A chuva caía com violência sobre a cidade, transformando as avenidas iluminadas em rios escuros e reflexivos. O som constante das gotas contra os vidros enormes da cobertura misturava-se ao silêncio pesado que dominava o apartamento. Não havia televisão ligada, música ambiente ou vozes ecoando pelos corredores luxuosos. Apenas o som da tempestade e o tic-tac discreto do relógio preso à parede da sala principal.
Dário Vasconcelos permanecia sentado no sofá há mais de uma hora, imóvel, os cotovelos apoiados nos joelhos e o olhar perdido no chão de mármore escuro. A gravata afrouxada pendia torta no colarinho aberto da camisa social, e o copo de whisky intocado sobre a mesa de centro já perdera metade do gelo.
O apartamento inteiro parecia frio demais agora, grande demais, vazio demais.
Os olhos dele deslizaram lentamente até o pequeno carrinho vermelho abandonado perto da estante. O brinquedo continuava ali desde a manhã, exatamente no lugar onde tinha sido deixado.
Ele ainda não tivera coragem de tirá-lo dali.
Na cozinha, uma funcionária falava ao telefone em voz baixa. Outra caminhava cuidadosamente pelos corredores, como se qualquer ruído pudesse provocar uma explosão invisível dentro daquela casa.
E talvez pudesse mesmo, porque desde o enterro, há apenas três dias, tudo parecia prestes a desmoronar.
Dário fechou os olhos por alguns segundos e respirou fundo, tentando controlar a pressão latejante na cabeça, mas era impossível. Toda vez que fechava os olhos, a mesma imagem surgia.
O carro destruído, as luzes vermelhas da ambulância, o sangue, a mão fria de Bianca escorregando da dele.
Seu maxilar travou imediatamente. Não!
Ele não podia pensar naquilo agora, não quando ainda havia alguém dependendo dele.
- Papá?
A voz pequena surgiu atrás dele, fazendo Dario abrir os olhos imediatamente.
Henrique estava parado na entrada da sala, abraçado ao seu urso de pelúcia azul. O menino usava um pijama cinzento com pequenas estrelas e tinha os cabelos castanhos completamente bagunçados. Os olhos grandes, idênticos aos da mãe, estavam inchados de sono.
E tristeza.
Aquilo destruía Dário de uma forma que ele não conseguia explicar.
O menino tinha apenas cinco anos, cinco.
Era injusto demais.
- O que foi, campeão? - a voz dele saiu baixa, rouca.
Henrique hesitou antes de caminhar lentamente até o pai.
- Eu tive um sonho mau.
Dário observou o filho subir no sofá com dificuldade antes de se aproximar dele devagar, como se estivesse inseguro. Como se não soubesse mais até onde podia ir.
Aquilo doeu mais do que deveria.
Porque antes Henrique corria.
Antes ele ria.
Antes aquela casa parecia viva.
Agora o menino falava baixo, caminhava devagar, olhava em volta como quem esperava que alguém fosse surgir a qualquer momento.
Mas ninguém surgiria, Bianca não pisaria novamente naquela sala.
Nunca mais.
Dário puxou o filho cuidadosamente para perto e Henrique imediatamente se aninhou contra o peito dele, apertando o urso pequeno entre os braços.
- A mamã estava no sonho - o menino murmurou.
O peito de Dário endureceu, ele passou a mão lentamente pelos cabelos do filho.
- E o que ela dizia?
Henrique levantou o rosto devagar.
- Eu não lembro... mas ela estava indo embora outra vez.
O silêncio caiu entre os dois.
Dário sentiu algo esmagar seu peito violentamente.
Ele lidava bem com negócios, com pressão, com crises milionárias, com ameaças.
Mas aquilo?
Aquilo o destruía completamente.
Porque não existia contrato, dinheiro ou poder capaz de ensinar um homem a explicar a morte para o próprio filho.
Henrique fungou baixo.
- A mamã vai voltar?
A pergunta entrou como uma faca.
Dário fechou os olhos rapidamente antes de responder.
- Não, filho.
A criança abaixou a cabeça.
- Nunca?
Ele demorou alguns segundos.
- Nunca.
Henrique ficou quieto.
Quieto demais.
Era isso que mais assustava Dário, o silêncio do menino. A forma como ele parecia tentar entender uma dor grande demais para a idade dele.
Depois de alguns instantes, Henrique ergueu os olhos outra vez.
- Então eu vou esquecer a voz dela?
Dário sentiu o corpo inteiro tensionar.
Droga.
Droga.
Ele puxou o menino imediatamente para os braços, abraçando-o com força.
- Não vai, ouviu? Nunca vai esquecer.
Mas ele próprio já estava começando a esquecer algumas coisas.
O perfume exato dela, o som da risada ecoando pela casa.
O jeito como Bianca mexia distraidamente no cabelo enquanto lia alguma coisa.
As memórias começavam a escapar lentamente e isso o aterrorizava.
Henrique enterrou o rosto no peito dele.
- Eu não quero esquecer a mamã...
Dário respirou fundo, olhando a chuva do lado de fora.
Nem eu.
Duas semanas depois.
- Ela pediu demissão.
Dário levantou os olhos lentamente dos documentos espalhados sobre a mesa do escritório.
- O quê?
Marta, a governanta da casa, suspirou discretamente.
- A babá.
Ele fechou a pasta devagar.
- Por quê?
A mulher hesitou.
- Henrique tem estado muito difícil. Não dorme direito, chora muito durante a noite. Faz birras e ontem teve uma crise porque ela tentou arrumar os brinquedos da senhora Bianca.
Dário apertou a mandíbula imediatamente.
Claro.
Claro que isso aconteceria.
Tudo naquela casa parecia desmoronar um pouco mais a cada dia.
Ele levantou-se lentamente da cadeira e caminhou até a enorme janela do escritório. Lá embaixo, os carros cruzavam as avenidas movimentadas enquanto a cidade seguia viva, indiferente à tragédia dele.
O mundo não parava, nunca parava, mesmo quando alguém perdia tudo.
- Arrume outra.
Marta ficou em silêncio por um instante.
- Senhor Dário, talvez Henrique precise de alguém mais preparado desta vez.
Ele virou parcialmente o rosto.
- O que quer dizer com isso?
- Quero dizer que ele não precisa apenas de uma babá comum agora.
Dário respirou fundo, impaciente.
- Então encontre alguém qualificado.
- Já encontrei.
Ele arqueou levemente a sobrancelha.
Marta aproximou-se devagar da mesa e colocou uma pasta sobre ela.
- Helena Duarte, vinte e quatro anos. Tem experiência com crianças e referências excelentes.
Dário nem tocou na pasta.
- Se tem boas referências, contrate.
- Ela quer conversar consigo antes.
Aquilo o irritou imediatamente.
- Não tenho tempo para entrevistas.
- Ela insistiu.
Dário soltou um suspiro cansado, mais uma complicação, mais uma exigência e mais uma pessoa entrando naquela casa como se soubesse o que era melhor para o filho dele.
Mas Henrique precisava de ajuda e ele sabia disso.
Nos últimos dias, o menino quase não sorria mais e Dário mal conseguia ficar em casa sem sentir que estava sufocando.
- Marque.
***
Helena observava discretamente o enorme portão preto enquanto o táxi se afastava da mansão, olugar parecia ainda maior pessoalmente.
Luxuoso, intimidante, frio.
Ela apertou levemente a alça da bolsa contra o ombro enquanto o segurança abria passagem, seu coração batia rápido demais.
Talvez porque aquela entrevista significasse muito mais do que um simples emprego.
Muito mais.
Helena respirou fundo antes de atravessar o jardim impecavelmente cuidado, o salto baixo afundava ligeiramente entre as pedras molhadas pela chuva recente.
Ela tentava parecer calma, mas não estava porque aquele lugar trazia lembranças demais e ela odiava lembrar.
A porta principal foi aberta por uma mulher elegante de meia-idade.
- Helena Duarte?
- Sim.
- Entre, por favor.
O interior da mansão era ainda mais impressionante, tons neutros, móveis sofisticados, lustres enormes e um silêncio desconfortável dominando tudo.
Uma casa bonita sem vida.
Helena percebeu isso imediatamente.
Ela acompanhou a governanta até a sala principal e tentou ignorar o nervosismo crescendo dentro dela.
- O senhor Dário já vem.
Helena assentiu.
Assim que ficou sozinha, seus olhos percorreram o ambiente lentamente até pararem numa fotografia sobre o piano.
Um casal sorrindo e uma criança pequena no meio dos dois, o ar pareceu fugir por um segundo.
Bianca.
Mesmo depois de tantos anos, Helena reconheceria aquele rosto em qualquer lugar.
O mesmo sorriso doce, os mesmos olhos claros.
Seu peito apertou instantaneamente, ela desviou o olhar rápido demais.
Não, não podia pensar naquilo agora.
Passos ecoaram pelo corredor, Helena ergueu a cabeça e então viu Dário Vasconcelos pela primeira vez.
Ele era exatamente como aparecia nas revistas de negócios, alto, elegante e intimidador, mas pessoalmente havia algo diferente, algo mais pesado.
Os olhos escuros pareciam permanentemente cansados. O rosto bonito carregava tensão suficiente para endurecer completamente a expressão dele.
Dário parou diante dela por alguns segundos, analisando frio.
Helena levantou-se imediatamente.
- Senhor Vasconcelos.
Ele assentiu levemente.
- Helena.
A voz grave saiu seca.
Sem simpatia e sem esforço nenhum para parecer agradável.
Ela já esperava isso.
Homens como ele raramente tentavam ser gentis.
- Sente-se.
Helena obedeceu.
Dário permaneceu em pé por alguns instantes antes de finalmente sentar-se na poltrona à frente dela.
O silêncio instalou-se rapidamente.
Ele abriu a pasta com as informações dela.
- Trabalhou três anos com a família Albuquerque.
- Sim.
- E saiu por quê?
- Mudaram-se para Portugal.
Dário continuou lendo.
- Curso técnico em desenvolvimento infantil...
- Sim.
Ele ergueu os olhos lentamente.
- Sabe lidar com crianças difíceis?
Helena sustentou o olhar dele.
- Crianças magoadas não são difíceis.
Aquilo pareceu pegá-lo desprevenido por meio segundo, mas só por meio segundo.
- Meu filho não aceita estranhos facilmente.
- Eu sei.
- E não tolero erros.
O clima esfriou imediatamente.
Helena cruzou as mãos sobre o colo.
- Então talvez devesse me explicar exactamente o que espera de mim.
Os olhos dele estreitaram-se discretamente.
Ela tinha coragem, interessante.
A maioria das pessoas parecia intimidada perto dele, mas ela não.
- Quero alguém que cuide do meu filho.
- Isso é o básico.
Dário inclinou-se ligeiramente para frente.
- E o que mais acha que existe?
Helena sustentou o olhar dele sem hesitar.
- Uma criança perdeu a mãe há poucas semanas. Isso muda tudo.
O silêncio caiu novamente, pesado.
Dário encarava-a de forma quase calculista agora, como se tentasse entender alguma coisa.
- Marta contou-lhe isso?
- Não precisava contar.
Ele fechou a pasta lentamente.
- Acha que consegue lidar com isso?
Helena demorou alguns segundos para responder.
- Acho que crianças precisam de estabilidade quando o mundo delas desaba.
A mandíbula dele travou discretamente, porque aquela frase atingiu mais do que deveria, muito mais.
Antes que pudesse responder, passos pequenos ecoaram pelo corredor e os dois viraram o rosto ao mesmo tempo.
Henrique apareceu abraçado ao urso azul e parou assim que viu Helena.
Os olhos curiosos analisaram-na em silêncio, Helena sentiu algo apertar no peito. Porque ele era a cópia perfeita da mãe.
Meu Deus!
Ela não estava preparada para aquilo.
Dário levantou-se imediatamente.
- Henrique, volta para o quarto.
Mas o menino ignorou completamente a ordem e continuou olhando para Helena.
Depois de alguns segundos, caminhou lentamente até ela.
Helena permaneceu imóvel, o coração acelerado.
Henrique parou diante dela e apertou o urso contra o peito.
- Você vai embora também?
A pergunta saiu tão baixa que quase pareceu um sussurro, o ambiente inteiro pareceu congelar.
Helena levantou os olhos lentamente para Dário.
A dor estampada no rosto dele foi rápida, mas ela viu.
Viu claramente.
Henrique continuava esperando resposta e naquele instante, Helena percebeu uma coisa perigosa.
Ela já estava emocionalmente envolvida naquela casa antes mesmo de entrar nela oficialmente.
O menino aproximou-se mais um passo.
- Vai?
O silêncio que se instalou na sala depois da pergunta de Henrique pareceu comprimir o ar ao redor deles.
"Você vai embora também?"
Helena sentiu o peito apertar de forma inesperada. Havia dor naquela voz pequena, não era apenas curiosidade infantil, era medo. Medo verdadeiro, o tipo de medo que nasce quando alguém começa a perceber que as pessoas podem desaparecer sem aviso.
Ela abaixou lentamente o olhar para o menino.
De perto, Henrique parecia ainda mais frágil do que imaginara. Os olhos castanhos estavam cansados, como se ele não dormisse direito há dias, e havia uma insegurança silenciosa no jeito como segurava o urso azul contra o peito.
Helena conhecia aquele olhar, já o tinha visto antes.
Em crianças abandonadas emocionalmente pela vida e por um segundo, viu a si própria ali também.
Ela se agachou devagar até ficar na altura dele.
- Eu acabei de chegar - respondeu suavemente. - Então ainda não tenho como ir embora.
Henrique pareceu refletir sobre aquilo.
Atrás dela, Dário observava em silêncio, atento a cada movimento. Ele esperava o afastamento imediato do menino, alguma birra ou rejeição como acontecera com as últimas duas babás, mas Henrique permaneceu parado.
Olhando para Helena como se tentasse decidir alguma coisa importante.
- Qual é o nome dele? - ela perguntou, apontando discretamente para o urso.
O menino olhou para o brinquedo.
- Tobias.
- Tobias parece bravo comigo.
Henrique apertou os lábios, quase escondendo um sorriso.
Quase.
Dário percebeu.
E aquilo o atingiu de maneira estranha, fazia dias que o filho não reagia daquele jeito.
Helena inclinou levemente a cabeça.
- Acho que preciso convencer ele de que sou legal.
Henrique finalmente levantou os olhos outra vez.
- Ele não gosta de estranhos.
A frase foi dita com tanta seriedade que Helena precisou conter a vontade de sorrir.
- Faz sentido, pessoas estranhas normalmente dão problemas.
Dessa vez, Henrique sorriu de verdade, pequeno, rápido, mas sorriu.
E Dário sentiu algo estranho atravessá-lo naquele instante.
Porque aquele simples sorriso parecia impossível nos últimos dias.
Helena percebeu o olhar dele sobre os dois e levantou-se lentamente.
O ambiente voltou a ficar tenso quase imediatamente.
Dário cruzou os braços.
- Henrique, sobe para o quarto.
O menino hesitou.
- Mas eu quero ficar aqui.
- Agora.
A autoridade na voz dele fez Henrique abaixar a cabeça imediatamente.
Helena percebeu, não o era medo exatamente, era costume.
Henrique já tinha aprendido que o pai raramente repetia ordens.
O menino virou-se lentamente e começou a caminhar de volta para o corredor.
Mas antes de desaparecer escada acima, olhou outra vez para Helena.
- Tobias ainda não decidiu se gosta de você.
Ela colocou a mão no peito dramaticamente.
- Isso é preocupante.
Henrique quase sorriu de novo antes de subir.
O silêncio voltou.
Dário passou a mão lentamente pelo maxilar.
- Ele não costuma falar com desconhecidos.
Helena permaneceu de pé.
- Talvez ele esteja cansado de adultos que entram e saem da vida dele.
A frase saiu antes que ela pudesse medir.
Erro.
Os olhos de Dário escureceram imediatamente, o clima da sala mudou outra vez.
- Está a insinuar alguma coisa?
Helena sustentou o olhar dele.
- Não, estou falando sobre o que uma criança sente depois de uma perda.
Dário aproximou-se devagar, a tensão entre os dois cresceu de forma quase palpável.
- Você acha que entende meu filho depois de cinco minutos?
Ela não recuou.
- Acho que ninguém o está ouvindo de verdade.
Aquilo bateu diretamente numa ferida aberta e Dário odiou isso porque parte dele sabia que ela tinha razão.
Desde o acidente, tudo se transformara num caos. Médicos, psicólogos, funcionários, advogados, reuniões, telefonemas, condolências vazias...
E no meio disso, Henrique estava ali, perdido, sofrendo em silêncio.
Dário respirou fundo, precisava controlar o temperamento.
- Você fala demais para alguém que ainda nem foi contratada.
Helena descruzou lentamente os braços.
- E o senhor parece cansado demais para perceber que seu filho está pedindo ajuda de maneiras diferentes.
O silêncio tornou-se pesado.
Marta, parada discretamente próxima ao corredor, observava tudo com atenção. Pela primeira vez em semanas, alguém enfrentava Dário sem parecer intimidado.
E estranhamente, aquilo parecia prender a atenção dele.
Dário desviou os olhos primeiro, um detalhe mínimo, mas Helena percebeu.
Ele caminhou até o bar da sala e serviu-se de whisky.
- Crianças não vêm com manual de instruções.
A voz dele saiu mais baixa agora, menos agressiva.
Helena observou-o em silêncio por alguns segundos, havia exaustão ali, muit.
Ela conhecia homens como ele, homens que acreditavam precisar sustentar o mundo inteiro sozinhos até começarem a desmoronar por dentro.
- Não - respondeu calmamente. - Mas elas demonstram quando estão sofrendo.
Dário virou o copo lentamente entre os dedos.
- E o que sugere?
Helena hesitou por um instante, precisava ter cuidado, aquele emprego era importante.
Mas mais importante ainda era não permitir que aquele homem a esmagasse com o mesmo autoritarismo que provavelmente usava com todos ao redor.
- Sugiro estabilidade, rotina, paciência e principalmente presença.
Ele soltou uma risada curta e sem humor.
- Presença.
- Sim.
- Eu trabalho doze horas por dia.
- Então talvez precise trabalhar onze.
Os olhos dele voltaram imediatamente para ela.
Helena sustentou o olhar, ela sabia que estava ultrapassando limites, mas também sabia que Henrique precisava de alguém que dissesse verdades naquela casa, mesmo as desconfortáveis.
- Não sabe nada sobre a minha vida - Dário disse friamente.
- E o senhor não sabe nada sobre a minha.
Aquilo o fez encará-la de forma diferente, mais atento.
Como se percebesse pela primeira vez que havia alguma coisa escondida atrás da calma dela.
Antes que pudesse responder, o celular dele começou a tocar.
Dário fechou os olhos rapidamente ao olhar o visor.
- Preciso atender.
Helena assentiu.
Ele afastou-se alguns passos.
- Fale.
A expressão dele endureceu quase imediatamente.
Helena desviou discretamente o olhar, mas ainda conseguia ouvir partes da conversa.
- Já disse que não vou vender agora.
Silêncio.
- Porque não é o momento.
Outro silêncio.
A mandíbula dele travou.
- Então diga ao conselho que esperem.
Helena percebeu a mudança instantânea no comportamento dele.
O homem cansado e emocionalmente abalado desapareceu, no lugar surgiu o empresário frio, controlado, perigoso.
Ela observou enquanto ele encerrava a chamada com irritação visível.
- Problemas? - perguntou sem pensar.
Dário lançou-lhe um olhar seco.
- Nada com que precise se preocupar.
Claro.
Homens ricos adoravam responder assim.
Helena pegou lentamente a bolsa sobre o sofá.
- Então acho que a entrevista terminou.
Ele pareceu surpreso.
- Está indo embora?
- O senhor ainda não decidiu se quer me contratar.
- E se eu decidir?
Ela aproximou-se calmamente.
- Então espero que me queira aqui pelo motivo certo.
Os olhos dele estreitaram-se levemente.
- E qual seria?
- Porque Henrique precisa de ajuda. Não porque alguém finalmente teve coragem de discordar do senhor.
O silêncio caiu outra vez.
Marta quase prendeu a respiração, mas Helena apenas caminhou em direção à saída.
Dário observou-a atravessar a sala sem pressa, mantendo a postura firme até desaparecer parcialmente pelo corredor principal.
Algo nela o incomodava e ao mesmo tempo chamava sua atenção.
Porque Helena não parecia impressionada com dinheiro, poder ou sobrenome, ela olhava diretamente para ele.
Como se enxergasse além da fachada perfeitamente controlada e aquilo era raro. Muito raro.
- Helena.
Ela parou antes da porta, virou-se lentamente.
Dário aproximou-se alguns passos.
- Começa amanhã.
Helena saiu da mansão sentindo o coração bater rápido demais.
O vento frio da rua atingiu seu rosto imediatamente enquanto ela caminhava até o portão principal.
Ela deveria estar aliviada, conseguiu o emprego.
Precisava desesperadamente dele, mas alguma coisa dentro dela parecia inquieta. Talvez porque voltar para perto daquela família fosse muito mais difícil do que imaginara.
Ela entrou no táxi em silêncio e assim que o carro começou a afastar-se da mansão, Helena virou discretamente o rosto para trás.
As luzes enormes da casa permaneciam acesas contra o céu escuro do fim da tarde, parecia bonita à distância.
Mas ela sabia que havia tristeza demais ali dentro.
Seu celular vibrou.
Ela olhou o visor.
"Laura".
Helena atendeu imediatamente.
- Então? - a voz da amiga surgiu ansiosa. - Conseguiu?
Helena apoiou a cabeça contra o banco.
- Sim.
- Meu Deus, Helena! Isso é ótimo!
Ela fechou os olhos rapidamente.
- Não sei se é.
Laura ficou em silêncio por um instante.
- Você viu ela nas fotos?
Helena demorou alguns segundos para responder.
- Vi.
O aperto no peito voltou imediatamente.
Bianca.
Depois de tantos anos, ainda doía, mesmo que Helena tentasse fingir o contrário.
- Talvez isso seja uma má ideia - murmurou.
- Você precisa desse emprego.
- Eu sei.
- E também precisa parar de fugir do passado.
Helena soltou uma pequena risada amarga.
Fácil falar, difícil era entrar todos os dias numa casa que carregava lembranças demais.
Ela abriu os olhos lentamente.
- O menino se parece muito com ela.
Laura suspirou do outro lado.
- Helena...
- Não, tudo bem. Eu vou conseguir lidar.
Mas nem ela mesma parecia acreditar totalmente nisso.
Naquela noite, Dário permaneceu sozinho no escritório enquanto observava os relatórios espalhados sobre a mesa sem realmente lê-los.
Sua mente continuava voltando para a mesma pessoa.
Helena.
Os olhos atentos, a calma irritante, a coragem absurda.
Ela falava com ele sem medo, como se não se importasse com a reputação que ele tinha, como se não estivesse tentando agradá-lo o tempo inteiro.
Aquilo era incomum.
Muito.
Ele afrouxou novamente a gravata e recostou-se na cadeira.
A porta do escritório abriu-se devagar.
Henrique apareceu segurando Tobias.
- Não consegue dormir outra vez? - Dário perguntou.
O menino aproximou-se lentamente.
- A moça vai voltar amanhã?
Dário observou o filho por alguns segundos.
- Vai.
Henrique pareceu pensar.
- Ela é bonita.
Dário arqueou discretamente a sobrancelha.
- Tem cinco anos e já repara nisso?
O menino deu de ombros.
- A mamã dizia que pessoas bonitas parecem mais gentis.
O peito dele apertou violentamente outra vez.
Bianca, sempre Bianca.
Henrique aproximou-se mais.
- Ela vai embora rápido também?
A pergunta saiu mais baixa dessa vez.
Mais insegura.
Dário puxou o filho para perto.
- Não sei.
E aquela era a verdade.
Porque algo dizia a ele que Helena Duarte não seria uma presença passageira naquela casa, não como as outras.
Ela parecia entrar nos lugares deixando marcas, mesmo sem tentar.
Henrique bocejou encostado nele.
- Papá...
- Hum?
- Você parece menos bravo hoje.
Dário ficou imóvel por um segundo.
Depois soltou uma pequena respiração cansada.
Nem ele sabia explicar por quê.
***
Na manhã seguinte, Helena chegou cedo.
Muito cedo.
Ela preferia observar os ambientes antes que as pessoas acordassem completamente, era um hábito antigo.
Marta abriu a porta com um sorriso discreto.
- Achei que chegaria apenas às oito.
- Não consegui dormir muito.
A governanta pareceu compreensiva.
- O senhor Dário já saiu para uma reunião.
Claro.
Helena entrou lentamente na casa.
O silêncio daquela manhã era diferente do dia anterior, ainda havia tristeza ali, mas também existia uma sensação estranha de expectativa.
Como se a própria casa estivesse aguardando alguma mudança.
- Henrique ainda está dormindo - Marta explicou. - Quer que eu mostre o quarto dele?
Helena assentiu.
Enquanto subiam as escadas, os olhos dela percorriam discretamente os detalhes do lugar.
Fotografias, quadros, objetos decorativos, tudo extremamente sofisticado, mas sem calor humano.
Chegaram ao corredor superior e Marta abriu uma porta devagar.
- Aqui.
O quarto infantil era bonito, grande.
Mas claramente improvisado emocionalmente após a perda.
Havia brinquedos espalhados, desenhos amassados sobre a escrivaninha e um pequeno abajur aceso mesmo durante o dia.
Medo do escuro, Helena reconheceu imediatamente, ela aproximou-se lentamente da cama.
Henrique dormia abraçado ao urso azul, completamente enrolado nos cobertores.
Parecia menor dormind, mais vulnerável.
Helena sentou-se cuidadosamente na poltrona próxima à janela.
- Ele quase não dorme durante a noite - Marta murmurou. - Às vezes acorda chamando pela mãe.
Helena permaneceu olhando o menino em silêncio.
O coração apertando aos poucos.
Porque ela sabia exatamente como era crescer sentindo ausência dentro de casa.
Depois de alguns segundos, Henrique mexeu-se lentamente na cama.
Os olhos dele abriram devagar, confusos primeiro.
Depois encontraram Helena, o menino ficou imóvel. Como se estivesse tentando confirmar que ela era real.
Helena sorriu levemente.
- Bom dia.
Henrique piscou algumas vezes.
- Você voltou.
A simplicidade daquela frase quase destruiu alguma coisa dentro dela.
Ela inclinou levemente a cabeça.
- Tobias finalmente deixou?
O menino olhou imediatamente para o urso.
Depois abraçou-o mais forte antes de responder com toda seriedade do mundo.
- Ele disse que ainda está observando você.
E pela primeira vez em semanas, uma gargalhada infantil ecoou baixinho naquele quarto.
A gargalhada de Henrique desapareceu rápido, quase como se ele próprio tivesse estranhado o som, mas Helena percebeu.
Percebeu o instante exato em que a criança relaxou os ombros pela primeira vez desde que ela chegara naquela casa. Foi breve, pequeno, delicado mas foi real.
Ela sorriu discretamente.
- Então acho melhor me comportar bem na frente do Tobias.
Henrique abraçou o urso azul contra o peito antes de sentar-se na cama devagar.
Os cabelos bagunçados caíam sobre os olhos sonolentos enquanto ele observava Helena com uma atenção curiosa.
- Você gosta de panquecas?
A pergunta surgiu do nada.
Helena piscou.
- Isso foi aleatório.
- O que é aleatório?
Ela conteve uma risada.
- Significa que você mudou de assunto muito rápido.
Henrique pareceu pensar sobre aquilo.
- Ah.
Depois apontou para ela.
- Mas você não respondeu.
Helena apoiou o cotovelo no braço da poltrona.
- Gosto muito.
O menino assentiu com seriedade.
- Então talvez você possa ficar.
Ela arqueou levemente a sobrancelha.
- Porque eu gosto de panquecas?
- Sim.
- Critério rigoroso.
Henrique quase sorriu outra vez.
Marta observava os dois da porta, claramente surpresa com a facilidade daquela interação. Nas últimas semanas, Henrique recusara aproximação de praticamente todos os adultos ao redor.
Mas com Helena parecia diferente, talvez porque ela não o tratasse como alguém quebrado.
Helena levantou-se da poltrona lentamente.
- Vamos negociar uma coisa.
Henrique inclinou a cabeça.
- O quê?
- Você escova os dentes sem reclamar e eu faço panquecas.
Os olhos dele arregalaram-se ligeiramente.
- Você sabe cozinhar?
- Isso pareceu ofensivo.
- A última babá queimou arroz.
Helena colocou a mão no peito dramaticamente.
- Queimar arroz devia ser crime.
Henrique riu baixo, dessa vez, sem se controlar.
E Marta sentiu os próprios olhos marejarem discretamente.
Porque fazia tempo que aquela casa não escutava uma criança rir.
---
Na cozinha, cerca de meia hora depois, Helena tentava encontrar os utensílios certos enquanto Henrique permanecia sentado sobre a bancada observando tudo com extrema atenção.
- Você está me fiscalizando?
- Sim.
- Tobias mandou?
O menino assentiu imediatamente.
Helena balançou a cabeça em falsa indignação.
- Esse urso claramente não confia em mim.
Henrique abraçou Tobias.
- Ele confia um pouquinho.
A cozinha começou a ganhar vida aos poucos, o cheiro doce da massa na frigideira espalhou-se pelo ambiente enquanto a luz da manhã atravessava as enormes janelas de vidro.
Pela primeira vez desde a morte de Bianca, funcionários começaram a circular pela casa sem aquele silêncio pesado e quase fúnebre.
Helena percebia.
As pessoas ali andavam como quem tinha medo de fazer barulho, como se alegria fosse proibida naquela casa agora.
Ela virou a panqueca habilmente.
Henrique arregalou os olhos.
- Uau.
- Impressionado?
- Um pouco.
Helena aproximou-se dele com o prato.
- Experimente.
O menino pegou um pedaço pequeno ainda desconfiado, mastigou lentamente e depois olhou para ela.
- Você pode ficar.
Ela sorriu.
- Que honra.
Henrique estava prestes a responder quando passos firmes ecoaram pela entrada da cozinha.
O ambiente mudou imediatamente, Helena ergueu os olhos, Dário acabara de chegar.
O terno escuro perfeitamente alinhado contrastava completamente com o semblante cansado. Ele segurava o celular numa mão enquanto retirava lentamente o relógio do pulso com a outra. Mas então percebeu a cena diante dele, Henrique sentado na bancada, conversando, comendo e sorrindo.
O movimento dele desacelerou, muito discretamente.
Helena observou a mudança no olhar dele, surpresa e confusão.
E algo perigosamente próximo de alívio, Henrique virou-se imediatamente.
- Papá! Ela sabe fazer panquecas!
Dário manteve os olhos em Helena por alguns segundos antes de responder.
- Estou vendo.
A voz grave saiu mais baixa do que o habitual.
Helena sentiu um leve desconforto crescer sob aquele olhar atento, porque agora ele não parecia apenas avaliando uma funcionária, parecia tentando entendê-la.
Henrique pegou outra panqueca.
- E ela não queimou nada.
Dário tirou lentamente o casaco.
- Isso realmente eleva o nível da casa.
Helena arqueou uma sobrancelha.
- Espero que esteja me elogiando.
Ele aproximou-se da bancada.
- Ainda estou decidindo.
Os olhos dos dois se encontraram por um segundo longo demais e Henrique percebeu, crianças sempre percebiam.
O menino olhou discretamente entre os dois antes de voltar a comer em silêncio.
Helena desviou primeiro, melhor assim.
Porque havia alguma coisa desconfortavelmente intensa naquele homem quando ele a observava sem frieza e isso era perigoso.
Dário pegou uma xícara de café já preparada por uma funcionária e recostou-se parcialmente contra a bancada.
- Ele dormiu bem?
- Melhor que o esperado.
Henrique respondeu antes dela.
- Porque ela ficou no meu quarto até eu dormir.
Dário voltou os olhos para Helena.
Ela manteve a calma.
- Crianças lidam melhor com mudanças quando se sentem seguras.
Ele permaneceu olhando para ela por alguns segundos.
- E acha que já fez ele se sentir seguro?
Helena apoiou a espátula sobre o balcão.
- Acho que ele está cansado de se sentir sozinho.
Silêncio, outra vez.
Ela tinha um talento irritante para tocar em pontos delicados.
Dário tomou um gole lento do café.
- Você sempre responde perguntas com críticas?
- Só quando necessário.
Henrique observava os dois como quem assistia a uma partida de tênis.
- Vocês brigam estranho.
Os dois olharam imediatamente para ele.
Helena quase riu.
Dário fechou os olhos rapidamente, soltando uma respiração cansada.
- Estamos conversando.
Henrique mastigou mais um pedaço de panqueca.
- Parece briga.
Helena apoiou os braços na bancada.
- Talvez seja uma conversa competitiva.
- O que é competitiva?
- Quando duas pessoas querem ganhar.
Henrique pensou por um instante, depois apontou para Helena.
- Acho que você está ganhando.
Dário soltou uma pequena risada nasal inesperada, muito breve e aquilo surpreendeu até ele próprio.
Helena percebeu imediatamente.
Aquela foi provavelmente a primeira reação espontânea daquele homem em dias, talvez semanas.
Dário endireitou-se quase no mesmo instante, como se tivesse consciência do deslize.
- Tenho uma reunião daqui a uma hora - disse secamente. - O motorista vai levar Henrique à terapia às três.
Henrique imediatamente perdeu parte da animação.
Helena percebeu.
- Você não gosta da terapia?
O menino deu de ombros.
- A doutora fica perguntando se eu estou triste.
O olhar de Helena suavizou.
- E você está?
Henrique ficou quieto, muito to quieto, depois abaixou os olhos para o prato.
- Quando eu digo que sim, ela faz cara de pena.
Aquilo apertou o peito dela instantaneamente, Dário também percebeu.
E pela primeira vez em dias, sentiu culpa de verdade atravessá-lo sem defesa.
Porque talvez estivesse tão focado em manter tudo funcionando que não percebeu como o próprio filho se sentia observado, analisado, tratado como um problema a ser resolvido.
Helena aproximou-se lentamente de Henrique.
- Você não precisa gostar de pessoas com cara de pena.
O menino levantou os olhos.
- Não?
- Não, mas precisa conversar com alguém quando estiver triste.
Henrique refletiu por alguns segundos.
- Tobias escuta.
Helena sorriu suavemente.
- Aposto que ele é muito sábio.
Dário observava tudo em silêncio agora.
E algo dentro dele começava a ficar perigosamente atento à presença daquela mulher.
Porque Helena não parecia tentar impressionar ninguém.
Ela simplesmente entrava nos espaços emocionais das pessoas sem forçar, sem fazer barulho e isso tinha impacto, muito impacto.
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Mais tarde, Helena ajudava Henrique a montar um quebra-cabeça enorme na sala de brinquedos quando ouviu vozes alteradas vindas do escritório principal.
Ela ergueu discretamente o olhar, a porta estava parcialmente aberta.
Henrique continuou concentrado nas peças.
- Esse aqui vai no canto.
Mas Helena já havia reconhecido o tom da discussão.
Dário e outro homem.
A voz desconhecida parecia irritada.
- Você não pode continuar adiando isso!
Helena desviou os olhos imediatamente, não era da sua conta, mas então ouviu Dário responder num tom perigosamente controlado.
- Minha esposa morreu há menos de um mês. Não vou discutir fusões agora.
O silêncio seguinte foi pesado até mesmo dali.
Henrique continuava distraído.
- Achei!
Helena forçou a atenção de volta ao menino.
- Boa.
Mas a discussão continuou.
- O conselho está pressionando.
- Então diga ao conselho para esperar.
- Você está emocional demais para tomar decisões importantes.
A expressão de Helena endureceu involuntariamente.
Que tipo de idiota dizia aquilo para um homem recém-viúvo?
Ela ouviu o som seco de algo sendo colocado violentamente sobre a mesa.
Depois a voz de Dário saiu fria o suficiente para congelar o ambiente inteiro.
- Saia da minha casa.
Silêncio.
Passos fortes atravessaram o corredor logo depois.
Segundos mais tarde, um homem alto de cabelos grisalhos passou pela sala sem sequer notar Helena e Henrique.
A porta principal bateu com força, o ambiente ficou silencioso outra vez.
Henrique continuou encaixando peças, mas então perguntou baixinho.
- O papá está bravo outra vez?
Helena olhou para o corredor.
- Acho que ele está cansado.
O menino ficou quieto por um instante.
- Antes da mamã morrer, ele ria mais.
Aquilo atingiu Helena de forma inesperada, ela desviou o olhar discretamente, porque às vezes esquecia que crianças observavam tudo, até aquilo que os adultos tentavam esconder.
Henrique encaixou outra peça.
- Você acha que ele sente saudades dela?
Helena respirou fundo lentamente.
- Acho que sim.
- Então por que ele age como robô agora?
Ela quase sorriu da sinceridade brutal.
Quase.
- Talvez algumas pessoas fiquem frias quando estão muito machucadas.
Henrique pareceu pensar seriamente naquilo, depois voltou a olhar para o quebra-cabeça.
- Igual gelo?
- Mais ou menos.
- Então você tem que colocar ele no sol.
Helena piscou.
- O quê?
Henrique deu de ombros.
- Gelo derrete no calor.
Ela ficou olhando para ele por alguns segundos.
Meu Deus, crianças realmente enxergavam o mundo de maneira assustadoramente simples às vezes.
Antes que pudesse responder, passos aproximaram-se da sala.
Dário apareceu na porta.
A tensão ainda estava estampada no rosto dele, mas suavizou ligeiramente ao ver Henrique no chão cercado pelas peças coloridas e então os olhos dele encontraram Helena.
Ela percebeu imediatamente, que ele ouvira parte da conversa, talvez tudo.
O clima mudou.
Dário aproximou-se lentamente.
- Henrique, vai tomar banho.
O menino fez careta.
- Mas eu quero terminar.
- Depois termina.
Henrique bufou dramaticamente antes de levantar-se devagar com Tobias debaixo do braço.
Ao passar pelo pai, parou subitamente.
- Papá?
- Hum?
- Você devia ficar mais no sol.
Dário franziu levemente a testa.
- O quê?
Mas Henrique já saía correndo corredor afora antes de explicar.
O silêncio instalou-se entre os dois adultos.
Helena continuou sentada no chão entre as peças do quebra-cabeça e Dário afrouxou lentamente a gravata.
- O que disse a ele?
- Nada demais.
Ele aproximou-se mais alguns passos.
- Helena.
Ela suspirou discretamente.
- Ele perguntou por que você parece frio.
Os olhos dele escureceram levemente.
- E você respondeu?
- Que algumas pessoas ficam assim quando estão machucadas.
Dário permaneceu em silêncio, depois soltou uma respiração lenta, cansada.
- Ótimo, agora meu filho acha que sou um cubo de gelo emocional.
Helena finalmente sorriu de verdade, um sorriso pequeno e curto.
Dário sentiu algo estranho acontecer no peito naquele instante, porque aquela foi a primeira vez que viu o sorriso dela sem defesas, sem profissionalismo, sem distância, foi rápido, mas um pouco perigoso.
Ela começou a recolher algumas peças espalhadas pelo tapete.
- Ele sente sua falta, sabia?
Dário apoiou as mãos nos bolsos.
- Eu estou aqui.
Helena ergueu lentamente os olhos para ele.
- Fisicamente, sim.
A frase caiu suavemente, sem acusação, mas acertou em cheio, fazendo Dário desviar o olhar por um instante.
Porque talvez estivesse começando a perceber uma coisa desconfortável, Helena Duarte não apenas enxergava as rachaduras daquela casa, ela enxergava as dele também e isso começava a abalá-lo mais do que deveria.
Então o celular dela vibrou sobre a mesa lateral.
Helena pegou-o rapidamente, mas a expressão dela mudou no instante em que leu a mensagem, toda cor pareceu desaparecer do rosto dela.
Dário percebeu imediatamente.
- O que aconteceu?
Ela levantou-se rápido demais, tensa, nervosa e assustada.
E aquilo foi a primeira vez que Dário viu Helena perder completamente a compostura.
- Eu preciso ir. Agora.