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Brincando com Fogo

Brincando com Fogo

Autor:: Jessy Alencar
Gênero: Romance
Ao perceber que seria reprovado na Universidade e correndo o risco de ser expulso de casa, Jayden precisa fazer de tudo para tirar boas notas. O problema é que a única pessoa que pode ajudá-lo é a menina que ele odeia com quem tem praticado bullying desde que a conheceu por ela ser uma nerd. Agora Jayden precisa convencer a jovem a ajudá-lo, mesmo que isso signifique ajudar ela a mudar de visual e conquistar o garoto por quem ela sempre foi apaixonada. Mas será que após ensiná-la todos os truques de como seduzir alguém, Jayden poderá resistir a seus encantos?

Capítulo 1 Pesadelo

O sono pesado que me embala, pula pela janela quando escuto batidas fortes que quase derrubaram a porta do quarto. Abro os olhos a contragosto sentindo uma dor de cabeça lancinante, provavelmente devido às várias garrafas de Soju que sequei na festa da faculdade ontem a noite.

- Kimberly abre essa porta agora! - O grito faz eu me sentar na cama, tentando entender onde estava.

Ao perceber que não estou no meu quarto, analiso o ambiente e vejo uma garota morena, coberta apenas por um lençol e com uma de suas pernas sobre mim. Parece que a minha noite foi boa. Droga, não me lembro de nada! Me jogo novamente na cama sentindo o alívio tomar conta de mim pela voz irritada que me acordou, não ter insistido. Mas esse sentimento não durou muito já que a voz do homem enraivecido se faz presente mais uma vez. Apesar de todo o barulho a garota não parece acordar e me levanto procurando as minhas roupas. Assim que afastei sua perna, ela finalmente acordou se espreguiçando e sorrindo para mim.

- Oi, garanhão! - Ela me cumprimentou e tentei lembrar o nome que o homem estava gritando através da porta, mas sem sucesso.

- Oi...você! - Respondi com um sorriso sem graça, até que ele voltou a gritar e a garota arregalou os olhos.

- Meu Deus! Você tem que sair daqui. Agora!

Ela levantou da cama cambaleando e abriu a janela do quarto.

- É o seu pai?

- Pior, é o meu noivo!

- NOIVO? - Questiono, vestindo as calças com dificuldade.

- É, e se ele te pega aqui mata nós dois!

Ela me empurrou para a janela, mas notei que estávamos no segundo andar e se eu pulasse provavelmente iria me arrebentar todo.

- Você tá doida? Eu não vou pular!

- Você não está entendendo, meu noivo é policial! Ele anda armado. Se ele te pega aqui mata nós dois.

Pude perceber que o desespero dela era real e comecei a pensar que talvez não fosse tão alto assim. Me penduro para o lado de fora e tento achar a melhor forma de aterrissar no chão, mas logo escuto um barulho e me assusto.

- Chris, você arrombou a minha porta?

- Quem estava aqui com você?

- Ninguém!

- Sai da frente da janela Kim!

Droga! Tive que me soltar sem nenhuma preparação, e me ralei todo chegando a rasgar uma parte da minha calça jeans.

- Ei! Você! - O noivo enganado gritou.

Olhei para cima e antes que ele pudesse gravar o meu rosto, saí correndo na esperança de que o meu carro estivesse por ali em algum lugar, mas eu não encontrava nem sinal dele em lugar nenhum. Tirei a minha chave do bolso para destravá-lo e escutei o barulho dele na rua ao lado. Corri em sua direção até ver o tal do Chris saindo pelo portão da Kimberly com uma arma na mão.

Entrei no carro correndo e ouvi o primeiro disparo destruir o retrovisor. Dei partida e saí dali cantando pneu ouvindo mais três disparos atingir o veículo. Meu coração estava disparado com aquela dose indesejada de adrenalina e suspirei fundo quando finalmente saí do Brooklyn e cruzei a ponte até Nova York.

Só quando cheguei em casa pude ver o estrago que os disparos fizeram. Eu teria que levar o carro na oficina antes que os meus pais vissem. Eles estavam mais rígidos e me cobrando cada vez mais. Quando entrei pela porta da sala e percebi que aquela casa enorme estava no mais completo silêncio pensei que tinha me safado, mas assim que coloquei o pé no primeiro degrau da escada ouvi a voz autoritária do meu pai vindo da sala de jantar.

- Dormiu fora de novo Jayden?

Me virei rapidamente e pude ver o olhar de pânico no rosto da minha mãe que estava ao lado dele.

- Meu filho, o que houve com você? Sua perna está sangrando! - Ela se aproximou, colocando as mãos ao redor do meu rosto.

- Houve o de sempre, nosso filho é um irresponsável que só sabe se meter em confusão.

O tom de crítica do meu pai se fez presente e minha mãe argumentou.

- Não precisa falar assim.

- E como eu vou falar se ele só nos decepciona? Falta pouco para ele se formar e eu só tenho ele para assumir a empresa, mas como eu vou confiar nesse irresponsável se ele não quer saber de nada? Só farra, bebidas e aqueles amigos idiotas dele.

Quando o meu pai se irritava eu sabia que não adiantaria nada tentar discutir com ele, então eu apenas abaixava a cabeça e aceitava porque parte de mim sabia que ele tinha razão.

- Que tal pelo menos uma vez na vida nós só tomarmos café, como uma família normal?

Encarei meu pai esperando sua reação a sugestão da minha mãe e ele só deu de ombros voltando para a sala de jantar.

- Vem meu amor, eu fiz suas panquecas favoritas.

Segui minha mãe até a mesa e ela começou a me servir um copo de suco de laranja com algumas panquecas.

- Você já escolheu a sua especialização? - A voz do meu pai cortou o jornal que ele folheava.

Dei um gole no suco e senti um calafrio percorrer o meu corpo.

- Ainda não.

A verdade é que minhas notas andavam tão ruins que eu havia simplesmente reprovado. Sabia que meu pai me expulsaria de casa se isso acontecesse, assim como ele fez com o meu irmão quando ele desistiu da faculdade de Direito em Harvard. Então usei todo o meu carisma para tentar convencer os professores a me darem uma nova chance de refazer as provas, fazer trabalhos extracurriculares ou qualquer coisa que me ajudasse a fugir do fantasma da reprovação e hoje eu tinha uma reunião com a reitora da universidade para saber o que ela tinha decidido.

- É melhor que seja algo que ajude na administração da empresa. Seu irmão já foi decepção suficiente, eu não quero ter que perder outro filho.

O olhar da minha mãe ficou triste enquanto encarava o próprio prato, provavelmente lembrando do Jehan que depois de ser expulso de casa, se casou com uma menina da faculdade e nunca mais deu sinal de vida. O resto do café da manhã foi silencioso e quando finalmente consegui subir para o meu quarto tomei um banho, fiz curativo no machucado na perna e apaguei por boa parte do dia. Acordei por volta das quatro da tarde com o celular tocando, olhei para a tela e ao ver o nome do Finn resmunguei.

- Fala.

- E aí sobreviveu? Você tava muito louco ontem. - Mesmo não aprovando muitas das minhas atitudes, Finn parecia se divertir por tabela, como se vivesse sua juventude através de mim.

- Pô, nunca mais me deixa beber cara! Eu tive que pular de uma janela do segundo andar e quase levei um tiro.

- Caraca! Isso é que eu chamo de manhã agitada.

- Nem me fale.

- Aí, eu e algumas meninas da turma de dança estamos aqui na lanchonete, perto da faculdade, quer vir encontrar com a gente e daqui vamos para a aula? - Ele sugeriu e parte de mim queria ficar mais um pouco na cama, mas sabia que tinha uma missão a cumprir.

- Qual lanchonete?

- Aquela que tem em frente ao bar onde sempre compramos Soju.

- Sei qual é. Daqui a pouco chego aí. - Me reviro nos lencóis macios bagunçando os fios negros tentando despertar de vez.

- E você não vai acreditar quando eu te falar quem trabalha aqui. - Finn provocou e bocejei em resposta, mas logo me rendi a curiosidade.

- Quem?

- Sua arqui inimiga.

- A água de salsicha?

- Ela mesma.

- Isso vai ser divertido.

- Tô te esperando aqui.

Levantei da cama e em um dia comum nem ao menos pentearia o cabelo, mas queria impressionar, então tomei outro banho e vesti uma calça jeans e uma blusa social preta pois tinha que parecer responsável para a diretora da universidade. Peguei minha carteira, as chaves do carro e logo saí de casa em direção a pequena lanchonete de sanduíches, logo ao entrar, uma atendente que estava distraída limpando o balcão me cumprimentou sem nem ao menos olhar para mim.

- Bem-vindo ao Big Sub! Qual vai ser seu pedido hoje?

- Que tal alguma coisa que não tenha nenhum fio desse seu cabelo de espantalho?

Ela me encarou e ao perceber que era eu, revirou os olhos.

- Idiota! - Ela murmurou enquanto pegava algumas bandejas e olhei para a mulher que como sempre estava com metade do seu rosto coberto por um óculos enorme fundo de garrafa na cor bege. O cabelo dela que era ruivo e volumoso estava preso por uma rede de cabelo que deixava o visual ainda mais ridículo.

- Me chamou de quê, água de salsicha? - Desafiei, sabendo que ali seria o único lugar que poderia fazer isso sem levar um soco.

Um homem mais velho saiu da cozinha e na plaquinha que ele ostentava orgulhosamente em seu peito estufado estava escrito gerente. Ele olhou feio para a mais nova e eu sorri a provocando.

- Tem algum problema aqui Sr.? - O gerente que mal tinha algum cabelo perguntou em tom de reprimenda enquanto analisava sua subordinada com desdém.

Ela abaixou a cabeça e fechou os olhos já se dando por vencida, como se já esperasse o pior, mas eu estava me sentindo bondoso hoje e apenas dei de ombros.

- Não, nenhum. Eu vou querer um sanduíche de almôndegas completo e um refrigerante grande. - Fiz meu pedido e pude ver quando ela soltou o ar em seus pulmões antes de me responder.

- Sim Sr.! Deu vinte e nove e cinquenta. Qual a forma de pagamento?

Eu finalizei o pagamento percebendo que ela revirava os olhos toda vez que era obrigada a encostar em mim para pegar o dinheiro ou me dar o troco. Aquela garota me odiava e isso só me divertia cada vez mais. Ela é bolsista da faculdade e desde o primeiro ano sempre foi a queridinha de todos os professores, sempre foi a nerd que tirava as melhores notas e se achava boa demais para falar com qualquer um de nós.

Até mesmo quando os professores passam trabalhos em grupo, ela sempre faz o dela sozinha e nunca passa as respostas para ninguém. Tentei ser legal com ela no começo, mas desde que percebi que isso era inútil, tenho feito da vida dela um inferno. Peguei meu lanche e fui até a mesa, onde Finn estava com três garotas das turma de dança.

- E aí, galera, qual a boa?

- Olha! Chegou quem estava faltando! - Finn respondeu animado, me oferecendo um cumprimento de punho fechado.

- E aí meninas! - Acenei e ouvi a resposta em uníssono.

- Oi Jayden!

Uma delas, que era a mais atirada, uma loira chamada Blair se arrastou pelo banco de couro se aproximando de mim.

- Oi Jay-Jay! - Seu tom manhoso me fez deixar escapar um sorriso malicioso ao senti-la descansando a mão na minha coxa.

- Você sumiu ontem da festa. Nem me deu atenção! - Ela resmungou, os lábios volumosos brilhando com um gloss que cheirava a frutas.

- Desculpa gatinha, isso não vai se repetir. - Garanti, tocando a ponta do nariz cirurgicamente arrebitado.

- Então posso contar que na festa de hoje eu vou ter sua atenção toda para mim? - Ela perguntou deslizando a mão pela minha coxa e eu acabei rindo.

- Claro gatinha! Eu não perderia por nada nesse mundo.

Rachel, minha irritação ambulante se aproxima e eu foco meu olhar enquanto ela serve o meu lanche o mais rápido possível para poder sair logo dali, mas assim que ela deu as costas, provoquei.

- Ei! Água de salsicha?

Ela respirou antes de se virar, me encarando como se fossem sair lasers de seus olhos.

- Eu pedi sem mostarda. - Menti, por pura diversão.

- Você pediu completo!

Ela veio até mim, pegou a notinha que estava na mesa e a balançou.

- Viu? Completo.

- Então você anotou errado porque eu pedi sem mostarda. Traz outro! - Exigi, empurrando a bandeja em sua direção e estalando os dedos. - E anda logo que eu estou com fome.

Não foi difícil notar a pálpebra trêmula de quem queria me esganar, mas como não podia, ela pegou a bandeja, respirou fundo e voltou minutos depois com um lanche diferente.

- Ah, você pode trazer um sundae de morango para mim, por favor? - Blair pediu, em um tom inocente e como não era para mim, a ruiva foi bem mais solícita.

- Claro! Já volto com o seu sundae.

Ela saiu dali e eu dei risada enquanto o Finn balançava a cabeça.

- Tu adora infernizar essa garota né?

- Ninguém mandou ela ser tão esnobe. - Retruquei como se isso justificasse minha babaquice, mas eu sabia que não.

- É mesmo, né? Ela não fala com ninguém, nunca vai às festas, parece um robô. - Blair comentou, mascando um chiclete que fazia um barulho irritante toda vez que ela fazia bolas.

- Na verdade ela vai nas festas que o pessoal que estuda música organiza, mesmo que ela não fale com ninguém, eu já vi ela lá algumas vezes. - Finn argumenta e uno as sobrancelhas, surpreso pelo meu melhor amigo saber qualquer coisa sobre ela.

- Então ela deve ir à festa de hoje porque o pessoal todo da turma de Música vai. - Blair apontou e antes que pudesse responder, ela voltou com o pedido e a loira analisou bem o sundae a sua frente.

Blair me estudou com uma cara sapeca e depois voltou seu olhar para Rachel que estava recolhendo a bandeja do Finn. Ela já não estava mais com o uniforme e parecia já estar indo para a faculdade pois usava a camisa polo azul clara do Clube de debate.

- Na verdade, meu sundae era de chocolate com calda extra. - Blair afirmou, mordendo o lábio volumoso para conter o riso.

Rachel respirou fundo e gargalhei da audácia da loira ao meu lado que uniu as sobrancelhas com ar de superioridade.

- Você pediu de morango. - Rachel rosnou entre dentes.

- Eu pedi chocolate. Será que você é surda? Ou esse seu cabelo horroroso está tapando os seus ouvidos?

- Ou será que você é tão burra que não sabe a diferença de morango e chocolate?

Todos demos risada enquanto a ruiva e a loira se encaravam em uma batalha silenciosa.

- Tá me chamando de burra, água de salsicha?

- Sim, qual parte você não entendeu? Quer que eu soletre? B-U-R-R-A!

Blair deu um sorriso perverso e se levantou da mesa ficando cara a cara com a ruiva que não recuou.

- Você vai se arrepender de ter dito isso, sua insignificante. - A loira garantiu, antes de pegar a taça do sorvete e virar sobre a blusa azul claro da Rachel, que sem pensar duas vezes empurrou Blair.

A loira não caiu, mas ao ver que o gerente estava passando, se jogou no chão e gritou. - Aí! Sua doida, você está me agredindo!

O gerente veio pisando firme e começou a gritar com a ruiva que parecia desesperada.

- Rachel esse comportamento é inaceitável! Você está demitida! - Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, o homem a interrompeu. - Sem mais, Rachel! Você nem trabalhava direito mesmo, estava sempre na faculdade.

- Eu fiz mais turnos que qualquer garçonete!

- Não discute comigo! Esvazia o seu armário e sai daqui!

Pude ver que os olhos dela encheram d'água e em todos esses anos que a perturbava, essa foi a primeira vez que a vi chorar.

- Espero que vocês estejam satisfeitos. - Ela suspirou saindo dali e a Blair se sentou ao meu lado, ostentando um sorriso vitorioso.

Apesar de odiar aquela garota, o fato dela ter sido demitida me incomodou, mas logo essa sensação foi embora quando pouco tempo depois ela voltou da cozinha com a mochila nas costas e um recipiente cheio de calda de chocolate.

- Era calda extra que você queria? Então toma!

Rachel espirrou calda de chocolate no cabelo da loira que começou a gritar e chorar fazendo um escândalo.

- Meu cabelo!

Quando, pensei que tinha me livrado ela espirrou o resto da calda na minha camisa me fazendo levantar rápido para pegar um guardanapo e tentar limpar minha roupa.

- Quê isso? Você ficou louca? - Perguntei assustado.

- Isso é pelos últimos quatro anos BABACA!

Ela ergueu o dedo médio e saiu dali.

Capítulo 2 Tentativas

Eu estava cheio de ódio, mas pensaria em uma vingança mais tarde. Agora eu precisava correr para o banheiro mais próximo e limpar ao máximo a minha roupa para que a diretora não perceba que estou todo sujo. Após muito esforço acho que consegui tirar a maior parte da sujeira e sai dali, indo direto para a sala da Sra. Clark. Cheguei lá com alguns minutos de atraso, graças aquela insuportável da Rachel e logo a secretária avisou que eu podia entrar.

- Atrasado como sempre, né Sr. Park? - A diretora provocou, sem tirar os olhos do computador.

Dei um sorriso sem graça e ela sinalizou para que eu me sentasse em uma das cadeiras em frente a ela. A Sra. Clark estava sempre séria, ela usava o mesmo conjunto social cinza todos os dias, com sapatos pretos sem salto, tinha cabelos grisalhos que estavam sempre presos em um coque. Ela analisou a ficha com as minhas notas mais uma vez.

- É, Sr. Park a sua situação está difícil. Eu diria quase impossível. Mesmo que por um milagre o Sr. conseguisse uma segunda chance para refazer as provas, acha que teria conhecimento para obter a nota máxima em todas as matérias?

- Claro!

- Sozinho, sem nenhuma ajuda e sob a minha supervisão, agora mesmo?

Eu arregalei os olhos engolindo em seco.

- Foi o que eu pensei. Infelizmente parece que eu não vou poder te ajudar.

O desespero tomou conta de mim e quando percebi estava praticamente implorando à mais velha uma segunda chance.

- Sra. Clark, por favor eu faço qualquer coisa!

- Por mais que eu queira ajudar é impossível que você aprenda a matéria do semestre inteiro, são oito matérias, sem contar que o Sr. está devendo horas extracurriculares obrigatórias.

- O quê?

- Todo aluno tem que cumprir no mínimo sessenta horas extracurriculares e o Sr. não tem nenhuma.

- Por favor, Sra. Clark eu estou implorando. - Insisti e ela me olhou parecendo não saber o que fazer.

- Para ser aprovado teria que fazer no mínimo quatro horas de monitoria por dia, sete dias por semana com a nossa tutora para poder pegar a matéria e teria que comprometer todos os seus finais de semana até o final do verão para poder cumprir as horas. Seria algo muito puxado e mesmo assim, não é certeza de que você iria conseguir.

- Não tem problema! Eu quero tentar assim mesmo!

Ela me observou como se estivesse medindo o meu nível de desespero e logo apertou um botão no telefone.

- Mary, chame a Srta. Jennings aqui por favor.

- Sim, Sra. só um minuto.

- Se existe alguém que pode te ajudar é a Srta. Jennings. Ela é a mais experiente em monitoria de alunos, além de ser capitã da nossa equipe de debates. Ela também é responsável pelas atividades extracurriculares dos alunos, então pode conseguir as aulas que você precisa para completar suas horas. Com a ajuda dela talvez o Sr ainda tenha uma chance.

Aquela possibilidade me encheu de esperança, mas logo a minha paz acabou quando uma voz irritantemente conhecida invadiu a sala da diretoria.

- Sra. Clark? A senhora me chamou? - A ruiva perguntou com um sorriso gentil.

- Sim, Srta. Jennings, tenho um aluno aqui precisando de monitoria urgente além de horas complementares.

Rachel sorriu, mas quando colocou os olhos sobre mim seu sorriso se desfez.

- O caso dele parece impossível à primeira vista, mas acho que com a sua ajuda ele consegue escapar da reprovação. - A diretora comentou e vi um sorriso diabólico se formar no rosto da ruiva, como se ela esperasse por aquele momento a muito tempo e travei ao perceber que estava nas mãos da minha maior inimiga.

- Poxa, eu queria muito poder ajudar, mas perdi o emprego hoje e estarei ocupada demais procurando outro para poder dar aulas.

O semblante da Sra. Clark que antes estava esperançoso, agora parecia ter aceitado a derrota.

- É Sr. Park a Srta. Jennings era a sua última esperança.

- Não é possível! Tem que ter outro jeito.

- Não consigo pensar em nenhum!

- Bem, se a Sra. não precisa mais de mim eu tenho que ir para a aula agora. - Rachel interrompeu a discussão.

- Sim, Srta. Jennings tenha uma boa aula.

- Obrigada!

Ela saiu dali e a Sra. Clark deu de ombros.

- Não é possível. Deve haver algum outro jeito.

- Pois não tem, sua melhor chance agora é tentar convencer a Srta. Jennings a te ajudar, ela nunca se recusou a ajudar alguém antes.

A mais velha aponta para a porta, evidenciando que não havia mais nada que ela pudesse fazer e saio dali, caminhando desanimado pelos corredores do prédio antigo. Eu tinha que dar um jeito de convencer aquela insuportável a me ajudar. Apesar de odiá-la eu sabia que ela era a única ali inteligente o suficiente para realmente me salvar de uma reprovação. Decido procurar por ela, mas percebo que não tenho a menor ideia de onde encontrá-la, então volto à diretoria para perguntar. Algum tempo depois, entro sorrateiramente na sala onde ela assistia concentrada a aula de economia e percebo sua surpresa quando me sento na cadeira ao lado dela, pela forma que suas orbes esverdeadas se arregalam.

- O que você está fazendo aqui, idiota? - Ela sussurrou entre dentes, tentando não chamar atenção.

- Olha, eu sei que você me odeia e tem razão para isso, mas eu preciso muito da sua ajuda. Eu não posso reprovar.

- Isso não é problema meu!

- Por favor Rachel!

- Ah, você sabe o meu nome? Porque até onde eu me lembro você sempre me chamou de água de salsicha, cabelo de espantalho, sardenta... - Ela lista e sabia que se fosse citar cada apelido com o qual a perturbei, ficaríamos aqui até o fim da semana.

- Tá, olha me desculpa.

- Desculpas não vai fazer eu ter o meu emprego de volta.

- Qual é? Era só um empreguinho ruim em uma lanchonete suja.

- É, mas era trabalhando naquela lanchonete suja que eu conseguia pagar meu aluguel e as minhas contas. Nem todo mundo tem família rica, algumas pessoas precisam trabalhar para ter um teto sobre a cabeça.

Por um minuto ela parecia o meu pai falando, apesar de estarmos falando baixo já estávamos chamando a atenção do professor que vez ou outra me encarava por trás dos óculos de armação metálica.

- Olha eu posso te pagar pelas aulas.

- Nem por todo o dinheiro no mundo.

- Qual é Rachel?

- Você não tem mesmo noção do quanto me fez mal hoje, não é?

Ela deu uma risada debochada como se não estivesse acreditando na minha atitude.

- Olha eu já pedi desculpas.

- Eu já disse -

- Eu sei, desculpas não vai trazer o seu emprego de volta. Mas eu posso te pagar muito bem se você me ajudar.

- Garoto, coloca uma coisa na sua cabeça. Eu quero distância de você!

Ela elevou um pouco a voz e o professor nos encarou, dessa vez a voz dele ecoou pela sala.

- Algum problema Srta. Jennings?

- Sim Professor, esse aluno não faz parte dessa turma e está me importunando.

- Sr. faça o favor de se retirar.

A encarei sentindo meu rosto queimar de ódio e saí dali pisando firme. Quando estava passando pelos corredores da universidade ouvi o Finn me chamando, mas estava nervoso demais para conversar agora então passei direto.

- Ei! Ei, pera aí cara! O que foi?

- Aquela água de salsicha dos infernos.

- Ah não, o que houve agora?

Eu tentei me acalmar contando tudo para o Finn, que me encarou preocupado ao saber que eu poderia ser reprovado, ele conhecia bem o meu pai e sabia como ele era rígido.

- Cara o que você pretende fazer agora?

- Não tenho a menor ideia.

- Você tem que dar um jeito de convencer a Rachel a te ajudar.

- Mas eu já fiz de tudo, já pedi desculpas, ofereci dinheiro. A desgraçada me odeia!

Finn parou um tempo parecendo estar pensando um pouco.

- E se ela não te odiar?

- Como assim Finn?

- E se esse ódio todo for só porque na verdade ela é apaixonada por você?

- O quê?

- Pensa bem? Dizem que o amor e o ódio andam de mãos dadas.

- É, mas no nosso caso é só ódio, sem amor.

- Você não sabe o que se passa naquela cabecinha sardenta.

- Mesmo que você esteja certo, o que você está sugerindo? Que eu saia com ela, para ela me ajudar? Credo, que nojo!

- Não tô falando nada disso. Tô falando que se for isso, se você tratar ela bem pode acabar convencendo a pimentinha a te ajudar.

Eu paro para pensar e Finn tinha razão, mesmo que ela não gostasse de mim, não existia mulher que não se rendesse aos meus encantos.

- É, acho que não custa nada tentar, mas como vou chegar nela? Quando ela me vê só falta erguer um muro para fugir de mim.

- Que tal na festa de hoje à noite? Ela sempre vai nas festas que o pessoal que estuda música vai. Ele me encarou e acabei sorrindo. É, parece que eu tinha uma missão e teria que usar todas as minhas armas para poder convencer aquela bruxa a me ajudar.

Capítulo 3 Descobertas

Fui para casa tomar banho, vesti uma das minhas melhores roupas, me perfumei e esperei o horário da festa. Quando cheguei ao local procurei a festa inteira por ela, mas não a encontrei em lugar nenhum. Não é possível, será que ela não chegou ainda? Ou será que eu só não a vi? Isso é impossível, a garota é praticamente um sinal de trânsito com aquele cabelo vermelho. Eu avistei o Finn e fui até ele.

- Fala aí tu viu a água de salsicha?

- Vi sim, a última vez que a vi ela tava seguindo o pessoal da turma de música lá para o andar de cima onde eles vão se apresentar.

- Valeu, tô indo lá!

Senti uma mão acariciar o meu ombro.

- Oi, você me disse que ia ficar comigo essa noite. - Blair cobrou, mas não podia me distrair no momento.

- Foi mal gatinha, essa noite não vai rolar.

Me desvencilhei de seu toque e pude ouvir a loira resmungando. Fui até o segundo andar onde um cara estava tocando violino. Logo vi Rachel encostada sozinha em um canto com um copo de cerveja na mão que ela não parecia estar bebendo. Ela usava uma calça jeans, all star azul e uma blusa preta larga demais com algum símbolo que eu não reconheço. O cabelo dela estava solto e como sempre, quase tão rebelde quanto a dona. Ela estava tão concentrada em algo que não identifiquei que nem percebeu minha aproximação. Cheguei por trás dela, colocando uma mão em sua cintura surpreendentemente fina e quando ela notou que era eu, só faltou me bater.

- Você tá louco?

- Calma Rach!

- Não me chama assim e sai de perto de mim!

- E se eu quiser ficar perto? - Sussurrei próximo ao seu ouvido e ela se empertigou.

- O quê? Tá ficando doido?

- Não. Só pensei que nós podíamos, sei lá, deixar toda essa raiva de lado e curtir um pouco.

Ofereci meu melhor sorriso sedutor, mas quando pensei que ela estava cedendo sua gargalhada me surpreendeu. Ela ria da minha cara a ponto de ficar vermelha.

- Tá rindo de quê?

- Nossa, você deve estar muito desesperado mesmo.

- Não é isso. Eu só pensei que talvez todo esse ódio seja tesão não resolvido.

- Credo! Não. Que nojo! É só ódio mesmo.

Eu tinha dito a mesma coisa para o Finn, mas parte do meu orgulho estava irritado por uma garota tão insignificante me dispensar. Eu ia falar alguma coisa, mas de repente a direção do olhar dela mudou e vi um brilho em seus olhos que eu nunca tinha notado antes. Ela sorriu mesmo sem perceber e pareceu esquecer completamente que eu estava ali. Quando segui a direção de seu olhar, vi que ela estava olhando o Jasper que era a principal estrela do pessoal que tinha aulas de música.

Ele fazia pequenos shows em bares por aqui, eu já fui em vários deles e podia dizer que éramos amigos, mas não entendi porque a doida mudou tanto só ao vê-lo subir no palco. Tentei puxar assunto com ela algumas vezes, mas ela parecia vidrada em cada mínimo movimento que Jasper fazia, me ignorando totalmente. Ela ostentava um sorriso insistente de orelha a orelha e quando ele terminou de se apresentar, ela o aplaudiu mais forte do que qualquer um. Assim que ele desceu do palco, ela foi até ele e me aproximei um pouco para ouvir tudo.

- Oi parabéns, a apresentação de hoje foi incrível.

Ele sorriu e ela pareceu se derreter como uma adolescente em algum filme ruim.

- Você acha? Eu desafinei tanto hoje.

- Tá brincando? Foi incrível!

- Fico feliz que você tenha gostado.

Ela sorriu e eles se encararam por alguns minutos desconfortáveis. Quando ele deu de ombros e ia sair dali, ela tirou algo da bolsa e vi que era algum CD que eu não reconhecia.

- Jasper?

Ele se virou para encará-la e ela escondeu o rosto atrás do CD parecendo subitamente tímida.

- Uau!

- É, no seu último show eu ouvi você dizer que estava procurando por esse álbum então eu vi em uma lojinha perto da Broadway e resolvi trazer para você.

- Nossa, você comprou isso para mim?

- É, quer dizer, não foi nada demais. - Ela disse tímida enquanto ele parecia super animado com o CD como se não fosse possível achar qualquer música na internet.

- É a Golden Edition. Que demais! Poxa eu nem sei como agradecer.

- Que isso, não precisa.

- Mesmo assim, eu quero agradecer. Olha eu tenho que guardar meu violino, mas porque você não busca umas cervejas enquanto eu guardo isso e nós falamos mais sobre esse álbum?

Ela concordou com um sorriso que mal cabia em seu rosto pequeno.

- A propósito qual o seu nome mesmo?

- É Rachel.

- Tá bom Raquel, então a gente se vê.

- Tá bom, vou lá buscar a cerveja.

Ele saiu dali e ela deu alguns pulinhos, como se comemorasse um gol de futebol. Ela estava com um sorriso estampado no rosto, mas quando se virou e viu que eu estava observando tudo, seu sorriso se desfez.

- Nossa, isso foi patético! - Zombei, balançando a cabeça, tentando conter meu riso.

- Cala a boca herpes ambulante!

- Nossa você tem a língua afiada hein? Mas sério, o cara literalmente te chamou de Raquel. Ele não sabe nem o seu nome.

Ela se afastou indo até o andar debaixo para pegar as cervejas e a segui.

- Ele te pediu para ir buscar as cervejas, o que ele quer uma garçonete?

- Sai do meu pé demônio!

- Então aceita logo me ajudar que eu te deixo em paz.

- Nem por cima do meu cadáver.

Ela pegou as cervejas e voltou quase correndo para o andar de cima. Eu podia ver o quanto ela estava animada e isso só mostrava o quanto ela era inocente, porque Jasper claramente não estava a fim dela.

- Você tá fazendo papel de trouxa, Rachel. Você não pode deixar o homem pensar que pode te tratar como quiser senão ele só vai te tratar cada vez pior. Sabe como sei disso? Sou um desses homens!

- Cala a boca advogado do diabo. Não que eu me importe com sua opinião, mas hoje é a primeira vez que nos falamos. Ele não me conhece, é normal agir assim.

Quando voltamos ao andar superior ela começou a procurar por ele, mas não o encontrou. Ao procurá-lo na multidão o vi beijando uma menina bem bonita e antes que eu pudesse evitar, ela seguiu o meu olhar e ficou ali paralisada. Depois de algum tempo ele parou de engolir a outra menina e pareceu notar a presença da Rachel que a essa altura já estava se controlando para não chorar. Ele se aproximou dela, ainda de mãos dadas com a outra garota e pegou umas das cervejas da mão da Rachel dando para a garota que estava com ele.

- Olha Kate, essa é a Raquel que conseguiu para mim aquele CD que eu estava procurando para você.

Nossa! Essa doeu até em mim.

- É, e por que ela fez isso? Por um acaso está a fim dele?

Jasper pareceu surpreso com a desconfiança da menina e olhou para a Rachel buscando respostas. Ela ficou paralisada e sem uma resposta, a namorada de Jasper debochou.

- Ah ela tá apaixonadinha. Que fofa!

Percebi que Rachel ficou sem chão quando olhou ao redor como se buscasse uma rota de fuga.

- Que foi fofa, vai chorar?

A morena debochou e Rachel deu as costas para sair dali, mas a pressa dela era tanta que não percebeu um cara com três copos cheios de cerveja indo em sua direção e acabou derramando na blusa dela. A ruiva baixou o olhar enquanto todos ao redor começaram a rir e quando pensei que ela ia chorar, ela correu saindo dali. Eu a segui e por mais que chamasse seu nome, ela não me respondia.

- Rachel!

- Me deixe em paz!

A voz embargada denunciava sua angústia e ela se encolheu ao sair na noite fria de Nova York. Rachel correu para uma parte onde não tinha ninguém e se sentou em um dos bancos deixando as lágrimas rolarem. Observei por algum tempo analisando se deveria me aproximar ou não, até que me sentei ao lado dela e ela deslizou na direção oposta me impedindo de ver seu rosto.

- Se serve de consolo, eu acho que aquele cara com as cervejas não fez de propósito. Ele não tinha te visto.

- É claro que não! Nem ele nem ninguém, é como se eu fosse invisível.

Já estava acostumado com a revolta dela, mas dei risada daquele absurdo. - Do que você está falando? Você é a garota mais inteligente da universidade. É a líder do clube de debate.

- E de que isso adianta? Eu não tenho amigos, sou completamente invisível. O garoto por quem eu sou apaixonada há quase quatro anos não sabe nem o meu nome. Eu perdi o meu emprego e ainda fui humilhada na frente de todo mundo.

Ela continuava chorando e eu não sabia mais o que fazer, então me aproximei a envelopando em meus braços de forma desajeitada. Ficamos alguns segundos em silêncio e quando pensei que ela estava se acalmando sua voz cortou o silêncio.

- Jayden?

- Não precisa falar nada. Pode chorar.

- Jayden eu vou te dar cinco segundos para me soltar ou vou dar um chute no seu saco.

A liberei imediatamente vendo-a se afastar ainda mais de mim. Ela estava toda encolhida por causa do frio e tirei o meu casaco oferecendo calor.

- Não obrigada, esse casaco deve ter uns cinco tipos de DST'S.

- Caraca! Eu tô tentando ser legal, mas você não colabora.

- Não precisa fingir ser legal, eu não vou te ajudar. Já pode parar de fingir e continuar me odiando.

Ela se levantou e parecia decidida a ir embora. A cada passo que ela dava para longe, eu ouvia a voz do meu pai dizendo que eu era uma decepção. Imaginava ele me expulsando de casa, me imaginava sendo reprovado. Depois que a perdi de vista, uma última ideia desesperada me atingiu. Saí correndo pelas ruas, tentando encontrá-la e quando finalmente avistei seus cachos ruivos destacados na multidão corri até ela.

- Rachel, espera!

- Desiste Jayden! Eu não vou te ajudar.

- Eu te ajudo a conquistar ele.

- O quê?

- Eu te ajudo a deixar de ser invisível e a conquistar o Jasper e você me ajuda com as aulas. - Sugeri, lançando a última moeda de troca que o destino me deu no ar esperando que ela a pegasse.

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