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Atração Proibida

Atração Proibida

Autor:: S.Hayden
Gênero: Romance
Um homem perdido, que contém no passado, um segredo que o atormenta e faz perder o sono. O faz sentir ódio de si mesmo. Até que sua mente foi tomada por ela. ''Eu a desejava mais do que já desejei qualquer coisa em minha vida. Eu queria Annie. Queria seu corpo, sua alma e seu coração.'' - Kim Whitley Uma mulher, que por mais que suas ações demonstrem como ela ainda é uma menina, seus desejos são intensos e suas emoções adormecidas até ele. ''Eu sentia raiva, mas sentia desejo. O que aquele menino estava fazendo comigo?.'' - Annie Gregor Dois corações com sentimentos intensos e proibidos. Onde o ódio e o amor andam de mãos dadas, capaz de transformar tudo em uma forma turbulenta de amor. Será possível dois opostos, dois sentimentos, transformarem duas pessoas perdidas em uma só? Será o amor capaz de trazer perdão para esses dois corações atormentados? Será que conseguirão viver esse amor antes da vingança de Cambridge chegar até eles? CONTINUA EM ATRAÇÃO SECRETA (ROMANCE DE HELENA E WOLF)

Capítulo 1 Prólogo

Kim Whitley

Não me lembro as horas, nem que dia é hoje. Eu queria muito saber. Não gosto do cheiro da fumaça constante que parece entrar pela janela e pela porta, nem mesmo do barulho dos vizinhos ou dos meus irmãos na sala. Não aguentava mais Christina batendo na porta a cada cinco minutos para ter certeza de que eu estava vivo e odiava ainda mais saber que tínhamos que partir em breve. Eu não gostava da ideia de partir, deixar ele aqui sozinho, sem família e sem amigos. Mesmo que, de certa forma, éramos os culpados por deixá-lo aqui. Ou talvez apenas eu fosse.

- Kim, ele chegou - grita Christina do outro lado da porta do meu quarto. Eu não gostava daquilo, mas agora parecia a única alternativa que restava para mim e meus irmãos.

Pego minha pequena mala, e por fim, a única foto que restou da nossa família completa. Olho uma última vez para algo que eu tive e que jamais terei novamente: uma família completa e feliz. Saio pela porta carregando apenas dor e algumas lágrimas ainda não derramadas.

Desço as escadas do meu quarto com medo de olhar para o lado e vê-lo me observando como fazia. Sempre procurando por detalhes de tramas futuras, mas sempre sem achar nada e cedendo a um jogo na rua de bola, ou a uma partida sem-fim de Monopoly.

- Temos mesmo que ir? - pergunta Helena assim que me vê descendo as escadas.

- É o melhor para nós - respondo baixo tentando acreditar em algo que eu discordava, porém, que tinha que aceitar calado. Não tinha idade, era o que a mamãe vinha repetindo nas últimas semanas todas às vezes em que tentávamos, em vão, fazê-la desistir de nos dar de bandeja. Era sempre o mesmo discurso.

"Eu não tenho mais idade para perder meu tempo com vocês. Dar tudo o que vocês precisam está longe do meu alcance, esse homem tem dinheiro e quer vocês. É o melhor para vocês."

Era só isso que ela dizia. Sempre repetindo a mesma coisa sem mudar nada e sem explicar o motivo daquele homem querer nossa guarda. Principalmente em como ele havia conseguido autorização judicial para isso com tanta rapidez, mesmo em um país tão rígido como Londres.

Observo a enorme picape a nossa espera, assim como observo todo o caminho até ao aeroporto. Faz dias em que eu evitava olhar para Christina, encará-la depois do que eu disse, vi e fiz. Era como olhar para ele e ver tudo acontecendo novamente.

O motorista da picape abre a porta e descemos um por um. Seguro a mão de Helena, enquanto observo o pequeno, porém, bonito avião à nossa frente.

- Este é um dos meus pequenos bebês. Espero que vocês gostem.

Olho para o homem à minha frente. Ele estava de terno e óculos escuros. Não havia dito nenhuma palavra a mim, a Helena ou a Evan. Ele falava apenas com Christina, ela sempre foi nossa responsável, mesmo não tendo idade. E sempre pensei que continuaria sendo, mesmo depois de tudo o que passamos. Pensei que continuaríamos juntos para onde quer que aquele homem nos levasse, o que infelizmente não aconteceu. Nossa família tinha se perdido no momento em que entramos naquele avião, apenas ainda não tínhamos consciência disso.

Capítulo 2 Sentimentos

Ponto de vista: Annie Gregor

Não aguento mais tanto barulho. Kim mal acabou de chegar da rua e já ligou aquele som alto terrível. Se ele escutasse só para si, eu não teria nenhum problema, mas é como se ele quisesse que a casa inteira ouvisse o seu péssimo gosto musical. Eu não estou suportando, minha cabeça parece que vai explodir.

Levanto-me da cama e saio em direção ao seu quarto que para meu azar, é ao lado do meu. Educadamente bato na porta tentando ter um pouco de civilidade, mas ninguém responde. Toco a maçaneta e abro a porta tendo sorte ao encontrá-la destrancada e o azar ao dar de cara com o Kim, deitado sem camisa e com a mão dentro da cueca boxer, num movimento de sobe e desce sobre o seu membro.

- Oh, meu Deus!

- O que você está fazendo aqui?! - grita Kim, levantando-se assim que nota a minha presença sem ter a decência de arrumar a cueca ao se aproximar de mim.

Eu não consigo me mexer, meu Deus! Ele estava se... Meu Deus! PUTA QUE PARIU!

- O que você está fazendo aqui? - repete a pergunta, dessa vez parado à minha frente. Ele aponta para porta que está bem atrás de mim. - Saia agora do meu quarto!

Olho para ele e depois para a cama, sem conseguir tirar a cena que acabou de acontecer na minha frente. Desço meu olhar até sua cueca e vejo a protuberância mais do que evidente, que me faz imediatamente subir o olhar. Estou completamente paralisada sem conseguir mexer um músculo. Enquanto ele continua gritando comigo para sair, tento mandar meu cérebro voltar a pensar com razão, mas tudo que ele vê é a mão de Kim subindo e descendo, subindo e... Puta que pariu!

- Está maluco! - grito quando Kim me empurra para o lado, me tirando da frente da porta.

Ele segura meu braço fortemente enquanto prensa o meu corpo contra a parede, fazendo finalmente meu cérebro voltar à razão trazendo minhas palavras de volta com seu gesto bruto.

- Me solta, Kim! - digo, puxando meu braço do seu aperto em um gesto que só o faz apertar mais, trazendo uma sensação de dor.

- Você não sabe bater? - especula furioso.

- Eu bati, mas você estava ocupado demais para escutar - retruco com um sorriso no rosto, finalmente me recompondo. A porta está a poucos centímetros e por mais que esteja fechada, não está trancada. Se alguém nos escutar ou se meu pai escutar a nossa discussão, estarei em maus lençóis.

Seu olhar irritado e seu aperto forte em meu braço faz minha atenção voltar novamente para ele. Seu rosto parece estar mais próximo, porque agora nossos narizes estão quase se tocando. Minha respiração está unida com a sua em uma só, meus seios tocando seu peito musculoso que pela primeira vez, percebo ser firme como uma rocha. Uma vontade estranha nasce em mim, uma vontade louca de tocá-lo.

Minha mão coça, meus olhos estão focados nas piscinas azuis do olhar de Kim e tento manter este contato, mas é impossível quando sinto sua ereção tocar meu quadril. Não sei se ele percebe o quão perto está. Abaixo meu olhar uma segunda vez, observando sua ereção levantada para cima se esfregando em meu quadril, deixando cada batida do meu coração descompassado. Kim pega em meu queixo trazendo meus olhos de volta para ele.

- Nunca. Mais. Entre. No. Meu. Quarto. Sem. Bater. Entendeu? - rosna praticamente encostando seus lábios nos meus. - Entendeu? - pergunta novamente.

Não consigo responder, mais uma vez as palavras sumiram. Eu só consigo olhar em seus olhos, em sua boca que está tão perto, que quase consigo sentir seus lábios que parecem tão macios.

"Queria muito poder senti-los." penso.

Repasso todos os momentos desde o dia em que nos conhecemos, e não lembro de ter ficado tão perto de Kim dessa forma. Até mesmo em todas as nossas brigas mais recentes, onde parecia que estávamos sendo puxados em direção ao outro. E a cada puxão, mais nos distanciávamos. Nunca chegamos nessa situação, éramos como dois animais enjaulados e feridos, querendo apenas a cura para nossos machucados.

Entretanto, agora ele está colado a mim e parece que pela primeira vez, não quer se afastar. Seus olhos ainda transmitem uma raiva profunda, mas seus lábios, peito e corpo inteiro me transmite um choque de puro desejo e atração. Uma atração proibida.

É isso o que ele é para mim: proibido.

Odiamos um ao outro, mesmo que nossos corpos digam o oposto. Respiro fundo, pensando e repassando como um mantra todas as nossas brigas. Volto a mim, trazendo as palavras de volta para minha boca transformando o desejo que estou sentindo em algo que eu já conheço.

- Quem você pensa que é para mandar em mim? - pergunto provocando com a voz baixa, mas, ao mesmo tempo, ameaçadora. - Você, em primeiro lugar, deveria trancar a porta antes de começar a fazer aquela coisa nojenta. E, em segundo, não deveria estar com essa música no último volume. Porque, além de você, existem outras pessoas que moram nessa casa, que precisam descansar e que não são obrigados a escutar seu péssimo gosto.

Minhas palavras causam o efeito que eu queria, deixando um vazio grande e frio me rodeando quando seu corpo se afasta. Desejo e razão estão se debatendo em minha cabeça, causando uma grande confusão em minha mente.

Volto a minha atenção para Kim e o observo sentar na cama com um sorriso de lado no rosto.

- Você gostou de me ver daquele jeito, não é Annie? Ficou admirando, quando encostei meu pau duro em você, começou a ver estrelas, não é mesmo? Eu vi e senti sua respiração aumentar, seu olhar estava hipnotizado. Eu costumo causar esse efeito nas mulheres, sabia? - riu sarcasticamente.

Sinto uma dor em meu peito com suas palavras cruas e duras, mas tento me manter firme, só preciso sair daqui.

- Annie, você já foi tocada de verdade? - sonda Kim de modo cínico e debochado. - Que pergunta boba a minha, você é fria demais para alguém querer te tocar. Me esqueci dessa parte, desculpa.

Não consigo responder sua provocação, apenas abaixo a cabeça e saio batendo a porta com toda força que consigo. Arrependo-me quando fecho a porta, me sentindo completamente fraca. Kim está virando minha cabeça, se transformando em minha kryptonita. Nossas brigas - que antes eram separadas pela voz autoritária do meu pai - agora são paradas pela minha fuga, pelo descontrole de Kim e nossa aproximação cada vez mais constante e principalmente por suas palavras não mais reprimidas. Balanço a cabeça tentando afastar esses pensamentos enquanto desço as escadas indo em direção ao meu lugar favorito de toda a fazenda.

O celeiro era onde eu passava grande parte da minha infância. Era estranho, mas desde que passei para a transição da vida adulta, ele virou o meu porto seguro onde posso desabar emocionalmente. Um local antes considerado o lugar das brincadeiras, agora é onde desabafo todas as minhas lágrimas e dores mais profundas, assim como as lembranças mais escuras.

Aqui, eu relembro os sorrisos da minha mãe, do meu tio quando vinha me ver, e por fim o grande amor entre os meus pais. Éramos uma família feliz, mas tudo tinha acabado e os poucos sorrisos que sobraram parecem querer ir embora também. Desabo contra o feno, sentindo as lágrimas encherem meus olhos. Não tento segurá-las e deixo todas elas descerem pelo meu rosto. Fecho os olhos, deixo as lembranças me levarem para um lugar onde eu não tenha medo de sorrir e nem de sentir.

Capítulo 3 Visão Perfeita

Ponto de vista: Kim Whitley

Estou deitado na cama, enrolado em uma toalha após ter tomado o banho mais gelado de toda a minha vida. Ainda confuso, me peguei pensando em Annie saindo do meu quarto de cabeça baixa, sem defesa alguma. Ela parecia tão pequena e desprotegida naquele momento, como se fosse uma Annie diferente. Naturalmente, ela era a garota que aparecia em nossas brigas com mais frequência, a Annie de palavras curtas e grossas, de fugas constantes e submissa à minha aproximação. Esse foi o poder que pouco a pouco descobri que tinha e passei a usá-lo a favor do meu prazer.

Ter Annie perto é como ter um doce e não poder comê-lo, apenas sentir o cheiro e saborear com a hipnotização do desejo e da tentação. Comecei a cada briga me aproximar mais, percebendo o efeito aumentar a cada passo de aproximação, mas nunca foi algo parecido como hoje. Sempre mantive limites, mas fui incapaz de controlar agora. Sentir seu corpo tão próximo ao meu, ver seus lábios perto dos meus, ter seu olhar demonstrando apenas desejo ao observar meu corpo.

Eu sei que ela não sabe que seus olhos transmitiam tudo, naquele momento quando a encostei na parede, todas minhas forças foram embora quando a vi encarar meu pau daquela forma desejosa. A visão dos seus lábios deixando escapar uma respiração entrecortada e das suas bochechas se transformando em um vermelho-vivo, fez meu pau pulsar de desejo.

Não sei quando esse sentimento nasceu em mim, sempre fugi da sua aproximação por motivos que nunca cogitei me perguntar de verdade. Apenas uma lembrança passageira de adolescente que eu não ousava me aprofundar, me fazia sentir que deveria ficar o mais longe possível dela. Era o instinto de autopreservação que controlava os meus atos na época. Agora, o meu corpo apenas senti intensamente tudo a sua volta, enquanto minha mente e meus desejos assumem o controle.

Minha razão para de funcionar quando Annie se aproxima. Coisas sem sentido saem descontroladamente pela minha boca, palavras que antigamente eu diria sem medo algum e que agora me deixam com um peso na consciência. Que me faz sentir culpa e repensar cada detalhe da nossa discussão terminando com mais dor de cabeça e confusão.

Annie foi criada cheia de mimos, repertórios educados e gentis. Não como eu, criado em meio a gangues, máfias de más influências e de mulheres que nunca se valorizavam, como minha mãe. Mulheres que leiloavam os seus corpos a qualquer preço e entregava o prêmio para aquele que desse o lance mais alto. Sem mimos, sem palavras bonitas.

Annie é diferente, assim como seus lindos olhos azuis da cor do mar e cabelos negros compridos. Seu corpo sedutor e sem nenhum defeito, com a pele clara como as nuvens e a sua postura sempre esguia e perfeita. Ela tem todos os pontos de alguém que possui um nível social mais alto do que eu. Sem dúvida alguma, tínhamos uma montanha de diferenças. E parece que a única coisa que nos aproxima são as nossas bocas mal-educadas, um com o outro. Eu a deixo descontrolada, e ela me deixa perdido.

Olho para o teto, sentindo um peso invisível afundar o meu coração na escuridão com o olhar de Annie me perseguindo. Eu não queria machucá-la, poderia ser qualquer pessoa menos ela. Eu a odeio e isso é um fato, mas o desejo que nos ronda está me atormentando. Não consigo ter controle do que saí de mim, inclusive a vontade de pedir desculpas. Eu vi dor nos olhos dela e não quero ver isso em um rosto tão bonito como aquele.

Preciso pedir perdão, sinto como se fosse uma necessidade tirar a imagem triste da Annie da minha mente. Esse simples pensamento me traz um cansaço mental que me acompanha há meses, fazendo-me cair em um sono profundo enquanto as sombras puxavam aquele pesadelo que sempre me atormentava, noite após noite.

***

São duas horas da tarde quando desço para almoçar, ainda carregado com os meus pensamentos atormentados. Caminho em direção à sala de jantar, notando que a mesa está posta e apenas Helena está sentada. Puxo a cadeira ao seu lado em silêncio, não escutando nada além de um profundo tilintar de talheres que vem sem dúvida da cozinha.

- Onde estão todos? - pergunto para Helena. Ela está com a cara fechada, o que já não é mais novidade desde Christina foi embora e que sua aversão a Robert surgiu.

- Estão todos na cozinha - diz dando de ombros.

- E por que você também não está lá? - pergunto observando-a.

Ela parece muito com nossa mãe e isso infelizmente me deixa um pouco abatido. Helena é uma menina incrível e inteligente, mas que foi uma moeda de troca para mamãe sem nem pensar no assunto, o fato dela ser tão pequena e já saber disso me preocupa. Andrew era a sua companhia, mesmo com o dobro da idade de qualquer um de nós, ele era muito apegado a ela como um irmão mais velho. Porque mesmo que eu não gostasse, era o que ele realmente era para todos, menos para... Christina.

Helena só tinha oito anos quando nos trouxeram para cá, entretanto, ela ainda não entendia o porquê estávamos aqui. O motivo pelo qual não podermos ficar com a mamãe.

- Porque Robert está lá - comenta como se fosse o óbvio, mas deixando transparecer suas lágrimas que ela enxuga tranquilamente.

- O que você tem contra ele, Helena? - sondo tentando entendê-la.

Eu não me dou bem com Robert, mas ele é um bom pai. Tanto para mim como para meus irmãos, isso eu não posso mentir. Nosso relacionamento só não dá certo por conta de Annie, nossas brigas são uma barreira afetiva.

- Você não entende, ninguém entende - insiste deixando as lágrimas caírem. Ela se levanta e caminha em direção à porta.

- Ele é seu pai, Helena - contesto fazendo-a parar subitamente.

Sinto sua apreensão com a mudança do assunto, ela me encara e observo seus olhos tristes e repleto de dor.

- Eu não tenho pai. Eu não tenho ninguém - sentencia antes de sair.

Helena está prestes a completar onze anos. Tinha se passado apenas dois quando aconteceu a sua primeira perda, e um ano do adeus de Christina. Ela precisa de mais tempo, perdeu tanta coisa em um período tão curto, que eu me pergunto como ela se manteve tão forte sem demonstrar nenhum sentimento como fez agora. Helena é solitária desde que nos trouxeram para o Texas. Ela não tem amigos no colégio, não fala com ninguém além de mim, que ela pouco se aproxima, e Evan. Costumo vê-la às vezes com Annie, infelizmente em situações raras e Robert é o único que ainda tenta se aproximar.

No começo, pensava que era por obrigação, no entanto, vejo que agora ele realmente a vê como uma filha. Helena precisa de cuidados, nem eu ou até mesmo Evan podemos dar a ela. Tenho sombras demais e Evan é muito novo. Ela precisa de alguém com tempo para oferecer amor incondicional, algo que só um pai pode dar. Era o que Andrew fazia, mesmo não sendo a obrigação dele. E por fim, para todos nós.

Fecho meus olhos, tentando esquecer as brigas que tivemos, os cuidados intensos que ele tinha com todos nós e as nossas brincadeiras. O seu amor de irmão e pai. Eu o amava, porém, nunca disse isso a ele. Nunca pedi perdão. Sinto meus olhos encherem de lágrimas e tento segurá-las. Odeio chorar, um homem crescido não deve chorar por algo que prometi deixar para trás.

Olho para o alto, tentando fazer com que elas ficassem onde deveriam estar, mas não consigo. Sinto que é tarde demais quando elas começam a descer pelo meu rosto, seguido do olhar intenso de Annie sobre mim. Ela senta à minha frente e desvia seu olhar do meu, me dando silenciosamente um momento para me recompor, é o que eu faço. Respiro fundo e seco as minhas lágrimas, tentando em vão voltar ao meu estado, a qual me transformei. Um homem tranquilo e repleto de escuridão.

Observo Annie, fazia muito tempo que eu não sentia aquele olhar singelo e compreensivo por parte dela. Se ela soubesse o que aquele olhar significa para mim, ela jamais me olharia novamente dessa forma.

Noto ao analisá-la, sua blusa extremamente aberta, isso faz com que novos sentimentos surjam. Annie costumava usar roupas que são sensuais demais, ou de menos. Essa, sem dúvida, é sensual demais.

Ela está apenas de sutiã, seus seios são pequenos, mas parecem incrivelmente macios. O pensamento deles em minha boca e mãos fez com que algo acordasse dentro de mim. Não consigo desviar meu olhar, é como uma sessão de hipnose que só acontece com a regressão ao presente quando o hipnotizador estala os dedos, é o que acontece. Tenho a sensação que estou sendo observado e levanto o meu olhar em direção aos de Annie. Não desvio o olhar, também não consigo mantê-lo por muito tempo.

Ela abre a boca para dizer algo, mas para quando seu pai entra na sala com Evan.

- Cadê Helena? - pergunta Robert.

Olho para ele notando seu olhar preocupado.

- Ela foi deitar. Disse que não está com fome - minto. Ele não diz nada, apenas senta e assim como Evan, começa a se servir. Em seguida, Annie e eu fazemos o mesmo.

Ela não me olha mais durante o jantar, e também não puxa nenhuma conversa com ninguém na mesa, assim como eu. O cômodo está em um silêncio infinito. Todos calados, acanhados pelos próprios pensamentos, até que Robert quebra o silêncio assim que Evan começa a retirar seu prato, fazendo uma grande questão pairar no ar.

- Quem irá lavar os pratos hoje? - questiona olhando infelizmente diretamente para mim e Annie.

Sempre sou o primeiro a sair da mesa para não ter a oportunidade de ser o primeiro escolhido do final da semana, já que esse terá que lavar os pratos também durante os outros dias, mas parece que hoje não é meu dia de sorte.

Levanto-me, recolhendo os pratos assim como Annie que me ajuda a levar tudo para a pia, enquanto Evan e Robert vão à sala. Eles se afastam, me deixando sozinho com Annie, que em nenhum momento dirige sequer uma palavra a mim, mesmo quando entramos na cozinha. O fato é que eu não consigo parar de olhar para ela, todo ar do ambiente parece ter mudado, ficado tenso.

Observo Annie fazer o trabalho que eu deveria estar fazendo. Ela está concentrada demais em ensaboar e enxaguar os pratos, tão concentrada que não levanta o olhar para longe de sua tarefa. Ela está me evitando como se eu nem estivesse ali e isso é irritante. Além de ser um fator para começar uma briga, será que ela não percebe que isso me irrita? É uma sensação terrível tê-la ali, sem parecer nem mesmo me notar. Com meu ego inflado demais para aguentar, me vejo com duas únicas escolhas, pego a opção que para mim sempre parece errada.

- Como estão as coisas na escola? - investigo e a vejo pela primeira vez me encarar, com uma sobrancelha levantada, surpresa. Ela estava esperando outra reação.

Respiro fundo tentando quase em vão não deixar as sensações dentro de mim se descontrolem. Tenho que puxar uma conversa normal com ela e sem brigas, ou jamais chegarei no meu pedido de desculpas que realmente tem que sair da minha boca.

- Vai bem, obrigada - ela diz dando de ombros, voltando para a sua tarefa. Sei que ela é uma ótima aluna.

Estudamos na mesma instituição, e para todo o bem, em anos diferentes. Eu sempre a observava de longe, notando que sempre ficava rodeada pelas duas amigas malucas dela. Tinha o costume de ficar sozinho, tentando não chamar mais atenção da qual eu já conseguia sem nenhum esforço.

- Como estão as aulas? - Annie pergunta, entregando o último prato lavado.

- Bem, também - respondo dando de ombros.

- Você soube que vou coordenar o teatro do final do semestre? - sonda sorrindo. Aquele sorriso lindo e enorme que infelizmente, pouco é direcionado a mim.

- Sim, soube que vai ser uma interpretação da peça de Romeu e Julieta de Shakespeare ― digo, pensando em como sou sortudo por estar no último ano e por conseguir escapar das aulas de teatro.

- Eu sempre quis interpretá-la e agora é minha chance! Meu tio dizia que esse é o único romance que vale a pena ser lido e interpretado - acrescenta, deixando o sorriso de lado que logo foi tomado por um triste.

Observo-a respirar fundo, e logo ela se vira para começar a guardar os pratos que já tinha secado.

- Aposto que ele ficaria orgulhoso - falo, tentando puxar novamente seu sorriso de volta.

- Aposto que sim.

Ela não fala mais. Vejo que a conversa não fez bem para ela e não queria que ela ficasse triste, essa realmente não era minha intenção.

- Desculpa, Annie - peço e espero a sua reação. Eu queria que aquele pedido de desculpas valesse por todas às vezes que eu devia e que queria pedir, mas que era tão difícil sair.

Ela se vira para mim com as lágrimas escorrendo pelos seus lindos olhos azuis, que acabam de cortar o meu coração já atormentando.

- Annie... - começo sem saber exatamente o que dizer, não sou bom em nada relacionado a sentimentos, ou a Annie.

- Eu só estou perdida aqui, Kim.

Aproximo-me dela, tocando o seu rosto e secando as novas lágrimas que começaram a cair, que rapidamente para quando ela percebe minha mão em seu rosto. Ela tira minha mão e se afasta como um foguete. Tento me aproximar de novo, mas só causo ainda mais o afastamento dela.

- Não precisa fazer isso, Kim. Eu sei secar minhas lágrimas - afirma, andando em direção à porta. Vou atrás dela e seguro seu braço e viro-a para mim.

- Eu também perdi alguém que eu amei muito, Annie. Lágrimas não são para se envergonhar - reitero, mesmo que em meu íntimo eu sinta algo diferente.

Toco seu rosto novamente, acariciando sua bochecha.

- Eu queria que minhas lágrimas fossem por alguém que amo - responde me olhando e voltando a sua postura firme mesmo com minha mão ao redor de seu braço.

- É por minha causa que você chora? Me desculpe. Me desculpe pelo que aconteceu no meu quarto, eu não sei o que deu em mim. Sei como tudo anda estranho, eu não sei bem o que está acontecendo - tento me justificar mostrando minha confusão.

Tenho plena consciência do que estou sentindo, é como um turbilhão de ódio e desejo misturados com tantos outros sentimentos que afloraram dentro de mim. Eu não sei quem está mais perdido, eu ou ela. Queria uma resposta dela para tudo que eu disse, mas não recebo.

Solto seu braço e levo minhas duas mãos para seu rosto tentando secar as lágrimas que ainda escorrem. Aproximo-me tanto do seu rosto que sinto sua respiração misturada na minha como hoje de tarde. Noto sua boca rosada, que parece tão saborosa que desejo beijá-la. Aproximo o suficiente para que nossos corpos se toquem, minha mão desce para a sua cintura. Sinto seus seios encostarem em meu peitoral, suas mãos que distraidamente pousam no meu peito. Penso por alguns segundos que ela irá me afastar, porém, ela não o faz, apenas faz um carinho onde meu coração bate forte, ansioso e confuso. Desço meus lábios prontos, a poucos milímetros do dela. Estamos tão perto, até que ouço a porta da cozinha ser aberta e duas vozes extremamente conhecidas.

- Ei! - Alexia e Lili dizem em uníssono.

- O que está acontecendo aqui? - pergunta Lili.

Afasto-me de Annie rapidamente, assim como ela que parece se recompor em segundos. Ela caminha em direção as duas garotas e as puxa para longe sem olhar para trás, me deixando com aquele desejo fervendo por todo meu corpo. Eu queria tanto beijá-la, que não enxergava o tamanho da loucura caso isso tivesse acontecido. Não posso tê-la, afinal ela é proibida. Annie é boa demais para um cara como eu.

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