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As duas faces do meu chefe

As duas faces do meu chefe

Autor:: Mainy
Gênero: Romance
Hana Ravallo sempre foi uma mulher exemplar, uma mãe maravilhosa que dedicou toda a sua vida a Daisy, sua filha. O que Hana nunca imaginou foi presenciar seu marido a traído. Mergulhada na dor da traição e do abandono se viu obrigada a buscar novos meios para criar sua filha, mas o que ela nunca imaginou foi ser aceita em uma das maiores produtoras e exportadoras de vinho do Rio de Janeiro, a empresa Drevitch. Layonel Lincoln Drevitch é CEO da maior indústria de vinho do Rio de Janeiro e apesar de amar o cargo que exercer, oculta do mundo, segredos que o abalam diariamente. Com um passado conturbado e uma imagem a zelar, finge ser um homem que não é, escondendo-se atrás de ternos feito sob medida e uma vida de luxo que ele nem mesmo se importo, mas isso muda quando uma linda mulher de olhos cor de mel balança seu mundo construído de aparências.

Capítulo 1 Prólogo

Frase

Saboreiem do amor tudo o que um homem sóbrio saboreia do vinho, mas não se embebedem.

- Alfred de Musset

Prólogo

Sete meses antes.

A vésperas de Natal combinei com Jana de irmos ao shopping, o Rio estava movimentado, as ruas cheias de pedestres em busca dos preparativos para ceia, mas esse ano tive a brilhante ideia de comprar uma árvore de natal maior, pois queria proporcionar a Daisy uma nova experiência, enfeitar nossa casa com mais luzes e colocar os presentes embaixo da árvore. Ivan não gostou muito da ideia, disse que são coisas desnecessárias, gasto de dinheiro atoa para um dia que passará tão rápido, mas tenho certeza que nossa filha irá amar a surpresa.

Claro que não discordo com o fato de ser um gasto a mais, mas não considero desnecessário como Ivan diz, sempre amei a época de natal e para mim é um dos melhores feriados do ano por isso quero que Daisy tenha essa mesma sensação de amor, paz e prosperidade, mas para Ivan tudo isso é irrelevante, para ser sincera nossas brigas têm se tornado frequente e a cada dia que se passa ele está mais distante.

Ivan sempre foi um homem amoroso, carinhoso e gentil, gostava de sair e passear, levar nossa filha em um pequeno ressorte a alguns quilômetros do Rio, uma fazenda aconchegante, mas nos últimos três meses as coisas estão bem diferentes, sua mudança brusca de humor as vezes me assusta e sinceramente não sei ao certo o que devo fazer quanto a isso, mas sinto falta do homem que ele já foi, pois ultimamente as coisas estão de ponta cabeça e talvez esse seja o motivo maior de querer tornar nosso natal ainda mais especial, mostrar para Ivan a família linda que ele tem.

Jana e eu aproveitamos as compras no shopping o máximo que podíamos, compramos tudo que uma boa árvore de natal precisa e acredito que Daisy se encantará com os pequenos enfeites de papai noel que compramos, além das luzes coloridas para enfeitar a árvore e deixa-la ainda mais bela, tenho certeza que os olhos da minha menina irão brilhar de alegria e ansiedade ao nós ajudar a montar tudo.

Mesmo ansiosa para chegar em casa e começar os preparativos junto a Daisy, resolvo fazer uma surpresa para Ivan na tentativa de reconciliar a briga que tivemos ontem à noite. Deixando Jana em sua casa sigo para a livraria que vem se destacando entre os comércios da cidade, a Mr. Book ainda é pequena, mas vem se destacando entre as outras por ter um espaço aconchegante e silencioso para os leitores usufruírem por tempo ilimitado. Faço questão de ajeitar meus cabelos, passar um batom suave nos lábios e retocar a maquiagem, queria estar apresentável, até mesmo abusei do salto alto está tarde como apelo, pois sei que Ivan adora.

Ao chegar sou recepcionada por Amanda que cuida da limpeza, acho estranho ela estar no lugar da secretaria, mas resolvo não questionar, afinal, talvez Karina precisou ir em algum lugar.

-Senhora, posso ajuda-la? –Pergunta com um sorriso no rosto, mas visivelmente inquieta.

-Amanda, tudo bem? Karina precisou sair? –Questiono e ela aperta as mãos em um sinal de desconforto.

-Ela só me pediu para ficar no lugar dela por alguns minutos.

-Tudo bem, você saberia me dizer se Ivan está em reunião?

-Não senhora.

-Por favor me chame de Hana, isso faz com que eu me sinta tão velha. –Acabo rindo e ela concorda ruborizando.

-Me desculpe, Hana. –Ela olha para trás apreensiva e ergo a sobrancelha a observando.

-Aconteceu alguma coisa Amanda? Você parece meio assustada.

-Não é que o senhor está meio ocupado agora, talvez devesse voltar mais tarde. –Sorri sem graça.

-Ivan está no escritório? –Pergunto desconfiada.

-Sim senhora. –Ela desvia o olhar.

-Com quem Amanda? Me diga. –Sinto o nervosismo tomar conta do meu corpo e a sensação desconforto me dominar.

Já desconfiava que ele estivesse me traindo, mas aqui, bem aqui embaixo do meu nariz era demais para mim.

-Pode deixar que eu tiro minhas próprias conclusões. –Afirmo caminhando para os fundos em direção ao escritório de Ivan. O som do meu salto ecoa pelo piso que imita madeira seguindo as batidas frenéticas e descompassadas do meu coração.

Ao meu aproximar escuto barulhos estranhos e gemidos exagerados o que faz meus olhos se enxerem de lágrimas, a dor se espalha por meu peito e tremores de ódio e raiva tomam meu corpo. Apesar das nossas brigas e das minhas desconfianças nunca acreditei que Ivan teria coragem de me trair.

Os sons aumentam e a dor desesperante em meu peito também, as lágrimas já rolavam solta e sei que deveria ir embora, mas algo me impulsionava a ver com meus próprios olhos, a ter a absoluta certeza de que ele realmente estava fazendo aquilo, estava destruindo o nosso casamento, a nossa família por momentos e quando vejo já abri a porta do escritório confirmando com meus próprios olhos o que meus ouvidos já sabiam.

Ivan segurava Karina debruçada sobre a mesa de madeira enquanto movia o quadril com força, os gemidos que ecoam de sua garganta me enojam e o prazer estampado em seu rosto me causa ânsia. O suor escorre do rosto de Ivan enquanto ele segura os cabelos de Karina com força e ódio só cresce em meu peito.

Ódio por todas as nossas brigas, por todas as vezes ele me chamar de louca quando desconfiei dos cheiros de perfumes femininos que vinha em suas camisas, por todos as noites que ele me recusou quando o procurei.

-Hana? –Saio do meu torpor quando vejo Ivan procurando as calças e Karina tentando tampar sua nudez com a camisa preta com detalhes vermelhos que eu dei de presente para ele no seu último aniversário.

O ódio que sentia era tanto que minha única vontade era avançar em Ivan e esbofeteá-lo até sentir minhas mãos doerem, entretanto contenho minha raiva fecho a porta e sigo em direção a saída a passos rápidos e descidos.

-Hana minha flor. –Ouço Ivan gritar e bato a porta de entrada com força o deixando lá dentro.

O ódio só aumenta ao ouvir aquele apelido que tinha tanto significado para mim, já que foi escolha dos meus pais por amar a cultura japonesa escolher um nome com esse significado. Sabendo disso, Ivan sempre me chamou de minha flor, confesso que gostava do gesto de carinho e me sentia especial, mas agora o odeio com todas as minhas forças.

Mal vejo os pedestres que caminham e acabo trombando em alguns, as lágrimas embasando minha visão e a dor consumindo cada cantinho do meu coração não colabora em nada. Já estava caminhando a um bom tempo sem rumo e sei que preciso ir para casa, mas deixei o carro no estacionamento da livraria, como não queria voltar até lá para busca-lo chamo o primeiro táxi que vejo passando meu endereço para o homem que me observa com preocupação.

Nessa altura minha maquiagem já estava borrada, o rímel preto escorrido, além da vermelhidão em meus olhos, ignoro aqueles fatos e peço apenas para que ele siga em frente, mas ele insiste em puxar conversa.

-Dia difícil dona? –Questiona me observando pelo retrovisor.

-Você não faz ideia. –Dou um meio sorriso cheio de sarcasmo, pois "difícil" era apenas apelido para aquela situação caótica.

Com uma expressão de compaixão estampada em seus olhos o motorista segue em silencio e aproveito para me encolher no banco do carro chorando minhas frustrações, lembrando dos bons momentos que tive com Ivan e pensando em como contaria para nossa filha que o pai não moraria mais na mesma casa que nós. O pai que ela tanto venera e que ultimamente tem a ignorado, evitado suas brincadeiras e até mesmo se irritado quando na verdade nossa filha só queria um pouco de atenção.

Ivan não é mais o mesmo homem, não é o homem que conheci aos meus dezoito anos, não é o homem que me fez juras de amor e promessas de uma vida eterna a dois. Ele mudou e posso afirmar que não foi para melhor, muito pelo contrário, pois nossas noites de cinema, sábados no shopping e domingos em família se acabaram e depois de hoje realmente não teria mais volta.

Depois de alguns minutos dentro do carro perdida em pensamentos, finalmente chego em casa, pago o motorista e entro desolada vendo minha pequena garotinha entretida na televisão ao lado de Bárbara sua babá.

Bárbara se levanta ao me ver e franze as sobrancelhas ao me observar naquele estado. Uma enxurrada de pensamentos me invade e quando vejo as lágrimas que haviam cessado tornam a escorrer novamente.

-Aconteceu algo senhora? –Ela pergunta preocupada. –Está passando mal?

Nego com a cabeça e ela continua a me observar caminhando em minha direção.

-Ivan apareceu por aqui? –Pergunto.

-Não senhora. –Afirma e um sentimento de alivio e magoa me consome.

Alivio por saber que ele não tinha aparecido e eu não precisaria vê-lo e magoa pelo mesmo motivo, pois isso só mostra o quanto ele está desinteressado no que construímos e apesar de saber que nossa vida a dois estava de ponta cabeça, que as brigas eram constantes e amor havia esfriado, eu lutei pelo nosso casamento, me arrumei todas as tardes, investi em nós dois, em conversas ignoradas, em tentativas de aproximação frustradas, em lingeries sensuais ignoradas, eu sei que eu tentei e acreditei que seria apenas uma fase ruim que passaria, mas a verdade é que ele já tinha outra.

-Está tudo bem, por favor fique com Daisy por mais um tempo, preciso resolver algumas coisas.

-Claro. –Ela me observa preocupada, mas não insiste no assunto o que eu agradeço, pois não estava com cabeça para explicar tudo o que estava acontecendo, nem com ânimo para ficar cutucando a ferida aberta ao contar para as pessoas, minha própria mente já faz isso com as imagens dos dois nus gravados em minha mente.

Sigo para nosso quarto abrindo a porta do guarda roupa com um ódio tão grande que uma das partes estala, mas não quebra. Sem um pingo de delicadeza junto todas as camisas de Ivan as jogando no chão, esvazio as gavetas e tudo que pertencia a ele fazendo um monte ao lado da cama. Ao terminar pego três sacos de lixo jogando tudo dentro, amarro a boca do saco e jogo na varanda junto com seus sapatos e tudo que pertencia a ele.

Apesar de não saber o que estava acontecendo em detalhes Bárbara entende a situação e me ajuda com a limpeza que iniciei em minha vida. Jogando as roupas de Ivan porta a fora de uma única vez e se possível nunca mais ver sua cara deslavada em minha frente.

Depois de ter dispensado Bárbara, dado janta para Daisy e a aconchegado em meus braços, Ivan apareceu umas três horas depois bêbado, insistindo em entrar para conversarmos quase derrubando a porta da frente com socos insistentes dos quais ignorei.

Daisy que já estava dormindo acordou assustada e perdida. A abraço com carinho apoiando seu rosto em meu peito e tento explicar a situação da melhor maneira possível, mas ela ainda era pequena para entender de fato o que estava acontecendo.

-Mamãe? –Ela me observa com os olhinhos assustados.

-Calma meu amor o papai não queria assustar você volte a dormir que a mamãe já vem. –Sussurro beijando seus cabelos e ela concorda um pouco indecisa.

Sabendo que Ivan não iria embora vou até a porta da frente com vontade de abri-la e esbofetear a cara de Ivan, mas controlo minha raiva interior respirando profundamente.

-Vai embora Ivan.

-Hana abra a porta e vamos conversar. –Sua voz arrastada pelo excesso de bebida me deixa ainda mais irritada.

-Não temos o que conversar, pegue suas roupas e me deixe em paz. Já vi o suficiente por hoje, apenas me deixe em paz e resolveremos tudo isso com o divórcio.

-Você não pode fazer isso Hana. –Ele bate na porta me assustando.

-Você fez sua escolha, apenas pegue suas coisas e resolveremos isso com um advogado. –Afirmo e Ivan não parece muito contente com minha resposta.

-Você vai se arrepender Hana. –Ele grita e apenas saio deixando-o ali.

Ao chegar no quarto Daisy ressonava em silêncio e minha única reação é me deitar ao seu lado abraçando-a com carinho.

Sei que não será fácil o caminho de agora em diante, mas não medirei esforços para conseguir dar o de melhor para minha filha, sendo assim, lutarei pelos nossos direitos e seguirei em frente sem Ivan.

***

-Decreto a divisão dos bens. –A voz imponente do juiz reverbera pelo tribunal encerrando a briga de Ivan em querer a casa que moramos para ele, além de se recusar em dar pensão para filha durante esses sete meses de separação.

A felicidade borbulha em meu peito ao perceber que ganhei aquela causa, mas o olhar de fúria que Ivan me direciona percorre minha pele como calafrios. Ele não consegue esconder o ódio por trás de seus olhos ao me ver tomando metade de seus bens, não que fossem muitos, mas dava para comprar uma casa boa e seguir em frente com nossa filha.

Juan, meu advogado me abraça animado por termos ganho e vejo Ivan serrar os punhos irritado com a atual situação em que se encontra, mas o ignoro comemorando minha vitória.

-Demorou mais do que prevíamos, mas conseguimos acabar com tudo isso. –Ivan sorri apoiando a mão em meu ombro.

-Obrigada pela ajuda, obrigada por lutar por mim e pela minha filha. –Agradeço de coração, pois todos aquelas que achei que fossem amigos virou as costas no momento em que mais precisei e é exatamente nesses momentos que sinto saudades dos meus avôs e dos meus pais, pois sei que eles estariam comigo nessa fase difícil, mas infelizmente o que resta são apenas lembranças e saudades.

-Que isso Hana estou apenas fazendo o meu trabalho, além disso Ivan só cavou a própria cova não pagando a pensão de Daisy.

- Aguentei por três anos humilhações e chacotas por medo de não conseguir criar minha filha sozinha, mas tudo nessa vida tem um limite e pegar Ivan com a secretaria foi o meu. Sei que ele está com ódio por ter que dividir tudo, inclusive a livraria que estava crescendo, mas a culpa é totalmente dele e não minha. –Afirmo.

-Não fique pensando sobre essas coisas, você pode comprar a casa agora e estou realmente feliz por isso.

-Sim, não pagar aluguel já um ótimo começo, mas Daisy sente muito a falta do pai, isso me entristece sabe? Vê-la pedindo por ele, mas Ivan tem ignorado todas as minhas ligações para pelo menos ver a filha. –Falo com pesar e Juan solta o ar com força.

-Não vamos pensar sobre isso, apenas vamos comemorar sua vitória. –Ele sorri apertando a mão em meu ombro em conforto.

Concordo sorrindo e assim como Juan disse comprarei uma boa casa em um bairro familiar que não apresentasse riscos para mim filha, não sobraria muito dinheiro depois desse investimento, mas nos manteria bem por alguns meses até que finalmente conseguisse um emprego para suprir as nossas necessidades.

Capítulo 2 1 Capítulo

-Preparada para entrevista com o chefe Hana? –Daiana se apoia em minha bancada com um grande sorriso no rosto.

-Um pouco ansiosa eu diria. –Confesso encolhendo os ombros.

-No seu lugar eu também estaria, todos dizem que ele é ainda mais lindo pessoalmente, porém ainda mais exigente. –Ela faz uma careta e acabo a seguindo.

-Não quero ficar pensando nesses especulações e falatórios Ane. –Solto o ar com força usando o apelido que todos usavam para ela.

-Pare de ser boba, você vai tirar de letra e além do mais você merece. Acho que de todas nesse andar, você é a que realmente merece essa nova oportunidade.

-Obrigada. –Sorrio agradecida, pois realmente me esforçava de verdade para mostrar minhas qualidades, pois bem sei como a procura de um emprego não é fácil.

Apesar de ainda ser jovem, minha falta de experiência e os longos anos sem trabalhar não colaboram com o meu currículo por isso sou grata a oportunidade que me surgiu nessa empresa, afinal trabalhar aqui mesmo que de recepcionista agrega muito meu currículo.

-Não precisa agradecer, sabemos dos seus esforços e de tudo o que passou, além disso você dá seu sangue por essa empresa, tudo que pedem você faz sem reclamações ou objeções até mesmo quando não envolve a área da recepção, nada mais justo do que tentar ocupar o cargo de secretaria ao lado do chefe. –Ela pisca para mim.

-Sabe que não escolhi isso, foi a Giovana que insistiu. Ela disse que como supervisora da nossa equipe tinha que indicar uma de suas funcionárias para o cargo que surgiu como secretaria do chefe, isso foi exigido para todos os departamentos. Não sei ao certo se vou me dar bem, sabe que não gosto muito de me destacar dessa forma, tenho certeza que terei que participar de vários eventos ao lado dele e bom, não me vejo muito nesse papel.

-Para de ser idiota Hana. –Ela praticamente grita na minha cara. –Você e essa história de nem querer se aproximar do chefe, você não aceitou ir na confraternização que teve no final de ano e vou te contar que foi uma maravilha, apesar de que ele não estava lá. –Ela diz decepcionada.

–Mas eu não disse nada sobre isso. –Acabo franzindo as sobrancelhas. –Apenas não gosto de me envolver com o alto escalão, prefiro fazer meu serviço e ponto, assim não tenho nada a perder.

-Bem sei que isso pode te fazer desistir da vaga oferecida. Toda vez que tocamos no fato de Layonel ser lindo, você arruma uma brecha de se esquivar do assunto. Você mal toca no apelido que corre pelos corredores Hana, ou isso é uma paixão platônica ou você tem problemas de visão. –Ela debocha.

-Nossa Daiana como chegamos a essa conversa? Eu só não acho certo ficar murmurando pelos cantos sobre essas coisas. Para mim já basta o emprego e salário que eu tenho, ficar comentando sobre o charme do nosso chefe ou fato dele parecer um nerd por usar óculos de grau, sei lá, não acho isso muito legal. –Faço uma careta.

-Nerd charmoso minha querida amiga, um tremendo de um nerd charmoso. –Ela se abana e reviro os olhos tentando focar no e-mail que precisava responder. –É por isso que Giovana te escolheu Hana, porque você é única que não lambe o chão que ele pisa.

Balanço a cabeça rindo e ela faz a mesma coisa pegando a pasta de novos contratos que chegou para nós para iniciarmos a planilha da semana.

-Vai logo fazer seu trabalho e me deixe fazer o meu, pois estou roendo as unhas para essa entrevista. –Confesso e ela ri ainda mais olhando o relógio.

-Ainda falta duas horas amiga. –Comenta.

-Vai logo fazer seu serviço. –Expulso ela da minha bancada e ela sai gargalhando, mas somente eu sei como foi difícil para mim conseguir esse emprego para desperdiça-lo com fofoca sobre o chefe pelos corredores.

Foram meses de procura e muitos bicos como garçonete que não supria todos os meus gastos com a casa, mas ajudavam a manter a dispensa cheia. Um belo dia passando em frente a uma banca de revistas vi os anúncios de empregos e a empresa Drevitch estava lá. Sabia que era loucura da minha parte tentar, mas o anuncio estava claro eles não exigiam experiência e isso me motivou a enviar o currículo para o RH e aqui estou.

A empresa Drevitch é um prédio de 25 andares, com muitos funcionários e vários departamentos. Temos até mesmo um restaurante dentro do prédio que fica no terceiro andar e eu sinceramente acho isso o máximo. Recebemos vale alimentação que nos permite gastar naquele espaço ou se optarmos sacamos o dinheiro como pagamento, essa é uma empresa que visa o bem-estar e o conforto dos funcionários e isso chamou minha atenção, pois sei que a maioria das empresas não fazem isso.

Já fazem sete meses que estou aqui e fiz muito amigos desde então, os funcionários sempre falam muito bem do senhor Drevitch, tanto do pai como do filho, não que eu me envolva muito, pois não gosto de fofocas e especulações, mas tenho que concordar que eles são boas pessoas apesar de nunca ter conhecido eles pessoalmente e pelo que sei o filho, Layonel, não é muito de aparições em público e deixa essa parte para o pai Zoy Drevitch, mas a poucos meses ele se aposentou e agora tudo está nas mãos do tão famoso e comentado "Nerd charmoso" por isso as mudanças brusca na parte de cima e a contratação de uma nova funcionaria. Para ser sincera não sei se gosto muito disso, mas sei que provavelmente vou gostar do salário oferecido por eles e isso vai me ajudar a proporcionar uma vida ainda melhor para Daisy.

Com o dinheiro do meu emprego, pago as despesas da casa e os remédios para minha filha. Depois da separação, Ivan simplesmente sumiu e não paga pensão o que acaba apertando um pouco a minha situação, pois tenho os gastos com a casa e com nossa filha que por ter apenas seis anos precisa de uma babá para que eu possa trabalhar, por isso jamais foi cansar de agradecer a sorte que tive em conseguir esse prego que me oferece tantos benefícios e um ótimo salário para uma pessoa inexperiente, mas que obviamente tem vontade de aprender e acredito que eles enxergaram isso ou Giovana não teria me indicado para ser a secretaria do chefão.

A princípio pensei em recusar a oferta, pois sei que esse cargo exigirá muito de mim e não posso deixar minha filha sozinha por tanto tempo, apesar de ter Ellen que cuida dela tão bem prezo os poucos momentos que me restam ao final do dia com minha filha, mas tenho que levar em consideração o aumento do meu salário em aceitar essa oferta, apesar de que ainda nem fui aceita e preciso passar pela entrevista junto com as outras garotas selecionadas.

Meu celular desperta sobre a mesa e meu coração dispara no peito sabendo que chegou o momento de subir para a tão esperada entrevista, antes de pegar o elevador, passo no banheiro, arrumo meu cabelo, retoco o batom suave e blush em meu rosto. Quero estar apresentável para entrevista então arrumo minha saia lápis preta e a camisa de manga curta da empresa exigida para todos os funcionários do nosso andar.

A ansiedade e o nervosismo me tomam por completo quando chego no vigésimo quinto andar. Sigo até a recepcionista que estava concentrada em seu computador e quando me aproxima e ela ergue o olhar abrindo um grande sorriso para mim.

-Boa tarde senhorita Hana, pode se sentar e aguardar as outras candidatas, o senhor Drevitch começara em instantes. –Ela indica as poltronas atrás de mim com algumas jovens que eu não conhecia aguardando assim como eu.

-Obrigada! –Agradeço e tomo um assento aguardando e como ela disse não demora para começar.

Meu coração se acelera ainda mais enquanto vejo as possíveis candidatas entrarem pela imensa porta de vidro daquela sala e saírem com expressões triste, olhos lacrimejados e algumas até mesmo chocadas.

Ó Deus... todos diz que esse homem é maravilhoso, mas extremamente profissional e não aceita erros, não posso perder meu emprego por um deslize qualquer.

Suspiro impaciente enquanto o ponteiro do relógio da sala de recepção faz seu incansável tic tac me deixando mais apreensiva e tensa. Tento focar minha atenção nos vasos de flores ao lado das lindas poltronas, mas não conseguia desviar minha atenção da porta.

Nem mesmo a belíssima vista do Rio de Janeiro através das grades janelas panorâmicas conseguem acalmar meus nervos e pelo visto sou a última, pois todas já foram chamadas e única que continua aqui quase colocando o coração para fora do peito sou eu.

-Srta. Ravallo. –Uma voz grossa chama meu nome e um forte calafrio de medo se instala em minha coluna.

Como se fosse possível meu coração dispara me fazendo levantar rapidamente seguindo para a sala com medo do que poderia acontecer, depois de respirar três vezes e ficar parada em frente a porta encarando a maçaneta por segundos finalmente entro e sou completamente surpreendida com o homem que está sentado atrás daquela enorme mesa de carvalho.

Paralisada o encaro por mais tempo do que gostaria, pois acredito ter entrado em curto circuito com a imagem a minha frente.

Quando dizem "nerd" a única imagem que vem em minha mente é um homem magro, com espinhas pelo rosto que usa um óculo de armação grande para segurar a grossura de sua lente de grau, pelo menos é isso que os filmes mostram, mas esse homem é um nível completamente evoluído do sentido "nerd", ele é elegante, poderoso e bonito, muito bonito por sinal.

Confesso que não esperava tamanha beleza pelos apelidos intitulados a ele. Estava esperando um homem de meia idade, carrancudo, com os cabelos grisalhos e óculos de grau pesados e grandes, no entanto me deparo com um homem completamente diferente.

Seus cabelos avermelhados penteados para trás sem um fio fora do lugar mostra o quão perfeccionista ele é. Seus olhos verdes me encaram curiosos, mas aquela barba grande por fazer me surpreende e isso só o deixa ainda mais sexy. Os pelos grossos arruivados e bem aparados emoldurando seu queixo quadrado contornando seus lábios rosados que se destacam entre a barba grande por fazer, seu terno feito sob medida provavelmente escondia seu corpo atlético e bem malhado por trás do tecido de linho puro.

Não vejo o significado da palavra "nerd" nesse homem, muito pelo contrário, ele é completamente sexy, exala luxuria, glamour e poder.

-Srta. Ravallo? Srta. Ravallo? –Me encara com uma sobrancelha arqueada enquanto sou arrancada do meu transe momentâneo e percebo que o encarei por mais tempo do que deveria.

-S.sim? –Gaguejo envergonhada.

Capítulo 3 1.1 Capítulo

Ó céus não posso cometer nenhum erro perante esses olhos críticos que me encaram sedentos e desafiadores.

-Sente-se. –Sua voz autoritária não deixa brechas para discussões ou apresentações desnecessárias.

Rapidamente faço o que foi ordenado para aquela situação não ficar ainda mais constrangedora do que já estava. Ele me observa sem dizer uma única palavra e aquilo só me deixa ainda mais constrangida e inquieta, encarar aqueles olhos selvagens é a mesma coisa de se jogar dentro de uma fornalha ardente e em chamas.

Automaticamente desvio o olhar encarando a réplica de uma Harley Davidson que fica praticamente escondida atrás dos diversos livros de sua prateleira.

A decoração da sala é impecável e masculina, no canto esquerdo uma grande estante com seus diversos livros e ao lado direto um sofá chaise de veludo preto com madeira entalhada a mão, as poltronas vinho a frente quebra um pouco a seriedade do local e a mesinha de centro fica encantadora sobre o tapete felpudo bege. Logo ao lado um bar com vários banquinhos reserva uma grande quantidade de bebidas alcoólicas principalmente vinhos e champanhes.

Um pigarrear chamando a minha atenção novamente e me surpreendo ao vê-lo com um óculo de grau que me leva a lembrar dos murmurinhos pelos corredores.

-Srta. Ravallo estou lhe oferecendo um ótimo cargo como minha secretaria pessoal. Acho importante ressaltar que até o momento todas as candidatas falharam, então realmente espero que as coisas sejam diferentes. O que você tem a me oferecer? –Ele se recosta na cadeira ajeitando o óculo no rosto.

Sua postura cansada e indiferente me incomodado, ele parecia estar fazendo aquela entrevista por pura obrigação sem esperanças de que isso desse certo e automaticamente me sinto instigada a mostrar que posso surpreende-lo.

-Sr. Drevitch a única coisa que posso lhe dizer é que o senhor só saberá tudo o que posso lhe oferecer assim que presenciar o meu trabalho pessoalmente. –Minha voz firme e sem resquícios de duvidas me deixa atordoada.

Como pude dar essa resposta a ele? Não seria mais fácil ter selecionado alguns pontos e oferecido? Porque fui instigada a desafia-lo tão de repente?

Na verdade, sabia o porquê, mas simplesmente não poderia ignorar o fato de que ele estava me tratando apenas como mais uma possível reprovada que não conseguiria o emprego.

Deus, não posso perder meu emprego. Deus, não posso perder meu emprego. Repito essa frase como um mantra sagrado.

Vejo um pequeno sorriso se formar em seus lábios e sinto que esse será meu último dia nessa empresa. Eu simplesmente deveria ter recusado essa proposta e me mantido quieta nos dois primeiros andares, para que subir ao último afinal? Totalmente desnecessário.

Quando vou me desculpa sua voz grossa rompe o silêncio da sala fazendo meu coração saltar em expectativa e medo.

-E esse trabalho pessoal inclui um jantar sexta à noite? Seria maravilhoso presenciar seus serviços de uma maneira especial. –Sua voz rouca e sensual envia um calafrio por todo o meu corpo, mas me encontro tão abismada com aquela oferta indecente de sexo explícito que tenho vontade de lhe acertar o rosto com um tapa.

-O mínimo que eu esperava de um homem com seu status era respeito, mas vejo que seu poder e influência lhe sobem a cabeça. -Respondo seca o encarando com irritação.

Seus olhos surpresos se arregalam e um pequeno sorriso surgem em seus lábios me tirando completamente do sério.

-Fui selecionada para ser sua secretaria pessoal e não seu objeto de sexo. Se o senhor está procurando algo mais quente acredito que deva contratar outra pessoa, pois jamais aceitaria esse tipo de oferta. Jamais me submeteria a algo tão baixo para crescer dentro de uma empresa, se for para subir que seja com o meu próprio esforço e não com o meu corpo. –Me levanto irritada com toda aquela baboseira e a passos largos me encaminho em direção porta.

Quando toco a maçaneta sinto meus olhos queimarem pelas lágrimas ao perceber que estaria no olho da rua e mais uma vez me desdobraria para conseguir um emprego, mas quando estou dando um passo para fora da sala escuto meu nome ser chamado em um tom áspero, rude e autoritário.

Onde merdas está o chefe maravilhoso que escuto pelos corredores dessa empresa? Isso só pode ser brincadeira.

Me viro lentamente olhando para ele com um certo receio, talvez assim eu não perca meu emprego.

Será que eu devo me jogar no chão e implorar por misericórdia?

Talvez essa seja uma ótima ideia.

Como vou comprar os remédios da Daisy?

Eu sou a pior mãe que pode existir, aqueles olhos analíticos me encaram silenciosos enquanto observa meu desespero.

-Srta. Ravallo você está contratada. -Se limita em dizer e naquele momento me sinto tão chocada que simplesmente continuo o encarando sem ter uma resposta.

-Quero você amanhã na minha sala as sete da manhã para passarmos toda a agenda desse mês a limpo. –Ele me olha por cima do óculo com um sorriso vitorioso no rosto. –Parabéns, você foi a única a recusar minha oferta, me sinto grato por isso e de maneira alguma queria lhe ofender.

Meus olhos se arregalam ao ouvir o que diz e naquele momento meu coração estava tão acelerado que eu poderia jurar que enfartaria a qualquer momento.

Ainda não consigo acreditar que fui aceita.

-Obrigada, prometo que o senhor não irá se arrepender. –Fecho a porta rapidamente sem esperar uma segunda resposta com medo que ele reconsidere.

Começo a pular de felicidade no corredor da empresa reprimindo meus gritos de felicidade, eu vou ganhar extremamente bem. A recepcionista me observa com uma sobrancelha erguida como se eu fosse uma louca.

Tento conter a felicidade dentro de mim, mas é difícil quando se estava passando por dificuldades e necessidades dentro de casa. Corro para o andar em que trabalhava para contar a maravilhosa notícia para os meus colegas de trabalho.

Da mesma maneira que estava aflita, eles também estavam aflitos esperando o resultado da reunião. Quando cheguei com a notícia que havia sido aceita eles ficaram felizes, mas ao mesmo tempo tristes e decepcionado por saber que seria transferida para outro andar.

Andar esse que poucos tinham acesso.

O final do expediente foi animado e cheio de fofocas sobre o senhor Drevitch, todos me perguntavam como ele realmente era e não consegui mentir ao dizer que aquele estranho apelido era falso em minha concepção.

Sinceramente ele não se parecia em nada com um nerd, mas charmoso já era uma realidade bem explicita aos olhos da humanidade.

Os murmurinhos e fofocas correrão solto, mas tento ao máximo me manter imparcial sobre todas as perguntas, afinal trabalharia pessoalmente com ele e não seria elegante da minha parte comentar sobre sua personalidade para outros funcionários.

Ao sair da empresa sigo animada para o ponto de ônibus e não vejo a hora de chegar em casa com a maravilhosa novidade a Ellen e Daisy. Elas com certeza ficarão radiantes e animadas com a nova notícia.

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