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BRUCE

BRUCE

Autor:: FLUORA
Gênero: Romance
Daniel é o homem mais bonito e gentil que eu já conheci. Ele é mais velho do que eu, e tem mais experiência. Estou certa de que Daniel é o homem da minha vida. O único problema é que... bem, digamos que ele é melhor amigo do meu pai.

Capítulo 1 PRIMEIRO ENCONTRO

Quando se é criada em uma gaiola de ouro, como eu fui, as coisas fora da gaiola tornam-se mais interessantes. Você se pergunta o que há lá fora, e quer viver tudo que puder viver. Mas existe um limite bem demarcado, e você jamais poderia ultrapassá-lo. Este limite, para mim, é a posição social do meu pai.

O presidente do país, e um dos homens mais ricos da cidade, se não o mais rico. O tipo de cara que ama apenas seu dinheiro, e, eventualmente, sua única filha. Há quem diga que ele preferiria ter um filho, mas se contentou em ter uma garota e poder moldá-la de acordo com sua vontade.

Eu não o culpo. Sei que as regras são mais rígidas para pessoas como nós. Mas, as vezes, eu gostaria de não ter nascido como uma Donneli. Mesmo depois da maioridade, as regras não mudam.

- Srta. Campbell – Peter chama.

Ele é meu motorista desde que eu me entendo por gente. Com seus cabelos grisalhos, bigode bem-feito e pele levemente enrugada, ele deve estar trabalhando para minha família desde que era um garoto. Mas, claro, eu nunca perguntei. Que Deus livre meu pai de ter sua filha conversando amenidades com o motorista.

- Sim – respondo.

- Chegamos – ele diz, e algo em seu tom me faz perceber que ele já disse isso outras vezes, e eu apenas não ouvi.

Eu olho para fora da janela fechada. Estamos no Bronx, um dos bairros mais pobres de Nova Iorque, diante de um dos inúmeros prédios abandonados. Os tijolos são visíveis, e algumas plantas crescem ao redor da construção sem vida.

Minha mãe era responsável por uma organização que reconstruía construções abandonadas e destinava aos moradores de rua. Quando ela faleceu, seus projetos foram deixados de lado. Meu pai era ocupado demais para cuidar disso, então, no ano passado, eu decidi dar continuidade. Este é o primeiro prédio no qual quero trabalhar.

Marcos é meu segurança pessoal, e está ao lado de Peter no banco passageiro. Ele desce do carro e abre a porta para mim, mas não antes de verificar ao redor do perímetro.

Não surpreendentemente, há um carro atrás e afrente do nosso, com quatro seguranças em cada. Todos descem e montam guarda ao redor do prédio.

- O prédio foi revistado nesta manhã, senhorita – Marcos informa.

Eu sei que, para Marcos, o melhor seria que eu nunca colocasse os pés no Bronx. No entanto, apesar de aceitar todas as ordens que diariamente ele repete para minha segurança, gosto de ser uma adulta com vontade própria.

Marcos lidera o caminho para dentro da construção de vinte andares. Estou certa de que ele conhece tudo como a palma de sua mão. Eu o sigo.

Subimos os poucos degraus até a porta de madeira da entrada, que está apodrecendo. Marcos abre e segura a porta para mim. O lado de dentro é ainda mais miserável do que o externo. Há um corredor extenso, com uma escada no final e quatro portas nas laterais.

Sem esperar por Marcos, caminho até a escada e começo a subir. A escada não tem iluminação, e rapidamente sinto falta do dia ensolarado lá fora. Os degraus estão sujos, mas graças a Deus eu optei por tênis e calça jeans, assim não preciso me preocupar com minha roupa.

- Srta. Donneli – Marcos chama minha atenção para que eu o espere, no entanto, ignoro. Ele pode me alcançar se correr um pouquinho.

Chego ao segundo andar e tenho a opção de explorá-lo ou continuar subindo. Escolho a segunda, afinal, são vinte andares, e estou curiosa para ver o terraço. Dizem que este prédio tem uma visão privilegiada, por ser um dos mais antigos no gueto.

- Srta. Donneli – Marcos grita, e percebo que sua voz está ficando distante – Os últimos andares não são seguros!

Suas palavras fazem meus pés correrem ainda mais em direção ao terraço. Marcos deveria saber que me privar de algo é quase como me obrigar a fazer. E eu tenho uma vantagem; ele precisa verificar todos os andares enquanto eu sigo na mesma direção.

- Angelic! – ele grita, e sua voz reverbera por quase todos os tijolos.

Com uma breve corrida, chego ao vigésimo andar. Me encosto contra uma parede para tomar fôlego. Sou sedentária demais para estas aventuras. Falta apenas um lance de escadas para chegar ao terraço.

Subo os degraus que faltam e abro a porta de acesso ao terraço, que está encostada. O lugar é velho como o restante do prédio, porém com visão para Nova Iorque quase inteira. Apesar de não ser um prédio alto, não é mal localizado.

Dou alguns passos afrente, e então encontro alguns objetos à direita. Um telescópio montado apontando para algum lugar no centro da cidade, uma mala preta fechada e um copo de café.

Me aproximo do telescópio e coloco o aparelho perto do meu olho, para saber o que a pessoa que o colocou aqui estava observando. O equipamento é profissional, pois a visão é nítida e de longo alcance. Na verdade, melhor do que qualquer um que eu tenha visto em toda minha vida. Curiosamente, a visão que tenho é do palco na Wall Street, que está sendo montado para o pronunciamento oficial do presidente, que acontecerá em dois dias.

Um tanto quanto assustada, me afasto. Vejo que o café ainda está fumegante, o que significa que o observador não está longe.

O evento será voltado para meu pai. Quem quer que tenha colocado este telescópio aqui, está se preparando para o dia do evento, mas por quê? Para proteger ou atacar?

Não muito surpreendentemente, existe uma lista com os nomes das pessoas que podem estar ao meu lado. São as pessoas confiáveis, aos olhos do meu pai, e minimamente parecidas comigo. Meninas que estudam outras línguas, têm pais exigentes, tocam instrumentos e leem mais de um livro por mês. Como eu disse, minimamente.

E dentre os poucos nomes nesta lista, está Genevieve Parker; uma loira Barbie com a educação de uma princesa. Bem, pelo menos é isso que os pais dela pensam. Eu quero estar bem longe quando eles descobrirem o que Genevieve fazia com nosso professor de História Musical.

Não demora muito para ela sair de sua casa, seguida por seu próprio segurança até o carro onde estou. Vive está vestindo um sobretudo rosado, o que é completamente inexplicável nesta tarde quente. Mas é ela, então tudo fica lindo em seu corpo.

Seu segurança abre a porta do Rolls Royce, e eu me afasto para lhe abrir espaço. Vivi adentra o carro, e assim que a porta é fechada novamente, Peter dá partida. Ele aperta um botão no painel e, em seguida, um vidro escuro sobe entre os bancos traseiros e dianteiros.

A regra é clara: se dissermos algo comprometedor, Peter tem a obrigação de contar ao meu pai. Mas ele nunca cumpriu esta regra. Eu e Genevieve sempre falamos sobre as mais altas barbaridades, e nunca fomos deduradas. Isso sempre me fez pensar que Peter gosta de mim. Ou talvez ele apenas tenha pena do que vai me acontecer caso meu pai saiba que eu detesto as missas de sexta-feira.

- Eu não estava suportando a saudade de você – Vivi diz, depois se lança em minha direção para um abraço.

- Eu também senti saudades.

- Ainda bem que as férias terminaram. Estou ansiosa para segunda.

A maior parte dos adolescentes daria a vida para não ter que ir para a escola. E, no nosso caso, uma escola católica. Mas eu e Vivi daríamos a vida para não ter que passar o dia sendo produtivas e, no fim de semana, ter que estar de joelhos em uma igreja. E não se engane, eu não odeio a igreja. Eu odeio ter que ir três vezes por semana, mesmo não tendo certeza sobre minha religião.

- Ansiosa para a aula, ou para o Sr. Bueno? – sussurro. Porque mesmo que eu confie em Peter, não posso arriscar que ele saiba sobre o caso de Genevieve e o professor.

Capítulo 2 VOCÊ...

- Você não pode me julgar. As aulas de História da Música são incríveis. E meu pai quer que eu aprenda a tocar flauta, então... – ela sorri com falsa ingenuidade.

Eu estaria mentindo se dissesse que aprovo o que Vivi faz. Eu não aprovo, mas entendo. Ela cresceu sentindo o peso da expectativa em suas costas. Sua irmã mais velha, Susan, foi uma decepção para a família Parker. Ela se apaixonou por um homem que não valia muito, teve sua primeira gravidez e fugiu de casa. E, desde então, os Parkers cuidam para que Genevieve não chegue perto de fazer a mesma coisa.

Após alguns minutos, chegamos ao Four Seasons Restaurant. É um restaurante de luxo que meu pai não perde a oportunidade de visitar. E quando eu disse que gostaria de jantar com Genevieve Parker, foi o que ele me recomendou. Na verdade, ele não recomendou; ele disse que eu deveria vir. E como eu disse antes, Skyla Campbell nunca desobedece.

Peter abre a porta traseira do Rolls Royce para que eu desça, seguida por Vivi. Ela chega a vibrar de emoção, e eu começo a me perguntar se é por causa do jantar. Nós unimos nossas mãos, e assim seguimos para dentro do restaurante.

Há 57 anos, o Four Seasons Restaurant deleita os amantes da gastronomia. O restaurante é um ícone arquitetônico, mas também um paraíso da arte. Obras de Andy Warhol, Pablo Picasso e Roy Lichtenstein adornam suas paredes há décadas.

- Boa noite, Srta. Campbell, Srta. Parker. Por favor, me acompanhem – a hostess saúda.

Peter permanece na entrada do restaurante enquanto eu e Vivi seguimos a hostess. O nome em seu crachá é Ana, e ela nos leva até a mesa mais afastada, próxima às janelas, ridiculamente longe do bar.

- O garçom logo virá para atendê-las – Ana diz, e eu sorrio para lhe agradecer.

Todo o cronograma do dia já foi passado: vamos jantar, e temos até dez horas para estarmos de volta à mansão Parker. Peter nos trouxe, mas será o motorista de Genevieve quem nos buscará. Isso dá, em média, três horas livres. Três horas em um entediante restaurante de comida cara.

- Você realmente está com frio? – pergunto, porque não é possível que ela esteja confortável com este sobretudo.

Vivi sorri. E não é um sorriso brincalhão, é um sorriso malicioso.

E antes que eu possa perguntar o que este sorriso significa, o garçom surge ao nosso lado.

- Boa noite, senhoritas. Aqui está o menu à La Carte –

- Nós queremos uma garrafa de água gaseificada e limão – Vivi diz, antes mesmo de pegar a carta das mãos do garçom.

Ele concorda com um aceno, depois se afasta. E a mesma expressão confusa no rosto dele pode ser encontrada no meu. Temos três horas livres. Três horas fora da gaiola dourada. Podemos conversar as besteiras que quisermos, sem pressa ou medo de sermos ouvidas por alguém que vá nos dedurar. Por que Vivi está apressada?

- Você está com pressa para sair?

- Sim.

- Por quê? Nós não nos vimos desde que as férias começaram, e eu duvido que meu pai vá deixar eu sair pelas próximas... – Genevieve me interrompe levantando sua mão, que adorna um anel solitário de ouro branco.

- Nós vamos aproveitar esta noite, mas não aqui.

Eu preciso verificar se não deixei meu queixo cair no chão. Mas então eu me lembro de que é Genevieve diante de mim. A garota que parece ser uma santa aos olhos de seus pais, mas que facilmente se torna uma diaba quando eles olham para o outro lado.

- O que você planejou?

- Tem uma boate do outro lado da rua. Nós podemos sair pelo estacionamento, caso Peter ainda esteja lá fora. E eu tenho dinheiro, então não precisamos usar o cartão de crédito. Nós podemos aproveitar um pouco, depois voltamos para o restaurante.

Eu preciso admitir; ela pensa em tudo. Mas hoje é meu aniversário de dezoito anos, e eu não posso ser expulsa de casa. Na verdade, se meu pai apenas me expulsasse seria como uma benção. O que ele realmente faria seria muito, muito pior. E embora eu nunca tenha ido à uma boate antes, preciso me lembrar de que não posso desobedecer.

- Eu prometo que não vão descobrir – Genevieve diz, percebendo que eu não pareço estar animada com a ideia.

Mas eu não sou como ela. Eu não consigo mentir para meu pai. Eu não consigo fazer coisas por suas costas. E, principalmente, não consigo decepcioná-lo. Ele estava sempre decepcionado com a mamãe, e fazia questão de lhe demonstrar isso. Eu não quero, nunca, que ele aja da mesma forma comigo.

- Eu não posso. Me desculpe. Eu vou ficar aqui e gastar algum dinheiro, porque meu pai precisa se certificar de que comemos algo. Enquanto isso, você pode ir se divertir – digo com sinceridade.

Eu não culpo Vivi por querer sair da gaiola. Se envolver com homens mais velhos, quebrar as regras que seus pais impõem, fazer o que sentir vontade. Ela não está errada. Mas eu, Skyla, não consigo ser menos do que a garota dos olhos do meu pai.

- Eu não vou sem você – ela desaba no acento novamente.

Eu me sinto um pouco culpada. Vivi é tão presa quanto um peixe bonitinho em um aquário. Seus pais a amam, é claro, mas não são do tipo que demonstram isso. Genevieve cresceu um tanto quanto quebrada, e a falta de sua irmã piorou sua vida. Não é surpreendente que ela aproveite todas as oportunidades de desobedecer que aparecem.

- Está bem! Vamos até a boate, mas não levaremos mais do que trinta minutos – e, no fim, eu acabo cedendo.

- Isso! – Vivi volta a vibrar, e seu largo sorriso me diz que ela já esperava por essa resposta.

E que Deus nos ajude.

**

Se me perguntassem qual foi a coisa mais absurda que eu já vi, eu diria que foi há três anos, quando eu estava saindo da aula de matemática e caminhando em direção à biblioteca. Eu tinha alguns minutos livres antes do encontro com o clube de leitura, então fui até o banheiro para lavar as mãos. Eu ouvi alguns barulhos estranhos, mas não soube do que se tratava até entrar no banheiro e ver Genevieve de joelhos em frente ao nosso professor.

Tudo que eu sei é que ele pediu demissão depois disso, mas não antes de nos dar nota máxima em sua matéria.

Mas agora, diante da multidão de pessoas nesta boate, eu acho que a cena no banheiro não foi tão ruim assim. Têm pessoas nuas, realmente nuas, no palco. Têm pessoas cheirando carreiras de pó branco sobre as mesas. Têm pessoas se beijando nos cantos das paredes, e Deus sabe o que elas farão depois disso.

Genevieve caminha na minha frente, como se este fosse seu habitat. E, sutilmente, eu faço o sinal da cruz em mim mesma.

Olho para a forma como as pessoas estão vestidas (algumas não estão vestidas), e depois olho para meu vestido. É um vestido de mangas curtas, pouco acima dos joelhos. Parece que eu acabei de sair de uma missa. Mas isso não quer dizer que eu estou feia, apenas que não me preparei para sair de um restaurante fino e entrar em um bordel.

Genevieve solta minha mão e retira seu sobretudo rosa. E então, magicamente, a pergunta que rondou minha cabeça nas últimas horas é respondida. Por baixo do sobretudo, ela veste um minúsculo vestido vermelho. E verdade seja dita; ela está linda.

Vivi segura seu sobretudo em uma mão e volta a agarrar a minha com a outra, puxando-me em direção ao bar. Ela tem dezoito anos há quatro meses, e eu estou completando dezoito hoje. Sequer estamos perto de poder beber.

- Não podemos – eu lembro-a, precisando gritar para superar o barulho da música.

Vivi não me responde, e nem precisaria. Não demoro para avistar Matheus, o querido professor de História da Música, sentado em uma das banquetas do bar. E, não, ele não é o mesmo professor que eu vi no banheiro há três anos.

E como se já soubesse de tudo, há duas bebidas aguardando por nós quando chegamos ao bar. O único álcool que eu bebi em toda minha vida foi o vinho da Santa Ceia, uma vez por mês, com um padre e toda a congregação testemunhando, então não faço ideia do que tem nas taças.

Vivi solta minha mão e se joga nos braços do professor Matheus. Ele beija seu rosto jovem demais, depois enfia a língua em sua garanta como se eu não estivesse presente. E, francamente, eu não merecia estar vendo isso na data do meu aniversário.

- Olá, Skyla – Matheus me cumprimenta, e posso dizer que ele está um pouco envergonhado. Ver sua aluna em uma boate enquanto beija a amiga dela, que coincidentemente também é sua aluna, é, no mínimo, desconfortável.

- Olá.

Capítulo 3 ERROS JOVENS

Genevieve o beija novamente, e desta vez eu já não me importo. Eles passaram as últimas semanas longe um do outro, e o semestre não vai demorar para terminar. Depois de formada, Vivi irá para uma universidade na Europa, e Matheus não tem dinheiro suficiente para ir atrás dela. O fim é a única coisa que eles têm, afinal.

- O que é isso? – Vivi pergunta, afastando-se minimamente de nosso professor.

- Alguma coisa. Mas não precisa se preocupar – ele sorri.

E, pela segunda vez na noite, eu preciso verificar se meu queixo não está no chão, porque Genevieve pega a taça e vira em seus lábios, embora não saiba a procedência da bebida.

- É tão bom! – ela grita.

Deus, se o senhor me viu em todas as missas nos últimos dezoito anos, por favor, me ajude a sair deste lugar!

Matheus se inclina e sussurra algo no ouvido de Vivi, algo que com certeza eu não vou gostar de saber, pois ela olha para mim com apreensão.

- Skyla, querida, você se importa de esperar aqui? – ela diz, mas logo trata de continuar antes que eu tenha a chance de negar – Matt quer me mostrar algo em seu carro.

É claro que ele quer, e é claro que ela vai. Mas aqui estou eu, Skyla Campbell, em uma boate, não podendo sair sem a presença de Genevieve. O motorista estará em frente ao Four Seasons Restaurant em algumas horas, e o que eu diria se Vivi não estivesse comigo?

- Não demore, ou eu vou embora – aviso.

Eles praticamente correm em uma direção aleatória, que eu não posso decifrar porque existe um bilhão de pessoas ao meu redor, me espremendo contra o balcão do bar.

E eu poderia ir com eles, apenas para não ter que ficar ouvindo esta música horrível e vendo essas pessoas bêbadas dançando, mas sei que o professor Matheus me odiaria pelo resto de minha vida, e Genevieve mais ainda.

Sento-me na banqueta em que Matheus estava, e me debruço sobre o balcão para esperar. Eu não fui uma filha tão ruim, afinal. Não bebi esta bebida só Deus sabe o quê, e não corri para o carro de meu professor vinte anos mais velho. Talvez, só talvez, a culpa não me consuma quando eu olhar para meu pai e tiver que mentir sobre o jantar.

Mas as coisas não são tão simples. Quando estou quase me acostumando com o cheiro de suor e bebida barata, ouço o estrondo de um vidro sendo quebrado. Olho ao redor, e não demoro a perceber que uma das janelas da boate foi quebrada, não muito longe de mim.

Há um alvoroço de pessoas gritando coisas horríveis. Mate ele. Jogue este filho da puta pela janela.

O alvoroço se torna ainda mais intenso. E, eu não posso ver, mas sei que uma briga começou. A música parou de tocar, e tudo que podia ser ouvido era a luta entre os homens, que eu nem poderia dizer quantos. As pessoas me espremem ainda mais contra o bar, como se a briga estivesse se aproximando.

Eu não fui treinada para situações como essas. Eu nunca presenciei uma briga, e não preciso dizer que nunca briguei. Mas eu sei de uma coisa: quando uma briga que não é sua se aproxima, você corre.

E é exatamente isso que eu faço. Me estreito entre as pessoas ao meu redor. Porque diferente delas, eu não quero ver alguém ser morto hoje. Corro em direção a saída, e não percebo que estou usando saltos até que eles comecem a me atrapalhar.

Estou quase chegando às portas giratórias quando alguém me empurra. Não foi intencional, eu acho, mas a mulher está tão fora de si que sequer pede desculpas. E eu não ficaria aqui para ouvir suas desculpas, de qualquer forma, então continuo meu caminho antes que eu possa terminar no chão.

Deus, sou eu de novo. O Senhor poderia, por favor, fazer com que haja um táxi disponível em frente à boate?

Atravesso as portas e corro para fora, encontrando a liberdade que não senti quando estava lá dentro. E eu estava tão aquecida pela multidão de pessoas que, quando saio para a rua, sinto o frio beijar minha pele.

Respire, Skyla. Você fez uma besteira, mas isso não significa que não tenha conserto.

Olho para os dois lados da rua. O exterior da boate também está lotado, mas pelo menos tenho a ventilação da rua, e as pessoas não estão se espremendo umas contra as outras.

A única coisa que eu posso fazer é pegar um táxi. O motorista de Vivi deve estar em frente ao restaurante, mas eu não posso pedir para ele me levar, não sem Genevieve. E Peter me acoberta sempre, mas não posso pedir para que ele venha me buscar. Meu pai saberia. E pior; os pais de Vivi saberiam que ela está no banco traseiro do carro de seu professor.

Começo a caminhar de um lado para o outro em frente à boate. Se eu pegar um táxi e for para casa, meu pai irá perguntar sobre Genevieve. O que eu poderia fazer, além de mentir? E se eu voltar para dentro e arrastar Vivi para casa? Eu poderia ligar para ela, mas estou certa de que seu celular está longe de suas mãos.

Por que, Genevieve Parker, você é tão rebelde?

E como se o próprio Deus quisesse que eu pague pelo que fiz, finos chuviscos começam a cair do céu. Não é uma chuva forte, mas certamente ficará pior nos próximos minutos.

Sinto muito, Vivi, mas eu preciso ir para casa agora.

Caminho para mais perto do meio fio, de onde posso ver os carros passando pela via. Logo em frente está localizado o Four Seasons Restaurant. Se eu nunca tivesse saído de lá, não estaria me molhando e temendo que meu pai estivesse em casa, já me esperando para um sermão.

Eu sempre fui uma boa garota, e ele me recompensou com um colégio católico. Se ele descobrir que eu me permiti vir para este lugar, então me colocará em um convento.

- Oi – ouço uma voz masculina dizer.

Me viro para encarar um homem alto, com alguns poucos anos a mais do que eu, que está perto demais. Se ainda estivéssemos na boate, eu poderia dizer que ele não tem espaço, mas aqui, na rua, ele não precisa ficar colado em mim. E que Deus me ajude, o homem chega mais perto.

Seu cabelo é escuro, mas não posso dizer se seria preto ou castanho. Seus olhos são claros, talvez azuis. Ele poderia ser bonito, mas está tão indesejavelmente perto que eu dispenso sua beleza.

- Oi – respondo, dando um passo para longe.

- Você está com pressa para ir embora, linda? Eu poderia lhe dar uma carona.

- Eu... – pense, Skyla, e não deixe ele saber que você está mentindo – Eu estou esperando meu pai.

- Eu posso fazer companhia.

- Não precisa... – eu paro de falar quando o homem se aproxima mais, quase encostando seu corpo ao meu – meu pai não vai gostar de me ver acompanhada – completo.

O homem se inclina sobre mim, então coloca seus lábios bem próximos ao meu ouvido – não minta para mim. Eu odiaria descobrir que você quer me afastar – ele diz. E de alguma maneira biologicamente impossível, meu coração para de bater.

Eu faço a coisa mais estúpida que poderia, mas, em minha defesa, a mais eficaz, e corro em direção à rua. Não olho para os carros passando por mim, e por sorte não sou atingida quando passo pela primeira faixa. Mas assim que avisto a ilha entre uma pista e outra, cometo o erro de olhar para trás: ele está atrás de mim!

Ouço uma buzina soar alto, volto meus olhos para s pista, e então percebo que é tarde demais para correr. O carro é freado com rapidez, tanto que os pneus fazem barulho no asfalto.

Deus...

Mal tenho tempo para terminar minha oração, apenas fecho os olhos com força e espero o carro me estilhaçar pelo asfalto. Mas não acontece.

Sinto o clarão de faróis contra meu rosto, e depois outras buzinas soam. Ainda posso sentir a chuva fina cair sobre mim. Posso ouvir o murmúrio das pessoas ao redor. E... por que eu corri para a pista, afinal?

Abro os olhos e olho em direção à boate, procurando o homem que me assediou. Ele não está mais me seguindo, talvez porque pensou que eu morreria diante de seus olhos.

- O que você pensa que está fazendo? – me viro para encarar a pessoa gritando comigo.

É um homem. O motorista que quase me atropelou, aliás, e não parece estar feliz. Ele bate a porta de seu carro com força suficiente para me fazer saltar, e caminha em minha direção.

- Eu... – sou incapaz de completar uma frase, pois assim que a luz deixa de atrapalhar minha visão e o homem aparece com nitidez para meus olhos, perco as palavras.

E que Deus me ajude, é o homem mais bonito que eu já vi.

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