Cinco dias antes do "Baile"
HENRICO
Enxugava a minha navalha quando um barulho chamou minha atenção e interrompeu meus movimentos. Escuto atento, com os nervos já tensionados. O barulho perceptível de uma carruagem se aproximando me fez deixar o objeto que usava sobre a pia, pego uma toalha e, enquanto enxugo o meu rosto, uma batida na porta ecoa pelo ar.
Deixei a sala de banho, indo em direção à porta, assim que a mesma foi aberta meus olhos ficaram fixos em uma figura de estatura baixa, pele enrugada e com uma expressão grave, "Alfred".
- Vossa Graça, acabou de chegar uma visita.
- Seja quem for o infeliz, diga-lhe para voltar numa hora decente.
- Meu senhor, é um mensageiro do Palácio de Buckingham.
- Que inferno! - digo, mas estava plenamente consciente naquele momento de que ninguém seria enviado pela rainha para me informar de alguma futilidade.
- O que devo dizer Vossa Graça?
- Vou terminar o meu banho. Diga-lhe para esperar.
Minutos depois, de banho tomado, caminhei até o meu roupeiro. Mesmo depois de tudo que me aconteceu, dos fantasmas que me atormentam até hoje, não deixei de aproveitar o luxo e não os poupo ao me dar uma vida de conforto, grandeza e esplendor. Eu sou poderoso, podendo e fazendo tudo que me agradar. Infelizmente quase todos que estão a minha volta são incompetentes. Batalhei pelo que possuo hoje, me tornando a cada dia, um homem frio e implacável, porém, respeitado. Sei que por trás, às minhas costas, me chamam de o duque perverso, porém, meu império não vive de caridade e seja quem for o infeliz que cruzar o meu caminho, não pensarei duas vezes antes de enviá-lo ao inferno.
Afasto os pensamentos e deixo o meu quarto, atravessando o corredor rumo ao ambiente onde o desconhecido me aguardava. Ao descer a escada, meu olhar atento se voltou para o homem de trajes refinados, e assim que ele notou minha presença, sua voz se fez presente.
- Bom dia, Vossa Graça, duque de Gordon.
- Bom dia! Por que está aqui? - se tem uma coisa que odeio, são as pessoas que não vão logo diretamente ao que desejam e ficam fazendo rodeios. Com as mãos hesitantes e um tanto trêmulas, o homem estendeu um pequeno envelope em minha direção, observei que tinha o selo real, segurei e então ele disse:
- Daqui a cinco dias haverá um grande baile no Palácio de Buckingham. A própria rainha Alexandrina Vitória Regina, solicita sua presença.
Com os olhos fixos no envelope em minhas mãos, a minha vontade era amassar o papel e jogar bem longe, porém, uma sensação totalmente desconhecida pairou sobre mim, era como se uma força muito maior que tudo que já houvesse sentido, me forçasse a aceitar aquele convite e sem que eu pudesse controlar, as palavras saíram dos meus lábios.
- Diga-lhe a Her Majesty a rainha Vitória, que estarei presente.
- Com a sua permissão Vossa Graça, irei me retirar.
Depois que o homem sumiu do meu campo de visão, um único pensamento pairou em minha cabeça.
"Porque depois de seis anos vivendo isolado de todos, me senti impelido a aceitar em ir a esse baile, e por que essa sensação pairou sob mim?"
Enquanto isso em Edimburgo - Escócia...
ANNABELLA
Ouço uma batida na porta. Eu ainda estava deitada, enrodilhada entre as cobertas, com os olhos fechados, a mente enevoada e sonolenta, rezando para conseguir voltar a dormir. No entanto, as batidas se repetiram de maneira mais insistente.
- Menina Anna?
Sento-me abruptamente, tirei as cobertas para o lado e corri para abri-la.
- Bom dia, menina Anna! Desculpe-me por acordá-la.
- Bom dia Betha! Eu já estava acordada.
- Você precisa tomar logo o seu banho. Lord Watson solicita sua presença com urgência na sala para acompanha-lo no dejejum.
Suspirei ao sentir um calafrio percorrer por todo o meu corpo. Há dias não vejo o meu pai, para ser sincera, ele odeia minha presença, sempre vive bêbado e profere palavras que de início, eu não entendia por ser só uma criança, mas com o tempo, eu compreendi que o homem que me deu a vida, não tem nenhum sentimento bom por mim.
Bethany é a minha mãe do coração. Sempre cuidou de mim, desde o momento que vim ao mundo. É a única pessoa que sempre demostrou ter algum afeto pela minha pessoa, por anos a chamei de mãe, até que o meu pai me proibiu de chamá-la assim.
Deixo os meus pensamentos de lado e caminho em direção à sala adjacente, enquanto ela estava arrumando a minha cama desfeita. Alguns minutos depois, já havia tomado um banho rápido, algo que não era muito comum nessa época, já que as pessoas viviam fedendo a suor, e acabavam por banhar somente uma vez na semana, ao contrário de mim que não conseguia manter esse costume de ficar por dias somente fazendo escalda-pés ou um simples asseio matinal. Volto para o meu quarto usando um roupão de seda, cor de safira.
Apressei-me a me vestir, não queria fazer meu pai esperar muito e despertar ainda mais sua ira. Enquanto eu enfiava os braços nas mangas, Betha estava ocupada com os botões minúsculos que seguravam o vestido.
Vestida, mas trêmula interiormente, saí dos meus aposentos e logo estava caminhando pelo longo corredor que dava acesso a sala principal. Comecei a descer as escadas. As luzes das primeiras horas da manhã atravessavam a janela decorativa acima da porta da frente, refletindo-se através do lustre de cristal.
Não demorou muito para meus olhos ficarem fixos no homem que por anos se mantém afastado de mim, com uma coragem que não sentia, continuei caminhando, mas me detive ao ouvir o meu nome. Fiz uma reverência e o cumprimentei:
- Bom dia, Milorde.
Ele direcionou o olhar para mim, me analisando de cima abaixo. Meus batimentos começaram a ficar mais intensos. Ele fez um gesto com a cabeça e sorriu, o que deu alguma ternura às feições severas, fazendo o meu coração se alegrar.
- Sente-se! Temos muito que conversar.
"Depois de muitos anos, será que finalmente o meu pai vai começar a me tratar como sua filha?"
Um turbilhão de pensamentos se fazia presente em minha mente, porém, ouvir as palavras que saíram por entre os lábios do homem a minha frente, me deixou estarrecida.
- Amanhã iremos para a Inglaterra. Um baile acontecerá no Palácio de Buckingham e será a minha única chance de sair do buraco em que me encontro. Desde o maldito dia que você veio ao mundo, só trouxe desgraça para esta casa e para minha vida. Agora chegou o momento de me pagar por todo o mal que trouxe ao nascer.
Trêmula, abri minha boca, mas nenhum som saiu dos meus lábios. Sem que eu pudesse controlar, as lágrimas desciam pela minha face, sentia meu corpo agitado e meu coração batia descompassado. Meu peito queimava com as palavras que não paravam de ecoar em minha mente. Saio do estado estático que me encontrava quando ele volta a falar.
- Todos os homens de grande influência do Reino Unido estarão presentes, e você terá que ter pelo menos alguma utilidade nessa vida. Foi por sua culpa que cheguei até a beira do precipício. Com a beleza que tem, de certo despertará o interesse de alguém que aceite o que tenho em mente.
O meu próprio pai me via como um objeto, sua avareza só era superada pela sua crueldade. Ele não conseguia enxergar nada além das suas próprias necessidades e desejos. Movida por uma raiva que até eu desconhecia, levantei o olhar, encarando-o.
- Nada que o senhor fizer vai me machucar mais do que já não tenha feito. Tive uma infância incomum, a única pessoa que eu tinha em meio à solidão, foi a Betha, no entanto, se o que lhe fará feliz é me ver bem longe, se o meu nascimento trouxe tanto sofrimento para o senhor. Eu farei o que deseja e não importa o que aconteça nesse baile, tudo que não quero é ficar mais ao seu lado.
Antes que eu tivesse qualquer outra reação, senti minhas bochechas queimarem, o estalo do impacto da enorme mão do meu pai, com a minha pele, ecoou no cômodo. Suas órbitas esverdeadas demostravam, assim como suas palavras, o ódio que sentia pela minha existência.
Quando seus lábios se mexeram e ele ia dizer algo, Betha adentrou o ambiente, ao olhar para o meu rosto, seus olhos logo se encheram de lágrimas. O silêncio predominou no ambiente até o momento que o homem a nossa frente perguntou o que ela queria.
- A costureira trouxe o vestido que o senhor encomendou e veio fazer os ajustes necessários.
- Leve essa infeliz junto com você e trate para que o vestido fique perfeito, realçando todos os atributos dela.
Assim que ele terminou de proferir suas últimas palavras, se retirou do cômodo. Eu não conseguia me mexer, sentia que a qualquer momento minhas pernas iam fraquejar, levando-me ao chão. Betha me abraçou, enquanto as palavras proferidas minutos atrás martelavam em minha cabeça.
"Nada que eu possa encontrar naquele baile, será pior do que tenho vivido durante todos esses anos".
Londres - Inglaterra
Dia do baile...
ANNABELLA
Desde o dia que ouvi as palavras do homem que me deu a vida, estou atormentada com tudo isso, desde então, sinto um misto de sensações ruins.
Medo! Pânico! Desespero!
Todos esses sentimentos apoderaram-se de todo o meu ser. E para completar, foram quatro dias de viagem, os quais me deixaram completamente exausta depois de sacolejar dentro de uma carruagem por estradas de terra. Quando chegamos a Londres, o dia estava ensolarado e a temperatura era agradável.
Contemplando a vista pela janela da carruagem, reparei nas inúmeras pessoas andando para lá e para cá, cuidando de suas rotinas diárias. Pedestres e carruagens se moviam pela rua, dividindo o mesmo espaço. Fiquei admirada com um tipo de charrete que abrigava várias pessoas e era puxada por três cavalos, parecia uma espécie de transporte público. Bem que diziam que Londres esbanjava prosperidade.
Naquele momento, a nossa carruagem seguia na direção da estrada que nos levaria a estalagem que iriamos ficar. Alguns minutos depois, quando chegamos ao nosso destino, os baús que estavam carregados, logo foram retirados enquanto adentrávamos o lugar.
Nas horas seguintes, aproveitei para um repouso antes do baile, mas não antes de novamente ouvir todo um sermão de como deveria me comportar no evento, ainda tentei argumentar, mas meu pai estava determinado e se não fosse pelo baile, de certo ele teria me agredido de novo. Deixei meus pensamentos de lado e com a ajuda de Betha, horas mais tarde, comecei os preparativos e passei o restante do tempo me arrumando.
Quando me olhei no espelho, fiquei admirada com o resultado, mas logo o sorriso no meu rosto se desfez ao ver o homem que se tornou a razão da minha agonia e do meu desespero, adentrando o cômodo. Ele me analisou e sua expressão era de agrado e satisfação. Eu tinha escolhido um modelo em tom marfim, com uma saia rodada, sobreposto sobre várias outras, no busto tinha delicadas flores bordadas com fios dourados, combinando com a barra do vestido que também tinha flores, só que um pouco maiores e ia subindo até certa altura. Ele marcava minha cintura com perfeição e atrás, uma espécie de calda, não muito grande deixando o modelo mais elegante. No cabelo, um coque solto, com alguns cachos caindo em volta do meu rosto e pescoço e como enfeite, uma pequena tiara de diamante. Depois de me despedir da minha mãezinha do coração, caminhamos para fora do quarto e em seguida, da estalagem.
Minutos depois, o meu pai instruiu o cocheiro e a carruagem entrou em movimento, afastando-se dos poucos pedestres que andavam pela rua. O veículo trepidava e balançava enquanto se movia pelas ruas: cada movimento era um sinal que a minha liberdade se distanciava e escapava diante dos meus próprios olhos. A minha vontade era levantar dali e sair em disparada para qualquer lugar onde pudesse ser feliz. A repentina tensão que se apoderou de todo o meu ser, aumentou a sensação de que hoje, algo mudaria a minha vida para sempre e a esperança em escapar se desvaneceu.
Saio do meu momento de devaneio quando a voz grave do meu pai se fez presente, me avisando que havíamos chegado. Ao descer da carruagem, senti a brisa refrescante da noite em minha pele. Ele entrelaçou o seu braço ao meu e juntos, seguimos em direção à entrada principal do palácio, assim que foi autorizada a nossa entrada, caminhamos em direção ao salão de Buckingham. Meus olhos ficaram em total admiração com tudo a minha volta. Em meio a tanta gente, o baile é uma fonte inesgotável de visões, sons e a deslumbrante variedade de tecidos, a multiplicidade de vozes que se misturavam com a música tocada, a combinação de aromas dos diversos perfumes tornava tudo perfeito, já que certamente todos os presentes deveriam ter feito um esforço e tomado um banho descente.
Papai começou a andar pelo hall e me conduziu consigo com grande habilidade. Seu olhar percorreu o ambiente em busca de rostos familiares. Meu pai localizou um grupo de conhecidos ali perto e seguimos naquela direção. Depois de dar alguns passos, ele se deteve, me forçando a parar de imediato.
Um cavalheiro baixo e trajado com elegância, o qual aparentava uns sessenta anos, bloqueou a nossa passagem, em seguida sua voz ecoou no cômodo.
- Lord Watson.
- Milorde Langston - meu pai o saudou em resposta.
O homem a minha frente me lançou um olhar malicioso e me analisou de cima a baixo como se eu fosse um prato de comida que ele estivesse pronto para degustar. Senti um forte embrulho em meu estômago, ao ver que meu pai, ao olhar o jeito como o homem me encarava, ainda tratou de aprofundar ainda mais a conversa entre eles.
- Acredito que ainda se lembre da minha filha Annabella? A trouxe para ser apresentada a sociedade.
- Como poderia esquecer um rosto tão bonito como da senhorita Watson. Desde o momento que vocês adentraram o ambiente que todos a seguem com o olhar, para um homem solteiro, assim como eu, uma mulher como a Lady Watson, sem dúvidas, é alguém que desejamos nós envolver e nos unir a ela.
O tom de intimidade da voz do velho asqueroso, que tem idade para ser o meu avô, não me passou despercebido, em seguida ele riu, e os convidados ao redor cravaram os olhos em nossa direção. O meu pai vendo o interesse do homem, começou a falar de várias qualidades minhas. Um grande nó se formou em minha garganta. Girando a cabeça e simulando interesse no ambiente para que pudesse me desviar da conversa dos dois homens a minha frente, meus olhos passearam em torno do ambiente até que alcançaram um canto do salão. Senti todo o meu corpo estremecer quando meu olhar ficou fixo nos dois homens que estavam a certa distância, virei um pouco obtendo uma melhor visão dos dois, ao mesmo tempo em que o meu coração começou a bater no ritmo alucinante. Nunca tinha visto um homem tão bonito na minha remota vida. Seus olhos são de um azul como se eu estivesse observando o mar. Minhas pernas estavam a ponto de fraquejar. Meu corpo reage de uma forma inusitada, nunca sentida antes por mim, mas assim que um deles se moveu e caminhou em minha direção. Engoli em seco, ficando completamente petrificada.
HENRICO
A noite estava agradável, com o céu claro e uma lua cheia proporcionava bastante iluminação. Assim que minha carruagem chegou a frente ao palácio de Buckingham, uma grande multidão se fazia presente. Minutos depois, quando adentrei o grande salão, atentamente, circulei em torno do ambiente, sintonizado nos movimentos das pessoas ao meu redor, não demorou muito, uma voz que eu reconheceria em qualquer ocasião se fez presente. Identificando a pessoa responsável, lancei um olhar rápido na direção do Lorde Bingham, que se aproximou.
- Duque de Gordon.
- Lorde Bingham.
- Todos estão surpresos com sua presença, após tantos anos vivendo isolado. Vossa Graça nos dá a honra de sua presença.
- De certo que todos esses anos não deva ter perdido nada de importante, pelo menos não tive o desprazer de ter que olhar para o rosto de certos desocupados. - Mesmo tentando disfarçar, eu sabia que a raiva estava o consumindo por dentro.
Esse infeliz acha mesmo que não sei que durante todo esse tempo que estive afastado, ele, assim como outros do seu nível, não parava de comentar tudo que aconteceu naquela maldita noite.
Nós minutos seguintes, além de ter que suportar a presença do infeliz, ele logo avistou o conde de Wiston e seu fiel puxa saco Halrod e os chamou, iniciando uma conversa que pouco me interessava. Ainda não entendia por qual motivo permanecia nesse lugar, cercado de pessoas que mais pareciam uns fantoches, porém, era como se uma força muito maior do que tudo que eu já tivesse sentindo, me forçasse a permanecer mesmo contra a minha vontade.
Não demorou muito, os dois cavalheiros se afastaram e assim que ia me livrar do idiota que permanecia ao meu lado, por uma questão de segundos, meus olhos foram na direção da mais bela imagem em forma de mulher. Nunca, nem mesmo aquela infeliz, foi capaz de mexer comigo de uma forma que não sei explicar. Os vislumbres do perfil dela somente atiçaram o meu desejo de vê-la debaixo de mim, me deliciando do seu delicioso e esculpido corpo. O contato visual me atingiu até o âmago, abalando profundamente meu coração, provocando uma reação primitiva, de suprir o meu desejo, independentemente do que ela quisesse. Sou arrancando dos meus devaneios quando vejo o desgraçado que até então estava ao meu lado, caminhando em sua direção. Senti um nó se formando em minha garganta e a raiva me queimando por dentro.
"Se esse infeliz, pensa que vai cruzar o meu caminho, está completando enganado".
Não importa qual será o preço ou o que eu deva fazer, ela será minha de qualquer maneira. E ao contrário do que aconteceu no passado, farei essa desconhecida saber quem é Henrico II, o duque de Gordon.
Londres - Inglaterra
Castelo de Buckingham
ANNABELLA
Eu estava totalmente imóvel, com olhos fixos na direção do homem de beleza perturbadora, que me tirou o fôlego. Ele continuava parado, me encarando, enquanto o outro homem que estava ao seu lado segundos atrás, caminhava em nossa direção. A voz do meu pai me trouxe de volta ao presente.
- Annabella, o Lorde Langston ficou encantado com você.
Cada olhar dissimulado que o velho babão dava em minha direção, fazia o embrulho em meu estômago aumentar. No entanto, uma voz grave ecoou no ambiente fazendo todos se moverem para identificar a pessoa responsável por aquela voz. O homem vestido de forma elegante, e com um largo sorriso no rosto, que há poucos minutos estava ao lado daquele que fez todo o meu corpo estremecer, se pronunciou.
- Boa noite a todos.
- Lorde Bingham! - Lorde Langston o saudou com uma expressão não muito agradável, porém, o meu pai que antes estava com atenção focada no velho, voltou sua atenção para o Lorde Bingham.
- É um prazer conhecê-lo. Sou Lord Waston, da Escócia, e essa é minha filha, Annabella.
O homem ao ouvir as palavras proferidas pelo meu pai se pôs de lado e fez uma reverência, me saudando, em seguida sua voz novamente se fez presente.
- Boa noite, Lady Annabella. É um prazer conhecer a dama mais linda da noite - ele sorriu de maneira cordial.
Dei um sorriso tímido para ele. Ficamos tão distraídos com a presença do Lorde Bingham, que não escutamos a aproximação do desconhecido. No entanto, senti um arrepio em todo o meu corpo, quando a profunda e potente voz no sotaque peculiar, se fez presente.
- Boa noite, cavalheiros!
Ele estava parado em minha frente, os cabelos loiros resplandeciam como os raios de sol, sob a luz de vários lustres pendurados no teto do ambiente. Suas órbitas azuis eram ainda mais brilhantes de perto. Sua boca era o pecado encarnado. Esculpida pela mão de um mestre, com lábios nem carnudos e nem finos, porém, firmes. Despudoradamente sensuais. Emoldurados por um queixo forte e de traços bem definidos. Saio dos meus devaneios quando ouço a voz do Lorde Bingham, e ao pronunciar o nome do desconhecido, o meu pai que antes estava com uma expressão um tanto confusa, logo se recompôs e um largo sorriso surgiu em sua face, no mesmo instante que suas órbitas esverdeadas tinham um brilho totalmente desconhecido por mim.
- Duque de Gordon. Pelo visto também veio cumprimentar o Lord Waston e sua linda filha, a senhorita Watson.
O homem mantinha uma expressão séria, seus olhos estavam fixos nos meus, seu olhar era extremamente quente, como o de um predador, um modo decidido e sedutor. Sua expressão demostrava que ele sabia o que queria. Um desafio silencioso foi lançado, um longo instante se passou, um tempo que eu mal registrei, pois estava muito concentrada na reação dele. O silêncio foi quebrado quando ele desviou o olhar na direção do meu pai, enquanto os dois homens analisavam cada movimento seu.
- Lord Waston, poderia me conceder a mão da Lady Watson para uma dança? - Nem bem o Duque de Gordon terminou de falar e meu pai logo tratou de responder.
- Com toda certeza, Vossa Graça.
O homem a minha frente se virou novamente para mim, e rapidamente avançou, ficando a pouco centímetros de distância de mim. Então disse:
- Uma dança - ele se curvou e estendeu sua mão.
Desviei meu olhar por um instante, procurando organizar meus pensamentos. Tamanha proximidade me impedia de pensar e até respirar direito. Se a distância, um misto de sensações pairou sobre mim, agora parecia que tinha multiplicado naquele momento. Respirei fundo estendendo a mão para segurar a dele, e em seguida respondi.
- Sim, Vossa Graça.
Ele me conduziu até o meio do salão de Buckingham, logo em seguida me puxou para mais perto de si, fazendo novamente o meu corpo estremecer. O cheiro inebriante e intoxicante do seu perfume logo invadiram minhas narinas. Ele cheirava a sândalo e citrus. Um perfume revigorante, natural e viril.
Ao som da orquestra, começamos dançar, parecia que naquele momento só havia nós dois e mais ninguém. Levantei o olhar, notando os diversos detalhes que só podem ser percebidos com a proximidade extrema. O duque de Gordon tinha cílios longos e espessos em torno dos olhos azulados. Eram lindos, exóticos, acentuados por sombras que vinham tanto de dentro, como de fora. Suspirei ao ver a curvatura sedutora da sua boca e desejei sentir ainda mais todos os detalhes dele: o som da sua voz e o impacto da proximidade com seu físico viril. Deixo tais pensamentos de lado quando ouço sua voz. Engoli em seco, ao perceber que não conseguia tirar a atenção daquela visão, me impressionando com o rumo dos meus próprios pensamentos.
- Sua beleza é estonteante. Você é encantadora. - Ele mantinha um olhar lascivo, denotando um interesse, cem por cento, carnal. No entanto, me assustei com a forma pela qual aquele elogio me afetou, fazendo o meu corpo reagir de imediato. Nunca em toda minha vida, eu me senti dessa forma, não eram só os atributos físicos dele que me fascinavam, uma energia poderosa vibrava, me atraindo como um ímã na direção dele. Um sorriso surgiu entre meus lábios no mesmo instante que um pensamento se fez presente.
"O duque de Gordon parece um dos príncipes que sempre olhava nas histórias".
HENRICO
Quando o maldito do Lorde Bingham me cumprimentou, percebi o brilho no olhar do homem, a quem descobri que se chama Lord Waston. Busquei em minhas lembranças e logo me lembrei de quem se tratava e vibrei por dentro no mesmo instante. Isso será mais fácil do que imaginei. Virei-me para a mulher a minha frente e ficamos nos entreolhando. O meu pau não parava de se contrair entre minhas calças. A maldita, mesmo sem saber, despertava todos os meus instintos primitivos e naquele momento, a minha vontade era experimentar a sensação daquela boca tão bela e em seguida me deliciar do seu corpo jovem. Respirei fundo, girando lentamente a cabeça, voltei minha atenção para o Lorde Waston, que ao ouvir as minhas palavras, logo tratou de dar permissão.
A conduzir até o meio do salão, em seguida, tratei de acabar com a pequena distância que nos separava, a trazendo para mais perto do meu corpo. Enquanto a música tocava, fiquei observando cada traço da mulher a minha frente e suas reações. Estava visível através do seu olhar, o seu interesse em relação a mim, e assim que disse o quanto ela era bonita, só confirmou as minhas suspeitas. Nos minutos seguintes, acabei descobrindo o seu nome.
Depois que a música parou, caminhamos em direção aos três homens que não desviaram por um só minuto, suas atenções de nós dois, e assim que a bela Annabella ficou ao lado do seu pai, minha voz se fez presente.
- Lorde Waston, se não tiver nenhum compromisso para amanhã, gostaria que fosse até a minha residência aqui em Londres. Tenho algo a tratar com o senhor, e adianto que será do seu interesse.
Ao ouvir minhas palavras, como eu já esperava, um brilho surgiu nos olhos gananciosos do homem a minha frente. No entanto, tudo que vi nos olhos dos dois idiotas ao seu lado, foi ódio. Após me despedir, um único pensamento se fez presente em minha mente.
"Em breve a senhorita Watson estará em minha cama, contorcendo o corpo dela sob meu, como resposta a minha penetração firme e profunda. E dela, a única coisa que desejo é o meu futuro herdeiro e sua submissão total".