ANTES
- E como você está se se sentindo, amor? Troco o telefone de orelha enquanto assino alguns papéis que haviam sido entregues para que eu despachasse com urgência.
- Estou bem, Enrico. Só com um pouco de sono demais. - Ela reclama. - O bebê está mesmo me deixando cansada.
- Paty, talvez seja a hora de você pedir aquelas férias.
- Nem comece! Já falamos disso. - Seu suspiro do outro lado me fez ficar calado. Não gostava de pressionar Patrícia, ela estava se irritando com muito mais facilidade agora na gravidez que nos pegara de surpresa, ela não tinha encarado tudo tão tranquila quanto eu sempre pensei que faria se acontecesse.
Enquanto eu estava radiante, tudo que ela conseguia fazer era calcular quanto tempo teria que ficar afastada do seu trabalho de jornalista investigativa. Patrícia era absolutamente apaixonada por farejar qualquer bomba que alguém importante se metia, e isso verdadeiramente nunca me incomodou, até agora.
Como delegado titular da Polícia Civil eu já sabia bem que jornalistas eram arteiros demais, conseguiam tudo, mas junto disso também tinha consciência do quanto corriam riscos, estavam sempre mexendo com quem não deviam. E minha esposa era uma dessas, por isso eu continuava insistindo para que se afastasse do trabalho.
- Desculpa, amor. - Me redimo rápido. - Seu avião está no horário?
- Está. Estou uma pilha de nervos, só achamos o tal que viemos atrás há poucas horas atrás e são três horas de carro até a capital... estamos a tentar entrar em contato com um fazendeiro da região para que ele frete o monomotor dele até Brasília, assim conseguimos chegar a tempo do horário para voltarmos para São Paulo. - A voz dela soou estranha. - Não sei se vou chegar a tempo do jantar.
- Tudo bem, vou tentar te esperar acordado, aqui está uma loucura também. Conto mesmo que ela não tenha perguntado.
- Não precisa amor, eu sei que você está exausto.
- Tem certeza?
- Absoluta. - Respondeu imediata. - Preciso ir, Kaká está me chamando aqui, te amo, tchau.
- Te amo. Respondo para a linha muda. Ela já tinha desligado. Encaro o meu celular por alguns segundos me sentindo meio decepcionado. Estava morrendo de saudades, Paty tinha viajado só há quatro dias, mas para mim parecia uma eternidade.
Há dois anos atrás eu conheci minha agora esposa em uma entrevista coletiva da qual eu estava sendo obrigado a dar por se tratar de um caso grande de tráfico de drogas. Naquela época eu tinha acabado de passar no concurso assumindo o cargo, depois de me abster tanto tempo estudando eu estava na fase de cachorro louco, comendo toda boceta que aparecia a disposição, e com ela não tinha sido diferente.
Ela tinha me chamado atenção por perguntas peculiares sobre detalhes do caso, e depois da coletiva tinha tentado se aproximar, me sentindo o galã, fui com muita sede ao pote.
Tudo que consegui naquele dia foi o nosso jantar do qual ela passou discutindo sobre como a matéria seria importante, me deixou no zero a zero e se recusou a me beijar quando a deixei na porta de casa.
Assim foi naquela noite e nas seguintes, e o resultado daquilo foi que eu fiquei obcecado para conseguir ir para cama com ela, meus melhores amigos até apostaram que ela iria me fisgar.
Acreditando na minha capacidade, casei quinhentos reais, com Jonas e Doug. Eu tinha vinte e três anos e tudo que eu queria era transar com ela, certo?
Errado.
Duas semanas depois, vários cinemas, duas sessões de teatro, sete jantares e uma ida ao parque, eu já não queria apenas levar Patrícia para cama. Ela era uma mulher linda e inteligente, e eu me peguei querendo-a ao meu lado.
Foi assim que eu acabei perdendo quinhentos reais e me casei com vinte três anos.
Louco? Talvez. Mas o fato era que agora estava há um dia de completar vinte e cinto e com um bebê a caminho eu continuava enfeitiçado por ela.
Anoiteceu e eu deixei o trabalho direto para o nosso apartamento. Paty e eu tínhamos nos mudado para a cobertura de um dos prédios mais luxuosos que a construtora do meu pai tinham construído. Construtora esta que ele sempre gostava de ressalvar que acabaria pelo fato de eu ser o herdeiro e não me interessar nos negócios.
Eu preferia casa, gostava de espaços enormes com um jardim e arvores, mas Patrícia odiava, sempre dizia que pregava por segurança, e para ver a felicidade dela, estávamos morando ali há cerca de um ano.
Como já dito ela não tinha conseguido chegar para o jantar. Estava deitado na cama pensando em como as coisas mudavam, e no fato de eu me sentir um novo homem desde a notícia que teríamos um filho e a campainha soou várias vezes seguidas.
O prédio era muito seguro, poucas pessoas tinham autorização de subirem sem autorização via interfone, mas Paty também vivia esquecendo a sua chave e poderia ser ela. Pulei da cama nu e agarrei minha calca de moletom a colocando no caminho para sala.
Abri a porta ansioso esperando encontrar minha mulher e dei de cara com meus sogros juntos de meus pais. Imaginei até ser uma surpresa de aniversário se não fosse pelo fato de que minha mãe amparava minha sogra que soluçava chorando enquanto o marido Renê me olhou com uma expressão dura.
Meu corpo entrou em alerta na hora, já sabendo que não receberia notícias boas.
- O que aconteceu? - Perguntei quando meu pai acenou com a cabeça para que entrássemos. - Por que estão chorando? Olhei para minha sogra e depois para minha mãe que limpou os olhos marejados antes de falar:
- Filho o avião em que Patrícia estava sofreu uma pane elétrica e acabou caindo.
- Como assim? Ela está ferida?
- Filho, ela não resistiu. Meu pai informou e foram as únicas palavras que eu consegui entender corretamente antes de ver minha vida desmoronando em câmera lenta fazendo que tudo que já estava no seu devido caísse por terra.
Eu nunca tinha pensado muito em como a solidão podia doer, digo, doer dentro de si ao ponto de parecer ser físico.
Sentada na escada da varanda do velho casebre naquele meio do nada enquanto levava uma xícara de café amargo e fumegante a boca, observando o fim da madrugada ainda escura por sob a imensidão de floresta que me rodeava começava a perder minha fé indo infelizmente para a turma das que acreditava ser só mais uma das milhões de pessoas esquecidas por Deus.
Estava sozinha no mundo. Literalmente falando. Não tinha conhecimento de mais nenhum parente vivo, meus avós pais de minha mãe que era filha única haviam morrido ainda na minha infância, os pais do meu pai que também não possuía irmãos tinham falecido enquanto ele ainda era adolescente. Há quatro anos tinha perdido minha mãe após ela adquirir febre amarela, e hoje completava o sétimo dia de falecimento de meu pai que morrera de um infarto fulminante.
Eu não tinha mais nenhuma expectativa, poderia morrer ali naquele segundo, não me importava. Uma pena era ter sido criada religiosa demais. O medo de ser condenada ao inferno me acovardava e me impedia de cometer besteira de tirar a minha própria vida.
Pensar que tudo poderia ser diferente se o lugar onde nasci fosse ao menos registrado no mapa como uma cidade de verdade me fazia sentir angustia e ódio. Mas o pequeno povoado de Alvora da das Almas era uma pacata vila rural ainda comandada pelo coronelismo.
A história do lugar dizia que um pequeno grupo de famílias construíram suas casas quando se descobriu que ali a terra era sadia e fértil para qualquer que fosse o plantio. Nisso, o pequeno vilarejo se formou e ganhou fama aos arredores, ousando dizer que muitas pessoas vinham até da capital Campo Grande para cá aproveitando não somente a terra, o lugar lindíssimo e encantador meio ao coração do Pantanal chamava também curiosos turistas.
Quando construída a primeira igreja o povoado foi batizado pelo nome de Alvorada. Mas um tempo depois o primeiro diabo em forma humana botou os pés por ali.
O primeiro dos Rodrigues chamava Sênior, e ele ainda era lembrado pelos mais antigos ainda vivos.
O desgraçado tinha comprado uma fazenda e mudado com a mulher e os filhos, era incrivelmente mal e temido, tomou para si todas e quaisquer terras (que não eram poucas) de toda a região, e fez tudo a base da violência e ameaça, tocou o terror e o medo nas pessoas as obrigando a seguir o que ele mandasse e tivesse desejo.
Devido a toda matança da época incluindo o primeiro padre que chegara ali, mudou-se assim o nome para Alvorada das Almas, nome este que os Rodrigues encararam como um troféu.
O império dos Rodrigues ainda se mantinha mesmo depois de todos aqueles anos, todas as pessoas na cidade ainda dependiam deles para sobreviverem, já que eram proprietários de tudo por ali.
O agora matriarca já se tratava do tataraneto de Sênior, mas Joaquim Rodrigues era conhecido por ser tão cruel como o tataravô.
Com o passar dos anos trocaram as plantações por agropecuária e não demorou muito para ficarem conhecidos nacionalmente como realeza do gado, milhares de pessoas viajavam até ali para os leilões dos quais Joaquim se aproveitando por ser também prefeito promovia com o dinheiro alheio.
E era para este homem que agora eu devia uma fortuna.
Antes de morrer meu pai havia teimado e insistido que devíamos mudar, com o seu espirito sonhador sempre me incentivou a terminar os estudos, e como em Alvorada só oferecia até médio completo para fazer uma faculdade teria que sair dali coisa que poucos conseguiam, meu pai tinha enfiado na cabeça mesmo depois de três anos que eu já havia terminado a escola de que deveríamos tentar.
Então cerca de seis meses atrás ele tinha pego uma quantia não muito alta, mas que sem dúvidas não poderíamos pagar com Joaquim, tínhamos nos mudado para a cidade vizinha chamada Vila do Sol onde ele investiu comprando uma pensão velha que ele insistia em chamar por pousada.
Eu tinha desde o início um pressentimento de que tudo era uma péssima ideia. Vila do Sol era um pouco maior que Alvorada das Almas e recebia uma quantidade maior de turistas que se aventuravam pelo Pantanal, mas o número não era tão grande quanto papai pensava. A pensão não tinha gerado tanto lucro e cerca de um mês atrás depois de deixar de pagar dois meses para Joaquim, havíamos voltado a morar no casebre em que cresci.
Com toda a pressão e se vendo encurralado, meu pai começou a viver triste pelos cantos, ressabiado cheio de medo pelo o que o futuro nos guardava, tinha o pego chorando uma porção de vezes e em todas ele me pedia perdão por ter nos colocado naquela situação sem saída. E foi depois de um dos seus choros que ele saiu sozinho e eu o encontrei caído já morto.
Chorando sozinha pela perca eu fui obrigada a andar alguns quilômetros a pé embaixo de um temporal pela estrada de terra até chegar à casa do vizinho mais próximo precisava da ajuda de alguém, já que éramos tão pobres que não poderíamos pagar sequer um velório, teria de ser enterrado no quintal de casa, como acontecia com quase todos condenados que moravam ali.
Seu Francisco, o dono da mercearia e o mais próximo que meu pai pôde chamar de amigo foi quem furou a cova no fundo do casebre para que enterrássemos, pertinho do riacho, onde ele gostava de terminar suas tardes sentado sobre um pedaço de tronco de arvore, dedilhando seu velho violão.
Os barulhos de pisadas nas folhas despertaram-me dos pensamentos, crescido meio a selva eu tinha aprendido a distinguir barulhos de animais para humanos. Levantei rápido e entrei na casa iluminada apenas por uma lamparina em cima da mesa perto do fogão a lenha, abri a pequena gaveta do armário velho pegando o revólver antigo do meu pai. Eu tinha sido ensinada a atirar desde criança, e me agarrando nessa ideia eu sabia que fosse quem fosse chegando ali eu me defenderia, poderia até morrer mas levaria alguém comigo.
- Lena? A voz de Vicente soou na entrada e logo eu coração se acalmou.
- Vicente! Corri para seu encontro o abraçando com medo. Ele subiu meu rosto segurando-o entre as mãos e colou nossas bocas.
- Desculpe não vir antes, estava tentando acalmar as coisas, me perdoe por não vir te ajudar com o corpo do seu pai.
- Vicente, ele vai me matar, não vai?
Os olhos dele escureceram ainda mais quando ele travou a mandíbula e sussurrou. - Parece que ele pretende algo ainda pior, Leninha.
- O que seria pior que ele me matar?
- Ao que consegui ouvir e entender, Joaquim quer que você se torne mulher dele.
- O que? - Arregalei os olhos sentindo minhas pernas fraquejarem e meu estômago se embrulhar. - Me mate! Por favor, Vicente, faça isso por mim, me mate. Implorei sentindo minhas lágrimas caírem.
- Está louca, Madalena? - Vicente me segurou pelos ombros enquanto me encarava. - Você sabe muito bem o motivo pelo qual eu trabalho aqui e porque consegui conquistar a segurança de Joaquim.
- Por vingança, eu sei. - Choro baixinho.
- Exatamente. - Seus dedos longos subiram para meu pescoço. - Estou aqui há anos para conseguir a confiança daquele verme para conseguir matá-lo e ficar com tudo que é dele, Lena, vou vingar todos que os malditos Rodrigues fizeram sofrer, seu pai, meus pais...
- Eu sei disso, mas eu não sou como você Vicente. Não suportaria ter que me deitar com ele, eu prefiro a morte.
- Eu nunca a mataria, Leninha. Mas também nunca faria você se sujeitar a isso. Fui o seu primeiro e único homem, nem sequer quero imaginar você sendo tocada por aquele maldito, nunca deixaria que nada de mal a acontecesse a você. É por isso que estou aqui, para te ajudar a ir embora.
- Embora? Engulo seco sentindo o arrepio de medo subir minha espinha.
- Não existe outra saída, meu bem. Se você fica, todo o meu plano cai por terra, eu não suportaria vê-lo te obrigar a nada, e o mataria antes da hora.
- E eu vou para onde? Não tenho onde ir, não tenho dinheiro nenhum, Vicente.
- Eu cuidei do dinheiro. - Diz remexendo no bolso do jeans e retirando um envelope pardo. - Tem cinco mil reais aqui, é o suficiente para que você consiga ir para longe, e se instale por um tempo, você é inteligente Leninha, consiga um trabalho e se mantenha, e então quando tudo acabar eu vou encontrar você.
- Aonde devo ir? Como você vai me achar?
- Pense em algum lugar que queira ir, Madalena. Longe o bastante daqui, Joaquim mandará te procurar nas cidades próximas, por isso nem desça do ônibus nas paradas, ok? Alguém pode te ver e dar a informação.
- Ok.
- E não se preocupe sobre te achar, vou fazer Alvorada de as Almas ser conhecida, e quando o fizer você vai saber que pode voltar para casa, e eu vou estar te esperando.
- Estou com medo.
- Vai ficar tudo bem. Eu sei que você é forte. Vamos, você precisa correr, vou te levar até Vila do Sol para o primeiro ônibus que sai às seis para Campo Grande, de lá você decide onde ir. É o tempo certo que Joaquim demorará para vir até aqui e colocar homens para te procurar.
- Será que ele não via desconfiar de você?
- Não, ele acha que estou no prostíbulo em Vila do Sol, que só voltarei hoje no início da manhã, armei isso para o caso de alguém ver minha caminhonete voltando de lá.
- Porque não ouvi o barulho dela?
- Parei longe, não podia deixar rastros na terra, por isso devemos nos apressar, Joaquim precisa pensar que você está por perto, assim ganha tempo.
Apavorada, mas sem perder mais nenhum segundo, corri pelo pequeno chalé agarrando a mochila velha e colocando meus três melhores pares de roupas, algumas blusas de frio e a única foto da minha família. Peguei o violão, calcei minhas botas e voltei para cozinha encontrando Vicente ainda de pé inquieto.
- Pronta? Perguntou e eu acenei com a cabeça. Ele agarrou minhas coisas com uma mão e com a outra entrelaçou com a minha enquanto saíamos juntos para nos embrenhar na mata afim de não deixar rastros.
Olhei uma última vez para a casa que eu tinha nascido, crescido e vivido por todos os vinte e um anos de vida. Não tinha sequer tido tempo de o fechar, ficara lá, com a porta de madeira escancarada, a lamparina acesa sobre a mesa, a lenha ainda aquecendo o fogão com o bule e minha caneca de café inacabada. Sem segurar todo o choque que atravessava meu corpo, guardei essa lembrança comigo e corri entre as árvores com Vicente até encontrarmos sua picape.
Vicente dirigiu o mais rápido que pôde pelo atalho de estrada de terra que ele conhecia e que nos levaria até Vila do Sol. Por ser um dos capangas de confiança de Joaquim, era autorizado a andar em uma 4x4 de última geração, o que nos permitiu uma fuga rápida. Assim que chegamos a cidade vizinha o céu estava clareando, e o ônibus que iria para Campo Grande já estava na plataforma, saíam exatos dois ônibus para a capital, um a seis da manhã e outro a seis da tarde, Vicente tinha calculado o tempo certo.
Pegou no banco de trás a mochila e o violão, me entregando, tirou mais uma vez o envelope do bolso e dessa vez me deu orientando a tomar cuidado. Depois que tirei uma nota de cinquenta colocando no bolso, guardei o envelope enrolado na minha roupa do fundo da mochila.
Olhei Vicente suspirando alto tentando mais uma vez não cair no choro quando ele acariciou minha bochecha e deu um pequeno sorriso antes de sussurrar:
- Vá menina.
- Obrigada por isso. - Agradeci o abraçando. - Amo você, Vicente.
- Seja feliz, Leninha. - Ele respondeu e se curvou abrindo a porta da caminhonete. - Não se esqueça de ir para o mais longe que puder.
Concordei com a cabeça enquanto saltava do carro ajeitando a mochila e o violão nas mãos. - Espero que consiga se vingar. - Mordi os lábios. - Adeus, Vicente. Me despedi fechando a porta e sai correndo para minha liberdade.
A viagem até Campo Grande era cansativa, o ônibus já havia parado umas quatro vezes, mas apesar de estar com fome eu me recusei a descer me lembrando das palavras de Vicente sobre o fato de que Joaquim mandaria me procurar pela região.
Olhei pela janela vendo o movimento de pessoas entrando e saindo da lanchonete, fechei os olhos e meus pensamentos voltaram para o dia que conheci o homem que tinha salvado minha vida. Vicente Albuquerque.
Tinha o visto pela primeira vez no meu aniversário de dezenove anos, estava sozinha nadando e ele apareceu.
Naquela tarde nós conversamos muito, eu sentia todo o mistério que o rondava, sua aura pesada e suas palavras sempre calculadas quando contou que tinha vindo de um lugar distante.
Vicente era um homem lindo, alto, forte, com a pele negra e com um sorriso encantador, mas esse quase nunca aparecia, sua feição fechada era assustadora e ele quase sempre estava com ela.
Quando eu o avisei sobre os Rodrigues estranhei ouvindo ele contar que tinha vindo para Alvorada para justamente trabalhar para Joaquim. Só entendi o motivo depois, em uma das muitas tardes que me encontrara para nadar, ele confessou que tinha vindo a Alvorada para buscar vingança.
Contou que tinha nascido ali, e ainda na infância tinha tido a casa invadida, a mãe o colocara no armário de madeira da cozinha e ordenado que não chorasse, segurasse a respiração para evitar barulho e só saísse dali quando os homens maus fossem embora. Obediente ele tinha visto a mãe ser estuprada por Joaquim e depois ser morta enquanto o pai era torturado também até a morte.
Ele lembrava de que o pai devia dinheiro aos Rodrigues, e naquela maldita noite eles tinham ido cobrar, como faziam com todos que não podiam lhes pagar, cobraram levando a vida. Após ver o assassinato dos pais tão de perto, jurou a si mesmo que se vingaria. Iria se vingar pelos pais e por todos aqueles que já tivera o sague derramado por aqueles malditos.
Tinha vagado pela estrada, passou fome e pegou caronas para se afastar cada vez mais de Alvorada, até que foi acolhido na cidade Miranda, onde tinha passado toda a vida arquitetando a hora certa para voltar, e agora com seus vinte e cinco anos tinha retornado, usando de uma falsa fama de pistoleiro para ganhar a confiança e se tornar o braço direito de Joaquim.
Meu romance com Vicente começou sem a menor das intenções, éramos amigos, passávamos algumas tardes juntos, nadando e sendo confidentes um do outro, eu contando sonhos que provavelmente nunca se realizariam enquanto ele sorria e sempre afirmava: "se você quer mesmo, Leninha, vai sim acontecer. "
Eu sempre envergonhada pelo meu corpo gordinho sempre tinha me sentido feia sobre os olhos masculinos, me vi transformar e ganhar liberdade com ele que me olhava com admiração e não se fazia de rogado em me elogiar aumentando cada vez mais minha autoestima. Numa das nossas tardes, depois que elogiou em como eu era bonita sobre o sol se aproximou perguntando se eu já tinha sido beijada.
Naquela tarde eu ganhei o meu primeiro beijo, e foi maravilhoso. E todos os outros também. Duas semanas depois eu tinha entregue a ele minha virgindade. E também tinha sido incrível.
Vivíamos um romance escondido de todos e ardente entre nós, devido seu cargo de confiança aumentar a cada dia, tínhamos acabando por diminuir nossos encontros a tarde no rio e transferindo-os para uma ou duas vezes durante a semana quando ele pulava a baixa janela do meu quarto no meio da noite, encontros esses que se mantiveram mesmo quando tive a mudança rápida e frustrada para Vila do Sol.
Tínhamos vivido três anos assim e agora nos separávamos bruscamente, talvez nunca mais nos víssemos, e apesar de em todo o tempo em que estivemos juntos eu não ter escutado dele que me amava em palavras, mesmo ele gostando quando eu o dizia, o que ele tinha feito por mim nessa manhã provava que independente de palavras ele me amava. Estava arriscando sua vingança e sua vida para me salvar, e eu seria eternamente grata. Vicente me dera a liberdade e pedira que eu fosse feliz, e eu lutaria com unhas e dentes para ser.
Quando o ônibus chegou a Campo Grande no início da tarde, desci e esperei pacientemente para que meu violão aparecesse dentre as tantas malas dos outros passageiros.
Fui ao banheiro e dentro da cabine arranquei o envelope de dinheiro, retirei três notas de cem reais do bolo e resolvi esconder o envelope dentro da calça, não podia correr o risco de ser roubada. Fora do banheiro andei pela rodoviária e me sentei numa lanchonete antes de me decidir para onde finalmente seria meu destino. Comi um pão na chapa e alimentei meu vício em café forte sem açúcar, comprei uma garrafinha de água e andei para os guichês de venda de passagens.
Estava parada frente ao mapa do Brasil pregado na parede analisando possíveis lugares quando uma voz feminina atrás de mim comentou com alguém.
- São Paulo é um outro mundo, Nando. Você vai descobrir quando chegar lá.
Não precisei olhar para trás para observar a mulher que falava, lembrei-me das incontáveis vezes que minha mãe repetia o desejo de um dia conhecer. Sem mais dúvidas, sabendo que era longe e grande o bastante, indo realizar o sonho que minha mãe já não poderia mais, andei para o guichê e olhei o senhor simpático pelo vidro.
- E então, o que vai ser menina? Ele perguntou ajeitando os óculos de grau.
- Uma passagem para São Paulo. Falei firme e com fé. Assim como o tal Nando, eu rezei em silêncio para também conhecer outro mundo.
A viagem para São Paulo tinha sido mais tranquila, talvez por eu finalmente poder relaxar um pouco do medo de ser encontrada que me assombrara em toda viagem até Campo Grande. Tudo que agora eu temia era estar em lugar desconhecido e com um dinheiro que alguma hora acabaria. Teria que conseguir um emprego o mais rápido possível, e levando em conta que meus estudos se baseavam apenas no fim do ensino médio, me faziam temer arrumar algo com muita facilidade.
Mas não deixaria que isso me abalasse, teria que correr atrás e medo de serviço eu nunca tive, iria procurar algo honesto que me sustentasse, após me estabilizar poderia pensar em voltar a estudar talvez.
Olhei pela janela, a rodovia escura passava depressa, mais uma vez meu coração vagou pensando em Vicente. Ele tinha conseguido dobrar o maldito Rodrigues? Algum dia ele conseguiria a tão esperada vingança?
Fechei meus olhos desejando que o melhor destino para minha vida e para a dele fosse traçado naquele momento. O sono me invadiu logo assim que terminei minha prece, me permiti descansar como não vinha fazendo desde o falecimento do meu pai. Só voltei a acordar novamente quando o ônibus fez uma curva e parou. Acordei atônita descobrindo que tínhamos encostado em um ponto de parada. Me espreguicei limpando os olhos e bebi um pouco de água.
- Será que ainda vai demorar muito? Indaguei para a senhora que estava viajando na fileira do meu lado, por sorte o ônibus não estava lotado, nos dando a possibilidade de ocupar duas poltronas.
- Parece que mais duas, chegaremos logo depois do almoço. - Levou as mãos aos cabelos pintados de castanho. - Você vai comer agora?
- Estou bem, obrigada. Agradeci lhe oferecendo um sorriso.
- Não quer que eu te traga algo?
- Não senhora, estou mesmo bem.
- Certo, pode vigiar está sacola então? Apontou para o seu banco.
- Olho sim. Concordei e ela saiu pelo corredor até a porta.
Voltei a me distrair pensando na primeira coisa que eu faria quando chegasse, teria de encontrar um lugar para ficar e veria com as pessoas sobre empregos, amanhã de manhã procuraria alguns? Teria de comprar também algumas roupas. Puxei os punhos do meu agasalho já desgastado e velho.
Passados alguns minutos a senhora retornou trazendo nas mãos um pacote de biscoito e uma garrafa de água e me ofereceu carinhosa enquanto se sentava na poltrona ao meu lado e o restante dos passageiros que haviam descido terminavam de se acomodar para que seguíssemos viagem.
- Para você. Me entregou.
- Não precisava.
- Você não desceu em nenhuma parada, eu fiquei preocupada. - Ela sorriu gentil. - Como se chama?
- Madalena, e a senhora? Respondi aceitando seu agrado.
- É um prazer, Madalena, eu me chamo Rosa. E então, o que está indo fazer em São Paulo?
- Estou indo morar.
- É mesmo? Minha filha mora lá, estou indo visitar ela e meus netos, ela está meio tristinha, o casamento não vai muito bem.
- Que pena.
- Pois é. - Concordou como se falasse em convencimento para si mesma. - Você é corajosa, está indo sozinha... está deixando seus pais? Parece tão jovem, você mora em Campo Grande?
- Tenho vinte e um, meus pais já são falecidos.
- Oh. - Balança a cabeça como se agora entendesse. - Eu sinto muito por você, menina... São Paulo parece assustador para você?
- Um pouco, mas acho que aguento. Dou-lhe um sorriso sincero.
- Já tem emprego?
- Não, mas pretendo procurar por um assim que chegar.
- E que tipo de emprego você quer? Especulou.
- Não precisa ser muito, só preciso de algo honesto que me sustente, não tenho faculdade para algo muito bom. Confessei e ela me olhou admirada quando tocou minha mão com a sua e apertou sorrindo cravando seus olhos nos meus.
- Deus vai te abençoar! Você acredita, Madalena?
Um arrepio subiu por minha espinha no mesmo momento que meus olhos se encheram de lágrimas. - Acredito.
- Então tudo já está feito, pequeno anjo. - Sorriu de novo dando algumas batidinhas em minha mão. - Tudo vai se encaixar.
- Obrigada por isso, Dona Rosa.
- Não agradeça. Suponho que também não tem onde ficar?
- Não, vou procurar uma pensão, um hotel, eu sei lá.
- Deve ter alguma perto da casa de Aline... Aline é a minha filha. Ela vai saber nos informar.
Nas próximas horas que passaram, Dona Rosa me contou inúmeras histórias de sua vida, na última parada ela sequer fez menção de descer, ficamos as duas lá como boas e velhas conhecidas conversando. Perto das uma da tarde adentramos a cidade que seria meu novo lar. Minha primeira impressão de São Paulo foi: barulhenta, eu que estava acostumada com tanto silêncio e verde ao meu redor fiquei até perplexa quando só vi grandes arranha-céus e milhares de pessoas nas ruas indo e vindo. Minha vista pela janela não era o bastante, mas observei o céu cinza e automaticamente meu coração se apertou.
- Fique tranquila, Madalena. Dona Rosa tentou me tranquilizar percebendo meu desconforto.
- Estou pronta para uma nova vida. Falei corajosa. Era impossível aquela cidade conseguir ser pior do que eu enfrentaria se tivesse ficado em Alvorada Das Almas.
Quando descemos na rodoviária, Dona Rosa ficou ao meu lado enquanto eu esperava mais uma vez o violão que era do meu pai aparecer no bagageiro.
- Você toca?
- Não muito... era do meu pai.
Ela apenas concordou com a cabeça enquanto seguimos rumo a uma banca de jornais, ela agarrou um deles e pagou por ele. Depois remexeu nas folhas e me entregou:
- Dê uma olhada nos classificados, pode ser que ache algum emprego que te interesse, vou ligar para Aline vir nos buscar. Avisou enquanto sacava seu telefone da bolsa e eu começava a vaguear os olhos pelas folhas cheias de anúncios.
Como um imã meus olhos pousaram no lado esquerdo do final da página.
Precisa-se de Cuidadora
Exigências: Disponibilidade de morar no trabalho.
Salário a combinar.
Tel. (11) xxx-xx-xxx
- E então? A voz de Dona Rosa me chamou a atenção quando voltou com um sorriso acolhedor no rosto.
- Olha só esse. - Apontei a folha. - Parece que não exige escolaridade, seria uma boa, não?
- Claro, e provável que seja uma pessoa idosa.
- Eu iria adorar. Respondi esperançosa.
- Ligue já para o número.
- Não tenho como, não tenho um celular, onde tem um telefone público?
- Largue de besteira. - Ela estendeu o celular. - Use o meu, vamos.
- Sério? A senhora pode ligar? Eu não sei mexer em um celular.
Dona Rosa franziu a testa um pouco surpresa. - Não sabe? Nunca teve um aparelho celular?
- Não.
- Menina, algo me diz que a sua vida foi mais amarga do que você deixa transparecer. Sussurrou enquanto discava ela mesma os dígitos.
Coloquei o aparelho na orelha e ouvi a chamada por três vezes antes de uma voz doce atender:
- Olá.
- Oi, boa tarde. - Me antecipei sendo educada. - Tudo bem?
- Boa tarde, quem fala?
- Madalena... bem, eu estou ligando porque acabei de ver um anúncio sobre uma vaga...
- De cuidadora! Sim! - Ouvi seu suspiro. - Quantos anos tem Madalena?
- Vinte e um. Falei já um pouco desanimada.
- Vinte e um? - Seu tom de voz mudou aumentando a altura. - E me diga, Madalena, por que quer ser cuidadora? Você poderá morar no emprego?
Encarei Dona Rosa que me olhava em expectativas e respondi apreensiva: - Bem, sim, a verdade é que ainda estou na rodoviária, senhora. - Decido por contar a verdade. - Acabo de chegar em São Paulo para morar, e seria uma grande oportunidade.
- Madalena... - A voz do outro lado pareceu sorrir. - Você pode vir até mim, agora? Quero conhecê-la.
- Agora?
- Sim, para fazermos a entrevista.
- Ah, claro. - Me passe o endereço que estarei a caminho agora mesmo. Pedi e a mulher que sequer tinha me dito seu nome me passou um endereço de um condomínio fechado no Alphaville. Quando desliguei dona Rosa me olhou animada.
- E aí, conseguiu?
- Ela quer que eu vá agora fazer a entrevista!
- Eu sabia! - Ela me abraçou. - Pode ficar tranquila que vai dar certo, eu estou sentindo, minha Santa Rita não falha!
- Tomara, dona Rosa! Fecho os olhos fazendo mais uma de minhas preces silenciosas.
- Aline e eu podemos te levar, vamos, ela já deve estar chegando.
- Não é muito incômodo? Posso pegar um taxi.
- Imagina! Você aproveita e conhece a minha filha, tenho certeza que vão se tornar amigas. Entrelaçou seu braço no meu enquanto começávamos a andar para fora da rodoviária movimentadíssima.
Meia hora mais tarde estávamos dentro do carro a caminho para minha entrevista. Dona Rosa não havia mentido quando descarregava elogios a filha. Aline era uma mulher adorável, aparentemente tinha quase trinta anos, e também era uma mulher de curvas, assim como eu, sua pele era maravilhosamente perfeita, morena cor de canela, os olhos enormes como os de dona Rosa chamavam atenção e os cabelos encaracolados eram curtos e estiloso, ela tinha me tratado como se também me conhecesse há anos, me convidou para apresentar a cidade, e que me levaria para comprar roupas, mas que antes de me acompanhar fazia questão de me dar algumas roupas de sua confecção. Quando tivemos a entrada autorizada no condomínio eu me assustei com o tamanho das casas dali, pareciam sedes de fazenda de tão grandes, elegantes e graciosas.
Aline assoviou assim estacionou na porta da mansão que era a do endereço que eu tinha recebido por telefone. - Mandou bem, garota, seja quem for quem você vai cuidar o quarto de empregadas daqui não pode ser dos piores.
- Estou nervosa, gente, tomara que eu consiga. Remexi minhas mãos nervosa.
- É claro que consegue! Já tem o meu número e o da minha anotados, não é? Não se faça de rogada em nos ligar, se conseguir para que comemoremos, se não der certo, eu posso dar um jeito de te encaixar na confecção. Além do quê, temos que ir as compras, e você tem que conhecer os meus filhos.
- Pode deixar. Não sei o que faria se não tivesse conhecido a senhora dona Rosa. A abracei desajeitada ainda dentro do carro e sorri para Aline que retribuiu com um encorajamento.
- Você vai ser feliz, Madalena. Ela segurou minhas mãos pela janela. Me olhando como se enxergasse mesmo minha alma.
Assim espero. Penso enquanto aceno para elas antes de me virar e começar a andar até a entrada.
O jardim de entrada era magnífico e a porta da entrada era tão grande que eu cheguei a ficar assustada, daria para passar umas três pessoas de uma vez, e alguém em pernas de pau não precisaria descer para adentrar a casa. Com todos aqueles botões que eu presumi ser a campainha eu optei por bater na porta. Era melhor evitar chegar estragando alguma coisa.
Uma mulher já de meia idade abriu a porta e me encarou de cima a baixo antes de questionar:
- Pois não?
- Boa tarde, me chamo Madalena, vim para...
- Madalena, que bom que chegou! Escuto a mesma voz doce que falara comigo ao telefone. A senhora a porta se afasta e oferece passagem para que eu passe, me sentindo ainda impactada. Eu nunca tinha entrado em um local tão branco e limpo. A casa era maravilhosa.
- Senhora Giordano. A funcionaria fez uma pequena menção ficando de lado como um soldado. Encarei a mulher a minha frente, ela usava um vestido elegante rosa clarinho, os cabelos castanhos bem penteados e o rosto apesar de não ser muito jovem era muito bonito. Seus olhos eram tão verdes que chegava a me assustar. Ela era muito rica?
- Eu estava ansiosa para ver você. - Ela sorriu abertamente. - Pelo telefone eu senti que sua voz era de uma bela menina... e eu tinha razão. Falou me abraçando e em surpresa eu me senti corar ficando um pouco desconfortável.
- Obrigada. Respondi sem saber muito o que dizer.
- É um prazer. - Sorriu de novo me parecendo muito sincera. - Sou Luísa, venha sente-se aqui. - Me arrastou para um sofá branquíssimo. - Aceita água, um café?
- Aceito água, por favor.
- Vera, traga água para a moça por favor. - Ela pediu educadamente e eu percebi que talvez ela não exigia que a empregada parecesse um militar. - Segurou minhas mãos que estavam geladas nas suas que eram quentes. - Você é tão jovem... só tem essa mochila?
- Eu não tenho muitas roupas. Falo envergonhada e ela apenas concorda com a cabeça.
- Sabe tocar violão? Olhou para o instrumento que eu carregava.
- Um pouco, mas não toco muito... na verdade ele era do meu pai, ele faleceu há pouco tempo.
- Sinto muito. - Ela franziu um pouco a testa. - Foi por isso que se mudou para cá?
- Sim.
- De onde você vem?
Eu contava a verdade? Não era uma boa opção, por isso não hesitei quando respondi: - De uma cidade chamada Vila do Sol, Mato Grosso do Sul.
- Parece bem longe.
- É um pouco. Dou um pequeno sorriso.
- Então é sozinha?
- Sim, senhora.
- Não precisa me tratar de senhora, Madalena. - Ela fez uma menção com a mão enquanto sorria e recebíamos os copos cheios de água. - Sabe Madalena, devo dizer que receber sua ligação foi um verdadeiro milagre, entrevistei inúmeras pessoas, mas nenhuma tinha me agradado, eu preciso de alguém jovem e disponível.
- Fico feliz, dona Luísa, eu preciso mesmo deste emprego.
- Que ótimo, querida. - Ela bateu umas palmas como se não se aguentasse de alegria. - De imediato eu devo dizer que a pessoa com quem você irá trabalhar é com meu filho.
- Seu filho? E quantos aninhos ele tem? Falei animada imaginando um menininho fofo.
Luísa soltou uma pequena gargalhada quando respondeu: - Ah, ele é um menininho barbudo de vinte seis anos.
- O quê? Meu sorriso sumiu na hora e ela riu ainda mais alto.
- Desculpe, Madalena... Enrico já é adulto, o fato é que ele sofreu um acidente de moto há pouco mais de um mês atrás, e estará de repouso absoluto pelos próximos cinco.
- Então se trata de um emprego temporário?
- Não se tudo der certo. - Ela falou alegre demais e eu a encarei sem entender nada. - Digo, Enrico não tem uma empregada fixa, você pode começar como cuidadora e depois ficar como secretária? Mas agora de início a sua função será apenas cuidar dele.
- Cuidar do tipo, lhe dar remédios e fazer a sua comida?
- Exatamente. - Dona Luísa confirmou. - Não permitir que ele faça extravagancias como vem teimando e fazendo. - Ela suspira. - Enrico perdeu a esposa há cerca de um ano atrás em um acidente aéreo, ele ainda não superou, se nega a procurar uma terapia e se enterrou no trabalho, acabou afastando de mim e do pai, não tive muito acesso a ele até ele sofrer o acidente de moto e precisar que eu o levasse comida e o ajudasse a se sentar na cadeira de rodas.
- Filhos são complicados quando se tem pais vivos, só descobrimos o quanto era fácil quando os perdemos. Falo me sentindo melancólica.
- Como seus pais faleceram?
- Minha mãe há quatro anos de febre amarela, meu pai sofreu um infarto fulminante recentemente.
Luísa mantem os olhos verdes em mim por uns segundos até dizer: - Sinto muito mesmo.
- Obrigada. A agradeço.
- E então? Está disposta?
Inquieta eu coço a cabeça pensando que ela não falou nada sobre o quanto eu receberia.
- O salário...
- Ah, onde eu estou com a cabeça. - Ela leva a mão a testa. - Eu mesmo a pagaria, será dois mil e quinhentos reais, você não terá que pagar moradia e nem a sua comida.
Dois mil e quinhentos? Caramba! Em dois meses eu teria a quantia que Vicente tinha me dado. Mesmo que eu não conseguisse o emprego fixo, dona Luísa disse que ele precisaria de alguém pelos próximos cinco meses, e eu não tendo nenhum gasto conseguiria economizar muito e conseguiria me manter até achar outro.
- Eu aceito.
- Você tem carteira de trabalho?
- Hum... não, mas posso correr atrás de tirar.
- Claro, vamos providenciar isso também. E você se importa de começar agora?
- Não senhora. Falo animada.
- Perfeito! - Ela se colocou de pé. - Então vamos, talvez peguemos um transito terrível.
Mais uma vez meu sorriso morre. - Ele não mora aqui? Arregalei os olhos.
- Ah, não... ele tem seu próprio apartamento, mas pode ficar tranquilo você terá seu próprio quarto. Piscou sorrindo e eu continuei estática.
Eu estava indo morar com um homem!