Scarlett Voss
O despertador toca às seis em ponto e eu não demoro para abrir os olhos, nunca demoro. Ficar na cama tempo demais sempre me pareceu perigoso. Como se, ao relaxar, algo pudesse sair do controle. Então eu simplesmente me levanto. O teto branco está ali, com a mesma rachadura no canto direito. Eu encaro aquilo por alguns segundos, como faço todas as manhãs, antes de me sentar na cama.
Mais um dia. Ou melhor, o primeiro.
Solto o ar devagar e passo a mão pelo rosto, afastando qualquer vestígio de sono. Não tenho tempo para isso. Nunca tive.
Me levanto e sinto o chão frio sob os pés. O apartamento é pequeno: quarto, sala com cozinha e um banheiro apertado, mas tudo está exatamente onde deveria estar. Organizado, bem limpo. Sob controle. E tudo era meu.
Eu precisava disso, ter controle sobre minha vida.
Caminho até o espelho preso na parede e paro na frente dele. Meu reflexo me encara de volta: cabelos castanhos, pele clara, expressão neutra. Quase fria.
Quase? Não, fria o suficiente. Sempre fui assim, algumas pessoas até acham que sou exibida, metida, mas sou apenas fria mesmo, desde sempre.
- Primeiro dia - murmuro, mais para fixar do que para comemorar.
Abro o guarda-roupa e não penso muito antes de escolher. Roupas escuras, sempre. Calça preta, blusa de gola alta, casaco estruturado. Nada chamativo. Nada que chame atenção desnecessária.
Enquanto me visto, minha cabeça já está funcionando. Faculdade pela manhã. Trabalho na loja de roupas, à tarde. Revisar contas à noite. Tudo encaixado.
Na cozinha, preparo o meu café. O cheiro preenche o apartamento e, por alguns segundos, o silêncio deixa de parecer vazio.
É... confortável.
Ou o mais próximo disso que eu conheço. Encosto na bancada com a xícara quente entre os dedos e, sem aviso, a lembrança vem. Eu tinha dez anos quando tudo aconteceu.
Vozes baixas. Adultos falando como se eu não estivesse ali, o peso no ar, aquele tipo de silêncio que diz mais do que qualquer palavra.
"Você vai ficar com seus tios agora."
Simples assim. Sem abraço. Sem explicação. Sem alguém perguntando se eu estava bem com aquela informação que só foi jogada no meu colo. E eu não estava. Mas isso nunca foi uma pergunta.
Pisco, forçando a lembrança a desaparecer.
Meus tios não foram ruins comigo. Fui acolhida na casa deles, fui para a escola, obedeci suas regras. Me ensinaram a ser... funcional. Ensinaram o que estava dentro das possibilidades, mas o carinho e o amor, dentro de mim é incompleto, como se eu não precisasse desse. Eles nunca me deram amor, então, nem sabia explicar nem o que era isso, na verdade.
E talvez tenha sido ali que eu aprendi a lição mais importante da minha vida: não depender de ninguém para nada nessa vida.
Aos dezoito, tomei a decisão de ir embora, mesmo que ficasse sozinha. E não olhei para trás. Consegui alugar este apartamento, mesmo que seja pequeno, é meu lar. E me sinto bem aqui.
Termino o café, lavo a xícara imediatamente, não gosto de coisas acumuladas, e pego minha bolsa para sair.
Mas antes, paro por um segundo e olho ao redor. Esse lugar... é meu, e isso ninguém tira de mim. Cada canto, cada móvel. Cada conta paga.
Eu consegui isso. Sozinha. Começando de baixo e isso, é o que importa.
Saio para a rua e o frio de Londres bate no meu rosto. Hackney já está acordando, gente apressada, cafés abrindo, bicicletas passando. É caótico, vivo, imperfeito. Talvez por isso funcione pra mim.
Começo a andar em direção ao ponto de ônibus. Hoje não é um dia comum, e eu não posso errar. Já vinha me preparando muito para esse dia e falhar, não estava nas opções, meu primeiro dia na faculdade tinha que ser perfeito.
O ônibus segue cheio, mas silencioso o suficiente. Eu sento perto da janela e observo a cidade passando. Grafites, vitrines, pessoas... cada uma vivendo sua própria história, sem se importar com a dos outros. Eu gosto disso.
Ninguém presta atenção, nem pergunta nada.
Quando o ônibus entra nas áreas mais centrais, o movimento aumenta. Londres nunca desacelera e, de alguma forma, isso combina comigo.
Parar e estagnar nunca foi uma opção.
Desço perto da universidade e, por um instante, meus passos desaceleram.
Eu olho para o prédio à minha frente. Grande e imponente. Cheio de gente que parece pertencer àquele lugar. Eu não pareço, mas estou aqui, pela necessidade, mas também pelo futuro que eu quero construir.
"Eu fiz isso."
O pensamento vem firme, sem hesitação. Eu fiz isso, e sem ajuda emocional. Sem alguém segurando minha mão para me apoiar, sem ninguém me garantindo que daria certo. Só eu.
Endireito os ombros automaticamente e começo a andar. Minha expressão volta ao lugar de sempre: controlada, fechada, segura. É assim que eu preciso ser.
Por dentro, não importa.
Entro no campus e sinto alguns olhares, rápidos, curiosos. Ignoro todos. Não estou aqui para fazer amigos. Não preciso disso.
A aula começa e eu me concentro imediatamente. Anoto tudo, cada detalhe. Administração não é só um curso pra mim. É independência. É garantia.
É a certeza de que eu nunca mais vou precisar de ninguém.
Quando a aula termina, eu não fico. Não converso. Não hesito.
Guardo minhas coisas e saio. Próxima parada: trabalho.
Shoreditch me recebe com seu caos organizado, ruas cheias, arte em todo lugar, gente estilosa, cafés lotados. É diferente de Hackney, mas ainda assim, combina com a vida que eu escolhi. Entro na loja e o ambiente familiar me acalma. Cheiro de roupa nova, música baixa, tudo no lugar.
Aqui eu sei o que fazer.
- Chegou cedo - diz uma colega, sorrindo.
- Primeiro dia na faculdade - respondo.
- E você veio trabalhar mesmo assim?
Eu dou de ombros.
- As contas não esperam.
E não esperam mesmo.
Começo a organizar algumas peças, alinhando tudo com cuidado. Movimento após movimento, tudo sob controle.
E então vem aquilo de novo.
Aquela sensação.
Sutil, incômoda, orgulho. Eu estou fazendo dar certo. Sozinha, mas junto com isso, existe outra coisa. Um vazio. Pequeno e silencioso, mas sempre ali.
Eu ignoro, como sempre.
Porque eu sei o que acontece quando você começa a precisar de alguém.
Eu sei o preço disso. E eu não vou pagar de novo.
Mesmo que, no fundo, eu já esteja mais perto disso do que deveria.
Capítulo 2
Scarlett Voss
DIA SEGUINTE.
Eu devia ter imaginado que não ia ser tão simples assim. Saio da sala depois da aula de introdução à administração, ainda revisando mentalmente cada ponto importante, quando percebo alguém andando ao meu lado.
- Você anota tudo mesmo, né? - Eu paro, devagar.
Viro o rosto e encontro um garoto sorrindo como se já me conhecesse.
- Desculpe, não entendi? - respondo, sem paciência pra rodeios.
- Na aula - ele aponta com a cabeça. - Você não perdeu nada. Nem uma palavra.
Eu sustento o olhar por um segundo.
- E? - quero saber o que ele disse com isso, é um elogio ou zombaria? Garoto estranho.
Ele ri baixo, como se eu tivesse feito uma piada.
- Nada. Só achei... impressionante.
Claro, um elogio estranho vindo desse garoto.
- Scarlett - digo, antes que ele continue com essa conversa.
Ele entende o gesto.
- Noah.
Assinto, já pronta pra encerrar, mas isso claramente não faz parte dos planos dele.
- Você sempre é assim ou era só porque era a primeira aula?
- Assim como?
- Focada.
- Sim. - tento ser curta, objetiva com ele, mas parece não funcionar.
- Legal - ele responde, como se isso fosse um convite pra continuar a conversa.
Antes que eu consiga sair, mais dois garotos se aproximam.
- Cara, você já começou sem a gente? - o segundo diz, passando a mão no cabelo com confiança demais.
Ele me olha como se estivesse acostumado a ser notado.
Não me impressiona. Reviro os olhos sem que eles notem.
- Ethan - ele se apresenta, direto.
- Scarlett. - digo sem sorriso, sem interesse e ele percebe.
E, ao invés de se afastar... parece mais interessado.
Ótimo, tudo que estou fazendo está falhando.
- E eu sou o Marcus - o terceiro entra, com um sorriso torto. - O mais legal dos três, inclusive.
- Isso é mentira - Noah diz.
- Inveja é feio.
- Você não é engraçado - Ethan corta.
Marcus coloca a mão no peito.
- Isso foi pessoal.
Eu observo os três por alguns segundos.
Eles são... insistentes. E barulhentos. E isso me irrita.
- Vocês sempre andam juntos? - pergunto.
- Sempre - Noah responde.
- Tipo um pacote - completa Marcus.
- Um pacote que você claramente precisa - Ethan diz.
Eu cruzo os braços.
- Eu claramente não preciso. - Olho para eles, fico séria...
Há um silêncio ali, curto, mas há... Marcus ri.
- Gostei dela.
- Eu também - Noah concorda, sem hesitar.
Ethan só me encara, analisando. Como se eu fosse um desafio. Eu não tenho tempo pra isso.
- Eu tenho aula - digo, já me virando.
- A gente também - Noah tenta acompanhar.
Eu paro e olho pra ele.
- Eu vou sozinha. - digo séria, tentando ser paciente, mas já está no limite.
Ele levanta as mãos, rendido.
- Ok, ok.
- A gente se vê - Marcus fala.
- Talvez - respondo.
E continuo andando, sem olhar pra trás nenhuma vez. Educada? Sim. Interessada? Nem um pouco.
O resto da manhã passa melhor. As aulas exigem atenção, e eu gosto disso. Gosto de ter algo concreto pra focar, algo que depende só de mim.
Administração não é só um curso. É um plano. É o que vai me dar estabilidade, crescimento, independência. Eu não estou aqui pra "viver a experiência universitária". Eu estou aqui para construir um futuro. E isso muda tudo.
Quando a aula termina, eu organizo minhas coisas rapidamente e saio, pronta pra seguir minha rotina.
Até alguém praticamente pular na minha frente.
- SCARLETT?! - Eu travo.
Levo um segundo para reconhecer. E quando reconheço...
- Penny?
E então ela já está me abraçando.
- EU NÃO ACREDITO QUE É VOCÊ!
Penny me solta só o suficiente pra me olhar direito, mas ainda segura meus braços, como se eu pudesse desaparecer a qualquer momento.
Eu demoro um pouco pra reagir. Não pelo reconhecimento, mas pela intensidade.
- Você... tá aqui - digo.
- Tô! E você também! Isso é muito doido!
Ela ri, e o som é exatamente como eu lembrava.
Leve, espontâneo, vivo. Ela ainda é a mesma de sempre: cabelos loiros, olhos verdes, magra... mas o que realmente chama atenção é a energia dela. Sempre foi assim.
O oposto de mim. A gente estudou juntas no ensino médio, trocamos número de celular, ela foi a única amiga que tive, mesmo ela sendo o oposto, ela me entendia, respeitava meu espaço, e mesmo ela sendo tão diferente, gostava dela, só não imaginava, que a veria aqui.
- A gente passou anos só conversando por mensagem - ela continua. - E agora isso?
- Coincidência - digo.
- Destino - ela corrige na hora.
Claro, pra ela sempre era assim.
- Você tá fazendo o quê? - ela pergunta.
- Administração.
Ela abre um sorriso enorme.
- Eu também! Mas, que pena que não somos da mesma sala, né?
Eu paro, concordo e digo.
- Sério? Não esperava isso Penny. - falo, ainda sem acreditar.
- Comecei hoje, que bom que nos encontramos!
E então ela ri. E, sem perceber... eu também. Não alto, mas real.
Caminhamos juntas pelo campus, e Penny fala sem parar. Sobre as aulas, sobre as pessoas, sobre o quanto está animada, sobre tudo. Eu escuto. E, estranhamente... não me incomoda.
- Você continua igual - ela comenta.
- Igual como?
- Fechada. Na sua. Mas não de um jeito ruim... só... protegida.
Eu não respondo. Porque ela não está errada.
- Mas eu sei que você gosta de mim - ela completa, convencida.
- Convencida. - reviro os olhos.
- Realista. - ela me corrige, como sempre.
O dia passa mais leve depois disso. Entre aulas e conversas, eu consigo manter meu ritmo, mas agora não estou completamente sozinha.
E isso é... diferente.
Quando saímos da universidade, já está no fim da tarde.
- A gente vai se ver amanhã, né? - ela pergunta.
- Vamos sim.
- Promete?
Eu olho pra ela.
E, por algum motivo, isso importa mais do que deveria.
- Prometo.
Ela sorri, satisfeita.
- Então vai estudar, garota responsável.
- Sempre.
Ela ri e se afasta, acenando antes de sumir entre as pessoas.
Eu fico parada por um segundo, observando.
E então sigo meu caminho. O apartamento me recebe do jeito de sempre: silencioso, organizado, previsível.
Aqui é seguro. Tiro o casaco, deixo a bolsa no lugar e me sento para estudar.
Reviso tudo. Organizo anotações, planejo. As horas passam.
Quando finalmente me deito, o corpo pesa, mas a mente ainda está ativa.
Eu penso no dia. Na faculdade. Nos três garotos insistentes. Em Penny.
Eu encaro o teto. A mesma rachadura. O mesmo lugar, mas... algo parece diferente.
"Isso vai ser tranquilo." Eu penso.
E dessa vez, eu realmente acredito. Por enquanto.
Fecho os olhos, mas o silêncio do apartamento não me deixa dormir imediatamente, nunca deixa. Mas hoje tem algo fora do padrão. Penny.
A forma como ela apareceu, falando comigo como se nada tivesse mudado. Como me abraçou sem pedir permissão... como se eu ainda fosse alguém fácil de alcançar. Eu não sou, não mais.
Ainda assim... eu não me afastei. Isso me incomoda mais do que deveria.
Viro de lado na cama, puxando o cobertor um pouco mais. O frio de Londres parece sempre encontrar um jeito de entrar, não importa o quanto eu me organize.
Talvez não seja só o frio, seja o espaço. Aquele vazio silencioso que eu finjo que não existe. Eu aperto os olhos por um segundo.
Não preciso disso, nem de ninguém.
Repito isso mentalmente, como sempre faço. Funciona, sempre funcionou.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, não soa tão absoluto assim. E isso é perigoso. Respiro fundo, forçando meu corpo a relaxar. Amanhã vai ser mais um dia. Mais aulas, mais trabalho, mais controle. Do jeito que precisa ser, mesmo que no fundo, alguma coisa já tenha começado a sair do lugar.
Capítulo 3
Zane Mercer
Eu chego atrasado, de novo. Não é exatamente um acidente. O corredor já está mais silencioso quando eu empurro a porta da sala, sem pressa nenhuma. Alguns olhares se levantam, outros nem se dão ao trabalho. Normal.
Eu não me desculpo, nunca me desculpo. O professor pausa por meio segundo, claramente irritado, mas continua falando. Melhor assim. Eu não tenho paciência pra discursos ou sermões.
Meu olhar percorre a sala, avaliando rápido. Quase sem lugares.
Claro que está. Até parar nela.
Uma garota de cabelos castanhos caindo pelos ombros, postura reta demais pra alguém da idade dela, olhar fixo no caderno como se o resto do mundo não existisse.
E... interessante. Devia ter uns 20 anos. Ela não levanta o olhar, nem quando eu entro. Muito menos quando eu paro ao lado da mesa, ou quando eu puxo a cadeira.
Ela sabe que eu estou aqui. Eu sei disso, e ainda assim, ela não me olha.
Sento ao lado dela, apoiando o braço na mesa com calma, como se aquele lugar sempre tivesse sido meu.
- Com licença - digo, sem realmente pedir.
Nada. Nem um movimento ou um desvio de atenção.
Eu solto um leve sorriso de canto. Ok. Isso é novo.
A aula continua, o professor falando sobre algum conceito básico que eu já ouvi antes, e que, sinceramente, não me interessa o suficiente pra prestar atenção.
Então eu olho pra ela. Sem esconder ou disfarçar.
Eu observo a forma como ela escreve, rápida, precisa. E não erra uma linha, nem hesita.
Ela está focada, até demais.
- Isso tudo tá no material online - murmuro, baixo, perto o suficiente pra que só ela ouça.
Nada, nenhuma reação. Nem um suspiro, mas eu vejo o leve travar de sua mão.
Por menos de um segundo. E então ela continua escrevendo como se nada tivesse acontecido. Eu inclino a cabeça, curioso.
- Ou você só gosta de sofrer mesmo?
Silêncio. Mas dessa vez... Ela perde o ritmo.
Uma palavra sai torta no caderno, pequena, quase imperceptível, quase.
Eu sorrio. Ela não olha pra mim, mas eu sei que ela está me ouvindo, e isso é o suficiente.
O resto da aula se torna um jogo silencioso. Eu falo uma coisa aqui, outra ali. Comentários baixos, irônicos, inúteis. Ela ignora, ou se esforça pra tentar ignorar.
Porque, aos poucos, o foco dela não é mais o mesmo.
Os movimentos ficam um pouco mais duros. A escrita, menos fluida, ela está incomodada. E isso... é interessante, demais.
Quando a aula termina, ela fecha o caderno rápido demais, como se estivesse fugindo. Nem olha pra mim.
Se levanta e vai embora. Sem uma palavra.
Eu fico sentado por alguns segundos, ainda sorrindo.
- Quem é essa? - alguém pergunta atrás de mim.
Eu não respondo.
Porque eu ainda estou olhando pra porta por onde ela saiu.
Vou para o refeitório e mais uma vez, estava cheio. Sempre estava.
Eu pego alguma coisa aleatória pra comer e me sento, já sabendo que não vou ficar sozinho por muito tempo. E não fico mesmo, logo ela chega.
- Você sumiu ontem - Tara aparece ao meu lado, sentando sem convite.
Tara Flynn, uma das minhas ficantes.
Ela encosta em mim como se fosse natural, e de certa forma era. Cabelo escuro, olhar intenso, aquele tipo de garota que sabe exatamente o efeito que causa. Eu passo o braço pelo encosto da cadeira, puxando ela levemente pra perto.
- Tava ocupado.
- Com o quê? - ela pergunta, inclinando a cabeça.
Eu não respondo. Ela bufa, mas sorri.
- Você é impossível.
- E você gosta disso.
Ela revira os olhos, mas não nega. Claro que não. Tara se aproxima mais, apoiando a mão no meu peito, chamando minha atenção de um jeito direto. Eu olho pra ela e então, dou um selinho rápido, simples, automático.
Mas, não é nela que meu olhar para. É além, do outro lado do refeitório, Scarlett. Era esse o nome da nova aluna, que prendeu minha atenção, vários calouros estavam falando dela mais cedo.
Ela está sentada sozinha, como se o mundo ao redor não existisse. Comendo em silêncio, postura impecável, expressão fechada. Como se ninguém ali fosse digno da atenção dela.
Eu solto um leve riso pelo nariz.
- O que foi? - Tara pergunta.
- Nada.
Mas não é nada. Não mesmo. Porque, pela primeira vez em muito tempo... Algo chama mais atenção do que o óbvio. E isso não é comum.
Eu não demoro pra sair do refeitório. Nem pra encontrá-la de novo. Eu paro no corredor. Está quase vazio.
Ela está encostada na parede, mexendo no celular, provavelmente esperando a próxima aula. Sozinha, sempre sozinha.
Eu me aproximo sem fazer questão de esconder. Paro na frente dela. Bloqueando o caminho.
Ela levanta o olhar pela primeira vez. E, por um segundo... nada.
Nenhuma surpresa. Nenhum interesse. Só... frieza.
- Você pretende me ignorar o semestre todo? - pergunto, sou direto e ela não hesita, como tinha imaginado.
- Esse é o plano. - a resposta vem limpa. Sem emoção, sem esforço. Eu sorrio de lado.
- Hum, você parece ser uma garota corajosa, Scarlett. - ergo a sobrancelha, alargando meu sorriso.
- Mais do que imagina - ela afirma. - Não quero papo com você. Estou ocupada.
Eu inclino a cabeça, analisando. Ela realmente acha que isso vai funcionar. Isso... é novo.
- Ocupada com o quê?
- Não é da sua conta.
Sem hesitação ou medo, sem aquele joguinho irritante que a maioria faz. Eu solto um riso baixo.
- Você é caloura.
- E você é inconveniente.
E então, eu sorrio meio torto. Por que isso? Isso é interessante. Muito mais do que qualquer outra coisa que essa faculdade tem oferecido até agora.
- A gente se vê, Scarlett, mesmo que tente me ignorar - digo, recuando um passo.
Ela não responde. Claro que não responde, mas continua me olhando. Só por um instante. Antes de desviar. Eu me afasto, mas não totalmente. Porque agora eu sei, ela não é indiferente. Ela só está tentando ser. E isso, isso muda o jogo completamente.
Eu passo a mão pelo cabelo, ainda com o sorriso ali. Uma caloura me ignorando.
Me dispensando, tentando me cortar como se eu fosse qualquer um. Errado, eu não sou qualquer um.
E, mais importante, eu não desisto fácil.
Scarlett Voss acabou de se tornar a coisa mais interessante nesse lugar. E eu pretendo descobrir exatamente até onde essa resistência dela vai. Mesmo que eu precise quebrar isso peça por peça. Devagar, sem pressa.
Do jeito que eu gosto.