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As aventuras de Zahara Grant - Uma gênia perdida em New York

As aventuras de Zahara Grant - Uma gênia perdida em New York

Autor:: Evvy
Gênero: Romance
Até onde devemos ir para satisfazer expectativas alheias? O quão importante é estar dentro do que é esperado pelos outros? Completamente desajeitada e desastrada, Zahara nunca se sentiu parte de nada. Não se sentia parte da sua comunidade, da sua espécie, sentia que não se encaixava em lugar algum simplesmente por ser quem é. Acompanhada pelo constante sentimento de insuficiência, Zahara Grant tenta agradar a todos ao seu redor, mesmo falhando miseravelmente há quase 217 anos. Não tem amigos, é motivo de chacota e vergonha para seu pai, sua única família. Filha do poderoso Ifrit, um dos jinns mais conhecidos entre os mortais e imortais, a pequena e jovem gênia da lâmpada não sabe lidar com seu próprio poder e, por isso, sempre foi alvo de piadas e desprezo. Apesar de sempre ter amor e carinho por parte do seu pai, nunca conseguiu se orgulhar de si mesma, e nunca sentiu que alguém tinha orgulho dela. Cansada de ser taxada como a vergonha de seu povo e assustada com a possibilidade de passar a eternidade presa em sua lâmpada, sozinha e perdida no mundo, Zara decide que era a hora de aprender. Com isso em mente, deixando seu próprio mundo para trás, Zahara Grant decide passar um tempo entre os humanos e aprender na "marra" à controlar sua própria magia, convencida de que só retornaria para casa quando houvesse realizado pelo menos sete desejos perfeitos. Mas tudo o que ela imaginou não chegava nem perto do que essa jornada iria lhe proporcionar. Magia, diversão, algumas confusões, um pouquinho de romance e muitas risadas, acompanhe a jornada da gênia mais desastrada que já existiu!

Capítulo 1 É hora de aprender!

Respiração acelerada, mãos trêmulas e visão turva, era assim que a garota baixa, de cabelos ondulados e um tanto quanto frisados estava. Ela caminhava pelo grande corredor escolar, observando as paredes pintadas de uma cor sem vida e que tornava o ambiente apático se comparado aos adolescentes cheios de energia que transitavam por ele. Estava abraçada aos livros que não couberam em sua bolsa, seu andar a fazia parecer um bichinho assustado em meio a um mar de perigos.

Zara estava tentando e, para ela, sua tentativa era mais que válida, contudo, ser obrigada a passar metade do ano junto aos humanos não lhe parecia uma ideia muito boa. Se sentia desconfortável entre os americanos, era difícil para ela estar num lugar tão distante e com uma cultura tão diferente da sua, era o mundo humano, e soava assustador. Não havia outros como ela, não haviam sequer humanos que conheciam suas habilidades ou compartilhavam de seus costumes, estava entre completos estranhos.

Sair do seu mundo e viajar até o estado de New York foi fácil para Zara, no entanto, chegar a Corning, uma pequena cidade no interior do estado, e perceber que teria de fato que misturar-se entre os humanos, foi um choque. Agora, seguindo assustada até seu armário, vendo todos os adolescentes com vestes, palavras e comportamentos tão diferentes do que ela estava acostumada, a deixava em pânico.

Zara estava habituada a grandes palácios, construções brilhantes e ricas, não era estranho para ela ver alguém flutuando aqui e ali, fazendo uma caramboleira crescer, tocando sitar enquanto outros dançavam e cantavam as aventuras dos antigos, do seu pai. Mas ali, nada era familiar. Os americanos soavam para ela como o inexplorado, suas roupas pareciam apagadas, sem cor, não haviam muitas jóias, nem tanto brilho, eram estranhas e muito coladas ao corpo, o pouco que viu da comida lhe pareceu muito estranho, tudo parecia sair de uma lata ou do óleo, aquilo não lhe parecia tão natural.

Humanos sempre foram estranhos aos seus olhos, ao menos aqueles que não conviviam entre os jinns, mas nada podia fazer, afinal, estava condenada a servi-los até que um deles tivesse a bondade de libertá-la de sua eterna prisão. Mas quem o faria se ela sequer conseguia transformar um macaco em um camelo?

"Já passou da hora de aprender", dizia seu pai, enquanto a mandava arrumar suas malas e a instruía sobre como guardar sua lâmpada.

Ah! Sua lâmpada, sua casa e eterna prisão, a não ser que fosse liberta.

- Cuidado aí, esquisita! - reclamou uma garota, na qual a jovem morena havia tropeçado.

- Desculpe... - ela sussurrou, com verdadeira culpa, praticamente correndo para longe.

Zara havia chegado a Corning há somente 3 meses. Não havia ninguém com ela, ninguém para supervisioná-la ou dizê-la o que fazer, isso a apavorava. Por isso, demorou tanto para ingressar na escola, a garota escolheu aquela que lhe pareceu a melhor opção, uma escola da rede pública e que atendia somente o ensino médio, situada num bairro nobre da cidade, onde haviam muitos alunos e poderia facilmente passar despercebida. Agora, aquela lhe parecia uma péssima ideia, todos a encaravam como se ela fosse de outro mundo, a diferença entre a pequena menina acuada e os alunos imponentes e intimidantes era notável.

Abriu o armário apressadamente enquanto pensava em como havia se metido nessa encrenca tão grande, mas logo sanou essa dúvida, sendo acusada por seus próprios pensamentos: "talvez seja por que eu transformei o filho do amo do meu pai num porquinho da índia, ou por que destruí aquela ponte há uns dias.... Mas também teve aquela vez que...", e assim continuou listando todos os acontecimentos desastrosos que sempre rodearam sua vida.

- Olha só! Bem que falaram que ela parece um bicho-do-mato assustado. - Zara deu um pequeno salto para trás assim que ouviu a voz feminina.

A jovem ergueu os olhos e encarou a garota à sua frente. Quase um metro e setenta de altura, cabelos loiros, nariz fino, olhos verdes extremamente ardilosos e um sorriso que a fez tremer dos pés à cabeça. "Vamos Zara, pode fazer ela se tornar uma barata se quiser... Não trema de medo, sua covarde!", acusou-se, tentando manter uma postura ereta.

- Essas são Chloe e Ananda, eu sou Emillya Cowen, mas todos me chamam de Emmy. - A loira, que agora Zara sabia que se chamava Emillya, encarou-a de cima a baixo e ergueu as sobrancelhas, olhando para duas garotas que estavam ao seu lado, as quais Zara só notou a presença naquele momento. -Bem... Nem todos.

-Então, qual seu nome? - perguntou outra Chloe, que tinha cabelos volumosos e cacheados, sua pele era negra e parecia emanar certo brilho bonito, Zara lembrou-se de uma das poucas amigas que teve em sua vida, Chloe se parecia com ela, mas muito menos simpática. - Por acaso você não fala?

-Eu...- iniciou ela, sentindo a voz tremer. Odiava sentir-se pressionada ou coagida a agir, apesar de só conseguir fazer a maior parte das coisas sob pressão. - Sou Zahara Grant...

-Zahara? Que tipo de nome é esse? - caçoou Ananda, erguendo as sobrancelhas e encarando Zara com um ar de desprezo, passando a destra por seus cabelos escuros e voltando seu olhar para Emillya.

Não entendia todos aqueles olhares, muito menos o ar de desprezo com o qual lhe tratavam. Sabia que humanos tinham comportamentos singulares vez ou outra, mas elas sequer a conheciam, por que a tratavam assim? A jinn compreendia o desprezo que recebia de seu povo, afinal, era uma vergonha, entendia isso.

'Mas será que sou tão ruim a ponto daqueles que nem me conhecem notarem isso à primeira vista?', perguntou-se intimamente, suspirando e voltando a prestar atenção nas garotas a sua frente quando Emilly estala os dedos bem perto do seu rosto.

- Me ouviu, garota? Bem, não importa, só vim saber quem era você, não é comum recebermos novatos, ainda mais no meio do último ano. - O tom de decepção da loira deixou Zara um pouco desanimada, afinal, apesar de tudo, ela pensou em fazer amigos. - Sabe como é, cidade pequena, sou a filha do prefeito, preciso estar por dentro das coisas. Enfim, a gente se esbarra por aí, garota.

Obviamente, aquela foi a aparição mais esquisita que Zara presenciou em seus duzentos anos de vida. Do mesmo jeito que apareceu, a menina se foi, do nada, levando suas duas amigas com ela e deixando a garota de lado.

Apesar de se sentir intimidada e tentar se esconder, Zara sabia que seus traços árabes chamavam atenção em meio a um bando de americanos curiosos e ariscos. Pele morena, num perfeito tom de caramelo, lábios bem desenhados e medianamente grossos, olhos de um belíssimo tom âmbar, escondidos atrás de grandes óculos que a ajudavam a enxergar bem.

Por que ela os usava? Apesar de saber que poderia, Zara nunca conseguiu curar sua miopia com a magia, conseguia, no mínimo, alívios passageiros e até algumas pioras, tudo culpa de sua péssima aptidão mágica e do seu jeito desastrado. Lembrava-se de todos caçoando dela nas grandes reuniões: "Olhem lá, lá vai a filha do poderoso Ifrit, não consegue nem se livrar de uma miopia", "Coitado do pai, apaixonou-se logo por uma humana que mal pôde lhe dar uma cria respeitável... Gênios devem fugir do amor, uma vez laçados, acabam cobertos de vergonha".

- Mas que culpa eu tenho? - resmungou, entrando na sala e se sentando na cadeira mais distante que conseguiu, ficando bem no fundo. - Nem todos são perfeitos.

A menina observou uma mulher de meia idade entrar na sala, ela trazia vários livros e estava pronta para começar uma tediosa aula de história. Zahara sabia que de nada aquilo lhe seria útil, os gênios não têm um desenvolvimento igual ao dos humanos, nem praticam as mesmas atividades que eles. Contudo, seu lado meio humano lhe deu a aparência de uma jovem de 17 anos na maior parte do tempo, até em sua "forma de gênio", como costumava chamar sua aparência natural, ela tinha feições humanas, porém, muito mais bonitas em sua opinião.

Sabia que, apesar de nunca admitir, seu pai envergonhava-se dela. Nunca conseguiu executar um desejo sequer sem gerar uma grande confusão ou de forma perfeita, ela sempre esperava os piores resultados possíveis e isso entristecia seu pai, que sempre foi uma criatura de extremo poder e muito respeitável.

Ninguém nunca soube o porquê, culpavam sua metade humana por toda essa falta de habilidade. Desde muito pequena, foi subestimada e, com o passar dos anos, Ifrit notou que sua filha não herdou seu temperamento forte e intimidante, ao contrário dele, sabia que ela era uma criatura frágil e sensível. Por isso, viu que os insucessos de sua filha se deviam a sua incapacidade de confiar em si, ao menos era no que ele acreditava. Ifrit sempre se culpou pela morte de Dandara, seu eterno amor, contudo, procurou manter viva a memória da mãe para sua filha, por mais que ambas nunca houvessem convivido e que fosse doloroso para ele.

Zara admirava os esforços do pai, sua compreensão de sempre, seus carinhos e palavras gentis, mas sentia-se um grande fardo que ele era obrigado a carregar. Por isso, aceitou ir para outro continente e tentar ter algum controle sobre sua magia sozinha. Prometeu a si mesma que só voltaria para casa quando realizasse ao menos sete desejos medianos perfeitos, já que coisas simples não valiam na contagem, segundo regras que ela mesma inventou.

- Senhorita Grant, está me ouvindo? - perguntou a professora, soando bastante rude para a menina, que estava perdida em pensamentos há segundos atrás.

- Sinto muito, professora, o que disse? - indagou, tentando parecer o mais gentil possível, buscando aplacar o mau-humor da mulher.

- Levante-se e venha se apresentar - exigiu a professora, fazendo a morena estremecer levemente.

Zara procurou formas de contestar, porém, o olhar irredutível da Sra. Mirts a fez desistir. Erguendo-se de sua cadeira, ela caminhou para frente da sala, parando ao lado da professora. Zahara olhou para frente e lentamente abriu os lábios, sentindo a voz falhar e as mãos suarem.

- Eu... Eu sou Zhara Gran... - porém, antes que pudesse concluir sua fala, a porta se abriu bruscamente.

Os olhos dourados dela seguiram os barulhos e a menina viu um grupo de rapazes entrarem, rindo alto e empurrando uns aos outros vestindo uniformes do time, um deles até tinha uma bola na mão, o que pareceu a ela algo muito estranho, afinal, quem leva uma bola para a sala de aula?

A Sra. Mirts pigarreou duas vezes, esperando que isso os calasse, mas foi em vão. Aproveitando-se da pequena confusão, a menina correu de volta para sua cadeira e se sentou, encolhendo-se em seu lugar e esperando que todos se esquecessem de sua existência, ao menos por hora.

****

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Capítulo 2 Uma bolada, duas amigas

'Você chegou à segunda semana, já é uma vitória!', pensou Zara, enquanto saia da escola com um grande sorriso no rosto.

Fazia duas semanas desde sua primeira aula e, apesar de não ter feito amigos, aquilo soava incrível para ela. A morena andava sem pressa e tinha um grande copo de milk-shake nas mãos, o havia conseguido com magia e isso a deixava animada, afinal, finalmente conseguiu um milk-shake na temperatura e sabor desejado, um grande avanço!

Estava mais habituada a comida e aos costumes, certamente encontrou sua bebida favorita, milk-shake de morango, não era tão bom quanto Taqsin, mas ela sempre gostou de morangos e adorava a sensação gelada aliada ao gosto doce e quase enjoativo.

As duas primeiras semanas passaram com velocidade e, apesar de ainda não ter encontrado ninguém de confiança para ajudá-la com seu "problema", Zara estava se divertindo bastante com a vida escolar. Houve alguns incidentes, como quando ela acabou derrubando um composto químico num garoto e ele acabou na enfermaria com uma grave irritação na pele, porém, esses incidentes em nada ofuscavam a alegria estampada no rosto gentil e sorridente de Zara.

Estava tão imersa em sua felicidade pessoal que não ouviu o grito de cuidado vindo da sua direita, por isso, instantes depois, uma bola acertou em cheio sua cabeça, fazendo-a cair no chão e ficar ensopada de milk-shake. Tonta e meio desorientada, ela mal conseguiu responder quando uma garota entrou em seu campo de visão, perguntando a ela várias coisas que não entendeu.

- Acho que ela bateu com a cabeça - falou outra menina e, de repente, havia cinco ao redor da gênia, que ainda sentia seu mundo inteiro girar.

-Menina? Ei? Quantos dedos têm aqui?- perguntou uma delas e, finalmente, a visão de Zahara focou em algo.

-Dois...- respondeu, se sentando e vendo as garotas comemorarem, provavelmente um acidente mais grave traria consequências ao time de volei feminino.

- Está viva, isso já é muito bom! - Uma garota, que havia sentado ao seu lado, falou, ela tinha feições orientais, olhos pequenos e castanhos, cabelos extremamente escuros e curtos, ficando pouco acima de seus ombros, além disso era muito, muito alta. - Sou Seo Yun, desculpa pela bolada.

A menina exibia um sorriso sem graça e parecia verdadeiramente arrependida, isso fez a gênia abrir um pequeno sorriso também, procurando deixá-la mais confortável apesar da dor em sua cabeça. Ao observá-la melhor, Zara notou que ela, bem como as outras, tinha um ótimo porte físico e estava completamente suada, as bochechas estavam vermelhas pelo esforço e, mesmo sem graça, ela ainda conseguia fazer a jinn querer se encolher, era intimidante demais.

Todas vestia um tipo de uniforme esportivo nas cores da escola, verde e branco, que se resumia a uma camiseta larga e leve e um short igualmente soltinho, que permitia as jogadoras se movimentarem bem. Além disso, não havia nada de acessórios ou jóias, as garotas tinham os cabelos bem presos e longe do rosto e usavam tênis próprios para esporte.

- Eu que peço desculpas - ela falou, se levantando e sentindo tudo girar a sua volta, sendo amparada por uma outra menina. - Devia ter prestado mais atenção.

-Yun! - Uma garota, baixinha, com cabelos longos, ruivos e rebeldes, gritou, parecendo genuinamente furiosa. - Já é a segunda vez que você acerta alguém essa semana!

A oriental ficou envergonhada ao ser repreendida daquela forma na frente de todos e, quando estava próxima o bastante, a ruiva lhe deu um tapa no braço, fazendo Yun resmungar baixinho. A jinn ficou encantada com a sincronia, mesmo que oposta, que as duas meninas exalavam, enquanto a ruiva deixava um sermão, a outra tentava se manter séria enquanto alguém com metade da sua altura tentava chamar sua atenção.

- Foi sem querer Eliz... - tentou se justificar, contudo, Eliz já estava ao lado de Zara, avaliando seu estado.

-Você tá bem? - perguntou, visivelmente preocupada. - Sua roupa...- Eliz pareceu verdadeiramente triste ao notar o estado das roupas de Zara, completamente sujas de uma mistura de milk-shake de morango e grama.- Vem, vou te ajudar a se limpar, tenho uma blusa extra que posso te emprestar.

Zara estava assustada. Nunca havia recebido tanta atenção, ao menos não de forma positiva, de uma só vez. Isso a deixou paralisada e, com seu silêncio, Eliz ficou ainda mais preocupada e afoita, acreditando que a menina estava em choque ou algo parecido. Apesar de sentir vontade de recusar a ajuda, a morena se deixou ser guiada para o ginásio e, em seguida, para o vestiário feminino.

Enquanto caminhava, Zara observou Eliz com mais atenção ainda em silencio. A ruiva mantinha uma expressão preocupada, mas era tão pequena que, mesmo aparentemente brava, não inspirava medo algum. Vestia um vestido solto e com alças finas, era florido em um tom de amarelo que gerava um belo contraste, o que fez a jinn se admirar.

Lá dentro, Eliz entregou uma blusa sua, checou se ela não estava machucada e fez Yun se desculpar mais algumas vezes. Zahara somente as encarava, respondendo vez ou outra de forma tímida e, enquanto vestia a blusa de Eliz, observou a ruiva brigar novamente com a mais alta, apontando o dedo para ela e ficando completamente vermelha. Yun parecia não ter coragem alguma para revidar ou iniciar uma discussão, somente acatava as reclamações e pedia desculpas. No fim, Eliz estava mais chateada que a própria vítima da bolada.

Zahara achava engraçada a forma como as duas conversavam e, enquanto toda a discussão sustentada por Eliz acontecia, ela se ocupou em olhar a garota que, apesar de pequena, se mostrava muito brava. Tinha bochechas gordinhas e isso contribuía para sua aparência fofa e quase inofensiva, seus olhos eram tão expressivos que Zara finalmente conseguiu entender o que significava a frase que os humanos tanto falavam: "os olhos são a janela da alma", no caso dela, eram mesmo, Zara podia ver a alma pura e gentil que ela tinha.

- Você quer uma carona para casa? - Eliz perguntou, se aproximando novamente. - Sou Elizabeth, mas me chamam de Eliz.

- Não precisam me dar carona, eu vou pedir um táxi - Zara respondeu, sorrindo para ambas. - Sou Zahara Grant, mas me chamem de Zara. Obrigado por me ajudarem.

- Não agradeça, foi o mínimo que eu poderia fazer. - Yun se aproximou, ainda um pouco envergonhada por conta do incidente. - Pode não aceitar a carona, mas, se quiser, podemos ir ao cinema juntas na próxima semana, assim te compenso por isso...

Zara estava pronta para recusar, mas olhou para o lado e viu os olhos claros de Eliz brilharem com animação e esperança, isso não a deixou reunir a coragem necessária para negar o convite.

- Podemos ver algum filme de super-heróis, você vai adorar! - Eliz reforçou, olhando-a com um ar pidão. - Vamos, por favor...

Mesmo que ainda não se sentisse tão a vontade para sair com humanos e tivesse medo de causar alguma confusão, ela não podia negar o convite, no fundo, bem no fundo, não queria o fazer. Sentia um misto de felicidade e nervosismo, as meninas pareciam tão animadas e empenhadas em convencê-las que fez um sentimento novo e até então desconhecido subir pelos pés da jinn e lhe aquecer as bochechas.

Então, com um suspiro e um pequeno sorriso, ela aceitou:

- Está bem, eu aceito o convite.

***

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Capítulo 3 Cinema

As coisas ainda eram estranhas demais, mesmo estando na metade da segunda semana, ela ainda se sentia deslocada, mas isso não era novidade. Apesar do insistente sentimento de estar fora do seu lugar, Zara ainda se sentia feliz, especialmente naquela quarta.

Quando se sentou em seu lugar na sala da primeira aula, ela não se sentiu tão sozinha como antes, ao seu lado estava Eliz, que acenou e sorriu quando a Jinn entrou no local. Uma estranha intimidade estava se formando entre as duas garotas, desde o fatídico dia em que Zara foi vitima da "bola perdida".

Ao contrário do que Zara pensava, Eliz não se mantinha próxima a ela somente movida pela culpa, na verdade, depois da breve conversa no vestiário feminino e do convite para o cinema, Eliz decidiu que tentaria tornar aquele breve momento no começo de uma amizade. Apesar de aparentar uma segurança e um comportamento extrovertido, a ruiva não se sentia à vontade para se abrir com todos e muito menos para criar laços, no entanto, Zahara Grant lhe parecia uma pessoa boa, os olhos dourados e gentis a conquistaram sem muito esforço.

Por isso ela estava bem ali.

Havia mudado o local onde normalmente se sentava, na frente da sala, para ficar mais próxima a garota nova. A principio, percebeu o estranhamento da morena diante de seu ato, mas, instantes depois, a viu sorrir abertamente e isso lhe aqueceu o coração.

- Você já procurou algum clube ou alguma atividade extra? - indagou a ruiva, puxando a cadeira um pouco mais para perto da nova amiga. - Não sei como funcionava na sua antiga escola, mas precisamos de atividades complementares aqui.

O tom da ruiva era bem baixo, na frente da sala, o professor Sr. Albert, já havia iniciado a aula de física do dia. Zara voltou os olhos para a colega e uniu as sobrancelhas, apesar de fingir, nunca prestava atenção realmente às aulas, teria que entrar em mais uma atividade que não lhe seria exatamente útil para se manter ali? Estava se tornando cansativo.

- Ainda não, eu não sei onde procurar essas coisas - sussurrou, voltando a olhar para frente enquanto continuava, somente para que os olhos de águia do professor de física não as percebesse conversando. - Onde eu encontro essas coisas?

Eliz estava prestes a responder quando sentiu uma bolinha de papel acertar sua nuca e se emaranhar nos fios avermelhados, quando olhou para trás, Lucas, um dos garotos do time, estava apontando para frente discretamente. Na frente da sala, o professor encarava as duas garotas de forma irritada, por conta dos sussurros que, ao contrário do que ambas imaginavam, não eram tão discretos assim.

Eliz, com as bochechas levemente avermelhadas pela vergonha, encolheu os ombros e abaixou os olhos fingindo anotar qualquer coisa em seu caderno. Zara, por sua vez, sentiu as mãos suarem e, como a amiga, pegou a caneta e começou a escrever qualquer coisa na folha em branco, somente para que o professor as deixasse em paz.

A aula seguiu lenta e tediosamente, Zara passou os primeiros dois horários da manhã perdida em seus próprios pensamentos e, vez ou outra, sussurrando com Eliz, que parecia sempre ter um assunto para falar mesmo que o momento não fosse o mais propício. A jinn descobriu que haviam clubes na escola, eles se dividiam entre música, dança, esportes, culinária, literatura, matemática e até xadrez. Zara não sabia como se encaixar em algum desses, então acabou se ocupando em decidir onde iria gastar suas horas complementares, já que não poderia somente participar das aulas oficiais.

Quando o sinal tocou, ecoando pelos corredores e chegando a sala, todos os alunos se levantaram apressados , sem sequer esperar o pobre professor finalizar sua aula. Zara sentiu a delicada mão de Eliz segurar seu braço e, entrelaçando um ao outro, a ruiva começou a caminhar com a jovem ao seu lado.

- Você sabe tocar algum instrumento musical? - perguntou ela, chegando ao corredor e encarando a amiga com dúvida.

- Nenhum - respondeu Zara, um pouco sem graça, apertando o caderno contra o peito.

Eliz não esperava uma resposta diferente, Zara não parecia alguém que cantava ou dançava, para ela, a garota ao seu lado não parecia gostar de estar nos holofotes. Dessa forma, sua missão de encontrar um clube onde Zara se encaixasse ficou ainda mais difícil.

Enquanto caminhavam, Zara sentiu um braço pesado se apoiar em seu ombro e, ao olhar para o lado, encontrou o sorriso gentil de Yun, mas precisou erguer a cabeça para olhar para a oriental. Ainda não se conformava com o fato de que humanos conseguiam ser tão altos, mas estava habituando-se a isto.

- O que estão fazendo? - indagou Yun, parando ao lado das garotas enquanto ambas guardavam seu material e pegavam o que seria útil para a próxima aula.

- Eu estava tentando ajudar Zara a escolher um clube - Eliz respondeu olhando para a de cabelos curtos e sorrindo levemente, tocando discretamente a mão de Yun enquanto esperava Zara arrumar seu material.

- Já pensaram no de literatura? Talvez seja interessante para voce, Zara - sugeriu Yun, apoiando o queixo na cabeleira ruiva de Eliz e encarando a morena a sua frente.

- Acho que ainda tenho tempo para pensar - murmurou a jinn, sorrindo brevemente para as duas garotas.

Intimamente, ela se sentia bem, estava feliz, afinal, as duas garotas pareciam se esforçar para manter-se por perto e não deixá-la solitária. A proximidade delas também fazia com que outros alunos se mostrassem mais simpáticos e abertos a um diálogo, Zara notou isso enquanto ela voltava a caminhar pelos corredores com as garotas, pois alguns alunos que ela sequer se lembrava o nome acenaram e a cumprimentaram enquanto as três passavam, coisa que nunca acontecia quando ela estava sozinha.

Seguiram sem pressa pelos corredores e, quando chegaram à escada que levava ao terceiro andar, o trio se separou. Infelizmente, as meninas não cursavam todas as disciplinas juntas, então, dali em diante, Zara seguiria sozinha para suas aulas. Mas isso já não a incomodava tanto afinal, sabia que, quando o horário do almoço chegasse encontraria novamente suas amigas, isso a deixava feliz.

{...}

A semana passou mais rápido que o esperado para Zara, que se sentia satisfeita com tudo o que havia feito, mesmo com os pequenos incidentes e um quase afogamento na aula de natação, tudo correu muito bem e a Jinn estava satisfeita com suas conquistas.

Quando o sábado chegou, ela estava nervosa.

Suas mãos estavam suando e só conseguia pensar em tudo o que poderia dar errado naquele momento. Apesar do medo, estava feliz, era a primeira vez que saía para ir ao cinema com outras meninas. Normalmente, tudo o que fazia era com seu pai, mas Ifrit não tinha tanto tempo disponível e, por isso, ela acabava quase não saindo de casa ou de sua própria lâmpada, passando seus dias com Desejo, sua gatinha, em sua prisão particular.

Dessa forma, não tinha tanta familiaridade com os momentos de lazer humanos, havia visitado um cinema uma única vez sendo arrastada por Jeane, única amiga que teve na vida e que não via há muito tempo. Quando estava prestes a ficar triste, a jinn empurrou para longe as lembranças da antiga amiga e ergueu os olhos ao ouvir a voz alta e conhecida.

Usava calças jeans folgadas descobriu que existiam peças que não eram tão justas e aquilo a deixou maravilhada, seus cabelos ondulados estavam soltos e mais alinhados que o comum, a blusa rosa choque contrastava de forma bonita com o tom caramelado de sua pele e o azul claro de sua calça. Seus óculos estavam bem posicionados em seu rosto, tornando seus grandes olhos dourados maiores, e havia encontrado um belo par de tênis branco que, para ela eram extremamente confortáveis.

- Você veio! - Eliz gritou, correndo até Zara e a abraçando, surpreendendo a Jinn, que havia se distraído olhando para o brilho bonito da pulseira que usava naquela noite.

No decorrer da semana, a morena descobriu que tinha várias aulas com Yun e Eliz, isso as aproximou um pouco mais, visto que as duas meninas acabavam sempre chamando Zara para almoçarem juntas. Essa aproximação a assustava, não se considerava boa o bastante para uma intimidade como aquela que começava a se formar entre o trio, porém, sentia uma felicidade tão grande que quase não cabia dentro de si.

Tinha amigas agora e isso era como um sonho doce sendo realizado.

- Eu disse que vinha... - falou ela, timidamente, abraçando Eliz.

- Eliz... Sabe que ela não gosta tanto de abraços fofinhos - brincou Yun, bagunçando ainda mais os cabelos de Zara, como passou a fazer sempre que se viam.

- Já disse que não é bem assim... Eu gosto de abraços - retrucou a morena, fazendo um pequeno bico e sorrindo em seguida.

A conversa entre o trio fluía tão bem que Zara tinha medo de que algo acontecesse, algo que estragasse seus momentos com as duas meninas ao seu lado. Esse pensamento trazia a ela pânico, afinal, não queria perder as amigas que acabara de fazer.

- Então, pronta para assistir "Thor:Amor e trovão"? - Eliz perguntou, arrastando ambas as garotas para dentro do cinema. - Esperei o ano passado inteiro por esse filme!

Zara as observou por alguns instantes, eram como extremos opostos de certo ponto. Yun assustava qualquer um que se aproximasse com seu porte altivo e sua altura elevada, chegava aos dois metros com facilidade, usava calças justas e escuras, com uma blusa de mangas igualmente preta, a cor parecia a deixar ainda mais imponente. Ao contrário da oriental, a pequena eliz estava com um vestido florido, dessa vez, em tons de lilás, seus cabelos ruivos estavam bem presos a uma trança e ela, como sempre, estava sorridente.

- Você gosta mesmo desses filmes de super-heróis, né? - questionou Yun, que estava indo assistir o filme somente por conta de Eliz, já que ela havia insistido por longas duas horas.

- Claro que sim! Zara, qual seu herói favorito? - a ruiva perguntou, olhando para a gênia com seus grandes e claros olhos brilhantes, aguardando uma resposta.

-Bem... eu não conheço muito bem...- respondeu timidamente.

Na verdade, Zara não fazia ideia do que as outras duas estavam falando. Desde a morte de sua mãe, em seu nascimento, Ifrit se afastou completamente do mundo humano. Isso deixou Zara completamente isolada dos costumes da sua outra metade e, por isso, não estava nem um pouco familiarizada aos costumes comuns entre os humanos, inclusive o cinema. Principalmente entre os americanos, comumente, quando aventurava-se no mundo humano, Zara não se distanciava muito da Arábia, em regiões com um menor fluxo de pessoas, ficando em pequenas vilas e povoados, brincando com crianças, tentando ajudar uma pessoa e outra com seus poderes e voltando para seu mundo depois, evitando formar laços.

- Não conhece? - Eliz perguntou, como se tivesse ouvindo-a blasfemar contra alguma divindade extremamente poderosa. - Precisamos te converter aos Vingadores!

- Podemos fazer uma maratona, pode ser na sua casa, Za se quiser - sugeriu Yun, enquanto compravam os ingressos e pegavam a pipoca.

- Para mim, seria ótimo - Zara confirmou, se animando com a possibilidade de recebê-las em seu apartamento.

Evitou pensar na possibilidade de ser questionada sobre seus pais ou sobre como ela adquiriu um apartamento caro numa área nobre da cidade para morar sozinha, não sabia mentir, mas preferiu não pensar na possibilidade naquele momento e preferiu aproveitar a noite divertida.

Apesar do pouco tempo, uma conexão se estabeleceu entre as três garotas. Aquilo alegrava e assustava a Zahara que, pela primeira vez, se sentia parte de algo...

***

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