Prólogo
"Ela dançava, e eu a devorava com os olhos - como um animal faminto à espera do toque final antes do ataque.
Seu quadril se movia com a precisão de quem sabia exatamente o que causava.
Zafira era a serpente... e eu, o homem tolo que não queria escapar do veneno.
Porque ela era ambos - o veneno e o antídoto.
Minha perdição inteira concentrada nas curvas que me hipnotizavam."
Ela me olhava como quem desafia. Sabia do poder que exercia. Sabia o quanto me torturava com aquele olhar felino, meio insolente, meio entregue.
E eu? Eu estava à beira do limite.
Levantei-me sem pensar, apenas sentindo. Ela continuou a se mover, provocando até o último fio da minha sanidade.
Puxei-a pela cintura. O contato do seu corpo contra o meu fez o mundo desaparecer.
E então a beijei.
Com fome. Com fúria. Com tudo o que eu era e tudo o que ela despertava.
- Maktub - ela sussurrou entre o toque dos nossos lábios.
Estava escrito.
E eu aprofundei o beijo como quem sela um pacto silencioso, arrancando dela um suspiro que não deixava dúvidas -
Naquele instante, Zafira era minha.
Mesmo que fosse apenas por um instante.
- Marcello Caravaggio
∞
Capítulo 1
"A hora mais escura do dia é a que vem antes do sol nascer." - Provérbio Árabe
Marrakech – Marrocos
Zafira Ziane
O sol já se deitava atrás das dunas e meu corpo implorava por descanso. Soltei a pashmina dos cabelos no exato momento em que adentrei o pátio do Riad Hikaya. O tempo escorria e eu ainda precisava concluir as entregas para os outros clientes da vinícola de papai.
Acelerei o passo pelos jardins do hotel, ignorando o perfume das flores e a beleza das lanternas que se acendiam aos poucos. O bar estava adiante, e meu foco era único: vender aquela safra de vinho.
A música soava alta, reverberando nos azulejos coloridos das paredes, e Jamal não estava onde deveria. Cruzei pelas mesas vazias, segui em direção ao corredor estreito que descia até a cantina.
Aquela hora costumava ser de pouco movimento, mas o vazio que encontrei era incomum. Um silêncio tenso se misturava ao som abafado da música, como se o próprio ambiente pressentisse o que me esperava.
Desci os degraus com cautela, o eco dos meus passos misturando-se ao som grave do baixo que vinha do sistema de som. Chamei por Jamal - foi inútil. O volume alto abafava qualquer tentativa de ser ouvida.
Quando alcancei os últimos degraus e empurrei a porta entreaberta da cantina, um calafrio cortou minha espinha.
O sangue em minhas veias pareceu congelar.
Ali, diante de mim, um policial local estava preso a uma cadeira, coberto de sangue, o rosto irreconhecível de tão deformado. Em pé, de costas para mim, um homem alto, de músculos definidos e pele reluzente pelo suor, desferia mais um soco brutal.
Estava sem camisa. Os pulsos manchados de vermelho denunciavam que não era a primeira vez que os usava daquela forma.
O oficial gemeu.
Minha primeira reação foi o pavor. O impulso de correr era quase incontrolável, mas qualquer som, qualquer movimento precipitado, poderia selar meu destino.
Eu precisava fugir. Precisava escapar daquele lugar. Mas algo me manteve imóvel, presa àquele chão como se as sandálias tivessem se enraizado.
Os olhos do homem espancado, ainda que inchados, encontraram os meus por uma fração de segundo. E naquele breve instante, ele me denunciou.
O homem de costas se virou com precisão felina, o olhar atravessando o ambiente até pousar em mim.
Com um simples gesto de cabeça, surgiram dois homens ainda maiores que ele - braços como troncos, ombros largos, expressões impassíveis. Cercaram-me antes que eu pudesse reagir.
Fui arrastada para dentro da sala. Não gritei, mas me debatia como pude. Os olhos do homem sem camisa me mantinham hipnotizada. Nenhuma emoção se estampava em seu rosto. Apenas uma quietude perigosa.
- Possiamo dare fin alla ragazza, capo.
Podemos eliminá-la agora, chefe.
Eles eram italianos. Eu conhecia bem o idioma - um dos muitos que aprendi com meu pai. Mas fingi não entender. Precisava ouvir mais. Precisava saber se teria chance de sair dali viva.
- Io non voglio questo, non adesso.
Eu não quero isso. Ainda não.
Ele se aproximou devagar, com a leveza silenciosa de um predador. Os olhos cravados nos meus, os passos firmes, o torso coberto de vestígios carmesins.
- Ma asmuk? - perguntou, em árabe.
"Qual é o seu nome?"
- Mi chiamo Zafira! - respondi em italiano, firme.
Um sorriso surgiu. Perigoso. Devastador.
- Fala muito bem o italiano, garota. Vejo que é bem instruída... mas não muito esperta ao enfiar o nariz onde não deve.
Sua voz era um veneno envolto em seda. Eu tremia por dentro, embora tentasse a todo custo manter a compostura.
- Eu... eu não me interesso pelo que está fazendo aqui. Só estou trabalhando...
- Não acredito muito nisso, piccola.
Ele começou a girar em torno de mim. O cheiro metálico do sangue se misturava a uma fragrância masculina amadeirada, profunda e perturbadoramente agradável.
Seus olhos percorriam cada centímetro do meu corpo com precisão cirúrgica. E então, vi.
Nos dedos, ele usava um soco inglês - ensanguentado.
Cada golpe com aquilo era mais letal do que os punhos nus. E se ele decidisse usá-lo em mim, bastariam dois... talvez um.
As gotas vermelhas escorriam pelo chão de ladrilhos, e tudo que eu ouvia era meu próprio coração implorando por sobrevivência.
"Nunca demonstre o medo", meu pai sempre dizia. Fácil falar quando não se está diante de um assassino.
Foi então que escutei passos apressados. Uma figura entrou na sala como um sopro de esperança.
- Perdão, Senhor Marcello! A garota não é ameaça. Eu garanto! Ela só veio entregar os vinhos do hotel.
Jamal. Finalmente.
O homem - Marcello - manteve os olhos nos meus ao responder:
- Eu te disse para não deixar ninguém chegar até aqui. Caso contrário, eu teria que eliminar qualquer testemunha.
Engoli em seco.
Estava mesmo prestes a morrer. Fechei os olhos. As lágrimas escorreram sem som. Pensei em papai. Em Samira.
Senti seus dedos se embrenharem nos meus cabelos. Quando abri os olhos, seu rosto estava próximo ao meu. Um sorriso zombeteiro curvou seus lábios.
- Finalmente... alguma emoção nesse olhar misterioso. Saia da minha frente. Mas se abrir a boca sobre o que viu, considere-se morta. Você e sua família.
Eu não consegui responder. Apenas deixei que as lágrimas corressem silenciosas enquanto ele se afastava. Fui arrastada para fora da cantina.
******
No bar, Jamal veio até mim com os olhos tomados pela culpa.
- Sinto muito, Zafira. Um hóspede causava confusão no andar de cima e precisei sair.
Ele me entregou uma garrafa de água e o pagamento pelos vinhos.
- Pelo seu bem, esqueça o que viu. Aqui está o valor. Espero seis caixas da próxima remessa. Agora vá. E não olhe para trás.
Dirigi o mais rápido que pude, eliminando da rota o último cliente e indo direto para casa.
Eu precisava ver minha família. Precisava do cheiro de casa, da voz firme de papai, do sorriso de Samira.
Ainda tremia quando entrei. Logo, ouvi vozes alteradas vindo do escritório de papai.
- Sou seu melhor amigo, Kalil! Você pode confiar em mim. Me entregue o que tem. É a única saída! Se não fizer isso, colocará todos em risco!
A resposta veio como um trovão:
- Não vou entregar nada!
Mais uma vez naquele dia, eu espionava uma cena que não era para mim. E, como antes, os olhares se voltaram assim que fui percebida.
Era Omar quem discutia com papai. Ele me lançou um olhar furioso e saiu, batendo a porta com força.
- Papai?
Corri para ele. Meus braços ao redor do seu pescoço, os soluços rompendo como ondas.
- Acalme-se, Zafira... eu sinto muito.
Ele acariciou meus cabelos, mas havia algo nos olhos dele - uma inquietude que não combinava com a suavidade do gesto.
Quando finalmente parei de chorar, ele se afastou, foi até a estante e pegou uma pequena caixa de madeira.
Colocou-a em minhas mãos.
- Escute, filha. Pegue esta caixa, coloque na cesta de vime e vá até o vinhedo como se fosse colher uvas. Cave um buraco. Enterre-a.
- Mas o que tem nela? Por quê?
- Apenas faça, Zafira. Para o bem de todos nós.
A vontade de abrir era insuportável, mas obedeci.
DOIS DIAS DEPOIS
A música vibrava através do meu corpo. Me movia com alegria, sentindo-me viva pela primeira vez desde o encontro com o monstro. Samira tentava acompanhar meus passos desajeitados.
- Zafira, eu não consigo! Você nasceu pra isso, eu não...
- Deixa fluir, Samira! Assim...
- Pra você é fácil!
Ríamos como crianças. Dançar me libertava.
- Quando eu tiver a sua idade, talvez consiga sua experiência...
A frase ficou suspensa no ar.
A porta da sala se abriu com violência. Ambas gritamos de susto - até vermos papai, ensanguentado, os olhos alucinados.
- Zafira, você tem que sair. Agora!
- Mas o quê...
- Não temos tempo! Todos morreremos se você não for rápida. Escute: vocês precisam ir para a Itália. Sicília. Hotel San Domenico. Lá, perguntem por um homem chamado Senhor Kosta. Diga que é minha filha. Peça proteção.
- Papai, eu não posso...
- Você pode. E vai conseguir. Vão para o esconderijo. Não saiam de lá, aconteça o que acontecer.
O barulho do portão interrompeu nossa conversa. Corri para a janela e vi: Yusef.
O pior.
O mais cruel traficante de Marrakech.
Ele vinha em direção à nossa casa.
O olhar de papai me implorava. E foi o instinto que me moveu.
Segurei a mão de Samira. E corremos.
O desespero ameaçava me dominar, mas eu precisava ser forte. Por Samira. Por papai. Corri até o escritório, abrindo o livro falso na estante que acionava o compartimento secreto. Papai sempre nos ensinou que ali era o nosso refúgio, um esconderijo seguro, caso algum dia o pior acontecesse.
A porta se fechou atrás de nós e, através da estreita fresta, eu conseguia observar o escritório sem ser vista. Mesmo que alguém tocasse o mesmo livro do lado de fora, a porta não se abriria enquanto estivéssemos ali dentro. Estávamos protegidas - por enquanto.
Samira chorava. Segurei seu rosto com as duas mãos e fiz sinal para que se calasse. Se ela fizesse barulho, seríamos descobertas. E mortas.
Por mais que me dilacerasse por dentro, eu sabia - com toda a dor que uma filha pode suportar - que papai não sairia vivo daquela sala. E só pedia em silêncio que não acontecesse diante dos nossos olhos.
O espaço onde estávamos mal comportava duas pessoas. Papai o construíra assim de propósito, apenas para nós. Nunca questionamos suas decisões. Desde a morte de mamãe, ele sempre foi nossa fortaleza. Agora, tudo indicava que também estava prestes a nos deixar.
As lágrimas já encharcavam meu vestido. Eu rezava para que Samira conseguisse suportar o que estava por vir.
Logo, ouvimos disparos. Sons de luta. Um grito abafado.
Depois, o silêncio.
Permaneci imóvel, com o coração batendo descompassado, até ouvir - ainda que ao longe - a voz de papai. Eu não entendia as palavras, mas o som dele... o som bastava. Ele ainda respirava. Ainda lutava.
Mas aquilo durou pouco.
A porta do escritório foi arrombada com um único golpe. Olhei pela fresta. Papai estava caído no chão, empurrado brutalmente por Yusef, que agora o encurralava com uma arma apontada em sua direção.
- Diga logo onde está!
- Eu não farei isso - papai respondeu com firmeza.
Yusef desferiu uma coronhada contra seu rosto. Meu pai gritou de dor. Samira tremia ao meu lado, e mais uma vez, fiz sinal para que ela se controlasse.
- Você vai falar. Eu tenho tempo. Meus homens estão procurando suas filhas agora mesmo. E eu juro, vou me divertir com elas na sua frente. Principalmente com Zafira. Sempre quis vê-la de joelhos, nua e implorando...
Antes que terminasse, papai reagiu com um chute certeiro, derrubando Yusef.
Mas a força do inimigo era maior. Ele se levantou furioso e começou a socar papai repetidamente. Ainda assim, ele resistia. Até que Yusef puxou uma adaga da cintura, e o sangue em minhas veias congelou.
- Onde está o mapa?
- Vá para o inferno, Yusef! - papai cuspiu no rosto dele.
Yusef cravou a lâmina em sua perna. Papai se curvou de dor, o rosto contorcido num silêncio orgulhoso.
Eu mal conhecia Yusef. Tinha o visto algumas vezes, muitos anos atrás. Mas agora, cada traço daquele rosto sórdido ficaria eternizado em minha memória. Eu jamais esqueceria.
Ele gritou por seus homens. Eles invadiram o escritório, revirando tudo. Enquanto isso, Yusef se divertia infligindo dor em papai, perfurando e arrancando a lâmina de diferentes partes de seu corpo, como se torturá-lo fosse um jogo.
O tempo passou como um martírio. Horas de silêncio, dor e crueldade. Até que papai parou de reagir. Não se movia. Não respirava.
Yusef saiu, satisfeito.
Abracei Samira, que permanecia em estado de choque ao meu lado. Ela assistira à morte do nosso pai. Ao fim do nosso mundo.
Lá fora, tudo ficou quieto. O som da noite nos envolvia. Os grilos, o mar ao longe. A vida continuava para o resto do mundo, mas para nós, tinha parado ali.
Precisávamos sair. Precisávamos ir para a Itália, como papai havia dito. Mas eu não fazia ideia de como.
Abri lentamente a porta do esconderijo. Samira ainda estava sentada, inerte, os olhos perdidos.
- Venha. Mas feche os olhos.
Eu não queria que ela visse o corpo dele. Ela já tinha visto demais. Segurei sua mão e, com a outra, cobri seus olhos, conduzindo-a com cuidado para fora do escritório.
Passei pelo corpo dilacerado de papai, segurando o choro o quanto pude. Mentalmente, pedi a ele que nos protegesse. Que nos desse forças.
Porque eu tentaria. Mesmo sem saber quanto ainda conseguiria suportar.
No corredor, soltei seu rosto e sussurrei:
- Precisamos pegar algumas coisas para fugir. Vamos para a Itália.
Ela me olhou com aqueles olhos cor de mel tomados de dor e, pela primeira vez desde que nos escondemos, falou:
- O que vai ser de nós sem papai?
- Vamos sobreviver. Eu prometo. Temos uma à outra. E seguiremos as instruções dele.
Ela assentiu com dificuldade. Fomos até o quarto dela, depois ao meu, pegamos o essencial: uma muda de roupa, nossos documentos e algum dinheiro. Não podíamos chamar atenção. Os homens de Yusef ainda podiam estar por perto.
Não acendemos luz alguma. Vi carros armados patrulhando a rua. Era o nosso momento. Mas antes, eu precisava recuperar o que havia enterrado no vinhedo.
Segurei o braço de Samira e seguimos pela escuridão. Com uma pequena pá escondida entre as pedras, desenterrei a caixa. Usei a luz do celular para ver seu conteúdo. Meu estômago se revirou.
Ali estava o mapa das riquezas de Don Fuentes - o mafioso mais temido da Espanha. Aquilo poderia ser nossa única chance de sobrevivência. Enrolei o pergaminho de couro e guardei na bolsa a tiracolo.
Avançamos para o fundo do jardim, pulamos a cerca e entramos no quintal de nossa vizinha, Fatima. Suas roupas ainda secavam no varal e uma ideia surgiu.
- O que vai fazer? - Samira perguntou, confusa.
Peguei duas burcas penduradas. Vesti uma. Entreguei a outra para ela.
- Vista isso. Vai nos proteger de olhares e evitar que nos revistem. Teremos mais chances assim.
Ela obedeceu, ainda hesitante.
- Mas como vamos...
- Vamos pegar um barco até a Sicília. Sei com quem contar. Vamos até Omar. Ele era amigo de papai. Vai nos ajudar.
- Tudo bem... - sussurrou, quase inaudível.
Nos esgueiramos pelas ruas. A cidade fervilhava. Uma festa acontecia para os turistas - nossa sorte. Entre luzes, risos e multidões, conseguimos passar despercebidas.
Cheguei à viela onde ficava o kebab de Omar. Pedi que Samira me esperasse na esquina. Ele estava sentado na porta, olhando distraído. Quando levantei o véu e revelei meu rosto, ele se levantou num sobressalto.
- Zafira? Cadê Kalil?
- Yusef o matou, Omar... - minha voz quebrou. - Temos que fugir. Ele disse... papai disse para irmos para a Itália.
- Acalme-se, criança. Onde está Samira?
- Está esperando ali.
- Vamos. Levarei vocês até o porto de Essaouira. Um navio partirá para a Itália em algumas horas. Busque sua irmã. Esperem aqui. Vou pegar o carro.
Assenti. Chamei Samira e, pouco depois, Omar estacionou. Entramos.
A estrada estava caótica. Homens armados em cada esquina. Omar, com astúcia, disse a cada bloqueio que estava com a esposa e a filha, indo buscar o irmão no porto. E a mentira nos guiou com segurança até o destino.
Quando avistei o navio atracado, meu coração acelerou. Aquela era nossa passagem para a liberdade.
Descemos rapidamente e seguimos para o ponto indicado por Omar. Ele nos apresentou a um contato que nos embarcaria discretamente.
- Muito obrigada por tudo, Omar - disse, estendendo a mão.
- Seu pai era como um irmão para mim. Ajudar vocês é a coisa certa a fazer. Tirem essas burcas. No Ocidente, elas chamam atenção.
Tirei a minha. Samira, com relutância, fez o mesmo. As jogamos fora.
- Eu me sinto em dívida com você. Não saberia nem como chegar até aqui sem sua ajuda.
- Estou apenas fazendo o que seu pai desejaria. Cuidando de suas joias mais preciosas.
Sorri. Pela primeira vez, desde tudo.
- Escute, Zafira... seu pai deixou o mapa com você?
A pergunta me fez congelar.
Ele tinha discutido com papai dias antes, exigindo aquilo. E logo depois, Yusef veio. Coincidência demais.
Senti meu corpo entrar em alerta.
- Não. Ele não me deu nada. Do que se trata?
- Nada importante. Se não está com você, melhor assim - respondeu com um sorriso.
Meu coração dizia para não confiar totalmente. Ainda assim, estávamos ali por causa dele.
Afastei-me para falar com Samira, que chorava à beira-mar.
- Não sei viver sem ele, Zafira...
- Ele deu a vida por nós. E vamos honrar isso.
A abracei. Enquanto ela chorava, vi Omar digitando algo no celular com concentração.
Talvez estivesse nos ajudando. Talvez não.
Mas já não havia como voltar atrás.
Assim que estávamos para embarcar, escutei pneus de carro freando e homens descendo correndo na direção do porto, e um deles era ninguém mais do que Yussef.
Como ele soube que estaríamos ali? Estava bem claro: tínhamos sido traídas por Omar. Isso se confirmou quando ele apressou seus passos para nós.
Virei rapidamente para Samira. Ao menos ela embarcaria naquele navio de qualquer jeito.
- Escute, não temos tempo. Embarque, e quando chegar na Sicília, me espere no porto. Se eu demorar, vá ao hotel San Domenico. Lá, pergunte pelo senhor Kosta e conte de quem você é filha.
- Zafira... você prometeu...
- Eu vou te encontrar. Vai... - empurrei ela para a rampa que estava sendo recolhida.
Vi quando um dos funcionários do navio a puxou para dentro, e o meu coração doeu. Ali não seria o meu fim. Eu teria que ser forte.
Omar me alcançou, segurando forte em meu braço, enquanto Yussef se aproximava.
- Traidor! Você vai arder no inferno!
Tentei soltar meu braço e ele apertou ainda mais.
- Entregue o mapa e ficará tudo bem. Sabemos que você sabe onde está.
Reunindo toda a minha força, chutei sua perna e saí correndo para o penhasco ao lado do La Kasbah. As minhas pernas ardiam e me faltava ar, mas eu tinha que tentar algo. Eu não morreria sem tentar.
Mas, para o meu azar, aquela fuga não seria tão fácil. Na minha frente tinha uma saída para o mar, abaixo de mim, um penhasco onde poucos sobreviviam quando saltavam.
Eu não tinha alternativas. Se pulasse e sobrevivesse, poderia me esconder em algum lugar até outro navio atracar ao porto.
E eu teria paz, pois pensariam na minha morte, e basta. E nisto eu daria tempo de Samira chegar ao Senhor Kosta para ser protegida.
Papai tinha se sacrificado. Agora era o meu momento. Respirei fundo, tentando criar coragem, quando escutei os gritos de Yussef.
- Dê-me o mapa, Zafira. E serei piedoso com você. Prometo que terei paciência com nossa primeira noite.
- Você não terá nem o mapa e nem a mim, nunca!
Eu não pensei em nada mais. Eu me virei e corri os últimos metros, pegando impulso para o meu salto. Senti a queda livre e o imenso mar se aproximar. Puxei todo o ar que podia para o pulmão e caí na água, afundando e nadando o mais rápido que eu podia para o lado oposto.
Quando não aguentei mais, depois de um tempo, subi e, como eu tinha pensado, eu estava protegida atrás de uma grande rocha, onde eles não poderiam ver que eu tinha submergido, pois havia uma pequena caverna ali embaixo. Eles poderiam tentar me buscar, mas não conseguiriam chegar com barcos naquele momento, pois a maré estava baixa demais.
Eu sentia muita dor no meu pé. Eu tinha acertado algum coral ou rocha, eu sentia que eu estava sangrando. Mas eu precisava ficar ali o máximo que podia, de preferência antes do dia clarear eu tinha que encontrar um modo de embarcar no próximo navio.
Enquanto estávamos esperando para embarcar, eu tinha escutado o funcionário do navio dizer que às cinco da manhã outro navio que partiria para a Itália atracaria por trinta minutos. Era minha única chance antes de ser pega por Yussef. Ele ia me procurar, e enquanto não existisse um corpo morto ele não desistiria, restaria sempre uma desconfiança.
Agradeci por não ter perdido a bolsa tiracolo que eu usava e mantive estreita em meu corpo. Como o mapa era de couro, estava tudo bem. Eu ainda tinha minha segurança para negociar com Kosta, caso ele se recusasse a me ajudar.
Eu estava exausta, me segurando como podia nas rochas, suportando as correntes. Eu estava tremendo quando consegui subir em algumas rochas e chegar até a parte baixa do porto.
O meu pé estava bem inchado. Rasguei um pedaço da pashmina e amarrei no meu tornozelo para impedir que sangrasse mais.
Peguei o resto de dirhams que eu tinha na bolsa. Estavam molhados, mas ainda era dinheiro. Me aproximei de um dos homens que ajudavam a carregar e descarregar dos navios e entreguei a grossa quantia para ele, em troca de ele me ajudar a embarcar.
Ele concordou e mandou que eu me escondesse atrás de alguns paletes de tecido. E ali eu fiquei até ele me dar o sinal para embarcar.
Assim que entrei no navio, outro homem que fazia a travessia me ajudou. Me deu um pouco de água e alguns biscoitos. Eu me sentei em um ângulo e esperei, na fé de que minha irmã tivesse conseguido pegar um táxi e ir direto para aquele hotel do Senhor Kosta. Ela não sabia italiano, mas sabia inglês. Poderia se virar.
Depois das longas horas de mar, finalmente eu consegui desembarcar na Sicília. Mas, para o meu desespero, Samira não estava em lugar algum, e nenhum dos marroquinos que por ali estavam sabiam da minha irmã.
Tentei ser positiva. Eu tinha dito a ela que, se eu demorasse, era para ir para o hotel. Talvez ela tivesse cansado de me esperar e seguiu para o nosso destino.
Fui para um ponto de táxi. Eu tinha menos euros que Samira. Eu não sabia se seria o bastante para chegar até o hotel do Senhor Kosta.
Assim que me aproximei do taxista, ele me olhou indeciso, como se questionasse se eu tinha dinheiro. Obviamente a minha aparência não era das melhores após aquela travessia.
- Eu tenho dinheiro, senhor. Não sei se será o suficiente, mas o dono do hotel poderá me ajudar assim que eu chegar lá.
- Quanto você tem e para onde quer ir?
- Preciso ir para o hotel San Domenico. Quanto custa?
- Sessenta euros - ele me olhou com desprezo.
Claro, deveria custar menos. Mas, na minha condição, ele provavelmente ia tirar proveito.
- Tenho cinquenta euros e nada mais. Até onde pode me levar?
- Vou te levar no centro. De lá, você vai ter que caminhar por meia hora.
Eu não tinha escolha e aceitei. Eu estava desconfiada e muito atenta nas placas enquanto ele dirigia. Mas fui ficando mais calma vendo que ele estava realmente me levando para o centro da cidade.
Meu peito apertou de dor. Provavelmente Samira ficou assustada com tudo aquilo. Eu já tinha visitado a Itália com meus pais, mas ela era pequena demais para se lembrar.
Ela conhecia apenas o Marrocos e a Tunísia. Aquele era um mundo novo para ela, e depois de tudo o que tínhamos acabado de passar, não era uma experiência fácil de se viver.
O homem parou o táxi próximo à estação de trem e me apontou a direção que eu deveria seguir.
Eu não tinha muita escolha, então desci e fui seguindo as placas na direção que ele me explicou. O meu pé doía muito. Mas eu continuei, mesmo com os olhares tortos que eu recebi durante o percurso.
Eu, que sempre andei bem arrumada, estava maltrapilha, cabelos e roupas sujos. Provavelmente não estava com a melhor fragrância após horas dentro de um navio pesqueiro. Eu continuei, e finalmente vi a placa indicando que o hotel ficava a cinco minutos. Desci com dificuldade uma escada e segui por uma pequena rua. E foi neste momento que vi uma mulher empurrando um homem que não a deixava.
- Você vai fazer fiado, vagabunda? Eu quero trepar com você!
Ela tentava empurrar o homem, que a puxava pelos cabelos. Eu olhei para os lados e vi um pedaço de cadeira velha jogada em um amontoado de lixo. Segurei com toda a minha força e bati nas costas do homem, que caiu gritando de dor.
A mulher me olhou e sorriu, me puxando pelo braço escada acima.
- Obrigada pela ajuda, garota. Não viu que esta rua é um beco? Não tem saída. Para onde está indo?
- Eu não vi. Eu preciso chegar no hotel San Domenico.
Ela me olhou de cima abaixo, mas não comentou nada sobre minha péssima aparência. Ela era uma mulher bonita e sorridente.
- Bom, aquele foi meu último cliente, e ele nem queria me pagar. Portanto, vou te levar próxima ao hotel. Não vou chegar até a porta, pois não me deixam entrar lá. A propósito, meu nome é Viviana. E o seu? Você não é daqui, não é?
- Eu me chamo Zafira. Eu realmente agradeço a ajuda. E realmente não sou da Itália.
Ela sorriu e me fez sinal para acompanhá-la. Assim que chegamos na esquina do hotel, ela segurou meu braço.
- Obrigada e boa sorte para você no que está procurando.
- Obrigada - agradeci e segui para o luxuoso hotel.
Era enorme e parecia ser um cinco estrelas. Eu comecei a me sentir envergonhada pela minha aparência, mas eu não tinha como me trocar e muito menos me lavar antes de pedir ajuda de Kosta.
Assim que tentei entrar, fui barrada por um segurança.
- Estou aqui para falar com o Senhor Kosta...
- Ele não está aqui e duvido muito que vá recebê-la.
- Mas eu preciso vê-lo.
- Ele não volta hoje, somente amanhã. Por favor, saia.
Eu saí da porta do hotel após ser intimidada por aquele homem. Eu estava voltando para a esquina, eu precisava encontrar um lugar para sentar-me, foi quando vi Viviana.
- Eu estava te esperando. Imaginei que não te deixariam entrar vestida assim. Escute, você me salvou hoje. Eu vou te ajudar. Vivo aqui perto. Podemos ir à minha casa. Você toma um banho, se alimenta, se troca e volta aqui e tenta novamente.
Eu não tinha muitas escolhas. Para aquela situação, toda ajuda era bem-vinda. E então aceitei. Descemos algumas escadas e logo estávamos perto de um prédio velho. Eu segui Viviana, rezando para não ser uma situação de risco aquela em que eu estava me colocando.
Assim que abriu o seu apartamento, ela entrou e me convidou a entrar. O lugar era pequeno, mas aconchegante. Apesar de ter móveis velhos, era tudo limpo e arrumado.
Ela me entregou produtos de higiene e toalhas limpas, me indicando onde era o banheiro.
- Tome banho tranquila. Vou preparar algo para você comer e, quando sair do banho, te darei roupas.
- Obrigada.
Eu tomei um banho, aproveitando cada gota de água que passava pelo meu corpo. Lavei meus longos cabelos e, quando saí, me sentia outra.
Tinha um cheiro bom vindo da pequena cozinha, e eu segui para lá enrolada na toalha.
- Fiz um macarrão instantâneo. Não sou muito boa na cozinha. Aqui, separei estas roupas que você pode usar, e estas são calcinhas novas. Fique à vontade para se trocar.
Ela apontou o quarto. E foi o que fiz. Agradeci e fui me vestir. Suas roupas ficaram boas em mim. O problema era que eram sensuais demais para o que eu estava acostumada a usar. Mas era o que eu tinha para vestir. E era tudo limpo.
Voltei para a cozinha e ela colocou água na minha frente. Bebi quase toda a garrafa. Só depois notei minha falta de modos.
- Me desculpe...
- Garota, você parece ter passado por muito.
- Sim. Eu estou preocupada. Preciso falar com este homem do hotel. Me disseram que ele volta apenas amanhã e eu estou preocupada com a minha irmã. Ela deveria ter me esperado no porto, mas ela não estava lá quando cheguei. E agora nem consigo falar com este homem.
- Escute, posso dar uma volta com você em alguns lugares da cidade onde refugiados se aglomeram. Talvez ela tenha ido para um desses lugares. Mas antes, preciso que se alimente. E depois vamos para esses abrigos procurar.
No dia seguinte...
Eu tinha procurado até tarde da noite em vários abrigos de refugiados. Ninguém tinha visto Samira, pela descrição que eu dava. Ninguém sabia dela. O meu desespero estava aumentando. Se ela não estivesse com Kosta, eu realmente não saberia o que fazer.
E foi por isso que acordei cedo e segui para a porta do hotel. Não era o mesmo segurança, e este sorriu para mim, apesar de bloquear a minha entrada.
- Onde pensa que vai?
- Preciso ver o Senhor Kosta...
- Ele ainda não chegou.
- Escute, você viu uma garota de nome Samira por aqui?
Ele negou com a cabeça.
- Peço que se retire daqui. O Senhor Kosta não recebe vocês aqui faz tempo...
O que ele queria dizer com isso?
- Eu vim de longe para ver o Senhor Kosta e não vou sair daqui sem falar com ele...
- Pois pode falar. Estou bem aqui. - A voz potente atrás de mim me fez girar.
E, para o meu espanto, diante de mim estava Marcello - o homem que espancava o policial no bar do hotel em Marrakech.