A situação selecionada na obra As Intermitências da Morte de José Saramago é um episódio familiar que nos dá conta do mal-estar provocado pela presença de um avô que, durante as refeições com o filho, a nora e o neto, treme muito das mãos, deixando cair a comida em cima da toalha e dos guardanapos, causando irritação aos familiares. Então, o filho arranja uma tigela de madeira e ordena ao pai que passe a comer sentado na soleira da porta, ao que a nora e o neto aceitam sem questionar.
No entanto, o neto, ao presenciar aquele tratamento, decide construir uma tigela de madeira para oferecer ao seu progenitor quando for velhinho. Ao tomar conhecimento da intenção do filho, o pai arrepende-se amargamente do que havia feito ao idoso, pedindo-lhe perdão e levando-o novamente para a mesa para lhe dar de comer na boca.
Da situação exposta, retiramos uma moral, a partir do provérbio popular, "não faças aos outros aquilo que não queres que te façam a ti". Já dizia alguém que "a voz do povo é a voz de Deus", pois é uma grande verdade. O filho ao temer ter o mesmo tratamento que estava a dar ao pai, refletiu e arrependeu-se do que estava a fazer ao seu pai.
Dançar era meu sonho desde que eu conseguia me lembrar.
Na minha infância, meu pai costumava me levar para aulas de ballet e me comprar sapatilhas, tutus e todos os acessórios necessários para que eu fosse uma bailarina completa. Ele pagava por minhas aulas, filmava todos os meus recitais e dizia para todos com o maior orgulho do mundo que a filha dele era uma bailarina incrível e que eu tinha muito futuro dançando.
Mal sabia ele que eu realmente tinha futuro dançando, mas não era em grandes teatros e casas de ópera, e sim na Desert, uma das maiores e mais luxuosas boates de Los Angeles, frequentada por celebridades, magnatas, mafiosos, donos de negócios multimilionários, e muitos deles tinham negócios com os donos da boate, o senhor e a senhora Rashid, meus patrões.
Ouvi duas batidas na porta do camarim antes de Layla, filha dos donos da boate, entrar no cômodo com um sorriso no rosto.
- Maddie, você está pronta?
Dei uma última checada no espelho. Meus cabelos lisos castanhos estavam soltos e eu usava uma roupa própria para dança do ventre, com tecido fino da cor vermelha, quase transparente. Um tecido fino adornado por linhas douradas se prendia em minhas duas orelhas, cobrindo meu rosto do nariz para baixo e destacando meus olhos delineados. Meus pés e mãos estavam com finas correntinhas douradas e meus pulsos e tornozelos carregavam pulseiras cheias de pequenos sinos que faziam som sempre que eu me movia, assim como a barra da minha sala longa com fendas.
- Estou sim - respondi à Layla e a segui pelo corredor que levava até o salão.
Layla tinha 24 anos e era dois anos mais velha que eu, mas se fazia tão responsável nos negócios da família que toda a maturidade dava a ela um ar mais velho. Com a pele cor de oliva e cabelos pretos iguais aos do pai e olhos azuis e curvas marcantes iguais a da mãe, Layla era uma das mulheres mais bonitas que eu já havia visto, principalmente agora, com saia curta, blazer elegante, saltos altos e maquiagem forte.
- Hoje teremos clientes importantes na boate, Maddie - Layla comentou animada, batendo palminhas. - Estão falando sobre reabrir o ringue no subsolo.
Franzi as sobrancelhas, confusa. O ringue ilegal localizado abaixo da boate havia sido fechado anos atrás e, até então, ninguém falava sobre colocá-lo de volta na ativa.
- Achei que o sr. Rashid tinha desistido disso.
- Ele desistiu, mas as lutas ilegais estão ganhando força novamente em L.A. e a nossa arena subterrânea é a maior da cidade! - Ela se aproximou para sussurrar em minha orelha. - Inclusive, ouvi dizer que um dos novos lutadores é muito, muito bonito. Ian Morales o nome dele.
- Bonito, é? - questionei, me divertindo com a forma como Layla balançou a cabeça para afirmar.
- Descobriram ele lutando em um ringue clandestino na periferia e resolveram investir no cara. Pelo que falaram, ele ganhou cinco lutas seguidas até agora.
- Mas ele não vai ganhar mais nenhuma se o seu pai sonhar que você tem algum interesse nele - brinquei e Layla dá risada.
- Eu não tenho o menor interesse em um lutador, Maddie. Se envolver com lutador é implorar por dor de cabeça.
- Sério?
Layla confirma com a cabeça.
- São lindos, mas problemáticos. Escuta o que eu te digo, Maddie. Fique o mais longe possível de lutadores, não vale a pena a quantidade de problemas.
Chegamos no grande salão da boate onde todos os garçons, bartenders, dançarinos e outros funcionários estavam reunidos. O Sr. Rashid estava parado em cima do palco e bateu palmas três vezes com firmeza para chamar atenção de todos.
- Minha família! Hoje receberemos clientes muito importantes, possíveis investidores e sócios, e eu conto com vocês para obtermos sucesso nas negociações. Sejam simpáticos, acessíveis, sedutores. Façam de tudo para que nossos clientes saiam daqui encantados pela atmosfera da Desert. - O Sr. Rashid apontou para o teto e ergueu a cabeça.
- Mas lembrem-se, meninas - senhora Rashid surgiu detrás do marido e falou olhando para nós. - Se algum cliente passar dos limites com vocês, não pensem duas vezes antes de chamar os seguranças. Nós não temos interesse em fazer negócios com quem não respeita a nossa família.
Os Rashid faziam muitas coisas para agradar seus clientes, mas vender o corpo de seus funcionários não era uma delas. Eles deixavam claro que aquela não era uma casa de prostituição e eu já vi muitas pessoas poderosas sendo expulsas da boate por tentarem algo com funcionárias sem o consentimento delas.
Quando seus pais terminaram de falar, Layla bateu palmas agitadas.
- Agora, todos nos seus lugares! Vamos aos negócios.
Ouvindo o barulho dos pequenos sinos dourados a cada passo, subi no pequeno palco no meio da boate onde passaria as próximas horas dançando e esperei as grandes luzes brancas serem apagadas, dando destaque às luzes vermelhas que ditavam o clima dentro da boate.
Quando a música tocou, fechei meus olhos e comecei a dançar, focando nos movimentos de meus quadris e meus braços, me aquecendo antes que os clientes chegassem.
Assim que a boate abriu, às onze da noite, não demorou nem uma hora para que ela ficasse cheia e para que todos os camarotes e mesas privadas sejam ocupadas por pessoas com dinheiro e interesse em investir no ringue.
Como meu trabalho era encantar os clientes, comecei a mexer meus braços como uma serpente e me abaixei conforme minha cintura e quadril repetiam movimentos que demorei anos para aperfeiçoar.
A música tocando nos alto falantes podia não ser própria para dança do ventre, mas nem eu e nem as outras dançarinas em outros palcos nos importávamos com isso. Trocando olhares com os clientes que passavam por mim, eu me inclinava na direção deles, seduzindo da única maneira que sabia seduzir: dançando.
Aos poucos, captei os Rashid conversando com clientes e os levando, um pequeno grupo de cada vez, por uma discreta passagem no fundo do salão que, pelo que eu sabia, levava até o subsolo.
Como trabalhava na boate há apenas um ano e o ringue estava fechado há três, nunca conheci o subsolo da boate, e ver todas aquelas pessoas descendo até lá atiçou minha curiosidade. Sabia que deveria continuar dançando e cumprir com minha função, mas...
Fingindo uma pausa para ir ao banheiro, me esgueirei até a passagem, passando por ela e a fechando atrás de mim. Sem a iluminação da boate e com apenas algumas luzes de emergência, o local estava escuro demais, mas consegui ver uma escada logo a frente. Desci por ela até chegar em um corredor escuro, deixando o som de vozes me guiarem.
Como o corredor estava completamente em silêncio, tomei cuidado para não fazer muito barulho com os sinos em meus trajes e acessórios. Achei que estava conseguindo, mas não fui capaz de passar completamente batida e me dei conta disso quando uma voz rouca chamou minha atenção.
- Você não deveria estar aqui.
- Você não deveria estar aqui.
Cobri minha boca com as mãos para abafar o gritinho que soltei ao me assustar e me virei na direção da voz, dando de cara com uma figura alta e forte apoiada na parede. A iluminação no corredor era fraca para que eu identificasse algo, então deduzi que ele era um dos seguranças.
- Você me assustou!
- Isso só prova o meu ponto. Você não deveria estar aqui.
Comecei a preparar desculpas, justificativas plausíveis para que eu estivesse lá, mas resolvi observar bem o homem em minha frente. Mesmo que seu rosto estivesse escondido nas sombras, sua roupa era visível e nada parecida com o uniforme que os seguranças usavam.
Se eu não deveria estar ali, ele também não.
- Eu acho que você também não deveria estar aqui.
Ele deu de ombros.
- Considerando que eles estão ali discutindo o meu futuro, - O homem misterioso apontou para o fim do corredor sem descruzar os braços. - eu acho que eu deveria, sim.
Franzi as sobrancelhas.
- Seu futuro? - perguntei. - Você luta, então?
Ele deu um sorriso de lado que realçou ainda mais seu maxilar bonito.
- Que bailarina esperta... - murmurou sarcasticamente, claramente tirando com minha cara e tentando me tirar do sério.
- Porque lutadores são sempre muito inteligentes, não é mesmo? - rebati seu comentário e notei o sorriso dele se alargando.
- Calma, bailarina - disse, me provocando, falando com uma calma exagerada e se aproximando de mim.
Saindo das sombras, ele chegou mais perto, revelando mais do sua aparência. Era um homem alto e, mesmo vestindo um terno, eu conseguia ver que ele era bem musculoso. Seus cabelos castanhos não estavam nada alinhados, sua boca cheia combinava com o nariz com um osso proeminente, que dava a ele uma característica quase selvagem e até que atraente. Mesmo assim, ele não parecia ter mais de 25 anos, e o terno, apesar de ficar bem nele, parecia quase algo forçado, como se essa roupa não combinasse com ele.
Mas, de longe, o que mais chamou atenção nele foram os olhos de um tom verde tão claro e intenso que eu quase me senti vulnerável pela maneira como ele me olhava, ainda sustentando um sorriso petulante.
- Por que você fica me chamando desse jeito? - falei rispidamente.
Sempre que perguntavam sobre a minha profissão, eu dizia que era dançarina, pois não me sentia exatamente uma bailarina em cima daquele palco. Ouvir alguém me chamando de bailarina depois de todos esses anos já era estranho por si só, e juntando isso ao tom que ele fala... Era simplesmente irritante.
- Porque eu não sei o seu nome, bailarina. - Ele permaneceu calmo e levou a ponta do dedo até o véu que cobria quase metade de meu rosto, passando o indicador levemente pela barra. - Tão misteriosa...
- Meu nome é Madeline.
- Madeline, hum? - Começou a andar ao meu redor, como um predador medindo sua presa. - Não, não... Acho que prefiro te chamar de bailarina.
Revirei os olhos e ele parou em minha frente. Ele parecia decidido a me provocar, mas eu não daria esse gosto a ele, então me segurei e optei guiar a conversa para outro rumo.
- E eu posso te chamar como?
- Ian.
Então o homem à minha frente era o lutador bonito de quem Layla estava falando? A grande promessa para as lutas ilegais de Los Angeles? Até concordava na parte do "bonito", porque era inegável, mas ele não me parecia uma grande promessa. Já havia visto outros lutadores antes e vários pareciam maiores e mais fortes que Ian.
- Ian... É um nome bonito.
Em resposta, ele deu mais um sorriso predatório.
- Obrigado, bailarina.
Vendo que aquela conversa não iria a lugar algum e sabendo que eu estava lá há mais tempo do que deveria, dei um passo para o lado, na intenção de contornar Ian.
- Foi um prazer em te conhecer, Ian, mas eu preciso voltar lá pra cima. Se você me der licença...
- Me diz uma coisa, bailarina - Ian me chamou quando comecei a andar, deixando-o para trás. - Você dança aqui todas as noites?
Me virei para encará-lo e concordei com a cabeça. Ian pareceu satisfeito com a resposta.
- Bom saber. Eu não sabia se estava disposto a aceitar lutar aqui, mas se esse é o preço que preciso pagar para ver uma garota como você dançando todas as noites... - Fez uma pausa para me olhar dos pés a cabeça. - Acho que vale a pena.
- Tenho certeza que o senhor e a senhora Rashid vão adorar ter você lutando aqui em nossa casa, assim como os investidores.
Ele não havia dito nada, mas eu sabia que os lutadores estavam na boate a convite dos investidores. Mesmo que eu não soubesse, a maneira desconfortável que ele trajava o terno o denunciava.
- E você, bailarina? - Ian perguntou e deu passos calculados em minha direção. - Também vai adorar me ter lutando aqui?
Nem um pouco.
- É claro - menti descaradamente e voltei a andar na direção da escada.
A risada de Ian ecoou pelo corredor antes de eu escutar sua voz rouca e marcante uma última vez naquela noite.
- Você é uma péssima mentirosa, bailarina.