Ela viu o desespero em meus olhos, a forma como meus ombros caíam, a súplica silenciosa que se tornara meu estado padrão.

"Pare de implorar a ele, Calista," ela sussurrou, sua voz rouca, quase inaudível. "Você merece mais do que isso."

Ela recusou mais tratamento naquele dia. Uma semana depois, ela se foi. Suas últimas palavras, gravadas em minha memória, um comando, uma libertação: "Pare de implorar a ele."

Deslizei a mão sob o travesseiro, puxando o pedaço de papel puído que ela havia colocado em minha mão pouco antes de fechar os olhos para sempre. Um nome. Um número. Bernardo Velasquez.

Meu tio distante. O irmão da minha mãe.

Meus dedos, ainda trêmulos, discaram o número. Três toques, depois uma voz grossa e profunda atendeu.

"Velasquez."

"Tio Bernardo," sussurrei, minha voz embargada por lágrimas não derramadas. "É a Calista."

Um instante de silêncio. Então, um rugido de pura, genuína alegria.

"Calista! Minha pequena sabiá! É você mesmo? Oh, minha querida, faz tanto tempo! Onde você esteve? Você está bem?"

Fechei os olhos, uma única lágrima escapando.

"Estou... bem, tio."

"Bem? Você não parece bem, criança," ele disse, sua voz suavizando instantaneamente, a preocupação substituindo a alegria ruidosa. "Me conte tudo. Não, não me conte pelo telefone. Vou mandar um jatinho. Você vem para São Paulo. Imediatamente."

"Eu..." comecei, mas ele me interrompeu.

"Sem discussões. Sua mãe teria querido isso. Minha irmã, ela... ela sempre soube que você estava destinada a mais do que aquele simplório com quem você se casou." Sua voz era baixa, carregada de uma raiva antiga que eu não entendia. "Apenas diga sim, Calista."

"Sim," eu respirei, a palavra uma promessa frágil.

"Bom. Você estará segura aqui. E nós vamos resolver tudo." Sua voz era um bálsamo, um eco distante de uma família que eu mal lembrava.

Desliguei, uma estranha mistura de medo e alívio me invadindo. A decisão estava tomada. Eu estava indo embora. Eu estava farta de implorar.

Uma mão quente de repente se fechou em minha cintura, me puxando para trás contra um peito duro. Caio. Seu cheiro, uma mistura de perfume caro e o perfume barato de outra pessoa, encheu minhas narinas.

"Quem era, querida?" Sua voz era suave, enganosamente gentil, mas o aperto em minha cintura se intensificou, uma ameaça silenciosa.

Eu enrijeci, meu olhar caindo em seu pescoço. Uma leve marca vermelha, um chupão, florescia logo abaixo de sua orelha. A marca de Jéssica. Sempre a marca de Jéssica.

"Apenas uma ligação de trabalho," menti, minha voz plana. "Sobre alguns investimentos antigos."

"Investimentos?" Ele riu, seu hálito quente contra minha orelha. "Você ainda se mete nessa bobagem de finanças? Pensei que você tivesse desistido disso por nós." Sua mão se moveu, traçando a curva do meu quadril. "Sabe, você tem estado quieta ultimamente. Nenhuma lágrima, nenhuma súplica. Você ainda está com raiva de... tudo?"

"Não," respondi, afastando-me sutilmente. "Apenas cansada."

"Cansada?" Ele me girou, seus olhos perfurando os meus. "Ou apenas chata? Eu venho te dizendo, Calista, você se tornou tão previsível. Tão completamente desinteressante na cama. Jéssica, ela tem uma faísca. Um fogo. Você costumava ter isso, uma vez." Ele zombou. "Ou talvez eu apenas imaginei."

Meu estômago se contraiu.

"Eu só não estou me sentindo bem," murmurei, tentando passar por ele. "É aquela época do mês."

Ele me observou, um lampejo de suspeita em seus olhos, mas então ele apenas deu de ombros.

"Tudo bem. Mulheres e seus humores." Ele se virou, indo para o banheiro. "Só não espere que eu fique esperando você superar isso."

Eu o observei ir, as palavras "Pare de implorar a ele" ecoando em meus ouvidos. Eu não estava mais implorando. Eu nem estava com raiva. Apenas... vazia. E determinada. Meu corpo parecia pesado, doendo com uma dor que não tinha nada a ver com menstruação, e tudo a ver com o espaço oco onde meu coração costumava estar. A noite parecia interminável, cada tique-taque do relógio me arrastando para um pesadelo do qual eu não conseguia escapar, ou assim eu pensava. Eu só precisava aguentar um pouco mais.

Capítulo 2

Perspectiva de Calista

A noite passou em um borrão de sono agitado, assombrada pelos sussurros fracos da minha mãe e pela risada cruel de Caio. Quando a manhã finalmente chegou, não ofereceu consolo. Meus olhos pareciam arenosos, minha cabeça pesada. Arrastei-me para fora da cama, o quarto do hotel parecendo mais frio do que nunca.

Caio já estava de pé, sentado perto da janela, absorto em seu celular. Ele rolava por algo, um leve sorriso brincando em seus lábios. Sua rotina matinal não havia mudado, mesmo com uma amante no quarto ao lado e uma esposa que ele desprezava no mesmo.

"O que você está olhando com tanto interesse?" perguntei, minha voz rouca. Eu não me importava, não de verdade. Apenas seguindo os movimentos.

Ele mal olhou para cima.

"Apenas umas compras online. Jéssica mencionou que precisava de uma bolsa nova."

Meu olhar caiu em sua tela. Uma bolsa de couro de edição limitada, algo que eu havia admirado online, até adicionado à minha própria lista de desejos alguns meses atrás. Ele usava minha conta, às vezes, quando estava com preguiça de fazer login na sua. Uma intimidade fraca, quase esquecida.

Uma pontada, fugaz e indesejada, me atravessou. Eu a reprimi. Aquela Calista, a que se importava com bolsas frívolas e o afeto passageiro de Caio, já se fora há muito tempo.

"Parece bonita," eu disse, minha voz plana.

Ele finalmente olhou para mim, um lampejo de irritação em seus olhos.

"Você acha? Jéssica é um pouco exigente, mas acho que ela vai gostar. É moderna, nova. Não como algumas das... peças clássicas que você prefere." Seu tom era desdenhoso, uma alfinetada sutil no meu gosto, em mim.

O papel de parede do seu celular piscou. Uma foto de Jéssica, fazendo beicinho de brincadeira, seu cabelo tingido de um chocante rosa-choque. Lembrei-me de quando ele costumava reclamar do meu gosto para arte, chamando-o de "muito vanguardista". Mas ele havia procurado meticulosamente por uma pintura de um pôr do sol rosa para Jéssica, algo brega e açucarado, só porque ela mencionou uma vez que gostava da cor. Ele até passou dias criando um cartão ridículo, coberto de glitter, para o último aniversário dela. Ele havia zombado do cachecol silencioso, costurado à mão, que eu fiz para ele no seu, anos atrás.

"Combina com ela," eu disse, minha voz vazia.

Ele assentiu, satisfeito. Ele se levantou, caminhou até mim e me deu um beijo superficial na bochecha. Seus lábios pareciam frios.

Nesse momento, seu celular tocou. Um toque brilhante e alegre. O toque de Jéssica. Ele atendeu imediatamente, seu rosto se suavizando, um calor genuíno irradiando dele que eu não via direcionado a mim há anos.

"Bom dia, anjo," ele murmurou, sua voz baixa e íntima. Ele se afastou, indo para a pequena varanda do hotel, de costas para mim. Suas palavras eram sussurradas, destinadas apenas a ela.

Entrei na cozinha, começando a fazer café. Ele gostava do seu preto, forte. Eu preferia chá, meu estômago incapaz de lidar com a amargura. Uma alergia antiga, com a qual ele costumava se preocupar, garantindo que eu sempre tivesse minha mistura de camomila preferida.

Ele voltou para dentro, franzindo a testa.

"Sem café? O que eu devo beber?"

"Eu não bebo café, Caio," lembrei-o, minha voz desprovida de paciência. "Você sabe disso. Meu estômago dói."

Ele olhou para mim como se eu tivesse acabado de falar em uma língua estrangeira.

"Ah. Certo." Um momento de silêncio, um lampejo de algo ilegível em seus olhos. Então ele deu de ombros. "Acho que vou pegar um lá embaixo."

Lembrei-me de uma época em que ele preparava meticulosamente café coado para mim, explicando suas notas delicadas, garantindo que esfriasse na temperatura perfeita. Ele até pesquisou minhas alergias, fazendo uma lista de alimentos a evitar, uma carranca preocupada sempre em seu rosto. Agora, eu era apenas um vago inconveniente. Era estranho como ele havia esquecido facilmente, e como eu havia me adaptado facilmente a ser esquecida.

Ele estava prestes a sair quando hesitou, virando-se para mim.

"Me desculpe, Calista. Eu... às vezes eu esqueço." Ele parecia quase sincero. Um momento raro e perturbador.

Mas antes que eu pudesse processar, seu celular tocou novamente. Jéssica. Ele olhou para a tela, depois de volta para mim, aquele lampejo de irritação retornando aos seus olhos. O momento se foi.

"Eu tenho que ir," ele disse, o pedido de desculpas já esquecido. "Jéssica precisa de mim." Com isso, ele saiu pela porta. O som de seus sapatos caros ecoou pelo corredor.

Terminei meu chá sozinha, olhando para a cidade cinzenta. A solidão não era mais uma dor aguda, apenas uma dor surda, uma companheira constante.

Uma mensagem de texto vibrou no meu celular. Caio.

"Saindo com a Jéssica. Não me espere."

Eu olhei para a tela. Ele não mandava uma mensagem de "não me espere" há anos. Não desde os primeiros meses do nosso casamento, antes que suas noites tardias se tornassem a norma, antes que minhas súplicas se transformassem em silêncio. A última vez que ele "reportou" ativamente seu paradeiro, acho, foi há três anos, antes de sua empresa realmente decolar. Uma vida atrás.

Eu não respondi. Não havia nada a dizer.

Mais tarde naquela tarde, saí do quarto do hotel, o cartão-chave pesado em minha mão. Recuperei as cinzas da minha mãe da funerária. Elas estavam em uma urna pequena e elegante, fria e lisa sob meus dedos. Uma onda de profunda dor me invadiu, um peso físico pressionando meu peito. Eu havia planejado levá-la para São Paulo comigo, para espalhar suas cinzas em um campo de flores silvestres, como ela sempre quis. Uma despedida silenciosa e pacífica.

Ao sair da funerária, a cidade explodiu em luz. Fogos de artifício. Uma explosão de cor contra o céu do crepúsculo. Uma celebração. Para quê?

Meu celular vibrou. Mídia social. Uma foto de Jéssica. Ela estava sorrindo, radiante, ao lado de Caio. Ele segurava um controle remoto, olhando para o céu. Acima deles, drones pintavam um coração gigante e brilhante no ar. Dentro do coração, o rosto de Jéssica, meticulosamente recriado por pequenas luzes.

A legenda dizia: "Surpresa de aniversário antecipada! Caio é o melhor marido de todos! Tanta sorte de tê-lo. #PrimeiroAniversário #AmorDaMinhaVida."

Minha visão ficou turva. Primeiro aniversário. Era o nosso aniversário, nosso aniversário de casamento. Não o deles. Ainda não.

Outra postagem. Caio, repostando a foto de Jéssica, adicionando sua própria legenda: "Para a minha única e exclusiva." Ele a fixou no topo de seu perfil, logo acima de uma foto empoeirada e esquecida do nosso próprio casamento.

Os comentários inundaram. "Tão romântico!" "Jéssica, você merece isso!" "Calista nunca conseguiria." "Pobre Calista, parece que ela foi substituída."

Meu estômago revirou. Engasguei, apoiando-me em uma parede de tijolos fria, a bile subindo em minha garganta. Lembrei-me de lavar suas roupas, esfregando manchas de vinho de suas camisas caras, deixando suas meias sujas de molho quando ele estava muito cansado. Ele tinha uma obsessão meticulosa com a limpeza, uma fobia de sujeira. No entanto, na foto de Jéssica, ele estava rindo, suas mãos cobertas de tinta, ajudando-a a criar algum projeto de arte infantil. Ele nunca levantou um dedo por mim. Ele sempre dizia que eu era "muito delicada" para tais tarefas, mas seus olhos sempre continham um toque de nojo.

Uma dor surda e latejante começou na parte inferior da minha barriga. Não era o tipo de dor que eu normalmente sentia. Era mais profunda, mais insistente.

Fechei os olhos, tentando bloquear as imagens intrusivas, as palavras cruéis. O mundo girou. Quando os abri novamente, vi um rosto familiar correndo em minha direção. Minha empregada. Maria. Seus olhos arregalados de pânico.

"Dona Calista!" ela gritou, correndo para frente.

Antes que ela pudesse me alcançar, uma dor ardente explodiu em minha bochecha. Um golpe forte e cortante. O mundo inclinou.

Capítulo 3

Perspectiva de Calista

A força do tapa me fez tropeçar. Caí no chão de mármore polido do saguão do hotel, o choque frio momentaneamente clareando minha cabeça. Minha bochecha ardia, uma marca de fogo de uma mão.

"Sua vadia!" O rosto de Caio estava contorcido de fúria, seu celular enfiado a centímetros dos meus olhos. Na tela, um vídeo borrado passava - escuro demais para distinguir detalhes, mas os sons eram inconfundíveis. Um casal, intimamente entrelaçado. A risadinha inconfundível de Jéssica, o rosnado baixo de Caio. Minha humilhação, transmitida para o mundo ver.

"Como você ousa vazar isso?!" ele rugiu, seu pé conectando com meu lado. Uma dor lancinante me atravessou. Eu arquejei, lutando para recuperar o fôlego.

"Eu não..." eu grasnei, me erguendo sobre os cotovelos, minha bochecha latejando, o gosto de sangue na boca. "Eu não faria isso."

Antes que eu pudesse terminar, outro estalo agudo ecoou no saguão. Jéssica. Ela estava sobre mim, seu rosto uma máscara de fúria, sua mão ainda levantada depois de me golpear. Minha cabeça estalou para trás, batendo no chão com um baque surdo. Meu lábio se partiu, uma fina linha carmesim traçando meu queixo.

"Sua bruxa ciumenta!" Jéssica gritou, seu pé se lançando. Ele conectou com meu estômago, um impacto brutal e nauseante. Um suspiro escapou dos meus lábios, mas foi interrompido por outro chute, e outro. "Você tentou me arruinar! Você tentou nos expor!"

Uma dor aguda e lancinante explodiu no fundo do meu abdômen. Era diferente da dor superficial dos chutes, uma agonia profunda e torturante que me fez dobrar. Eu podia sentir algo quente e úmido se espalhando sob mim.

"Dona Calista está sangrando!" Maria, nossa empregada, gritou de algum lugar próximo, sua voz carregada de terror.

Caio, que havia assistido ao ataque de Jéssica com uma expressão distante, quase satisfeita, vacilou. Seus olhos se arregalaram ligeiramente. Ele deu um passo hesitante em minha direção, um lampejo de algo que parecia culpa, ou talvez apenas pânico, cruzando seu rosto.

"É só a menstruação dela, Caio!" Jéssica gritou, agarrando-se ao braço dele, sua voz deliberadamente alta. "Ela é sempre tão dramática com isso! Ela provavelmente só menstruou, e agora está tentando fazer você se sentir mal. Lembra do que você me prometeu? Que sempre me protegeria?"

Caio parou, seu olhar caindo do meu vestido encharcado de sangue para o rosto de Jéssica, manchado de lágrimas. Ele olhou para mim novamente, depois desviou o olhar. O lampejo de culpa desapareceu, substituído por uma fria indiferença. Ele era uma marionete, e Jéssica segurava as cordas.

"Eu... eu vou cuidar dos rumores online," ele murmurou, sua voz tensa. "Mas você não deveria ter feito isso, Jéssica."

"Eu não tenho mais nada, Caio!" Jéssica lamentou, de repente tirando um pequeno canivete de prata do bolso. Ela o segurou em seu pulso, sua mão tremendo teatralmente. "Ela arruinou tudo! Minha reputação! Meu futuro! Minha honra! Eu te dei tudo, Caio! Minha juventude, minha inocência! E agora, por causa dela, eu não sou nada!" Ela soluçou, sua voz subindo a um tom histérico. "Eu não posso viver assim! Se eu morrer, espero te encontrar na próxima vida, Caio! Então poderemos finalmente ficar juntos!"

Meus olhos, já nadando de dor, observaram o rosto de Caio se suavizar. Tolo. Ela o estava manipulando como um fantoche.

Um grito agudo e repentino rasgou a garganta de Jéssica. Não um lamento de desespero, mas um grito de dor. Uma fina linha de sangue apareceu em seu pulso. Ela não se cortou profundamente, mas foi o suficiente para fazer os olhos de Caio se arregalarem de horror.

"Jéssica!" ele gritou, correndo para frente, embalando-a em seus braços. Ele me fuzilou com o olhar, seus olhos ardendo com uma fúria renovada. "Olha o que você fez com ela!"

Ele tropeçou em minha forma prostrada na penumbra do saguão, nem mesmo percebendo que me chutara novamente. Ele não olhou para trás. Apenas pegou Jéssica nos braços e começou a latir ordens para sua equipe de segurança.

"Encontrem quem vazou aquele vídeo! Apaguem cada vestígio dele!" ele trovejou, sua voz ecoando pelo saguão silencioso. "E quanto a ela..." Seus olhos, frios e venenosos, pousaram em mim. "Ela vai pagar por isso. Ela vai pagar por tudo."

Ele saiu furioso, Jéssica soluçando dramaticamente em seus braços, deixando-me sangrando e quebrada no chão de mármore frio.

"Maria," eu engasguei, estendendo uma mão trêmula. A dor era insuportável agora, um fogo me consumindo de dentro para fora. "Me ajude, por favor."

Maria, paralisada no lugar, balançou a cabeça, seu rosto pálido de medo.

"Eu... eu não posso, Dona Calista. O Sr. Campos disse... ele disse para eu não tocar em você."

Tentei ligar para Caio. Meu celular, ainda em minha mão, mostrava seu número. Toca. Toca. Ocupado. Tentei de novo. Toca. Toca. Caixa postal. De novo. De novo.

Desesperada, tentei uma última vez. Tocou uma, duas vezes, depois clicou. Desconectado. Ele desligou.

O mundo começou a girar mais rápido, as bordas da minha visão embaçando. A dor no meu estômago se intensificou, um aperto sufocante. Minha cabeça pendeu para o lado. Eu podia ouvir os sussurros frenéticos de Maria, mas suas palavras eram como ecos distantes. O chão parecia frio contra minha bochecha sangrando.

Então, escuridão. Pouco antes de me consumir por completo, senti um par de braços fortes me levantar. Um cheiro familiar, não o perfume de Caio, mas algo terroso, seguro. Um sussurro em meu ouvido, fraco demais para entender. Então, nada.

Caio, acelerando para longe do hotel, agarrou o volante, sua mandíbula tensa. Ele estava furioso, mas não com Jéssica. Não, ele estava furioso com quem quer que tivesse ousado expor sua fachada cuidadosamente construída. Seu celular vibrou, uma mensagem rápida de seu chefe de segurança. "Senhor, o vídeo online foi contido, mas encontramos um rastro. Parece se originar de um endereço de e-mail ligado às antigas contas de trabalho de Calista."

Um pavor frio se instalou em seu estômago. Calista. Ele tinha que ter certeza. Ele ligou para seu assistente.

"Você conseguiu reverter os fundos para o tratamento da mãe de Calista?"

"Sim, Sr. Campos," respondeu seu assistente, sua voz nítida. "O hospital confirmou que a transferência foi revertida com sucesso."

Caio sentiu uma onda de indignação justa. Então, ela estava tentando chantageá-lo. Essa era a vingança dela. Ele a faria se arrepender.

Seu celular tocou novamente. Era sua secretária, sua voz frenética.

"Sr. Campos! As ações! As ações da sua empresa estão despencando! É uma venda massiva!"

Caio pisou no freio, a parada brusca sacudindo Jéssica, que ainda fungava dramaticamente no banco do passageiro. Seu mundo, tão meticulosamente construído, estava de repente desmoronando.

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