Um
Gabi
- Gabi! Leva uma Brahma na mesa 5.
- Já tô indo! - gritei alto, meio nervosa porque já estava organizando as mesas para fechar o bar quando dois playboys sem ter o que fazer da vida ocuparam mais um lugar.
Droga! Qual era o problema daqueles caras? Será que eles nunca ouviram falar de uma coisa chamada senso?
Engoli minha raiva e coloquei uma garrafa de cerveja gelada sobre a mesa deles. Apesar de estar exausta e com as pernas latejando em consequência das muitas horas de pé, eu forcei um sorriso nos lábios e os atendi da melhor maneira possível, afinal de contas eu estava sendo paga para isso. E muito mal paga por sinal, porém, era com essas migalhas que eu mantinha o meu sustento, da minha irmã e até do meu pai, infelizmente.
Era sempre assim, no final do expediente sempre tinha um idiota para chegar do nada e ficar enrolando até os primeiros raios de sol baterem contra meu rosto. Desta vez não foi diferente, eles ficaram ali marcando ponto, jogando conversa fora com aquela mesma maldita garrafa de cerveja por mais uma hora. Para me recompensar pela espera, ao acertarem a conta eles me consolaram me dando de gorjeta algumas das moedas que estavam largadas no fundo do bolso do jeans que usavam. Agradeci, mas assim que eles me deram as costas revirei os olhos já entediada daquilo.
- Finalmente! - bufei aliviada quando vi os clientes entrando no carro e partindo. Ali eu não perdi mais tempo, recolhi a garrafa, as cadeiras, a mesa e corri para fechar o bar antes que outro sem noção resolvesse parar ali para tomar uma. Já se passava das seis da manhã e eu só conseguia pensar na pilha de roupa suja que teria que lavar na mão antes de cair na cama, era necessário que eu fizesse isso antes de dormir, porque quando eu acordasse provavelmente já seria hora de me arrumar para o trabalho novamente. Eu tinha que estar aqui às dezessete em ponto para limpar o salão e deixar tudo brilhando para mais uma noite. A hora de sair estava nas mãos de Deus, na maioria das vezes quatro horas da manhã eu já estava no meu colchão, mas parece que Deus tirou o dia de hoje para judiar de mim um pouco.
- Hoje à noite foi tensa, né Gabi - Lurdes afirmou com a voz embargada, enquanto anotava algo na caderneta.
Como eu tinha vontade de jogar na cara dela que o bar estava precisando de mais funcionários, mas eu só não fazia isso porque tinha certeza de que não daria em nada, ela e o marido eram dois mãos de vaca. Eu era a única funcionária, e eles sempre me pagavam com má vontade, não queria dar motivos para que ambos me detestassem ainda mais.
- Bota tenso nisso.
- Toma. Seu pagamento. - Ela me entregou um envelope onde estava escrito 220 reais, engoli em seco segurando algumas coisas que estavam entaladas há muito tempo na minha garganta.
- Só 220, Lourdes?
- Você pegou um vale de 80 reais na quarta, esqueceu?
- Mas é que minha irmã passou mal e, no posto não tinha os remédios que o médico receitou para ela.
- Gabi, isso é um problema seu, ok? Você já está grandinha o suficiente, sabe muito bem o que faz com o dinheiro que eu te pago. Quantas vezes eu tenho que te falar que você só está aqui porque eu tinha muito carinho pela dona Marluce, porque o que não falta são pessoas querendo ocupar a sua vaga. Quem aqui no bairro não quer ganhar 300 reais por semana trabalhando perto de casa?
Respirei fundo controlando minha ansiedade e a vontade absurda de gritar que nunca mais eu iria pôr os pés ali. Estava contando os meses, os dias e até as horas para o meu aniversário de 18 anos, porque assim que eu completasse a maioridade poderia trabalhar de carteira assinada, com certeza conseguiria um emprego melhor em alguma lanchonete ou restaurante lá para o lado de São Gonçalo, Niterói, ou até aqui mesmo em Araruama já que experiência não me faltava. Mas, por enquanto, teria que suportar esta exploração.
- A senhora tem razão, Lourdes. Tá certinho - disse contando as notas dentro do envelope. - Posso ir embora? Eu tô destruída.
- Pode sim, minha filha. Mas não se esqueça... - A interrompi para completar o que ela insistia em me dizer todos os dias antes que eu saísse:
- Dezessete horas em ponto!
- Exatamente.
Dei as costas para dona Lurdes, peguei minha bolsa e segui para casa. De bicicleta não era tão longe, 15 minutos era o que eu precisava. Enquanto pedalava passei por algumas crianças indo para a escola e meu coração doeu. Eu amava estudar, tinha tantos sonhos... Mas tudo se desfez quando mamãe faleceu. Ela sofreu um AVC há dois anos deixando a mim e minha irmãzinha que na época só tinha 2 aninhos à deriva. Com o nosso pai não podíamos contar, me dei conta disso quando começou a faltar comida em casa, quando cortaram nossa luz e a água. Zé Pedro preferia gastar seu dinheiro com cachaça e com a mulherada. Sempre foi assim. Mas o impacto só veio depois da morte de mamãe, era ela quem assumia as contas. Era uma mulher guerreira, batalhadora, acordava de madrugada para ir para o trabalho e poder dar o melhor para as filhas já que o marido nunca colaborou. Me arrisco a dizer que mamãe morreu de desgosto. Ela começou a ficar muito deprimida quando descobriu que papai estava tendo um caso com nossa vizinha, que até então dizia ser nossa amiga, depois disso a situação foi de mal a pior. Agressões. Humilhações. Meu pai chegou a roubar dinheiro da carteira da minha mãe para sair com aquela vadia.
Meu sangue queima toda vez que me lembro disso.
Enfim, com a morte da minha mãe sobrou para mim assumir as responsabilidades de casa e com a Malu. Dona Lourdes me ofereceu emprego, mas para trabalhar nesse horário precisei sair da escola, faltava só mais dois anos para que eu completasse o ensino médio. Porém era isso ou passar fome.
Minha casa era próxima a BR. Pequena, com algumas paredes sem emboço e as que tinha fazia tempo que não via uma demão de tinta. O telhado era comum, mas àquela altura grande parte estava remendado e tomado pelo lodo. O quintal amplo tinha um pé enorme de goiaba e, mato, muito mato. Papai ficou de capinar o quintal há alguns meses, mas até hoje isso não aconteceu. Eu não tinha tempo para fazer isso, na minha folga eu só queria dormir, o trabalho sugava todas as minhas energias. Estava pensando seriamente em pagar alguém para capinar o quintal, mas os perrengues financeiros que passei me transformaram em uma garota mão de vaca pra caramba. Eu não tinha coragem de pagar alguém para capinar o quintal sabendo que as ferramentas estavam ali e eu mesma poderia fazer isso de graça quando tivesse tempo sobrando.
Abri o portão e quando ousei a atravessá-lo com a bicicleta ouvi vozes. Uma eu sabia que era a de papai. Bêbado obviamente. A outra não me era familiar. Estranhei aquilo e rapidamente escorei a bicicleta no muro e corri para dentro de casa.
Um homem de cabelos escuros penteados para cima, com a pele clara, corpo farto vestindo uma jaqueta de couro preta que lhe dava uma aparência ainda mais cheinha estava sentado sobre o sofá esbugalhado da minha sala, com minha irmã no colo. Malu não era muito paciente, era visível o incômodo no par de olhinhos escuros que brilhava em seu rosto.
- O que é que está acontecendo, pai? - Passei pela porta caminhando a passos marcados até ele.
- Bom dia, moça! - o homem estranho vociferou com um certo sarcasmo no seu tom.
Ignorei-o e, com o olhar estreitado voltei a questionar meu pai que estava escorado contra a parede com um sorriso de satisfação nos lábios enquanto contava um maço de dinheiro. Zé Pedro costumava fazer bico de ajudante de pedreiro, ou qualquer outra coisa que pintasse para ele, mas duvido muito que aquela quantia tenha vindo de maneira honesta, ainda mais, com a presença daquele homem esquisito que até então eu nunca tinha visto.
- Quem é esse homem? E de onde veio esse dinheiro?
Papai me ignorou completamente, continuou contando as cédulas como se eu fosse invisível aos seus olhos.
- Gabi! Me ajuda! Eu não quelo ir embora com ele! - Quando olhei para trás e me deparei com minha irmã aos prantos nos braços daquele desconhecido meus batimentos se descompassaram abruptamente.
- Enlouqueceu? - vociferei chamando sua atenção. - Quem é você? E onde é que pensa que vai com a minha irmã? Solta ela agora!
Estava cara a cara com aquele otário, que de pé tinha quase dois metros de altura, mas nem por isso me intimidei. Ele era o gigante Golias e eu seria o Davi. Mas da minha casa ele só sairia com a Malu por cima do meu cadáver.
- Quem enlouqueceu foi você. Eu paguei por essa pirralha.
- E desde quando minha irmã está à venda?
- É, eu não tô a venda! - Malu gritou e começou a distribuir tapas pelo rosto do homem que franziu o cenho e fitou-a com um olhar tão intimidante que logo ela murchou e começou a chorar baixinho, murmurando.
- O seu pai me vendeu!
- O meu pai está bêbado! - gritei, com o coração disparado e os lábios tremendo.
- Eu não estou bêbado - Zé Pedro vociferou chegando mais perto, ele se apoiou nas minhas costas para manter o equilíbrio, enquanto tentava ficar de frente com o bandido. - Gabi, nesses dias... - Travou as palavras por alguns segundos, mas logo retornou a dizer num tom embargado, enquanto o hálito exalando a álcool entorpecia meu olfato: - Nesses dias a gente tá trabalhando demais... - Papai se desequilibrou quando deu um passo à frente, mas eu firmei seu corpo no meu antes que ele fosse de encontro ao chão. - Nós não temos tempo para ficar olhando essa menina...
- Essa menina é sua filha pai!
- Vai saber se é mesmo? Na época que sua mãe engravidou ela tava enrabichada com o padeiro...
- Chega! - Eu já estava farta de aturar o alcoolismo, a sem-vergonhice e até mesmo a preguiça de papai. Porém, era inaceitável que ele falasse mal de mamãe depois de tudo que a fez passar em seus últimos dias de vida. Bem que eu queria que essa fanfic ridícula que ele estava falando fosse verdade, mas infelizmente era impossível já que Malu era praticamente a versão feminina de Zé Pedro. Me afastei de papai vendo-o perder o equilíbrio e cair de maneira desastrosa contra o chão, ele tentou se levantar, mas segundos depois cerrou as pálpebras e dormiu bem ali, no meio da sala, com um desconhecido prestes a ir embora com a minha irmã.
Eu recolhi o maço de dinheiro caído do lado de papai e ofereci para o homem.
- Devolva minha irmã.
O homem revirou os olhos entediado, bufou antes de dizer:
- Eu até gostaria, mas não vou poder. Levei algum tempo para encontrar uma menina que batesse com estas características, trata-se de uma encomenda. O dinheiro é seu. - Eu estava chocada com o cinismo daquele senhor, como ele podia chegar em um bêbado e oferecer dinheiro em troca da filha dele de apenas 4 anos?
- Gabi! Gabi não deixa! Eu não quelo ir! - Malu disse choramingando, enquanto se contorcia numa tentativa falha de sair dos braços fortes do moço.
- Você não vai! - exclamei firme, antes de avançar para cima daquele homem sem alertá-lo.
Ele estava com a guarda baixa quando tomei Maluzinha do seu colo, segurei-a firme e corri para a cozinha em busca de algo para me defender, caso ele continuasse insistindo naquela loucura. Mas congelei assim que coloquei meus pés no cômodo. Fiquei completamente paralisada enquanto o via se aproximando cada vez mais com uma arma empunhada nas mãos.
- Não vamos dificultar as coisas mocinha, me dê a criança, caso o contrário vocês duas irão morrer. - Seu tom era seguro e, ele parecia ser do tipo que estava acostumado a tirar a vida de outras pessoas sem pensar duas vezes, com muita tranquilidade.
Preferi não olhar para Malu enquanto me inclinava para baixo com as pálpebras gotejando. Quando seus pezinhos tocaram o chão ela se agarrou em minhas pernas e começou a chorar ainda mais alto que antes. Um nó se formou no lado esquerdo do meu peito, mas infelizmente não havia nada a ser feito, eu precisava entregá-la para manter nós duas vivas.
- Eu não quelo ir com esse homem! Por favor Gabi, eu não quelo...
Cada palavra que ela murmurava partia meu coração em mil pedacinhos.
- Você não passa de uma pirralha! Não tem que querer nada! - ele disse antes de apanhar Malu nos braços novamente. - O dinheiro é seu. Sou um homem de palavra e sempre cumpro o que falo.
Eu havia deixado o maço de dinheiro caído na sala, mas aquilo era tão insignificante diante de tudo que estava acontecendo que acabei não dando importância. Neste instante minha cabeça estava fulminando como um vulcão, eu não conseguia acreditar que isto era real. Não. Provavelmente a exaustão do trabalho fez com que o sono me derrubasse e, agora eu estava presa num pesadelo.
No pior dos pesadelos.
Trinquei os dentes com o ódio pulsando por cada parte do meu corpo enquanto fitava com o olhar estreitado aquele filho da puta ir embora com minha irmã nos braços. Ela estava chorando, implorando com aquelas duas jabuticabinhas negras que eram seus olhinhos... Malu não queria ir.
Meu Deus!
O que aquele homem vai fazer com a Malu?
Vender seus órgãos?
Transformá-la numa Lolita? Aquelas bonecas humanas usadas para satisfazerem pedófilos ou escravizá-la de alguma forma?
A melhor das alternativas seria se ele estivesse vendendo-a para algum casal estéril adotá-la, mas a essa altura do campeonato eu duvidava muito que fosse algo do tipo.
Não.
Na minha irmã ele não encostaria um único dedo. Eu só tinha ela, assim como ela só tinha a mim.
Involuntariamente minha mão direita alcançou uma faca jogada sobre a pia. Segurei-a com toda minha força, toda minha raiva e parti. Parti a passos sorrateiros como uma cobra, tão fria e decidida quanto uma jararaca prestes a dar bote. Foi isso que fiz. Quando o vagabundo guardou a arma na cintura para poder abrir o portão eu avancei na sua direção, cravando a lâmina afiada contra sua carne, no único momento em que ele baixou a guarda eu fui traiçoeira, o pegando totalmente desprevenido.
Pelas costas.
Ao sentir o golpe ele deixou minha irmã escapar dos seus braços, em seguida foi sua vez de perder a estabilidade e jogar seu corpo contra o muro tentando manter o equilíbrio. Apesar da camiseta e sua jaqueta serem pretas, o sangue de perto estava visível, principalmente quando ele esfregava suas costas contra a parede soltando gemidos e resmungos. Ele iria pegar a arma de volta na cintura, porém eu me adiantei tomando-a para mim e batendo contra a sua cabeça antes que ele chegasse a se mover.
- Mana! O que você fez? - Malu perguntou enquanto media o homem de cima abaixo.
- Nada! - vociferei desesperada, sentindo uma espiral de medo e arrependimento me consumirem da carne a alma. - Fica quieta Malu! Não sai daí!
Tremendo, eu corri para dentro de casa, peguei a bolsa que usava para o trabalho e mais algumas mudas de roupas para Malu e para mim. Troquei minha blusa e quando cheguei no quintal retirei a faca das costas do homem desacordado e a enrolei num pedaço de pano, rapidamente enfiei-a dentro da bolsa junto com a arma.
Peguei Malu no colo e corri para o ponto de ônibus.
A única vantagem de morar próxima a uma BR era essa, nunca faltava ônibus e eu não pensei duas vezes antes de entrar no primeiro que apareceu.
Paguei o motorista e corri para os últimos bancos.
Era um pesadelo...
Não. Eu não tinha feito isso...
Eu não matei um homem...
Olhei para minhas mãos e notei que meus dedos estavam trêmulos como o galho de uma árvore no outono. O meu choque estava passando e agora a onda de realidade vinha de maneira agressiva, me atingindo como uma bala. Meus olhos não esperaram para se livrar das lágrimas e logo eu estava aos prantos, completamente entregue ao desespero, enquanto os outros passageiro me fitavam com um ar de desconfiança.
Me lembrei de mamãe...
Do meu pai...
Droga! Por que eu tinha que pensar logo no meu pai? A culpa de tudo isso era dele. Do álcool e dele! Por que ele não morreu no lugar da minha mãe?
Um homem que tenta vender a própria filha não merece viver!
- Gabi, não fica triste não...
Sequei minhas lágrimas, apertei Malu nos braços fitando dentro de seus olhos e falei:
- Malu, meu amor. Você não viu nada, tá bom? Aquilo não passou de um pesadelo, nós estávamos sonhando.
- Sonhando? - ela perguntou com as mini sobrancelhas arqueadas.
- Sim meu amor, sonhando.
- Então por que voxê tá xolando? Maninha não xola, eu te amo muito e não goxto de ver voxê xolando.
- É só emoção, porque agora vamos nos mudar.
- Mudar pra onde?
- Por enquanto vamos nos esconder - engoli em seco e rapidamente me corrigi -, morar! Isso, morar... Por enquanto vamos morar em algum canto de Niterói, que é o que o dinheiro que eu tenho vai dar.
- Nitelói! E nós vamos na praia?
Confesso que me senti aliviada com a empolgação da minha irmã, sinal de que ela já havia esquecido o que aconteceu. Essa era a melhor parte de ser criança, não dar relevância a coisas que não são tão importantes, mas eu já havia deixado de ser criança faz tempo. Tenho dezessete anos, mas às vezes sinto que tenho uns trinta no mínimo.
30.
Este é número exato para a pena máxima de homicídio.
Eu sou uma homicida e, caso eu seja pega vou apodrecer em um presídio enquanto Malu vai ter que ficar sozinha e sabe lá Deus o que pode acontecer com ela.
Meu Deus me ajude!
Eu não queria ter matado aquele homem!
Dois
Kleber
- Doutor Borges, eu ainda não entendo o que essa mulher está fazendo na leitura do testamento de papai - falei depois de passar a língua pelos caninos, enquanto meus olhos continuava vidrados na mulher à minha frente, que modéstia parte não era de se jogar fora. Corpo curvilíneo, pele bronzeada e quadris avantajados exatamente do jeito que eu adorava. Os fios negros ondulados caíam de maneira esvoaçante sobre seu ombro, emoldurando assim o rosto delineado por traços finos, marcado por um sorriso perfeito e um olhar fatal, mas que a mim não afetava.
- Desculpe, senhor Galvão, mas essa mulher até então era a companheira de seu falecido pai e, seu nome foi citado no testamento - Doutor Borges foi direto e logo voltou a fitar o documento que tinha em mãos.
Bufei entediado cruzando as pernas enquanto aguardava doutor Borges e o oficial da justiça iniciar a leitura.
Como eu queria que aquilo acabasse logo.
- Vou dar início a leitura. - Ele coçou a garganta antes de começar:
"Para meu querido e fiel amigo Estevam, deixo duas propriedades, uma em Paraty na região oceânica do Rio e outra em Porto de Galinhas, no litoral de Pernambuco."
Os olhos de Estevam se encontraram com os meus e, eu apenas balancei a cabeça assentindo. Ele era o homem de confiança, o fiel escudeiro de papai, ambos trabalharam juntos por mais de 20 anos, inclusive foi ele que me preparou para o cargo que ocupo na empresa hoje. Um executivo competente e muito confiável, digno de tudo que lhe foi deixado.
Borges prosseguiu com a leitura.
"Deixo todo meu patrimônio pessoal entre bens móveis e imóveis, além de 60% das ações de minha empresa para meu filho Kleber Galvão."
Fui pego de surpresa, eu realmente esperava herdar tudo já que Estevam ficou apenas com as casas de praia. Não havia ninguém acima de nós que pudesse ficar com a outra porcentagem do grupo. Arqueei as sobrancelhas passando a língua nos caninos enquanto imaginava o que estava por vir. Cheguei a torcer para que papai tivesse deixado a outra parte para alguma ONG ou orfanato, mas aí me lembrei que Célio Galvão nunca foi fã de caridade, todos os projetos que o grupo patrocinava tinha a única finalidade de dar uma amenizada nos impostos e deixar nossas empresas com um olhar mais engajado em questões humanitárias. Algo que eu concordava plenamente.
"A casa a qual vivi até meus últimos dias e os demais 40% de ações correspondentes a minha empresa, deixarei para minha amada mulher, Soraya de Oliveira, deixando explícita a minha vontade de que ela não poderá fazer nenhuma movimentação sem a prévia autorização do meu filho Kleber."
Fiquei de pé de maneira involuntária. Esfreguei as mãos andando de um lado para o outro, processando a merda que tinha acabado de ouvir. Estevam se aproximou acariciando minhas costas numa tentativa ridícula de me prestar consolo. Era inacreditável que um homem como papai que, nunca voltou atrás de sua palavra, um homem que sempre colocou os negócios num pedestal e o dinheiro como sua prioridade, estivesse deixando 40% das ações do grupo para uma vadiazinha de quinta categoria. Minha casa, na qual nasci e fui criado agora pertencia a uma vagabunda que se prostitui naquele lixo da Vila Mimosa.
Porra! Será que o problema estava em mim? Por acaso foi eu que acabei construindo uma imagem distorcida do grande Célio Galvão? Não. Impossível. Ele sempre foi firme e me criou para ser exatamente como ele.
Algo estava errado por aqui.
Eu não poderia ficar de braços cruzados assistindo aquela mulherzinha estrear na capa da Forbes sem fazer absolutamente nada.
- Pelo menos ele deixou as ações dela sob sua responsabilidade, assim fica mais confortante - Estevam disse com a mão sobre meu ombro, retirei-a e fitando profundamente dentro dos seus olhos afirmei:
- Reconfortante? Uma coisa é o meu pai se apaixonar por uma garota de programa, outra é ele deixar metade da minha herança para ela!
- Kleber, eu não sou uma garota de programa. Me respeita! - ela exclamou com os olhos escuros inundados por lágrimas.
- Soraya, você é uma péssima atriz.
- Eu realmente não estou te entendendo Kleber, você nunca deu a mínima para o Célio. Enquanto você se divertia por aí com várias mulheres eu estava virando as noites com ele no hospital.
- Isso se chama preparação de território, você já estava com tudo premeditado.
- Eu amava o seu pai! Tenho certeza de que você não está sofrendo um terço do que eu estou sofrendo, afinal de contas depois que Célio foi para a cadeira de rodas ele se tornou invisível para você!
- Realmente, para mim era um pouco incômodo, mas para uma puta como você era a chance perfeita de mudar de vida, não é mesmo?
Sorri para a mulher que não esperou para estalar um tapa contra o meu rosto. Em seguida ela bufou raivosa, tremendo enquanto me observava acariciar a face que ela havia acabado de acertar.
- Abrirei uma queixa contra você, Soraya.
- Você ficou com a maior parte de tudo sem fazer nada pelo Célio, nada!
- Não diga o que não sabe, eu sempre dei o meu sangue pelas empresas e, sempre foi isso que importou para papai.
- Seu pai era um ser humano Kleber, ele precisava de amor, carinho...
- Para uma mulher fica mais fácil dar essas coisas, é só abrir as pernas como você fez! - exclamei num tom sarcástico. Soraya ergueu o braço na direção do meu rosto, mas antes que suas mãos tocassem minha face novamente eu segurei seu punho, contendo-o de maneira firme enquanto fulminava seus olhos com os meus. - Deve ser maravilhoso se envolver com um velho bilionário depois que ele descobre que está com câncer. Era mais que certo de que papai não levaria muito até morrer, mas sendo sincero eu não lhe julgo, provavelmente no seu lugar eu faria o mesmo.
Soraya engoliu em seco antes de secar as lágrimas. Inclinou a cabeça para tentar ficar pareada comigo e com o olhar firme disse:
- Seu pai deixou a casa para mim, Kleber. Infelizmente, nossa convivência não será possível... Bom, eu peço que você se retire.
- Não se preocupe Soraya, eu já iria fazer isso de qualquer forma. Vou me mudar de vez para minha cobertura em Icaraí, se você quiser eu posso dar uma festa para comemorar o dia da grande reviravolta: A ex-prostituta da Vila Mimosa se tornou uma das herdeiras do grande Célio Galvão! Essa data não pode passar em branco.
- Você é muito baixo Kleber!
- Procure saber o meu endereço, faço questão de comemorar com você, mas caso você não vá não terei outra escolha senão comemorar sem a sua presença. - Não esperei que a vadia pronunciasse mais uma única palavra, dei-lhe as costas e segui caminhando, pensativo, até me esbarrar com Cléonice próxima à escada. - Cléo, arrume suas malas e pegue o restante das minhas coisas, você virá comigo. - A senhora negra, baixinha que sempre mantinha um coque intacto no topo da cabeça me encarou com os olhos esbugalhados.
- Ir com você pra onde seu Kleber?
- Para minha cobertura em Icaraí.
- Nem pensar! - A mulher franziu o cenho chegando mais perto. - Eu não vou para o meio daquela orgia nem que você dobre o meu salário!
- É mesmo Cléo? Quer dizer que você prefere ficar aqui com a Soraya.
- A Soraya vai ficar aqui?
Abri um sorriso no canto dos lábios, levei a mão até seu queixo e comecei acariciá-la.
- Cléonice, o seu patrão deixou não só essa mansão para Soraya, assim como 40% das ações que lhe pertenciam no grupo.
- Não é possível... Seu Galvão jamais faria isso, não é do feitio dele.
- Mas ele fez Cléonice e, você sabe o quanto é importante para mim. Vou ficar muito triste caso você não queira ir comigo e fique aqui com a Soraya.
Ela inclinou a cabeça para baixo balançando-a em negação, em seguida voltou a olhar em minha direção.
- Nesse caso eu tenho que ir, né? Não posso deixar o meu menino sozinho.
- Você sempre se esquece que eu tenho 32 anos.
- Pode ter até 50 que você vai ser sempre o meu menino. - Sorri discretamente, satisfeito por poder contar sempre com Cléonice, mas levei um pequeno susto quando ela bateu forte no meu peito. - Eu vou, mas não vou ficar te servindo no meio da putaria como aconteceu daquela vez. Não esqueço aquele dia...
- Me desculpe, aquilo foi um deslize, não vai se repetir.
- Assim espero, porque se acontecer vou te bater com a vassoura.
Eu ri antes de lhe dar as costas e dizer:
- Já estou de saída! Escolha uma empregada para te ajudar e, peça para que o Afonso leve vocês.
- Tá bom meu filho, daqui a pouco chego lá.
[...]
Havia tirado o dia de folga porque já estava prevendo que iria ter um estresse pós a leitura do testamento. O que me chocava no meio disso tudo era que papai pelo menos enquanto estava vivo nunca demonstrou nenhum tipo de amor por Soraya, sempre a tratou como uma acompanhante de luxo, vivia gritando alto seu nome pela casa como se ela fosse uma empregada qualquer como as outras que trabalhavam na mansão, se bem que tecnicamente Soraya era uma empregada. A diferença era que oferecia apenas serviços sexuais, tinha que estar sempre disponível para transar com papai no dia e na hora que ele quisesse, em seus últimos dias quando já estava extremamente debilitado fisicamente ele ainda exigia que ela fizesse sexo oral, a qualquer momento, na hora que ele quisesse.
Neste momento eu estava encalhado num trânsito horrível com minha Mercedes Brabus 800 black&gold dirigindo a uns 20 km/h. Diminuí a temperatura do ar e aumentei o volume do rádio colocando um álbum antigo do Imagine Dragons, especialmente na minha música favorita, Radioactive. Durante o refrão não pude me conter, soltei minha voz e semicerrei os olhos esperando que aquilo pudesse me aliviar um pouco.
I'm waking up
I feel it in my bones
Enough to make my system blow
Welcome to the new age, to the new age
Welcome to the new age, to the new age
Oh, oh, oh, oh, oh
Oh, oh, oh, oh
I'm radioactive, radioactive
Oh, oh, oh, oh, oh
Oh, oh, oh, oh
I'm radioactive, radioactive
Senti um baque e arregalei os olhos abruptamente, foi quando vi que um ônibus à minha frente havia soltado um passageiro a poucos metros e, provavelmente eu tinha acabado de bater contra ele.
- Mas que merda!
Furioso, bati contra o volante antes de parar e descer do carro. O que não faltava em Nikit era motorista de ônibus sem noção. Onde já se viu permitir a saída dos passageiros antes de chegar em alguma parada, ou até mesmo em uma faixa de pedestre? Quando saí do carro o barulho das buzinas daquela centenas de automóveis aglomerados se transformaram num coro insuportável, uma tortura para meus tímpanos. A passos duros e, me contendo para não vociferar um palavrão no meio da avenida engarrafada segui para a frente do carro. Parei para ver a morena com a pele caramelada sentada no piso áspero do asfalto, o cabelo volumoso num amontoado de cachos caía até a cintura, ela estava com a cabeça inclinada para baixo e consequentemente não deu para ver o seu rosto, mas a camisa decotada que ela usava não poupou a vista dos seios fartos e apertados num sutiã preto de renda que insistia em sair para fora. Engoli em seco enquanto me aproximava com os lábios entreabertos, imaginando-a sem aquela maldita camisa e a droga daquele sutiã, com certeza aquele par de mamas era natural o que era maravilhoso já que eu estava cheio de foder com mulheres siliconada. Eu queria sentir carne, a sensibilidade da mulher ebulindo junto comigo. Quando cheguei perto da mulher, fiquei de joelhos e joguei o volume de cachos para trás, revelando o rosto marcante, traçado por uma boca carnuda perfeitamente desenhada e, olhos negros intensos, enigmáticos, da qual eu adoraria desvendar enquanto ela estivesse de joelhos, com aquela boca gostosa no meu pau, saboreando-o com sua língua vagarosamente, me mamando à vontade.
Mordi o lábio inferior sentindo meu pau se enrijecer dentro da cueca, enquanto a moça, uma menina/mulher me encarava com um ar de chocada, perplexa. Engoli em seco, nervoso ao me dar conta que minha mão direita já estava no meio do seu decote, experimentando um pouco do que eu iria ter na minha cama.
- Ficou louco moço! - Ela se arrastou para trás depois de me empurrar.
Respirei fundo, balancei a cabeça tentando cair em mim novamente.
- Desculpe... - falei baixinho enquanto a admirava se levantar e fui surpreendido ainda mais com aquela cintura fininha, marcando bem os quadris largos. As pernas estavam tapadas por um jeans apertado, mas eu conseguia desenhar em meus pensamentos suas coxas nuas roçando entre as minhas. Apoiei minhas mãos contra o asfalto, quando fiquei de pé rapidamente levei uma mão entre minhas pernas para disfarçar o volume que aquela morena gostosa do caralho havia acabado de me provocar. Fitei-a com mais calma e notei que o jeans que ela usava estava manchado de vermelho, sangue provavelmente, o que era um tanto estranho já que a pancada que lhe acertei foi leve e aparentemente ela estava muito bem.
- Mana! Voxê tá bem? - Estava tão vidrado no corpo daquela garota que nem havia notado a menininha com os cachos perfeitamente encaracolados como os dela, ao seu lado.
Cheguei mais perto, porém ela recuou dando dois passos para trás.
- Fique longe de mim!
- Você está sangrando. - Ela engoliu em seco ao ver a mancha de sangue em destaque na calça jeans. - Eu só quero ajudar, podemos ir para um hospital...
- Com você eu não vou para nenhum lugar. Não se faça de sonso, você acabou de passar a mão nos meus peitos!
Abri um sorriso de canto ainda admirando-a.
- Provavelmente o acidente deve ter afetado seu cérebro, acho melhor aceitar meu convite e irmos para o hospital mais próximo. - E depois para um motel.
- O senhor está de brincadeira, só pode!
- Prefiro que continue me chamando de você, como estava fazendo antes. - Quando conseguir chegar mais perto apertei sua mão e afirmei seriamente, num tom rude. - Entra logo no carro, vamos.
- Sai de perto de mim seu assediador maluco! - ela esbravejou alto despertando a atenção dos motoristas curiosos dentro de seus carros e até mesmo dos passageiros do ônibus que ela havia saído que por acaso ainda estava muito perto de nós.
- Não exagere moça. Você pode ver pelo meu carro que eu tenho dinheiro, posso te pagar bem...
Antes que eu completasse a frase fui acertado por um tapa. Era o segundo que levava nesta manhã, mas pela intensidade esse com certeza deixaria cinco dedos marcado na minha face.
Lamentável.
- Senhor! Senhor! - Dois guardas correram na nossa direção, um nó começou a se formar dentro do meu peito.
- Façam alguma coisa, este homem está me assediando! - ela exclamou com os olhos castanhos vibrando em puro ódio.
O guarda me fitou de cima a baixo, depois o meu carro, em seguida tornou a olhar para a moça.
- Estas neguinhas da favela não perdem uma oportunidade! Onde já se viu um homem como ele assediar uma mulher como você? - um dos guardas vociferou em alerta com as sobrancelhas arqueadas.
O nó que estava se formando no meu peito se desmanchou por completo.
- Senhor guarda, o que aconteceu, na verdade, foi que o motorista do ônibus que ela estava foi imprudente ao soltá-la no meio da pista em plena locomoção. Sem querer eu acabei batendo nela e como o homem íntegro que sou desci para prestar os devidos socorros.
- E desde quando passar a mão nos meus peitos é sinônimo de prestar socorro? - ela gritou nervosa, exageradamente apavorada mediante a situação.
- Eu não fiz isso, moça.
- Fez sim! - A menininha que agora estava em seu colo exclamou.
- Não dá para acreditar numa criança! - exclamou o guarda. - Eu acho que já vi o senhor em algum lugar...
- Na Forbes, na Exame, ou em alguma revista sobre economia provavelmente.
- Eu não sei, mas você parece muito com o filho daquele bilionário que morreu, um que era dono das maiores redes de supermercados do estado.
- Sim, sou eu mesmo. Kleber Galvão, presidente e CEO do grupo Galvão, os supermercados Bom Preço, o Mais Barato entre outros nos pertence.
- Oh, senhor Galvão, é uma honra conhecê-lo. Um homem rico como o senhor humilde desse jeito, estou surpreso.
A morena revirou os olhos bufando cheia de tédio, pouco impressionada com o que eu havia acabado de dizer.
- Posso ir embora? - ela perguntou.
O guarda estava prestes a abrir a boca para afirmar algo quando comecei a falar antes dele.
- Deixe-a ir. O que houve aqui foi um grande mal-entendido, sem contar que ela está com essa menininha no colo - disse me aproximando dela e da menina -, que coisinha mais linda... - A menina ficou sem graça, mas logo abriu um sorriso para mim. - Tome aqui meu cartão princesa, caso necessite seu tio está aqui.
- Eu não quero o seu cartão!
- O cartão é para ela - disse já colocando-o nas mãozinhas da menina.
- Malu, devolve o cartão.
- Não! O cartão é meu! - a menina exclamou depois de esconder o cartão dentro blusa. Eu sorri para a moça que a essa altura já estava me fuzilando com o olhar. - Bigada tio.
- Por nada! - respondi surpreso com a educação da criança, completamente o oposto da moça que estava acompanhando-a e que preferiu me dar as costas e ir embora sem me dizer uma única palavra.
A menininha fez questão de acenar, me dando tchauzinho, eu devolvi e foi naquele momento que desci um pouco mais os olhos e me deparei com aquela bunda redonda, empinada, quase saltando para fora do jeans.
Que fascínio seria tê-la de quatro, empinada na beirada da minha cama.
Passei a língua pelos caninos em seguida mordi o lábio inferior sentindo meu pau pulsar entre minhas pernas. Mais uma vez tive que usar a mão para disfarçar o volume. Não perdi tempo ao me despedir do guarda bajulador, entrar no carro e ligar o motor desencalhando um pouco da merda daquele trânsito. O engarrafamento sempre foi entediante, hoje tinha tudo para ser pior se eu não tivesse me deparado com aquela morena gostosa. A imagem dos seus seios pulando para fora do decote, da cintura fina, da bunda empinada e a boca carnuda virou um verdadeiro filme erótico na minha cabeça.
Aproveitei a falta de velocidade para abrir o zíper da minha calça, onde acariciei meu pau duro e rígido doido para receber um carinho. Foi o que fiz, retirei-o de dentro do tecido e com o olhar ainda concentrado na direção deslizei meus dedos vagarosamente pela pele quente e sensível, por cada milímetro do membro duro e pulsante que latejava toda vez que eu o apertava em minhas mãos com a imagem dos peitos daquela cachorra vagando na minha mente. Acelerei o ritmo, pensando na sua boca carnuda me mamando, me sugando até não sobrar uma gota de porra no meu saco.
- Ahhh! - rosnei, sentindo espasmos brotarem por todo meu corpo, enquanto meus cinco dedos continuavam trabalhando firme no pênis enrijecido.
Revirei os olhos em devaneio sentindo a onda do orgasmo tomar meu corpo no segundo em que atingi o ápice. A secreção saiu do meu membro me deixando um pouco mais aliviado, porém:
seus olhos;
sua boca;
sua bunda;
seus seios.
Continuavam aqui na minha cabeça, me fascinando, me tomando para si.
Aquela morena seria minha.
Custe o que custar, mas ela seria minha.
Estava explícito que ela era pobre, uma hora ela iria precisar de dinheiro.
Iria pegar o cartão e ligar para Kleber Galvão, um homem de bom coração que estava disposto a ajudá-la da maneira mais honesta possível.
Três
Gabi
- Nunca mais faça isso Malu! Quando eu disser para você não pegar as coisas da mão dos outros, você não pega! - Minha cabeça estava prestes a explodir e a cada passo que trocava pela calçada sentia meu coração bater mais forte, como se estivesse galopando dentro do meu peito.
Droga! Será que a essa hora a polícia já estava me procurando? Será que já havia cartazes estampados com minha foto espalhados por Araruama? Com certeza hoje à tarde meu rosto iria aparecer no Cidade Alerta e, por Deus, eu ainda não estava pronta para essa vida de foragida.
- Mas ele foi bonzinho comigo - Malu resmungou estreitando os olhinhos.
- Você é uma criança, qualquer um vai ser ou pelo menos vai fingir ser bonzinho com você. Quantas vezes tenho que te falar para não dar confiança para estranhos? Sem contar que aquele homem é o exemplo perfeito do lobo na pele de cordeiro, nunca vi tão cínico e dissimulado. Ele me assediou, depois ficou lá pagando de bom samaritano. Até dinheiro para dormir comigo o safado ofereceu.
- Desculpe mana, eu não queria te deixar bava.
- Eu não estou brava.
- Tá, sim!
Revirei os olhos já farta daquilo. Eu não estava brava. Estava nervosa. Nervosa como nunca me senti em nenhum outro dia. Droga! Como se não bastasse a furada que me meti ao esfaquear aquele bandido, eu ainda tive que esbarrar naquele playboy metido a fodão. Haja paciência com esses caras que tem grana. Eles acham que podem tudo. O que não é uma mentira já que aqui nesse país quem tem dinheiro faz o que quiser e, poucas são as vezes que dá em alguma coisa. Agora, olhando por outro lado eu nunca estive diante de um homem tão atraente. Ele era daqueles que exalava pecado e luxúria. Alto, magro, mas com o corpo definido na medida certa, os olhos negros marcados por sobrancelhas grossas eram intensos, penetrantes. Fatal. A ponto de desestabilizar uma pessoa, da mesma maneira que ele fez comigo nos primeiros segundos que nossos olhares se encontraram. Ele me sugou para sua escuridão e ali eu fiquei imersa por longos segundos, até perder de vez a noção do tempo e me deixar levar pelas sensações que invadiram meu corpo e causaram um tremendo devaneio. Ainda consigo sentir meu coração pulsando dolorosamente. Aquele nariz arrogante, com o queixo empinado era a moldura perfeita para os lábios pequenos e rosados, o cabelo liso penteado para trás...
- Gabi! - Ouvir meu nome foi como levar uma facada pelas costas, involuntariamente parei de andar e apertei Malu nos braços. - Pô Gabi, tu tá sumida! Você ainda tá trabalhando com a Lourdes?
Respirei fundo, me aliviando enquanto girava o pescoço para trás e dava de cara com Erick, meu ex-colega de classe. Ele estava atrás de uma banca improvisada de papelão coberta de choquitos e, outros doces calóricos.
- Erick, virou camelô agora?
- Pô, virei sim, já vai fazer um ano. Também larguei a escola pra correr atrás de grana, mas e aí, você tá fazendo o quê de rolê aqui em Nikit?
Saí do meio da calçada movimentada onde a cada segundo pelo menos duas pessoas esbarravam em mim e na Malu. Fui para trás da bancada do Erick e só quando me escorei numa parede me dei conta do quanto estava exausta, esgotada.
- Bom... - Tentei pensar em alguma coisa, mas as palavras não vinham. - Eu tô entregando currículos! - Coloquei um sorriso forçado nos lábios, mas murchei quando meu colega me fitou de cima abaixo com um olhar nada empolgante.
- Na moral, suja assim vai ser difícil tu arrumar um trabalho que não seja num açougue ou numa peixaria.
Nós rimos.
- Eu não tô dispensando nada. Porém, estou com um problema, eu preciso encontrar uma quitinete ou um barraco qualquer aqui para morar, você sabe que ninguém vai querer pagar duas passagens de Niterói para Araruama todos os dias.
- Isso é verdade.
- Você conhece algum lugar?
- Aqui no centro? Tu tá doida Gabi, aqui é o olho da cara. Mas eu posso olhar algum lugar lá no Caramujo, onde eu tô morando agora. Se eu não me engano tinha uma casa alugando na minha rua.
- Que maravilha! Tem como você falar com o dono pra mim?
- Claro, quando eu chegar do trabalho falo com ele.
- Ai droga, não pode ser agora?
- Não, agora não dá, eu tô trampando... Vem cá Gabi, tô te achando meio estranha, afobada...
- Eu? - Engoli em seco ao perceber que meu amigo estava desconfiando de alguma coisa. Me pus a acariciar os fios encaracolados de Malu, enquanto ela cochilava nos meus braços, numa tentativa de ficar um pouco mais calma.
Foi nesse pequeno momento de distração que inesperadamente, sem nenhum aviso prévio, meu colega e os outros camelôs que trabalhavam ao seu lado guardaram as mercadorias e desmontaram as bancadas improvisadas rapidamente. Num piscar de olhos mesmo.
- O Rapa!
- O Rapa!
Quem era esse tal de rapa?
Tive uma resposta assim que olhei para trás e vi os guardas que me pararam anteriormente vindo na direção dos camelôs. Aliás, na minha direção. Bastou que eu piscasse os olhos para que todos eles evaporassem sem deixar nenhum vestígio. Nem mesmo Erick que era meu amigo deixou algum sinal de vida.
Droga!
A primeira ideia que passou pela minha cabeça foi entrar na loja de sapatos as minhas costas. Ali fiquei, namorando as promoções enquanto os guardas rodavam a calçada a procura dos camelôs. Eu não era uma camelô, mas diante de tudo que aconteceu em plena manhã fiquei arisca, ciente de que a sorte não estava do meu lado e que hoje estava longe de ser o melhor dia para que eu me arriscasse em algo.
Enquanto olhava a vitrine uma sandália rasteira despertou minha atenção por dois motivos: Beleza e preço. Ela era perfeita, do tipo BBB (Bom, Bonito e Barato) e eu não esperei muito para avançar na sua direção, foi quando minha mão se chocou com a de outra pessoa. Rapidamente encolhi meus dedos, envergonhada pelas unhas descascadas do lado da mulher que usava acrigel e tinha as unhas longas pintadas impecavelmente de vermelho.
- Amada desculpe! Peço perdão!
- Imagina, que isso, pode ficar, eu nem tô podendo gastar.
- Então estamos kits, porque eu também não estou podendo. - Quando ela inclinou a cabeça e olhou para mim me surpreendi. Estava explícito que não se tratava de uma mulher, era um homem. Um travesti. - Sem contar que eu calço 42, isso aqui nunca iria caber no meu pé. Mas eu já me acostumei com isso, raramente encontro alguma coisa nessas lojas.
- Realmente, 42 feminino deve ser muito difícil de encontrar.
Ela me fitou de cima a baixo e não demorou para dizer:
- Essa menina linda no seu colo é sua filha? - perguntou empolgada, levando sua mão enfeitada com várias pulseiras coloridas à cabeça da minha irmã onde se pôs a acariciar seus cachinhos. - Que cabelo lindo! Ah, desculpe, acordei a menina, é que eu sou cabeleireira e não posso ver um cabelo assim.
- Ela é minha irmã e, você fez bem em acordá-la, meus braços já estavam dormentes de tanto carregar essa bolinha.
Coloquei Malu no chão e estiquei meus braços sentindo um enorme alívio.
- Eu não sou uma bolinha! - Malu exclamou esfregando os olhos.
- Não é mesmo, você é a coisa mais fofa que eu já vi.
- Quem é voxê?
- Eu sou Michelle, e você meu bem?
- Malia Luíza, mas pode me chamar de Malu. E eu tenho 4 aninhos - ela disse fazendo o quatro com uma das mãos.
- Ah, que fofa. - Michelle ficou um bom tempo fitando minha irmã como se estivesse encantada com ela.
- Desculpe, não liga pra minha irmã, ela é pra frente assim mesmo.
- Imagina, sua irmãzinha é um amor.
- Obrigada, você também é muito simpática, a propósito eu não me apresentei. Meu nome é Gabriela.
- Prazer, Gabriela, como você deve ter ouvido meu nome é Michelle, mas quando estou sem essa make e essa peruca mara, eu sou o Jurandir - ela disse sorrindo, jogando a peruca volumosa para trás. Michelle era bastante alta, era meio gordinha, mas tinha um corpo proporcional a seu tamanho. Olhos castanhos marcados por sobrancelhas expressivas, nariz acentuado e os lábios carnudos pintados de um vermelho rubi intenso deixava seu rosto um tanto chamativo para aquela manhã. - Parece que não é só sua irmã que está com sono?
- Nem me fale... Faz praticamente um dia que não durmo e, sinceramente nem sei quando isso vai acontecer... - Coloquei a mão na boca para conter o meu bocejo. - A essa altura as olheiras já devem ter tomado conta dos meu olhos.
- Não vou negar, mas por que você não descansa amada, tá fazendo o que aqui no centro a essa hora, sem dormir?
- É que... tô procurando algum lugar para alugar, eu... fui despejada de casa... - falei a primeira coisa que veio na minha cabeça torcendo para que ela não fizesse mais perguntas.
- Não brinca. - Ela arregalou os olhos escuros marcados por uma sombra azul. - Sendo assim, eu acho que posso te ajudar. No prédio onde eu moro eles alugam quartos.
- Obrigada, mas, o dinheiro que eu tenho aqui é bem pouquinho...
Michelle me cortou.
- Não se preocupe amada, lá é justamente para quem tem pouco dinheiro mesmo, não é à toa que eu moro lá. A diária dos quartos é super em conta.
- É mesmo?
- Sim.
- Bom, sendo assim, eu vou me arriscar.
Me arriscar mesmo.
Meu desespero era tanto que comecei a acompanhar uma travesti que havia acabado de conhecer para um lugar da qual eu não fazia a mínima ideia de onde era e como funcionava. Mas só dela ter dito que o local era super em conta foi o suficiente para despertar meu interesse. Me deixei guiar pela coragem, pelo desespero que afligia meu âmago e minha vontade insana de tirar pelo menos uma hora de sono. Andamos por 15 minutos, quando viramos à esquina Michelle apontou para um prédio enorme localizado ao lado da Caixa Econômica Federal. Para um lugar em conta, a estrutura do prédio era bastante atrativa, na verdade, ele não era muito diferente dos outros edifícios localizados naquela mesma avenida. Meu coração doeu quando o síndico do prédio me informou que os quartos mais em conta para alugar custam 25 reais a diária, era caro se eu levasse em conta que em apenas 9 dias eu não teria mais um único tostão na carteira, mas, pelo menos por hoje iria me dar o luxo de ficar ali para que eu e Malu pudéssemos descansar um pouco.
Paguei pelo quarto que ficava localizado no quinto andar do prédio. Ele era estreito, o espaço que havia nele em sua maior parte era ocupado por uma cama de casal que ficava em frente a uma janela que dava vista para uma longa, movimentada e barulhenta avenida. Felizmente havia um banheiro e, a primeira coisa que fiz assim que colocamos os pés ali dentro foi me enfiar debaixo do chuveiro junto com Malu. Levei algum tempo debaixo da água morna, na expectativa que ela lavasse de mim toda negatividade que resolveu se impregnar no meu corpo, em minha alma. Alguma coisa estava errada comigo, com tudo em mim.
Eu não era uma pessoa ruim. Eu não era uma assassina.
Porém, toda vez que olhava para minhas mãos enxergava sangue vermelho e vívido entre meus dedos e, consequentemente o momento em que cravei a faca nas costas daquele homem vinha à tona, fazendo um rebuliço, bagunçando, tirando de órbita todos os meus pensamentos. Meus batimentos estavam lentos, passando de forma dolorosa pelas minhas veias. As lágrimas vieram sem minha permissão, mas logo se fundiram as gotículas que caía em abundância da ducha.
- Gabi, voxê tá bem?
- Tô sim meu amor...
Na verdade, eu nunca tinha me sentido tão mal como estava me sentindo agora, a sensação de tirar a vida de outra pessoa por pior que ela tenha sido era horrível e, agora pesava toneladas sobre meus ombros.