POV ALICE
O sangue não para de sair.
Não é o jato dramático das novelas. É aquele fluxo teimoso, escuro, que insiste em encher o campo mesmo depois de eu ter colocado o segundo clamp. O paciente tem trinta e oito anos, fratura exposta de fêmur, lesão vascular associada e uma história de acidente de moto que ninguém conseguiu explicar direito na admissão. O monitor apita em intervalos irregulares. A anestesista murmura números baixos demais para o meu gosto.
- Pressão caindo de novo.
Eu não respondo. Minhas mãos estão dentro dele. A lâmpada cirúrgica esquenta a nuca. O ar-condicionado do centro cirúrgico desse hospital provincial parece ter desistido de funcionar há pelo menos uma hora. Suor escorre pela minha testa e ameaça cair no campo estéril. A instrumentadora limpa com gaze sem eu pedir.
O residente ao meu lado está pálido. Não o culpo. Ele tem vinte e seis anos e nunca viu um sangramento como esse.
- Doutora...
- Calma.
A palavra sai seca. Não é para tranquilizar ninguém. É para eu mesma.
O clamp principal não segura. O tecido está frio, friágil, como se o corpo já tivesse começado a desistir. Eu peço outro fio. Peço mais compressão. Peço o vascularista de plantão pela terceira vez. A resposta vem pelo interfone: ele está em outra sala, caso mais grave, estimativa de quarenta minutos.
Quarenta minutos.
Eu olho para o monitor. A saturação oscila. A pressão arterial é um número que não deveria existir em alguém que ainda respira.
Decido.
Não é heroísmo. É cálculo sujo, feito no meio do suor e do cheiro metálico. Eu sei o protocolo. Sei o que o relatório depois vai dizer. Sei que tem gente do outro lado da porta esperando uma resposta limpa. Mas o paciente está sangrando agora, e eu sou a única com as mãos dentro dele.
Faço o que acho necessário.
O residente engole em seco quando vê o que eu escolho. A instrumentadora não comenta. A anestesista apenas acelera a reposição. Ninguém discute. No centro cirúrgico, a discussão vem depois, quando o sangue já está no chão e o paciente já está em algum lugar entre a recuperação e o necrotério.
Eu trabalho. Os minutos se esticam. O suor escorre. A dor nas costas aparece como um protesto atrasado. Em algum momento o vascularista chega, avalia, resmunga algo sobre "situação complexa" e assume parte do campo. Eu não solto. Continuo até o último ponto, até o dreno estar posicionado, até o campo estar razoavelmente seco.
Quando finalmente saímos, o relógio marca quase quatro horas a mais do que o previsto.
O paciente vai para a UTI.
Eu lavo as mãos no lavabo. A água quente queima a pele. Olho para os meus dedos. Eles tremem um pouco. Ninguém comenta. O residente evita meu olhar. A instrumentadora guarda o material em silêncio.
Na sala de estar dos médicos, alguém já está falando baixo. Eu escuto pedaços: "decisão arriscada", "protocolo", "documentação".
Eu bebo água direto da garrafa e finjo que não ouço.
---
No dia seguinte, o e-mail chega às sete e dez da manhã.
Assunto: Solicitação de esclarecimentos – procedimento de 14/03.
Eu leio sentada na beira da cama, ainda de pijama, cabelo molhado da ducha rápida. O texto é burocrático, frio, quase educado. Pedem relatório detalhado. Pedem justificativa técnica. Pedem cópia de todas as anotações do prontuário. Informam que, até a conclusão da apuração interna, estou afastada das atividades assistenciais.
Não é suspensão do registro. Não é processo ético formal. Ainda. Mas o efeito prático é o mesmo: eu não opero.
Meu celular vibra. Marina.
Você viu o e-mail?
Respondo só com um "sim".
Ela manda três pontos. Depois: Quer que eu vá aí?
Não. Depois a gente conversa.
Desligo a tela. Fico olhando a parede do quarto por um tempo que não sei medir. O apartamento cheira a café velho e a ausência. Eduardo tirou as coisas dele há quase dois anos, mas ainda tem uma caixa de ferramentas no armário da área de serviço que ele esqueceu de buscar. Ou fingiu esquecer.
Levanto. Faço café. Queimo a primeira xícara porque fico parada demais na frente da cafeteira. Bebo mesmo assim. Amargo. Queimado. Adequado.
Às nove e meia ligo para o advogado que o hospital indicou "caso eu precise". Ele fala em tom calmo, profissional, e me explica o óbvio: não assinar nada sem ler, não discutir o caso com colegas, não postar nada em rede social, aguardar a coleta de depoimentos. Eu anoto mentalmente. Não pergunto se ele acha que eu errei. Não quero a resposta.
À tarde, Marina aparece mesmo assim. Entra sem bater, porque tem chave. Traz pão de queijo e um olhar que eu conheço demais.
- Você está pálida.
- Estou viva. Já é alguma coisa.
Ela não ri. Senta na banqueta da cozinha e me observa enquanto eu finjo organizar a geladeira.
- Alice.
- Não começa.
- Eu nem falei nada.
- Você ia falar. Eu conheço a cara.
Marina suspira. Abre o pacote de pão de queijo e come um inteiro antes de continuar.
- O Eduardo ligou pra mim.
Sinto o estômago contrair.
- Por quê?
- Porque ele viu seu nome em algum grupo de médicos. Fofoca corre rápido. Ele queria saber se você estava bem.
- E você disse?
- Que você estava ocupada. E que se ele quisesse saber, podia te ligar direto.
Eu sorrio sem humor.
- Ótimo. Agora falta só a minha mãe.
- Ela também ligou. Eu não atendi.
Marina é a única pessoa no mundo que consegue fazer isso e ainda me olhar sem culpa. Eu a amo por isso e ao mesmo tempo tenho vontade de gritar.
Passamos a tarde em silêncio relativo. Ela trabalha no notebook em cima da mesa da sala. Eu fico no sofá com um livro aberto na mesma página há uma hora. De vez em quando ela levanta o olhar e eu finjo que estou lendo.
Quando ela vai embora, beija minha testa e diz:
- Você não é o pior médico do mundo. E você sabe disso.
Eu não respondo. Porque no momento em que o sangue não parava, eu não tinha certeza de nada.
***
Três dias depois eu não aguento mais as paredes do apartamento.
O silêncio tem peso. Cada notificação do celular parece uma acusação. Cada mensagem de "qualquer coisa, estou aqui" me deixa mais sozinha. Então eu pego a chave do carro, dirijo até um hotel na orla que eu nunca tinha entrado, e me sento no bar do térreo como se fosse uma turista qualquer.
Peço um uísque. Depois outro. Não bebo rápido o bastante para perder o chão, mas bebo o suficiente para o peito doer menos.
O bar é semi-escuro, madeira escura, luz baixa, quase vazio numa terça-feira. Uma música instrumental toca baixo demais para ser identificada. O barman limpa um copo com atenção excessiva. Eu fico olhando o gelo derreter no meu segundo drink.
- Esse lugar cobra caro pelo silêncio - diz uma voz masculina à minha esquerda.
Eu viro a cabeça.
Ele está sentado dois bancos de distância. Camisa social de mangas dobradas, relógio discreto, expressão de quem também não quer conversa, mas resolveu quebrar o protocolo mesmo assim. Cabelo escuro, levemente grisalho nas têmporas. Olhos que observam sem invadir. Ombros largos. Mãos grandes, veias aparentes quando ele segura o copo.
- Vale a pena - respondo.
Ele sorri de canto, como se a resposta tivesse sido exatamente o que esperava.
- Depende do silêncio.
Peço o terceiro drink. Ele pede um scotch. O barman serve os dois sem pressa. Ficamos em silêncio por alguns minutos. Não é constrangedor. É o tipo de silêncio que duas pessoas exaustas reconhecem uma na outra.
- Você parece alguém que passou o dia tomando decisões ruins - ele diz, sem olhar para mim.
- E você parece alguém que passou o dia fingindo que as decisões ruins não eram suas.
Agora ele vira o rosto. O sorriso volta, maior.
- Observadora.
- Habitual.
Ele bebe um gole. Eu bebo o meu. O uísque queima de um jeito que eu preciso.
- Nome? - ele pergunta depois de um tempo.
- Não.
Ele ergue uma sobrancelha.
- Justo. Eu também não.
Ficamos nisso. Sem nomes. Sem profissões. Sem explicações. Conversamos sobre a qualidade do gelo, sobre a música genérica, sobre o fato de que hotéis de beira-mar sempre cheiram a desinfetante caro e solidão. Ele tem um humor seco, preciso. Eu respondo no mesmo tom. É fácil. Perigosamente fácil.
Em algum momento o barman anuncia o último pedido. Eu olho para o meu copo vazio e percebo que estou menos bêbada do que pretendia. O álcool está lá, mas a cabeça está clara o bastante para saber exatamente o que estou fazendo.
Ele paga a conta dele. Eu pago a minha. Levantamos ao mesmo tempo.
- Você vai subir? - ele pergunta, simples.
Eu olho para ele. Ele olha de volta. Não tem pressão no olhar. Só uma pergunta aberta. Desejo claro, sem disfarce.
- Sim.
Ele acena com a cabeça, como se a resposta fosse lógica.
O elevador é silencioso. O corredor do décimo segundo andar cheira a carpete novo. Eu abro a porta do quarto que reservei por impulso. Ele entra atrás de mim. Fecha a porta com um clique suave.
Não há conversa fiada.
Assim que a porta se fecha, ele me empurra de leve contra ela. A mão grande prende meu queixo, o polegar desliza pelo lábio inferior. Eu abro a boca antes mesmo de ele beijar. O beijo é fundo, molhado, sem delicadeza de primeira vez. Língua, dentes, gosto de scotch e uísque misturados. Eu puxo a camisa dele para fora da calça, as unhas arranhando a pele quente das costas. Ele geme baixo contra minha boca.
A camisa dele cai no chão. A minha blusa é puxada por cima da cabeça com pressa. O sutiã é aberto com um movimento preciso. As mãos dele descem, pegam meus peitos com firmeza, os polegares passando pelos mamilos já duros. Eu arqueio as costas, empurrando o peito contra as mãos dele.
- Porra... - murmuro.
Ele baixa a cabeça e chupa um mamilo, depois o outro, forte o bastante para eu sentir o puxão até a boceta. Eu enfio os dedos no cabelo dele e puxo. Ele solta um som gutural e ergue o rosto.
- Quer que eu pare?
- Se você parar agora eu te mato.
Ele sorri de verdade pela primeira vez. Os olhos escurecem.
A calça jeans desce junto com a calcinha num movimento só. Ele se ajoelha na frente de mim ainda encostada na porta. As mãos abrem minhas coxas. A língua dele encontra o clitóris sem rodeio, quente, úmida, pressionando com a pressão certa. Eu solto um gemido alto demais para um hotel. Ele não se importa. Chupa, lambe, enfia dois dedos de uma vez, curvando-os até achar o ponto que faz minhas pernas tremerem.
- Assim... continua assim...
Ele obedece. Os dedos fodem mais rápido, a língua não para. Eu gozo contra a porta, as pernas bambas, a mão apertando o cabelo dele com força. Ele não para até eu empurrar a cabeça dele para longe, sem fôlego.
Ele se levanta. A boca está brilhante de mim. Eu puxo o cinto dele, abro a calça, baixo a cueca. O pau sai pesado, grosso, já completamente duro. Eu desço a mão, aperto a base, deslizo o polegar pela cabeça úmida. Ele solta um suspiro controlado.
- Camisinha - eu digo.
Ele tira uma da carteira sem perder tempo. Eu pego, abro com os dentes, enrolo nele com as duas mãos, apertando de propósito. Ele morde o lábio inferior.
Não vamos até a cama de imediato. Ele me vira de frente para a porta, ergue uma das minhas pernas e enfia de uma vez. O gemido que sai de mim é baixo e rouco. Ele enterra fundo, para um segundo, respirando no meu pescoço.
- Tudo bem?
- Mais fundo.
Ele obedece. As estocadas são fortes, ritmadas, o som da pele batendo na pele enchendo o quarto. Uma mão segura meu quadril, a outra agarra meu peito. Eu empurro o corpo para trás, encontrando cada investida. Ele morde meu ombro, não com delicadeza. Eu gozo de novo, apertando em volta dele, as unhas arranhando a madeira da porta.
Só então ele me carrega até a cama. Me joga de costas. Abre minhas pernas com as mãos e volta a entrar, agora olhando meu rosto. O ritmo muda: mais fundo, mais lento, mais intenso. Eu cruzo as pernas nas costas dele e puxo. Ele geme meu "nome" que não existe, enterra o rosto no meu pescoço e goza com o corpo inteiro tenso, as mãos apertando minha cintura com força quase dolorosa.
Ficamos parados, ofegantes, o suor escorrendo entre os corpos.
Depois de um tempo ele se retira com cuidado, descarta a camisinha e se deita de lado. Eu fico de barriga para cima, olhando o teto, o coração ainda batendo rápido demais.
Ele passa a mão pela minha barriga, sem posse, só toque.
- Ainda acordada?
- Infelizmente.
Ele solta um riso baixo.
Não dormimos grudados. Não tem carinho de casal. Tem só o silêncio confortável de duas pessoas que acabaram de foder bem e sabem exatamente o que isso foi.
Às três da manhã ele se levanta. Veste a roupa com a mesma eficiência de antes. Eu fico na cama, nua, observando.
Quando termina, ele olha para mim uma última vez.
- Foi bom.
- Foi.
Ele abre a porta. Pausa só um segundo.
- Cuida-se.
- Você também.
A porta se fecha. O quarto volta a ser só meu.
Eu fico acordada mais uma hora, o corpo ainda latejando em alguns pontos, o cheiro dele na pele e nos lençóis. A cabeça, no entanto, já voltou a girar.
A cirurgia. O e-mail. A pergunta que ninguém ainda fez em voz alta, mas que paira em tudo: *você fez a coisa certa?*
Eu não sei.
E pela primeira vez em dias, admito isso em silêncio, para mim mesma, sem tentar construir uma defesa.
Pela manhã eu acordo sozinha, com gosto de uísque na boca e a certeza de que a vida do lado de fora do hotel não melhorou nem um milímetro.
Visto a roupa do dia anterior. Desço. Devolvo a chave. Entro no carro.
O celular vibra no banco do passageiro. É um número desconhecido. Deixo tocar até o final.
Não atendo.
Dirijo de volta para o apartamento vazio, com as mãos firmes no volante e a memória de um homem sem nome ainda quente demais na pele.
POV ALICE
O e-mail do advogado chega às oito e treze da manhã, exatamente uma semana depois da cirurgia.
Assunto: Atualização – Apuração Interna.
Eu abro deitada de lado na cama, o celular iluminando o quarto ainda escuro. O texto é curto e cuidadoso. A comissão solicitou complementação de prontuário. Dois depoimentos de equipe já foram colhidos. Meu depoimento está marcado para daqui a onze dias. Até lá, o afastamento permanece. Sem previsão de retorno às atividades assistenciais.
Eu leio duas vezes. Depois deixo o celular cair no colchão e fico olhando o teto.
Onze dias.
Parece pouco. Parece uma eternidade.
Levanto porque ficar parada dói mais. Faço café sem queimar desta vez. Tomo banho demorado. Vista uma calça de moletom e uma camiseta velha que já foi do Eduardo. O tecido ainda tem um cheiro vago de amaciante que não é o meu.
Marina manda mensagem às nove:
Café?
Não hoje.
Alice.
Depois.
Ela não insiste. Isso é novo. Normalmente ela insistiria.
Às onze o interfone toca. Eu atendo sem vontade.
- É o Eduardo.
A voz do porteiro é neutra. Eu demoro três segundos para responder.
- Manda subir.
Ele chega com uma pasta marrom debaixo do braço e a cara de quem não dormiu direito. Cabelo mais curto do que da última vez. Barba por fazer. Olha para mim como se estivesse medindo o estrago.
- Você está magra.
- Bom dia para você também.
Ele entra. Não tenta me beijar no rosto. Só deixa a pasta em cima da mesa da sala e fica de pé, desajeitado.
- Trouxe uns papéis do apartamento. Coisas que ainda estavam no meu nome. Conta de condomínio atrasada, umas notas fiscais do conserto do ar-condicionado... Achei melhor você ver.
Eu abro a pasta. São documentos banais. Vida de gente que um dia dividiu endereço.
- Pode deixar. Eu resolvo.
Ele balança a cabeça.
- Não precisa resolver sozinha. A gente ainda está casado no papel, Alice.
- Separados de fato há quase dois anos.
- Eu sei.
O silêncio fica pesado. Eu fecho a pasta.
- Você veio só por causa disso?
Eduardo passa a mão na nuca. O mesmo gesto de sempre quando está desconfortável.
- Vim porque ouvi sobre a cirurgia. Sobre o afastamento. Queria ver se você estava... intacta.
Eu rio sem humor.
- Intacta é uma palavra otimista.
- Alice...
- Estou bem o suficiente para não precisar de visitas de solidariedade. Obrigada pelos papéis. Pode ir.
Ele olha para mim por mais alguns segundos. Depois acena, vira de costas e sai. A porta se fecha com um clique suave demais para o tamanho do que ficou no ar.
Eu sento no sofá e fico olhando a pasta fechada.
À tarde Marina aparece mesmo sem eu ter pedido. Entra, olha a pasta, olha minha cara e solta:
- Ele veio.
- Veio.
- E?
- Trouxe boletos.
Marina bufa, abre a geladeira, pega duas cervejas e senta do meu lado no sofá.
- Você está deixando ele te ver assim?
- Assim como?
- Quebrada.
Eu bebo um gole longo.
- Eu não estou quebrada. Estou afastada. Tem diferença.
- Tem. Mas você está com cara de quem não lembra a diferença.
Ficamos caladas um tempo. A televisão ligada no mudo mostra um jornal local. Marina bebe devagar. Eu bebo mais rápido.
- Você precisa sair daqui - ela diz de repente. - Mesmo que seja só para andar no calçadão. Ou ir na casa da mãe. Ou qualquer lugar que não seja essas quatro paredes.
- Eu saí. Outro dia.
- E?
- E voltei.
Marina me olha de lado. Não pergunta detalhes. Graças a Deus.
POV HENRIQUE
O plantão termina às sete da manhã e eu ainda estou no hospital às oito e meia.
A cirurgia de ontem foi longa. Troca de valva aórtica em paciente de setenta e dois anos, calcificação importante, acesso difícil. Saímos limpos, o paciente está estável na UTI, mas o cansaço senta nos ombros como peso concreto.
Verônica manda mensagem enquanto eu troco de roupa no vestiário:
Você vem almoçar em casa ou fica por aí?
Vou para casa.
Ok.
Só isso. Ok.
O caminho até o Edifício Atlântico é curto. Eu estaciono, subo, abro a porta. O apartamento cheira a café e a algo que ela deve ter esquecido no forno. Verônica está na cozinha, de jaleco ainda por cima da blusa, cabelo preso num coque apressado. Ela levanta o olhar quando me vê.
- Você está com cara de quem operou a noite inteira.
- Foi o que aconteceu.
Ela acena para a cafeteira.
- Tem fresco. Quer?
- Quero.
Sento na banqueta da ilha. Ela serve duas xícaras. O silêncio entre a gente não é novo. Existe há meses. Às vezes é confortável. Às vezes é só vazio.
- A reunião da diretoria é às duas - ela diz. - Vou precisar sair mais cedo.
- Tudo bem.
- E o caso da valva?
- Estável. Vou passar lá no final da tarde.
Verônica bebe um gole, observa a xícara como se houvesse algo interessante nela.
- Você sumiu um pouco nas últimas semanas.
Eu ergue a sobrancelha.
- Plantão. Cirurgias. O de sempre.
- Não é só isso.
Ela não continua. Não precisa. Eu sei o que ela está dizendo. A distância. As noites em que eu chego e ela já está dormindo. As manhãs em que a conversa é só logística. Não é briga. É erosão.
Eu bebo o café. Quente demais.
- Estou cansado, Verônica. Só isso.
Ela sorri sem alegria.
- Eu também.
Depois ela vai tomar banho. Eu fico na cozinha olhando pela janela o pedaço de mar que se vê do décimo andar. Em algum momento a imagem de uma mulher sem nome atravessa a cabeça: cabelo escuro solto, boca com gosto de uísque, o jeito como ela disse "mais fundo" sem pedir licença. Eu empurro o pensamento para o lado. Não tem utilidade. Foi uma noite. Acabou.
Verônica sai do banheiro vestida para a reunião. Beija meu rosto de lado, quase automático, e sai.
Eu fico sozinho no apartamento silencioso.
POV JÚLIA
O plantão começa com um senhor de setenta e poucos anos caindo da escada de casa e termina com uma adolescente de dezessete que tentou se matar com dipirona e refrigerante.
Entre um e outro: três crises asmáticas, um infarto que chegou tarde demais, uma criança com corpo estranho no nariz (era um feijão) e um homem que jurou de pé junto que a facada foi "acidental".
Eu estou com a terceira xícara de café na mão quando o residente novo me pergunta, com a cara de quem ainda acredita em justiça divina:
- Como você aguenta?
- Cafeína, deboche e a certeza de que amanhã vai ser pior. Próximo.
Ele não ri. Pena. Eu ri sozinha.
Às onze da noite o fluxo diminui o suficiente para eu conseguir sentar cinco minutos na sala de descanso. O celular vibra. É o Lucas. Ou o Pedro. Ou o que-seja-o-nome-dele da semana passada.
To livre. Vem?
Eu olho a mensagem. Digito:
To de plantão, gato. E você já falou merda demais na última vez.
Ele responde com um emoji de coração partido. Eu bloqueio o número antes que ele tente ser criativo.
Samuel aparece na porta da sala de descanso com duas garrafas de água e a cara de sempre: calmo, atento, como se o caos do pronto-socorro fosse apenas um detalhe inconveniente.
- Você comeu alguma coisa?
- Comi raiva. Tem as mesmas calorias.
Ele estende a água. Eu aceito.
- Patrícia perguntou se você ainda vai no aniversário da sobrinha dela no sábado.
- Vou. Levo vinho e um sorriso falso de amiga dedicada.
Samuel quase sorri.
- Você é péssima em sorrisos falsos.
- É o meu charme.
Ele fica mais um minuto, depois some de volta para a UTI. Eu fico olhando a porta fechada e penso, pela milésima vez, que a gente se conhece há seis anos e ainda assim tem coisas que nunca foram ditas em voz alta. Coisas que talvez nunca precisem ser.
O plantão continua. Chega uma mulher de meia-idade com dor torácica. Eu examino, peço ECG, troco provocações com a técnica de enfermagem sobre o horário absurdo. A paciente estabiliza. Eu anoto o prontuário com letra legível só por pura teimosia.
Às seis da manhã eu saio do hospital com o sol nascendo e a certeza de que meu encontro amoroso frustrado da semana continua frustrado. E que está tudo bem assim.
Quase.
POV ALICE
O convite chega num e-mail limpo, profissional, sem floreios.
Assunto: Processo Seletivo – Cirurgia Geral – Hospital Santa Aurora.
Eu leio sentada na varanda, de manhã, com o café esfriando do meu lado. O texto informa que meu currículo foi pré-selecionado. A entrevista está marcada para daqui a três semanas, em Porto das Flores. Pedem confirmação de interesse e disponibilidade para deslocamento.
Eu leio de novo.
Santa Aurora. Porto das Flores.
Longe o suficiente para ser outro começo. Perto o suficiente para eu não precisar inventar uma vida inteira do zero.
Marina aparece atrás de mim, olha a tela por cima do meu ombro e solta um assobio baixo.
- Olha só.
- Não fala nada ainda.
- Eu não falei.
- Você ia falar.
Ela ri, puxa uma cadeira e senta.
- Vai?
Eu fico olhando o e-mail por mais alguns segundos.
- Eu ainda não sei.
Mas a verdade é que o peito apertou de um jeito diferente. Não de medo. De possibilidade.
POV HENRIQUE
A reunião da comissão clínica termina quase às sete da noite.
Verônica está na cabeceira da mesa, impecável, voz firme. Otávio Brandão ocupa a outra ponta, balançando a caneta entre os dedos enquanto discute números de ocupação e margem. Eu fico no meio, prestando atenção pela metade.
No final, Verônica fecha a pasta e anuncia, quase como quem comenta o tempo:
- Vamos abrir vaga efetiva para cirurgia geral. A equipe está curta desde a saída do Cardoso. Quero alguém com experiência em trauma e disponibilidade para plantão. Currículos até o final do mês.
Otávio resmunga alguma coisa sobre orçamento. Verônica nem pisca.
- A gente discute o orçamento depois. A vaga abre.
Eu anoto mentalmente. Mais uma contratação. Mais uma pessoa para avaliar. Mais uma variável no hospital que já tem variáveis demais.
Quando a reunião termina, Verônica me encontra no corredor.
- Você vai para casa?
- Vou passar na UTI primeiro.
Ela acena.
- Não demora demais. Tem sobra de jantar.
Eu assinto. Ela segue na direção do elevador dos funcionários. Eu fico parado alguns segundos, olhando o corredor vazio.
A imagem da mulher do hotel volta, rápida, sem aviso. O jeito como ela segurou meu cabelo. O som que fez quando gozou. Eu sacudo a cabeça e sigo para a UTI.
Não tem utilidade.
Foi só uma noite.
POV HENRIQUE
A pasta chega na minha mesa às nove e quarenta da manhã, com uma nota adesiva da secretaria da diretoria clínica:
Candidatos – Cirurgia Geral – reunião 14h.
Eu abro. São cinco currículos. Três homens, duas mulheres. Experiências variadas, alguns com passagem por trauma, outros mais voltados para eletivas. Eu leio com a atenção que o cargo exige, marcando pontos com a caneta.
O quarto currículo me faz parar.
Alice Vasconcelos, 32 anos. Cirurgiã geral com prática consolidada em trauma. Residência em hospital de grande porte. Dois anos de atuação em serviço de emergência de referência. Depois... um período de afastamento administrativo recente, justificado por apuração interna em andamento. O texto é cuidadoso. Não há condenação. Não há absolvição. Há apenas o fato: afastamento, processo aberto, candidata disponível para nova colocação.
Eu folheio os anexos. Relatórios técnicos. Pareceres. Nenhum retrato. Nenhuma entrevista prévia comigo. Só papel.
Sento mais fundo na cadeira e leio de novo o trecho sobre a cirurgia que motivou a apuração. Os dados são incompletos do ponto de vista de quem não estava na sala. Decisão tomada sob pressão de recursos, desfecho grave, comissão instaurada. Nada que me diga com clareza se a conduta foi temerária ou apenas humana em circunstâncias ruins. Mas o afastamento está lá. E eu sou o tipo de cirurgião que prefere sobrar cautela do que faltar.
Anot o nome na margem: reservas técnicas – acompanhar.
Às duas da tarde a comissão se reúne na sala de reuniões do terceiro andar. Verônica preside. Otávio está presente, como sempre, com a pasta de números. Dois chefes de serviço, a coordenadora de enfermagem e eu completamos a mesa.
Os currículos são projetados um a um. Discussão técnica, perguntas sobre disponibilidade de plantão, perfil de equipe. Quando chega a vez de Alice Vasconcelos, Verônica resume o histórico com a voz precisa de sempre.
- Experiência sólida em trauma. Currículo compatível com a necessidade atual. Há uma apuração em andamento no serviço anterior. Solicitei documentação complementar. A candidata se disponibilizou a esclarecer pessoalmente na entrevista.
Otávio balança a caneta.
- Afastamento administrativo não é detalhe pequeno.
- Não é - concordo. - E não temos elementos suficientes para avaliar a gravidade real do episódio. Só o fato de que houve desfecho grave e processo aberto.
Verônica me olha por cima dos óculos de leitura.
- Você está sugerindo descartar?
- Estou sugerindo cautela. Podemos priorizar candidatos sem pendência formal.
Um dos chefes de serviço murmura concordância. A coordenadora de enfermagem faz cara de quem já viu muita gente boa ser descartada por papelada. Verônica fecha a pasta com um gesto seco.
- A equipe está curta. O Cardoso saiu há três meses e a sobrecarga está aparecendo nos indicadores de tempo-porta. Eu não vou descartar uma cirurgiã com esse perfil por uma apuração que ainda não concluiu nada. Vamos entrevistar. E vamos colocar salvaguardas: supervisão inicial mais próxima, avaliação em noventa dias, transparência total com a comissão de ética se o processo anterior avançar.
Eu mantenho o tom baixo.
- Meu voto é contrário à continuidade dela no processo neste momento.
Verônica anota. Não discute. Não muda de expressão.
- Registrado. Voto vencido.
A reunião segue. No final, a decisão é unânime com a minha ressalva: Alice Vasconcelos segue para entrevista. Os outros quatro também. A vaga continua aberta.
Quando saio da sala, Verônica me alcança no corredor.
- Você foi duro.
- Fui técnico.
Ela cruza os braços.
- Técnico ou excessivamente cauteloso?
- Às vezes é a mesma coisa.
Verônica segura meu olhar por um segundo a mais do que o necessário. Depois solta o ar e acena.
- A entrevista dela é na quinta. Você não precisa estar.
- Eu não vou estar.
Ela parte na direção do elevador. Eu fico parado alguns instantes, a pasta ainda na mão. O nome Alice Vasconcelos não me diz nada além do que está no papel. Não associa a nenhum rosto. Não associa a nenhuma noite.
Só a um risco que eu preferia não correr.
POV VERÔNICA
Eu fecho a porta do meu consultório e fico em pé atrás da mesa por um minuto inteiro, olhando a cidade pela janela.
Henrique votou contra.
Não foi surpresa. Ele é assim: prefere o caminho mais estreito, a margem de segurança maior, o "não" antes do "vamos ver". Eu respeito isso na sala de cirurgia. Na gestão, às vezes me cansa.
A equipe precisa de gente. O trauma está sobrecarregado. Os plantões estão sendo cobertos com gambiarra de escala. Eu sei o peso de uma apuração aberta. Sei o que significa para a cabeça de quem está do outro lado. Mas também sei ler um currículo. Alice Vasconcelos tem o perfil que a gente precisa. E eu não vou descartar competência por medo de papelada.
Sento. Abro o notebook. Escrevo um e-mail curto para a secretaria:
Confirmar entrevista com Dra. Alice Vasconcelos – quinta-feira, 10h. Avaliadores: eu, Dr. Mendes e a coordenação de enfermagem. Dr. Montenegro não participa desta etapa.
Envio.
Depois abro a pasta de manutenção preventiva que Otávio deixou na minha mesa ontem. Três alertas antigos sobre equipamentos de hemodinâmica. Prazos estourados. Eu grifo em amarelo e anoto no canto: cobrar retorno formal até sexta.
O telefone interno toca. É a recepção.
- Doutora, sua mãe ligou. Disse que é rápido.
Eu atendo. Minha mãe fala durante quatro minutos sobre a empregada que faltou e sobre o fato de que meu pai está recusando a fisioterapia de novo. Eu escuto, respondo o necessário, desligo. O casamento dos meus pais tem quarenta e dois anos e ainda assim parece mais simples de administrar do que o meu algumas semanas.
Henrique e eu não brigamos. Brigar seria mais fácil. A gente só... afasta. Cada um no seu canto de cansaço. Eu sei que parte disso é meu. A diretoria clínica come horas. Come atenção. Come a versão mais leve de mim. Ele também não facilita. Às vezes olho para ele à noite e vejo um homem que está presente no corpo e ausente em quase todo o resto.
Eu não sou esposa que espera em casa com jantar pronto e reclamação pronta. Nunca fui. Mas também não sou de fingir que está tudo bem quando não está.
Pego o telefone e mando mensagem para ele:
Jantar em casa hoje? Ou você fica no hospital?
A resposta demora sete minutos.
Vou tentar chegar até as 21h.
Eu digito apenas: Ok.
E volto para os alertas de manutenção.
POV ALICE
O avião aterrissa em Porto das Flores às sete e vinte da manhã. O céu está limpo. O ar que entra pela manga da pista tem cheiro de mar e de asfalto quente.
Eu pego a mala de mão, passo pela desembarque e pego um táxi até o hotel perto do hospital. Quarto simples, cama firme, janela com vista parcial para o mar. Tomo banho, visto a calça social escura e a blusa que escolhi com cuidado: profissional o suficiente para não parecer que estou pedindo emprego de joelhos, humana o suficiente para não parecer robô.
Às nove e quarenta estou na recepção do Santa Aurora.
O hospital é maior do que eu imaginava pelas fotos do site. Corredores largos, sinalização clara, movimento constante de jalecos. A secretária da diretoria clínica me recebe com um sorriso educado e me leva até uma sala de reuniões com mesa de madeira clara e três cadeiras ocupadas.
Verônica Montenegro se apresenta primeiro. Intensivista, diretora clínica, voz precisa, olhar que não desperdiça movimento. Ao lado dela, um cirurgião mais velho chamado Mendes e a coordenadora de enfermagem, uma mulher de meia-idade que aperta minha mão com firmeza.
Não tem nenhum Henrique Montenegro na sala. Eu nem sei que esse nome existe ainda.
A entrevista dura quase uma hora. Perguntas técnicas sobre trauma, sobre tomada de decisão sob pressão, sobre trabalho em equipe. Eu respondo com honestidade calculada. Quando chega a parte da apuração, Verônica olha direto para mim.
- Precisamos entender o contexto do afastamento.
Eu endireito a coluna.
- Houve uma cirurgia de trauma com lesão vascular complexa. Recursos limitados naquele momento. Tomei uma decisão sob pressão. O desfecho foi grave. A comissão interna está apurando. Eu cooperarei com tudo o que for necessário. Não tenho condenação. Tenho um processo aberto e a disposição de esclarecer cada detalhe.
Verônica anota algo. Mendes faz uma pergunta sobre o tipo de clamp que eu usei. A coordenadora quer saber como eu lido com equipe em situações de tensão. Eu respondo. Não embelo. Não me vitimizo.
No final, Verônica fecha a pasta e diz:
- Se avançarmos, haverá período de avaliação mais próximo nos primeiros noventa dias. Transparência total com qualquer desdobramento da apuração anterior. Você topa essas condições?
- Topo.
Ela acena, satisfeita.
- Retornaremos em até dez dias.
Eu saio do hospital com a boca seca e as mãos firmes. No táxi de volta ao hotel, olho pela janela a cidade que ainda não conheço. Porto das Flores. Nome bonito demais para um lugar onde eu posso recomeçar ou quebrar de novo.
No quarto, tiro a roupa social, visto a camiseta velha e deito na cama olhando o teto. O celular vibra. Marina.
E aí?
Foi. Agora é esperar.
Você estava boa?
Eu estava eu.
Marina responde com um emoji de polegar. Eu sorrio pela primeira vez em dias.
POV HENRIQUE
A confirmação da contratação chega no meu e-mail numa terça-feira, quase no final do expediente.
Assunto: Admissão – Dra. Alice Vasconcelos – Cirurgia Geral.
Eu abro. Contrato assinado. Data de início: daqui a três semanas. Supervisão inicial sob responsabilidade da diretoria clínica e do serviço de cirurgia. Meu nome não aparece em nenhum lugar da comissão de acompanhamento.
Leio o e-mail duas vezes. Depois fecho.
Não sinto alívio. Não sinto irritação. Sinto apenas o peso familiar de ter sido voto vencido e de ter que conviver com a decisão.
Levanto da cadeira, pego o jaleco e desço para a UTI. Tem um paciente meu em pós-operatório de troca de valva que precisa de avaliação. Trabalho. Anoto. Falo com a equipe. O resto do mundo fica do lado de fora da porta da unidade.
À noite, em casa, Verônica está no sofá com o notebook no colo. Eu beijo o topo da cabeça dela por hábito. Ela ergue o rosto.
- A Vasconcelos aceitou. Começa no mês que vem.
- Eu vi o e-mail.
Ela observa meu rosto por um segundo.
- Você ainda discorda.
- Eu registrei meu voto. Agora é seguir.
Verônica fecha o notebook.
- Às vezes eu me pergunto se você desconfia de todo mundo ou só das pessoas que ainda não teve tempo de julgar pessoalmente.
Eu não respondo de imediato. Vou até a cozinha, pego água, volto.
- Eu desconfio de processos incompletos. É diferente.
Ela solta um sopro que quase vira riso.
- Às vezes é a mesma coisa, Henrique.
Eu sento do outro lado do sofá. O silêncio se instala de novo, familiar e desconfortável. Em algum momento a imagem da mulher do hotel atravessa a cabeça - rápida, sem pedido de licença. O gosto de uísque. O jeito como ela não pediu nome. Eu empurro o pensamento para longe.
Não tem relação com nada.
Só uma noite. E uma contratação que eu não aprovei.
Nada mais.