Eu estava exausta. Não era apenas o cansaço físico de quem andava horas pelas ruas de Nova York, batendo de porta em porta com um currículo nas mãos. Era um cansaço mais profundo, que pesava nos ombros e se infiltrava nos ossos. Um cansaço que vinha da vida, das perdas, das decepções, dos erros.
Perdi minha mãe cedo demais. Meu pai? Bem, nem sei quem ele era. Mas minha avó me criou com todo o amor que podia oferecer, e isso me bastou. Fiz de tudo para ser a menina perfeita, para não dar trabalho, para não correr o risco de perder a única pessoa da minha família que restava. Mas, mesmo assim, cometi erros. Um deles me trouxe a pessoinha mais especial do mundo, e hoje, olhando para ela, sei que cometeria esse erro mil vezes se fosse preciso.
Só que o pai dela... Ele era um idiota. Um idiota que nem sabia da existência dela e fazia questão de continuar assim. E era melhor que fosse desse jeito. Já bastava tudo o que ele tinha feito comigo, a dor, a decepção, os estragos que deixou para trás. Eu não deixaria que ele entrasse na minha vida de novo, muito menos na dela. Minha filha não precisava desse tipo de confusão. Eu não precisava.
Então, todos os dias, eu me levantava cedo e saía para procurar um emprego. Fiz faculdade, me formei. Conheci aquele bando de idiotas que, no fim das contas, só me trouxeram problemas. Engravidei logo depois de pegar o diploma, e os estágios que consegui? Me dispensaram assim que minha barriga começou a crescer. Desde então, tive que me virar de todas as formas possíveis para garantir o sustento da minha filha. Agora ela tem um ano e cinco meses, e eu preciso encontrar algo fixo, algo que me dê segurança.
Sei que muitas empresas querem experiência, e eu tenho. Mesmo que tenha sido por pouco tempo, mesmo que ninguém pareça enxergar o valor do que fiz. Só preciso de uma chance.
E é por ela, por aquela menininha que me olha com olhos cheios de confiança, que eu continuo. Todos os dias, atravesso a cidade com meu currículo em mãos, esperando que, em algum lugar, alguém me estenda essa oportunidade.
A TEC Corporation era imponente. Um gigantesco prédio de vidro que refletia a imensidão de Nova York. Quando ergui os olhos para encarar aquela estrutura, senti meu estômago se revirar. Trabalhar ali parecia um sonho distante, algo quase inalcançável. A concorrência era absurda, mas eu tinha ouvido falar sobre uma vaga de secretária executiva. Não para o Todo-Poderoso, claro, mas para o chefe do setor de tecnologia e desenvolvimento.
Eu havia estudado para isso. E mesmo sabendo que havia candidatos muito mais experientes e qualificados do que eu, eu precisava tentar. Aquela era minha última parada do dia. Entreguei meu currículo, já tarde, e saí apressada. Minha melhor amiga estava cuidando da minha filha, mas logo precisaria sair para o trabalho, e eu tinha que correr para substituí-la.
Peguei o ônibus e me joguei no assento, o cansaço pesando sobre mim como um bloco de concreto. Olhei pela janela, sem realmente enxergar nada. "Vamos ligar." Eles sempre diziam isso. Sempre. E nunca ligavam.
Talvez fosse por isso que eu estivesse tão desanimada. Eu queria voltar para casa sorrindo, feliz por mais um passo dado, esperançosa de que, em algum momento, poderia dar um futuro incrível para minha filha. Mas tudo parecia tão difícil. Tão impossível.
Engoli em seco e pisquei rápido, tentando conter a umidade que ameaçava se formar nos meus olhos. Eu não sou assim. Eu não choro.
Bati levemente no meu rosto, forçando-me a sair daquele ciclo de frustração. Respirei fundo e balancei a cabeça. Eu não posso desabar. Não na frente da minha filha. Ela precisava de uma mãe forte. Quando eu chegasse em casa, eu a receberia nos braços com um sorriso. Porque ela não podia achar, nem por um segundo, que sua mãe era uma fracassada.
Eu vou conseguir.
Quando meu ponto chegou, levantei-me e desci do ônibus, acelerando o passo em direção ao pequeno apartamento onde morava. Dividia o espaço com minha avó, que já estava cansada demais para lidar com tudo sozinha. Por isso, eu pagava o aluguel, mesmo que ela insistisse em recusar. O tempo que ela passava com Aurora era precioso. E se eu conseguisse um emprego decente, ela ficaria feliz. Seria por ela também.
Subi os cinco lances de escada-não havia elevador ali-e, ao chegar, sentia como se meus pés estivessem pegando fogo. Eu estava exausta.
Girei a maçaneta, entrei e fechei a porta atrás de mim. O alívio de estar em casa durou apenas um segundo antes de eu me impulsionar para a sala, onde ela estava.
Minha menina.
Aurora, que começava a criar coragem para dar seus primeiros passos sozinha, sorriu assim que me viu. Seus bracinhos se ergueram na minha direção, as perninhas tropeçando enquanto tentava vir até mim.
Eu me abaixei e a tomei nos braços, apertando-a contra meu peito.
Eu não queria mais soltá-la dali.
Nunca mais.
- Você fica cada dia mais fofa, sabia? - murmurei, beijando o rostinho de Aurora, sentindo sua pele macia sob meus lábios.
O riso dela ecoou pela sala, uma gargalhadinha gostosa que fazia meu peito se aquecer. Minha avó devia estar na cozinha, preparando seu chá como sempre. Eu já havia reclamado muitas vezes, dizendo que ela deveria descansar mais, mas era teimosa.
Aurora era tão pequenininha, tão fofinha, que parecia frágil como um cristal, mas ao mesmo tempo era cheia de energia. Seu cabelo loiro formava pequenos cachinhos nas pontas, e suas bochechas ficavam coradas sempre que eu a pegava no colo. Seus olhinhos brilhavam de alegria, como se eu fosse a melhor coisa do mundo.
- Obrigada, Jess. - Suspirei, vendo minha melhor amiga levantar-se do sofá depois de ter cuidado da minha filha o dia inteiro. Caminhei até ela e a abracei forte. - Prometo que quando eu finalmente for contratada, eu vou te recompensar de verdade.
Jessica revirou os olhos, soltando um meio sorriso.
- Eu já disse que você não me deve nada. Somos melhores amigas, e eu não quero nada de você. - Ela se abaixou para apertar de leve as bochechas de Aurora, que riu ainda mais. - Além do mais, eu adoro ficar com essa hiperativa. Ser madrinha dela foi a melhor coisa que aconteceu comigo, sabia? Porque, sinceramente, acho que nunca vou ter filhos. Pelo menos, vou ter ela para olhar por mim quando eu estiver velha.
Nós duas rimos, e o som da nossa alegria fez Aurora pular nos meus braços, acompanhando a brincadeira.
- Eu amo você, sabia? Você é a melhor amiga do mundo. - Meu tom foi sincero, porque era a verdade. Se não fosse por Jessica e pela minha avó, eu não sabia o que teria sido de mim. - Olha, eu não tenho nada agora, mas prometo que no fim de semana vou te recompensar.
Dessa vez, Jessica cruzou os braços e me lançou um olhar severo, as mãos firmes na cintura.
- Se você não parar com isso, eu juro que nunca mais venho aqui.
Revirei os olhos, dando um passo para trás.
- É sério, Emma. - O tom dela agora era firme. - Eu não quero dinheiro. Vocês precisam disso mais do que eu. E cuidar da Aurora não é trabalho nenhum. Afinal, sou a madrinha dela, não sou?
Suspirei, derrotada, e Jessica sorriu, satisfeita.
- Você vai conseguir esse emprego, eu sei que vai. E eu não quero nada em troca. Só a sua amizade eterna. - Ela olhou para o relógio e suspirou. - Agora eu preciso ir. Meu turno começa logo, e ainda tenho algumas coisas para fazer em casa.
Ela morava no apartamento ao lado, então tecnicamente não ia para muito longe, mas mesmo assim, não a deixei sair sem me despedir direito.
- Obrigada, de verdade.
Ela sorriu, deu um beijo na bochecha de Aurora e piscou para mim antes de sair.
Eu a observei fechar a porta e suspirei, olhando para minha filha, que ainda sorria, completamente alheia às dificuldades que eu enfrentava.
E por ela, por aquele sorriso, eu continuaria tentando.
Muitas pessoas reclamam do meu jeito, mas não ligo. Sou o filho mais velho-pelo menos, o mais velho da minha mãe-de uma família grande. Meus pais eram o casal perfeito, daqueles que pareciam ter saído de um livro. Amavam os filhos com um amor incondicional, algo que sempre invejei. Minha infância foi perfeita. Nasci em uma família rica, cercado de conforto e privilégios. Tive irmãos adotivos, mas a mais nova, essa sim, era minha lógica.
Minha mãe tinha uma história complicada, e talvez por isso fosse tão desconfiada das pessoas. Mas, com o tempo, ela mudou. Se transformou por causa dos filhos. E era invejável. Eu cresci observando o relacionamento dela com meu pai-um amor que só se intensificava com os anos. Meu pai sempre foi meu espelho. Ele protegia a família como um cão de guarda, mas dentro de casa... era outra pessoa. Minha mãe o dominava com um olhar. Tudo o que queria, conseguia com um estalar de dedos ou um silêncio carregado. E ele obedecia. Eu queria ser como ele.
Afinal, herdaria as indústrias da família. A TEC Corporation era uma das maiores do mundo em proteção de dados. Antes do meu pai, foi do meu avô. Antes dele, da minha avó. Era um legado que só crescia. Mas, apesar da minha admiração por meu pai, minhas habilidades eram mais parecidas com as da minha mãe. Ela era brilhante. Obcecada por matemática, engenharia, tecnologia. Cresci assistindo-a criar coisas inovadoras, recebendo prêmios reservados a gênios.
Talvez por isso eu tenha escolhido comandar a Sala de Desenvolvimento em Tecnologias. Sempre que criava novas formas de proteção de dados, sentia como se estivesse em um mundo onde eu tinha controle absoluto. Eu gosto de controle. De ter tudo ao alcance das minhas mãos, resolvendo problemas com um simples toque na tela.
E eu odeio quando as coisas saem dos trilhos. Odeio não estar no comando. Odeio o imprevisível.
Como, por exemplo, minha secretária adoecer justo agora. Ela precisou se afastar, e eu sei que vai aproveitar o tempo livre. Trabalhamos juntos desde que saí da faculdade. Eu confiava nela. Agora, preciso de outra secretária. E isso significa entrevistas. Escolher, analisar. Abrir espaço para alguém novo.
E eu odeio o novo.
- Noah, você aqui de novo?
A voz de Deby me fez parar na entrada da sala. Ela estava com uma das mãos no cinturão, me encarando como se já soubesse a resposta antes mesmo de perguntar.
Deby era uma bela senhora de 50 anos, chefe do RH. E sim, ela sabia exatamente por que eu estava ali. Não importava quantas vezes reclamasse ou dissesse que minha presença deixava as candidatas nervosas. Eu tinha que estar ali. Eu precisava controlar tudo.
- Deby, eu fui até lá e agora sim - cruzei os braços. - Você sabe que a pessoa que vai trabalhar ao meu lado tem que ser perfeita. E para ser perfeita, eu tenho que aprovar.
Ela revirou os olhos, mas um sorriso de canto escapou.
- Você sabe que eu posso arrancar seus olhos se continuar com essa mania, certo?
Eu ri. Ela dizia isso sempre. E, por algum motivo, eu achava engraçado. Deby era uma mulher carinhosa, mas direta, e entendia exatamente como eu funcionava.
- Já disse que...
- ...as candidatas ficam nervosas comigo por perto - completei a frase antes que ela terminasse.
Ela suspirou, balançando a cabeça, enquanto eu dava um passo para trás, tentando não parecer tão intimidador.
- Na verdade, o problema é essa sua cara perfeita, de uma beleza monumental, que as deixam caidinhas por você. - ela apontou para mim com um olhar divertido.
Dessa vez, não segurei o riso.
- Bem, se elas se distraem com a minha aparência, não as quero trabalhando para mim. Esse é o ponto. Preciso de uma ajudante, não namorada.
Enquanto caminhávamos pelos corredores, conversávamos sobre tudo o que eu já tinha exigido: as características, o foco, o perfil ideal. Mas, em algum momento, me distraí. Meu celular vibrou no bolso, e eu já sabia quem era antes mesmo de olhar a tela.
- Vai na frente, Deby. Eu já vou.
Ela assentiu e continuou andando, enquanto eu pegava o telefone e atendia.
- Bom dia, mãe - falei, erguendo os olhos para a câmera no canto do corredor e dando um pequeno tchauzinho.
Eu sabia que ela estava me vendo. Minha mãe podia não ser uma vigilante, mas era obcecada por controle. E, como sempre, sabia exatamente onde eu estava e o que eu estava fazendo.
- Noah, você não tem um trabalho para realizar?
Ouço a voz da minha mãe do outro lado da linha. Posso até imaginar a expressão no rosto dela-sobrancelha arqueada, olhos semicerrados, segurando a paciência.
- Tenho - respondo, sem pressa. - No momento, estou de olho nas candidatas para minha nova secretária.
Expliquei o óbvio, mas é claro que minha mãe não estava nem um pouco interessada nisso.
- Querido, eu já disse que essa sua mania de querer controlar tudo é um exagero. Pode até parecer uma doença.
Engasgo com a própria saliva, quase virando a cabeça bruscamente.
- Eu herdei isso da melhor engenheira de tecnologia do país. Não sei se percebeu, mamãe.
Ela suspira do outro lado. Ela sempre percebe.
- Filho, deixe Deby entrevistar as candidatas em paz. Ou você vai ficar sem secretária por muito tempo. Você sabe que é exigente demais e que, até agora, recusou todas.
Reviro os olhos e fecho o sorriso.
- Eu sou profissional e quero alguém do mesmo nível ao meu lado. Se isso for um crime, então me interne. Esta é a empresa que eu vou comandar no futuro. Preciso de alguém focada no trabalho. Que realmente precise disso. Que entenda a importância do que fazemos aqui. Não alguém que se distraia facilmente ou que vá... - faço uma pausa, escolhendo as palavras - se interessar por mim pelo motivo errado.
Minha mãe fica em silêncio por um instante. Aposto que, nesse momento, percebe que não estou brincando. Então, com um último conselho, ela encerra a chamada.
Suspiro e mexo no celular, tentando voltar à tela inicial. Antes que consiga, algo-ou melhor, alguém-bate contra meu ombro, me fazendo perder o equilíbrio por um segundo. Meu celular escorrega dos meus dedos e cai no chão.
- Ai, meu Deus! Me desculpa!
A voz feminina soa aflita. Quando levanto os olhos, vejo uma mulher abaixada, pegando o aparelho e me entregando com as mãos trêmulas.
- Aqui, desculpa mesmo. Eu não vi...
Quando finalmente encaro seu rosto, noto que está corada. Vermelha de vergonha, provavelmente. Mas há algo naquele olhar que me faz hesitar.
Algo que me deixa... estranho.
Acordei cansada. Aurora dormira a noite inteira, mas o peso em meu corpo não vinha da falta de sono. Vinha do medo, da exaustão de estar sempre alerta.
Despertei quando senti seu corpinho se remexer ao meu lado. Dormíamos na mesma cama porque não tínhamos um colchão extra, não tínhamos móveis supérfluos, nem mesmo lixo acumulado - eu não podia me dar ao luxo de desperdiçar nada. Mas, no fundo, não era só a falta de dinheiro que me fazia querer tê-la tão perto. Era o medo. Medo de que alguém aparecesse no meio da noite, arrombasse a janela e levasse minha menina de mim. Claro, era uma fantasia absurda... Mas, para uma mãe, era um medo real, constante, impossível de ignorar.
E talvez esse pavor viesse do próprio pai dela.
Eu não sabia que ele era um cafajeste quando o conheci. Não sabia que, por trás dos gestos carinhosos e das palavras doces, se escondia um homem perigoso. Durante meses, ele me tratou como uma rainha, fez eu me sentir especial, desejada, amada. E então, quando já não havia mais barreiras entre nós, ele mostrou quem realmente era. Se tornou obsessivo, possessivo. Até que a verdade veio como um golpe: ele era casado.
E não parava por aí. Quando tentei ir embora, ele me ameaçou. Disse que, se eu ousasse abrir a boca, ele mataria a esposa. Não era isso que eu queria. Eu só queria sumir, esquecer que ele existia. E, por um tempo, achei que conseguiria. Mas, quando finalmente achei que estava livre, descobri que estava grávida.
E eu soube, naquele instante, que ele jamais poderia saber da existência de Aurora.
Viver com esse medo é um fardo que carrego todos os dias. Às vezes, tenho pesadelos onde ele descobre sobre ela. Vejo a cena como um filme horrível: ele batendo à minha porta, exigindo vê-la, querendo tomar de mim a única coisa boa que restou de tudo aquilo. Talvez seja paranoia. Ou talvez seja apenas a certeza de que, se ele tivesse a chance, ele destruiria tudo.
Então, não importa o quão difícil seja. Prefiro trabalhar como garçonete, limpar banheiros, fazer qualquer coisa para sustentar minha filha, a pedir ajuda para ele. Isso, eu nunca faria.
Hoje, não sairia para entregar currículos. Depois de meses tentando, ninguém me ligara. A esperança começava a fraquejar, e a realidade se impunha cruelmente: talvez o único emprego que me restasse fosse mesmo o de garçonete. Talvez eu tivesse que me desdobrar em dois ou três turnos até Aurora crescer e ter um futuro melhor. Não sei.
O que sei é que farei qualquer coisa para garantir que ela tenha uma vida boa. Que ela nunca precise conhecer a sombra daquele homem. Que, ao contrário de mim, ela cresça sem medo.
A manhã começou como qualquer outra. Levantei, ainda sentindo o peso do cansaço nos ombros, e fui direto para a cozinha preparar o café da manhã. Para Aurora, um purê de frutas que ela adorava. Ainda tomava leite, mas aos poucos eu ia introduzindo alimentos naturais, tentando acostumá-la a outras opções. Seria mais fácil para nós duas se eu continuasse trabalhando. Ela precisava se alimentar bem, independente do meu leite.
Depois, fui preparar o café da minha avó. Ela já me ajudava tanto, cuidando de Aurora sempre que podia. Eu não queria colocar essa responsabilidade em suas costas, então contava também com a ajuda da minha amiga. Ela fazia isso de bom grado, mas eu sabia que não era justo. Mesmo assim, havia uma esperança sutil dentro de mim, uma voz baixinha que insistia: nossas vidas podem mudar.
Foi então que o telefone tocou. O som ecoou distante, vindo do quarto.
- Seu telefone está tocando, querida - avisou minha avó, surgindo na cozinha.
Ela adorava preparar o café da manhã, mesmo com as dores que o tempo havia deixado em seu corpo. Sempre dizia que seus ossos estavam se desgastando rápido demais.
Deixei o café no fogo e corri para atender. Poderia ser minha amiga, ou minha chefe pedindo para cobrir mais um turno na lanchonete. Eu nunca recusava. Precisava do dinheiro. Mas, ao ver o visor do celular, me surpreendi.
Número desconhecido.
Na mesma hora, me lembrei dos currículos que havia distribuído. Meu coração deu um salto. Será que desta vez deu certo?
Atendi, contendo a euforia na voz para não parecer desesperada.
- Pois não?
Do outro lado da linha, uma mulher perguntou:
- Emma Hill?
Meu coração disparou.
- Sim, sou eu. Quem fala?
Caminhei até a sala, os pés descalços no chão frio, enquanto apertava os dedos nervosamente. Estava animada. Era só uma ligação, ainda não era uma confirmação, mas... já significava alguma coisa.
- Oi, Emma. Você deixou um currículo na TEC Corporation, se lembra?
Arregalei os olhos.
- Sim, sim! Fui eu.
- Sou Deby, do RH. Gostaria de agendar uma entrevista com você. Quando pode vir?
Fiquei muda por um instante, chocada e animada. Minha mente girava rápido. Isso está realmente acontecendo?
- Eu posso ir a qualquer momento! Hoje, amanhã... quando a senhora quiser.
Do outro lado, ouvi uma risadinha.
- Que tal amanhã cedo?
Balancei a cabeça com tanta força que quase ri de mim mesma.
- Claro! Amanhã! É só me passar o horário. Sei onde fica. Obrigada por ter me ligado!
Ela me explicou os detalhes e, assim que desliguei, um grito de alegria escapou da minha garganta. Peguei Aurora nos braços e enchi-a de beijinhos, girando com ela no ar.
- Conseguimos, meu amor!
Ela riu, sem entender, mas isso não importava. Era um passo. Um começo. E talvez, só talvez, a mudança que eu tanto esperava.
***
Acordei cedo no dia seguinte, tomada por uma mistura de ansiedade e empolgação. Preparei o café da manhã, tentando manter a calma, mas minha mente estava a mil. Escolhi a roupa mais elegante que tinha - ou, pelo menos, o mais próximo de elegância que meu guarda-roupa permitia. Um vestido discreto, com um corte comportado, que me fazia parecer uma secretária.
Prendi o cabelo em um rabo de cavalo alto, deixando algumas mechas soltas ao redor do rosto. Me olhei no espelho. Talvez não estivesse impecável, mas fiz o melhor que pude. O importante era parecer profissional.
Aurora ficaria com minha avó, mas logo minha amiga chegaria para ajudar. Jessie estava atolada de trabalho naquela semana, mas fez questão de me dar suporte. Eu sabia que podia contar com ela.
Era apenas uma entrevista. Apenas uma entrevista. Mas meu coração batia acelerado como se fosse uma grande conquista.
Beijei minha menininha na testa e dei outro beijo na minha avó antes de sair de casa. Eu não podia me atrasar - não logo no primeiro dia, nem para uma entrevista tão importante.
Corri até o ponto de ônibus e, para meu desespero, o maldito já estava lá. Apertei o passo, sentindo os saltos castigarem meus pés, mas não parei. Com um último impulso, consegui subir antes que a porta se fechasse.
Quando me sentei, percebi que estava suada. Ótimo. Não era assim que eu queria chegar à Tech Corporation. Sabia que uma boa impressão era crucial, que cada detalhe poderia contar. Respirei fundo, tentando esfriar a cabeça e me recompor.
Manhattan passava pela janela do ônibus, linda como sempre. E bem no coração dela ficava a TEC Corporation - a empresa que eu sonhava em trabalhar. Era surreal pensar que, de todas as candidatas, eles me ligaram. Queriam me conhecer.
Eu estava tão animada que mal conseguia ficar parada. Meus pés batiam freneticamente no chão do ônibus, um hábito involuntário que, pelo olhar irritado da senhora ao meu lado, não estava sendo bem recebido. Mas eu simplesmente não conseguia conter minha empolgação.
Quando o ônibus finalmente parou, saltei e praticamente corri até o prédio.
A TEC Corporation era um espetáculo por si só. A fachada de vidro refletia o céu azul, brilhando sob o sol da manhã. O prédio se erguia imponente, rodeado por uma praça incrivelmente bem cuidada, com árvores e bancos estrategicamente posicionados. Tudo ali parecia saído de um filme.
Imaginei por um segundo como seria trabalhar ali todos os dias. Seria perfeito. Mas logo voltei à realidade. Primeiro, eu precisava ir bem na entrevista.
Atravessei a porta giratória e me apresentei na recepção. A atendente me indicou o elevador e, ao entrar, percebi que não estava sozinha. Outros candidatos, talvez? Era óbvio que não seria fácil. Todo mundo queria trabalhar lá. Mas só uma pessoa conseguiria a vaga. E eu me esforçaria para ser essa pessoa.
Quando as portas do elevador se abriram no andar certo, meu coração acelerou. Minhas mãos suavam. Olhei para o relógio no meu pulso - antigo, sem nenhuma tecnologia moderna, mas carregado de significado. Fora da minha avó.
Respirei fundo e comecei a andar rapidamente pelo corredor, focada apenas na porta da sala de entrevista. Eu sequer notei o ambiente ao meu redor, as pessoas, as salas. Nada importava além de chegar lá.
Foi então que esbarrei em alguém.
Droga.
O impacto foi o suficiente para derrubar o telefone da pessoa. Ótima forma de começar o dia, Emma. Excelente.
Desesperada, me abaixei para pegar o aparelho antes que ele sofresse algum dano. Quando ergui os olhos para devolver o celular, congelei.
O homem à minha frente me encarava com intensidade. Alto, elegante, e com um olhar que me fez engolir em seco.
Respirei fundo e consegui murmurar:
- Desculpa.
Ele me olhou dos pés à cabeça, e, por um momento, me senti completamente exposta. O homem era lindo-perfeitamente alinhado, uma presença imponente. Alto, ombros largos, o rosto magro, marcado por uma barba rala que acentuava sua expressão séria. Os cabelos escuros e lisos caíam sobre a testa de um jeito despreocupado, contrastando com seus olhos azuis cristalinos, frios como gelo.
Mordi o lábio por dentro, sentindo um arrepio percorrer minha espinha. Dei um passo para trás, nervosa. Ótimo, Emma. Grande impressão que você está causando.
- Veio para a entrevista? - Ele perguntou, a voz baixa e firme, sem um pingo de simpatia.
Endireitei-me, passando as mãos pelo vestido em um gesto automático, como se estivesse tentando alisar um amassado inexistente.
- Sim - respondi rapidamente. - Desculpe por ter esbarrado em você, eu não...
- Começar sendo desastrada. - Ele me cortou, a expressão inalterável. - Um ponto a menos.
Arregalei os olhos, surpresa pela frieza da resposta.
- Desculpa, o senhor vai fazer a entrevista? - Soltei sem pensar. Eu sabia que precisava segurar minha língua, mas às vezes ela simplesmente agia antes de mim.
Ele arqueou uma sobrancelha, analisando minha audácia, e então deu um meio sorriso, enigmático.
- Você vai se atrasar.
Pisquei algumas vezes, absorvendo o que aquilo significava. Respirei fundo, soltando o ar devagar, tentando manter a calma. Não vou deixar isso me abalar. Se ele fosse meu entrevistador, eu não lhe daria motivo algum para me descartar.
Forçando um sorriso educado, murmurei:
- Novamente, peço perdão.
Sem esperar resposta, me virei e entrei na sala, sentindo seu olhar me acompanhar.
O ambiente já estava ocupado por alguns candidatos. Uma mulher de meia-idade estava sentada à frente, provavelmente Deby, do RH. Meu coração acelerou ao vê-la.
Sentei-me, esperando minha vez, mas sentia o peso de um olhar sobre mim. O homem estava lá, parado atrás da entrevistadora, observando tudo. Observando a mim.
E algo me dizia que aquele encontro estava longe de ser apenas um detalhe no meu dia.