GRAZIELA
-Para de tocar, porra! -Jogo o despertador no canto da cama -eu nem dormi direito e já tá na hora de ir trabalhar de novo? Eu não atirei pedra na cruz, Senhor! -Reclamo. Olho o relógio na cabeceira da cama e já são quatro e meia da manhã, hora de acordar, ou vou chegar atrasada no trabalho. Me levanto, vou até o minúsculo banheiro do corredor, escovo os dentes e lavo o rosto. Banho? Eu vou deixar para tomar no trabalho. Nunca que eu vou tomar banho frio, uma hora dessas, a porcaria do chuveiro queimou de novo.
-Tomou seu café, filha? -Minha mãe pergunta quando estou saindo.
-Não dá tempo, mãe, eu tomo café no hotel. A bênção. -Dou um beijo nela e saio. Por pouco não perco a van. A primeira van do dia, sai da favela às cinco horas da manhã, depois pego o ônibus no centro às seis horas e desço no primeiro ponto do Jardins às seis e quarenta, sete horas bato meu ponto, no Hotel Royal. Essa é minha rotina diária, morro de cansaço? Sim, mas meu salário não é dos piores, mil e quatrocentos reais de salário, mais vale transporte, quanto a refeição, podemos comer aqui a vontade, sem descontar do pagamento.
Meu nome é Graziela Silva, tenho vinte e cinco anos, só tenho o sobrenome da minha mãe, o doador de esperma deu no pé quando descobriu a gravidez. Moro com minha mãe, Márcia, que está com seus quarenta e nove anos, ela finalmente conseguiu um benefício do governo, agora pode descansar das faxinas; e com minha irmã Gabriela, de dezenove anos, acabou de concluir o ensino médio, não faz nada da vida, só quer curtir.
Eu trabalho como auxiliar de limpeza no Grand Hotel Royal, um hotel de classe média alta que fica localizado no bairro Jardins, o metro quadrado mais caro de São Paulo e, moro na Cachoeirinha, uma favela. Grande ironia, limpo o chão no bairro mais caro de São Paulo, enquanto nasci e cresci em uma favela, o lugar mais decadente, mas eu não pertenço àquele lugar, meu maior desejo é sumir de lá.
Sabe, eu sou uma mulher bonita, inteligente, estudei pra caralho* para conseguir um diploma de psicologia, consegui a bolsa pelo ENEM, mas - sempre tem um mas quando falamos da classe trabalhadora do nosso amado Brasil - não consegui trabalhar nessa área ainda, quero dizer, eu recebi uma proposta para trabalhar no postinho da comunidade, mas não quero.
-Graziela, hoje a cobertura é sua! -ouço a gerente falar assim que passo meu cartão de ponto -nada de enrolar. O hóspede chega às dez horas da manhã -completa com ar de superior.
-Sim senhora -respondi forçando uma cara simpática, mas minha vontade é fazer uma careta. Que ódio dessa mulher. Coloco meu uniforme, prendo meu cabelo em um coque no alto da cabeça e coloco a touca. Bora para mais um dia de faxina cansativa, mas que paga minhas contas e me dá um pouco de dignidade, pelo menos isso. Entro no elevador de serviço, aqui não podemos de maneira nenhuma colocar os pés no elevador principal, no elevador dos hóspedes só entramos para fazer a limpeza. Trágico. Passar uma noite aqui, uma única noite nesta cobertura não custa menos que cinco mil reais. Já pensou em quantos zeros deve ter a conta bancária da pessoa, que tem coragem de pagar uma fortuna dessa por apenas uma noite em um hotel? Meu sonho.
O quarto é enorme. Cama com lençóis de seda, travesseiros tão macios que dá vontade de dormir só de olhar para eles. Suspiro. Como eu queria só uma vez poder passar por aquela porta como hóspede e não como funcionária da limpeza. Depois de trocar os lençóis, bater os travesseiros, dobrar as toalhas, conferir os itens do frigobar - exigências do hóspede: um vinho específico de trinta mil reais a garrafa, taças de cristal inglesa para apreciar melhor a bebida. Depois confiro a temperatura do ambiente, temos que colocar tudo em perfeita ordem, deixar perfeito para receber os milionários cheios de manias e exigências absurdas.
Tem uma hóspede que gosta do quarto cheirando a cavalo, é maluca. Outra quer tudo brilhante, temos que pendurar lustres no teto inteiro, fora as luminárias nas paredes, não pode faltar um ponto de luz no quarto. Já um outro quer o quarto cheio de manequins, fica parecendo um filme de terror, é bizarro. Tem cada esquisitice que você nem imagina, mas cada louco com sua mania, desde que pagam e muito bem o hotel atende todos os pedidos inusitados e... loucos.
-Já está tudo pronto, Graziela? -A voz irritante vem da porta.
-Sim senhora Marta -esse é o nome da velha azeda, minha chefe - está tudo pronto. - Respondi travando a porta com o cartão magnético.
-Conferiu se está tudo certo? Tudo que foi pedido está no lugar? - Me olha com cara de poucos amigos.
-Sim senhora. Tudo certo.
Depois de esperar ela avaliar todo o quarto, ela olhou tudo, tudo mesmo! Depois me mandou seguir com meu trabalho. Até parece que vamos receber a família real de tanta burocracia que é. Com a cobertura liberada, sigo para o meu segundo quarto. Empurro meu carrinho de limpeza até o elevador de serviço, rumo ao próximo quarto, ou melhor, próximos, os três últimos andares, mais a cobertura, tudo isso é meu trabalho de hoje.
[...]
-Graziela, você não quer mesmo ir ao baile? -A Gabriela pergunta entrando no meu quarto.
Olho a pessoa que parou na frente do meu guarda-roupas e minha vontade de surtar é grande. A garota, que acabou de completar o ensino médio, está com um micro shorts jeans, uma camiseta dos Beatles e um tênis encardido nos pés. Deprimente.
-Tem certeza que vai sair vestida assim? -Pergunto sentindo vergonha alheia.
-Claro que sim. Ah, pode parar, Grazi -reclama - não venha falar das minhas roupas.
- Se você não se importa de andar feito uma periguete porca, quem sou eu pra me preocupar! -Bufo. Não sei de onde essa garota puxou esse mal gosto pra moda e interesse por bandido.
-Você é uma arrogante hipócrita, sabia! Graziela, você age como se fosse melhor que todo mundo daqui, mas olha só, você não é, não passa de uma favelada como todo mundo aqui. Eu tenho meu estilo e gosto muito dele. - Diz pegando minha jaqueta da Gucci - vou usar sua jaqueta.
-Tudo bem. Desde que não manche ela de bebida. Se quiser pode usar um tênis também, o seu tá pavoroso -digo torcendo a cara. -Gabriela, a água aqui é gratuita e o armário da cozinha tá cheio de sabão. Lava esse tênis - ela revira os olhos.
-Vamos lá no baile, a galera vai gostar de te ver.
-Qual galera? Duvido muito. A maioria ali não vai com minha cara. -Digo com certa satisfação. Eu odeio viver aqui e gosto menos ainda das pessoas daqui, meu sonho é ir embora desse lugar e eu vou. Um dia eu me mudo daqui e vou ter a vida que desejo.
Realmente, eu não sou muito querida pela galera que frequenta esses bailes, principalmente as amiguinhas da Gabriela. Eles dizem que sou metida e que me acho melhor que os outros simplesmente porque eu não gosto de me misturar.
-Claro. Você só anda com esse nariz empinado. -Diz se olhando no espelho.
-Não. Eu não ando com nariz empinado, apenas seleciono bem as pessoas que merecem minha atenção. Você deveria fazer o mesmo, Gabriela, principalmente com aquele bosta* que você corre atrás. Ele não vale a pena.
-Não fala assim do Russo. Ele é um cara legal. Todos aqui vivem bem por causa dele.
-Muito legal. Um anjo -Ironizo.
O Russo é o atual dono da Cachoeirinha, pelo menos é assim que todos aqui o conhecem: o dono do morro. Que breguice. A minha irmã é louca por aquele bandido idiota*, vive correndo atrás dele igual uma cadelinha, isso me tira do sério. Uma pena que a polícia não sobe aqui e leva aquele merda, eles até tentam, mas até hoje não conseguiram pegar ele.
-Ele me trata bem e me enche de presentes - Diz orgulhosa. Mas eu consigo enxergar também uma leve tristeza.
-Claro. Você abre as pernas pra ele sempre que ele quer. Se valoriza, Gabriela, você merece mais que isso.
-Até parece que você nunca abriu também! - Responde irritada. Eu também fico depois de ouvir sobre essa passagem da minha vida que quero esquecer. -Não adianta fingir que você nunca subiu naquela laje pra trepar* com o Russo, Graziela, todos sabem que você já foi e mais de uma vez. Então não me julgue. Ela acaba de falar e sai do quarto batendo a porta. Eu não gosto de lembrar dessa fase da minha vida, eu não era muito inteligente naquela época, tanto que me envolvi e me entreguei para o Russo. Ele era só o Ruan Santos, estudante de direito há seis anos, mas já estava no mundo do crime, e eu sabia.
Não era pra menos, ele é o sobrinho do dono do morro e há três anos ele assumiu o posto de chefe quando o tio foi preso, agora é ele quem comanda isso aqui. No começo ele não aceitou bem o fim do nosso relacionamento, eu também não, era apaixonada por ele, louca, só terminei porque ele me traiu. Como eu sofri. Mas depois que ele se formou, ao invés de sair daqui e seguir a carreira de advogado em outro lugar, ele ficou trabalhando para o crime, defendendo os integrantes da facção, e depois quando pegaram o Drake, tio dele, ele assumiu o lugar, virou criminoso de vez, aí eu desencantei, passou o sentimento. Não nasci pra ser mulher de bandido. Mas ele ainda é advogado, pelo menos até a polícia descobrir a verdadeira identidade do Russo.
-Você e a Gabriela brigaram de novo? -Minha mãe pergunta entrando no meu quarto.
-Não mãe, foi só um desentendimento de irmãs -respondi me sentando na cama.
-O motivo foi o Russo outra vez? -Arqueia a sobrancelha.
-Foi e não foi -Suspiro. -Mãe, eu só não quero que a Gabriela sofra. A Senhora sabe que aquele cara não quer nada sério com ela, isso é só diversão pra ele.
-Graziela, eu sei que não é nada fácil pra você, mas não podemos fazer nada -suspira profundamente. -Sua irmã é apaixonada por aquele homem, e não é só uma paixão passageira como você sentiu, parece que ela o ama de verdade. -Reviro os olhos.
-Para com esse papo, mãe. Aquela idiota* caiu na conversa fiada daquele filho da puta*, mas uma hora ela vai abrir os olhos e ver que não é nada disso, que ela é exatamente como eu fui, uma iludida. O Russo só está usando ela pra tentar chamar minha atenção, quando vê que não deu certo ele descarta ela. -Falo francamente, deixando minha mãe um pouco aborrecida.
-Você já pensou que ele pode estar realmente interessado na Gabriela? Já passaram muitos anos, ele também pode ter te esquecido - Reviro os olhos novamente. Como minha mãe é iludida. Não é à toa que foi enganada duas vezes e por homens diferentes, ainda teve que criar duas filhas sozinha.
Acordo com o barulho do maldito despertador, o barulho ecoa pelo quarto. Pego ele e jogo no canto da cama, faço isso todos os dias, depois de olhar as horas, claro. Como eu queria pelo menos uma vez, olhar pra ele e não ser quatro e meia da manhã. Me arrasto para fora da cama e sigo cambaleando sonolenta até o banheiro. Escovo os dentes, arrumo o cabelo, conserto um pouco minha cara com um rímel, uma base com protetor solar e um delineador, também passo um batom, ficar apresentável é o mínimo. Minha mãe sai do seu quarto esfregando os olhos.
-Bom dia, minha filha -diz bocejando.
-A benção, mãe -dou um beijo. -Já estou saindo. A Gabriela voltou? -Pergunto antes de entrar de volta no meu quarto.
-Voltou. Ela não demorou muito lá. -Responde.
-Que milagre foi esse? Ela não quis se hospedar no cafofo do traficante dessa vez, já é um começo - ironizei. Ouço minha mãe suspirar descontente. Tudo bem, eu fui um pouco longe demais, espero que não tenha acontecido nada de ruim lá, se bem que se tratando daquele bosta*, é difícil, provavelmente teve treta, coitada da minha irmã.
-Graziela! -Bufa.
-Desculpa! -Ergo as mãos -estou indo, tchau! - Beijo sua bochecha e saio. Mais um dia normal de trabalho duro me aguarda.
Entro na van, paro no centro, entro no ônibus e finalmente chego no Jardins. É, a rotina é puxada, mas eu prefiro isso a trabalhar naquele postinho fuleiro lá da favela. Sete horas da manhã e as ruas estão quase vazias, a "peruada" toda dormindo o sono da beleza, essa é a vida que eu queria pra mim, mas ao invés disso estou aqui, acordada desde às quatro da manhã, aff. Pelas ruas só vejo os funcionários seguindo para seus trabalhos.
-Cuidado!
Ouço um grito agudo próximo de mim e em seguida sou puxada para o lado, caindo sobre um corpo forte e suado. Suado, mas cheiroso. Tem cheiro de perfume caro. Um carro, mais precisamente um Lamborghini, passa voando por nós e bate com tudo no poste à nossa frente.
-Ai! -Digo massageando meu nariz que bateu forte nos músculos do homem, músculos que mais parecem aço de tão duros.
-Se machucou? -Pergunta. Ele tem uma voz grossa que chega arrepiar. E olha que eu ainda nem vi a cara do fortão que me salvou.
-Só meu nariz, eu... bati ele no seu... -toco seu peito forte sobre a camiseta regata. -Desculpa. - digo quando ele afasta minhas mãos.
-Tudo bem -diz erguendo nós dois do chão numa facilidade incrível, mas também com aquele corpo todo, o homem parece um armário. Quando estamos sentados no gramado, de frente um para o outro, eu finalmente posso olhá-lo com atenção, faço uma avaliação rápida em cada pedacinho e só consigo pensar: Jesus, que homem perfeito! Sem exagero, o homem na minha frente ganha em disparada de qualquer modelo de capa de revista. Moreno, provavelmente deve ter seus um metro e noventa e cinco de altura, cabelos pretos, um belo par de olhos verdes e uma boca que é um convite para beijar de tão bem desenhada. O corpo é outro espetáculo à parte, ombros largos, músculos bem desenhados e bem firmes, mãos grandes que devem ter uma pegada boa, enfim... queria um desse pra mim, já sonhei muitas noites com isso.
-Algum problema? -Pergunta meio rude, acho que notou minha sutil avaliação. Tudo bem, não foi tão sutil assim.
-Nada, me desculpa -respondi sem graça.
-Okay. Vamos lá, o socorro deve está chegando, vamos avaliar se está tudo certo. Eu poderia dizer que estou bem e não preciso disso? Poderia. Mas eu não vou perder a chance de passar mais alguns minutos ao lado desse "deuso'', não mesmo! Já perdi as contas de quantas vezes me imaginei conversando com esse homem, aliás, meu sonho é ter a oportunidade de conhecê-lo e conquistá-lo.
Assim que levantamos do gramado já tem um carro do Samu parado próximo do carro de luxo destruído, bombeiros e policiais também já estão chegando, e por incrível que pareça quase não tem curiosos, bairro chique é outra coisa, né. Se fosse onde moro já estaria lotado de curiosos. Ô gente pra gostar de olhar desgraça alheia é pobre. Eu até tentei puxar assunto e ter uma troca de palavras com o meu salvador gostoso, ou melhor, meu chefe gostoso, sim, esse homem maravilhoso é Samuel Moretti, o herdeiro do império Moretti. Os Moretti são os donos da rede de hotéis para a qual eu trabalho e mais um monte de outros negócios. Ele me respondeu, deixou no vácuo, acho que ele percebeu que não passo de uma pobre funcionária, e para gente como ele, ou seja, milionários, gente assim acha que pessoas como eu não merecem atenção, no final ricos são todos iguais.
-Obrigada por ter me salvado -digo quando ele está saindo.
-Sem problemas -respondeu seco. Ok, eu me senti frustrada agora, poxa, achei que ele fosse ao menos ser simpático por eu ser bonita, mas... pelo jeito não sou bonita o suficiente para conseguir sua atenção, pelo menos ele tem instinto de herói e salvou minha vida. Imagina só, eu fui salva pelo meu chefe gostoso, tudo bem que ele nem me olhou, mas eu pude sentir um gostinho daquele corpo todo.
-Isso são horas, Graziela?! -Assim que passo pela porta ouço a voz irritante da minha chefe. Que velha azeda insuportável!
-Eu só me atrasei porque tive um acidente - respondi calmamente depois de respirar fundo. Minha vontade é mandar essa velha para a puta* que pariu.
-Essa é a melhor mentira que você tem? -Diz depois de me olhar dos pés à cabeça -não estou vendo nenhum machucado. -Constata.
-Justamente por isso eu estou aqui trabalhando, porque se tivesse me machucado os socorristas teriam me mandado para o hospital. Eu quase fui atropelada por um carro desgovernado que bateu no poste, pode averiguar, foi aqui perto -digo e ela torce a cara.
-Tudo bem, mas tenha cuidado na próxima vez, não quero ter atrasos por aqui. Se troque e vá trabalhar! -Me olha mais uma vez e sai, com certeza está indo conferir se falei a verdade.
Depois de me trocar, sigo para os quartos, meu dia normal de trabalho duro acaba de voltar ao normal de fato.
[...]
Dois meses, dois meses se passaram desde o acidente do Lamborghini, e eu ainda fico aqui fantasiando com o fato de eu ter sido salva pelo herdeiro Moretti. Como eu queria que isso tudo fosse como aqueles filmes de romance que o gato milionário - nesse caso bilionário - salva a mocinha e se apaixona por ela e depois se casam e vão morar em uma mansão que mais parece um castelo. Mas não, a realidade é uma bosta*, o boy magia nem olhou pra mim. Aff.
Hoje o hotel vai receber uma hóspede vip, dizem que é a mulher do governador de São Paulo. Imagina só, enquanto a gente rala pra pagar as contas, que são caras por causa dos impostos altíssimos, os nossos queridos políticos hospedam seus familiares em hotel de luxo, isso é o Brasil, o povo sofre e os políticos luxam. Às dezesseis horas eu terminei de limpar e organizar o quarto. Um vaso com girassol no centro do quarto, vinho importado no frigobar, lençóis de seda, cortinas e tapete italianos... a mulher é exigente viu. Segundo a minha chefe, a mulher iria chegar às dezessete horas, mas quando estou saindo com meu carrinho a porta se abre e uma mulher e um homem entram grudados um no outro. Eu fico sem reação no momento, o homem parece que vai engolir a mulher de tão forte que beija ela. Que situação, para piorar, o homem é justamente o meu chefe. E agora o que eu faço? Forço uma tosse para avisar que chegaram cedo demais e ainda estou aqui, ou eu espero eles me notarem? Quando o homem enfia a mão embaixo do vestido de grife da mulher, eu escolho a primeira opção.
-Ham-ham -raspo a garganta chamando a atenção deles.
Imagina minha decepção quando o homem me olha e não me reconhece, é muita inocência minha pensar que o todo poderoso Samuel Moretti, herdeiro do Grupo Moretti iria se lembrar de mim, a garota da faxina que limpa o chão do hotel dele. Ainda mais quando ele está trepando* com a esposa do governador, aliás, que mulher safada, tá traindo o marido!
-Mas que porra* você está fazendo aqui?! -Ele grita com uma voz absurdamente grossa.
-Desculpa, senhor, senhora -faço um aceno com a cabeça cumprimentando os dois, sou educada afinal -eu já estava de saída, acabei de limpar o quarto agora.
-Mas que porra*! -O homem lindo, que neste momento está muito irritado, esbraveja -vocês fazem a limpeza com os hóspedes entrando? -Me lança um olhar assassino, é, realmente ele parece está furioso por ter sido pego no flagra.
-Desculpe, senhor, mas segundo a dona Marta, a hóspede chegaria às dezessete horas. Está agendado na ficha de chegada, o horário da entrada dela. -Falo naturalmente. Mas só Deus sabe como estou de verdade. O homem bufa, ainda está furioso, mas não desconta mais em mim. Ele e a mulher, que até o momento estava calada, me encaram.
-Tudo bem, pode ir -ele diz se afastando o máximo possível para eu passar com o carrinho.
-Ela não vai falar nada que viu aqui, não é? - Ouço a mulher questionar antes que eu saia.
-Não. Nosso hotel preza pela privacidade e protege a intimidade dos hóspedes -ele responde. Eu reviro os olhos.
Privacidade? Intimidade? Que pilantra! É da safadeza isso sim. Os dois estão traindo, colocando um belo par de chifres no cônjuge da safada e ainda exigem privacidade, é brincadeira.
Eu obviamente não tive culpa do flagra que dei nos dois safados, mas como eu sou uma simples faxineira, ainda tive que ouvir um belo sermão da azeda da minha chefe, ô mulherzinha insuportável. Depois de ouvir ela lendo duas páginas do código de conduta dos funcionários deste hotel, eu finalmente fiquei livre da velha. Mas uma coisa é certa, aqueles dois têm muito medo dessa história vazar, mas também imagina só o escândalo: Esposa do governador e o dono do Grupo Moretti se encontram às escondidas. A hashtag "o governador é corno" alcançando o top um dos assuntos mais comentados dos sites de fofocas. Ou o escândalo do herdeiro da família Moretti pegando a esposa do amigo, indo parar na capa das revistas de negócios.
-Qual é a treta dessa vez? -A Loane pergunta. Ela trabalha aqui também, nós somos muito amigas e saímos juntas para balada sempre que dá.