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Caça-Trevas: O Mal em Solar

Caça-Trevas: O Mal em Solar

Autor:: jaobardo
Gênero: Horror
O Mal é o Mal. Disto todos sabem, mas... O que é o Mal? Ou melhor, quem é o Mal? Um homem? Uma mulher? Um monstro? Será que somos apenas veículos para ele? Karl vivia uma vida comum, criando sozinho sua pequena Elena, ele desconhecia e desacreditava do Mal. Afinal, estas questões religiosas nunca o interessaram. Vivendo de sua caça e de sua vontade, Karl levava um dia após o outro, apenas existindo. Porém toda sua vida mudou radicalmente quando as trevas se achegaram em Solar, trazendo com elas algo que ninguém nunca experimentou naquele lugar. Visões e aparições atormentam a todos na vila, ninguém entende o que está acontecendo. A terra não produz frutos, os animais estão assustados, o clima é gélido, os dias são sombrios e as noites são mortas. O que está havendo? Será apenas um tempo incomum ou algo mais profundo e sombrio está agindo? Ninguém mais é confiável, nem o melhor amigo de Karl, Sam. A amizade outrora forte entre os dois agora pode sucumbir junto a tudo. Karl tem apenas um objetivo: proteger Elena de qualquer um que tentar machucá-la. O Mal veio mesmo para Solar? Ou ele sempre esteve lá? Karl não faz ideia, nem você faz. Então ele (e talvez você) terá que lutar contra as trevas que vêm de fora, e acima de tudo, as que exalam de dentro. ⚠️ALERTA DE GATILHO⚠️ VIOLÊNCIA EXPLÍCITA

Capítulo 1 Prefácio

Olá, caro leitor. Sinta-se bem-vindo à esta história. Eu sou Jão Bardo. Antes de qualquer coisa, o que é um "Bardo"? Ficarei feliz em lhes contar: um bardo, também chamado de aedo, na Europa antiga, era uma pessoa encarregada de transmitir histórias, mitos, lendas e poemas de forma oral, cantando as histórias do seu povo em poemas recitados. Era ao mesmo tempo músico, poeta, historiador e moralista.

Modéstia a parte, não me considero um exímio contador de histórias, tanto orais quanto escritas. Na verdade, este é o primeiro livro que realmente levo à sério. Foram noites e mais noites pensando e repensando coisas, acrescentando e retirando fatos, backgrounds e tentando aprender a como contar algo que envolva alguém. Pus muitas horas e muita vontade nas páginas deste livro, o que para mim, já é uma vitória.

Já fique sabendo que esta história não é única. Haverá mais, sendo esta a primeira de todas. Há um grande mundo de fantasias em minha mente, e eu darei vida a ele, se puder.

Sinceramente, dá um certo nervoso finalmente postar isso, mas nunca chegarei a lugar nenhum se não me esforçar. Uma viagem de mil quilômetros se inicia com um único passo. E este livro é meu primeiro passo.

Agora, vire a página, amigo leitor. Adentre a história de Karl em Solar, e algumas outras coisas extras que haverá ao fim do livro. Dê-me sua opinião, dê-me sua visão e eu tentarei enxergar através dela.

Atenciosamente, Jão Bardo.

Capítulo 2 O Início

"O que está esperando?" sussurrou Sam, que já não aguentava mais olhar para Karl fitando aquele maldito veado. "Todos já foram, Karl, por que ainda estamos aqui? Atira de uma vez!".

"Espere" disse Karl, silenciosamente. Sua concentração era absoluta.

"Acontece que não aguento mais ouvir sua respiração, amigo." Respondeu Sam. "Quer saber? Eu estou indo."

"Não pode mais sair." disse Karl sem tirar os olhos de cima do animal. "Agora que está silencioso, se você for, vai assustá-lo. Devia ter ido antes."

Sam arqueou as sobrancelhas, caçoando e cochichando do amigo. Mesmo que não fosse admitir, sabia que Karl estava certo, portanto ficou no lugar em que estava.

Karl respirava fundo, deixando o ar passar devagar pelas narinas e expandir os pulmões. Segurava o arco com firmeza, o rêmige da flecha lhe roçava o rosto e causava coceira, mas precisava ficar parado. O silêncio gelado daquela manhã era útil. Se acertasse no lugar certo, mataria o animal de uma só vez. Acompanhando as batidas do coração, Karl esperou até que conseguisse contá-las e saber quando atirar. Um, dois, três. Flecha lançada. A seta percorreu uns dez metros por entre as altas árvores até atingir a criatura exatamente no pescoço, foi fatal. A morte fora tão rápida que não houve gemidos de dor, apenas o som do corpo pesado dando um baque no chão.

"Satisfeito?" perguntou Karl, com um leve orgulho de si mesmo.

"Pegue logo o bicho, está frio pra caramba aqui!" respondeu Sam, que tremia como vara verde.

Karl pôs o arco na aljava e Sam o acompanhou até o corpo do veado. Passaram pelo tronco caído que usaram de apoio, pisando e apagando os vestígios da fogueira da noite passada. Caminhando na direção do corpo, o frio os encobria. Era possível ver de longe a poça vermelha se esvaindo do ferimento, não era uma visão que agradava Karl. Ao chegarem, Karl se agachou e com certa dó retirou a flecha daquele pescoço peludo. Depois, Sam rezou em agradecimento por aquele que seria o almoço e o jantar de vários dias. Karl não rezou. Sam, com receio, levantou o bicho nas costas e o carregou enquanto caminhavam de volta para a vila, como era o hábito. O caminho de volta não era tão grande, mas demorariam uma hora para chegar. Passando pelas copas das árvores abaixo do céu enegrecido pela aproximação do inverno, Sam começou a falar.

"Tenho que dizer. Você enche o saco com essa de concentração e de 'espere mais um pouco', mas é um dos melhores caçadores da vila, se não for o melhor." Disse Sam sorrindo sem mostrar os dentes. "E cara, como isso aqui pesa!"

"Meu pai sempre dizia: "Se tiver paciência, vai conseguir o que quiser.". Não tenho lá muita paciência, mas tento." Disse Karl, pensativo.

Caminharam por algum tempo em meio àquela floresta profunda e escura. No caminho Sam falava aos montes sobre qualquer coisa: o clima, as árvores, mulheres, religião. Karl escutava e respondia uma coisa ou outra, mas a verdade é que o berrante da dupla era Sam. Finalmente, depois que Karl já não aguentava o frio e o falatório do amigo, eles sentiram o cheiro da fumaça das chaminés e ouviram as vozes altas vindo mais à frente. Puderam ver, no topo do pequeno morro, a torre velha do templo, sinalizando que haviam chegado a Solar. A esquecida Solar. Logo antes de passarem pela entrada, puderam ver as pessoas indo para lá e para cá. Grupos de mulheres levando cestas de frutas para casa ou cestas de roupas para lavar no rio mais próximo, homens conversando sentados nas varandas das pequenas casas, um cachorro dormindo debaixo de uma escada aqui, um gato se espreguiçando sobre um telhado ali. Havia lá suas pequenas lojas e uma única taverna em toda a aldeia. Solar podia ser pequena, mas o que não tinha de grande, tinha de movimentada. O solo era enlameado de tantas pisadas o dia todo e pela umidade do inverno. Sam dava bom dia para quem passasse perto, Karl sorria sem mostrar os dentes e acenava com a cabeça, acanhado. Caminharam até um pequeno estabelecimento de aparência rústica. Havia uma bancada onde dormia um gato cor de zebra. Uma placa de madeira pendurada escrito "Açougue do Porco-Jantado" em letras vermelhas e uma tentativa de desenho de um porco preparado para ser devorado com uma maçã na boca chamava a atenção de quem visse. Na bancada da loja esperava um senhor pequeno usando um avental manchado de sangue seco, cabelo ralo, olhos incrustados em olheiras e alguns dentes em falta. Ele segurava um facão como uma criança segura um pirulito. Era Bill, o dono do lugar.

"Bom dia Sam!" gritou Bill, com sua voz pesada e arrastada ao ver os dois se aproximarem. "Que monstro é esse nas suas costas?"

"Uh, hã, bom... dia, Bill" devolveu Sam retirando com dificuldade o veado das costas. Estava ofegante. "Esse é dos grandes, cortesia do Karl, ele que fez a gente demorar tanto. Não é amigão? Ai que droga, minhas costas tão cheias de sangue." Terminou ele, tentando olhar as costas.

"Desculpe Bill." disse Karl, forçadamente.

"Oh, tudo bem! Desde que me tragam alguma coisa, eu não me importo. O povo desta vila come mais que uma família de ursos prestes a hibernar. Temos que alimentá-los, não é?" Disse o senhor, dando seu conhecido sorriso com dois dentes a menos.

"Vejo que os outros também trouxeram coisa boa." Exclamou Sam, desistindo de olhar suas costas, vendo que para isso precisaria quebrar o pescoço. Ele notou alguns porcos e coelhos pendurados por ganchos atrás da careca de Bill.

"Ah sim, trouxeram sim, carne jovem e gostosa. Mas vocês parecem ter pedido diretamente ao Sol por este aqui." Disse Bill, balançando o facão tranquilamente próximo ao rosto de Sam enquanto olhava o enorme animal morto. "Esse é dos grandes mesmo, deve ter dado trabalho carregar."

"E como deu. Amigo, eu até tentaria te ajudar a levar ele para dentro, mas eu e Karl estamos mortos, pode cuidar disto?" disse Sam, já se retirando do local na esperança de não ter que fazer nada.

"É, estamos meio cansados." Disse Karl, sem olhar para Bill.

"Hã, eu que estou realmente cansado. Você não carregou esse aí nas costas." Ralhou Sam, gargalhando com Bill.

Karl já esperava pelo fim daquela conversa há um tempo, queria sair dali. Partindo primeiro que Sam, ele se dirigiu até uma pequena casa. A porta branca era reconhecível de longe. Era a casa de Sam. Batendo algumas vezes na porta, esperou impaciente que abrissem.

"Bom dia, Karl!" disse a mulher que abriu para ele. Seu semblante animador, olhos vivos e sorriso iluminado eram sempre incomuns para Karl, ela parecia bem no meio de um lugar não tão bom assim. "Ela está esperando você há horas, vai lá."

Ao entrar, ele retirou a aljava com o arco dentro e pôs num canto da sala, apressado. Caminhando em passos rápidos por um curto e espremido corredor, ele chegou à sala de estar onde três crianças brincavam com um cão em frente às chamas estalantes da lareira. Duas eram meninos, gêmeos. Uma era menina e tinha a risada mais melodiosa da sala, além de seus cabelos ruivos e lisos enfeitiçarem os olhos de Karl. Tão logo ele entrou, ela o olhou com seus olhos do azul mais celestial e seu rosto assumiu uma expressão da mais pura alegria.

"Papai!" exclamou ela, já correndo na direção de Karl. "Eu senti tanta saudade, que dia você saiu?" perguntou ela, curiosa.

"Eu saí hoje de noite e voltei hoje de manhã." Respondeu Karl, rindo de leve. "Só se passaram algumas horas, minha vida."

"Eu não acredito!" respondeu ela, aparentemente irritada. "Você me deixou esse tempo todo?"

Karl sabia que tentar explicar seria gastar saliva, então abraçou a menina com força. Sua vontade era de nunca soltar.

"Estou aqui agora, pequena, estou aqui." Disse Karl, baixinho.

"Pois bem, não me deixe de novo." Respondeu ela, com carinho, se aconchegando em meio ao abraço do pai.

Enquanto se abraçavam, o cachorro com o qual as crianças brincavam chegou com o focinho entre os dois, lambendo a cara de Karl e latindo. A menina deu tapinhas no cão, tentando tirá-lo de cima do pai.

"Chô, Luminoso! Chô!" gritava ela. Luminoso nem parecia notar.

O animal só largou Karl quando Sam apareceu. Aliviado, Karl se sentou numa das cadeiras de balanço presentes na sala. Após dar bom dia para os filhos do amigo, ele se serviu com um bom chá quente e pão amanteigado preparados para eles minutos antes de chegarem. Sam se acomodou numa cadeira do outro lado da sala, também bebendo do chá e comendo do pão.

"Isso está muito bom, Anna! Por acaso cuspiu aqui?" gritou Sam, rindo alto.

"Sam, seu garotinho!" gritou Anna lá da cozinha. "Você sabe que essas suas piadas não têm a menor graça, já mandei parar, e vá se lavar, você fede a veado morto!"

Sam riu junto de Karl, que agora estava relaxado. Estar ali, depois de todo o frio e silencio da floresta, era ótimo. O fogo crepitava e o acolhia naquele dia. Era bom se sentir acolhido.

Para ambos, a manhã fora como toda manhã em temporada de inverno. Eram quase totalmente diferentes. Sam era brincalhão, falava muito e sem vergonha. Karl era mais fechado, não falava com quem não conhecia e costumava ser reservado. Sam não dizia, mas gostava de ter Karl por perto, e Karl nunca disse, mas para ele Sam era o único amigo real que já tivera. Estar ali era uma benção para Karl, uma benção que ele nunca esperou receber.

Quando chegou a hora do almoço, todos já estavam famintos e cansados de conversar e brincar com Luminoso, que não parecia cansar nunca. Reunidos na sala de jantar, sentados nas pequenas, porém confortáveis cadeiras esperando pelo que viria. Anna entrou com uma grande tigela cheia de carne, provavelmente de porco, pelo cheiro incomum, e depois trouxe mais duas tigelas: uma de arroz e outra de legumes. Tudo posto à mesa, Sam pediu que dessem as mãos e rezassem em agradecimento pela refeição. Karl não rezou, mas estava de olhos fechados. Sam notou que o amigo nem mexia os lábios, fingindo rezar, isso o incomodava.

"Oh Grande Sol, por favor, ajude Karl a enxergar. Ilumine o caminho dele e guie-o para onde dever ir. Todos nós aqui acreditamos nele." introduziu Sam na oração. Logo depois terminando. "Mais uma vez, obrigado pelo alimento, e que hoje tenhamos um bom momento de adoração e gratidão a você. Pedimos que nosso amigo venha conosco hoje, que o coração dele amoleça e ele perceba a grandiosa bondade que tens tido com ele. A luz seja conosco!"

Karl escutou a última frase com incômodo. Mais uma vez Sam tentava trazê-lo ao templo. Já havia conversado com Sam sobre aquilo, entretanto o amigo parecia ignorá-lo todas as vezes. Por fora, fingia de forma terrível que não se incomodou com o puxão de orelha de Sam, por dentro estava pegando fogo. Karl detestava aqueles olhares, dos adeptos, pareciam fulminá-lo com os olhos. Ele não queria ir, de jeito nenhum, mas sabia que não tinha chances, não por Sam, mas por Elena.

"Querida, isso tá ótimo!" exclamou Sam, de olhos esbugalhados fitando a comida.

"Ah, eu pensei em você, vida." Respondeu Anna. "Podem comer mais!"

Sam logo pôs mais comida na tigela, devorando tudo como um leão magrelo.

"Ei Karl. Você vai hoje, certo?" falou Sam, entre colheradas cheias. "Elena irá cantar no coral das crianças, você não a deixaria lá sem o pai, não é?"

"Mas é claro que eu vou, não perderia por nada." Respondeu com um falso sorriso de canto de boca, sem olhar diretamente para Sam. "Hã, que horas vai começar? Eu quero estar arrumado, não é princesa?"

Elena sorriu para ele.

"Vou fingir que estou cantando só pro senhor!" gritou ela, animada.

"Que bom. Isso é muito bom." Comentou Sam, olhando para os dois, tentando tirar algum resquício de carne dos dentes. "Bom, crianças, querida e Luminoso. Poderiam, por favor, nos deixar a sós? Preciso falar com seu papai, Elena."

Anna pediu para que as crianças a ajudassem com a louça, e colocaram o cão para fora. Agora estavam apenas os dois ali, Karl sabia que não acabaria com os dois gargalhando alto.

"Irmão, eu e você sabemos que odiamos falar disso, mas tenho que tentar sempre. Não custa nada." Começou.

"Sam, você sabe que já tentei e que tentaria de novo se sentisse que estou mais perto de acreditar. A coisa aqui é que não estou. Nunca estive." Respondeu Karl.

"Isso é pelo Mediador? Ele só quer ajudar você Karl, não vê isso?"

"Me ajudar? O que aquele velho pode fazer?" disse Karl, irritado e intrigado. Sam o olhou com seriedade, desagradado de o amigo ter usado "velho" ao falar do velho. "Certo, desculpe. É só que eu não acho que ele possa fazer alguma coisa, Sam, ele só pode rezar e rezar. Ele, os noviços dele e o povo todo dessa vila só podem rezar por mim, para que nada me aconteça. Mas sei que tirando você, todos aqui me odeiam ou repudiam."

Sam se sentiu ofendido e sentiu que Karl havia ofendido toda a vila.

"Por que diz isso?" perguntou ele.

"Talvez você não faça isso, e acho que não faz, mas os outros sim. Todo mundo aqui me olha como um cachorro sem dono Sam, como se eu fosse menos pessoa que eles apenas porque me recuso a ir aos cultos. Não sei se sabe como é, mas é difícil estar aqui quando todos te olham torto e você sabe que falam de você pelas costas. É como ser apunhalado desde quando se levanta da cama." Respondeu Karl, já com uma veia saltando na testa.

Sam não sabia o que dizer, era óbvio que ele não entendia. Ele nunca entenderia.

"O Mediador pode tentar me ajudar, mas ele não pode mudar o que houve. Mesmo que ele quisesse me ajudar, eu não aceitaria, ele não pode fazer nada." Terminou Karl, sentindo seus olhos ficarem marejados. Já estava farto de Sam e daquela discussão.

"Quantos anos tem a Elena?" perguntou Sam. "Uns sete?"

"Ela tem seis" respondeu Karl, já impaciente e enjoado da própria voz.

"Veja só, já faz seis anos Karl. Seis anos. Já tentamos muito te ajudar, e você não aceitou o favor, não quero dizer que não farei isso novamente, porque nós dois sabemos que vou. Só quero que saiba que não iremos te ajudar para sempre." Disse Sam, rígido, convencido de sua razão.

Karl não respondeu. Com o punho cerrado, golpeou a mesa, que chacoalhou. Se levantou da cadeira, agradeceu pelo almoço e saiu batendo a porta de forma que pó caiu das paredes. Logo que saiu, caminhou para casa, onde esperava sentir um pouco de paz. Antes de ir, pegou seu arco com Anna e deixou Elena com as crianças para que ensaiassem até a hora do culto.

Não vamos te ajudar para sempre. Quem Sam achava que era? O papa? Nem ele e nem ninguém podiam ajudar. Aquelas conversas eram sempre motivo de os dois não se falarem por dias. Karl chegava a pensar que Sam só se tonara seu amigo por pura pena. Ele não precisava de pena, nem de ajuda.

As casas em Solar não eram muito distantes umas das outras, na verdade eram bem próximas. Todas eram parecidas por fora, mas por dentro eram diferentes. O lugar mais afastado ficava também no ponto mais elevado da vila, era o monastério que foi construído junto do Templo do Grande Sol. A casa de Karl não era um lugar feio ou desagradável, era pequeno, como quase todos, porém aconchegante.

Ao abrir a porta, soltou um profundo e pesado suspiro de quem está com raiva, mas não quer estar. Entrou, tirou os sapatos e pendurou seu arco nos ganchos da parede. Dentro do pequeno quarto, deitado na igualmente pequena cama, ele respirava fundo tentando se acalmar. Estava remoendo e remoendo sem parar as palavras de Sam. O ódio lhe subia à cabeça e já sentia o rosto arder. Não conseguia sentir que queriam lhe ajudar, parecia mais que queriam... Obrigá-lo a receber ajuda. As belas palavras de consolo dos vizinhos e talvez até de Sam não pareciam tão reais, e isso ele sentia a quilômetros.

Elena amava os cultos, mesmo que não entendesse nada sobre luz e escuridão, ela dizia que o Mediador falava bonito. Karl não achava, aquele velho era estranho, sempre sentira uma ponta de estranheza nele.

Tirando as mãos do rosto, virou a cabeça para o lado e viu o velho quadro que pintara há anos atrás. Lá estava ela, mais bela que qualquer beleza que Karl já imaginou ter visto. Estava com as mãos no ventre, já volumoso pelos seis meses até aquele dia, e aquele sorriso, um dos mais lindos de que se lembrava. As lembranças lhe vieram numa enxurrada poderosa de tristeza e saudade. Não sabia por que mantinha aquele quadro ali, mas sabia que não conseguia tirá-lo. Ele não sabia como fazer aquilo sem ela, não sabia como proteger a menina, ele só teve sorte até ali. Estava com medo, muito medo.

"Ah... Maria. Já faz tanto tempo e ainda não sei como fazer isso sem você." Sussurrou enquanto observava o quadro. Não parecia que tanto tempo havia passado.

Karl não costumava devanear e expressar suas emoções nem para si próprio. Por este motivo, claro, voltou a si e impediu que as lágrimas iminentes vazassem de seus olhos. Esfregou os olhos e escancarou a boca num bocejo, então se levantou, estalando as costas. Caminhou pela casa até a cozinha. Lá havia um fogão à lenha com algumas cinzas recentes de um pequeno jantar com Sam e a família, além de estantes com tigelas, pratos, copos, panelas. Karl abriu uma tigela com alguns biscoitos e se pôs a comer. Não era um dia muito movimentado. Os biscoitos ajudaram a passar a raiva, estava mais calmo, porém a conversa não saiu de sua mente.

O crepúsculo já se aproximava, a luz do sol enfraquecia através das janelas. O movimento nas ruas diminuiu, as pessoas se preparavam para o culto. Um breve enjoo lhe veio ao estômago. A noite provavelmente seria fria, já que a própria lua não surgia no céu, encoberta por nuvens pesadas, além disso, o clima já estava gélido desde a manhã.

Karl ouvia o sino do templo tocando, chamando todos para o repudiarem. Ele não queria pensar naquilo, então quis focar no fato de que sua filha cantaria com as crianças àquela noite. Falando nela, ele ouviu seus passinhos rápidos se aproximando da casa, ela era baixinha demais para abrir a porta, então ao ouvir suas batidinhas descompensadas, correu para lhe receber. Ao abrir a porta, viu a menina. Estava sorridente e saltitando de ansiedade. Seu cabelo estava encaracolado, -provavelmente Anna tinha um dedo nisto- e um lindo laço violeta jazia em sua cabeça.

"Papai, ainda não se arrumou? O que estava esperando? Eu tenho que lembrar tudo nessa casa?" perguntou ela, emburrada, com os punhos na cintura o encarando.

"Não filha, eu só cochilei um pouco hoje." Respondeu Karl, se segurando para não rir na cara de Elena. "Eu já ia me arrumar"

"Então vai, ué, quer que eu faça o quê?"

As duas eram daquele jeito, mandonas, ele quase nunca reclamou. Caminhou para seu quarto, abriu o pequeno armário e vestiu qualquer coisa que agradasse tanto ele quanto a menina. Como estava frio, pôs um velho casaco de pele e uma calça boa o bastante para não morrer de friagem. Ele só tinha dois calçados: as botas para caçar e um par não muito conservado que Maria lhe dera no seu aniversário de trinta e um anos. Ele optou pelo que não era muito conservado.

Karl se sentou à cama e pensou nas coisas enquanto punha os sapatos. Mais uma vez ele iria até aquele lugar e veria aquelas pessoas. Pior, ele veria o Mediador. Não estava ansioso por isto, mas lhe consolava saber que só teria que ir lá no mês que vem, já que as crianças só cantavam no começo de todo mês. Era só entrar, ouvir, fingir que ligava e ir para casa, nada tão complicado... Certo Karl?

Enquanto se calçava um barulho veio aos ouvidos. Elena batia na porta, indicando que o pai devia ter pressa.

"Estou pronto!" anunciou Karl. Ele se levantou e fechou a porta. Antes de ir, acendeu as velas da casa.

Ao abrir a porta para sair, notou a movimentação. As pessoas caminhavam para o templo como formigas para um grão de açúcar, ninguém ficava em casa. O sino tocou mais três vezes enquanto caminhavam. Elena estava com pressa, então Karl a carregou nas costas. Já no caminho as pessoas olhavam para Karl, que se esforçava para nem olhar de volta. Ele ouvia os cochichos ao longe, enquanto Elena cantarolava acima de sua cabeça.

Subindo o morro, ele já não suportava o peso da menina.

"Filha, pode ir caminhando agora, eu já chego lá." Disse subitamente pondo Elena no chão.

"Certo, mas sem atrasar!" disse com uma seriedade impossível de levar a sério e correu para junto das crianças.

Karl olhou à frente e percebeu Sam e família conversando com um senhor trajando um manto quase todo branco, com algumas listras douradas. Não fosse a tiara pontiaguda adornada em mais ouro e diamantes na cabeça, Karl não saberia, mas já que ela estava lá, sabia que era o Mediador. Talvez o homem mais extravagante da vila inteira. De longe Karl reconheceria o sorriso desconcertante daquele homem.

Agora queria evitar ter contato visual com qualquer um dos dois, então esperou que uma família passasse para segui-los e ficar oculto pelo menos na entrada. Quando já estivesse lá dentro, não haveria problemas, pois sempre sentava no fundo. Quando entrou, uma lembrança lhe veio. Viu os velhos bancos enfileirados e as mesmas pessoas sentadas em todos, lá a frente estava o altar de pedra esculpido há tantos anos. Depois do altar havia o grande vitral. Uma ilustração do grande sol de ouro ofuscando a escuridão abaixo dele e guardando seus adoradores colocados entre os dois. Aquela imagem dos bancos, do altar e do vitral lhe trouxe uma nostalgia mista. Fora o vitral e o altar, nada mais havia de interessante ali. Karl se assentou no último banco da fileira direita.

Olhando sobre o ombro, Karl viu Sam entrar com Anna e as crianças, sentando no banco da frente na fileira esquerda, bem perto do altar. Ele procurou Elena, a qual viu sentada junto às crianças três bancos à frente do seu. A menina o viu e sorriu para ele, que devolveu o sorriso, sem mostrar os dentes. Um noviço vindo do monastério foi para junto do altar, esperando que seu líder chegasse para receber os convidados. Depois que a última família entrou, o Mediador fechou as portas do templo e caminhou imponentemente rígido até o altar.

"Queridos, uma boa noite a todos." Começou ele. "Eu gostaria que soubessem da minha aterradora felicidade de ver todos aqui hoje, eu disse todos (falava de Karl). Como sabemos, estamos próximos do inverno, por isto não há nada mais reconfortante que chamar para nós o calor poderoso e eterno do Grande Sol Dourado! Saibam meus filhos, que a todo o momento as trevas buscam tragá-los. Não há um só momento de descanso para elas. Então demonstrem sua gratidão à luz do Sol cantando junto a mim e ao meu noviço! Lembrem-se, hoje seus filhos e filhas cantarão também."

Karl já batucava o apoio do banco com os dedos, fazendo o mesmo com os pés no chão. Queria logo que a música começasse. E queria muito mais que o culto já acabasse.

O Mediador se afastou e sentou-se na grande cadeira atrás do altar, sorrindo para todos, Karl pôde jurar que ele o encarou por alguns segundos. O noviço se dirigiu ao altar, e pediu para que todos se levantassem antes de começar a cantar. A música na verdade, não tinha uma letra, estava mais para uma melodia, era um cântico ao Sol. Todos o acompanharam, menos Karl, ele nunca entendeu como alguém gostava daquela música, era de uma estranheza ímpar. Os outros entoavam como se fosse trazer esperança, mas para Karl era como uma invocação maléfica. Incomodava os ouvidos e arrepiava todos os pelos do corpo, era como se algo ruim fosse acontecer.

Ele olhou para todos que realmente conhecia, olhou para Elena, - na verdade apenas para as costas dela - olhou para Sam e Anna, olhou para o Mediador, ele já nem sabia mais o que fazer, a música parecia infinita. Algo aconteceu de supetão. Todos ouviram um agudo e repulsivo estardalhaço. O som terrível invadiu o templo e interrompeu bruscamente a canção. Para Karl, pareceu que a "invocação" dera certo. Todos olharam para todos os lados buscando compreender de onde vinha o barulho. Gemidos incompreensíveis e tremulantes ecoavam lá de fora. O Mediador se levantou com rapidez da cadeira, pedindo que alguém visse o que estava acontecendo. Alguns homens se levantaram e correram para as portas, abrindo-as com rapidez. Como se as portas fossem um portal para o mais profundo escuro abismal, ouviram a barulheira esdrúxula com mais clareza. Uma figura cambaleante vinha lá de baixo, a principio não sabiam dizer o que era, estava muito escuro. O ser se aproximou, revelando ser um homem.

Os olhos estavam vermelhos e inchados com qualquer coisa que parecia pus vazando como lágrimas, a cabeça estava ensanguentada e cheia de cortes como se uma coceira dos infernos o tivesse acometido, a boca estava escancarada cheia de dentes podres e baforando podridão por todos os lados. Se contorcia, aparentando parecia enfurecido, pois correu cambaleando na direção de um dos homens. Os gritos no templo foram inevitáveis, as mulheres gritaram tão alto que a agonia se multiplicou nos corações de todos, e só de olhar os rostos boquiabertos e enojados de todos já era o bastante para não querer estar ali. Karl ficou paralisado enquanto via aquele homem diabólico encima do outro, tentando devorá-lo. Outros dois chegaram por trás e tentaram segurá-lo, mas era tão forte que foram precisos quatro para mantê-lo parado, Sam estava entre eles. O homem atacado respirava ofegante e afastado do louco, as mulheres e crianças choravam de medo. Karl retornou a si e logo procurou por Elena, que se encontrava aos choros com o resto das crianças.

"Querida, vai ficar tudo bem, não solte a minha mão, entendeu?" afirmou Karl, olhando-a apressadamente. Ela assentiu com a cabeça, enxugando as lágrimas.

O Mediador já estava próximo ao louco, que parecia um cachorro louco preso à correntes.

"Filhos, não tenham medo, isto é apenas uma provação. Vão para casa, eu tentarei resolver por hoje. Rezem por vocês, por mim, por nós, agora vão!"

O tumulto era intenso. Todos saíam aos chutes e encontrões. Com dificuldade, Karl e Elena alcançaram a saída, mas ao chegar lá, o louco agarrou o casaco que Karl usava, puxando-o em sua direção e se desvencilhando dos homens. Ele puxou com tanta força que o casaco rasgou. Num reflexo, Karl o tirou e correu para junto de Elena, que soltou um grito agudo em meio à multidão. Karl olhou para trás, fitando de relance o Mediador, Sam e os outros tentando controlar aquele estranho monstro. Logo o velho veio às portas, notando Karl ali. Seu rosto expressava o horror daquela ocasião, e o sorriso desconcertante deu lugar a uma seriedade dolorosa.

Todos correram morro abaixo, buscando se abrigar em casa. Entraram e trancaram as portas, eles não as abririam até a manhã seguinte. Flocos de neve caíam do alto, polvilhando aquela noite fatídica à sombria luz mórbida da lua no céu. Karl correu com Elena abraçada à ele até em casa, onde trancou sua porta. Não costumava acreditar no Sol ou nas trevas abaixo dele, nunca pensou na possibilidade de serem reais. Para ele tudo era coincidência. Mas naquela noite, naquele momento, com o rosto pálido e gritante daquele estranho louco gravado em sua mente, ele começava a ter suas dúvidas.

Capítulo 3 A Escuridão toma Forma

Deitado e coberto, Karl passava e repassava em sua mente os momentos terríveis que vivera há pouco. Sentia-se aliviado por ter sua filha ao lado. O frio lhes espetava a pele, embora estivessem cobertos, então ela o abraçou, dorminhoca. Olhando a parede por sobre o cabelo de Elena, notou as minúsculas sombras dos flocos de neve os acompanhando ao chão, iluminados pela luz prateada da lua. "Mas o que foi aquilo?" pensou, e repetiu para si mesmo aquela pergunta até que o sono lhe veio. E mesmo quando veio, pensava naquilo em sonhos.

O rosto horrendo e a bocarra escancarada daquele homem rugindo a centímetros de seu nariz. O bafo putrefato lhe fazendo chorar de nojo. Os olhos sangrentos e sem alma. Os gritos de horror... Seus sonhos podiam ser cruéis com ele.

Quando a luz do sol, enfraquecida pelas nuvens de inverno finalmente raiou em Solar, ele não havia dormido quase nada. Uma terrível dor de cabeça contribuiu para o péssimo humor de Karl naquela manhã. Seu desejo era não acordar Elena, que não teve a melhor noite da vida, então se esgueirou para fora da cama, evitando ao máximo emitir ruídos. Notou como o sono dela estava pesado quando a cama rangeu alto e a menina nem se mexeu, pobrezinha, estava tão assustada na hora que depois da adrenalina o cansaço lhe tombara. Sabendo que a menina só despertaria horas mais tarde, ele foi até o armário pegar alguma roupa. Esqueceu-se de que na noite anterior aquele monstro lhe arrancara o único casaco que tinha. Teve que voltar à cama para pegar seu lençol e se manter aquecido.

Ao sair do quarto, caminhou na direção da sala de estar da casa e se sentou na cadeira de balanço. Pôs-se a observar através das janelas o movimento lá fora, a dor dificultava, era intensa e desagradável. Não viu ninguém na rua, nenhuma alma sequer. Talvez estivesse cedo demais, e provavelmente estava, mas mesmo assim, Solar ganhava movimento desde muito cedo, porém não naquele dia. O trauma de anteriormente não deixava as pessoas tranquilas, obviamente. O que estaria acontecendo naquele momento? Será que o Mediador daria alguma notícia sobre a situação? Será que deveria ficar em casa, esperando pelo que iria vir a seguir? Eram perguntas sem chances de resposta. Mas a pergunta mais importante na mente de Karl era "O que acontece agora?".

A dor ainda persistia em sua cabeça e parecia ter vindo para ficar. Não conseguia manter com os olhos abertos por tempo demais, já que a luz, em contraste com a brancura da neve contribuía para a dor aumentar. Karl se lembrou de uma velha receita que aprendeu um tempo atrás, um chá que ajudaria a passar a dor. Levantou, caminhou até a cozinha e preparou o chá com umas ervas e água quente. Sentou-se em sua cadeira com o chá quente em mãos. Era reconfortante sentir aquele calor entre as mãos, e ainda mais era sentir o vapor morno lhe aquecer o rosto, dera um breve sorriso de prazer e bebeu o remédio. O incômodo foi amenizado, mas a cabeça ainda doía.

Perambulando pela casa, Karl tentava entender como que de tantos os lugares em Luminária aquela coisa veio justamente para Solar. Parecia brincadeira. Solar era um lugar tão escondido e desconhecido que não fazia sentido ser encontrado assim sem mais nem menos. O mar de árvores à volta se mostrara inútil, incapaz de protegê-los. Agora Karl já começava a sentir raiva novamente, o que trouxe de volta sua dor na cabeça. Já conseguia sentir o rosto esquentar, se continuasse irritado, poderia aquecer a casa durante todo o inverno. Tão distraído estava que passou perto de não ouvir o badalar do sino soar lá de cima, no templo. Foram dez badaladas.

Surpreso, Karl esqueceu-se por alguns minutos de sua ira. Ouviu leves batucadas na porta de seu quarto, Elena acordou.

"O que é isso, papai?" questionou a menina assim que ele abriu a porta. Estava esfregando os olhos com as mãos. "Temos culto agora?"

"Não filha, foram dez badaladas, quer dizer que só o papai tem que ir." Respondeu Karl, tocando com o indicador em seu narizinho. "E também quer dizer que você vai para a tia Anna até eu voltar de lá, certo?"

Ela concordou, bocejando. Ainda estava com a roupa da noite anterior. Karl a pôs sentada na cama e buscou algo para vestir. Enquanto procurava, já conseguia ouvir os vizinhos também se preparando para sair, todos estavam com pressa. Ele já estava com a calça da noite passada, então pegou a camisa mais grossa que achou para se proteger do frio, além disso, também pegou luvas. Pegou algumas cobertas e envolveu Elena entre elas, levando-a aquecida para fora. Antes de sair, acendeu as velas da casa.

Sabia que ele e Sam estavam sem se falar, de novo, mas também sabia que Elena era mais importante do que qualquer briga dos dois. Saindo com ela nos braços, viu os outros homens já caminhando para o templo, seus rostos esbanjavam preocupação, olhares perdidos, seriedade, nenhuma palavra saía de suas bocas. O solo outrora enlameado, agora estava branco, coberto da neve que caiu à noite. Quando se aproximava da casa de Sam, pôde vê-lo se despedir de Anna com um beijo. Sam o notou se aproximando e disse algo para Anna, provavelmente avisando que Karl se aproximava com Elena. Quando chegou lá, Anna já o esperava, Sam seguiu caminho.

"Bom dia, Karl." Disse Anna, secamente. "Bom dia, querida."

"Bom dia. Pode cuidar dela?" Perguntou Karl, vacilante.

"Claro." Disse Anna com um sorriso, olhando Elena dormindo nos braços de Karl.

"Obrigado, Anna." Agradeceu Karl, entregando Elena para Anna. "Anjo, eu não demoro a voltar, está tudo bem, viu?"

"Só não vá..." começou Elena, logo depois abrindo a boca num bocejo. "Me deixar de novo..."

Karl olhou para Anna e deu um sorriso educado, porém triste. Então com um aceno de cabeça, ele se despediu. Tomando caminho, Karl tremia de frio, sua respiração podia ser "vista" evaporar de seu nariz e boca. A cabeça ainda parecia sofrer de marteladas sequenciais. Ele subiu o morro com dificuldade, pois a neve recente era fofa e fazia os pés afundarem. Quando enfim, alcançou o topo, se deparou com o Mediador às portas do templo, esperando por todos. Quem passava era recebido por ele, com Karl não seria diferente. Caminhando mais devagar agora que alcançara o topo, se aproximou da entrada. O velho o olhou e ele olhou de volta, com um sorriso educado sem mostrar os dentes.

"Bom dia, filho Karl." Disse ele. Parecia abatido. "Sente-se e espere."

Karl não o respondeu, apenas entrou, sentindo o calor muito bem vindo daquele lugar. Durante o dia, o templo não parecia o mesmo. Os raios fracos do sol refletindo pelas vidraças faziam o lugar ter uma aparência morta, envelhecida, como se centenas de anos tivessem se passado desde a noite anterior. Karl sentou-se no mesmo banco de antes, o último da fileira direita. Notou que Sam estava também no mesmo lugar, banco da frente na fileira esquerda.

Estar novamente naquele assento e naquele lugar lhe trouxe as imagens de antes, o horror, a agonia, o nojo. Era estranho estar de novo ali. Durante o incidente, desejou nunca mais voltar, e ali estava. Também devia ser estranho para os outros. Alguns rezavam de mãos juntas, outros estavam tão ansiosos que seus olhares eram perdidos, olhando para vários lugares e para nenhum, outros dormiam ainda sonolentos. Um incômodo lhe arrepiava a nuca enquanto esperava.

Finalmente, todos os homens entraram e as portas foram fechadas. Karl se sentia num culto novamente, observando o Mediador caminhar com a mesma imponência de outrora até o altar. Trajava um manto branco e agasalhado, sua tiara de ouro e cristais continuava à sua cabeça. Subiu os pequenos degraus e se pôs a falar.

"Homens de coragem que responderam às dez badaladas." Começou, apreensivo. "Serei franco e direto. Nossa situação é crítica. Durante toda a noite, rezei para que o Sol iluminasse meu caminho e me ajudasse a salvar aquele pobre homem. Mas infelizmente nenhuma força entre os homens pôde salvá-lo."

"Ele está morto?" questionou um dos presentes, trazendo uma breve animação ao restante.

"Não, ele está vivo. Está confinado no calabouço do mosteiro neste exato momento. Eu fiz o que podia. Li e reli os livros que temos no acervo do mosteiro em busca de alguma solução. Infelizmente o Sol se fez escuro aos meus olhos e não achei nada que nos ajudasse." Respondeu o Mediador.

"Então por que estamos aqui?" indagou outro.

"Estão aqui porque temos de nos manter firmes. E eu precisava dizer isso à vocês." Afirmou o Mediador. "O inverno chegou filhos. O inverno é um tempo de sombras. A comida ficará escassa, pois os animais também necessitam de abrigo neste tempo. Preciso de homens para caçá-los, homens para nos ajudar a sobreviver. Aqueles que constroem, construam. Aqueles que vendem, vendam. Temos de estar unidos, pois o Mal está vindo para nos provar."

"O Mal está vindo?" perguntou Sam, intrigado.

"Sim, ele está vindo. Não há como viver na luz sem conhecer as trevas. Chegou nosso tempo de conhecê-las, porém, nós vamos vencer!" respondeu, com um sorriso vitorioso. "Acalentem suas famílias, protejam os seus. Rezem sempre que puderem, estejam iluminados pelo Sol." Disse o velho, logo depois assumindo uma expressão preocupada. "Mas... Vocês têm de saber uma coisa. O Mal planta sementes, sementes estas que devem ser sufocadas. Todos temos Mal dentro de nós, então tomem cuidado, sejam fortes, não cedam à ele. Pois ele tentará vocês. Se sucumbirem, não serão apenas vocês, mas todos nós."

Neste momento, após escutar tudo aquilo, Karl respirou fundo, tomando coragem para dizer o que iria dizer. De súbito, se levantou e fez uma indagação que impressionantemente não havia sido feita até então.

"O que será do louco?"

O Mediador o olhou.

"Ah sim, eu ia me esquecendo, obrigado filho Karl." Respondeu. "Eu irei tomar uma última medida, não desejava tomá-la, pois sei dos riscos. Trata-se de um ritual de expurgo. Eu convocarei o Sol para retirar as trevas daquele homem. Mas devem saber que de onde ele veio, há mais por vir, disto podemos ter certeza. Vivemos aqui, envoltos por esta densa floresta e não sabemos o que está havendo lá fora. E seja lá o que aconteceu, isso trouxe ele para cá. Aos homens que caçam para suprir nossas necessidades, vão à caçada! Tragam-nos um bom jantar. O Sol vos ilumine, meus filhos." Terminou o Mediador, sorrindo vacilante.

Todos se levantaram com lentidão e caminharam para fora. Karl pensava nas palavras do Mediador. Uma cisma lhe subia nas veias, ele sentia que algo não terminaria bem.

Saíram pelas grandes portas do templo que logo se fecharam por trás deles. Todos percorreram morro abaixo, pensando cambaleantes no que lhes foi dito, e em como diriam isso à suas famílias. Enquanto pensava, Karl notou que Sam se aproximava, então desacelerou o passo para que o alcançasse.

"Ei, bom dia." Disse Sam, acanhado. "Isso foi doido, não é?"

Karl ainda se lembrava da discussão do dia anterior, mas enxergou a infantilidade em se prender a isso em meio a uma situação tão estranha e incomum como a que viviam. Por isto, respondeu.

"Bom dia, sim, foi muito estranho."

"Estou rezando até enquanto respiro para que isto se resolva." Exclamou Sam, dando uma breve gargalhada. "Torço pra que o Mediador faça o ritual sem problemas."

Karl ouviu e concordou educadamente.

"Tem razão, temos que ter esperança, senão nunca sairemos disso." Disse Karl. "Bom, Sam, você sabe como sou, eu sei que sou difícil e que discutimos. Mas..." Karl não terminou, pois Sam o interrompeu.

"Relaxa, está tudo bem. Eu também exagero às vezes, irmãos de caça?" perguntou Sam, com seu punho fechado, esperando que Karl retribuísse com o restante do cumprimento.

"Irmãos de..." novamente, Karl não terminou.

Gritos, gritos muito altos retumbavam assombrosos vindos do templo. Todos correram para cima, quando não conseguiram abrir as portas, chutaram até que abrissem. Quando as portas se abriram num estardalhaço, a visão horripilante daquele homem veio para cima deles. Parecia ter apodrecido mais desde a noite anterior. A pele de seu rosto parecia ter descascado, então era como uma máscara de carne. Sua mandíbula tinha se modificado, pois agora a boca abria tanto que chegava a lembrar um maldito cão infernal e os dentes, principalmente as presas, estavam afiados. Não havia mais um fio de cabelo na cabeça. Os olhos estavam amarelos, os braços, alongados e inchados, suas unhas formavam terríveis garras negras de tanta sujeira. O rugido, mais para um grito terrível, se assemelhava ao de um animal, porém tinha algo de demoníaco, algo que arrepiava todo o corpo.

Karl desviou no momento em que foi notado pela besta, que tentou lanhá-lo com as garras podres. Alguns homens tentaram segurá-lo, mas se na noite anterior não fora fácil, agora era impossível. Sua força aumentou de tal forma que num tabefe, um dos homens foi jogado contra as portas, quebrando uma delas com o impacto. Karl olhou por todo lado, procurando por algo que pudesse ajudar, mas nada parecia útil.

A fera já tinha um pescoço em sua mão, pronto para rasgá-lo em mil pedaços. Karl tinha que ser rápido, então, com seu próprio punho, socou uma das vidraças e tomou um dos cacos grandes do chão. Num impulso suicida ele se jogou nas costas da fera, perfurando e rasgando o animal até que este largasse o homem. Todos olharam assustados, ouvindo os grunhidos de dor do monstro, piores de se ouvir que seus rugidos. Com os longos braços, a criatura alcançou Karl, agarrando-o e tacando contra o chão como se fosse uma criança que se cansou de seu brinquedo. Aos gritos, o monstro tentava morder Karl, e respingos de um líquido negro lhe queimavam o rosto. Desesperado à procura de sua única arma, tateando o chão com as mãos, Karl conseguia sentir que a qualquer momento seria devorado. De repente, a fera parou. Sua expressão mudou para uma mais estranha. O amarelo dos olhos enfraqueceu e se tornou opaco, as veias negras dos braços empalideceram, a boca ainda aberta deixou de respingar e baforar, as sobrancelhas subiram e era como se quisesse chorar. Seu último suspiro podre foi dado, a cabeça se abaixou e Karl desviou dela, enojado, agoniado, assustado.

Quando tiraram o monstro de cima dele, notou que Sam o havia salvado. As mãos estavam sangrando com finos cortes causados pelo caco de vidro que usou. Karl o olhou. Estava pasmo e boquiaberto, estava grato, porém sem tempo para agradecer. Lá na frente, próximo do altar, jazia um dos noviços, com um cruel ferimento no peito. Suas vestimentas, outrora completamente brancas agora estavam vermelhas com seu sangue e rasgadas na área do peitoral. Outros noviços pressionavam o ferimento, porém o sangue parecia nunca parar de jorrar. Karl se aproximou e tomou a nuca do jovem em sua mão, olhando-o nos olhos.

"Ei, olhe para mim, olhe. Você vai ficar bem, entendeu? Vamos cuidar de você, certo?" Disse Karl, gentilmente preocupado.

"Uh... Uh!" grunhiu o rapaz. Respondeu vacilante. "Certo."

"Ótimo, então vamos te levar para onde eu possa fazer isso." Disse Karl, olhando para os outros noviços, e agora para o Mediador, ali presente.

Tomou o jovem nos braços e o carregou através de um estreito corredor de pedra iluminado por tochas até o monastério. No caminho, notou vários quartos e salas, era realmente um lugar grande, mas ainda assim apertado. Fora guiado até uma sala que parecia ser o refeitório, onde pôs o jovem numa das mesas.

"Tragam água quente com açúcar e panos, além disto, preciso de linha e agulha." Mandou Karl. "Você vai ficar bem, segure minha mão."

O jovem, trêmulo e fraco, apertou com uma força impressionante a mão de Karl.

"Você é bem forte, qual seu nome? Hein?" perguntou tentando mantê-lo acordado.

"Jori, meu nome é Jori, senhor." Respondeu.

"Jori, você é um rapaz forte, suporte um pouco mais." Afirmou Karl.

O jovem sorriu um sorriso forçado em meio à dor.

Logo, alguns noviços apareceram com o que Karl pediu e alguns homens vieram com linhas e uma agulha. Karl pediu que saíssem todos, exceto Sam. Quando fecharam a porta, pediu que Sam pegasse um dos panos e o encharcasse na água. Pegou o pano molhado e passou delicadamente pelo ferimento, que agora era visível. Cinco perfuradas das unhas daquele monstro passaram perto de matar o rapaz.

"Você tem sorte, não foi tão profundo." disse Karl com um sorriso.

O rapaz nem notara sua frase, estava chorando de dor. Karl pegou novamente o pano molhado e passou pelo ferimento até que o sangramento estancasse.

"Passe o fio pela agulha e dê um nó." Mandou Karl para Sam, que rapidamente o fez. "Certo Jori, agora vai doer de verdade, então preciso que segure bem a mão de Sam."

"Ah, seu maldito sortudo..." grunhiu Sam pela força com que Jori apertava sua mão.

Quando Karl ponteou todos os ferimentos, pediu faixas para os que estavam fora da sala. Eles entraram com as faixas e entregaram a Karl, que com a ajuda de Sam, ergueu Jori da mesa e enrolou as faixas pelo peito do jovem. Quando enfim terminou, Sam já não aguentava mais olhar tanto sangue.

"Pelos raios do Sol!" exclamou Sam. "Ainda bem que acabou. Eu juro que passei perto de vomitar."

"Pronto, você vai ficar bem, mas precisa descansar agora." Completou Karl. "Diga ao Mediador para lhe dar um chá de camomila todos os dias, é bom para feridas."

Ao sair da sala junto de Jori, foi recebido pelo Mediador com aquele seu sorriso desconcertante no rosto, olhando-o e o parabenizando.

"Você fez bem, filho Karl, fez muito bem. Obrigado por salvar o bom Jori. Meus noviços levem-no para descansar." Disse ele rapidamente olhando para os jovens de branco. "Eu o recompensaria, mas ainda temos questões a tratar."

"Jori precisa de cuidados, os pontos que fiz foram apressados..." começou Karl, sendo interrompido por Sam.

"Depois de discutirmos o que temos para discutir, falamos de Jori, certo Karl?"

Karl engoliu em seco, concordando forçadamente de boca calada.

Caminharam de volta ao templo, chegando lá, perceberam que a situação foi tão caótica que nem se lembraram do corpo. Falando nele, lá estava a criatura estirada no chão. O caco enorme enfiado nas costas e o sangue escurecido ainda vazando, já com moscas voando ao redor.

"O que faremos com aquilo?" questionou um dos homens.

"Bom, acho que deveríamos queimar." Respondeu Karl, decidido. "É o mais sábio a se fazer."

O velho o olhou com espanto.

"O mais sábio é enterrá-lo." Disse o Mediador.

"Enterrá-lo? E por que faríamos isso?" perguntou Karl, ainda mais espantado.

"Assim como você, como Sam, como estes homens e como todo o povo desta vila, aquele monstro era uma pessoa. Ele merece e deve ser presenteado com um sepulcro de respeito." Sustentou o velho. "Não é assim que agimos, filho Karl, e você...".

"Não me chame de filho, não chame isso de filho. Isso era um monstro! Não era um homem, não tinha mais nada de homem nele, ainda mais agora. Veja só aquilo, parece com algum de nós? Se ali já houve um homem, este homem foi arrancado de lá! Se aquilo fosse uma pessoa, eu duvido que tivesse feito o que fez com Jori, e duvido que estaríamos aqui agora." assegurou Karl, aumentando o tom de voz. "Mas você é o líder, não é? Faça o que achar melhor."

Karl se afastou e desejou sair dali. Sam o olhava abismado, sempre soube que Karl não era afeiçoado ao Mediador, mas desconhecia este novo lado.

"Filhos, eu e meus noviços assumimos daqui. Vou providenciar um enterro digno para ele e desejar que trilhe o caminho para os Salões Dourados. Vocês, caçadores, terão uma longa noite hoje, então espero que pela graça divina vocês vão e voltem bem da floresta!" afirmou o Mediador. "Todos, tomem cuidado, não se exponham ao Mal, não deixem que ele domine vocês, protejam suas famílias e o que é seu. Pensem no que aconteceu hoje como um aprendizado e um sinal, um sinal de que esta provação serve para nos manter firmes e fortes."

Todos se foram, Karl estava novamente enfurecido e a aquela conhecida dor de cabeça lhe dava as boas vindas. Sam parecia outra vez desafeiçoado dele. Nem dava para acreditar que já estavam quase no meio da tarde ao saírem. A noite seria longa, a caça seria difícil. O frio era lacerante, o medo era inquietante, a cisma era persistente.

Karl não estava ansioso, ninguém estava, na verdade, seu corpo clamava por uma boa cama e longas horas de sono. A neve ainda caía e agora o céu também estava esbranquiçado, contribuindo para a sobriedade da ocasião.

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