Filipe entrou na minha sala e comecei a sentir dor de cabeça antes mesmo dele falar alguma coisa. Acreditei que dando um neto a ele, Felipe sairia do meu pé, mas agora cisma com a forma que escolhi ter o bebê. Eu queria que as coisas melhorassem e não ter mais encheção de saco. Ele queria um neto, agora tem um neto! Meu trabalho está atrasado e para meu pai ter se dado o trabalho de vir até a empresa... Mais dor de cabeça para mim. Esse velho está com muito tempo de sobra.
– Como vai a barriga de aluguel? – Ele perguntou em um tom debochado e sentou na cadeira na minha frente.
Tirei os olhos dos papéis em minha mão e olhei para ele.
– Ela tem nome.
– E isso importa? – Ele está me testando. – Se importa como a chamo ou a deixo de chamar?
– O que quer aqui? – Vou direto ao assunto.
O jeito que Filipe fala da Aline me dá nervos.
– Como um ótimo avô que sou, estou aqui para saber do meu neto...
– Deveria ter pensado nisso antes de ir até minha casa e falar merda. Certas coisas deveria deixar guardado para si mesmo. – Deixei os papéis de lado, agora ele tinha minha total atenção. – Está preocupado agora?
– Olha, como você fala comigo garoto. – O tom de deboche sumiu. – Sou seu pai.
– Quer reivindicar a genética agora? – Foi minha vez de usar o tom deboche.
Filipe descobriu que Aline tinha ido embora e achou no direito de expressar sua opinião sem eu pedir. O que piorou mais o meu dia. Aline decidiu ir embora depois do nascimento do Joe e eu não a impedi, ela está com raiva de uma coisa que não fiz. Eu cumpri o que prometi a ela, cumpri tudo que prometi e fui o mais sincero possível, mas Aline preferiu não acreditar em mim. Não quis me ouvir mesmo eu tendo provas. Não nego que o momento era desesperador e não posso ficar com raiva disso. Mas também não posso evitar meus sentimentos.
Mas ela tomou sua decisão.
Preferiu nos deixar.
Droga! Como pude me apaixonar por Aline?! Agora estou aqui, um mês depois sem parar de pensar nela um dia sequer. Tenho uma parte dela, uma parte tão pequenino e indefeso. Joe, meu filho, não seja chato e teimoso como sua mãe. Dizer que gosto da Aline é pouco. A amo. Saudades do seu toque, do seu beijo... Dela falando pelos cotovelos. Acabei sorrindo com isso.
Espero um dia poder mostrar para ela e dizer o que sinto.
– Não me diga que você se apaixonou por aquela mulher. – Filipe faz uma expressão de horror.
Fechei meus olhos, suspirando. Preciso me acalmar, voltei a olhá-lo.
– Se está aqui para destilar seu ódio a mãe de Joe. – Apontei para porta. – Então você pode se retirar.
– Ela é apenas uma barriga de aluguel...
– Engraçado que ontem você estava dizendo que uma mãe não pode abandonar seu filho e que ela deveria estar ao meu lado agora. – Sorri para ele e escorei em minha cadeira. – O que mudou agora? Me diz.
– Não quero esse tipo de mulher na vida do meu neto.
– Que tipo de mulher você acha que ela é?
– Não é óbvio?! Uma interesseira! Só pensa nela mesmo e em dinheiro. Queria um jeito de ganhar dinheiro fácil e correr para ser uma barriga de aluguel.
Sorri com suas palavras. Eu pensava o mesmo que ele sobre a Aline, mas ela só fez isso para ajudar sua mãe. Ah, Aline, como sinto sua falta. Ela demonstrou ser completamente diferente e caso ela tinha um plano e era fazer eu me apaixonar... Aline conseguiu.
Não sou o homem mais romântico da terra. Herdei empresas das quais preciso de um comando sem distrações, escolhi meu trabalho porque é mais exato do que um amor. Tudo acontece do meu jeito e quando eu quero. Conhecido por muitos pelo meu jeito frio, mas não teria conseguido alavancar essa empresa sendo um bobo apaixonado. Na vida é preciso ceder a certas coisas e eu preferi deixar o amor de lado.
Ter um filho não foi só para meu pai me deixar em paz, mas sim para preparar o meu herdeiro. Ele será melhor do que eu e dominando as coisas mais rápido poderá ter a vida que quiser.
Para uma pessoa que não acredita no amor e corri dele a anos. Agora não consigo imaginar uma vida sem ela. Posso ter sido orgulhoso de mais em deixá-la ir, mas se no futuro tiver algo preparado para nós? Será que verei essa mulher novamente? Se um dia acontecer, não irei deixá-la escapar de minhas mãos. Não vou cometer o mesmo erro duas vezes.
– Charles? Ei, Charles! Estou falando com você. – Filipe chamou minha atenção.
Pisquei algumas vezes e olhei para ele.
– Pai, que tal uma trégua?
Pensar nela me deixa de bom humor.
- Trégua?
– Sim, se você parar com esse assunto de barriga de aluguel. – Fingi pensar um pouco. – Eu posso deixar você voltar a ver seu neto. É uma questão tão pequena. Ou você não quer mais ver seu neto?
Ele suspirou contrariado. Sei que ele veio preparado para falar um monte, mas não estou disposto a ouvi-lo .
– Ok. Amanhã estarei lá. – Ele se levantou e ajeitou a roupa em seu corpo. – Até.
Filipe se virou e foi embora. Levantei da minha cadeira. Hoje não serei mais útil aqui na empresa é melhor ir para casa. Casa. Tem sido um grande espaço vazio, logo o lugar que tanto gostava. Eu tinha planos para minha família. No caminho encontrei com a babá de Joe que me avisou que ele já estava dormindo. Não demorei no banheiro, queria vê-lo logo. Joe dormia tranquilamente e podia ver um pequeno sorriso em seu rosto, talvez seja impressão minha. Peguei ele com cuidado em meu colo para não acordá-lo e sentei na poltrona do lado de seu berço.
Como meu filho é lindo.
Meu sorriso aumentou.
Aline nunca será só uma barriga de aluguel.
– Meus parabéns, Aline. – Minha professora me parabeniza. – Não tenho mais o que elogiar. Suas notas são perfeitas. – Ela me olhou sorrindo. – Eu tenho muito orgulho de você.
– Muito obrigada. – Eu agradeci e sorri.
Tenho me saído muito bem nas matérias e fico feliz comigo mesmo pelo meu desempenho. Ela me entregou a prova corrigida e eu guardei em minha bolsa. Me despedir e vou em direção a porta para poder ir embora.
– Olha, a aluna de medicina preferida. – Dou um pulo ao passar pela porta e Shari apareceu do nada. – Não é novidade para ninguém que você é a aluna perfeita dessa faculdade.
Com a mão ainda contra o peito, eu respiro fundo. Shari sempre surgia do nada. Shari Watkins é minha melhor amiga, ela é estudante de fisioterapia. Uma mulher bem agitada, mas às vezes me questiono como ela consegue ter tanta energia assim. Somos amigas desde do meu primeiro ano de faculdade. Estamos no terceiro ano.
Pode-se dizer que Shari e eu somos um pouco parecidas na aparência. Ambas com cabelos longos, mas o seu é um castanho claro e o meu é preto. Shari e eu temos olhos escuros, um detalhe que acho muito injusto já que minha mãe tem olhos claros e eu não puxei dela. Shari consegue ser um pouco mais alta que eu e se gaba por isso.
– Eu me esforço demais para ter esse posto. – Seguimos andando pelo corredor. – Você também deveria ter esse posto.
Shari é boa no que faz. Se ela pensasse mais nos estudos em vez de festas, com certeza seria a melhor na sua área. Shari dá de ombros, fazendo pouco caso do assunto. Esse é o problema de minha amiga, mas acredito que ela vai se tornar uma ótima fisioterapeuta.
– Vamos parar com esse assunto chato. – Passamos pela entrada da faculdade. – Bem que podíamos sair hoje. Pode ser para comer alguma coisa. Quero distrair um pouco a mente e você precisar sair também.
Parei de andar e me virei para ela.
– Está tudo bem?
– Sim, amiga. – Ela sorriu. – Não se preocupe.
Preferi deixar o assunto de lado.Tenho sempre me esforçado e não deixo minhas notas caírem nunca. Vou conseguir realizar meu sonho de ser médica e a cada dia vejo quão perto estou de conseguir. Acho que posso me permitir sair um pouco hoje.
– Tá bom. – Peguei o dinheiro da minha passagem na carteira. – Hoje à noite podemos sair. Deixo até você escolher o lugar.
– Isso! – Shari dá um pulo levando as mãos ao ar.
Eu ri, negando com a cabeça. Ficamos conversando por um tempo até meu ônibus chegar e nos despimos. Moro em Nova York desde que nasci, meus pais são daqui e acredito que nunca tenha saído. Eu tenho vontade de estudar fora, talvez depois que me formar, mas não é uma certeza. Sou muito apegada aos meus pais.
Infelizmente minha faculdade não é perto de casa e acabei cochilando um pouco no ônibus. Quando finalmente cheguei em casa, eu fui direto para meu quarto. Meus pais estão trabalhando nesse horário, minha mãe é diarista e meu pai é guarda de uma escola aqui perto. Ambos fizeram de tudo para que eu pudesse fazer faculdade e agradeço muito por isso.
Shari me mandou uma mensagem avisando para onde irmos hoje. É uma boate famosa na cidade, não estou muito animada, mas prometi para mim mesma que estou precisando me divertir um pouco. Ainda tenho tempo, então eu aproveito para poder dormir um pouco ou não teria forças para sair mais tarde. Acordei ouvindo vozes no andar de baixo. Me espreguiço antes de levantar.
Falta pouco para as oito horas da noite. Caminho para o banheiro em passos lentos. Sinceramente estou quase desistindo de sair com a Shari, acho que seria mais vantajoso se eu passasse o final de semana dormindo. Um banho. Preciso tomar um banho. Com água morna caindo pelo meu corpo, me senti mais leve, mas ainda estou quase desistindo de sair. Ok, eu tenho me empenhado demais desde que entrei na faculdade. Mas meus pais deram muito duro e não é um curso fácil. Preciso dar o meu melhor sempre.
Terminei meu banho e me olhei pelo espelho. Não é só minha vida pessoal que está precisando de cuidados, meu cabelo está precisando de cuidados também. Meu cabelo é bem liso e preto, comprimento até a cintura. Preciso de um corte. Suspirei com a minha aparência. Hoje é sexta, saindo hoje posso passar o resto do final de semana em casa. E o melhor de tudo, dormindo. Ouço um grito no andar de baixo o que me deixa assustada. Corri para poder colocar uma roupa e sair do meu quarto às pressas. Prendo a respiração ao ver minha mãe caída no chão e meu pai segurando ela em seus braços.
– Aline! Corre aqui, minha filha. – Meu pai me chama desesperado. – A sua mãe... Ela... ela não me responde.
Corri até eles e quase cai na escada. Segurei o braço da minha mãe para poder sentir a sua pulsação e fiquei um pouco aliviada, ela está viva. Chamei por ela algumas vezes, mas não tive resposta.
– Pai, pegue o carro...
– Não temos mais carro. – Ele falou apreensivo.
Olhei para ele.
– Como assim não temos carro?
Não era um dos melhores, mas estava em boa condição.
– Foi preciso vender ele, mas isso não vem ao caso agora. – Ele olha para minha mãe. – O que vamos fazer?
– Chame a ambulância agora!
[...]
– A pressão da sua mãe subiu em um nível de assustar. – O Doutor suspirou, olhando a prancheta. – Estou surpreso que ela tenha chegado com vida aqui.
Senti meu coração apertar pelo modo que ele falou. Meu pai me abraçava.
– Minha esposa vai ficar bem, não é? – Meu pai perguntou.
– Ela está descansando agora. – O médico evitou a pergunta. – Pela manhã vamos fazer mais exames para entender o que está acontecendo.
Fechei meus olhos, tentando controlar meus sentimentos. Preciso ser forte pelo meu pai, tinha alguma coisa acontecendo e o médico não queria dizer. Minha mãe anda muito estressada ultimamente e percebi as brigas constantes entre ela e meu pai. Será que eles brigaram hoje? A venda do carro foi o motivo? Quando o médico foi embora eu me aproximei da porta do quarto da minha mãe.
– O que aconteceu antes dela desmaiar? – Minha voz saiu baixa, mas ele conseguiu ouvir.
– Filha, eu não sei...
– Como não? – Me virei para ele não acreditando. – Pai, vocês tem brigado tanto nos últimos dias. Para a pressão da mamãe subir daquele jeito, ela se estressou com alguma coisa. Qual foi o motivo da briga dessa vez? Por que venderam o carro?
- Precisávamos de dinheiro.
– Para que? Estou ajudando em casa, não é o suficiente? Posso arranjar outro emprego...
– Querida, fique calma. – Ele me abraçou. – Não se preocupe. Tudo vai dar certo.
Deitei minha cabeça no seu peito e deixei minhas lágrimas virem.
[...]
Passei o final de semana no hospital. O atendimento está péssimo e os exames demoram tanto para chegar, mas o que posso fazer se não temos condições para ir em um hospital melhor. Não tenho conseguido dormir desde que minha mãe entrou no hospital, meu pai tem saído de vez em quando para ver a casa. As poucas vezes que a minha mãe se manteve acordada ela mal conversava. Está ficando fraca.
Eu sei que meus pais estão me escondendo alguma coisa. As brigas em casa tem sido constante, mas sempre que eu perguntava alguma coisa eles mudavam de assunto. Sempre dizendo que está tudo bem. É óbvio que as coisas não estão nada bem e isso tem causado estresse na minha mãe, a ponto de fazer ela parar no hospital.
- Aline? - Olhei para o médico que se aproximava com uns papéis em mãos. - Onde está seu pai?
- São os resultados dos exames da minha mãe? - Me levantei da cadeira. - Qual é o resultado?
- Não quer esperar...
- Pode me dizer. - Interrompi ele. - Preciso saber.
Ele não consegue mais esconder a situação. Está sério de mais de vez e outra suspirando, ele já imaginava qual seria o resultado, mas não poderia falar até ter a prova. Agora tem os exames no chão e não posso esperar meu pai chegar para saber. O médico suspirou novamente.
- Sua mãe está com câncer. Câncer no cólon precisando começar com os cuidados o quanto antes. Você como uma futura médica sabe como é perigoso se demoramos.
Balancei a cabeça concordando.
- É maligno, não é?
- Sim.
Virei meu rosto sentindo minhas lágrimas. Desde que a minha mãe entrou aqui não sai do lado dela para poder acompanhar o estado da sua saúde e assim passei o final de semana examinando apenas pelo olhar. Cheguei em vários resultados e ainda sim estava confiante em acreditar que não seria câncer, principalmente um câncer maligno. E agora tenho a certeza, certeza que preciso arranjar o dinheiro mais rápido possível para ajudá-la. Esses tratamentos são caros.
- Aline, você precisa ser forte. - O médico colocou a mão em meu ombro. Olhei para ele. - Seja confiante. Temos chances.
Eu apenas balancei a cabeça concordando. Não posso perder minha mãe. Fechei meus olhos. Quando o médico saiu meu celular tocou. Peguei o meu celular no bolso vendo o nome da Shari na tela.
- Oi? - Falei quando atendi.
- Amiga, ainda está no hospital? Estou aqui por perto. Eu pensei em te acompanhar até em casa. O que acha?
- Os resultados saíram. - Abaixei minha cabeça. - Ela está com câncer. O câncer no cólon é maligno. - Senti minhas lágrimas novamente. - Não sei onde vou conseguir arranjar o dinheiro para o tratamento.
- Aline, calma! Fique calma. - Shari pediu. - Vamos encontrar um jeito...
- Como Shari?! Não ganho bem no estágio e muito menos o meu pai em seu trabalho. O médico falou que precisamos fazer o tratamento logo.
- Amiga...
- Filha? - Olhei para trás vendo o meu pai. - Por que você está chorando? Sua mãe está bem?
- Shari, depois nós nos falamos. - Avisei e desliguei a ligação.
Coloquei o meu celular no bolso e olhei para meu pai. Ele se aproximou mais me olhando preocupado. Pedi para que ele se sentasse e assim fez, quando comecei a contar para meu pai sobre o resultado dos exames ele começou a balançar a cabeça de um lado para o outro se negando. Eu cheguei a ficar tonta com aquela cena.
Minutos depois Shari apareceu no hospital, eu abracei minha amiga com tanta força. Meus pais, as pessoas que tanto amo estão em um hospital agora. Eu sabia que meu pai não aceitaria bem a doença de minha mãe. Preciso me manter o mais forte possível para conseguirmos passar por tudo isso. Fomos para a lanchonete do hospital.
- Você precisa comer, Aline.
- Estou sem fome. - Recusei o sanduíche.
Ela suspirou.
- Olha, eu sei como você pode conseguir dinheiro. - Olhei para ela. - Acredito que seja o jeito mais rápido.
- Como? Me diz Shari. - Puxei minha cadeira para se aproximar mais dela. - Eu faço o que for.
- Até ser barriga de aluguel?
- Barriga de aluguel?
- Sim. Uma conhecida minha fez, ela aceitou ser barriga de aluguel para um ricaço e ganhou um bom dinheiro com isso. - Shari me olhou séria. - É de certeza. Você não precisa se preocupar, apenas precisa seguir as regras deles. Através de uma empresa que mantém você em contato com esses ricos sendo uma forma segura para todos. Terá contrato e esses tipos de coisas. Se um deles gostar do seu perfil você vai ganhar o dinheiro.
Barriga de aluguel. Nunca pensei nessa hipótese. Ser mãe também não estava nos meus planos, a criança não ficará comigo. Vou ter que entregar ela depois de nascer. Isso é tão estranho. Será que vou conseguir? É meu filho, não é? Fechei meus olhos, suspirando. Não tenho escolha. Se eu aceitar vou ter que fazer isto. A criança ficará bem de qualquer jeito, terá uma boa vida e não vai passar necessidades. Preciso pensar no dinheiro, não importa as consequências. O quanto antes ela começar o tratamento vamos ter uma chance de ter sucesso.
- Shari, quero saber mais sobre essa empresa.
Estou em frente à clínica que faz inseminação artificial. Passei tantas vezes por aqui e acreditava ser uma simples empresa que tem esse serviço. Depois que Shari me falou mais sobre ser barriga de aluguel comecei a pesquisar mais sobre essa empresa. Essa clínica faz trabalho personalizado para essas pessoas ricas que querem ter filhos. Também corre o risco de não ser aceita, acontece todo um processo, mas não é demorado. No começo eu fiquei com dúvida em vir até aqui, passei a ver matérias sobre Barriga de Aluguel.
Alguns casos não deram certo pois as mães não queriam entregar os bebês ou até mesmo aparecer anos depois querendo a criança.
Procurei focar na parte em que dar certo e que a mãe não precisa passar por um processo mais tarde. No caso eu evitando problemas no futuro. Ainda fico em dúvida se vou ter coragem de entregar a criança, mas foi uma dúvida totalmente passageira. Minha mãe precisa de mim agora e sei como conseguir o dinheiro, não vou contar para ninguém sobre ser barriga de aluguel até porque deve ter algo no contato falando sobre ter sigilo.
Na clínica conversei com a recepcionista e ela me passou o formulário para preencher. Uma outra mulher com uniforme da Clínica me acompanhou até uma outra sala e nessa sala tinha mais quatro mulheres que estava concentrada preenchendo o seu formulário. Nenhuma teve interesse de virar o rosto para ver quem passava pela porta, a mulher que me acompanhou sorriu e logo se retirou. A sala onde estou me lembrava de uma sala de aula, tinha quatorze mesas e as mulheres estavam cada uma em uma. Acredito que posso escolher onde sentar. Respirei fundo e comecei a preencher o formulário. São cinco folhas.
Depois de preencher o formulário eu fiz os exames que foi pedido e a recepcionista me avisou que amanhã eu teria o resultado de que fui aceita ou não. Estou bem nervosa com esse resultado preciso do dinheiro e se me recusarem eu não sei o que vou fazer. Peguei as minhas coisas e fui direto para faculdade, diferente de outros dias, hoje não foi nada tranquilo. Não consegui prestar atenção na matéria e fui chamada atenção algumas vezes. Estou tão cansada, não tenho conseguido dormir desde sexta, a preocupação com a minha mãe está me consumindo. Me obriguei a deixar esse sono de lado e prestar atenção na aula.
Hoje a recepcionista me explicou um pouco como vai funcionar. Será da escolha do contratante querer acompanhar minha gravidez junto comigo ou não. E caso queira eu terei que me mudar para um lugar específico e não poderei contar para ninguém, não poderei ficar a vista para evitar perguntas e não poderei ter relações sexuais com ninguém até dar a luz. Vou ter que trancar a faculdade se o contratante quiser acompanhar a gravidez. Hoje meu pai insistiu que eu fosse para casa e descansasse, não discuti. Chegando em casa tomei um banho mais demorado que o normal.
Achei que eu poderia relaxar um pouco durante o banho, mas foi em vão. Quando não estava pensando em minha mãe, eu estava pensando sobre Barriga de Aluguel, não acho que a minha mãe apoia essa ideia ou até mesmo meu pai. Ele vai o questionar como conseguir aquele dinheiro e não faço a mínima ideia do que dizer para ele. Ainda não fui aceita e é com isso que devo me preocupar. Quando eu deitei na cama senti que os meus músculos se contraem como se tivesse passado dias e dias carregando peso. Não demorei para dormir.
Acordei com meu celular tocando e não sei se eu fiquei mais assustada pelo horário que é ou por ver que era uma chamada da clínica. Faltava pouco para meio-dia e meia eu tinha perdido o período da manhã da minha faculdade, nunca tinha faltado antes. Como não escutei o alarme do celular tocar?
– Alô? – Sentei na cama e com a mão livre esfreguei meus olhos.
– Senhorita, Aline Carter?
– Sim, sou eu mesma.
Tentei disfarçar minha voz de sono. As pessoas que tive contato na clínica parecia ter um padrão de voz, elas pareciam um robô falando. Se eu não tivesse falado com elas pessoalmente eu iria acreditar que estou falando agora com aquelas vozes automáticas.
– Estou ligando para confirmar que você foi aceita em nossa clínica. Precisa vir o quanto antes. – Ela avisou. – Você foi escolhido por um cliente e temos que continuar com os procedimentos.
– Eu fui o que? Como assim? Não imaginei que seria tão rápido assim... eu.. – Parei de falar quando notei que estava ficando desesperada. – Desculpa. Estarei aí em uma hora.
– Senhorita Carter, você tem certeza que quer continuar? – Sua voz era gentil agora.
Suspirei. Não tenho outra escolha.
– Sim, eu tenho.
– Ok, até mais tarde. – Ela disse e desligou.
Voltei a deitar na cama e deixei o celular de lado. Quando eles dizem ser rápido realmente é, acreditei que fosse demorar alguns dias, mas não foi. Que seja! Falta pouco para conseguir o dinheiro para minha mãe. Peguei meu celular novamente e disquei o numero do hospital e vou dizer para começarem com o tratamento.
[...]
Dessa vez não fiquei parada de frente a clínica contemplando o lugar. Ao contrário de ontem, hoje o lugar está um pouco agitado. Dar para notar o nervosismo dos funcionários e como querer deixar tudo perfeito. É provável que o dono esteja aqui e se o chefe é tão rígido acaba causando isso nos funcionários.
A mesma mulher que me acompanhou ontem até a sala onde preenchi o formulário me levou para o segundo andar da clínica. Ela abriu a porta de uma sala que é bem maior que meu quarto e nessa sala tinha alguns detalhes de decoração, mas nada chamativo e dois sofás um de frente para o outro.
– Naquela sala irá acontecer o procedimento. – Ela apontou para um porta que não tinha reparado ainda. – A médica está à sua espera. Será um procedimento rápido, não precisa se preocupar. Assim que terminar o contratante estará aqui a sua espera.
– Eu vou ver eles? Hoje ainda?
A mulher deu um sorrisinho e suspirou.
– Tem umas que nascem com tanta sorte. – Ela comentou e saiu da sala.
Continuei olhando para a porta que ela saiu. Hoje vou conhecer os pais do meu filho, ou só a mãe ou só o pai. Será que querem acompanhar a gravidez? Eu acredito que seja um casal, pelo que pesquisei a maioria dos casos são casais em busca de uma barriga de aluguel. Ainda mais quando é a mulher que não consegue ter filhos. Entrei na sala que me orientaram a entrar. A doutora me olhou e sorriu.
– Boa tarde. É nítido o seu nervosismo. – Sorri para ela. – Eu poderia conversar com você até te acalmar, mas a pessoa que contratou o serviço quer que seja feito rápido. – Ela apontou para um lado da sala. – Pode trocar de roupa ali. Você já está aqui dentro e assinou os termos necessários. Vamos dar andamento ao processo logo.
Não falei nada e comecei a fazer o que ela me disse. Quando voltei sentei na cama como ela pediu e abri minhas pernas, ela não disse mais nada e fez o que tinha que fazer. Pensei em minha mãe e como esse dinheiro vai nos ajudar. Por um momento senti meu coração em paz...
– Pronto!
Sentei na cama ainda com as pernas abertas.
– Mas já?
– Sim. – Ela começou a tirar as luvas. – Esperava o que? O sexo longo de três minutos? – Ela riu e se levantou. – Vai se trocar. – Ela deu um sorriso meigo. – Boa sorte, menina. Não sei qual foi seus motivos para escolher ser barriga de aluguel, mas logo estará gerando uma vida.
– Como pode ter certeza? – Fechei minhas pernas e olhei para ela. – Talvez eu não consiga de primeira.
– Minha querida, você é bem fertil e não imagina quantos queriam você. – Seu sorriso aumentou. – Deixou muita gente com inveja aqui.
Fiquei pensativa com suas palavras e resolvi não dizer mais nada. Vesti minha roupa e quando terminei vi que a doutora não estava mais lá. A mulher disse que o contratante estaria me esperando. Respirei fundo e ergui minha cabeça. Abri a porta e encontrei um homem vestido em um perfeito terno preto, ele virou seu rosto lentamente para mim.
– Sente-se. – Ordenou.
Seu cabelo em um preto tão escuro como uma obsidiana. Seu rosto tem traços marcados e uma barba por fazer. Seus braços são longos, tem um corpo grande, eu acredito que tudo nele seja grande. Neguei com a cabeça rapidamente com os pensamentos que tive. Ele é um homem que chamaria atenção de qualquer mulher. E seu rosto sério dá medo como ao mesmo tempo hipnotiza.
– Eu mandei sentar. – Ele chama minha atenção. – É surda?
É lindo, mas é um ogro muito mal educado. Sentei no sofá a sua frente, apenas uma mesinha de centro nos deixando distante um do outro. Achei melhor não rebater ele, mesmo sendo um mal educado, eu prefiro mostrar minha educação.
– Olá. Meu nome é...
– Aline Carter. – Ele me interrompeu. – Eu sei. Tem vinte e dois anos, é estudante de medicina e tem as melhores notas da turma. Faz estágio desde o segundo ano de faculdade.
Eu não coloquei essas coisas no formulário.
– Hmm... – Engoli em seco. – E sua esposa. – Sorri. – Onde ela está?
Ele ficou me olhando por um tempo. Não era essa a pergunta que eu queria fazer, eu iria começar pelo seu nome, mas estou nervosa na presença desse homem.
– Serei pai solteiro. – Ele inclina a cabeça para o lado. – Não quer saber quem é o pai do seu filho?
Meu sorriso sumiu. Esse homem está me estressando.
– E quem é o senhor?
Agora foi a vez dele ficar sério. Fiz algo de errado?
– Você não sabe quem eu sou?