A polícia da cidade foi acionada, suspeitas de que um homem que há muito tempo estava sendo procurado pela justiça, estava escondido em um dos pequenos barracos de madeira do conjunto habitacional. Todos acompanhavam aquele caso pela TV e queriam saber onde ele estava, aquela velha curiosidade de alguém com uma vida desinteressante tinha, ocupando seu tempo ali para não ter que pensar em seus próprios problemas.
Chegava a ser irônico, e talvez não pensassem que isso era o mesmo que se passava na cabeça dele, vivendo a vida perigosa que gostava de ter, correndo os riscos que gostava de correr. Ninguém o conhecia, ninguém sabia das coisas que se passavam por sua cabeça e nem o motivo de gostar tanto daquela adrenalina de ser sempre perseguido pela polícia, de estar na mídia.
A invasão ao local foi feita e o acusado foi detido antes que tivesse tempo de tentar uma fuga, nesse caso, a justiça tardou, mas não falhou, e estava preso e condenado Eric Gonzalez, pelo assalto ao Bank Of America, que ocupava atualmente a segunda posição em bancos mais importantes do país. Ninguém nunca achou os milhões de dólares que ele escondeu, e nem sabiam a respeito de cumplices ou não, só sabiam que ele havia pegado a maior parte e sumido com ele.
Mas ao ser encontrado, o dinheiro não estava lá.
Oito anos se passaram e Eric permanecia preso e sem dar uma única palavra a respeito do assunto que mais interessava a polícia "Onde estava escondido o dinheiro roubado?", mas a polícia ainda tinha uma carta na manga. O advogado do Gonzalez passou anos lutando na justiça por uma pena intermediária, que pudesse diminuir os anos de condenação dados a ele, mas sem uma colaboração da parte de Eric, isso se tornava cada vez mais difícil.
Mas o que parecia impossível aconteceu, uma ordem dada pelo juiz dava a Eric o direito de terminar a pena cumprindo serviços comunitários, aos olhos dele era humilhante, mas necessitava sair daquele lugar e estava disposto a se submeter a qualquer coisa.
Ele foi chamado à presença do juiz, uma assembleia havia se formado para resolver esse assunto, e o homem, que estava com uma barba precária, se colocou em frente ao juiz e diante das dezenas de pessoas que estavam ali, sem dizer uma única palavra.
- Eric Gonzalez, o assaltante mais famoso dos últimos tempos. - debochou o juiz, o caso do moreno chamava sua atenção, nunca tinha visto alguém como ele, nunca abriu a boca nem sob tortura, parecia que nem sentia dor.
A polícia foi muito baixa com ele, o torturava quando as câmeras estavam desligadas e isso fazia Gonzalez ter certeza de que havia muita coisa por baixo daquela história, e que os interessados não estavam com a intenção exata de devolver o dinheiro aos cofres públicos. Ele não era burro, sabia quando alguma coisa estava fora do lugar.
Claro que o fato dele ter sido torturado era mantido em segredo, a imprensa não precisava saber das vezes que o afogaram ou que bateram com sua cabeça com força contra a mesa de metal, nem das dezenas de vezes em que o queimaram com pontas de cigarros.
- Viemos para tratar a sentença paralela do meu cliente. – falou o advogado, um homem loiro e de boa aparência, que demonstrava estar bastante seguro.
Advogados eram assim, sempre pareciam ter tudo sob controle mesmo quando as coisas estavam tentadas a desabar. Aquele homem havia lutado por oito anos para obter a confiança de Eric e a polícia o perseguia dia e noite, sempre esperando pelo momento em que ele fosse revelar algo que seu cliente lhe havia revelado. Mas sempre acabava em perca de tempo, assim como Eric, Charles Davis era discreto e quieto quanto aquele assunto.
- Muito bem, seu pedido foi ouvido pela suprema corte. – começou – E o pedido de uma nova sentença foi aceito, desde que, é claro, que todas as exigências sejam cumpridas ao pé da letra.
O homem ouviu tudo e assentiu. Os dois estavam atentos e Eric estava muito quieto, como sempre esteve. Uma quietude que irritava todos que tratavam de seu caso, eles queriam uma ação, queriam que ele dissesse qualquer coisa que fosse, mas ele teimava em ficar ali apenas os observando como uma cobra observa sua presa antes de dar o bote.
E aqueles olhos eram assustadores.
Sempre aqueles malditos olhos escuros, que carregavam alguma coisa sombria, além de um charme exagerado que chegava a ser irritante. O tempo que ocupava as telas do noticiário era suficiente para o encher de fãs ensandecidas, que lhe enviavam cartas na prisão com juras de amor, algumas que chegavam a assustar quem lia.
- Eric deverá cumprir seis meses de serviços comunitários em um orfanato sob vigilância e enquanto isso deverá ficar em prisão domiciliar.
- Como meu cliente vai cumprir prisão domiciliar se vocês destruíram a casa dele?
- Quem disse que ele iria ficar sozinho? - o juiz riu debochado, iria adorar ver como o moreno iria se sair diante daquela situação, ou se ele iria esboçar algum sentimento – Ele terá vigilância constante e ficará na casa de alguém de minha mais alta confiança, e é claro, vai usar um rastreador preso ao tornozelo, assim não vai ter chances de conseguir escapar sem que a gente saiba.
Gonzalez levantou seus olhos pela primeira vez e encarou o homem à sua frente, mas em seu rosto não havia nenhuma expressão. Era humilhante demais, mas ele iria encarar de frente.
- Mandem chamá-la. - o homem sussurrou para um de seus subordinados, que saiu pela porta lateral que havia na sala.
Segundos depois voltou acompanhado de uma mulher, que mesmo coberta pelo uniforme da polícia, parecia ser bastante bonita. Eric olhou para ela, durante anos havia ficado sem ver nenhuma mulher, e de longe conseguia sentir até mesmo o seu cheiro.
- Esta é Oficial Torres, você ficará sob a vigilância dela, na casa dela, e ela cuidará para que você ande na linha.
Aquelas palavras animaram o moreno, até que esses seis meses não seriam tão chatos assim, sozinho numa casa ao lado de uma bela mulher. Foi somente naquele instante que o rosto do moreno mudou de expressão, formando um sorriso de lado, sorriso esse que demonstrava o quanto "ela" o fazia queimar.
- E não se anima não, Gonzalez, a garota anda armada, e muito bem armada. - o juiz queria rir daquela situação - E peço que respeite a policial.
Era engraçado porque Eric podia notar que em seu tom de voz nem ele própria a respeitava. Aquilo já estava mais do que claro, a polícia estava brincando com ele. Havia posto uma mulher para o vigiar acreditando que se sentiria ainda mais humilhado, obviamente porque eles não a respeitavam. Eram todos um bando de imbecis hipócritas e talvez aquela mulher fosse o ser mais esperto naquela sala.
Aquilo podia ser um banho de água fria em qualquer um, mas para ele só melhorava, era do tipo que adorava uma mulher difícil e se ela andava carregando uma arma, só fazia aumentar ainda mais seu desejo. Ele quis no momento em que a viu, mas ainda não sabia o que esperar dela.
- Já podem ir, ele se muda para a casa dela hoje.
Naquela mesma tarde Gonzalez foi direcionado de volta à sua cela para pegar suas coisas e ser removido do presídio de segurança máxima. No caminho ele e seu advogado não trocaram uma só palavra, apenas sussurros muito discretos.
Ele colocou todas as suas coisas de volta em sua única mala, o que mais impressionava era que mesmo se tendo passado tantos anos, suas roupas eram na maioria novas, seu advogado estava sempre lhe trazendo roupas para que mantivesse a sua boa aparência.
Depois destas coisas foi algemado e removido do local com a companhia de dois policiais armados, enquanto o advogado carregava sua mala. Foi levado até um carro que estava parado em frente ao presídio, ele entrou juntamente com os que estavam com ele, e sua mala ficou guardada no porta malas.
Ele passou o caminho algemado, e pelo retrovisor podia ver outro carro de polícia os seguindo. Aquilo era ridículo, tanto esforço somente para o manter no carro até chegarem a casa, como se ele fosse burro de tentar fugir e estragar todas as suas chances de completar sua pena e se ver livre de uma vez.
Quando chegaram à casa, todos os que estavam no carro com ele desceram, e também os que estavam no outro carro, que era somente o delegado e a Oficial Torres. Ela foi até a porta e a abriu para que todos entrassem. O delegado se pôs diante de Eric e por fim colocou em seu tornozelo a garantia de que ele não teria chances de escapar, um rastreador ligado à corrente sanguínea, ele não podia ser arrancado sem disparar e nem podia sair dos limites da casa sem estar acompanhado pela policial.
Claro que o moreno não gostou nada do desconforto que aquilo trazia, mas iria se submeter sem questionar uma só vez, em seu rosto nenhuma feição se mexia, e seus olhos estavam como mortos, mas ainda se mexia de um lado para o outro captando a nova casa.
- Policial Torres, conhece as ordens, o trabalho dele começa na segunda-feira, e lembre-se que ninguém no local deve saber que ele é um criminoso condenado, não se sentiriam seguras, cuide para que nada saia fora do planejado. - disse o delegado diretamente à bela moça de cabelos ruivos.
- Sim senhor, conheço as ordens, garanto que nada sairá do planejado. - A Oficial assentiu.
Após isso o delegado se retirou com todo o seu pessoal, deixando apenas ela, Eric e seu advogado, além de, é claro, vários policiais de campana vigiando a casa do outro lado da rua. O homem loiro olhou em derredor, e assim que ouviu o barulho dos carros da policia saindo do local, se retirou também, deixando a mala de Eric aos seus pés.
- Venha comigo. - disse a ruiva, Eric a olhou se virar e admirou o belo traseiro que ela tinha, realmente estava sentindo falta de uma mulher.
E ele a acompanhou escada acima, trazendo em mãos a única mala que possuía. A escada dava em um corredor com três portas, uma de frente para a outra, com a terceira de frente para a escada. Ela, cujo primeiro nome era Marina, apontou para a porta do meio e em um tom de autoridade falou:
- Nunca entre naquele quarto, está trancado, e se está trancado, é porque eu não quero que você entre ali. Entendeu?
O moreno balançou a cabeça lentamente em sinal de ter entendido. Mas isso não significava que ele iria obedecer para sempre. Na verdade, sua curiosidade foi automática, queria saber o que estava ali e suas habilidades em arrombar portas acabariam sendo uteis em algum momento de distração. Tentou tirar aquilo da cabeça pelo momento.
Marina apontou para a porta da esquerda e falou:
- Este é o seu quarto, entre. – ele girou a maçaneta e abriu a porta, tudo era bastante simples, mas bem arrumado.
Uma cama de casal, um criado mudo, uma cômoda com uma pequena TV, e um armário onde ele podia colocar suas roupas. Havia mais uma porta ali dentro, o banheiro. A maioria dos hotéis em que se escondeu eram assim, chegava a ter um ar de lar.
- Aqui tem tudo o que precisa, seu advogado trouxe roupas para você mais cedo e também outras coisas, o banheiro fica ali. – e ela apontou para a porta azul que ali tinha – Tome um banho, você fede.
E dito isto ela saiu do quarto o deixando ali sozinho com seus pensamentos, mas pensando bem, um banho iria lhe cair muito bem. Ela era direta e não tinha medo de usar palavras ofensivas com ele e isso era excitante. Havia gostado do que havia conhecido até então, mulheres marrentas sempre foram seu interesse principal e não podia negar que aquela mulher tinha uma marra de ficar presa na memória, gostava do som de sua voz e de como o olhava com certo ar de superioridade, sempre era mais interessante ir atrás de mulheres assim.
Elas eram seu desafio favorito.
Ele foi para o banheiro e ali tirou a roupa que estava vestindo. Quando se está em um presídio, as roupas não costumam ser muito cheirosas. E a água que caia por aquele chuveiro era quente, uma temperatura que ele não lembrava mais, os banhos que tomava na cadeia costumavam ser frios e muitas vezes com água não tratada. Quando se está preso em um lugar daqueles, eles sempre fazem questão de tornar tudo extremamente desagradável e parecia que faziam isso com ainda mais vontade quando se tratava dele.
Ter um sabonete só para si era um sonho, e poder lavar seu cabelo com um shampoo que não cheirava a óleo de cozinha era algo que já não se lembrava mais. Tomar aquele banho o fez se sentir mais vivo.
Quando terminou, olhou-se no espelho, seu rosto estava barbudo e suas sobrancelhas estavam grossas como as de alguém que havia naufragado e passado anos perdido. Quando se está em uma cadeia de segurança máxima, um barbeador não passa nem no portão.
Quando acabou de fazer a barba, viu no espelho outro homem, um homem que ele já estava sentindo saudades de ver, os anos preso o haviam castigado muito, ele estava quase irreconhecível, mas depois de tomar aquele banho e de fazer a barba, estava começando a parecer com ele mesmo novamente.
Era um homem bonito e que muitas vezes se deixava levar fácil por sua vaidade, gostava de sempre aparentar estar bem. Eric Gonzalez havia nascido em um lugar digno de se esquecer e com uma família digna de ser deixava para trás, preferia não falar deles e nem pensar neles, estava por si próprio agora assim como sempre esteve. Muitas pessoas tinham curiosidade por seu passado, mas tudo o que ele se resumia a dizer era sempre:
"Indigno de ser dito em voz alta".
Enrolou-se em uma toalha que achou ali dentro e voltou para dentro do quarto. Abriu o armário e lá estava cheio de roupas, as roupas que seu advogado havia comprado para ele, pois o mesmo já havia pedido, mesmo antes de saber que ficaria em prisão domiciliar.
Escolheu e vestiu uma simples calça moletom cinza, a noite estava quente não vestiu nenhuma camisa. Enxugou os cabelos e os sacudiu, eles não precisavam ser penteados, ele preferia eles mais naturais e rebeldes. Passou um perfume que estava em uma das gavetas da cômoda, não sabia mais o que era ter um cheiro diferente do mofo. E depois de tudo isso se olhou no espelho mais uma vez, aquele Eric era diferente do Eric que havia entrado naquela casa há duas horas atrás.
Estava com fome e decidiu descer para ir à cozinha, com sorte a policial já havia preparado algo para ele comer, mas isso era apenas o que ele esperava. Pena que estava prestes a descobrir que não era bem assim.
Desceu as escadas que davam à sala e atravessou a porta da cozinha, e a mulher que ali estava era uma mulher um tanto mais saboreável do que a mesma que havia entrado com ele mais cedo, se esticando para pegar algo na prateleira de cima, não se parecia nada com a policial durona que outrora tinha visto. A curta camisola azul quase deixava sua calcinha à vista e seus cabelos estavam soltos e jogados por suas costas, a visão que teve o agradou, e muito.
- Você fica bem melhor assim do que com aquele uniforme. - foi a primeira vez que ele falou, e a voz atrás dela a assustou um pouco. Ela virou a cabeça rápido, e isso a fez se desequilibrar da cadeira. Ela fechou os olhos quando achou que iria ao chão, mas antes disso dois braços a seguraram e pararam sua queda.
Quando abriu os olhos, seu olhar se chocou com dois olhos negros que a fitavam de forma estranha, ela observou aquele rosto por alguns segundos, não se lembrava que o Gonzalez era tão bonito.
- Obrigada, mas você já pode me colocar no chão. – ela falou, mas ainda estava um pouco assustada, fez de tudo para ele não perceber que ela havia se assustado.
Perder a postura era tudo o que menos queria naquele momento. Mas quanto a Marina, Eric ainda não podia dizer nada, ela podia muito bem estar a fingir tudo para o fazer se agradar dela ou quem sabe apenas o fazer baixar a guarda por acreditar estar com alguém inofensivo. Ele era mais esperto que isso, precisava ficar de olho nela, e dessa vez não da forma que estava antes.
Ele a colocou no chão e ela voltou para o fogão, estava esquentando algo para jantar. E pelo visto, ter o moreno ali não iria ser tão fácil quando ela imaginava. Olhou de canto de olho para o homem parado ali ao lado do balcão de sua cozinha, estava limpo e seu rosto não se parecia mais com o de um mendigo, o cheiro que vinha dele não era mais o de mofo, e a visão dele sem camisa, a fez sentir seu pescoço queimar. Estava lutando internamente para manter a postura, ou pelo menos, fingia muito bem que estava, pois seu rosto estava levemente se avermelhando.
Ela terminou o que estava fazendo e colocou seu jantar em uma tigela, e como quem o ignorava passou por ele em direção à sala. O moreno a olhou sem entender e sentiu seu estomago roncar.
- E o meu jantar? – ele perguntou.
Marina parou o caminho que estava fazendo e deu meia volta. Colocou seu prato no balcão, pegou uma panela e um isqueiro e entregou nas mãos de Gonzalez, que os recebeu sem entender nada.
- Ta aí, quer comer? Se vira.
E dito isto ela pegou seu prato novamente e foi para a sala. Se ele achou que seria fácil viver com ela durante esses seis meses, estava muito enganado.
Marina não estava ali para dar mole ao Gonzalez, não em teoria, sua função era garantir que Eric permanecesse dentro nas normas permitidas, e não ser babá do mesmo. Ela havia batalhado muito para conseguir chegar até seu posto e estava disposta a esquecer-se que estava lidando com um homem extremamente bonito e sexy. Mas ninguém disse que isso era fácil.
Ela assistia atentamente a novela, mesmo sendo policial, não deixava de ser mulher e ter a suas delicadezas e aquela era a sua favorita. Ouviu certo som vindo da cozinha, mas acabou por ignorar, julgava ser Eric revirando em busca de alguma coisa para comer, só depois de alguns minutos, quando o ruído de panelas sumiu e um cheiro maravilhoso começou a subir pelos ares, sua curiosidade surgiu.
Enquanto passava um comercial, ela se levantou indo em direção à cozinha, o cheiro só aumentava e ela estava quase flutuando imaginando que gosto teria. Ela não imaginava ver Eric cozinhando, mas não havia outras opções, o moreno estava no pé do fogão mexendo em alguma panela, que borbulhava, Marina teve que morder o lábio para não babar, pois a macarronada estava com uma cara ótima.
- Não pensei que soubesse cozinhar. – ela comentou enquanto se colocava ao lado do fogão, não tirava os olhos da panela.
- Eu sei sobreviver. – Gonzalez era homem de poucas palavras, não via motivos para conversas longas, era o tipo de coisa que evitava, e enquanto não conhecesse e analisasse o suficiente da policial, evitaria falar muito de si e deixa-la falar mais dela.
Maria entendia bem o que ele queria dizer, Eric não iria simplesmente se deixar morrer de fome, ele estava pronto para qualquer coisa.
A ruiva estava meio balançada por ter mandado ele fazer sua própria comida, o cheiro estava muito bom e a aparência melhor ainda, sim, ela queria, mas não iria pedir, pois seu orgulho era grande demais para receber um não. Por mais que aquela casa fosse dela, que tudo ali pertencesse a ela, ainda tinha receio de discutir com ele, afinal, aquela não era a sua real missão.
- Tudo bem. Lave tudo o que sujou depois. – achava melhor manter a pose, continuar sendo a policial durona que deveria ser.
Não disse mais nada, nem esperou ele dizer, apenas deixou sua vasilha na pia e saiu da cozinha. Desligou a TV da sala e subiu para o quarto, precisava descansar, seu dia já havia sido cheio demais e tinha que repor as suas forças, pois teria longos dias ainda pela frente.
Em seu quarto, se jogou na cama e se enroscou em seus próprios lençóis, era uma noite nem muito quente nem muito fria, uma noite que podia dormir como bem desejasse, estava um pouco incomodada pela presença de Eric Gonzalez em sua casa, incomodada pelas coisas que se passavam em sua mente, por tudo.
O sono lhe custava a chegar, ela não conseguia dormir, tinha mil motivos para sua insônia, só tinha que escolher um. Essa era Marina Torres, policial, agente especial de investigação e criminalística, mas acima de tudo, uma mulher cheia de sonhos e ambições, que presava pelo bom caráter. Talvez isso a incomodasse.
Enquanto isso Eric permanecia na cozinha, estava terminando de pôr o seu prato, estava sozinho, mais uma vez, a solidão era sua melhor amiga. Havia poucas luzes da casa acesas, ele preferia a escuridão parcial, estava acostumado com o escuro de sua cela, acostumado a aquela sensação de vazio dentro de si.
Arrumou seu prato na mesa, o claro da janela a iluminava e refletia a sua luz pelo vidro, refletia seu rosto, ele era um homem bonito, um homem capaz de qualquer coisa, nem mesmo os anos de cadeia tiraram dele a sua bela aparência, seu corpo bem feito, mas ele ainda podia sentir seu sangue frio em suas veias, nem parecia estar vivo, ou vivo estaria até demais?
Comia, mas era como se não sentisse gosto nenhum, era bom provar de sua própria comida mais uma vez, algo que fosse feito por mãos que se importavam com higiene, comida que não tivesse gosto de fomo. Mas mesmo assim, não estava feliz, ainda estava preso, quem sabe até de forma mais humilhante, sendo vigiado por alguém que ele julgava não ser capaz disso.
Poderia ir embora a qualquer momento, mas escolheu ficar.
Aquela mulher, tentava entender os motivos que levariam a terem escolhido justo ela, justamente uma mulher para vigiar um homem como ele, não era assim que costumavam agir, tinha algo fora do lugar, e ele estava disposto a descobrir o que era. Aquele não era o comportamento da polícia machista que ele conhecia.
Não era de obedecer, então depois de ter comido largou o prato em qualquer lugar da cozinha e subiu para o quarto. No silencio da noite podia ouvir a escada ranger um pouco, a casa não era nova, por baixo do carpete azul novinho havia degraus de madeira um pouco velha. Queria juntar todas as informações que pudesse, não tinha acesso a internet então sua investigação tinha que ser pelo que encontrasse na casa.
E no fim do corredor de frente para a escada estava a misteriosa porta trancada, tinha algo ali atrás que com certeza mexia muito com ela, ele só tinha que saber a hora certa de usar isso a seu favor.
Lá estava seu quarto, entrou por aquela porta, sua cama, suas coisas, seu novo lugar, não era seu de verdade, mas fingiria ser por certo tempo até encontrar com sua liberdade, no fundo, ele não acreditava que seria liberto quando findasse os seis meses, mas em sua mente um plano se formava. Tinha que se formar, ele não podia deixar barato tudo o que lhe fizeram.
Deitou-se em sua cama, largado ali ele podia pensar, era confortável, não sabia mais o que era dormir em uma cama assim, suas costas doíam pela cama de cimento em que se deitava, dormir ali era como dormir numa nuvem. Seu corpo relaxou, seus músculos tiveram paz naquele momento.
Eric não era nenhum burro, não podiam engana-lo assim, seja lá o que estivessem tramando, uma hora ele iria descobrir e não iria demorar. Não contou quanto tempo demorou para seu sono chegar, ele era do tipo que nunca dormia muito. Dizem que 1/3 de nossas vidas passamos dormindo, mas essa lei não se aplicava a ele.
Marina em seu quarto havia acordado, mal havia pregado seus olhos, desconfiava e temia que seu prisioneiro se rebelasse durante a noite, estava insegura e a arma carregada em baixo de seu travesseiro revelava isso. Ele estava muito quieto, havia estudado seu comportamento, mas esperava que ele fosse tentar alguma coisa, agisse de outra forma.
Muitas coisas estavam em sua mente, seu sono lhe fugiu dos olhos, tudo se lhe secou, tinha algo errado, só não sabia o que era, incomodava e não parava de incomodar, sabia que já deveria ter começado, mas a coragem lhe tinha fugido das pernas, do corpo. Seu corpo, seu maldito corpo que lhe havia posto naquela situação.
Fazia parte daquilo, mas ficara com a pior parte.
- Sabe se virar, vamos ver se sabe mesmo se virar. – disse ela a si mesma, ele lhe havia dito saber se virar, esse era seu desafio.
E a noite lhe fugiu pelas mãos, tudo era escuridão e de repente o sol nasceu trazendo luz ao seu quarto, as janelas abertas entregavam o dia, ela não dormiu, não podia dormir e naquela manhã domingo seus pés tocaram o chão com firmeza, assim como todos os outros dias, não estava de folga, estava em sua missão mais importante, não tinha tempo para baixar a guarda.
Nas águas frias banhou seu corpo, nada a relaxava mais do que aquilo, seus banhos quentes pela manhã lhe traziam de volta a vida que perdera durante o dia e a noite passada, paz, era o que precisava para si.
Depois de ter terminado seu banho e se trocado, desceu para preparar seu café da manhã, ainda era muito cedo e provavelmente Eric estaria dormindo. Mas enquanto descia ouviu barulhos vindos da cozinha, ele estava acordado, definitivamente estava.
Marina estava em sua casa, ela era jovem e suas roupas eram curtas e coloridas, assim como ela gostava, uma blusa laranja e um short azul marinho jeans bem curto e desfiado, seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo para trás, ela estava se sentindo confortável e tudo era para mostrar a Eric que a presença dele ali não era importante para ela.
A cozinha estava novamente com um cheiro bom, um cheiro que a fazia ignorar os pratos sujos na pia, mais uma vez tinha que ser durona, não podia proibi-lo de comer ou cozinhar, mas isso não impedia que tivesse vontade, o prisioneiro cozinhava muito bem.
Tentou fingir que não o havia visto, foi direto para o armário para procurar alguma coisa para comer, tinha que se distrair e evitava olhar para ele.
Gonzalez não a cumprimentou nem trocou com ela uma única palavra, apenas permaneceu no que estava fazendo. Ele colocava sua comida na mesa tranquilamente como na noite passada, e Marina viu que estranhamente ele colocava dois pratos ali em cima, Eric terminou de arrumar suas panquecas e seus ovos mexidos, leite, café e suco, a mesa estava muito bonita.
Ele se sentou e Marina o acompanhou com o olhar, nessa hora se esqueceu até de disfarçar enquanto o olhava. Ele notou seu olhar e antes de levar a comida à boca, falou:
- Não vem comer?
A princípio ela não havia entendido, mas enquanto olhava o outro prato a resposta lhe veio à mente, a pergunta era: por quê?
Ela lavou o sabão de suas mãos e foi até a mesa, e sem dizer nenhuma palavra se sentou à frente dele, com aquele mesmo olhar concentrado dentro de si mesma, Marina não queria bobear, não o conhecia e não podia confiar em um prisioneiro de alta periculosidade.
Serviu-se apenas com o que ele também se servia, não que desconfiasse que ele a tentaria envenenar, seria burrice demais da parte dele, mas era porque ambos possuíam a mesma maneira de comer, a mesma ordem. Primeiro o café, depois o leite, depois uma panqueca e misturava com os ovos mexidos, parecia estar sendo sincronizado.
- Por quê? – ela perguntou logo depois de um longo gole em seu café.
- Não sou como você. – o moreno respondeu ainda mantendo seus olhos em seu prato.
Ela havia entendido, ela não se importaria em fazer comida para ele, mas ele estava se importando. Quando mais o via, mais percebia o quanto não sabia nada a respeito dele, havia o estudado tanto, mas pelo visto seus estudos estavam errados. Ela conhecia o Eric que existia antes da cadeia, agora tinha que conhecer o Eric que saiu de lá.
- E como você é? – ela perguntou tentando manter a conversa a mais distante possível. Temia a si mesma.
- Quanto menos souber, melhor.
- O que está evitando, Gonzalez?
Mas ele não a respondeu, ela precisava de uma resposta, mas não era essa a pergunta. Ela evitava mostrar a ele quem ela era, mas infelizmente ele fazia o mesmo.
Não trocaram mais nenhuma palavra durante o café da manhã e logo depois Marina se levantou, antes dele, já estava satisfeita, ou fingia estar. Queria subir e descansar sua mente, guardar dentro de sua mente tudo o que estava aprendendo enquanto o observava.
- A louça não vai se lavar sozinha, limpe tudo o que sujou quando terminar.
A ruiva falou autoritária, e ele não lhe disse nada em resposta, nem balançou a cabeça para dar sinal de nada. Mas ela também o ignorou e seguiu seu caminho para a escada. Ela também observava a porta enquanto subia, sabia muito bem o que havia lá dentro e estava disposta a mata-lo se ele ousasse entrar ali.
Ela entrou em seu quarto e em sua cama se sentou, jogou fora o ar dos pulmões e relaxou os ombros, aquele homem não era o que ela pensava que era, não era um psicopata controlador como a policia o rotulava, mas também não era um príncipe encantado.
O telefone tocou a fazendo se assustar, estava distraída olhando o vazio do quadro à sua frente. Levantou e pegou seu telefone do gancho, era sua linha segura.
- Marina, nos informe a atual situação do prisioneiro.
- Permanece da mesma maneira, quase nunca fala e ainda não disse uma única palavra a respeito do dinheiro, senhor.
Aquele era seu comandante, o homem que a havia colocado naquela situação.
- Já deu inicio ao plano, agente?
- Senhor com todo o respeito eu não acho que esse seja mesmo o melhor jeito.
- Nós já discutimos sobre isso, Marina, essa é a sua missão e não pode em hipótese alguma falhar, você foi escolhida justamente para isso, não falhe.
- Sim senhor, o plano terá inicio hoje mesmo.