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As cláusulas do Amor

As cláusulas do Amor

Autor:: Afrodite LesFolies
Gênero: Bilionários
Ele era um líder executivo acostumado a vencer, um homem que transformava cada desafio em lucro, cada obstáculo em poder. Para ele, emoções eram distrações, até que uma cláusula inesperada o obrigou a apostar mais alto do que jamais ousara. Ela era uma jovem determinada a proteger a pequena criança que dependia dela, mesmo que isso significasse mergulhar em uma vida secreta, onde luxo e riscos andavam de mãos dadas. Aquele contrato seria sua chance de escapar das dívidas e deixar tudo para trás. Mas havia um detalhe que não constava em nenhuma linha escrita: o desejo que surgiria entre eles. O que começou como um acordo frio logo se transforma em um jogo perigoso de sedução, onde cada olhar, cada toque e cada mentira podem custar muito mais do que ambos imaginaram. Porque algumas cláusulas não foram feitas para serem lidas, mas para serem sentidas.

Capítulo 1 Prologo

Ela se movia com uma lentidão devastadora, cada gesto carregado de provocação. O olhar intenso queimava o ar entre nós, e eu já lutava para não avançar sobre ela, hipnotizado pela maneira como se despia só para mim.

A lingerie era quase um insulto, revelando muito e escondendo só o suficiente para me enlouquecer. Quando girou de costas, ondulando os quadris com malícia, lançou os longos cabelos para trás e acariciou a própria pele, como se soubesse exatamente o efeito que tinha sobre mim.

Não suportei mais a espera. Avancei, puxando-a contra mim. Minha mão alcançou seu rosto delicado, os dedos roçando a máscara que escondia parte daquela beleza proibida. Mas sua mão firme segurou a minha, impedindo-me. Antes que eu pudesse protestar, seus lábios carnudos se abriram e tocaram minha pele de um jeito provocador, cruelmente sedutor.

O choque me incendiou. Segurei seus cabelos e a beijei com a fome que eu já não conseguia conter. O mundo desapareceu enquanto nossas bocas se devoravam, como se estivéssemos à beira do abismo.

Era como se não houvesse mais nada além dela, da forma como se encaixava em mim, da sensação de que cada segundo nos levava para mais perto de algo inevitável. Seu corpo respondia ao meu, e eu a reverenciei como jamais havia feito com outra mulher, como um homem que se curva diante de uma deusa.

O prazer era uma tortura deliciosa, e cada gemido dela era a promessa de perdição. O desejo crescia, incontrolável, até que não havia mais limites, até que não éramos mais dois, mas apenas um fogo único, consumindo tudo ao redor.

Quando finalmente ergui o olhar, encontrei o mistério daquela máscara veneziana. Toquei-a outra vez, e, dessa vez, ela permitiu que eu a tirasse. Não estava preparado para tamanha beleza.

Estava prestes a ouvir sua voz quando tudo se desfez.

Acordei.

O laptop escorregado ao lado, ainda aberto na página do site, congelado na foto dela.

Mais uma vez, um maldito sonho. Mais uma vez, aquela mulher me assombrava.

Basta. Eu não esperaria mais. Precisava recuperar o controle da minha vida, nem que fosse provando ao menos uma vez o gosto daquela obsessão antes que desaparecesse para sempre.

Capítulo 2 Capítulo 1

Meses antes do encontro com ele...

Abracei o corpo pequeno, tentando transmitir o pouco de calor que restava em mim. A tempestade de neve castigava as ruas, e dentro do apartamento o silêncio era quebrado apenas pelo vento que uivava nas frestas das janelas. Sem eletricidade, sem aquecedor, restavam apenas cobertas finas que já não nos protegiam.

- Promete que nunca vamos nos separar? - a doçura na voz dele me fez arder por dentro, como se cada palavra fosse um convite ao choro.

- Você é o meu tudo, jamais te deixarei. Sempre vou cuidar de você. - Respondi, forçando firmeza, mesmo com a emoção sufocando a minha garganta. Eu não queria que ele percebesse a tristeza que me corroía.

Ele sorriu e ergueu o rostinho para mim. Beijei sua testa, ajeitando as cobertas em volta do seu corpo frágil.

- Está muito frio... - murmurou, encolhendo-se ainda mais contra o meu peito.

- Vamos ficar juntinhos, debaixo das cobertas. Logo vai esquentar. - Menti, sussurrando em seus cabelos negros.

Não ia esquentar. Quanto mais a noite avançava, mais o frio nos engolia. Beijei o topo de sua cabeça e ergui o olhar para a mesa da sala: uma pilha de contas se acumulava como uma sentença. Faculdade. Hospital. Aluguel. Cada papel era um lembrete cruel de que eu estava afundando mais a cada dia.

Comecei a cantarolar baixinho a canção de ninar que ele amava desde bebê. Sua respiração foi se acalmando aos poucos, mas eu sabia que, por dentro, ele sentia o mesmo medo de que eu: e se nos separassem? Ele era tudo o que me restava. Eu era a única responsável.

Tentei não pensar, me concentrando na letra delicada da canção de ninar, abaixando a voz ao perceber que ele estava relaxando, sua respiração mais calma. Foi quando o celular iluminou a tela: mais uma mensagem de Charles. Sentindo-me um fracasso total, li mais uma de suas ameaças.

Você tem mais alguns dias e vou dar ordem de despejo! Mas você sempre tem a possibilidade de dormir comigo e posso perdoar os aluguéis em atraso. Não seja orgulhosa.

A ideia me enojava. Ele tinha idade para ser meu avô e, por mais desesperada que estivesse, jamais me submeteria àquele porco. Não respondi, como em todas as outras vezes. A raiva me consumia, a impotência me sufocava.

O trabalho como secretária também não ajudava muito. Meu patrão era uma boa pessoa, mas o irmão dele, seu sócio, era tão cretino e nojento quanto o dono do apartamento. Sempre me cercando, sempre insinuando que poderia "me ajudar" em troca de algo.

Chorei mais uma vez naquela noite, tentando não fazer barulho, deixando as lágrimas descerem enquanto virava o rosto para o alto para não molhar o meu pequeno. Tanta dor, tanto sofrimento em nossas vidas, enquanto o mundo lá fora seguia indiferente. Via as vitrines decoradas para o Natal que se aproximava, pessoas saindo pelas ruas carregando sacolas, presentes caros, enquanto eu mal tinha dinheiro para alimentar uma criança.

O cansaço me venceu mais uma vez. Talvez eu sonhasse, talvez fosse algo bonito. Porque ultimamente, nem mesmo durante o sono, eu sonhava.

O despertar naquela manhã não foi tranquilo. Mais chamadas de cobrança, mais ameaças do dono do apartamento, e o peso de uma prova importante na faculdade. Minha sorte foi conseguir uma folga no escritório, e a senhora Gorette, sempre gentil, convidou Gabriel para passear com ela e encontrar os netos, que gostavam tanto dele.

Fiz um café depois de arrumar a bagunça em casa e me sentei em frente ao laptop para estudar, mas a minha paz durou pouco. A campainha soou.

Meu coração disparou. Levantei-me devagar, imaginando ser algum cobrador, ou pior, Charles tentando me assediar mais uma vez. Fui até a porta e olhei pelo olho mágico. Do outro lado, como uma sombra fria, estava a senhora Corine, a assistente social. Seus óculos refletiam a luz do corredor. Fiquei tentada a não abrir, mas não podia correr dela para sempre.

Abri, e ela me encarou de cima a baixo, limpando a garganta.

- Bom dia, senhorita Karen, estou à sua procura já faz uma semana. Nunca está disponível para que eu visite este apartamento, nem para falarmos sobre a sua situação...

- Bom dia. Me desculpe, andei muito ocupada com o trabalho, a faculdade e em cuidar de Gab. Por favor, entre, posso oferecer...

- Isto é a vida de um adulto com filhos, por isso acho que você não está adaptada para tal responsabilidade. É muito jovem. - Interrompeu, entrando sem cerimônia e analisando tudo ao redor, sua voz venenosa disparando julgamentos.

- Poderia ser mãe dele pela minha idade. Não vejo sentido em sua fala. Muitas meninas jovens engravidam e...

- Sim. E a maioria delas não consegue sustentar os filhos ou para de estudar.

O preconceito em sua voz me feriu como uma lâmina. A vontade era bater à porta em sua cara, mas o risco de ela voltar com a polícia e arrancar Gabriel de mim me fez engolir a raiva.

- Temos visões diferentes, mas entendo o seu ponto de vista, senhora Corine. - Respondi, controlando o tom.

- O cheiro de mofo aqui dentro é desagradável. Não faz bem para a saúde de uma criança. - continuou, erguendo o nariz enquanto caminhava pelo apartamento como se fosse bem-vinda.

- Já reclamei para o proprietário, mas nada foi feito. Mesmo assim limpei tudo com cândida e produtos específicos. Assim que conseguir um emprego melhor, vamos nos mudar.

- Sonhos não se realizam se você não se mover, senhorita.

Jamais havia odiado tanto alguém. Pedi perdão mentalmente aos meus pais, porque eles não me criaram para cultivar ódio. Mas era impossível nutrir simpatia por aquela criatura cruel.

Ela retirou papéis da pasta, anotando em sua prancheta com expressão dura, indiferente ao meu estado. Não estava interessada em me ouvir, nem em ajudar. O sistema só queria arrancar o meu garotinho de mim.

- Estou me empenhando. Estou esperando respostas nos próximos dias...

- Seu tempo acabou.

- Não, por favor... - o choro de desespero rompeu sem trégua. - Não pode fazer isso, não pode nos separar.

- Onde está a criança? Vou falar com ele e chamarei a equipe para levá-lo ao abrigo.

- Ele está em um passeio com a minha vizinha.

- Uma estranha?

- Ela é minha vizinha, ex-professora de jardim de infância. Os netos dela moram a duas quadras, sempre brincam com Gab.

- Gorette?

- Sim. É ela quem nos ajuda.

- Ela é voluntária no abrigo, eu a conheço bem.

Ao menos uma boa notícia. Se ela conhecia a senhora Gorette, que sempre demonstrou tanto carinho por nós, talvez não me acusasse de negligência ou de qualquer outra falha que já estivesse planejando para me prejudicar. Respirei fundo, reunindo coragem, e tentei virar a situação a meu favor:

- Por favor, me dê mais tempo. Tem que haver outro jeito...

- Lamento, mas não existe outra solução. - Sua voz foi cortante. - Você tem um emprego com salário insuficiente para todas as despesas. Se não provar estabilidade, não terá como manter a guarda do menino. Sem falar neste lugar...

- Por favor... - minhas mãos tremiam, o papel que ela me entregava quase se rasgando entre meus dedos. - Dê-me mais tempo. Ele é apenas uma criança. Perdemos nossos pais, somos só nós dois. Não pode nos separar...

As lágrimas caíram sem permissão, encharcando meu casaco gasto. Num impulso, segurei o braço dela, implorando como uma condenada à beira do abismo.

- Já lhe dei um mês. - respondeu seca, afastando-se do meu toque. - No máximo, mais uma semana. Encontre um emprego. Não o deixe sozinho. Estou fazendo isto apenas por um favor a Gorette, deixe a ela minhas lembranças.

Não agradeci e nem falei mais nada, fixando no último tempo que me restava: Uma semana.

As palavras ecoaram como uma sentença de morte.

Fiquei parada à porta depois que ela se foi, sem forças, como se tivesse perdido também a dignidade ao me humilhar diante daquela mulher. Vergonha e desespero se misturavam no meu peito, mas o pior era o medo. Medo de que, por mais que eu lutasse, levassem Gabriel de mim.

Sob o olhar dele...

Meses antes do encontro com ela...

Tudo parecia ruir. Sempre tive o controle, e agora via o que construí vacilar por causa de uma traição ridícula. Só podia ser uma piada amarga.

- Esqueça isso... - Rino, meu primo, me encarou com seriedade.

- Foi uma maldita traição...

- Você nem gosta dela, não vejo dessa forma. - Meu irmão, ao contrário de Rino, riu, sempre pronto para transformar tragédia em piada.

- Você sabe que precisamos dessa fusão. É a chance de expandir os negócios da família. Estava tudo certo, era só ela aceitar, assinar os papéis...

- Sério? Você não percebe o que ela realmente queria? Você. - Ele fez sinal para o garçom, que trouxe outra garrafa do melhor uísque da casa.

Não era a primeira vez deles ali, mas para mim era.

- Ela queria ficar comigo. Estou com ela faz tempo...

- Justamente por isso. Ela queria casamento, queria ser sua esposa. - Rino sorriu.

- Não estou interessado em me casar. Se ela pensa que vai me atingir dessa maneira, está enganada.

- E o que pretende fazer?

- Duvido que você tenha coragem de entrar no dia da cerimônia e impedir o casamento declarando o seu amor. - Zombou meu irmão.

Amor? Ele realmente estava rindo. Sabia que eu não acreditava nesses sentimentos. Meu objetivo era vencer, conquistar mais poder, acumular ainda mais. A empresa da nossa família deveria ser a maior do mundo, e não seriam os caprichos da minha ex-namorada que me fariam ceder. Sempre tive tudo sob controle. Nunca admitiria perder, principalmente com tanto em jogo.

- Acho que ela realmente pode ter se apaixonado... - mais uma vez meu irmão riu da situação.

- Ela me ama. Está apaixonada por mim. Sou o melhor partido da cidade, na verdade, do país.

- Sim, o rei da modéstia. - Rino ergueu o copo em nossa direção.

- Apenas sou realista. Agora me diga, qual é a sua ideia para expandir sua parte?

- Tecnologia. Estou apostando em máquinas novas vindas do Japão. O único empecilho é o meu pai, você sabe...

- Ele quer você casado e com filhos. Que vida triste a de vocês, prestes a subir ao altar. Eu prefiro minha vida de solteiro, justamente por isso... - meu irmão apontou para a ruiva de vestido provocante que o chamava para dançar.

- Eu não vou subir ao altar, mas você vai precisar, se quiser convencer seu pai...

- Não mesmo. Não sou avesso ao casamento como vocês, mas não quero fazer isso por obrigação, por negócios. Se eu não puder acessar o fundo fiduciário, paciência. Mas vou tentar resolver de outra maneira. Gilbert me indicou algo... ainda estou pensando.

- O que seria?

- Um casamento por contrato...

- E você vai contratar alguém e correr o risco de ser uma alpinista ou de vender a história para o primeiro jornalista? - tentei alertá-lo da loucura que pretendia.

- Não, seria algo bem seguro. Existe um site de acompanhantes de luxo. - Ele colocou um cartão na mesa e continuou: - Está acostumado a contratar as garotas. O sigilo é respeitado, e elas trabalham com contratos que garantem segurança para ambos.

- Vai contratar uma garota de programa?

- Não são garotas de programa, são acompanhantes...

- Rino, uma mulher que oferece o corpo por dinheiro não tem outro nome. Você está arriscando...

- Não há necessidade de existir sexo durante a farsa. Exigirei isso. - Afirmou, já convencido da loucura que cometeria.

- Posso apenas desejar sorte. Se precisar de dinheiro para os negócios, eu...

- Você sabe que não se trata apenas de dinheiro. Se trata do que tenho direito. Minha mãe merece que eu assuma tudo.

Entendia a dor dele, mas só podia esperar que estivesse tomando a decisão certa. O telefone tocou, e Rino se levantou para atender. Peguei o copo e dei mais um gole. Eu precisava de álcool, precisava de ideias para trazer minha ex de volta.

Meu olhar se prendeu ao cartão que Rino havia deixado sobre a mesa. O nome da boate estava gravado em letras vermelhas sobre o fundo escuro, discreto, sem imagens vulgares. Por impulso, peguei o telefone e digitei o endereço do site.

O catálogo se abriu diante de mim. Mulheres perfeitas, belas como modelos de passarela. Passei por algumas fotos, sem paciência. Belas, sim. Mas vazias. Não era o que eu procurava. Na verdade, nem eu mesmo sabia o que procurava.

Até que um detalhe me fez parar.

A beleza estonteante estava ali, mas foi a descrição que me prendeu. Havia algo diferente nela, algo que me fez voltar à página e ler de novo.

Talvez a ideia de Rino não fosse tão ruim assim. Talvez eu pudesse fazer o mesmo, mas não para um casamento. Isto faria a minha ex repensar seu joguinho e voltar correndo, implorando pelo meu perdão, me dando assim vantagem para minhas exigências no nosso acordo comercial.

Olhei novamente para a foto no site. Os longos cabelos negros caíam em ondas, e os olhos misteriosos, escondidos atrás de uma máscara veneziana, pareciam atravessar a tela. Entre tantas mulheres que exibiam seus rostos com desinibição, ela era a única que preferia o anonimato. E justamente por isso se destacava.

Não ela. Havia algo diferente. Além da descrição que exaltava não apenas a aparência, mas também o intelecto, a sua beleza era desarmante, quase perigosa. Havia nela um mistério que me provocava, como se desafiasse qualquer um a querer descobri-la.

Rapidamente digitei uma mensagem no celular e, em seguida, liguei para Carlo.

- Acabei de receber sua mensagem. Quer que eu descubra tudo sobre ela... - respondeu de imediato, como sempre.

- Sim. Preciso saber cada passo dela. O principal: preciso ter certeza de que não é uma alpinista social...

- Tudo bem, considere feito. Mas preciso de tempo, ando resolvendo coisas para a sua família e tenho prazos nos próximos dias...

- Rino falou com você. Suponho que pediu a mesma coisa.

- Sim...

Um incômodo me atravessou no mesmo instante. Estaria meu primo interessado na mesma mulher que eu? Se fosse o caso, eu ofereceria mais. Para mim, aquilo não era sobre desejo, era sobre negócios. E negócios eu nunca perdia.

- Ele pediu informações sobre ela?

- Na verdade, não. O interesse dele é pela proprietária do lugar. Mas já o alertei: ela está presa em um casamento abusivo e tóxico...

Não sabia se ficava aliviado ou preocupado. Rino era o tipo que adorava posar de herói. Se alimentava do papel de salvador. Se nutrisse algum interesse por aquela mulher, saber que ela estava em apuros o levaria a complicações ainda maiores do que as que já tinha.

- Tudo bem. Cuide primeiro do que ele pediu, depois do que eu necessito.

- Não vai levar muito. Semana que vem você terá todas as informações sobre a sua garota.

Despedimo-nos e desliguei. Fiquei com aquela última frase ecoando em minha mente: minha garota. Ela não era minha. Era uma desconhecida, uma mulher misteriosa que eu usaria para os meus propósitos. E, ainda assim, havia algo nela que já me fascinava. Uma fagulha de curiosidade que eu não deveria sentir, mas que me prendia como um vício.

Capítulo 3 Capítulo 2

Não sabia como agradecer Alana, ela estava me consolando fazia um tempo. Depois de uma crise de choro no banheiro da faculdade, me vi desabando em seus braços, confessando todas as contas acumuladas e a ameaça da assistente social.

- Ao menos você está mais calma. Viu? O chocolate quente ajuda em tudo...

- Não sei como te agradecer...

- Já estive em dificuldades como você, e alguém me estendeu a mão. Agora é a minha vez de fazer o mesmo.

Seu olhar tinha aquela ternura que me desmontava.

- Assim que eu conseguir outro emprego, vou te devolver o dinheiro que me emprestou para pagar as contas atrasadas.

- Não se preocupe com isso. Pense em se recompor, em se concentrar no que deseja para o futuro. Lute por isso.

- Se eu conseguir pagar todas as contas e cuidar dele já me sentirei realizada. Já não sonho como antes...

- Pois não deve se limitar a isso. - Ela alisou a minha mão sobre a mesa, firme. - Precisa ter ambição, continuar sonhando, agindo.

Engoli em seco.

- Me sinto tão frustrada, tão falida... um fracasso. Se meus pais estivessem aqui... - as palavras se quebraram junto com a dor que me sufocava.

- Sinto muito, querida. Mas não pense no que a vida te tirou. Foque suas forças no que ainda pode conquistar.

- Obrigada, Alana.

Ela sorriu, mas logo o sorriso se apagou. O rosto ficou sério, pensativo, como se estivesse decidindo se deveria ou não revelar algo.

- Sei de um jeito para você se organizar, sair da mira da assistente social.

Meu coração acelerou. Estava disposta a qualquer coisa que me tirasse daquela espiral de desespero.

- Desde que não seja ilegal... - brinquei, tentando aliviar o peso da conversa, mas na verdade implorando para que ela continuasse.

- Não é ilegal. - Ela baixou o tom, os olhos buscando os meus. - Estou confiando em você. Contar isso me custa muito... ninguém sabe do meu segredo.

Assenti e apertei a mão dela em cumplicidade. Ela respirou fundo antes de continuar:

- Trabalho em uma boate. Uma agência de acompanhantes de luxo. Ganhamos muito bem e...

De repente tudo fez sentido. A mudança drástica, o fim da exaustão de quem vivia de dois empregos, o jeito como ela passou a se vestir melhor, a tranquilidade em sua vida.

- Alana... eu... não sei se conseguiria ir para a cama com...

- Não se preocupe. - Interrompeu com segurança. - Você pode escolher. Se aceitar sexo, cobra mais. Mas em teoria, nosso papel é fazer companhia. Conversa na boate, drinks que eram preparados sem álcool para nós, jantares, eventos, festas, até coisas simples como um cinema. Atendemos um público exclusivo, com muito dinheiro. Se não gostar do cliente ou se ele passar dos limites, você é retirada imediatamente. Se ele desrespeitar alguém, perde o acesso para sempre.

- Não sei... - murmurei. Não era uma santa puritana, mas a ideia de me vender parecia humilhante. Embora... a vida que eu levava ultimamente também era.

- Pense. - Ela tirou um cartão da bolsa e colocou sobre a mesa. - É da proprietária. Se decidir, ligue. Marcaremos um encontro para conversarem. Não vai se arrepender. Você sabe como eu vivia no começo da faculdade. Agora tenho uma vida confortável, a faculdade está paga. Estou juntando dinheiro para abrir meu próprio negócio em breve.

- Fico feliz por você, de verdade. - Respondi com sinceridade. - Agradeço sua confiança, sua ajuda, e quanto ao convite, vou pensar.

Ela sorriu e me puxou para um abraço apertado. Era minha única amiga desde que havíamos nos mudado para aquela cidade, na época do tratamento da minha mãe.

A saudade me atingiu como uma maré alta. A dor de não ter mais ninguém para dividir meus pesos era sufocante. Éramos só nós, e agora restávamos apenas em dois.

....

Dias depois...

A febre havia aumentado de forma assustadora. O corpo dele tremia, os olhos turvos se perdiam em delírios que me faziam estremecer. No hospital público, a espera era interminável, sem qualquer previsão de atendimento. Ali, no hospital particular, tudo custava caro demais, mas pelo menos havia um médico o examinando.

- Então...? - perguntei com a voz trêmula, a aflição me corroendo por dentro.

- Ficaram expostos ao frio por muito tempo?

Assenti em silêncio. Mentir não adiantaria de nada.

- E como anda a alimentação dele? - a pergunta veio como uma facada.

Engoli seco.

- Não está sendo como deveria... - admiti, sentindo o olhar julgador pousar sobre mim. - Estamos em dificuldades financeiras, não temos como comprar tudo o que seria ideal.

O médico suspirou, abaixou a cabeça e prosseguiu com o exame, verificando a cor dos olhos, controlando a respiração fraca.

- Também ficou exposto a mofo?

Meu peito ardeu de culpa. Assenti outra vez. Mais uma falha, mais um fardo que eu havia colocado sobre seus ombros frágeis.

- Imaginei. - Murmurou, por fim. - Infelizmente teremos que interná-lo. Está com uma infecção respiratória grave, pneumonia. Se não tratarmos agora, pode se agravar.

O mundo pareceu girar. O desespero me tomou de assalto, tanto pelo estado dele quanto pelas consequências de tudo aquilo. Financeiras, emocionais, sociais. A consulta já custava mais do que eu poderia pagar. A internação e o tratamento seriam um abismo ainda maior.

Olhei para o corpo pequeno tremendo sob o lençol do hospital e a culpa me esmagou. Eu havia falhado. Eu havia permitido que chegássemos àquele ponto.

- Faça tudo o que for preciso. Custe o que custar. - Implorei.

O médico assentiu, e uma mão apertou meu ombro. Gorette estava ali, oferecendo o conforto que eu não conseguia encontrar em mim mesma.

- Pode ficar, eu... - comecei.

- Vá, querida. - Interrompeu com firmeza. - Vai se atrasar no trabalho. Eu cuido de tudo, não se preocupe.

Abracei-a com força, grata por sua existência. Sem ela, eu já teria perdido a guarda dele há muito tempo.

Saí do hospital com passos pesados, caminhando até o carro velho. Olhei para aquela lata enferrujada e pensei em vendê-la, mas sabia a verdade: não valeria nem o suficiente para uma compra de supermercado. Entrei, desabei sobre o volante e deixei que as lágrimas me engolissem de uma vez por todas.

Tudo estava piorando. O tempo que a assistente social havia me dado se encurtava. Se ela soubesse do que estava acontecendo, certamente me arrancaria o que eu mais amava.

Enxuguei o rosto às pressas, girei a chave, mas o carro apenas tossiu e morreu. Golpe final. Como se a vida debochasse de mim.

No mesmo instante, o telefone vibrou. Atendi sem olhar.

- Você está atrasada! Borges não está na empresa e você já aproveitando disso? - a voz arrogante me fez cerrar os olhos. O irmão do meu chefe.

- Meu carro quebrou. Estou saindo do hospital, eu avisei...

- Não me interessam os seus dramas pessoais, garota. Quero você aqui em quinze minutos ou estará demitida! - e desligou sem me dar chance de resposta.

A raiva queimou em minhas veias. Enfiei o celular de volta na bolsa, pronta para correr até o ponto de ônibus. Mas então meus dedos tocaram o cartão que Alana havia me dado. O nome da boate reluzia em vermelho sobre o fundo escuro.

Era isso ou perder tudo. Ela havia prometido que seria uma saída, e talvez fosse a única. Meu coração disparou enquanto discava o número anotado atrás do cartão. O som da chamada ecoou como uma sentença.

Quando a voz do outro lado respondeu, me apresentei. Naquele instante compreendi: não havia mais volta. Faria o que fosse preciso para escapar daquela miséria. Mesmo que isto significasse me tornar uma acompanhante de luxo.

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