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Bem-vindo de volta ao Brasil

Bem-vindo de volta ao Brasil

Autor:: Editora Saramandaia
Gênero: Romance
Havia um tempo em que os relacionamentos à distância eram exclusivamente por correspondência. Já imaginou?... Você ter que esperar 10, 15 dias ou até mais de um mês para receber uma carta de seu amor? Sorte do Roberto que hoje existe a internet. Então, em busca de sua paixão virtual, ele deixa os Estados Unidos, país onde vive ilegalmente por mais de 10 anos, e volta para o Brasil, sem lenço e sem documento (literalmente), só com a roupa do corpo. Onde estará sua paixão virtual? Será que ela existe? Boston ou Nova York; Goiânia ou Governador Valadares; Rio de Janeiro ou São Paulo. Cadê esta garota? E Rubrus, quem é esse cara? Quando vão conseguir agarrá-lo? Saiba as respostas lendo este livro emocionante! A arriscada travessia pelo México; a difícil adaptação do imigrante no exterior ao choque de realidade na sua volta ao Brasil. Duas histórias em um romance recheado de mistério, aventura, exemplos de superação e um final surpreendente!

Capítulo 1 INTRODUÇÃO

Inverno na grande cidade. A noite envelhecia mais cedo, trazendo consigo a poeira branca que tingia a paisagem. Nas ruas,

flocos de neve desafiavam para-choques, gorros e corpos apressados. Os mais afoitos bailavam por entre os edifícios; os mais

preguiçosos adormeciam nos ponteiros do relógio daquele que foi

o primeiro arranha-céu de Boston, o Marriott Custom House.

Pouco mais adiante, em um restaurante fincado no bairro italiano de North End, parte dos funcionários se reunia nos fundos da

cozinha. Havia em seus olhos um brilho fosco de esperança pelo

retorno de um funcionário, cuja ausência completava três dias.

- Hoje ele não vem mais... – informou Zeca, passeando os

olhos pelo teto até debruçá-los fixamente no relógio. – Onde se

meteu esse garoto?

- Quem? – indagou a garçonete, que chegara àquele momento, olhando a pia abarrotada de louças sujas.

- Roberto, o lavador de pratos.

Senhor Rodrigues, o cara que teria de lavar toda aquela lou-

ça sozinho, começou a mexer no celular.

- Tá ligando pra quem? – perguntou o Zeca.

- Pra Amanda.

- Amanda? Que Amanda?

- A namorada dele lá de Nova Iorque. Alguma coisa estranha tá acontecendo. Desde que o Roberto sumiu não consigo

falar com essa garota.

O celular chamou, chamou... por fim caiu na caixa de mensagem:

- 我现在无法接听您的电话. 请留言.1

1 - Eu não posso atender sua ligação neste exato momento. Por favor,

deixe uma mensagem

- Aí, num tô dizendo?... Agora a mensagem tá em chineis!

- Olha, Rodrigues, não quero te assustar, mas tão dizendo

por aí que o Roberto foi deportado. E onde há fumaça há fogo.

- Então, deixa eu voltar ao trabalho e, a propósito, trata

de colocar um anúncio procurando outro funcionário – disse o

Rodrigues, começando a colocar os pratos na lava-louças.

- Tá bom, mas antes deixa eu ligar pro Zé.

- Zé, que Zé?

- O mineirinho que divide o apartamento com ele em East

Boston. Chegou uma mensagem. Essa notícia vai lhe interessar,

decerto. ...Parece que encontraram o Roberto.

"Roberto vazou", dizia a mensagem (traduzindo o mineirês: "foi embora"); chegou no Brasil só com a roupa do corpo.

Eita homem de coragem! Nem todo mundo tá disposto a voltar a

ganhar em real depois de pôr a mão nas verdinha$.

Escolhas à parte, agora podemos responder à questão:

"WHERE´S ROBERTO"

?

- ...Tô falando com ele agora, me liga outra hora – respondeu o Zé, inconformado, voltando do trabalho, puto pra caralho.

- Roberto voltou para o Brasil??? Puta que pariu!!!!!!

Pois, é. Viajou sem visto, sem lenço e sem documento (literalmente). Comprou uma passagem só de ida. "Oh, vida!"

- He's crazy!

- I know.

Brincou com a sorte, se enrolou. Ou estava prestes a se enrolar? (Eehhhh... isso não vai prestar.) É o que o Zé, com muito custo, por celular, tentava explicar – caminhando apressado,

touca cobrindo-lhe os olhos, mochila nas costas, empacotado.

A jaqueta era do Boston RedSox, time de beisebol local muito

aclamado – nove graus negativos, um frio lascado – pelo menos

pra mim, que não estou acostumado –, mas pro Zé aquele frionão era nada, que com naturalidade falava ao celular e gesticulava. Passava despercebido em meio a tanta gente, também apressada que, como ele, ia pro trampo ou voltava pra casa. Chineses,

coreanos, guatemaltecos, indonésios, armênios, colombianos e

mexicanos; hondurenhos, marroquinos, haitianos, salvadorenhos, paquistaneses, cubanos e dominicanos; gente de toda parte, dos mais diversos continentes. A maioria jamais pensava em

voltar pro seu país novamente. Já Roberto, minha gente... ah!!!

A realidade era bem diferente.

- Eu sabia, isso não ia acabar bem. Você vivia com o corpo

na América, a cabeça no Brasil e o coração também... ou então

vivia em outro mundo! E depois que começou a namorar pela

internet... aí lascou tudo. Até filmes você assistia dublado em

português! Como queria aprender inglês?

- Calma, Zé! Pensa no lado bom. Pelo menos, ele não foi

deportado.

- Unbelievable!

– exclamou o dono do restaurante onde

Roberto havia trabalhado, sem entender a deserção do funcioná-

rio, de quem ele chegou, inclusive, a assinar os papéis para ele

ter se legalizado.

- What fuck he's doing in Brazil?

- I don't know.

Só sei que o Zé, agora dentro do seu apartamento, faltava

pouco para se descabelar de vez, enquanto o Roberto, mais precisamente no saguão de embarque do Aeroporto Internacional de

Goiânia, buscava argumentos para justificar a burrada que fez.

- "Preferi a língua universal do amor ao inglês."

- Ih, lá vem você com essas frases desses livros que não te

ajudaram pra nada. Você não aprende mesmo...

- "Amar se aprende amando."- Eu sei, criatura, mas até quando você vai continuar errando?

- "Se eu errar que seja por muito, por amar demais, por me

entregar demais, por ter tentado ser feliz demais."

- ...E por ser trouxa demais... por acreditar nesses namoros

virtuais que nunca dão certo. ...Como a Amanda, linda trapezista

morena de Chicago, que você conheceu, aliás, também na sala

de bate-papo, mas que na verdade era a mulher barbada do circo.

Sem falar da Amanda manicura, que a gente fez até vaquinha pra

trazê-la com o cunhado do Brasil, e depois descobrimos que ela

queria trazer o marido, um tremendo folgado...

Era assim mesmo, não tinha jeito. Nos namoros virtuais do

Roberto, sempre algo dava errado. Por isso, ele resolveu sair de

trás do computador e ir em busca de seu grande amor, que até

então ele só sabia o nome.

- Eu só não entendi uma coisa: se a sua namorada era de

Nova Iorque, como você foi parar no Brasil?

Ô, Zé! Cada coisa em seu lugar. O homem acabou de chegar. Deixa, pelo menos, ele esfriar "os pé", parar na cafeteria,

tomar um café. Com certeza, esse assunto ele vai esclarecer e

a gente, enfim, o desenrolar dessa história vai entender. Onde

ela começa e, principalmente, a forma surpreendente em que ela

termina.

Capítulo 2 Cap1

Nova Iorque! Foi aqui que tudo começou.

Dizem que estar em Nova Iorque é como estar dentro de

um filme. A cidade tem diversos locais que serviram de palco

para grandes produções do cinema, TV e, é claro, deste livro que

você está lendo.

Central Park, local escolhido para o encontro de Roberto e

Amanda.

Para quem não sabe, em um namoro virtual, o encontro é

uma espécie de validação. Sem ele, nada feito. Tudo não vai

passar de uma possibilidade que você não realizou, não tocou e,

principalmente, não viveu.

Antes dessa etapa tão temida pelos apaixonados virtuais,

vêm as inevitáveis perguntas: "Será que vai gostar de mim?"

"Ai... como vou explicar que uso lentes de contato?...". Questões que só serão respondidas no grande dia, quando não será

mais possível utilizar o Photoshop ou ajustar a luz da câmera.

Assim, se o namoro der certo, vem a etapa mais importante, chamada "dia a dia" ou convivência. É nessa etapa crucial que vamos mostrar quem realmente somos; afinal, não teremos como

postar somente coisas boas e momentos felizes para quem está

ao nosso lado.

Isso ainda era um capítulo distante para Roberto e Amanda.

Eles estavam apenas no "começo do início" de uma relação que

já durava mais de 12 meses. Ou seria o "começo do fim"? Enfim,

eles apenas se conheciam virtualmente. Pode ser. Apesar de que,

hoje, com os vídeos, a possibilidade de um namoro a distância

dar errado é bem menor que há 20 anos, época de nossos pais,

quando os relacionamentos à distância eram exclusivamentepor correspondência. Já imaginou?... Você ter que esperar 10,

15 dias ou até mais de um mês para receber uma carta de seu

namorado ou namorada?

Sorte do Roberto que hoje existe a internet. Ela pode ser a

sua tábua de salvação ...ou completa perdição. Isso vai depender

de como será seu encontro com Amanda, brasileira de origem

oriental com quem ele não mediu esforços para se encontrar,

viajando mais de três horas de Boston a Nova Iorque. Um encontro que tinha tudo para ser inesquecível e perfeito. E assim

foi em seu começo.

Ao abrirem as cortinas que revelavam os enormes tentáculos da cidade, também conhecidos como arranha-céus, no portão

de entrada de Nova Iorque, Roberto recebeu a primeira chamada

de vídeo quando o ônibus que o conduzia ainda trafegava pela

Ponte do Brooklyn.

Ao som da música "Hello", de Lionel Richie, Amanda apareceu. A menina trajava um alvo roupão de linho com detalhes

de arte chinesa realçado por um laço vermelho carmim; o talhe

do vestido, abrindo-se desde a cintura, deixava entrever o seio

delicado, mal encoberto por um ligeiro véu de renda finíssima.

Beleza oriental, "mimosa cor de mulher, aveludada pele da pubescência juvenil, tinha sua tez a cor das pétalas da magnólia,

quando vão desfalecendo ao beijo do sol". (José de Alencar,

1864).

- Amanda, que surpresa linda! – exclamou Roberto, emocionado.

- Que bom que gostou, meu amor. Como você está?

- Bem, apenas ansioso pra te encontrar...

- Fofo...

Amanda começa a bailar e, propositalmente, vai se desfazendo de algumas de suas poucas vestes, deixando Roberto

ainda mais ansioso para aquele encontro. De repente, a mú-

sica para. Inexplicavelmente, a garota sai de cena. Surge umchinês de meia-idade, ajustando o celular diante de si, bem à

vontade.

- Roberto, quanta honra! Pensei que não fosse mais te conhecer. Sou Chee Ho, muito prazer. – O rapaz já ia dizer um

palavrão, mas se conteve quando o chinês antecipou: – Calma,

não é nada do que você está pensando... estou aqui apenas para

apresentar meu produto, e o vídeo poderá esclarecer melhor o

que tenho pra lhe dizer.

Foi quando o chinês apertou o play de uma TV de LED a

seu lado, que começou a exibir um comercial, desses que todo

mundo já assistiu alguma vez na vida, pelos famosos canais de

tele shop. Logo apareceu a imagem de uma embalagem box com

a foto de Amanda estampada, ouvindo-se claramente a potente

voz do locutor, que dizia:

"Apresentamos... AMANDA, A GAROTA PERFEITA. O

primeiro programa de computador inteligente que resolverá de

uma vez por todas os seus problemas afetivos.

Ela será sua namorada, noiva, esposa, guardiã, estará com

você em todos os momentos, a qualquer hora do dia.

Seja como seu despertador:

- 'Bom dia, meu amor!!! Hora de ir trabalhar!'

Ou a ligação que faltava para deixar o seu dia mais feliz:

- 'Oi, meu amor! Está muito ocupado? Liguei pra dizer

que te amo, sabia?'.

Ou a esposa generosa que recebe o guerreiro ao final de

mais um dia de batalha.

- 'Como foi seu dia hoje? Eu tava morrendo de saudade!'

Passe momentos agradáveis com Amanda. Converse;

peça opinião; discuta problemas, encontre a solução. Ela tem

conhecimentos avançados em mais de 9.200 áreas específicas".

Você passará momentos agradáveis com Amanda. E poderá

ficar horas falando com ela, sobre diversos assuntos, mesmo osmais chatos e insuportáveis... e ela lhe responderá com comentários positivos como este:

- 'Nossa! A fórmula SpBk340980yx2 que você criou é

fantástica. Você é muito inteligente, meu amor!!!'."

Nesse momento, ouviu-se a voz do COMENTARISTA dizendo:

"Gente, veja bem o exemplo do vídeo anterior. Qual mulher

linda e atraente iria suportar um cara com um papo tão chato

como esse? A única é Amanda, claro, a esposa perfeita".

DEPOIMENTO DO COMPRADOR SATISFEITO 1:

- "Amanda é uma pessoa incrível! Outro dia, comentei

com ela o quanto eu estava descontente com o meu trabalho.

Ela, docilmente, me confortou:

- 'Não fica assim... Você é um homem generoso, bom. Por

dentro desse cientista que ajuda a fabricar armas, ogivas nucleares de destruição em massa, que podem acabar com a vida na

terra, pulsa um coração bondoso, uma alma sensível e caridosa.

O grande amor da minha vida!!!'.

A voz potente do locutor retorna:

"Não importa se você está certo ou errado, AMANDA foi

programada para sempre ficar do seu lado.

- '...Você é inocente, meu amor, um político honestíssimo.

Essa condenação foi um erro. Qualquer um no seu lugar aceitaria aquela mala de dinheiro!'.

O locutor avisa:

"E mais: conheça o AJUSTE DE PERSONALIDADE e escolha Amanda nas opções liberal, conservadora; submissa, indomável; marrenta e a fantástica... AMANDA BARRAQUEIRA!":

- 'Quem é aquela mulher com quem você estava conversando hoje, hem? – diz Amanda aos gritos – Fala! Você tá me

traindo com ela não, é? Seu ordinário, filho da puta!!!', – gritaria

seguida por uma barulheira de quebra de pratos.

Entra em cena o COMPRADOR SATISFEITO "Eu adorei! Essa opção é simplesmente fantástica! E o que

é melhor: quando eu perco a discussão, desligo o computador!"

E o locutor continua:

"Não perca tempo. Escolha a sua! Temos nas versões english, spanish, italian, french, chinese, brazilian.

Versões hétero, homo, bi, tri ou polissexual!!!"

Por fim, se viu o COMPRADOR SATISFEITO 3 em cena,

em uma praia com dia ensolarado, dizendo:

- "Baixei o aplicativo em meu celular e hoje estou com

'Ela' 24 horas por dia. Amanda mudou a minha vida! Acredite,

ela poderá mudar a sua também!!!". – o COMPRADOR SATISFEITO 3 é visto em um ângulo de cima, com as ondas batendo

em seus pés – ele com fone de ouvido, braços abertos, rodopiando, demonstrando estar muito feliz.

E o letreiro bem grande na tela em seguida.

AMANDA, A GAROTA PERFEITA.

Ligue já para o telefone que está em sua tela e adquirida

um box com 4 CDs mais o manual de instalação! E mais: você

ainda receberá essa moderna boneca inflável, que esquentará

ainda mais as suas noites. NÃO ESPERE MAIS! Chega de

solidão!

Ao final, Roberto se recusava a acreditar. Mas era a mais

pura realidade: Amanda não passava de um programa de computador, inteligente e bem programado, representado por uma imagem de uma mulher linda, inteligente, perfeita, que correspondia

às expectativas de quem estava do outro lado da tela.

- Então eu namorei esse tempo todo com um programa de

computador? :(

- Exatamente :) – respondeu o chinês – Um programa que

reproduz a garota dos sonhos; caso você se case com ela, a mulher que qualquer homem sonharia em ter, a esposa perfeita.

- Você é um trapaceiro.

- Não diga isso, seu ingrato! Deixei você utilizar o pro-grama por mais de um ano sem pagar nada. E agora estou lhe

ofertando 50% de desconto.

Roberto ficou em silêncio. E o chinês perguntou:

- E então, vamos fechar negócio?

Roberto nada respondeu. Apenas pensou: "No amor todos

os caminhos acabam de forma igual – desilusão"11. E logo aquela chamada foi encerrada.

Roberto estava arrasado. Era como se a Ponte do Brooklyn

tivesse desabado sobre a sua cabeça. Junto com ela, todo o seu

entusiasmo, expectativa, o buquê de flores que ele havia levado

e o seu coração despedaçado.

Então, ali mesmo, por celular, comprou sua passagem só de

ida para o Brasil, que seria no próximo voo.

"Quando o amor quer falar, a razão deve calar"12, pensou

no caminho.

- E foi isso que aconteceu, Zé... resolvi correr o risco, vim

para o Brasil ao encontro de um grande e verdadeiro amor. Juro

que esta será minha última tentativa. Agora preciso desligar.

Em outras palavras, Roberto ainda tinha uma carta na manga e pediu licença ao amigo assim que avistou uma senhora que

segurava um cartaz de boas-vindas com seu nome.

Capítulo 3 Cap2

Após 10 anos morando no estrangeiro, Roberto finalmente

estava em solo brasileiro. Primeiro, numa breve escala no Rio

de Janeiro, onde, ainda no avião, ele contemplava maravilhado

a imagem do Cristo Redentor, o Corcovado. Depois, no seu destino final: Aeroporto Internacional de Goiânia, a capital onde,

mais uma vez, esse brazuca sonhador tentaria encontrar seu verdadeiro amor, apostando suas últimas fichas em Amanda, garota

que ele só conhecia pelo computador.

"O amor é a sabedoria dos loucos e a loucura dos sábios"13,

pensou ele ao se aproximar da senhora que segurava um cartaz

onde constava o nome do rapaz: "ROBERTO, SEJA BEM-VINDO! AMANDA E FAMÍLIA". Depois dessa, ele ganhou o dia!

- Dona Lúcia!!! – saudou ele a mulher que devia ter seus

cinquenta e tantos anos; alta, robusta, rosto arredondado sob

óculos de aros grossos, cabelos castanhos estilo Chanel e visível

verruga na testa.

- Roberto, meu querido! Como está se sentindo? – perguntou a senhora, abraçando o rapaz com certa intimidade.

- Um pouco desambientado, mas estou bem – respondeu ele.

- Isso é natural. Vamos. Tem um carro nos esperando lá

fora. Onde estão suas malas?

- Não as trouxe... – respondeu o rapaz, um pouco desajeitado, já que o encontro com Amanda não fora planejado.

- Não se acanhe, por favor. Quando eu era jovem, também

já fiz minhas loucuras de amor.

Agora mais descontraído, Roberto perguntou:

- E Amanda, melhorou?

- Melhor que veja com seus próprios olhos.- Espero que não seja nada grave.

- Não precisa se preocupar. Ela foi diagnosticada com um

simples transtorno, algo fácil de tratar.

- Nossa! Será por quê?

- Ah, meu querido... coisas inexplicáveis do ser, mas nada

que um pouco de repouso não possa resolver. – disse Lúcia, enquanto cruzavam o saguão do aeroporto.

- Ela tem dormido bem?

- Praticamente o dia todo, sob efeito de medicamentos;

dorme igual um bebê, mas, quando está acordada, vira a madrugada vendo TV.

Roberto ficou visivelmente preocupado com aquela informação. Permaneceu em silêncio, ensaiando uma indagação.

Chegando do lado de fora, estava prestes a fazer uma pergunta

bem direta, quando percebeu uma verdadeira comitiva à sua espera. Encostados em um veículo Opala 1978, estavam um homem forte, alto e cabeçudo, trajando uniforme de metalúrgico,

abraçado a uma moça, morena clara de cabelos pretos, esbelta

em uma calça justa de cintura alta; um passo a frente, uma garota gordinha vestida com camisa do Goiás Esporte Clube, baixa

estatura, espinhas no rosto e piercing no nariz exposto. Não obstante, ao vê-la sorrindo gentilmente, Roberto logo abandonou

seus pensamentos de preocupação, enquanto Lúcia prontamente

os apresentou com incontida satisfação:

- Roberto! Estes são meu irmão Carlos, o Carlão, sua namorada Rafaela, e minha sobrinha, Dirce.

- Oi, gente! – disse Roberto apertando a mão de Carlão e,

depois, a de Rafaela; por último, abraçou Dirce com um pouco

mais de liberdade.

- Acredito que ocê e a Dirce já devem de ter se falado

– comentou Lúcia, ao assumir o volante do antigo carro com

Roberto ao lado.

- Claro que sim! Dirce, a prima e confidente da Amanda...- ...E futura madrinha de casamento! – completou a moça,

animadíssima.

Já estavam em pleno trânsito caótico da cidade e o assunto

voltou a ser Amanda. Dessa vez, Roberto finalmente fez a pergunta que tanto ensaiara:

- A senhora falou que Amanda tem dormido sob o efeito

de medicamentos... Confesso que fiquei preocupado.

- Ora, pois, a coitadinha surtou feio... Felizmente, levamos ela a um bom psiquiatra – disse Lúcia.

- Estou surpreso com esse relato – ponderou Roberto. –

Afinal, fora o seu recente problema de insônia, Amanda sempre

me pareceu uma pessoa saudável...

- Pois é, menino, ela ficou assim de repente... pegou nóis

de surpresa.

- Ela tem plano de saúde?

- Infelizmente não. Isso, no Brasil, é pra gente endinheirada. Recebemos ajuda de uma associação.

- Que bom que existem pessoas boas neste mundo.

- Oh, bota boas nisso. Até cadeira de rodas eles deram pra

Amanda.

Roberto engoliu em seco. Lúcia voltou-se para a sobrinha

e perguntou:

- Por falar nisso... ô, Dirce... cê deu banho na Amanda,

hoje?

- Deu tempo não, tia...

Roberto quase pulou do banco.

- Um momento, dona Lúcia! Eu não sabia que o estado da

Amanda era tão grave! Pelo que a senhora me disse, ela sofreu

um simples transtorno...

- Exatamente... – começou Lúcia, explicando com voz

tranquila e serena. – Transtorno que a acompanha desde o dia

em que a pobrezinha nasceu... e piorou com esse namoro doceis

pela internet – finalizou com um "goianês" bem acentuado.- Por que não me falou isso antes? – questionou Roberto, sério.

- Sabe por quê, Roberto? – continuou Lúcia, dirigindo

tranquilamente, agora em uma via expressa – Eu, como mãe e

criatura do sexo feminino, sei que nada completa tanto uma mulher quanto o fervor de um amor correspondido, mesmo sendo a

distância! Então, apesar de achar que o romance doceis não iria

dar em nada, fiz vista grossa, deixei seguir.

- Por quê?

- Por não querer ver minha filha chorando pelos canto por

um amor não correspondido.

- Me desculpe, dona Lúcia! Mas quem ama de verdade

não mente dessa maneira.

- No amor e na guerra, vale tudo, meu rapaz.

- Sobretudo quando há interesses – espetou Roberto.

- Você está redondamente enganado. Minha filha não está

interessada em dinheiro, posição social, carro ou qualquer uma

dessas porcarias materiais; a ela isso de nada adiantará. Amanda

está paralisada da cintura pra baixo desde que nasceu, não fala,

e seus únicos momentos de felicidade são as horas em que passa

diante do computador, teclando com pessoas que sequer conhece, as quais imaginam que ela seja o protótipo da garota perfeita;

da mesma maneira que você a idealizou. Dessas garotas que só

existem no mundo virtual, lindas por fora, incrivelmente interessantes por dentro, descontraídas, saudáveis, corpos perfeitos;

donas de uma felicidade absoluta capaz de causar inveja às mais

perfeitas criaturas dos contos de fadas... Garotas que parecem

nunca ter sofrido nem vivido qualquer tipo de problema e que

estampam em suas páginas sociais frases, selfies, caretas, caras e

bocas em lugares interessantes. Uma vida colorida, donde o preto e branco e as chagas inevitáveis da vida só aparecem quando

elas desligam o celular ou computador.

- Fui enganado... fui enganado... – Roberto repetia para

si mesmo, olhando para a densa vegetação que ladeava a viaexpressa, enquanto Lúcia seguia dirigindo tranquilamente sem

perder o foco da conversa.

- Cê não foi enganado, Roberto. Amanda é uma menina inteligentíssima! Por infortúnio, vive naquela cadeira de rodas. Não é

a bela esportista por quem você se apaixonou; não é a universitária

que morava no Setor Bueno e agora faz estágio naquela empresa

de biomedicina. Na verdade, ela tem de estar todos os dias, desde

cedo, acompanhada da minha sobrinha, pedindo esmolas no farol.

E sua maior conquista na vida, desde que nasceu, foi ter conseguido

pronunciar três palavras: mãe, comida e água. Mas isso são meros

detalhes! – concluiu, dando um sorrisinho sarcástico.

- Detalhes uma ova! Isso foi um jogo de mentiras. Uma

tremenda sacanagem me fazer vir dos Estados Unidos pra cá

para descobrir que fui enganado. – Lúcia deu uma gargalhada, e

Roberto continuou ainda mais furioso: – Como fui idiota! Teclava com Amanda e falava ao telefone com outra pessoa!

Lúcia continuava gargalhando ainda mais, agora com os

ocupantes do banco de trás fazendo-lhe coro.

Sentindo-se como um palhaço de circo que acabara de levar

uma torta na cara, Roberto perguntou:

- Mas, vem cá, como a Amanda ficava sabendo do nosso

assunto ao telefone para continuar teclando depois?

- Colocávamos no viva-voz. Amanda ouvia tudo e ficava

encantada com suas histórias. Você é uma pessoa interessante,

Roberto! Já pensou em ser escritor?

- Olha aqui, dona Lúcia, não achei graça nenhuma nessa

história. Então, antes de me deixar na próxima parada, responda

somente uma coisa: quem falava comigo ao telefone?

- Você quer saber mesmo?... Ela está bem atrás de você.

- Dirce?!

- Isso mesmo – confirmou Dirce, apontando uma arma na

direção de Roberto. – Bem-vindo de volta ao Brasil! Agora abaixa a cabeça, seu otário, que a gente vai dar um passeio.

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