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Belo Desastre

Belo Desastre

Autor:: PageProfit Studio
Gênero: Máfia
O que um subchefe de uma infame família criminosa tem em comum com uma animada professora de escola primária? Absolutamente nada, exceto por um casamento de conveniência, claro. Quando Lionel Tyson não consegue pagar uma dívida de jogo e oferece sua posse mais preciosa como garantia, Austin Hawthorne não fica impressionado. Mas, precisando desesperadamente de uma governanta e babá permanente, ele sabe que seria uma burrice recusar uma oferta dessas. Então, contra seu melhor julgamento, ele aceita uma proposta que deveria absolutamente recusar. Marybeth Tyson fica horrorizada ao descobrir que seu pai não só está sendo procurado por agiotas, como também a vendeu para um chefe da máfia. Obrigada pelo dever e pressionada pela culpa, ela concorda em dar um ano de sua vida a Austin Hawthorne, apesar de toda a lógica mandar que ela fuja para o outro lado. Afinal, quão difícil pode ser fingir estar perdidamente apaixonada por alguém? Tudo é diversão e jogos até que a encenação se torna muito real, e um segredo devastador do passado de Austin vem à tona, ameaçando destruir sua segunda chance de amar com sua obstinada busca por respostas. A traição, especialmente pelas mãos de seu irmão mais velho, Blake, e do amigo de longa data, Andrei Ivanov, é um golpe amargo para Austin, e deixá-los impunes não é uma opção. Impulsionado pela sede insaciável de vingança, Austin não medirá esforços para chegar à verdade, mesmo que isso signifique destruir amizades de décadas e laços frágeis com A Corporação. Sangue atrai sangue, independentemente do custo.

Capítulo 1 É só por um ano

A qualquer momento agora, Marybeth pensava. A qualquer momento, o pai dela ia dizer que tudo aquilo era só uma brincadeira - não, uma piada de péssimo gosto - e eles iam rir disso depois, tomando um café, enquanto ela o xingava por ter feito ela atravessar a cidade inteira desde o apê dela em Sea Point por causa de uma pegadinha idiota. Mas o tempo passou. Nenhuma risada veio. E foi ali que ela entendeu: a única pessoa que ela confiava de verdade nesse mundo, aquela que ela jamais imaginou que a trairia, fez exatamente isso.

"Você só pode estar brincando", ela soltou, se jogando na cadeira velha e meio bamba da sala de jantar, apoiando a cabeça nas mãos, o cabelo bagunçado e ruivo caindo sobre o rosto sardento como folhas alaranjadas de outono. Estava furiosa demais. Nem o cabelo ela penteou, muito menos tomou um banho rápido, porque a Danica, sua madrasta, ligou às cinco da manhã chorando como se fosse caso de vida ou morte.

Agora, sentada ali encarando as manchas de água antigas no tampo barato de madeira compensada, Marybeth tentava entender que parte daquele plano maluco envolvia vida ou morte. Se soubesse que era só mais uma cagada do pai, teria desligado na cara da Danica e voltado a dormir. Era cedo demais para qualquer um estar acordado, ainda mais num sábado.

"Papai, fala alguma coisa." Marybeth parou de mirar as manchas por um segundo e olhou pro pai, com o desespero estampado nos olhos.

"Querida-" ele começou, com aquela voz melada que só usava quando estava enrolando alguém no trabalho.

"Não!" Marybeth tapou os ouvidos com força e sacudiu a cabeça, numa tentativa inútil de negar a realidade. A voz dele, aquela voz, ela já tinha ouvido tantas vezes antes, assistindo impotente enquanto ele manipulava gente inocente com suas palavras doces. Só que agora era ela quem estava do outro lado. Ela era a próxima vítima dele. E por causa da ganância dele, ela teria que ir no cartório na Rua Strand dali a três horas pra casar com um cara que nunca viu na vida. Um homem que poderia ter o dobro da idade dela, talvez até um golpista ou, pior, um bandido daqueles perigosos. Nenhuma hipótese era absurda, considerando os "amigos" do pai.

"É só por um ano, amorzinho", Danica entrou no papo toda doce, os olhos azuis marejando com lágrimas de crocodilo. Ela nem era tão mais velha que Marybeth assim. Oito anos apenas. Mas o álcool cobrou seu preço. A cara dela parecia de quem estava sempre bêbada, mesmo sóbria. Culpa do trabalho no Royal Lights, um cassino todo espalhafatoso que ficava do outro lado da cidade.

"Sério mesmo, minha linda-" Danica tentou continuar, mas se calou rapidinho quando Marybeth lançou um olhar atravessado.

Rangendo os dentes, Marybeth perguntou: "Se é só um ano então, por que você não casa com ele?"

"Até faria isso, mas como seu pai deve um dinheirão, só dá mesmo pra oferecer aquilo que ele mais valoriza", respondeu Danica, repetindo o que já tinha falado antes.

"Não entendo onde eu entro nessa história", resmungou Marybeth. "Eu tenho a minha própria vida, sabe?"

"Sim, só que você não tem um homem, querida", o pai interrompeu, com aquela sinceridade irritante. "E também já tá ficando mais velha, Flor. Suas amigas já tão se casando. Tem umas até grávidas-"

"Eu só tenho vinte e oito!", ela retrucou, levantando e andando de um lado pro outro na cozinha apertada. Vinte e oito não era exatamente a beira da morte.

"Sei disso, querida. Mas, por favor, faça isso pelo seu querido papai?"

Marybeth desviou o olhar da janela, completamente incrédula. "Pai, você vive enganando as pessoas! Isso tudo é uma loucura sem tamanho. Por que você não vai a um banco e pega um empréstimo como qualquer pessoa normal? Gente comum não obriga a filha a casar com um estranho pra pagar dívida!"

"O Lionel tá com o nome tão sujo que nem sonha em conseguir crédito. E nenhum banco quer saber de mim depois daquele rolo com os cartões, mesmo eu tendo sido inocentada", Danica se explicou, esfregando com força os braços ossudos. Marybeth já imaginava que a madrasta tava tendo outra crise de abstinência. Ela já tinha perdido a conta de quantas vezes Danica tentava largar o Tik, ficava limpa por meses, pra depois voltar pro vício do nada. Era doloroso de ver, especialmente nas fases mais intensas - ela chegava a se coçar toda até sangrar.

Marybeth segurou as mãos dela e as abaixou, antes que voltasse a cutucar a pele. Virando-se pro pai, perguntou: "Quanto exatamente você deve pra esse cara?"

"Muito", disse ele.

"Quanto é esse muito?" O silêncio respondeu. Mas ela insistiu. "Cinquenta mil?"

Ele negou com a cabeça.

"Cem?"

Outra negativa, dessa vez mais enfática.

"Meu Deus, pai! Não me diga que é um milhão?"

"Quase isso", sussurrou Danica.

"Pai! O que foi que você fez? Como conseguiu essa dívida absurda? E por que não consegue simplesmente me dizer quanto é o valor?" Marybeth afundou as mãos no rosto, respirando rápido demais. Ela não entendia como alguém desempregado conseguia afundar tão fundo.

"Desculpa." Foi só isso que ele disse, não importava quanto Marybeth pressionasse. E isso deixava ela mais irritada ainda.

Cansada de tentar ser a única adulta na sala, ela desabafou tudo, jogando na cara dele cada uma das loucuras que ele já tinha feito - desde os golpes de pirâmide até as dívidas que quase deixaram eles na miséria.

"Flor, você sabe que eu nunca quis te machucar, e eu não fui preso por nenhuma daquelas coisas."

Marybeth soltou um riso amargo. "Isso porque você sempre soube escapar das enrascadas, pai. Não é que você fosse inocente!"

Seu pai não era o homem mais sortudo do mundo, mas ele certamente sabia como usar seu charme e inteligência para se livrar de qualquer encrenca, saindo apenas com multas e penas suspensas. Sua lábia lhe rendeu o apelido de Slippy. Era escorregadio que só. E Marybeth cansou disso. Cansou da vida de vigarista barata dele, de agir sem pensar nas consequências.

"Sabe de uma coisa?" disse ela, a voz só um pouco acima de um sussurro. "Eu costumava odiar a mamãe. Culpava ela por ter ido embora. por ter deixado a gente. Mas agora vejo que foi a melhor decisão da vida dela. Eu queria tanto que ela tivesse me levado junto!"

"Isso não é justo-" Ele nem conseguiu argumentar. Marybeth se levantou de uma vez, girou nos calcanhares e saiu da casa como um furacão, batendo a porta fininha com tudo.

Desceu a escada correndo e só quando chegou no carro parou pra lembrar que tinha esquecido o envelope com os dados do futuro "marido" em cima da mesa da cozinha.

Ela não queria ter que voltar lá depois de sair daquele jeito, mas se quisesse resolver isso direito, sem acabar realmente casada, não tinha escolha. Então voltou, pegou o envelope com raiva e saiu de novo, sem nem olhar direito pro pai, que chorava feito criança no colo da Danica.

Capítulo 2 As Maiores Traições

No silêncio tranquilo de seu carro, Marybeth rasgou o envelope. Um papel, confirmando que seu grande dia estava de fato marcado, flutuou para fora e caiu em seu colo.

"Inacreditável!", disse ela, balançando a cabeça quando seus olhos pousaram na data do recibo. Por alguma razão misteriosa, seu pai e Danica tinham guardado uma bomba dessas por mais de um mês e largaram tudo em cima dela bem na última hora. Ela até sabia se virar sob pressão. Mas isso? Já era absurdo demais.

Se não fosse tão revoltante, até dava pra rir. Mas era revoltante, e ela estava de coração partido. Talvez por ter sido pega de surpresa. Mas né, as facadas mais doloridas sempre vinham de quem a gente mais confiava. A mãe dela que o diga-prova viva de que confiar nas pessoas era pedir pra sofrer, principalmente naquelas que juravam estar do seu lado.

Virou o papel e discou para o número anotado no verso. O telefone do futuro marido tocou por uma eternidade antes de cortar. Nada de caixa postal. Do jeito que ela apreciava. Talvez ele não fosse tão ruim afinal.

Tentou de novo. Dessa vez, atendeu. Uma voz grossa e mal-humorada veio pelo viva-voz, "Alô?"

Totalmente despreparada e ainda tentando processar toda essa loucura que tinha acabado de descobrir, Marybeth travou. E o fato de o cara não soar nem um pouco amigável só piorava tudo. Nada de tom tranquilo ou aberto a conversa.

"Fale!", resmungou ele. E na cabeça dela, a imagem era clara: aquele tipo cansado, nariz pontudo sendo apertado com raiva, entradas de cabelo brilhando sob aquela luz branca de motel barato, barrigão forçando uma camiseta velha de regata.

A imagem mental foi o suficiente para lhe causar náusea. Mas suas palavras duras fizeram com que ela segurasse tudo.

"Pare de respirar feito psicopata e fale alguma coisa!"

Psicopata? Marybeth se ajeitou no banco, irritada. Se alguém ali era estranho, era ele!

"Olha só," disse ela friamente, irritada por ter que fazer essa ligação ridícula. "Aqui é Marybeth, filha de Lionel Tyson. A mulher que você deveria se casar hoje."

Houve uma breve pausa antes que o "ogro" falasse novamente, "Até que enfim. Já estava começando a achar que você nunca ia me ligar."

Sério isso? Quem esse cara achava que era? Nem parecia que ele estava lidando com algo que ia mudar a vida DE VERDADE dela.

"Já que você só resolveu me chamar poucas horas antes do nosso final feliz, me diga aí-tá tentando escapar do acordo?"

"Não exatamente," disse Marybeth rapidamente. "Mas tava pensando se dava pra resolver isso de outro jeito... sem envolver o cartório."

Ouviu-se uma respiração mais forte do outro lado antes de ele soltar a bomba: "Eu não faço acordo de última hora. Nove da manhã. Cartório da Rua Strand. Nos vemos lá."

"Não!"

"Não?" ele zombou em um tom assustadoramente parecido com o dela. "Você tem ideia de quanto seu pai me deve? O que ele ofereceu como garantia está muito aquém das minhas expectativas. Mas já que sou um homem razoável-"

"Muito aquém das suas expectativas? Homem razoável?" Marybeth gritou. "Que parte de se casar com um completo estranho é razoável para você?"

O outro ficou quieto, refletindo. E por um segundo, ela até achou que ia rolar bom senso. Talvez ele mesmo visse que isso tudo era um absurdo e topasse um plano parcelado pra quitar a dívida do pai. Só que não era bem assim. Ele a surpreendeu mais uma vez com sua resposta. "Eu acho que cada parte disso é razoável, não acha?"

Chega de papo furado. Marybeth foi direto ao ponto. "O que você quer pra acabar logo com essa palhaçada?"

"Você sabe muito bem, Beth."

"É Marybeth!"

"Na minha cama, não será!"

O quê? Marybeth teve certeza de que seu queixo estava no chão de seu KIA Picanto. Como assim o assunto foi de dívida pra cama em questão de segundos?

"Papai-" A voz alegre de uma menininha soou pelo telefone, trazendo Marybeth de volta à realidade.

Ela recuperou a compostura. "Você tem uma filha?"

"Por que você acha que quero me casar com você?"

"Como é que é?"

"Beth, não sei o quanto teu pai te contou. Mas ele me deve uma grana absurda e ainda tentou dar pra trás. Só que, no meu mundo, palavra é coisa séria. A proposta é você trabalhar pra mim como faxineira, babá e... digamos... companhia ocasional. É isso ou nada."

Marybeth engoliu em seco enquanto limpava suas mãos suadas na calça do pijama. Ele não parecia mais um velho tarado. Não. Esse cara era do tipo que dominava as reuniões de diretoria, o tipo que metia medo só de entrar na sala. Não que ela tivesse visto muitas reuniões desse tipo. O lugar mais próximo disso em que já estivera era a sala dos professores da Escola Primária de Sea Point, onde ela lecionava para alunos do primeiro ano.Mas não podia dar o gostinho de parecer acuada. Então, respirou fundo, engoliu o pânico e mandou ver, tentando soar firme.

"Agradeço a proposta, mas vou ter que recusar. Já tenho uma carreira legal ensinando crianças. Não tô a fim de ficar limpando bagunça sua."

"Sinto muito, mas qual parte desta conversa te fez pensar que estou aberto a negociações?" O homem deu uma gargalhada. Que audácia! Ele realmente riu dela, e Marybeth teve tanta vontade de bater o celular repetidamente no painel sufocante de calor até o som irritante da risada sarcástica dele desaparecer.

"Olha, Beth, eu posso encaixar os seus horários no meu esquema. Mas já vou avisando: hoje vai acontecer. E se eu tiver que ir até aí te buscar, vou."

A ameaça pairou no ar e fez Marybeth estremecer. Foi fácil imaginar ele chegando com um bando de capanga e revirando o apartamento do pai pra arrastá-la até o cartório.

"Para o caso de você ainda não ter entendido completamente, deixe-me lembrar que sou a única coisa entre seu pai e uma cela de 2,10 por 2,70."

Ele parecia estar se divertindo à custa do desespero dela. Mas de certa forma... ela já esperava. Sabia, por experiência, que discutir com o pai pelo telefone nunca levava a lugar algum. Devia ter deixado pra confrontar esse cara cara a cara no cartório-

"Lionel não é mais tão jovem." O futuro marido dela interrompeu seus pensamentos. "E com a cirrose dele tão fora de controle-"

"Cirrose?!" perguntou Marybeth num fio de voz minúsculo, que mais parecia de um dos seus alunos mais tímidos no primeiro dia de aula. Foi seu primeiro contato com esse problema assustador. Primeira vez descobrindo que o pai estava gravemente doente. O que mais ele escondeu dela?

Era como se tivessem puxado o chão debaixo dos pés dela. Nem respirar ela conseguia direito, mesmo tentando convencer os pulmões a funcionarem. Então, destravou o vidro da porta e deixou o ar quente entrar. Qualquer coisa era melhor do que o peso que prendia o peito dela.

"Ele não te contou?" O homem estalou a língua, com um desprezo quase palpável enquanto continuava, sem se preocupar nem um pouco com o fato de ter acabado de virar o mundo dela de cabeça para baixo com sua notícia inesperada. "Você realmente quer arriscar o bem-estar dele ao enviá-lo para o sistema de saúde penitenciário?"

Marybeth mordeu o lábio inferior, pensando. Além do fato de ser uma condição crônica grave, ela sabia pouco sobre cirrose. Mas, seria tão ruim assim mandar seu pai para a prisão pelos seus crimes? Ela viveria em paz por alguns meses, talvez até anos. Não teria mais que se preocupar com as encrencas que ele se metera. Não teria mais que temer atender chamadas a altas horas da noite, porque sua mente sempre saltava para a assustadora conclusão de que era A LIGAÇÃO-aquela que transformaria sua vida de filha de golpista em órfã, num estalo.

"Beth, então tá fechado?"

"É Marybeth!" Ou "Doçura", como seu pai, com seus inúmeros segredos, gostava de chamá-la quando queria dinheiro ou algum outro favor dela. Mas ela nem mencionou isso pro cara, sabia que ele não ligava. Ele já tinha decidido que ela era Beth, ponto final.

Qual era mesmo o nome dele?

Ela deu uma olhada no papel em sua mão e revirou os olhos.

Austin Hawthorne. Um nome bem apropriado para um sujeito convencido.

"Certo, Beth. Te vejo às 9h00 da manhã. Não se atrase!" disse o presunçoso Austin, e logo desligou, deixando ela atônita com toda a situação.

Como foi que ela perdeu tão mal assim?

"Argh!" Marybeth soltou um grito silencioso enquanto amassava o papel em uma bolinha e o jogava ao chão.

"É só por um ano. Papai disse que é só por um ano," ela se consolou ao sair do carro.

Quão difícil poderia ser limpar as coisas dele e cuidar da filha?

Capítulo 3 Destino

Em um apartamento de luxo do outro lado da cidade em Pelican Surf, ao norte da península de Clifton Bay, com o cenário intocado do oceano e as Montanhas Azuis ao longe, Austin olhou para o telefone por mais tempo do que o necessário, já que ele já tinha desligado na cara da sua futura esposa. Era cômico que ela achasse que poderia escapar do acordo deles no dia do casamento. Considerando a quantidade de dinheiro que o pai dela devia a ele, ela tinha sorte de ele ter oferecido a ela umas férias com tudo pago, longe da vida miserável dela.

Quem em sua perfeita sanidade recusaria umas férias pagas? Quem Marybeth Tyson achava que era?

"Papai! Quem era?" Orlando cutucou de leve o braço dele, querendo atenção, olhando para cima com os mesmos olhos azul-safira que herdou da Iris, a única mulher que ele realmente acreditou que estaria com ele para sempre. Mas o destino foi cruel demais e fez questão de mostrar que esse "para sempre" era pura ilusão-quatro anos atrás, mataram Iris numa chuva de balas, exatamente duas semanas antes do casamento deles e um mês antes do segundo aniversário da filhinha deles.

"Papai. Era a nova faxineira?" Orlando cutucou de novo, resgatando ele do mergulho profundo no passado que sempre doía.

"É um pouco mais complicado do que isso, Orly," Ele se abaixou até a altura dela e fez um carinho no cabelo castanho ondulado-o traço que ela puxou dele.. "Ela é mais do que uma faxineira."

"Então ela não é como a Senhora Allan?" Orlando perguntou.

Austin balançou a cabeça. Depois que Iris morreu-sua vida estava permanentemente dividida em duas partes: antes e depois da morte de Iris-a senhora Allan praticamente ajudou ele a criar a filha. Mas como ela resolveu voltar para Rock Union pra ficar mais perto da família, ele se viu precisando de alguém ali para cuidar da Orlando. Não uma babá ou uma ajudante. Mas uma companheira em tempo integral. E foi aí que entrou a filha do Tyson.

Quando o velho tolo ofereceu sua única filha como garantia para ganhar mais tempo, Austin sabia que seria um idiota em recusar uma oferta dessas.

O mais bizarro? Mesmo com aquele pai torto, Marybeth até que tinha ficha limpa. E olha, era um colírio pros olhos também-

"Ela é como a Elizabeth, então?"

Austin balançou a cabeça novamente. Por mais eficiente que sua assistente fosse no trabalho e em administrar sua vida como uma máquina bem ajustada, ele duvidava que ela soubesse algo sobre crianças. Fria, sempre de cara fechada, como se isso fosse uniforme. Já Marybeth transbordava aquela vibe acolhedora, de mãe mesmo. Do jeitinho que ele queria pra cuidar da Orlando. E do exato jeitinho que o pai dele esperaria ao conhecê-la hoje, logo depois daquele casamento de surpresa.

"Não, querida, ela não é como a Elizabeth. Ela é uma-"

O que diabos ela era? Austin pensou freneticamente, tentando encontrar as palavras certas para descrever seu relacionamento com a mulher que ele ainda não conhecia.

"Uma amiga?" Orlando sugeriu, prestativamente.

Austin bateu palmas em concordância, "Isso! É exatamente isso! Ela é uma amiga especial. Na verdade, você já a conhece."

"Eu conheço?"

"Sim, conhece," Austin assentiu.

"Quando? Como eu a conheço? Quem é ela, papai? Me conta, me conta!" Orlando gritava, com ansiedade e alegria brilhando em seus olhos.

"É a sua professora de música do Centro Comunitário-"

Ele mal conseguiu terminar a frase, e a menina já tava abraçada na cintura dele, gritando de alegria. "De verdade? A Sra. Tyson, é sua amiga especial?"

Ele riu e bagunçou o cabelo dela. "Sim, ela é. E ela vai ficar com a gente por um tempo."

"Quanto tempo é 'um tempo'?" Orlando franziu seu rosto em forma de coração enquanto segurava suas mãos e subia em seus pés descalços. "É tipo para sempre?"

Ele deixou de acreditar no "para sempre" há quatro anos. Mas gostava da ideia de uma solução a longo prazo. Enquanto ele e Marybeth respeitassem os termos do acordo, com espaço para terem vidas separadas, se necessário, não havia razão para que as férias dela não pudessem se estender por um pouco além do ano que o pai dela prometeu pagar suas dívidas.

"Sim, querida, é tipo para sempre." Austin sorriu enquanto eles começavam a se mover pela sala em uma desajeitada dança de pai e filha, com Orlando rindo descontroladamente toda vez que ele a jogava no ar. Ele achava fofo, mas um pouco preocupante, que, após três anos de dedicação às suas caríssimas aulas semanais de dança, ela ainda tivesse dois pés esquerdos.

"De novo!" ela gritava, rindo mais a cada voo.

"Vamos lá, querida, hora de se arrumar," Austin disse enquanto a segurava no ar pela última vez e a colocava no chão.

Ele se ajoelhou na frente dela e beijou sua testa. "Tenho que assinar alguns documentos com a Marybeth daqui a algumas horas."

"O que são 'documentos'?" Orlando perguntou, seu rosto brilhando de curiosidade.

"São documentos que permitirão que Marybeth venha morar conosco pelo tempo que precisarmos. Com a partida da Senhora Allan, Marybeth cuidará de nós dois. Mas dela vai cuidar mais de você quando eu precisar trabalhar até tarde ou viajar. Então precisamos ser gentis com ela, tá bom, Orly? Devemos tratá-la com bondade e respeito o tempo todo, certo?"

Orlando acenou rapidamente com a cabeça e deu um beijinho na bochecha dele, antes de sair correndo para o quarto para se preparar para a aula de balé.

"Não demora muito. A mãe da Neli já vem te buscar," ele chamou.

"Tá bom, papai. Eu te amo!"

"Eu te amo mais!" Austin disse enquanto seguia para o quarto para se preparar para seu casamento de contrato.

Ele sentou-se na beira da cama e folheou o dossiê sobre Marybeth. Teve bem mais de três meses para estudá-la quando o pai dela a colocou como garantia. Claro, há três meses, ele tinha confiança em Tyson. Ele não pensou que as coisas chegariam ao limite. Naquela época, sua vida estava perfeita. Ele tinha a Senhora Allan, e uma esposa era uma ideia vaga no fundo de sua mente. Uma que ele nunca achou que teria que considerar, porque, apesar de estar quase nos sessenta, a Sra. Allan tinha uma jovialidade. Às vezes eles até brincavam que ela era imortal, porque ela nunca parecia envelhecer, mesmo quando os anos passavam voando.

Era tudo diversão e brincadeiras. Até que não era mais. Até o início do outono, quando a Sra. Allan caiu feio da escada, e eles foram subitamente confrontados com a mortalidade frágil dela. Apesar de todos os esforços médicos e fisioterapia para sua recuperação, os médicos informaram que a lesão no quadril dela nunca iria sarar completamente, e Austin teve que deixá-la ir.

Partiu seu coração-talvez o de Orlando ainda mais-quando a levaram para o aeroporto no mês passado.

Agora, aqui estava ele, prestes a se casar com uma mulher que nunca conheceu, uma mulher cuja existência ele não conheceria se não fosse pelo azar do pai dela.

Austin só podia esperar que as anotações que compilou sobre si fossem suficientes para Marybeth passar no primeiro teste quando conhecesse seu pai e o restante da família após a cerimônia.

Seu telefone tocou na cama quando ele estava prestes a entrar no banheiro para tomar banho. Ele sabia, sem verificar, que era Tim, seu primo e um dos seus três capos. Ninguém além dele enviava mensagens frenéticas uma atrás da outra.

Como sua testemunha-melhor amigo, Tim estava bem mais ansioso do que ele. Sabendo que não bastava um simples "tá tudo sob controle" pra acalmar o primo, então ligou logo. Tim atendeu no segundo toque, quase como se estivesse observando o telefone fixamente, esperando ansiosamente pela ligação.

"Ainda dá tempo de cancelar essa loucura!" Ele falou seco assim que a ligação conectou. A voz dele nem sempre foi rouca, mas anos de fumar compulsivamente, às vezes dois maços por dia, finalmente cobraram seu preço.

"Por que eu faria isso?" Austin perguntou, um pouco casual demais para alguém prestes a se casar com uma completa estranha em poucas horas. "Eu gosto da Beth. Ela é perfeita para o papel."

"Seu pai não vai acreditar nisso. Você não pode simplesmente jogar isso em cima dele. Você sabe que ele precisa aprovar todas as mulheres da família-"

"É exatamente por isso que Marybeth é perfeita. Ela não tem vínculos com A Corporação. Eles não podem usá-la como moeda de troca ou peça nesse jogo de poder."

"Austin!" Tim respirou fundo. "Isso não está certo. Ela é inocente. Ela não pertence ao nosso mundo. Ela é uma professora, pelo amor de Deus!"

"Como eu adoro o cheiro da inocência." Austin cheirou o ar de forma dramática e riu. "Além disso, você concordou que ela é uma boa opção para Orly-"

Tim interrompeu de forma amarga. "Isso era só no papel. Eu disse que ela tem todas as qualidades maternas necessárias para o trabalho. Eu não achei que você realmente fosse levar isso adiante. Escuta, a Liliana pode te ajudar até você encontrar uma babá adequada."

"Liliana está sob muita pressão desde o incidente em Bangkok. Não posso ter policiais bisbilhotando em torno da Orly."

"Eu te ajudo então," Tim ofereceu.

"Quando? Como? Você mal tem tempo para a Liliana, e nós dois sabemos que você está atolado até o pescoço com os De Jagers."

"Eu ainda digo para cortar relações," Tim reiterou sua famosa proposta. "Quer dizer, todos sabemos que, depois da Iris, eles nunca mais confiarão em nós. Eles nem conseguem manter um relacionamento com a Orly, e ela é a única neta deles!"

"Isso é porque ela os lembra de tudo o que perderam. Não podemos culpá-los por não quererem ter uma relação com a Orly. A morte da Iris nos abalou a todos-"

"Austin," Tim resmungou. "Eles têm ameaçado sair da aliança há um tempo. Não podemos trabalhar com eles se estão constantemente indecisos. Eles precisam estar completamente envolvidos ou sair de uma vez."

"E você sabe muito bem por que não podemos deixá-los ir. Eles sabem muitos dos nossos segredos, o suficiente para derrubar A Corporação. Não ajuda que eles possuam Rosendal e Waterford. Nosso cassino lá não prosperaria sem o aval deles. Tim, preciso que você resolva essa bagunça. Descubra o que é necessário para encerrar essa questão. O descontentamento deles está deixando as outras famílias inquietas," Austin disse, suspirando de frustração enquanto se sentava novamente. Claro, não era uma união ideal, mas ele não queria discutir negócios no dia do seu casamento. "De qualquer forma, preciso me preparar. O casamento vai acontecer. E como meu braço direito, preciso que você apoie isso. Não posso enfrentar a família sozinho se você não estiver a bordo."

"Mas você sabe que essa não é a nossa forma de fazer as coisas. Olha para a Liliana e para mim. Você acha que eu queria isso? Eu nem sequer queria uma esposa. Mas era destino. Nossa união foi escrita com sangue muito antes de nascermos!" Tim desabafou uma última vez e desligou.

"Que se dane o destino. É hora de uma transformação radical," Austin murmurou enquanto entrava em seu banheiro para começar o dia.

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