Eu não era de acreditar em superstições e mau agouro, porém
hoje estava sendo um daqueles dias em que tudo dava errado.
A sorte nem sempre estava a meu favor, no início pensava que
era coisa da minha cabeça, que tinha que me esforçar mais para
conseguir as coisas, mas com o tempo, tive que admitir que havia
algo errado.
Mesmo que ainda negasse que alguém podia carregar esse mal,
alguns fatos ainda me faziam ficar em dúvida.
Hoje era um desses dias.
Não sei o porquê, mas meu celular alarmou muito cedo.
Muito adiantado!
Duas horas adiantado!
Quando olhei no aparelho, achei que estava atrasada, pois as
horas marcavam duas horas a mais do que eu esperava. Quando
olhei no espelho, meu rosto parecia ter sido amassado por um trator
e o pior de tudo era que eu achava que não tinha tempo para tomar
café.
Eu era uma pessoa simpática e bem-humorada, mas de barriga
vazia as coisas mudavam, pois uma substituta mal-humorada
possuía o meu corpo e me dava dor de cabeça.
Como o dia estava só começando, os ônibus estavam lotados.
Não como eu já estava habituada, mas de forma anormal. As
pessoas se amontoavam como em uma lata de sardinha, e o cheiro
não era dos melhores.
Eu não sabia como alguém poderia sair de casa de manhã sem
tomar um banho.
Quando cheguei à empresa, não havia ninguém além do vigia.
Para falar a verdade, eu deveria ter notado as pistas durante o
trajeto.
Primeiro, estava mais frio que o normal para as oito da manhã.
Até o ônibus. Tudo estava lá, porém, como não havia tomado café e
havia acordado duas horas mais cedo, o que dificultava o meu
raciocínio, não percebi o meu erro.
Trabalhava na empresa Duarte investimentos há três anos e não
era na minha área de formação.
Depois que sai da faculdade, você pensa que será tudo um mar
de rosas, mas tristemente descobri que o mundo era cruel e existem
milhares de pessoas tão boas quanto eu.
Tive que fazer uma escolha: continuava tentando buscar o meu
sonho ou pagava o aluguel e o supermercado.
Confesso que passei três anos com os pés no chão, deprimida
por não ter conseguido.
- Bom dia, senhor Antônio. - Falei me aproximando do homem
de quarenta anos com o sorriso simpático. - O senhor sabe por
que está tudo tão... vazio?
O homem me olhou com o cenho franzido, parecendo que eu
tinha feito a pergunta mais burra que ele havia ouvido, mas
continuei firme, o olhando com um sorriso amarelo.
- São seis da manhã, sabe que as coisas só começam a
funcionar aqui a partir das sete. - Ele disse.
Na hora eu ainda estava refletindo sobre a palavra sete, e estava
cética sobre o horário. Abri a bolsa abruptamente e peguei o
aparelho que estava no fundo, escondido.
- Senhor, são nove horas. - Falei não querendo acreditar no
que o homem estava falando.
O homem tirou do seu bolso o celular que não era um dos mais
novos da sua linha, e o estendeu para mim, mostrando o horário
correto.
Olhei para o objeto, ainda sem acreditar, aos poucos tudo veio à
minha mente e desejei morrer.
Nenhum palavrão era o mais adequado para se designar a mim
naquele momento. Eu só continuei olhando para o nada, esperando
que algum tipo de explicação óbvia viesse a mente, mas nada
aconteceu.
Eu poderia ter feito a maior cena na frente do homem, pois
sempre que algo assim acontecia, sendo tão cedo, meus olhos se
enchiam de lágrimas.
Eu não era assim tão frágil, porém, se meu estômago estivesse
vazio e o sono ainda estivesse pairando sobre a minha mente,
corroborava para esse fim.
No entanto, optei por me conter e arranjar uma alternativa.
Primeiro, eu teria que comer algo, pois se não houvesse comida
no meu estômago, não trabalhava nesse ambiente estressante, e
minha chefe era como o próprio diabo.
Se eu ficasse dessa forma até o almoço, com certeza ficaria sem
emprego, já que diversas vezes tive que me conter para não a
xingar.
A sorte era que o prédio ficava perto de várias lanchonetes, onde
eu poderia comer e passar o tempo. Retirei o aparelho diabólico da
bolsa e acertei as horas para que não houvesse mais problemas.
***
Depois daquele contratempo inicial, eu finalmente estava melhor.
Voltei e comecei o dia com uma pilha de documentos para
reorganizar. Carolina estava tensa quando chegou e mal falou
comigo, o que era estranho, pois a mulher adorava me importunar
logo quando chegava.
Fiquei bastante cansada após organizar tudo. Graças ao sono
que me consumia, tive que tomar café a mais, só para não dormir
em cima do computador.
No almoço, a chefe saiu mais cedo, ela ainda estava estranha,
mas não me importei e dei graças a Deus por ela não ter me
incomodado, pelo menos ainda.
Saí com algumas colegas para comer e na volta fiquei
envergonhada ao encontrar o porteiro, que era o único que sabia do
meu desastre do início de dia.
Antes de ir embora, fui chamada na sala de Carolina e senti a
tensão no ar. Eu sentia um mau pressentimento de que iria ser
demitida.
Assim que entrei e sentei-me, vi a expressão de preocupação da
mulher. Ela estava estranha o dia todo, e agora estava me olhando
como se fosse dizer que alguém morreu.
- Alguma coisa aconteceu? - Perguntei cautelosa.
- Sim, infelizmente. - Disse deixando os ombros caírem e se
encostou à cadeira. - Falimos.
Ouvir isso fez meu coração pular. Era o nosso fim e a minha
demissão. Já havia ouvido rumores sobre as condutas indevidas do
chefão. Ele estava roubando e jogava tudo em pôquer.
- O que farão agora? - Perguntei triste.
- Todos vocês serão pagos e o que sobrar será para pagar as
dívidas. - Respondeu.
Depois dessa breve conversa, foi acertado o dia que deveríamos
voltar e receber. Todos que saíam estavam como eu: tristes e para
baixo. Uns piores que outros.
Passei todo o caminho pensando no que fazer. Gastei três anos
da minha vida em um emprego que não me valorizava, e nem era
do meu ramo. Agora estava sem nada e acreditava que seria difícil
arranjar outro agora.
A situação do país não era a melhor e perder o emprego agora
seria um grande problema. Mas talvez seja essa a oportunidade que
eu esperava para finalmente trabalhar em paisagismo, que era a
área que me formei. Eu tinha uma casa, e meu namorado tinha um
bom trabalho. Mesmo que demorasse um pouco, talvez conseguisse
algo.
Andei poucos metros até a casa que tínhamos alugado. Não era
muito grande, mas servia. Vivíamos trabalhando, e era Miguel que
passava a maior parte do tempo em casa. Pelo menos até agora.
Entrei já tirando o sapato e jogando a minha bolsa no sofá. As
luzes estavam acesas, mas nada do homem. Um barulho vindo do
quarto, chamou minha atenção.
Não chamei seu nome, porém, a curiosidade era maior e
caminhei até o quarto, devagar. A porta estava entreaberta e
quando vi duas pessoas trepando em cima da minha cama, quase
caí.
Miguel e ngela transavam como dois coelhos enquanto eu
assistia chocada. Uma raiva tomou conta do meu corpo, e abri a
porta com uma batida forte.
- QUE PORRA É ESSA?
Parecia que alguém havia me jogado o pior feitiço do mundo.
Primeiro perdi o emprego, agora descubro que sou corna.
Capítulo 2 - Henrique
Eu gostava de trabalhar. Mantinha minha mente focada e
funcionando. Sentimentos são complicados, por isso sempre tentei a
todo custo me manter distante.
Foi por isso que minha noiva me deixou. Não que eu não
gostasse dela, mas Anastácia era uma mulher muito sentimental e
pegajosa.
Eu adorava a sua classe e inteligência, porém, tinha as minhas
manias e preferia ficar só.
Muitos diziam que eu era frio e arrogante e, na verdade, sou.
Acredito que vários fatores ocorreram na minha vida para que eu
tivesse me tornado isso.
No passado eu era mais aberto e compreensivo, mas tudo
mudou quando a mulher que eu amava jogou na minha cara que
não era isso que ela queria.
Depois de uma tragédia em minha família, pensei que era melhor
mudar de atitude e me preservar mais.
Foquei-me mais no trabalho e esqueci o resto. Quando pedi a
mão de Anastásia em casamento, não queria amor, queria uma
esposa e filhos.
Entretanto, acredito que não deixei isso bem claro e a mulher
começou a exigir coisas. Se ela não tivesse terminado, quem teria
feito isso seria eu.
Não desejava viver a minha vida, muito corrida, ao lado de
alguém que me exigisse tanto.
Isso poderia me tornar alguém frio e solitário, mas não queria
viver de mentiras.
Eu não sabia se algum dia algo me faria mudar, mas pretendo
achar alguém que me dê um herdeiro. Não sou filho único, mas meu
irmão não gosta de arquitetura como eu. Sentia a necessidade de
fazer o melhor por essa empresa, e criar meu substituto era uma
dessas coisas.
Voltando ao trabalho, eu ainda tinha que me preocupar com a
nossa nova contratação. A empresa precisava de uma paisagista, e
essa pessoa seria uma assistente para mim, trabalhando em meus
projetos.
Gosto de saber e controlar tudo ao meu redor, às vezes, as
pessoas consideram isso como arrogância minha. Para se ter
sucesso, tudo tem que estar organizado e tranquilo. Se o local de
trabalho não for assim, não trará benefício algum.
- Quem será responsável pelas entrevistas? - Perguntei a
mulher de cabelos curtos assustada que estava a minha frente,
segurando uma pilha de papel.
Ela pensou por alguns minutos antes de responder. Essa era a
coisa que mais odiava na Judi, minha secretária. Quando eu fazia
uma pergunta, gostava de ser respondido logo, tempo era muito
precioso para mim.
- Serena. - Finalmente respondeu.
- Ok. - Falei voltando a prestar atenção nos documentos a
minha frente. - Diga a Serena que quero a melhor e a mais
responsável de todas.
***
Assim que cheguei em casa, coloquei um pouco de bebida no
copo e tomei. Como sempre, cheguei bem tarde.
Minha família sempre reclamava sobre a minha rotina de
trabalho, porém, fazia o que gostava e isso não me incomodava
nem me cansava.
Tenho poucos amigos e os conheço desde a infância, no
entanto, não saímos muito, confesso que era minha culpa, pois
sempre afastei todos de perto de mim.
Eles vivem reclamando sobre esse meu comportamento, mas
não me incomodo com isso.
Sempre que estou a fim de sair com algumas pessoas para
beber ou jantar, era eu que os convidava, porém, eram raros esses
momentos.
Meu celular tocou em cima do sofá e já ao longe vi que era a
minha mãe. Desde que Anastácia e eu terminamos, a mulher vivia
me importunando.
Catarina Vilella sempre desejou que eu me casasse com uma
mulher fina, linda e delicada. Sempre que tinha a oportunidade, ela
arrumava maneiras de jogar algumas das filhas de suas amigas
para cima de mim. Foi assim com Anastácia Alencar, entretanto, não
tomarei decisões erradas novamente.
- Mãe. - Falei ao atender o telefone.
Eu já estava cansado e conversar com a minha mãe iria acabar
com o resto da minha paciência do dia.
- Querido, como você está? - Perguntou começando a buscar
pistas sobre meu humor.
Se eu não a conhecesse, diria que essa era uma reação normal
de uma mãe para com o seu filho, no entanto, sei que Catarina
estava aprontando algo.
- Bem... por enquanto. - Respondi bebendo o último gole e
passando a mão pela minha têmpora. - O que deseja desta vez,
mãe?
- Ah, Henrique, até parece que não posso ligar para saber
como está meu filho. - Reclamou fingindo estar ofendida. - Mas
também queria lhe informar sobre um jantar beneficente.
Eu já adivinhava que poderia haver algo que ela iria me propor.
Jantares beneficentes serviam para dois propósitos: o primeiro,
era para esbanjar dinheiro e dizer que os ricos eram benevolentes.
O segundo motivo, era para que homens como eu, fossem
apresentados a mulheres em busca de maridos.
- Sinto muito, mãe, mas estarei ocupado. - Falei rápido antes
que ela continuasse.
- Henrique você tem...
- Quem sabe na próxima. - A cortei. - Amo você, boa noite.
Desliguei o celular antes que ela tentasse me convencer de mais
coisas.
Não gosto de ser rude com ela. Sei que a mulher vivia muito
deprimida devido ao meu pai, mas não suportava quando minha
mãe tentava arranjar uma mulher para mim.
Já cometi esse erro e não pretendo repetir. Sei que já tenho 35
anos e que deveria me casar logo, porém, não queria que essa
fosse a função da minha mãe.
Se pretendia arranjar alguém que ficaria ao meu lado para
sempre e ser a mãe dos meus filhos, farei isso sozinho, pois sei
exatamente o que quero.
***
Quando cheguei à empresa, todos estavam concentrados em
seu trabalho e afazeres. Sei que só faziam isso quando estava por
perto.
- Que bom que chegou, amigo, temos a reunião com o grupo
que está planejando a revitalização dos hotéis no litoral. - Falou
Roberto, me acompanhando até a sala de reuniões.
Nos conhecemos no colegial. Ele sempre foi um bom
companheiro e muito inteligente. Durante o meu período mais difícil,
foi ele que esteva ao meu lado.
Hoje trabalhamos juntos e fico feliz por isso, pois meu amigo era
um dos mais criativos.
- Ótimo. - Falei procurando a minha secretária. - Judi! - A
chamei em voz alta e todos se assustaram. - Venha!
A mulher minúscula correu em minha direção segurando o seu
bloquinho de anotações.
Pedi um café e entramos na sala de reunião onde já estavam à
nossa espera.
Uma loira alta com vestido branco que se ajustava ao seu corpo,
sorriu ao me ver. Ela era responsável pelos hotéis que seriam
reformados.
Assim que começamos, todos se animaram. Eleonor nos contou
o que seu chefe desejava para a reforma. Além disso, seriam
construídas novas áreas e depois disso, também teríamos que dar
uma repaginada, transformando tudo em um local moderno e
confortável.
Os hotéis não ficavam muito longe da capital e tinha o privilégio
de ficar a poucos metros da praia, onde muitos turistas se
hospedariam para a temporada de verão.
Programamos uma visita ao local, onde a mulher disse que o
próprio proprietário dos hotéis iria nos receber e nos contar todos os
detalhes sobre o que ele desejava. Eu esperava que até lá eu já
tivesse a minha assistente, pois segundo Serena, achar a pessoa
perfeita para o cargo seria difícil.
Capítulo 3- Elisabete
Foi realmente decepcionante descobrir que meu namorado e
minha amiga estavam me traindo. Por incrível que pareça, não me
importei em perder o Miguel, pois penso que lá no fundo eu só
gostava dele e não o amava. Porém, descobrir que foi traída era
algo horrível, agora estava difícil seguir sem saber em quem confiar.
Naquela noite que os peguei juntos, fiz questão de colocar tudo
para fora. Disse o que se passava pela minha cabeça e não me
arrependia de nada.
Na verdade, estava arrependida por não ter cortado o pau dele
fora e feito a vadia o comer.
Conheci ngela na faculdade e a achei muito legal na época. Eu
mal sabia que seria apunhalada pelas costas e ter que arrumar um
lugar para morar.
Tenho sorte por ter uma irmã maravilhosa, pois quando liguei
para ela, rapidamente Mariana veio ao meu socorro. Eu ficaria com
ela até achar um novo emprego, já que não bastava o meu dia ter
sido conturbado, ainda descobri que fui traída e não tinha onde
morar.
Seu apartamento não era muito grande, mas cabíamos nele.
Como minha irmã trabalha como guia turística e vive viajando, seria
perfeito para nós.
Eu achava que tudo que aconteceu naquele dia tinha sido um
aviso do Destino de que algo estava muito errado. Ainda não sabia
o quê, mas esperava que essa maré de azar não permanecesse ao
meu lado.
- Não se preocupe, Elisa, você pode ficar o quanto quiser na
minha casa. Eu mal fico aqui mesmo e quando estiver será divertido
passar o dia com a minha irmã mais velha.
Mariana era um amor de pessoa. Todos a amavam e ela sempre
foi a mais popular na nossa casa. Ela era minha irmã mais nova,
porém, depois da faculdade a garota seguiu na sua área de
atuação, muito diferente de mim que não tive tanta sorte e optei por
trabalhar para me sustentar e deixei um pouco de lado o meu
sonho. Entretanto, a minha demissão e essa nova situação em que
me encontrava, me deu oportunidade de finalmente procurar o que
desejava.
- Obrigada, irmã, você é meu anjo. - Falei a abraçando forte.
- Vou arranjar um emprego em minha área, você vai ver, não vai
demorar muito.
- Eu espero que sim. Você merece fazer o que gosta, é muito
criativa e inteligente, aposto que essas empresas estão perdendo a
oportunidade de ter alguém tão inteligente como você. - Disse indo
para a cozinha. - Mas agora vamos assistir a um filme muito
divertido. Já faz um tempo que nós não temos essa oportunidade.
Ela tinha razão, no meu antigo trabalho eu não tinha
oportunidade de sair e me divertir muito. Era trabalho e mais
trabalho, sem tempo para folga. Mariana vivia no emprego dos
sonhos, ela viajava para o litoral com os turistas nas praias mais
lindas de Pernambuco. Outras vezes, ela trabalhava em sítios
arqueológicos.
Enquanto ela fazia a pipoca, liguei a televisão e procurei algo
decente para assistirmos. Querendo ou não, a minha cabeça ainda
questionava muitas coisas sobre Miguel e a traiçoeira que eu
chamava de amiga.
- Acha que eles estavam juntos há muito tempo e só eu que era
idiota nessa história? - A perguntei.
Eu queria parar de pensar nessa situação, no entanto, talvez a
raiva estivesse trazendo tudo à tona em minha cabeça e comecei a
questionar vários momentos da nossa vida.
- Eu não sei, mas nunca gostei daquela mulher. Na verdade,
nunca pensei que o Miguel faria tal coisa com você, achei que ele te
amava. - Disse em um tom triste.
- É, eu também, entretanto, eu não gostava mesmo muito dele,
talvez fosse apenas comodismo. - Pensei em voz alta. - Quer
saber, é melhor esquecermos isso. O Miguel não vale um minuto
dos meus pensamentos mais.
Mariana volta com a pipoca e resolvemos assistir uma comédia
para rir muito e esquecermos os problemas. Tinha que focar agora
em achar um emprego e ter o meu próprio lugar. Não deveria mais
deixar que ninguém me atrapalhasse, esse era o meu futuro e não
podia deixá-lo para trás por causa de momentos ruins ou pessoas
que não valiam a pena.
***
Não fiquei parada em casa lamentando pela vida medíocre que
tive durante esses três anos. Saí e entreguei os currículos nas
empresas que eram do meu ramo.
Minha irmã saiu para trabalhar, me deixando sozinha. Como não
tinha muitos amigos, fui obrigada a esperar em casa, entediada.
Rezei para todos os santos e deuses existentes no mundo para
que eu tivesse uma resposta rápida, pois não queria continuar
parada, não suportava ficar em casa sem fazer nada o dia inteiro.
Quem me olhasse diria que eu estava em um romance com o
meu celular, pois passei o dia inteiro ao seu lado esperando que ele
tocasse.
Quando vim para recife, foquei tanto em estudar e arrumar um
emprego que não tive a oportunidade de sair e conhecer tudo o que
deveria, por isso não tinha tantos amigos, e justo a que arrumei, me
traiu. Claro que isso trouxe um pouquinho de desconfiança, e seria
difícil acreditar em mais alguém no futuro.
Meus pais moram no interior, bem distante. Eles vivem de forma
humilde e nos criaram com poucas coisas, mas nem por isso nos
deixaram negligenciadas, nos ensinaram que não precisamos de
muito para sermos felizes, apenas de pessoas que valham a pena.
Quando a minha irmã também veio para cá, eu já não precisava
ficar mais só. Ela estudava e morava comigo, e podíamos sair para
nos divertir.
Conheci o Miguel quando trabalhava em uma lanchonete, ele
também estudava na mesma faculdade que eu, no curso de física.
Gostei dele, pois era inteligente e muito bonito. Mas pensando bem,
agora, Mariana tinha razão, ele foi sempre meio esnobe e se achava
melhor que todo mundo. Sempre que eu falava sobre o meu sonho
quando estávamos juntos, ele fazia questão de me colocar para
baixo, dizendo que isso seria impossível para mim.
Antes de vir para cá, passei muito tempo sem ninguém, as
pessoas sempre pensavam que eu tinha algum problema, porém, só
queria focar no meu objetivo. No entanto, se você não seguir
conforme a dança, as pessoas começam a falar e isso sempre foi
um problema para minha mãe.
Mas que se dane!
Ninguém deveria viver baseado no que as pessoas vão achar ou
não. Era a nossa vida, e somos nós que escolhemos o que
queremos ser ou não, caso contrário sempre iremos viver infelizes,
pois nem sempre o que as pessoas desejam para nós, era o que
realmente nos faria feliz.
Agora mesmo, tinha que me concentrar no que eu queria, e ao
ouvir o celular tocar, quase tive um ataque de pânico.
Olhei na tela e era um número desconhecido. Poderia ser
qualquer um, mas mantive o meu pensamento positivo.
- Alô. - Disse ao atender.
Eu estava tentando disfarçar a minha ansiedade, porém, estava
ficando difícil.
- Alô, Elisabete? - Perguntou a voz feminina do outro lado.
- Sim, sou eu. - Respondo ainda eufórica. Tentei a todo custo
me acalmar, mas era a primeira vez em muito tempo que uma
empresa me respondia.
- Eu sou a Judi, trabalho para a empresa ART Vilella e gostaria
de saber se você ainda está à procura da vaga?
Assim que ela havia acabado de falar, afastei um pouco o
telefone do ouvido, para que a mulher não ouvisse a minha histeria.
Já fazia um tempo que eu desejava fazer uma entrevista nessa
empresa, mas as vagas eram muito disputadas.
- Claro que sim. - Respondi ainda me abanando.
- Ótimo, estou agendando sua entrevista para amanhã, ok? -
Falou a mulher que mais parecia um anjo.
- Ok, estarei aí. - Respondi.
Antes de desligar, Judi me passou os detalhes sobre a
entrevista. Eu sabia que não seria a única a ir até lá, mas eu faria de
tudo para ser a melhor de todas.
Assim que a ligação foi encerrada, eu praticamente saltitei de
tanta alegria.
***
Ao chegar na frente do prédio alto e moderno, fiquei
impressionada com a sua beleza. Era realmente luxuoso. Eu nem
sabia que existia edifícios tão modernos em Olinda, pois a cidade
era conhecida pelas casas e prédios antigos.
Sem perder tempo, adentrei o lugar. A ART Vilella ocupava os
três últimos andares, e ao chegar perto do elevador, três mulheres já
o esperavam. Não sabia se elas já trabalhavam aqui ou não, mas
dava para ver que não vieram para brincadeira, elas estavam lindas.
Se elas fossem minhas concorrentes e essa fosse uma disputa
de moda, eu estaria ferrada. Saí de casa com um traje formal. Uma
saia lápis e uma blusa de manga longa, solta.
Assim que saímos no andar onde seria a entrevista, tive a
confirmação de que essas mulheres eram realmente minhas
concorrentes. Mas não me preocupei, já que eu era muito bem
qualificada, apesar de ainda não ter trabalhado fixamente no ramo.
Judi, que era a secretária do todo-poderoso, apareceu para nos
indicar onde seria a entrevista.
Eu estava bem nervosa e precisava de um pouco de água para
que me acalmasse.
Pedi informação a ela, que me indicou uma sala que servia de
copa para alguns funcionários comer e beber água.
Fui até a sala e bebi um pouco de água. O lugar não era muito
pequeno e tinha muitas coisas para os funcionários. Respirei fundo
ao sair da sala, mas meu corpo se chocou contra uma parede de
músculos que fez com que eu recuasse um pouco e quase caí.
- Meu deus, desculpa, eu não...
Meus olhos procuraram a vítima da minha desatenção e senti
que meus pulmões quase pararam de funcionar. Ele era alto, tinha
ombros largos, olhos verdes intensos e uma barba rala que me fez
arrepiar. Suas mãos seguravam minha cintura para que eu não
fosse ao chão.
Mantive minhas mãos em seu peitoral largo, ainda boba pela sua
imagem perfeita.
- Você deveria olhar para onde anda. - Ele disse com sua voz
grossa e arrogante.
A magia acabou no mesmo instante que seu olhar se tornou frio.
Pisquei duas vezes raciocinando sobre todo o ocorrido.
- Desculpe-me, mas o senhor também teve culpa. - Falei me
defendendo.
- Como posso ter culpa nisso se foi você quem esbarrou em
mim? - Me questionou cerrando os olhos.
Era inegável que esse homem era lindo e charmoso, mas tudo
isso não ofuscava a ignorância e a rispidez que destruía a bela obra
de Deus.
O olhando atentamente, o bonitão de olhos verdes parecia um
modelo de capas de revista chique. Podia apostar que esse babaca
era um arquiteto ou engenheiro. Mesmo tendo muita gente legal,
essas áreas eram cheias de homens e mulheres egocêntricos.
- Foi você que apareceu de repente. - Falei convicta. - Quer
saber, não posso ficar aqui, tenho o que fazer. Tenha um bom dia.
Afastei-me dele e comecei a caminhar para longe, no entanto,
seus longos dedos impediram que eu me afastasse bastante.
O simples toque de suas mãos fazia com que meu corpo
perdesse a compostura. Olhei novamente para seus olhos e pude
ver um brilho que não vi antes.
- Como se chama? - Perguntou curioso, franzindo o cenho.
- Isso não interessa a você. - Respondi ainda chateada.
Capítulo 4 - Henrique
Prezo por duas coisas quando estou trabalhando: concentração
e dedicação, porém, já faz dois dias que minha mente estava
distraída, e por quê? Pelo simples fato de ter esbarrado em uma
mulher de cabelos escuros e olhos castanhos que tinha uma boca
incrível e uma língua solta.
Não sei quem era ela ou o seu nome, no entanto, não consegui
parar de pensar naquela ocasionalidade. Resolvi que já era hora de
expulsar aquela estranha da minha cabeça e me concentrar no
trabalho. Finalmente achamos uma pessoa que possa trabalhar
comigo. Serena não disse muito sobre a mulher, só que ela era
perfeita para o cargo, pois sua personalidade batia com a minha
- Ela começa amanhã, mas Henrique, não faça com que a
mulher queira se demitir no mesmo dia, por favor. - Pediu com um
sorrisinho no rosto. - Ela é bonita e inteligente. Tem desejo de
crescer, e com certeza poderá resistir por um tempo ao seu lado.
Continuei desenhando o esboço do nosso último projeto
enquanto a ouvia. Serena, apesar de ser uma ótima profissional, era
muito tagarela. A conheci na faculdade e agora ela trabalhava para
mim.
- Que bom, só espero não a odiar também. - Falei dando de
ombros.
- Às vezes penso que você é um daqueles protótipos robóticos
que se parece com ser humano, mas que não tem sentimentos. -
Ela disse se levantando abruptamente, parecendo chateada.
- Se eu fosse, vocês estariam ferrados. - Brinquei e a ouvi rir.
- Olha, você tem senso de humor. - Ironizou antes de sair. -
Mas falo sério quando digo que você tem que pegar mais leve com
as pessoas.
Quando finalmente fiquei só, continuei o meu projeto, sempre
amei fazer isso. Minha família estava no ramo de arquitetura há
muito tempo, porém, isso nunca foi uma obrigação para mim, pois
sempre gostei de desenhar e projetar coisas.
Já ganhei diversos prêmios no ramo, e quando meu pai quase
arruinou a empresa, fui eu que assumi e fiz com que ela fosse
reconhecida no país.
Devido a diversos fatores, meu pai e eu não tínhamos uma boa
relação, mas sabia que ele estava satisfeito com o meu trabalho.
***
O dia não havia começado muito bem. Cheguei tarde, ontem.
Mal consegui dormir e hoje perdi a hora. Isso nunca tinha
acontecido.
Não tomei café antes de sair de casa. Sabia que encontraria um
trânsito caótico, pois dirigir de Recife para Olinda não era tarefa
fácil, já que as cidades não suportavam a quantidade de veículo nas
ruas.
Fiquei mais tranquilo quando cheguei ao escritório, depois de
passar quase uma eternidade no trânsito. Não queria falar com
ninguém tão cedo, mas sabia que assim que colocasse os pés na
empresa, os problemas apareceriam. Pedi um café forte a Judi que
me seguia, batendo seus saltos no piso.
Antes de entrar na minha sala, parei no corredor em frente a sala
da minha nova assistente. Sabia que ela começava hoje, e a
silhueta perfeita que estava vendo, era bastante curioso. Apesar de
estar em uma posição provocante, ela estava formal.
Algo naquela mulher de cabelos escuros me dava uma sensação
estranha e familiar. Ela vestia uma saia preta e blusa branca solta. O
movimento que fazia ao colocar os seus cabelos longos para trás,
me deixou encantado.
Quando ouvi a voz da minha secretária, tive que voltar ao mundo
real e caminhar para o meu escritório.
- É a sua nova assistente. O nome dela é Elisabete Medeiros,
achei ela uma ótima pessoa. - Falou a mulher baixinha de cabelos
cacheados.
Ainda pensava na silhueta sexy que havia visto, mas isso não
mudou o meu humor. Sabia que até o fim do dia ficaria com dor de
cabeça.
Depois que ela me serviu o café forte, pude enfim começar o
meu dia. Pedi que ela mandasse a nova assistente entrar para
começarmos a trabalhar. Sabia que eu não poderia assustar a bela
jovem com o meu mau humor assim de cara, então respirei fundo e
encostei-me na cadeira.
Recebi uma ligação e tive que atender. Enquanto falava ao
telefone, vi o rosto conhecido entrar no meu escritório e tive que me
concentrar para não surtar.
Dava para ver que ela também havia ficado surpresa. Continuei
a minha ligação observando cada movimento da mulher que se
sentou à minha frente, ainda tentando entender o que estava
acontecendo. Assim que desliguei o telefone, nos observamos por
um instante antes que eu começasse a falar.
- Claro, você seria a assistente perfeita para mim, não é? -
Perguntei ironicamente.
- Acho que cometi um pecado muito bárbaro nas minhas vidas
passadas. - Comentou a mulher.
Não sabia se era o destino ou só coincidência mesmo. Mas ter
esta mulher como minha assistente era a forma do universo me
punir por tudo que já fiz. Ela era linda e atraente, mas da última vez
que nos encontramos foi muito mal-educada me culpando por
esbarrar nela.
O pior era que a mulher não saiu da minha cabeça desde aquele
dia e agora ela estava aqui, parada em minha frente e iria trabalhar
comigo.
Capítulo 5 - Elisabete
Quando me ligaram para dar a notícia de que eu fui a escolhida,
quase surtei. No dia em que fui até a empresa vi tantas candidatas
que até pensei que eu não seria selecionada.
Graças a Deus obtive uma resposta positiva. Agora eu
trabalharia em uma grande empresa e numa função maravilhosa no
qual esperei tanto. A partir deste dia teria mais responsabilidade e
não deixaria nada e nem ninguém atrapalhar o meu objetivo.
Na verdade, uma das perguntas foi bem estranha, pois não sabia
se era habitual ou era um teste. A mulher me perguntou se eu tinha
capacidade de trabalhar sob pressão e constante estresse, e quase
nem soube responder, mas como já havia trabalhado com uma
chefe muito irritante, já estava preparada para tudo.
Assim que cheguei pela manhã, a mulher que me entrevistou,
Serena, mostrou-me a minha sala e o que eu teria que fazer. Ela
também disse que o meu novo chefe era um homem concentrado e
que odiava atrasos ou distrações, mas que não deixasse ele me
amedrontar ou qualquer coisa do tipo.
Judi era secretária de Henrique Vilella há um bom tempo, e ela
também me alertou sobre ele. Eu já estava ansiosa e todas essas
palavras me deixaram ainda mais pilhada. Não conhecia muito o
senhor Vilella, porém, sabia que ele era um dos melhores no ramo e
que já ganhou vários prêmios. Trabalhar ao seu lado me ajudaria
muito a evoluir.
Arrumei a minha nova sala e tentei me acalmar para a chegada
do novo chefe.
Eu já aguentei muito pepino da minha antiga chefe e odiaria
trabalhar com alguém igual ou pior que ela. Acreditei que a maré de
azar havia acabado, pois já tinha conquistado o meu objetivo,
porém, pelo que estava ouvindo, parecia que meu novo chefe não
seria fácil.
Liguei para minha irmã contando a novidade e tudo o que as
pessoas já haviam falado para mim. Ela me aconselhou a relaxar e
respirar fundo, mas se o homem for grosseiro ou me humilhasse,
que eu não baixasse a cabeça.
Não sei se eu teria coragem de enfrenta-lo, pois batalhei muito e
demorou mais ainda para que eu conseguisse finalmente um
trabalho na minha área e se o desrespeitar, logo no primeiro dia,
com certeza eu não teria oportunidade em lugar nenhum.
Quando a secretária me avisou que o senhor Vilella já havia
chegado e que estava à minha espera, senti meu estômago
embrulhar. Tive que respirar fundo várias vezes enquanto
caminhava até o seu escritório, pois eu pensava que a qualquer
momento poderia desmaiar.
Entretanto, eu não estava preparada para o que encontrei assim
que adentrei a sala. O homem arrogante de dias atrás que havia
esbarrado em mim e foi muito grosseiro, falava ao telefone. Ele
também ficou surpreso ao me ver e acabei acreditando que estava
ferrada.
As lembranças exatas daquele dia se voltaram a minha mente.
Geralmente não sou tão rude, mas aquele homem despertou uma
fúria dentro de mim que não consigo explicar.
Sentei na cadeira a sua frente bastante preocupada. Eu não
sabia se ele iria me dar a chance de provar o meu valor ou
simplesmente me mandaria para o RH.
Assim que ele terminou sua ligação, ficamos nos encarando por
alguns segundos. Era verdade que desde aquele dia eu não
consegui o tirar da cabeça. Henrique Vilella era o homem mais lindo
que já vira na vida, porém, sua personalidade era de um cavalo e
não iria suportar conviver com este homem.
Como antes, ele foi grosso e irônico, esse seu sorrisinho de
canto fez com que eu quase me derretesse em sua frente.
Questionei a mim mesma sobre o destino ou as forças do universo
que sempre me colocavam nessas situações estranhas.
- Serena podia muito bem ter escolhido alguém que não fosse
tão desatenta quanto você. - Falou arrogante, me deixando
levemente irritada. - Não dá para acreditar no que está
acontecendo.
- Sei que tivemos um início muito conturbado, mas acredito que
podemos melhorar e trabalhar juntos, senhor Vilella. - Falei
reprimindo a minha raiva e vontade de responde-lo a altura.
- Você acredita? - Me questionou com o cenho franzido. - Eu
aposto que não.
- Por que é tão grosso com as pessoas? - O questionei,
levantando-me, apoiando os meus braços sobre a sua mesa.
Eu realmente estava furiosa. Poderia até o matar agora, mas
decidi ser mais prudente e tentar me acalmar, mesmo que o homem
tente a todo custo me fazer perder a cabeça.
- Por que tem a língua tão solta? - Perguntou, também se
levantando e me encarando bem de perto.
Sua aproximação causou um efeito sobre mim muito estranho.
Olhar em seus olhos verdes, assim, tão de perto, me fez sentir
insegura.
- Desculpe-me, mas não ficarei calada se o senhor quiser me
tratar como uma qualquer. - Falei, sentando-me novamente. -
Não devo o responder dessa forma, pois é meu chefe. Porém, o
senhor também deve me respeitar.
Ele cerrou os olhos e também se sentou. O homem juntou as
mãos sobre a mesa e me avaliou por um instante. Eu quis
novamente questioná-lo, entretanto, para que nossa convivência
seja, pelo menos, suportável, tinha que renunciar algumas palavras.
- Creio que já foram passadas algumas informações para você.
Não quero atraso, não tolero condutas inapropriadas no local de
trabalho e por favor, senhorita Medeiros, trate-me como seu chefe e
não como um colega, muito menos, como um cara qualquer. -
Falou desviando o olhar de mim.
- Não se preocupe, sei de tudo isso. - Falei em um tom firme.
- Em que empresa você trabalhou anteriormente?
Sua pergunta fez o meu cérebro congelar. Se o homem já estava
irritado por eu ser a sua nova assistente, imagine como ficaria
quando descobrisse que não trabalhei na área de paisagismo nos
últimos três anos.
- Fui assistente de uma contadora. Sei que não é a área da
arquitetura, mas acredite, sou capaz de trabalhar com o senhor. -
Disse, tentando amenizar cada palavra que havia falado.
Não sabia o que era pior: ter o arrogante gritando comigo ou em
silêncio me observando como se me julgasse mentalmente.
- Você não tem experiência na área, senhorita? - Perguntou
com certa irritação.
Henrique tinha aquele típico olhar que fazia você querer um
buraco para se enfiar. Eu estava nervosa e sabia que ele iria discutir
por causa disso.
- Estagiei por 6 meses quando ainda estudava na faculdade, e
mesmo que eu tenha tentado diversas vezes encontrar algo em
minha área, não consegui nada e tive que optar por arranjar um
trabalho para pagar as contas. - Expliquei com o máximo de
paciência e calmaria.
Ele respirou fundo, fechando os olhos, analisando cada palavra
que saiu da minha boca. Mesmo que eu não tenha conseguido
emprego em arquitetura e ter trabalhado por três anos em outro
ramo, isso não me desqualificava para este trabalho. Sempre me
mantive antenada e nos meus momentos de folga adorava desenhar
e imaginar projetos. Claro que isso não era profissional, mas não
tive culpa se não consegui nada.
Alguém tinha que me dar uma oportunidade.
- Serena, você pode vir ao meu escritório? - Falou ao pegar o
telefone, parecendo bastante chateado.
Meu coração parecia que ia parar a qualquer momento. Minhas
emoções estavam a flor da pele e sentia um misto de ódio e tristeza.
- Senhor Vilella, por favor, não fique chateado, sei que isso
parece algo ruim, mas não tive culpa. Isso não me desqualifica para
trabalhar com o senhor. - Falei quase entrando em desespero. Eu
sabia que este homem frio e arrogante não iria ter pena de mim,
porém, eu não poderia desistir após ter conseguido chegar até aqui.
- Posso provar que sou capaz, só preciso de uma oportunidade e
vou me esforçar ao máximo.
- Não quero uma pessoa que não vai me acompanhar. Pensa
que brinco quando entro nesse escritório? - Questiona-me rude. -
Sinto muito por você não ter tido uma oportunidade antes, no
entanto, preciso de alguém capaz e com preparo para trabalhar ao
meu lado, senhorita Medeiros.
- Eu sou capaz, e o senhor está sendo o mesmo frio e
arrogante de sempre. - Levantei-me novamente, chateada. - Não
pode me demitir sem antes me deixar provar que sou capaz. O
senhor me trata mal desde o momento que botei os pés dentro
desta empresa, e não pode esperar por uma só oportunidade para
me julgar. Já trabalhei com uma pessoa que era o verdadeiro diabo
para mim, mas o senhor vai além. Eu nem tenho palavras para
descrevê-lo.
Eu sabia que não poderia surtar e gritar com meu chefe. Ele
estava a ponto de me demitir e eu estava dando o armamento para
que ele pudesse fazer isso.
Henrique se levantou e me encarou de perto, assim como antes.
Ele também estava irritado e com razão. Mas ele não me
respondeu.
- O que está acontecendo aqui? - Questionou Serena ao
entrar.
Capítulo 6 - Henrique
Eu não queria acreditar que Serena havia feito isso comigo. Ela
era uma mulher experiente e de minha confiança, eu só queria
saber por que ela contrataria uma mulher sem experiência para
trabalhar ao meu lado.
As palavras de Elisabete ainda estavam pairando sobre a minha
cabeça quando a minha amiga adentrou a sala me olhando com
espanto.
Eu não era conhecido por ser uma pessoa boa ou que tivesse
muita paciência, por isso a necessidade de alguém com experiência
e que pudesse suportar a minha oscilação de humor. Não posso
negar que Elisabete era uma mulher determinada e com
personalidade forte, que poderia até suportar um pouco a minha,
mas ela era petulante e me irritava constantemente, isso somado a
sua falta de experiência no ramo da arquitetura era inaceitável para
mim.
Entretanto, algo em seu olhar me fazia querer ficar com ela,
mesmo estando muito chateado pela situação. A mulher me
desafiava e já fazia muito tempo que eu não encontrava ninguém a
altura para fazer tal coisa. Não poderia negar que isso me excitava
um pouco. Sei o quanto isso era confuso, o que me deixava ainda
mais puto com a situação.
Elisabete saiu assim que Serena entrou. Era nítida a sua
preocupação quanto ao trabalhar comigo, e mesmo não querendo
de jeito algum ter alguém tão... Irritante ao meu lado, algo dentro de
mim desejava mantê-la no emprego.
Isso já está me irritando.
Serena sentou-se à minha frente e respirei fundo várias vezes
antes de começar os meus questionamentos. Sou conhecido por ser
muito exigente, no entanto, também muito arrogante, era verdade
que muitas vezes eu me arrependia das coisas que falava, mesmo
não demonstrando isso.
Aprendi a ser mais duro para obter resultados positivos. Ser
bonzinho não me trouxe resultados bons no passado e eu não
queria nada fora do lugar dentro do meu local de trabalho.
- Henrique, pedi para você não ser tão... Você. Sabe como foi
difícil achar alguém que pudesse trabalhar ao seu lado todos os dias
e não se demitir? - Falou ela com o cenho franzido.
- Então teve que contratar alguém inexperiente para isso? -
Perguntei bastante irritado.
A mulher à minha frente respirou fundo e se encostou na cadeira
como se o assunto abordado não fosse tão grave quanto era.
- Eu sabia que isso seria um problema para você. - Disse ao
cruzar as pernas. - Mas não faria isso se não soubesse que essa
mulher pode trabalhar ao seu lado e ser eficiente no trabalho.
Era verdade que Serena era uma mulher responsável e não
cometia erros. Porém, esta era minha empresa e odiava ter que
explicar ou responder perguntas a qualquer um.
- Pelo amor de Deus, Serena, será que não consegue ver um
problema aqui? - A questionei mais firmemente. - Sabe quantas
vezes ela me respondeu desde o momento que entrou por aquela
porta?
- E não teve medo disso? - Perguntou com um sorriso
orgulhoso.
- Acha isso engraçado? - Perguntei achando isso estranho.
- Desculpe, Henrique, mas você não é o homem mais correto e
bonzinho que conheço. Você enlouquece todos dessa empresa.
Pergunte a sua secretária! - Disse ainda parecendo se divertir com
a minha situação.
- Eu exijo 100% das pessoas que trabalham para mim. Isso me
faz ser um tirano? - Questionei ficando ainda mais furioso. -
Talvez eu devesse demitir mais pessoas.
- O que Elisabete fez de tão errado para que você queira
demiti-la no primeiro dia? - Perguntou, recostando e me
encarando. - Danificou algo, errou algum documento ou
simplesmente não foi com a cara dela?
- Se ela tivesse feito qualquer uma dessa coisas eu não
precisaria ter chamado você. Além do mais, não tenho que gostar
de alguém só porque irá trabalhar para mim, mas isso não vem ao
caso. Eu só não desejo quebrar a cabeça com uma menina sem
experiência.
Mesmo ouvindo coisas tão negativas, parecia que Serena estava
se divertindo com a situação. Isso também estava me chateando.
- Então seria só mais um que não deu a ela uma oportunidade
para que ela provasse seu valor. - Falou me provocando.
Era verdade que nós somos amigos há muito tempo. Eu
respeitava Serena como uma profissional e como pessoa, mas às
vezes ela passava dos limites.
- Interessante como todos hoje querem me provocar. - Falei a
reprovando.
- Desculpe, passei dos limites. - Disse arrependida. - Porém,
não pode demiti-la sem uma razão. A mulher não cometeu um erro
e você não tem um motivo.
Ela tinha razão, mas como ficaria com alguém que pode não
acompanhar o meu ritmo?
Eu estava sendo imparcial e minha consciência estava gritando
na minha cabeça. Minha amiga tinha razão em dizer que eu seria
como os outros que não deram uma oportunidade. O pior era que eu
odiava ser comparado a qualquer outro.
- Não preciso de desculpas para demitir alguém, essa é minha
empresa. – Falei encostando-me na cadeira. – Porém, não serei tão
duro e darei 3 meses. - Falei após pensar um pouco. - Se ela
estragar qualquer coisa será demitida na hora. Darei 3 meses como
experiência, se ela for boa, permanece.
- Ótimo. - Ela disse com um sorriso largo.
- Não fique felizinha, você sabe que não sou fácil, penso que
ela mesma vá se demitir.
- Só se você der motivos, querido amigo. - Falou irônica.
- Mande que a novata entre, já perdi muito tempo. Tenho uma
reunião em poucos minutos. - Falei arrumando os papéis em
minha frente.
Satisfeita, Serena levantou-se e saiu. Minha cabeça já ameaçava
doer antes mesmo de estarmos na metade do dia. A porta foi aberta
novamente, e um par de pernas bronzeadas entrou me
hipnotizando. Tinha que confessar que Elisabete Medeiros era linda.
Eu diria de tirar o fôlego. Sabia que isso também seria um problema.
- O que decidiu, irá me demitir? - Questiona-me ansiosa e
levemente irritada.
Esse era outro motivo para a minha preocupação. Ela era quente
e petulante, e no mesmo nível que me irritava, me atraía.
- Não serei tão malvado com você. - Falei com um sorriso no
rosto. Foi engraçado ver seu rosto surpreso. - Darei um período de
experiência de 3 meses, se você cometer um deslize sairá antes
desse prazo, se for boa ficará na posição. Porém, acredito que você
vai pedir para ir embora.
- Isso é um desafio, senhor Vilella? - Perguntou cerrando os
olhos. - Eu não gosto de ser desafiada.
Foi impossível não ficar animado com a situação. Não podia
negar que eu adorava desafios, e mesmo não querendo fazer disso
uma competição, meu instinto pedia para fazer.
- Trate isso do jeito que quiser. Mas sei que estou certo e que
você não vai durar muito tempo aqui. - Afirmei.
- Serei a assistente mais prestativa e eficiente que o senhor já
teve na vida, e no final irei mostrar que não se brinca com uma
Medeiros. - Provocou a morena de olhos castanhos. - Quando
isso acabar, será o senhor que me pedirá desculpas por toda essa
sua grosseria.
Isso era perigoso. Não sabia o porquê de estar tão excitado com
a conversa, mas Elisabete era diferente das demais mulheres. Ela
me desafiava e isso era novo.
Capítulo 7 - Elisabete
Eu tentava me convencer de que não existia essa coisa de que
pessoas nasciam com azar, mas os acontecimentos recentes
comprovavam o contrário, e estava quase acreditando que
realmente poderia ter nascido com a vida azarada.
Henrique Vilella era mesmo um homem insuportável e irritante
que faria de tudo para que eu perdesse o emprego. O problema era
que o cretino não sabia com quem ele estava brincando e eu teria
que mostrá-lo que nada do que ele pudesse fazer, iria me fazer
desistir do meu sonho.
Eu queria dar o troco e fazer com que ele provasse do seu
próprio veneno, porém, o homem era meu chefe e eu teria que
suportar até não aguentar mais. Mas sei que em algum momento,
Henrique irá ter o troco e eu estaria na arquibancada apreciando
esta ocasião.
Não importava qual tarefa ele me mandasse fazer, sempre
concluía com maestria. Sentia pena de todos que trabalham ao
redor desse homem, pois ele mal chegava no escritório e
esbravejava com todos. Inclusive com a coitada da Judi.
Ao lado dele trabalhava exaustivamente, quando chegava em
casa já estava exausta e mal tinha tempo para comer e dormir, pois
no outro dia tinha que estar em pé logo cedo.
Eu realmente só queria trabalhar em um ambiente feliz e
tranquilo, porque realmente gostava da arquitetura e agora estava
tendo a oportunidade de estar em um projeto grande de um Hotel
que se tornaria um Resort.
O projeto durará 3 meses, o tempo que ele me deu de
experiência. Faria questão de provar o meu valor e farei ele pedir
desculpas por tudo o que falou.
Amanhã ele iria me buscar para irmos a Serrambi, onde ficava o
terreno que trabalharíamos. Parece que o proprietário também
estaria fazendo mais dois edifícios, o que deixava o projeto muito
maior.
Mesmo estando confiante, ainda restava um pouco de receio
dentro de mim. Eu era capaz, sabia disso. Mas aquele chefe era o
pior dos homens, e tinha medo de que ele pudesse me ferrar só
para me ver desistindo.
***
Quando acordei pela manhã, minha mente demorou um pouco
para voltar ao normal. Tomei um banho rápido e troquei de roupa, e
só tive tempo para tomar um café rápido já que o homem estava
mandando mensagem, dizendo que já estava à minha espera do
lado de fora.
" Eu já mencionei que odeio atraso, senhorita Medeiros. "
" Acho que seu relógio está muito adiantado, pois ainda faltam
cinco minutos, senhor Vilella. "
Revirei os olhos, pegando a minha bolsa e batendo a porta.
Como o homem já pode estar tão irritado a esta hora da manhã?
Quando saí do prédio, vi Henrique apoiado no capô do carro com
óculos escuros, muito sexy. Eu não conseguia entender como um
homem tão lindo, também poderia ser tão arrogante. Não sei se isso
era um mal que cresceu com ele ou algo ruim aconteceu para que o
ele fosse tão odiável.
Me aproximei, sendo avaliada pelos seus olhos verdes cobertos
pelos óculos escuros. Eu não queria me sentir abalada pelas
sensações que ele me provocava quando me olhava dessa forma,
mas era quase impossível não reagir positivamente. O que me fazia
odiá-lo ainda mais.
- Bom dia, senhor Vilella. - Falei, querendo começar o dia
animada.
Henrique ficou me encarando por alguns segundos antes de se
mover e abrir a porta do automóvel, entrando, sem ao menos me
responder.
- Está atrasada, senhorita Medeiros. - Falou arrogante, como
sempre.
- Bom dia para você também, Elisabete. - Falei ironicamente,
andando até a porta e sentando-me ao seu lado. - O dia está tão
lindo, Elisabete, você também está muito bonita.
- Você tem algum transtorno ou é apenas ego inflado? -
Perguntou, franzindo o cenho.
Eu não queria rir da sua pergunta idiota, mas foi impossível
porque o homem não estava sendo irônico.
- Não tenho problemas mentais e nem sou egocêntrica, muito
diferente do senhor, mas acho que você tem sérios problemas
sociais, Sr. Vilella, pois nem um bom dia pode responder. - Falei
ainda sorrindo.
O carro dele era um esportivo muito lindo na cor preta e teto
removível. Fiquei feliz quando o abriu, dando-me liberdade para
respirar o ar fresco e apreciar a vista. O vento batia em meus
cabelos, os deixando esvoaçados. Fechei os olhos e tentei relaxar o
caminho inteiro. Henrique se manteve calado, me dando um pouco
de paz enquanto não começávamos mais uma discussão.
Fiquei feliz em saber que nós visitaríamos o local onde
trabalharíamos, porque ficava perto da praia e já fazia muito tempo
que eu não chegava a alguns quilômetros de algo assim. Mesmo
morando na capital, que era conhecida pelas belas praias e
podendo ir aos fins de semana, nunca encontrei tempo para tal
diversão. Claro que eu gostaria de estar em uma situação muito
melhor do que estar ao lado do meu chefe arrogante, porém, nem
sempre temos aquilo que queremos e eu tinha que suportar o
homem chato ao meu lado.
Quanto mais nos aproximávamos do local, mais eu conseguia
sentir a maresia e isso me deixou alegre. Henrique estacionou não
muito longe do local onde o proprietário estava nos esperando.
Ainda sem falar nada, ele saiu do veículo e o segui.
- Isso não o deixa de bom humor? - Perguntei, respirando
fundo o ar novo em que estávamos.
- Não. - Respondeu seco.
Revirei os olhos e encarei suas costas largas.
- Desculpa a pergunta, chefe, mas você tem namorada ou algo
assim?
O homem virou-se para olhar para mim por cima dos óculos
escuros, e dei um sorriso amarelo.
- Não estamos aqui para conversar banalidade, senhorita
Medeiros. - Responder rude.
- Desculpe. A pergunta foi tola. É óbvio que você não tem uma
namorada, afinal qual mulher aguentaria um homem como você. -
Falei sem medo algum.
- Se eu fosse você tomaria cuidado com o que fala ou posso
demiti-la agora mesmo. - Falou se aproximando
ameaçadoramente.
- Não me leve a mal, Henrique, só queria saber porque você é
tão arrogante e frio desta forma. - Expliquei séria. Ele estava a
poucos passos de mim, e senti a minha frequência cardíaca
aumentando cada vez mais. - Talvez a resposta seja bem óbvia
não é, o senhor é mal-amado.
Depois do que falei, algo inusitado aconteceu. O homem deu
uma gargalhada impressionante que me deixou desconcertada.
Achei que o ridículo não poderia ficar mais lindo, no entanto,
sorrindo assim ele ficava ainda mais irresistível.
- Você realmente não tem medo de mim, não é? - Me
questionou ainda com resquícios do seu sorriso.
- Não sou paga para ter medo do meu chefe.
Ele retirou os óculos e me olhou com seus olhos verdes
intensos. Henrique estava perto o suficiente para que seu corpo
ficasse quase sobre o meu. Observei esses lábios carnudos e senti
a minha boca secar, e involuntariamente umedeci os meus.
- Que bom que chegaram. - Falou uma mulher loira, trazendo
com ela um senhor que aparentava ter entre 50 e 60 anos. -
Rodolfo, este é Henrique Vilella.
A mulher tinha um sorriso largo para o meu chefe. A coitada nem
sabia quem era o homem ao meu lado. Aparentemente Henrique só
demonstrava sua verdadeira face para os seus funcionários.
Os três foram conversar mais distante, e fiquei para avaliar o
local e tirar algumas fotos. De longe, observei o homem arrogante
que veio comigo, e em alguns momentos nossos olhares se
encontravam. Mesmo ele sendo do jeito que era, algo me fazia
sentir atraída por ele. Nossas brigas eram muito acaloradas e todas
as noites quando deitava minha cabeça no travesseiro, era a sua
imagem que aparecia. Não sei o que Henrique fez comigo, mas o
odiava ainda mais por isso.
- Oi! Você veio com o Henrique? - Virei-me para encontrar a
dona da voz que me fez a pergunta e encontrei outra loira, no
entanto, desta vez ela era mais simpática do que a primeira.
- Sim, trabalho com Henrique. - Respondi com um sorriso.
Vi seu olhar furtivo, procurando o homem atrás de mim e minha
mente já começou a bolar algumas ideias sobre quem era essa
mulher e como ela conhecia o meu chefe.
Conversamos um pouco sobre o hotel e a reforma. Amanda era
namorada do proprietário do local, e ela disse que participaria de
algumas reuniões sobre todo o projeto.
- É bom vê-lo de novo, Henrique, já faz tanto tempo.
Virei-me para encontrar o homem que me irritava todos os dias. Ele
tinha um sorriso falso no rosto que me fez ficar bem curiosa.
Rodolfo passou por nós, ficando ao lado de sua namorada.
- Vocês já se conheciam? - Ele perguntou, curioso.
- Nos conhecemos na faculdade. - Meu chefe respondeu se
aproximando muito de mim. - Já conheceu a minha namorada,
Amanda?
Senti meu corpo inteiro tremer com as suas palavras e a sua
mão em minha cintura.
Me senti estranha com a aproximação de Henrique, e a palavra
namorada ainda me perturbava.
Eu não sabia porque meu chefe diria que eu sou sua namorada,
pois vivíamos em pé de guerra, mas a loira com quem eu
conversava antes e que estava sendo muito simpática, agora me
olhava com desprezo.
Após piscar várias vezes, consegui voltar ao normal e abrir um
sorriso de nervoso. Eles conversavam como se fossem velhos
amigos, enquanto eu só queria me afastar do idiota.
- Então quer dizer que sua namorada também trabalha com
você como sua assistente? - Amanda perguntou com um sorriso
falso.
- Claro, é muito bom trabalhar ao lado do meu amor. - Ele
disse me fazendo tossir algumas vezes com a sua resposta.
Eu queria poder demonstrar mais abertamente o meu ódio pelo
homem, mas não sou boba de contradizê-lo na frente dos clientes,
muito menos na frente da perua loira.
Sua mudança de humor me fez pegar ranço da mulher.
- É uma história engraçada, pois era difícil achar alguém que
suportasse o humor dele. - Falei irônica e todos riram, inclusive
Henrique.
- Viram, ela é engraçada. - Falou me apertando ainda mais a
ele.
- Amanda também trabalha comigo e sei como é bom tornar o
ambiente de trabalho ainda mais confortável. - Disse Rodolfo,
parecendo bem apaixonado. - Bem, acho que agora podemos
continuar a visita.
- Claro, mas antes eu gostaria de falar um minuto com o meu...
namorado. - Falei olhando para o homem que sorria ao meu lado.
O Rodolfo saiu sorrindo e batendo no ombro de Henrique, como
se ele não fosse enfrentar a minha ira assim que estivessem longe o
suficiente.
Amanda nos olhava de longe com os olhos cerrados, tentando
descobrir algo sobre o que iríamos conversar.
Virei-me para ele que estava com as mãos na cintura, me
olhando com um sorriso sarcástico no rosto.
- Interessante saber que não sirvo para ser sua assistente, pois
não tenho qualificação, mas para ser sua namorada de mentira
sirvo? - O questionei tentando não demonstrar toda a minha raiva,
fisicamente.
- Foi impossível, ok? Amanda é a minha ex-namorada e eu
meio que queria que ela ficasse com ciúmes, e sabe, ela ficou. -
Sua revelação não me chocou tanto, e senti um pouco de raiva por
saber dessa questão. Era idiotice sentir, no entanto, não podia
controlar todos os meus sentimentos.
- Porque eu, você parece me odiar? - Questionei interessada
na sua resposta mais do que desejava parecer.
- Eu não odeio você, Elisabete, só exijo pessoas qualificadas
trabalhando ao meu redor. - Falou, dando de ombros. - Mas
tenho que confessar, nos últimos dias você está sendo muito
eficiente. Devo desculpas por ser tão... exigente.
- Ah! Desculpa, mas você não estava sendo exigente, você
estava sendo um cuzão. - Falei sem pensar, mas ele riu.
- É, fui além do normal. - Confessou me deixando um
pouquinho mais feliz. - Quando Rodolfo falou que Amanda era sua
namorada, a raiva do passado voltou com tudo, então vi você aqui
ao lado dela. Foi impulsivo, porém você é uma mulher linda,
inteligente e sabia que ela ficaria chateada.
Suas palavras, num todo, me deixaram muito abalada. Eu não
poderia imaginar que Henrique falaria tal sobre mim.
- Obrigada. - Falei sem jeito. - Então quer dizer que temos
que fingir ser namorados?
Eu não sabia se isso seria possível, já que nós dois não nos
dávamos muito bem, no entanto, esse mal-entendido que foi gerado
pelo meu chefe, já havia sido dito e não teria nada que pudéssemos
dizer para fugir da mentira.
Capítulo 8 - Henrique
Eu não sabia por que cometi a loucura de dizer que Elisa era
minha namorada. Eu poderia ter inventado qualquer outra desculpa
ou simplesmente ter ficado calado e aguentado a presença de
Amanda, mas não, algo dentro de mim quis se vingar pelo passado,
e quando notei a raiva e a inveja nos olhos da mulher, senti uma
satisfação inexplicável.
Quando estava conversando com o Rodolfo, o dono da rede de
hotéis, ele me contou sobre sua noiva que trabalhava ao seu lado
na administração, e quando percebi quem ela era, uma raiva
descomunal tomou posse de mim.
Eu sempre fui focado nos estudos e era um dos melhores na
faculdade, nunca namorei sério na vida até Amanda aparecer e
roubar meu coração. Achei que ela me amava, apesar das suas
exigências e chiliques. Eu fazia tudo que ela queria, era como um
cachorrinho, no entanto, um dia ela terminou comigo sem me dar
muitas explicações, apenas disse que eu não era o que ela
desejava.
Não tive uma infância muito acolhedora, e isso me causou uma
desconfiança nas pessoas muito grande. Dias depois que a loira
acabou comigo, a vi com um ricaço playboy. Nunca desconfiei que
ela tivesse me traído, porém, naquele momento não tive dúvidas.
Isso não servia de justificativa para os meus atos nos dias atuais,
mas foi a raiva e o rancor da mulher que eu amava, dentre outras
coisas, que me fizeram ficar dessa forma.
Prometi a mim mesmo que nunca mais deixaria uma mulher
fazer o mesmo comigo novamente. Por isso não buscava amor
verdadeiro, só um acordo conveniente para mim.
Achei que tinha superado depois de dez anos, entretanto, foi só
a reencontrar para lembrar das suas palavras novamente e sentir o
mesmo rancor de sempre.
Eu poderia ter escolhido qualquer outra mulher para interpretar
esse papel, mas foi justamente Elisabete quem estava em minha
frente, usando um vestido azul, lindo, justo ao corpo, e
graciosamente jogando seus longos cabelos escuros para trás. Eu
desejava me bater por estar bobo com a beleza da minha nova
assistente, porém, era inevitável não notar o óbvio e sabia que o
sorriso convencido de Amanda era porque desejava jogar na minha
cara que estava maravilhosamente bem.
Desejava tirar a felicidade momentânea dela e dizer que eu
também segui em frente, mesmo que isso fosse uma mentira.
Porém, eu havia entrado em um buraco fundo que não tinha
mais volta. Mentir dizendo que Elisabete era minha namorada
complicava ainda mais as coisas. Não éramos muito fã um do outro.
Ela era petulante e cheia de si e eu era o que todos já sabiam:
arrogante e exigente. O problema era que a loira de araque estaria
monitorando esse projeto e faríamos várias reuniões durante esse
período para decidir várias coisas e eu e Elisa teríamos que
interpretar esse papel até que isso acabe e nunca mais ter que
suportar Amanda.
Elisabete tinha razão em estar chateada e me questionando
sobre muitas coisas, mas saber disso não diminuía a minha irritação
com a mulher e suas perguntas. Estávamos de volta à estrada,
seguindo para o escritório para analisar o que tínhamos sobre a
área onde iríamos trabalhar, e a mulher não parava de falar por um
segundo.
- Então como será? - Questionou-me sentada ao meu lado e
olhando para fora. - Temos que ser um casal feliz enquanto sua ex
estiver ao nosso lado?
Pensar que isso era só o início da minha tortura me dava dor de
cabeça.
- Pelo visto você já sabe, então para que perguntar? -
Resmunguei de mau-humor.
- Não se esqueça, querido chefe, você prometeu ser mais
educado e não me tratar com a sua arrogância de sempre ou pode
se dar mal. – Falou me provocando.
Apertei o volante com toda a força possível. Talvez a idade tenha
diminuído o meu nível de paciência e o destino estava simplesmente
me punindo por ser um idiota.
- Primeiro, mesmo sabendo que preciso de você para isso, não
quer dizer que devo suportar esses seus atrevimentos, então pense
muito bem antes de me responder, Elisabete. – Falei com firmeza e
muita pouca paciência. – Segundo, eu odeio ter que responder
perguntas bobas, espero que pense em coisas que realmente
deseja saber e não perca o meu tempo com bobagens.
- Olha, Henrique, se não estivéssemos dentro de um carro eu
realmente chutava as suas bolas. – Falou me surpreendendo. –
Você é mais que arrogante ou insensível, é um verdadeiro babaca e
tenho que deixar claro agora que você não pode usar a sua
personalidade habitual para se referir a mim.
Dei um leve sorriso irônico tentando relaxar a minha mente antes de
falar novamente com ela. Era impressionante o quanto essa mulher
me irritava e não tinha um pingo de medo de perder o emprego.
- Ainda sou seu chefe. – Reclamei. – Então tome cuidado com
o que fala.
- Agora eu sou a sua namorada, então tome cuidado em como
me trata ou posso deixar você. – Falou me fazendo rir mais ainda.
Estava quase acreditando que havia contratado uma louca para
trabalhar para mim. – Vou deixar claro como isso vai funcionar,
chefe. Não precisamos fingir que nos gostamos quando ninguém
estiver por perto, mas isso não quer dizer que não devemos nos
respeitar. Sei que você pode me demitir, no final das contas, mas
saiba que não sou o tipo de mulher que fica calada. Não faço ideia
de quem é você ou aquela mulher. O que ela fez para fazer você
cometer esse erro terrível, por isso preciso de informações básicas.
Tudo isso era culpa minha. Se eu não tivesse cometido o
equívoco de abrir a boca para falar essa bobagem, isso não teria
acontecido. Eu sabia que teria que tratar a mulher com mais
educação, ser mal-educado não era o meu forte, mas Elisabete
despertava em mim um instinto selvagem que nunca ninguém
conseguiu.
- Tudo bem, vou forçar-me ao máximo para não ser tão
arrogante e... escroto com você. Temos que concordar que nós dois
devemos nos esforçar para que isso dê certo durante esse período.
- Fui sincero em minhas palavras, se ela fosse me ajudar nesta
pequena mentira, não merecia a minha raiva. - Enquanto
estivermos na presença de Amanda ou de Rodolfo, nós dois
podemos ser... um casal perfeito. Não precisamos exagerar, e
ninguém pode saber sobre isso. No escritório ou fora dele. - Exigi
ao estacionar na garagem do prédio onde ficava a empresa. -
Prometo que vou me esforçar para não ser tão rude com você, mas
você também tem que me ajudar não me provocando. Tudo bem,
querida?
A morena cerrou os olhos, dava para ver o seu desagrado
comigo. Eu não tinha que fingir que o modo de agir de Elisabete me
agradava também, porém, meu inimigo era outro e a culpa disso
tudo estar acontecendo era minha.
- Tudo bem, mas ainda devemos conversar sobre como vamos
levar isso adiante.
- Não acho que isso seja necessário. – Falei ao tirar o cinto de
segurança, mas sua mão tocou na minha, o que me fez olhar em
seus olhos.
Assim tão de perto a mulher irritante parecia ainda mais bonita,
com a sua pele bronzeada e cabelos ondulados.
- Devo respeitar a sua privacidade, mas pelo menos tenho que
saber o básico para não ser idiota na frente da sua ex.
- Não penso que ela vá investigar sobre a veracidade do nosso
relacionamento. – Falei colocando aspas na última palavra.
- Por isso você ainda está solteiro, sem contar, é claro, com a
sua frieza e arrogância. Não conhece as mulheres, muito menos as
EXs. – Disse me fazendo bufa de tedio. – Não importa se não se
gostam, mulheres são muito inteligentes e ardilosas. Quero ter as
possíveis respostas para as possíveis perguntas e você vai me dar
isso de um jeito ou de outro.
- Isso é uma ameaça? – Questionei confuso.
- Não, é uma certeza.
***
Passamos a tarde inteira trabalhando no projeto. Roberto, que
também estava na equipe, era responsável pelos desenhos gráficos
e como também temos que apresentar os desenhos à mão, fiquei
responsável por isso.
Em alguns momentos, minha atenção era dirigida a Elisa. Ela
sempre estava concentrada no que estava fazendo, a mulher era
especializada em paisagismo e eu tinha que admitir que ela era
muito boa.
Cuidar de ambientes era uma paixão que eu tinha desde criança
e isso me divertia. Desde que Elisabete chegou na minha vida e
começamos a trabalhar juntos, estava difícil me concentrar só nos
papéis ou na tela do meu tablet.
Quando já tínhamos terminado, já era bastante tarde. Sabia que
a turrona morava no centro da cidade e que levaria bastante tempo
para chegar em casa.
- Está na hora de ir, vou leva-la para casa. – Falei olhando para
o aparelho telefônico que tinha várias mensagens da minha mãe.
- Não será necessário, posso fazer esse trajeto de ônibus. -
Falou arrumando as coisas.
Eu não sabia o porquê tinha me oferecido para fazer isso, já que ela
era a minha mais nova dor de cabeça. O problema era que eu sabia
que para parecermos um casal de verdade, deveríamos conhecer o
mínimo um do outro e ter uma curta intimidade. Porém, nada do que
eu fazia parecia agradar a Elisa.
- Acredito que faça isso por puro prazer. - Disse colocando o
telefone no bolso, irritado. – Não aceitará minha carona só para me
provocar.
Quando finalmente me olhou, ela parecia confusa. Não tinha
mais ninguém no escritório e o lugar estava parcialmente escuro.
- Você é estranho, Henrique. - Falou após revirar os olhos –
Tudo bem, eu aceito.
Tudo isso só me fazia querer ainda mais nunca me relacionar
novamente com uma mulher. Elas eram caprichosas e confusas. Eu
já tinha problemas demais para suportar tudo isso.
- Tenho que fazer uma anotação mental para nunca mais me
meter nessa situação. - Resmunguei baixo.
Caminhamos até o elevador em silêncio. Eu odiava lugares
fechados e tudo ficava ainda mais complicado quando estava ao
lado da Elisabete. Mais cedo, quando estava em meu carro, seu
aroma doce, sutil, me deixou ainda mais confuso. Ela tinha esse
poder sobre mim que me enlouquecia. Era como se meu cérebro
gostasse e odiasse ao mesmo tempo.
- Às vezes não entendo o que você quer. - Finalmente falou,
quando as portas já estavam fechadas. – Por que está fazendo essa
gentileza se me odeia tanto?
- Não odeio você. Acredite, o problema não é todo com você.
Sei que é inteligente e bastante proativa, não discordou quando
cometi esse equívoco, mas algo em você me faz ser assim. – Falei
sem desejar encara-la.
- Desculpe se sou irritante. - Disse parecendo chateada.
- Já disse, Elisabete, não é isso. Claro que me provoca, mas
sei que a culpa é minha.
- Então o que é?
Perguntas. Isso era o que eu mais odiava. Talvez fosse porque
eu não desejava revelar a verdade.
- Você me faz lembrar de uma pessoa que era importante na
minha vida. – Falei ao lembrar do passado.
- Não me diga que é a Amanda!
- Não! – Disse a olhando com surpresa. – Você e ela são
totalmente diferentes. Não gosto de perguntas, pois odeio me abrir.
Isso pode me prejudicar como no passado.
Não sabia porque estava revelando tanto. Mesmo tendo começado
essa mentira, eu não precisava falar tanto. Elisa me olhava de forma
estranha. Não havia mais tensão entre nós.
- Não se preocupe, eu sei o meu lugar. Nunca faria nada para
prejudica-lo. Prometo que vou tentar não o provocar mais. - Suas
palavras me fizeram a olhar de outra forma. Essa mulher quando
não estava me provocando não era irritante. - Não sei o que
Amanda fez, mas sei como é sentir rancor por um ex.
- Já foi abandonada e traída? – Questionei.
- Não sei se considera isso pior, mas primeiro fui traída para
depois ser abandonada. O idiota estava transando com uma das
minhas amigas na cama onde nós dormíamos, e eu os peguei no
mesmo dia em que fui demitida.
Estava começando a achar que a minha história com Amanda
não era tão terrível assim.
- Nessa você ganhou. - Falei desviando minha atenção para a
porta. – Por que foi demitida?
- O dono faliu a empresa. – Foi direta. – Todos saíram
perdendo. Pelo menos consegui chegar até aqui, mesmo que meu
chefe não seja um príncipe por dentro.
Foi involuntário sorrir da sua pequena provocação. No fim das
contas, Elisa não era tão mal. O problema realmente era eu.
- Acho que nós dois podemos passar por isso sem matar um ao
outro. – Falei assim que as portas se abriram. – Você não é tão
chata.
- Uau, sério? – Falou com ironia. – Sabe, se não for tão
exigente e arrogante, pode ser um bom chefe.
Estávamos concentrados um no outro quando o meu telefone
tocou para trazer a realidade de volta. Ao sair da caixa de metal,
atendi o aparelho e fiquei surpreso ao descobrir quem era.
- Por que está ligando para mim, Amanda? - Eu não queria
voltar a me irritar, mas a voz da mulher me fazia querer jogar o
aparelho longe.
- Henrique, eu gostaria de convidá-lo para o meu noivado com
Rodolfo, amanhã. - Disse animada. Não sabia qual era a intensão
dela ao fazer esse convite. Passamos dez anos sem nos falar e
agora, do nada, a loira desejava me convidar para o seu noivado.
- Por que isso agora? – Questionei enquanto Elisabete me
olhava atentamente.
- Rodolfo gostou de você e da sua... namorada. – Senti o
desprezo dela ao falar isso.
- Ok, nós vamos.