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Código de Honra: A Saga do DON

Código de Honra: A Saga do DON

Autor:: Sandra Agra
Gênero: Romance
Helena Borges se vê em uma situação desesperadora ao descobrir que está grávida de Dominik Rossi, sem saber que ele é um membro da máfia. Quando revela a gravidez, a família de Dominik tenta contra sua vida, forçando-a a fugir para sobreviver. Enquanto isso, Victor Salvatore, o Don da maior máfia italiana, forja sua própria morte após uma emboscada que resulta na perda de sua esposa. Refugiando-se com a filha e alguns funcionários em uma ilha quase deserta, ele busca proteger sua família dos perigos do mundo do crime. Determinada a impedir a chegada do herdeiro fora do casamento, a família Rossi derruba o avião onde Helena está tentando fugir. Após um pouso de emergência, ela acaba na mesma ilha onde Victor se esconde. Com medo de ser encontrada, Helena foge do local onde o avião caiu e se esconde na primeira casa que encontra. Ao acordar em um quarto desconhecido, Helena se vê diante de um homem cuja identidade ela não conhece. O que resultará desse encontro inesperado? Descubra as reviravoltas e os desafios enfrentados por esses personagens ao ler o livro.

Capítulo 1 Prefácio - Helena Borges

Ao chegar cedo ao trabalho, fui informada de que nosso sistema estava passando por mudanças graduais. Algumas máquinas poderiam eventualmente travar durante o atendimento, e teríamos que lidar com os clientes da melhor forma possível.

Aguardar na fila e, no momento de efetuar sua compra, não poder ser atendido pelo fato do sistema sair do ar era algo que deixaria qualquer pessoa irritada. Infelizmente, era uma possibilidade que poderia ocorrer durante meu trabalho naquele dia, e eu rezava para que isso não acontecesse comigo.

No entanto, quem disse que eu era imune a esse tipo de azar? Minha máquina registradora travou e, após tentar tudo, tive que chamar o gerente, pois mesmo após reiniciar, o sistema não voltou a funcionar. Foi então que sugeri abrir o caixa ao lado para que eu pudesse continuar meu atendimento, enquanto eles tentavam solucionar o problema com aquele.

Meu gerente chamou o encarregado do sistema, e foi então que um homem moreno, lindo, sexy e com um ar misterioso apareceu. Seu sorriso era um convite para o desconhecido, além de ele esbanjar uma confiança inabalável em sua postura, uma presença que comanda atenção sem sequer tentar. No entanto, foquei minha atenção no trabalho.

Ainda bem que o cliente da vez era o Sr. Manoel. Apesar de idoso e com uma idade bem avançada, seu humor era como o de um jovem, e nem todos os jovens possuíam a alegria daquele senhor. Após passar quase metade de suas compras, expliquei que teria que realizar tudo novamente, agora no caixa ao lado.

- Acredito que tirei o bilhete premiado. - Sr. Manoel falou, sorridente.

- Bilhete premiado, Sr. Manoel? Mas bilhete premiado seria algo bom, não? - Perguntei, duvidando que esperar para passar suas compras novamente devido a problemas no sistema fosse algo bom.

- Mas claro que isso é algo bom, minha filha. - Disse ele. Olhei para ele sem entender nada, mas com um sorriso no rosto. - Esse imprevisto me faz desfrutar mais de sua companhia. Você me faz lembrar minha querida esposa em nossa época de juventude. Sempre de bom humor. - Ele continuou, e não tinha como não amar aquele senhor.

- Mas me responda, Sr. Manoel, adiantaria estar aqui de mau-humor? Isso não facilitaria meu dia, só o tornaria ainda pior. Oferecer um sorriso torna feliz o coração, enriquece quem o recebe, sem empobrecer quem o doa.

- Por isso faço tanta questão de ser atendido por você, minha filha. Mesmo que a fila esteja um pouco maior, você enriquece mais o meu dia com seu lindo sorriso.

- Fico muito lisonjeada por isso, Sr. Manuel! - E, quando nos demos conta, já havia passado suas compras, sem nenhum tipo de reclamação por parte dele.

No entanto, notei que estava sendo observada pelo encarregado do sistema, que tentava fazer com que o sistema do meu caixa voltasse a funcionar.

Após a saída do Sr. Manoel, olhei melhor para ele. Ele era realmente lindo, e seus olhos de um verde profundo me encararam de volta. Devolvi um sorriso envergonhado. Contudo, logo comecei a atender outro cliente, e naquele dia o supermercado estava realmente muito movimentado.

Quase sempre era uma das últimas a sair para almoçar. Quando me sentei para desfrutar do meu horário de almoço, não esperava companhia. Até que aquele homem charmoso se sentou ao meu lado.

- Você sempre trabalha com todo aquele bom humor? - Ele perguntou, colocando seu prato na mesa.

- Sempre tento. Torna meu dia melhor. - Respondi, simplesmente.

- Acredito que você foi a única que não escutei reclamar de nada até agora. Isso realmente é surpreendente, pois já passei por quase toda a loja, e não apenas aqui nessa unidade. - Aquilo me fez rir.

- Lamentar não resolve problemas. Só nos deixa mais amargos...

- Faz sentido - ele disse simplesmente e sorriu. Voltamos a comer em silêncio.

Depois daquele dia, ele sempre fazia questão de comer no mesmo horário que eu. Não sei como ele sabia o horário, pois, vez ou outra, alguém pedia para trocar comigo, mas todas às vezes que eu chegava ao refeitório, ele aparecia logo depois. Assim, construímos uma amizade, até que, após um tempo, ele me convidou para sair, e eu aceitei feliz.

Todos o conheciam como o rapaz de TI, e ele sempre se apresentava como Dominik Nunes, então nunca o ligariam ao império Rossi. Após alguns meses, engatamos um relacionamento sério. Ele foi um verdadeiro príncipe encantado em nossa primeira noite juntos.

Não fui a primeira dele, mas ele foi meu primeiro homem. Então, aquela noite havia sido mágica para mim. A forma como ele foi cuidadoso, gentil e amoroso durante todo o processo foi de um verdadeiro cavalheiro.

Depois daquele momento, tudo foi ficando mais sério, e quando nos demos conta, ele estava quase morando em minha casa. Mas em nenhum momento ele havia falado de sua família, e eu, idiota, imaginei que ele fosse tão sozinho quanto eu. Após a morte de meus pais, eu não tinha mais ninguém. Era só eu e o mundo diante de mim.

Quando minha menstruação atrasou, imaginei que poderia ser algum problema hormonal, afinal, eu sempre fui muito pontual com minhas injeções anticoncepcionais. Um filho poderia atrasar meu sonho profissional, e eu nunca havia conversado sobre isso com Dominik. Ele sabia apenas que eu tomava as injeções e nunca me questionou a respeito.

Comecei a sentir um pouco de enjoos matinais e comentei com uma amiga. Ela me aconselhou a fazer o teste de farmácia, mesmo que eu acreditasse que fosse apenas um problema hormonal. Era melhor descartar a possibilidade de gravidez antes de considerar outras hipóteses.

Naquele mesmo dia, passei na farmácia e comprei o teste sem mencionar nada para Dominik. Ele me ligou informando que chegaria mais tarde em casa, e quando finalmente chegou, me viu chorando, demonstrando preocupação.

Após revelar o motivo para estar naquele estado, ele simplesmente disse precisar sair e me deixou sozinha. Engraçado que, naquele momento, senti que não poderia contar com ele. Percebi que ele encontraria uma forma de se afastar de mim e, por incrível que pareça, não me importei muito com isso.

O que realmente me machucou não foi ele ter me deixado sozinha, mas sim o fato de ter me feito de idiota durante tanto tempo. Estava com raiva de mim mesma por acreditar que ele era o príncipe encantado, quando, na verdade, não passava de um lobo mau.

Passaram-se alguns dias sem nenhum tipo de contato. Nem mesmo uma mensagem de texto. Ele simplesmente sumiu, e nem no trabalho ele voltou a aparecer. Até então, não havia revelado a ninguém sobre minha gravidez e não pretendia fazê-lo.

Queria primeiro esclarecer que não estávamos mais juntos e depois revelar que estava carregando um filho meu, cujo pai era desconhecido. Quase um mês após não ter mais nenhuma notícia de Dominik, ao chegar em casa, o encontrei na sala, sentado e aguardando por mim.

Aquilo me enfureceu de tal forma que até eu não me reconheci naquele momento. Ele invadiu meu espaço após ter virado as costas e sumido. Não tinha o direito de achar que, por não devolver a chave, poderia simplesmente entrar em minha casa e me esperar lá, sem nem ao menos me perguntar se podia.

- O que você está fazendo aqui? - Perguntei irritada.

- Temos que conversar - Dominik falou simplesmente.

- Você não acha que está um pouco atrasado para isso? - Perguntei com ironia.

- Você precisa retirar essa criança. - Aquele idiota disse. Nesse momento, dei uma risada.

- Estou te pedindo alguma coisa? - Ele apenas me olhou. - Então suma daqui, mas antes me devolva a chave.

- Estou falando sério, Helena, você precisa abortar essa criança. - Ele insistiu.

- A única coisa que vou retirar daqui é você, com um cabo de vassoura, se não sair de boa vontade. Esqueça que eu existo, esqueça onde moro e, se possível, até meu nome, seu canalha. Agora suma daqui! - Falei, gritando com ele, que me olhou e percebi uma pequena mudança em seu olhar.

- Você descobriu sobre minha família. Posso garantir que, se você tentar nos chantagear, não vai acabar bem para você. - Ele disse, irritado.

- De qual porra de família você está falando? Quer saber, eu não quero ouvir, Dominik. A única coisa que quero é que você suma da minha vida e esqueça que eu existo. - Gritei. Ele não disse mais nada, deixou as chaves em cima da mesa e saiu.

Alguns dias depois, ao chegar no trabalho, recebi a informação do gerente de que precisava passar no RH. Quando cheguei lá, Luiza me encaminhou até a diretoria, e mesmo sem compreender o que estava acontecendo a seguir.

No entanto, não estava preparada para o que estava por vir, e meu olhar de surpresa realmente foi notório. A dona da rede, Úrsula Rossi, estava lá, juntamente com outra moça e ninguém menos que o Dominik.

- Helena Borges, caixa premiada com excelência pela rede Rossi repetidamente durante alguns meses consecutivos. - A Sra. Rossi disse, com minha documentação em mãos. Eu apenas olhei para ela, ignorando totalmente aquele idiota naquela sala.

- Sim, senhora - foi tudo que consegui dizer.

- Deixe-me apresentar meu filho, Dominik Rossi, Srta. Helena, apesar de acreditar que vocês já se conhecem. E essa ao seu lado é sua esposa, Yasmin Cassi. - Apenas os cumprimentei com um aceno de cabeça, apesar da minha enorme vontade de vomitar naquele momento.

Foi só naquele instante que descobri que ele não era simplesmente um funcionário daquela rede, como eu pensava. Ele era o herdeiro de tudo aquilo. E o mais surpreendente: havíamos passado muito tempo juntos, e ele nunca mencionou nada. Para completar, ele era casado.

Nunca havia investigado a vida dele, nunca exigi nada. Eu, ingenuamente, apenas abri a porta da minha vida para ele.

- Bem, Srta. Helena, infelizmente, precisaremos proceder com o seu desligamento da empresa por alguns motivos óbvios que posso enumerar para você... - Ela disse, olhando-me de cima a baixo.

- Não será necessário, senhora. Apenas me diga quais documentos devo assinar para formalizar meu desligamento. - Interrompi, e tanto ela quanto Dominik me olharam surpresos. Notei que Yasmin me encarou antes de voltar o olhar para o marido, mas não disse nada.

- Você nem vai questionar o motivo do seu desligamento? - Úrsula Rossi perguntou, debochando da minha atitude.

- Se não sou mais bem-vinda aqui, depois de todos os anos de excelente trabalho, posso deduzir que não fui valorizada, senhora. Então, sinceramente, não farei questão de permanecer em um local assim. Aceito minha demissão. - Disse.

Ela me olhou irritada, claramente não esperando minha atitude. Percebi que seus olhos se dirigiram à minha barriga, mas a ignorei completamente, agindo como se não tivesse entendido aquele olhar.

Sou uma pessoa extremamente dedicada a tudo que me proponho fazer. Não costumo desistir facilmente do que acredito, mas há momentos em que persistir se torna sinônimo de burrice. Foi então que Luiza entrou com a documentação, indicando-me onde deveria assinar.

Peguei a caneta e assinei em silêncio. Tudo o que eu queria era sair dali o mais rápido possível e ir ao banheiro. Esforcei-me ao máximo para controlar o impulso de vomitar sobre aquela mesa. Após assinar tudo, virei as costas para todos e saí da sala.

Aquele cretino me fez de idiota todo esse tempo. Isso fez com que meus olhos se enchessem de lágrimas, mas eu as segurei até entrar no banheiro e verificar que estava sozinha. A ânsia de vômito só piorou, então corri para o vaso sanitário. Adeus, meu café da manhã.

Tive certeza de que a Sra. Rossi sabia da minha situação, mas isso não fez diferença alguma para ela. Acredito que talvez fosse uma forma de me pressionar a fazer o que eles queriam, mas jamais abriria mão do meu filho ou filha.

Isso nunca. Saí daquele banheiro e fui até o meu armário recolher as minhas coisas. Enquanto estava ali, a porta se abriu, mas não me dei ao trabalho de olhar quem era.

- Como você cuidará dessa criança, após ser demitida do trabalho? - Dominik perguntou.

Sério que ele se deu ao trabalho de vir até aqui me perguntar isso? Simplesmente o ignorei e continuei recolhendo minhas coisas.

- Estou falando com você, Helena! - Ele segurou meu braço com força.

- Me solte, agora. - Olhei para ele e ele pareceu surpreso. - Falei para você me esquecer, coisa que você fez muito bem até ontem, então só continue. Esse filho é meu, e apenas meu. Não há motivo para você se preocupar com nada em relação a nós, continue vivendo sua vida perfeita, Dominik.

Saí daquele estabelecimento me sentindo renovada. Só queria que Dominik cumprisse realmente o que pedi e me esquecesse. Que se esquecesse de que um dia tivemos algo e que disso resultou o filho que carrego.

Não me preocupei com minha situação financeira, pelo menos não por enquanto. Afinal, tinha uma reserva muito boa da venda da floricultura dos meus pais. Depois daquela venda, eu poderia ter me sustentado por alguns anos sem precisar trabalhar, mas decidi não me dar esse luxo.

Capítulo 2 Fugindo - Helena Borges

Quando Úrsula Rossi me visitou, não havia como esconder minha gravidez. A pequena saliência já era visível em meu ventre, e eu imaginei que ela queria discutir um acordo para garantir meu silêncio sobre o relacionamento que tive com seu filho.

Afinal, ele estava casado com outra mulher, provavelmente durante o mesmo período em que estivemos juntos. No entanto, aquela mulher ardilosa queria que eu a acompanhasse para um procedimento de curetagem. Eu nem sabia o que era aquilo, até ela me explicar do que se tratava.

Quando aquela mulher afirmou que eu era "dura na queda", deduzi que os incidentes consecutivos que surgiram do nada após ter deixado aquele emprego não foram meros acasos, mas sim algo planejado por eles para alcançarem seus objetivos.

Ela disse haver decidido vir diretamente a mim para facilitar as coisas. Apenas a presença daquela mulher me deixava com um frio na espinha, mas, ainda assim, declarei que, se ela não saísse de minha casa naquele momento, eu faria um verdadeiro escândalo, e todos os jornais saberiam o que havia acontecido.

Ela se foi, no entanto, deixou claro que eu havia escolhido a forma mais difícil de resolver as coisas e que, de uma forma ou de outra, meu filho não chegaria a nascer. Eu não precisava da maldita presença de um homem para criar meu filho.

Antes de ela aparecer, Dominik tinha me dito que eu não poderia ter aquela criança. Eu simplesmente o mandei ir para o inferno, que sumisse da minha vida e nunca mais me procurasse. Por que as coisas não poderiam ser tão fáceis assim?

Após a visita daquela mulher ao meu apartamento, naquela manhã chuvosa, o desespero tomou conta de mim. Como mencionei, acreditava que os incidentes que me aconteceram após deixar o emprego não foram tão aleatórios assim, não depois da ameaça explícita daquela mulher.

Uma grande amiga que trabalhava na boate Rossi, um dos muitos empreendimentos daquela família, comentou comigo que escutou uma conversa entre alguns clientes sobre aquela família. Segundo ela, não apenas tinham uma grande rede de supermercados para lavagem de dinheiro, como também faziam parte da maior rede da máfia portuguesa.

Consciente de que o tempo, naquele momento, era um luxo de que eu não podia desfrutar, entrei em ação. Rapidamente, arrumei minha mala, levando apenas o essencial. Deixaria para trás tudo o mais, uma decisão difícil, mas necessária naquele momento arriscado.

Doía-me ter que fazer isso. Anos batalhando para conquistar tudo o que tinha, e agora me via forçada a deixar tudo para trás. Não havia outra opção. Não poderia arriscar minha vida e a vida do meu filho.

Minha mente girava freneticamente com inúmeros questionamentos. Como me deixei envolver tanto pelo Dominik? Como nunca desconfiei do que ele fazia parte? Já havia retirado todas as minhas economias do banco, guardando-as comigo, pois, de alguma forma, pressentia que precisaria delas.

Peguei meu passaporte, meu dinheiro, algumas roupas e as vitaminas que estava tomando por orientação médica, e solicitei um carro para o aeroporto. Sabia que não poderia perder tempo, muito menos pensar demais em tudo que estava fazendo.

Aquela família era perigosa, então eu tinha que ir o mais longe possível, para um lugar onde seus tentáculos não pudessem me alcançar. Optei pelo primeiro avião disponível para um país que não exigisse visto, em uma cidade que eu nunca sequer havia imaginado conhecer, muito menos morar.

Tudo valeria a pena para manter-me distante da família Rossi. Aguardei o horário de embarque no próprio aeroporto, atenta a todos os movimentos ao meu redor. Quando finalmente estava dentro daquele avião, comecei a respirar um pouco mais tranquila. Olhei pela janela e lamentei ter que deixar toda uma vida para trás.

No entanto, ao passar a mão na minha barriga, disse a mim mesma que tudo valeria a pena. Eu sumiria do mapa, e eles nunca mais me encontrariam. Construiria uma nova vida para mim e para meu filho, garantindo a ele não uma vida de luxo, mas uma vida repleta de amor.

Algo que ele jamais teria daquelas pessoas. O piloto informou pelos alto-falantes da aeronave que as portas seriam fechadas, o que trouxe mais paz ao meu coração. Após todas as instruções de praxe, a aeronave finalmente decolou.

Não imaginei estar tão tensa até sentir meu corpo relaxar. Olhei pela janela e vi as luzes da cidade ficando cada vez mais distantes, e meu coração voltando ao ritmo normal.

No entanto, após uma hora de voo, ouvimos uma explosão. Nesse instante, a aeronave foi sacudida e vários alarmes soaram dentro dela. Sentimos a queda brusca da altitude e o piloto anunciou uma pane elétrica no sistema. Máscaras de oxigênio caíram de seus compartimentos diante de nós, enquanto o desespero se espalhava entre os passageiros.

Com o coração acelerado e as mãos trêmulas, segurei firmemente a máscara de oxigênio enquanto olhava ao redor, buscando alguma forma de conforto ou solução para a terrível situação em que nos encontrávamos.

O piloto, por meio dos alto-falantes, tentava nos acalmar, pedindo que permanecêssemos calmos e seguíssemos as instruções de emergência. A tripulação de cabine começou a nos orientar sobre o uso correto das máscaras de oxigênio e outras medidas de segurança necessárias naquele momento.

Enquanto isso, a queda cada vez mais brusca de altitude aumentava nosso desespero. Minha vida passou como um filme diante de mim, e por um instante me perguntei se a família Rossi era responsável por aquilo. Após a ameaça daquela mulher, era difícil não acreditar, embora fosse absurdo colocar tantas outras vidas em risco apenas para acabar com a minha.

"Senhores passageiros, infelizmente, não conseguimos restabelecer o controle total da aeronave. Estamos enfrentando uma situação extremamente crítica. Nossos esforços para reverter a pane elétrica não foram bem-sucedidos, e estamos perdendo altitude rapidamente. Neste momento, a única opção restante é uma tentativa de pouso de emergência na água. Por favor, permaneçam calmos e sigam todas as instruções da tripulação".

Capítulo 3 Acidente - Helena Borges

O anúncio do piloto ecoou pela cabine, deixando-nos todos em um estado de choque e apreensão. A ideia de um pouso de emergência na água era assustadora, e a gravidade da situação era inegável. Olhei pela janela, mesmo quando o medo me tomava naquele momento, e percebi a aproximação cada vez mais rápida da água.

As últimas instruções foram dadas pela tripulação, incluindo a posição adequada para o impacto. Eu tentava me controlar o máximo possível, acreditando que, se houvesse alguma chance de sair viva dali, precisava manter a calma.

O impacto foi sentido como uma força poderosa, seguido pelo som da água invadindo a aeronave. Rapidamente, a água envolveu a cabine, criando um ambiente caótico. No momento do impacto, acabei batendo a cabeça contra a fuselagem.

Não sei se a pancada me fez desmaiar por alguns minutos, mas quando meus olhos abriram, senti uma forte ardência no meu braço, além de uma tremenda dor de cabeça. Ao observar ao meu redor, percebi uma parte da tripulação tentando sair da aeronave, que, nesse momento, estava totalmente escura.

A água congelante do mar me fez ficar mais alerta. Observei que uma parte do lado oposto de onde estava sentada havia sido completamente destruída. Escutava muitos pedidos de socorro, muitos gritos de dor, e percebi que outros passageiros não tiveram tanta sorte quanto eu.

Desafivelei o cinto de segurança e segui parte dos passageiros, orientados por alguém que indicava a necessidade de sair da aeronave com bastante cuidado devido aos recifes de corais, conhecidos por muitos como abrolhos, as quais são formações rochosas submersas logo abaixo da superfície das águas oceânicas.

Tinha certeza de que, devido às habilidades dos pilotos, aquela aeronave não explodiu no ar, nem no impacto com a água. Não tinha ideia de onde estávamos, mas para minha surpresa, quando consegui sair, estávamos próximos de alguma costa e não em alto mar. Assim que pus os pés na areia, olhei aquele cenário. Ajoelhei-me e permiti que as lágrimas tomassem conta de mim.

Levei minha mão à barriga, sentindo a bolsa que carregava um pouco destruída. Julguei que, se não fosse por ela, minha barriga estaria machucada. As pessoas começaram a ajudar umas às outras naquele momento. Agradeci aos céus, porque mesmo em um acidente tão grave quanto aquele, meus ferimentos, apesar de profundos, eram mínimos, ou assim eu julgava.

Os feridos começaram a ser colocados na areia, e alguns pertences também foram retirados da aeronave. Apesar de não ser da área de saúde, eu tinha noção básica de primeiros socorros devido à minha formação como bióloga. Achei necessário fazer um curso, afinal, em algum momento, pretendia atuar na minha área.

Olhei para meu braço, onde havia um profundo corte, e sabia que, se conseguisse estancar o sangramento ali, poderia ajudar outras pessoas em situações piores que a minha, até que a ajuda de fato chegasse até nós.

Fui direto para algumas malas jogadas na areia e, ao abrir uma delas, retirei uma gravata que poderia servir como torniquete. Levei-a até um rapaz e pedi sua ajuda com isso. O corte parecia realmente profundo, mas havia pessoas em situações ainda piores que a minha.

Observei um rapaz que também necessitava de torniquete. Corri até a mala que eu havia aberto e peguei outras gravatas guardadas. Depois disso, fui ajudando no que podia. Não demorou muito para a ajuda chegar até aquele local.

Provavelmente, muitas pessoas presenciaram a queda daquela aeronave, sem mencionar as informações no transponder da aeronave para o controle de tráfego aéreo.

Muitas viaturas da polícia, ambulâncias e bombeiros apareceram empenhados em ajudar os feridos. Até mesmo um helicóptero foi providenciado para transportar os pacientes mais graves e urgentes para o hospital mais próximo.

Sentei-me na areia por um momento e olhei para aquela aeronave no mar. Meu braço latejava e uma dor de cabeça infernal não me permitia relaxar, mas estava grata por sobreviver. Após um tempo observando tudo aquilo, reparei em alguns homens de terno procurando por alguém em específico, mostrando uma foto às vítimas daquele acidente.

Poderia estar enganada, mas não daria chance para o azar. Lembrava-me do motivo de ter fugido. Não sabia o quão longe aquela aeronave foi e não perderia tempo tentando descobrir. Aqueles homens poderiam estar a serviço da família Rossi, ou eu poderia estar muito paranoica.

Minha amiga havia dito que os Rossi pertenciam à máfia portuguesa e eram temidos por muitos naquela cidade. Inclusive, seus tentáculos estavam crescendo com alguns acordos que estavam fazendo fora do país. Se eu soubesse disso antes, nem teria me candidatado a uma das vagas naquele supermercado.

Aproveitei a escuridão da praia e fui me distanciando do local do acidente. Eu sabia que precisava me esconder. Depois de muito caminhar, avistei uma mansão. Normalmente, essas casas à beira-mar são ocupadas principalmente na alta temporada, mas não estávamos nela, então esperava que aquela pudesse me manter escondida por um tempo.

Ela parecia luxuosa, mas não vi nada que impedisse minha entrada pela parte de trás. Eu precisava apenas de um lugar escondido para me manter até amanhecer. Meu corpo começou a dar sinais de cansaço extremo.

O pequeno portão da parte de trás da mansão estava apenas encostado. Abri-o e uma vasta área se revelou para mim. Procurei um local onde pudesse me manter escondida. Sentei-me próximo a uma lavanderia e observei algumas roupas ali estendidas, confirmando que havia pessoas naquela casa, mas planejava sair antes que amanhecesse. Meu corpo parecia exausto.

Senti meus olhos fechando e não pude fazer nada contra isso. Quando os abri novamente, estava numa cama confortável, em um quarto muito bem decorado, com a luz do dia entrando pela cortina que protegia a imensa parede de vidro daquele ambiente, e um homem que eu desconhecia estava sentado ao meu lado, me encarando. Não sabia o que havia acontecido, nem quanto tempo havia adormecido, mas o pânico me tomou.

- Calma, ragazza. Você está segura. Fique calma, per favore! - Aquele homem tentava me segurar na cama, enquanto eu gritava, tentando me levantar e arrancar aquele acesso de soro do meu braço.

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