O sol se escondia no horizonte texano, enfeitando o céu com tons de roxo, quando Antonio "O Coiote" Treviño entrou no Rusty Spur Saloon. Com seu andar descontraído e um sorriso torto nos lábios, o cowboy de 25 anos ajeitou o chapéu e deu uma olhada no lugar.
- Que o diabo me leve se isso não é o próprio paraíso na terra - murmurou para si mesmo, com os olhos brilhando de malícia ao correr o bar, o mesmo onde ia quase todo santo dia.
O Rusty Spur era um típico bar de beira de estrada, com seu balcão de madeira gasta, mesas de sinuca e uma vitrola que tocava country no último volume. Mas o que realmente chamou a atenção do Tony foi a morena linda sentada sozinha no balcão.
Com a confiança de quem se sabe irresistível, Tony se aproximou do balcão, se acomodando ao lado da garota.
- Boa noite, senhorita - cumprimentou, com a voz grave marcada por um forte sotaque do sul, uma mistura do sotaque dos seus pais vindos do norte do México com o sotaque típico do sul do Texas, onde tinha nascido e vivido a vida inteira - Se incomoda se um humilde cowboy fizer companhia para a senhorita?
A garota olhou para ele de rabo de olho, e um sorriso divertido apareceu em seus lábios.
- Depende - respondeu ela - O humilde cowboy sabe se comportar?
Tony deu uma gargalhada.
- Pois isso depende do que você considera "se comportar", minha rainha. Porque se a gente falar de modos, sou um completo cavalheiro. Mas se a gente falar de diversão... - deixou a frase no ar, piscando um olho para ela.
A garota riu, balançando a cabeça.
- Sou a Sarah - se apresentou, estendendo a mão.
- E eu sou o homem mais sortudo do Texas esta noite - respondeu Tony, pegando a mão dela e beijando com galanteria - Mas para os amigos, sou Tony.
- Bom, Tony - disse Sarah, dando um gole na bebida - O que te traz por esses lados?
- Pois a bem da verdade, eu estava procurando um oásis neste desierto de solidão - respondeu ele, se inclinando um pouco mais perto - e olhe só que sortudo eu sou, que dei de cara com a miragem mais bonita que estes olhos já viram.
Sarah deu uma gargalhada.
- Você é sempre assim... colorido com as palavras?
- Olhe, rainha, eu sou igual feijão de rancho, apimentado mas gostoso - piscou o olho para ela - e você me deixa mais animado que bezerro em curral novo.
A noite avançou entre risadas, drinques e flertes cada vez mais descarados. Tony usou todo o seu arsenal de frases espertas e duplo sentido, mantendo Sarah constantemente entre gargalhadas e rubores.
- Ei, cowboy - disse Sarah depois de um tempo, se inclinando para sussurrar no ouvido dele. - O que acha da gente ir para um lugar mais... privado?
Tony sentiu o coração disparar.
- Pois acho que acabei de ganhar na loteria sem comprar bilhete - respondeu com um sorriso travesso - É só me dizer para onde eu puxo as rédeas, minha rainha.
Sarah pegou a mão dele e o guiou em direção à saída; Tony a seguiu, não sem antes lançar um olhar triunfante para os outros clientes do bar.
- Tomem um gole, rapaziada! - gritou enquanto saía - Porque esta noite, o Coiote vai uivar para a lua!
A viagem no carro da Sarah foi curta, mas intensa. Tony não conseguia tirar as mãos de cima dela, e ela parecia igualmente empolgada.
- Calma, cowboy - riu Sarah, tirando a mão dele da sua coxa - Guarda um pouco para quando a gente chegar.
- Pois você não se preocupe, meu céu - respondeu Tony com um sorriso malicioso - que eu tenho reserva para a noite toda... E parte da manhã.
Finalmente chegaram a uma casa pequena nos arredores da cidade. Mal tinham cruzado a porta quando Sarah se jogou sobre ele, beijando-o apaixonadamente.
- Eita, minha rainha - ofegou Tony entre os beijos - se beija assim, já imagino como...
- Menos conversa e mais ação, cowboy - interrompeu Sarah, arrastando-o para o quarto.
O que se seguiu foi uma noite de paixão descontrolada. Tony demonstrou que suas habilidades iam muito além do seu papo, deixando Sarah sem fôlego em mais de uma ocasião.
- Ai, minha nossa! - exclamou num momento particularmente intenso - Você me deixa mais agitado que frango de padaria!
Sarah deu uma gargalhada entrecortada.
- Você não tem jeito - ofegou, antes de beijá-lo de novo.
- E você é mais doce que algodão-doce em festa de interior - respondeu ele, acariciando o rosto dela.
A paixão continuou até altas horas da madrugada. Finalmente, exaustos e satisfeitos, se deixaram cair na cama, com os corpos entrelaçados, cobertos de suor.
- Pois se isso é um sonho - murmurou Tony, acariciando o cabelo da Sarah - que ninguém me acorde.
Sarah sorriu, se aninhando contra o peito dele.
- Não é um sonho, cowboy - respondeu com voz sonolenta - mas com certeza foi uma noite para recordar.
Tony estava prestes a responder quando um barulho os assustou. Passos pesados se aproximavam pelo corredor.
- Merda! - sussurrou Sarah, se levantando de golpe - É o meu pai!
- O seu o quê? - Tony se sentou na cama, de repente bem acordado - Pois você não morava sozinha?
- Era para ele estar viajando - respondeu Sarah, pulando da cama e pegando as roupas do Tony - Rápido, você tem que ir embora!
Mas era tarde demais. A porta do quarto se abriu de golpe, revelando um homem corpulento com uma espingarda nas mãos.
- Sarah! Que diabos está acontecendo aqui? - rugiu o homem, enquanto os olhos soltavam faíscas ao ver Tony pelado na cama da filha.
- Pai! - exclamou Sarah, cobrindo a nudez com um lençol - Eu posso explicar!
Mas o pai de Sarah não parecia interessado em explicações; ergueu a espingarda, apontando diretamente para o Tony.
- Você tem três segundos para sumir da minha frente, rapaz - rosnou - Um...
Tony não precisou ouvir duas vezes. Com uma agilidade digna de um atleta olímpico, pulou da cama e correu para a janela.
- Dois...!
- Pois já estou indo, senhor! - gritou, abrindo a janela de vez - Tenha uma boa noite!
- Três!
O som do tiro ecoou bem no momento em que Tony pulava pela janela. Por sorte, o pai da Sarah tinha pontaria ruim... ou talvez só quisesse assustá-lo. De qualquer forma, Tony caiu no jardim ileso, mas completamente pelado.
- Ai, Nossa Senhora de Guadalupe! - exclamou, cobrindo as partes íntimas com as mãos enquanto corria pelo jardim - Olha a encrenca em que eu fui me meter!
Atrás dele, o Tony podia ouvir os gritos do pai da Sarah e os passos pesados se aproximando. Ele correu feito um doido, pulando a cerca do jardim.
Só quando teve certeza de que ninguém estava atrás dele, o Tony parou para tomar fôlego. Foi aí que ele se deu conta da situação: estava totalmente pelado, a quilômetros do seu rancho, sem carro e sem a menor ideia de onde estava exatamente.
- É, você pisou feio na bola dessa vez, Tony - disse para si mesmo, olhando em volta. - Se sair dessa, promete que vai se comportar... pelo menos por uma semana.
Com um suspiro de resignação, o Tony começou a andar pela estrada deserta. A noite estava fresca, e cada brisa lembrava que ele estava sem roupa.
- Se a minha mãe me visse agora - resmungou -, ia me mandar pro México com um pé na bunda.
Depois do que pareceu uma eternidade, o Tony viu as luzes de um carro se aproximando. Por um segundo, pensou em se esconder, mas aí percebeu que aquela podia ser a única chance de conseguir ajuda.
- É o jeito, né? - disse para si mesmo. - Bora encarar.
Parou no meio da estrada, acenando os braços para chamar a atenção do motorista. O carro parou a alguns metros dele, e o Tony viu que era uma picape.
- Graças a Deus! - exclamou, se aproximando da janela do motorista. - Com licença, moço, o senhor seria tão gentil de...?
As palavras travaram na garganta dele quando viu que não tinha nenhum homem ali, mas sim duas garotas lindas olhando para ele com uma mistura de surpresa e diversão.
- Olha só... - disse a motorista, uma loira de olhos azuis. - O que temos aqui?
- Parece que a gente pescou um cowboy em apuros, Jessie - respondeu a acompanhante, uma ruiva cheia de pintinhas -, e um bem... equipado.
O Tony percebeu que, com o susto, tinha esquecido de se cobrir. Rapidamente, usou as mãos para se tampar do jeito que deu.
- Poxa, desculpa o traje, moças - disse ele, tentando manter a pose. - É que a noite me pegou em... uma situação meio complicada.
As garotas caíram na gargalhada.
- Imagino! - disse a loira, Jessie. - Você precisa que a gente te leve para algum lugar, cowboy?
- Se não for incomodar - respondeu aliviado -, meu rancho fica a alguns quilômetros daqui.
- Entra aí - disse a ruiva, abrindo a porta de trás.
O Tony subiu na picape, agradecendo mentalmente pela escuridão que escondia a vergonha dele.
- Meu nome é Antonio, Antonio Treviño - se apresentou. - E eu juro pela minha mãe que isso aqui não é o que parece.
- Ah, tenho certeza de que tem uma explicação incrível - riu Jessie, acelerando a picape. - Eu sou a Jessie, e essa é a minha amiga Kate.
- Prazer - disse Kate, se virando para olhar para ele. - E o que um cowboy como você faz andando pelado pela estrada a uma hora dessas?
O Tony deu um suspiro dramático.
- Bom, vocês vão ver, é uma história de amor, paixão e um pai muito, mas muito bravo - começou. - Tudo começou no Rusty Spur Saloon...
Durante a viagem, o Tony contou a história inteira, enfeitando tudo com o seu jeito único e divertido. As garotas não paravam de rir, principalmente quando ele chegou na parte da fuga pelado pelo jardim.
- ... E foi assim que eu terminei mais perdido do que turista no deserto - concluiu. - Se não fosse por vocês, sei lá onde eu ia amanhecer.
- Bom, Tony - disse Jessie, olhando para ele pelo retrovisor -, tenho que dizer que você é o caroneiro mais interessante que a gente já pegou.
- E o mais bonito - acrescentou Kate, dando uma piscadela.
O Tony sentiu o rosto esquentar.
- Ah, mas vocês não ficam atrás não, gatinhas - respondeu com um sorriso de canto de boca. - São mais bonitas do que um amanhecer no rancho.
O resto da viagem passou entre risadas e xavecos descarados. O Tony foi se sentindo cada vez mais à vontade, apesar de estar pelado.
Finalmente, chegaram ao rancho onde o Tony morava com a mãe. A casa era humilde, mas aconchegante, cercada por campos; do outro lado, destacava-se a casa principal, imponente, onde só entravam os donos - donos que há muito tempo não davam notícias.
- Bom, é aqui - disse o Tony, se preparando para descer. - Não sei nem como agradecer vocês, moças.
- Foi um prazer, cowboy - respondeu Jessie com um sorriso malicioso. - Se algum dia precisar de outra carona...
- Ou se quiser só passar um momento gostoso - acrescentou Kate -, já sabe onde encontrar a gente - disse a garota, entregando a ele um cartão com os números de telefone delas.
O Tony piscou para elas.
- Vou guardar a ideia, gatinhas. E se algum dia vocês precisarem de um cowboy para... o que for, bom, tô aqui.
Com uma última troca de sorrisos, o Tony desceu da picape e correu em direção à casa. As garotas foram embora, buzinando para se despedir.
O Tony entrou de fininho em casa, agradecendo por a mãe ter o sono pesado. Foi direto para o quarto e se jogou na cama com um suspiro de alívio.
- Mas que noitinha, hein... - resmungou para si mesmo, fechando os olhos. - Amanhã é outro dia.
Meses depois, depois de outra noite de farra, ainda era de madrugada quando o Tony Treviño abriu os olhos. A cabeça dele latejava como se um rodeio inteiro estivesse acontecendo ali dentro, e a boca estava mais seca que o deserto de Chihuahua.
- Ai, minha Nossa Senhora... - resmungou, cobrindo os olhos com o braço. - Se isso é ressaca, prefiro continuar bêbado.
Ele se sentou devagar, e cada movimento mandava uma onda de dor pelo corpo todo. Foi aí que as lembranças da noite anterior começaram a vir à mente: de novo o bar, outra garota... Suspirou ao lembrar dela; era bonita demais.
- Corre, Tony! - disse para si mesmo, balançando a cabeça. - Se a sua mãe souber das suas aprontadas, vai puxar a sua orelha como sempre.
Fazendo um esforço enorme, o Tony se levantou da cama e foi se arrastando até o banheiro. Olhou para o espelho e soltou um assobio baixo.
- É, você tá um caco mesmo, Toño - resmungou para o seu reflexo. - Parece cacto pisoteado por uma boiada louca.
Depois de um banho rápido e uma roupa limpa, o Tony se sentiu humano o suficiente para encarar o dia. A vida no rancho era assim: madrugar todo santo dia. Ele desceu para a cozinha, onde o cheiro de café passadinho na hora o deu as boas-vindas.
- Bom dia, meu filho - saudou a mãe dele, Guadalupe, do fogão onde fritava uns ovos. - Você tá com uma cara de quem foi arrastado por um cavalo selvagem.
- Bom dia, mãe - respondeu o Tony, se sentando à mesa e pegando uma xícara de café. - Você nem imagina a noite que eu tive.
A Guadalupe olhou para ele com uma mistura de carinho e irritação.
- Ai, meu filho, aprontando de novo? Já te disse que um dia desses você vai se meter numa encrenca de onde nem São Judas vai conseguir te tirar.
O Tony deu uma risada que imediatamente virou uma careta de dor.
- Relaxa, mãezinha - disse, dando um gole no café. - O seu Toño sabe se cuidar sozinho.
A Guadalupe balançou a cabeça, mas um sorriso apareceu nos lábios dela.
- Espero mesmo, porque um dia desses...
As palavras dela foram interrumpidas por uma batida na porta. O Tony e a Guadalupe trocaram um olhar confuso; era cedo demais para alguém ir visitar.
- A gente tá esperando visita? - perguntou o Tony.
- A uma hora dessas? Claro que não - respondeu a Guadalupe. - Vai ver quem é, meu filho.
O Tony se levantou, xingando por dentro quem quer que fosse que o estava fazendo se mexer mais do que devia naquele estado. Ele foi arrastando os pés até a porta, preparando a melhor cara de "não tô de ressaca, só cansado".
- Já vai, já vai - resmungou ao ouvir outra batida na porta. - Que pressa, nem parece que é o fim do mundo.
Abriu a porta de uma vez, pronto para encarar o intruso, mas deu de cara com... o nada. Confuso, coçou a cabeça, olhou para baixo e sentiu o coração parar.
Ali, na soleira da porta, tinha um cestinho, e dentro dele, enroladinho num cobertor azul, dormia tranquilamente um bebê.
- Caramba! - exclamou o Tony, dando um passo para trás. - Essa sim eu não esperava.
Ele se abaixou para olhar melhor o cesto. O bebê não devia ter mais do que poucas semanas. Junto com o pequenino tinha um envelope. Com as mãos trêmulas, o Tony abriu e começou a ler:
"Querido Tony,
Sei que isso vai cair como um balde de água fria, mas não tenho outra opção. O bebê que está na sua frente é seu filho. Sim, o resultado daquela noite louca no Rusty Spur. Não posso cuidar dele e sei que com você ele vai estar melhor. Por favor, cuida dele como sei que você é capaz.
Com carinho,
Sarah"
O Tony sentiu o mundo girar ao seu redor. Um filho? Ele? O eterno solteiro e galinha do condado?
- Mãe! - gritou, e a voz saiu mais fina do que ele gostaria. - Acho que a gente vai precisar de mais café!
A Guadalupe apareceu na porta, enxugando as mãos num pano de prato.
- O que foi, meu filho? Parece que viu um fantasma.
O Tony se desviou, mostrando o cesto com o bebê. A Guadalupe deu um grito.
- Nossa Senhora! - exclamou, levando a mão ao peito. - O que é isso, Antonio?
O Tony engoliu em seco, segurando a carta como se fosse uma bomba prestes a explodir.
- É... parece que te fiz virar vovó, mãe - disse com uma risada nervosa. - Surpresa!
A Guadalupe olhou do bebê para o Tony e do Tony para o bebê. Depois, sem dizer uma palavra, se aproximou do cesto e pegou o pequenino nos braços com uma ternura que contrastava com o olhar fulminante que lançou para o filho.
- Antonio Treviño - disse com uma calma que anunciava tempestade -, é bom você ter uma ótima explicação para isso.
O Tony passou a mão pelo cabelo, com a cabeça trabalhando a mil por hora.
- Olha, mãe... Você se lembra daquela vez que te disse que ia a um rodeio em San Antonio?
A Guadalupe semicerrou os olhos.
- Aquele de uns meses atrás? Sei, me lembro.
- Pois é... - O Tony coçou a nuca, desviando o olhar da mãe. - Acontece que o rodeio foi mais para o Rusty Spur, e em vez de montar em touro... bom...
- Antonio! - interrompeu a Guadalupe, com a voz num misto de choque e desaprovação.
- Desculpa, mãe! - se desculpou rapidamente. - É que, bom... uma coisa levou à outra, e...
A Guadalupe levantou a mão para calá-lo.
- Me poupe dos detalhes, meu filho, já até imagino.
Olhou para o bebê nos braços dela, que começava a acordar. Os olhos dele, grandes e curiosos, se abriram, revelando um tom castanho idêntico ao do Tony.
- Ai, Toño... - suspirou a Guadalupe, e a raiva deu lugar a uma resignação carinhosa. - Sempre soube que um dia desses as suas aprontadas iam te pegar, mas isso aqui...
O Tony se aproximou, olhando para o bebê com medo e fascínio.
- E agora, o que a gente faz, mãe? - perguntou, baixando a voz para um sussurro. - Eu não entendo nada de criar criança.
A Guadalupe olhou para ele, e um sorriso foi se formando devagar nos lábios dela.
- Pois vai aprender, meu filho, porque esse garotinho é sua responsabilidade agora.
O Tony engoliu em seco, sentindo o peso do mundo caindo sobre os ombros.
- Mas mãe, como é que eu vou...?
- Sem "mas" - interrompeu a Guadalupe. - Já se meteu nessa encrenca, agora vai ter que ser homem e assumir.