Já passavam das dezoito horas, quando minha mãe chegou de frente ao portão de casa gritando.
- Aurora, Aurora! - Apareci mais que depressa, ela carregava diversas sacolas em mãos. - Anda logo menina burra, não vê que está pesado?
Minha mãe estava com a cara de péssimo humor, como sempre, Sandro devia ter feito ou falado algo que não tenha gostado, e com certeza, no final de tudo, ela iria descontar em mim sua frustração.
- Estas são as compras do mês, arrume tudo no devido lugar, sabe que o Sandro odeia bagunça, e mais uma coisa! Não pegue nada sem permissão, quando tiver fome, me avisa que separo algo para você.
- Nossa, não posso pegar algo sozinha para comer em minha própria casa?
- Cala a boca, menina, ou quebro seus dentes, por conta dessas suas piadinhas. Sabe que aqui nestas compras não tem um centavo seu, você não ajuda em nada nesta casa.
- Quero trabalhar, mas acabo tendo que olhar a Alice para você.
De repente, só sinto um tapa no meio do rosto. As garras de minha mãe já estavam soltas.
- Você não, SENHORA! Acha que está falando com suas amiguinhas da rua? Estou cansada de sua desconsideração, eu sou sua mãe, se quiser viver aqui dentro desta casa, terá que aprender como se trata os mais velhos, e colocar esse rabinho entre as pernas.
- E para onde eu iria? - Falo entre o choro, já era o segundo tapa na cara que recebia na semana. - Só tenho a senhora neste mundo e mesmo assim, é como se não tivesse, depois que a senhora se juntou com o Sandro, só me maltrata e o pior, deixa-o fazer o mesmo!
Já fazia quatro anos que meu pai havia morrido, um ano após, minha mãe arrumou um novo namorado. Com dois meses já estavam morando juntos, pois ela havia engravidado da Alice, minha irmã a quem tomo conta para que eles trabalhem fora. Depois que nos mudamos para a casa dele, ele nunca mais foi com a minha cara. Não trocava palavras comigo, apenas quando iria reclamar de algo que sumiu da geladeira, ou me dar ordens para arrumar as coisas quando algo estava fora do lugar na casa. Minha mãe é cega por ele, de amor e de ciúmes, acho que por isso ela me trata assim.
Acho, não, tenho certeza, tanto que, quando é dia de folga dele, ela me põe para ficar fora de casa o dia inteiro e só posso voltar quando ela chega do trabalho.
- Está achando ruim? Se é ele que coloca tudo dentro desta casa, você deveria era ajoelhar todos os dias aos pés dele e agradecer. Agora, para esse seu showzinho, ou perderei o resto da paciência que tenho com você. Dê banho na Alice agora, pois sairemos.
- Para onde iremos?
- Você não, só nós, esqueceu de que a casa está uma bagunça? Aproveita que não estaremos por aqui e dá uma lavada no chão! - Era sempre assim, eles saíam um dia antes da folga do Sandro, nunca me levavam, e de brinde me faziam de gata-borralheira. - Não esquece que amanhã é dia de você sair, Sandro vai ficar olhando a Alice e você pode aproveitar o seu dia.
Ela falava em aproveitar o meu dia, mas, na verdade, ela não queria que eu ficasse em casa com ele sozinha. Ao invés de ter medo dele fazer algo comigo, ela tinha medo de eu dar em cima dele. Minha mãe não entendia, que, na verdade, eu tinha era nojo, não o suportava com aquela cara nojenta me olhando de canto pela casa.
O lado bom era que eu ganhava um dinheirinho, como Sandro e mamãe ficavam fora o dia inteiro, aproveitava e fazia lacinhos de cabelo para crianças na semana, e no dia da folga dele, que era na sexta, eu vendia. Passava em frente de creches, escolas e maternidades, o dinheiro que ganho, compro outros materiais, e guardo o lucro, não gasto um centavo. Estou guardando para quando tiver uma boa quantia ir embora daqui, lógico que eles não sabem disso, se não, já teriam tirado todo o dinheiro de minhas mãos.
Uma vez, na sexta-feira, que ia saindo de casa, não sei o que tocou a minha mãe, mas ela me deu cem reais, disse para que comprasse algo de que gostasse, isso foi bem no começo, quando ela estava grávida ainda. Então pensei comigo, ou gasto este dinheiro com algo fútil e ele acaba, ou o invisto e o faço render, foi o que fiz! Comprei algumas fitas, cola quente, pérolas e comecei a fazer laços, tudo com ajuda dos tutoriais da internet, escondia bem todo o material, no dia em que saía, colocava em uma mochila e vendia, graças a isso, já tenho 1.800 reais guardados. Só estou esperando completar meus 18 anos para poder ir embora daqui. Quero me mudar de cidade, arrumar um emprego, alugar uma quitinete, prestar vestibular e fazer uma faculdade. Sei que concretizar esse sonho será difícil, mas não vejo outra escolha a não ser essa e me arriscar na vida. Se continuar nesta casa, nunca poderei entrar numa faculdade ou arrumar um emprego remunerado, já que meu trabalho aqui, na cabeça do Sandro e da minha mãe, já era pago com moradia e comida regrada.
Já era noite quando todos saíram, logo tratei de arrumar na mochila minhas coisas para vender, colocava meu dinheiro dentro dela também. Era perigoso ser assaltada na rua, mas tinha mais medo de ser assaltada em casa, pois desconfiava de que, quando saía, minha mãe vasculhava as minhas coisas. Depois de tudo arrumado, liguei para Isadora, a única amiga que tinha.
- Oi, Isa, como estão os preparativos para a viagem? - Isadora vai se mudar para outro estado, ela irá morar com a tia, já que havia ganhado uma bolsa de estudos em uma das melhores universidades de medicina do país.
Nos conhecemos no ensino fundamental, e de lá para cá nos tornamos melhores amigas. Nosso plano era entrarmos juntas na faculdade, mas, ano passado, quando terminei o ensino médio, minha mãe não me deixou prestar o vestibular, pois me disse que seria para cuidar da minha irmã, dizia que pagar babá seria dinheiro jogado fora, já que tinha uma filha desocupada em casa. Fiquei muito triste, arrasada para falar a verdade, pois sabia que também tenho capacidade de ganhar uma bolsa de estudos.
Sempre fui muito estudiosa, tirava notas altas, meu pensamento desde que meu pai faleceu era estudar e me formar na área da medicina e dar um futuro melhor para minha mãe, mas daí veio o Sandro, e ela mudou completamente sua atitude comigo. Deixou todo o carinho e amor que tinha por mim se transformar em xingamentos, agressão e desrespeito, tudo por um ciúme doentio, que ela não assumia diretamente, mas conseguia vê-lo em cada atitude hostil para comigo.
- Já está tudo pronto, minha mala está arrumada, irei amanhã às 16:00, você aparecerá para se despedir, não é mesmo?
- Claro, esqueceu de que amanhã é meu dia de folga? - Ironizei.
- Estou tão triste que não estaremos mais juntas, queria tanto que continuássemos unidas na faculdade.
- Nem me fala nada, pois meu coração está partido. Mas estou feliz por você, será uma ótima cardiologista.
- Sinto tanto por você, amiga, espero que quando você fizer seus dezoito, não fique nem mais um dia por aí.
- E não ficarei, só faltam dois meses. E o que são dois meses perto de todos esses anos que passei?
- Para onde você vai?
- Ainda não faço ideia, mas planejo ir para uma cidade bem distante. Não sei como serão as coisas, mas do jeito que está por aqui, qualquer lugar será melhor que esse.
- Aurora, acorda! - Minha mãe gritava em meu quarto.
- Ainda são cinco da manhã, não é minha hora de sair. - Falei assustada, olhando as horas no relógio do celular.
- Você não vai sair hoje, Alice está com febre, você ficará com ela, porque Sandro sozinho não consegue dar conta dela doente.
- Mas fiquei de encontrar a Isa hoje.
- Na próxima semana você a encontra, Alice é mais importante. - Disse não se importando com o que falei.
- Mãe é que...
- Escuta aqui. - Ela já veio para cima de mim, segurando meu pescoço. - Você vai ficar olhando sua irmã e não sairá do quarto dela para nada, entendeu?
- Entendi - Minha resposta saiu como um sussurro, por falta dor ar que faltava em meus pulmões, porque suas mãos apertavam forte meu pescoço.
- Não quero você e o Sandro conversando nada que não seja sobre a Alice. Nada de gracinhas, menina!
- Parece que a senhora gosta mais dele do que de mim.
- Não é hora de discussão nem drama, vá para o quarto dela e deite lá do lado da cama.
- A senhora quer que eu me deite no chão? - Sabia que minha mãe não gostava mais de mim e me maltratava como e quando podia, mas sempre que falava algo, ainda me assustava com tanta frieza vindo de sua boca.
- Se não quer dormir, vá passar as roupas dela que lavou ontem, não se esqueça de separar por cor ao guardar, se não, fica difícil de achar as peças depois.
Saiu do quarto sem esperar resposta. Levantei e coloquei minha roupa, super composta. Nada de shorts ou algo que desenhasse meu corpo e fui para o quarto da minha irmãzinha. Alice tinha dois anos, era um doce de menina, claro, porque eu a criava assim. Sempre nos demos bem, eu a amava muito. Desde que nasceu, fui eu que cuidei dela, dei seu primeiro banho, acompanhava nas consultas mensais ao médico.
Minha mãe e o Sandro também a amavam, mais do que tudo no mundo, eles dariam a vida por ela se preciso. O cuidado que não possuem comigo, tem de sobra com ela, o que me deixava de certo modo aliviada, pois quando ir embora saberei que ela será bem tratada.
Entrei no quarto de Alice e ela estava coberta, dormia, mas sua cara era de dor. Logo medi sua temperatura, dei remédio e me deitei ao seu lado, sabia que minha mãe não voltaria a entrar no quarto antes das sete, hora que levantaria para se arrumar e ir ao trabalho.
Amanheceu, minha mãe já havia ido trabalhar, Sandro veio ver Alice duas vezes pela manhã.
Agora são uma e meia da tarde, ainda não almocei. Alice parecia melhor, a febre havia ido embora e ela já comia tudo que eu oferecia. Ela havia acabado de dormir, então fui para a cozinha comer algo, pois estava morrendo de fome. Sandro estava em pé frente à pia, bebendo água.
- Cadê a Alice? - Perguntou num tom ríspido.
- Acabou de dormir, a febre já passou. - Respondi sem o encarar.
Comecei a servir o meu prato e me lembrei de Isa, talvez agora que Alice esteja melhor, poderia sair e me despedir dela. Na minha inocência, pedi permissão ao meu padrasto.
- Sandro. - Ele me encarou. - Já que a Alice está melhor, posso sair um pouco? É que tinha um compromisso hoje.
- Compromisso? Que compromisso? - Perguntou ignorante.
- Tenho que ver uma amiga.
- Amiga? Hum, eu sei, você vai é atrás de macho! - Sua fala me pegou de surpresa.
- Me respeite, que não te dou o direito de falar e me ofender assim. - Respondi indignada.
- Desde quando tenho que respeitar alguém como você? Essa casa é minha, falo o que quiser, acha que deixarei você aqui dentro, se aparecer grávida? Eu te coloco para fora, escutou?
Ele tinha o pior pensamento de mim e olha que nunca dei motivo algum. Sempre fui uma pessoa "sossegada", nunca saí ou dei preocupação à minha mãe sobre qualquer outra coisa.
- Me respeite! - Gritei.
Ele veio para cima de mim e me segurou pelo pescoço. Eu estava com o prato de sopa quente na mão.
- Quer respeito por quê? Você acha que não reconheço uma vadia de longe? Você não sairá, e se está com tanta vontade assim de ver um homem, eu vou te mostrar um de verdade, aqui em casa mesmo.
Dizendo isso, apertou o meu seio, tentando tirar a minha blusa. Nesse momento, nem pensei duas vezes, meti o prato com a sopa quente em sua cara com toda a força e ódio que tinha. Na mesma hora, ele caiu no chão e começou a gemer de dor. Me desesperei, corri em meu quarto, peguei minha bolsa e saí correndo pelo portão. Ele estava molhando o rosto na pia, gritando de dor, parecia ter se queimado bastante.
Bem feito!
Corri até o final da rua do bairro quando um táxi passou por mim e o chamei, pedindo para me levar até a rodoviária.
Quando parei na rodoviária, comecei a pensar na situação em que acabava de me meter, por queimar a cara daquele safado. Minha mãe não iria acreditar em mim se contasse a verdade e eu não poderia voltar para casa, pois ele me mataria.
Estava apenas com a roupa do corpo e minha mochila, que tinha meus lacinhos, documentos, dinheiro e o celular, na hora só me veio em mente.
- É agora Aurora, sua liberdade começa aqui, precisa ir embora!
Cheguei até o guichê e pedi uma passagem para a capital. A atendente pediu meus documentos e, quando viu que eu era menor de idade, disse que não podia viajar sem uma autorização de meus pais ou responsáveis.
- Moça, eu faço dezoito anos daqui a dois meses, não tem nenhum problema. - Tentei explicar.
- Não teria, se fosse para uma cidade próxima. Por estar sozinha, preciso de uma autorização por escrito do responsável.
- Por favor, eu te imploro, me vende essa passagem, é caso de vida ou morte. - Implorei com lágrimas nos olhos.
- Menina, se é caso de vida ou morte, te aconselho procurar um hospital ou a polícia, não uma rodoviária.
Respondeu desinteressada e foi fazer outras coisas, me ignorando. Eu não poderia procurar a polícia e dizer que meu padrasto tentou abusar de mim, pois era minha palavra contra a dele e tinha certeza de que a de minha mãe ficaria do lado dele.
Sentei-me desesperada, sem saber o que fazer, o único jeito era comprar uma passagem para uma cidade no mesmo estado. Me levantei e fui em direção ao guichê outra vez, quando ouvi uma voz gritando meu nome. Na mesma hora, me arrepiei.
- Aurora, Aurora!
Olhei para o lado e vi minha amiga Isadora. Ela estava com um vestido azul-celeste longo, seu cabelo loiro estava solto e caminhava acenando para mim.
- Pensei que não viria Rora! - Me abraçou.
- Isa, você não tem ideia do que acabou de acontecer, aquele sem vergonha do Sandro tentou me estuprar. - Disse chorando, me lembrando da cena daquele maldito tocando meu corpo.
- O quê? - Ela respondeu desacreditada.
Contei o que havia acontecido, ela me abraçou e chorou comigo.
- Vamos dar um jeito, Rora, naquela casa você não volta mais. Já sei o que fazer!
- O que você tem em mente?
- Tenho a autorização assinada por meus pais para viajar e minha passagem já foi comprada, você só precisa entrar no ônibus em meu lugar.
- Está louca? Você perderá a sua viagem!
- Compro outra e viajo amanhã, além disso, as aulas na faculdade só vão começar na próxima semana.
- E o que seus pais vão dizer? - Perguntei preocupada, tinha meus problemas, mas não queria que minha amiga arrumasse encrenca com os pais por minha culpa.
- Não se preocupe, eu invento uma desculpa, falo que perdi a viagem porque me distraí na loja de conveniência, dou um jeito.
- Não sei nem o que dizer, Isa, você é a melhor amiga que poderia ter. Me fala quanto custou a passagem, vou te pagar, para você comprar a sua amanhã.
- Claro que não, fique como um presente para a sua liberdade, eu sei o quanto você sofreu naquela casa e sei que não quero que você volte para lá, agora vá logo, porque agora quem não pode perder o ônibus é você!
- Isa, já falei que te amo hoje?
- Não, mas sei que me ama. - Sorriu - Me diz, o que tem dentro de sua bolsa?
- São meus lacinhos, documentos e o dinheiro que economizei esse tempo todo.
- Não tem nenhuma roupa? Pega as minhas.
- Claro que não! - Respondi mais que depressa, Isa já tinha feito muito por mim, não seria justo me aproveitar dela. - Quando chegar lá, eu compro, afinal, não sei ainda para onde vou e não posso sair por aí, carregando muitas coisas.
- Então quero que fique pelo menos com isso. - Tirou da carteira algumas notas de dinheiro.
- Eu não posso aceitar. Não se preocupe, eu tenho um pouco aqui.
- Por favor, Rora, estou te dando de coração, afinal, estou indo para casa de minha tia, lá não terei despesa alguma e meus pais me mandaram uma boa mesada todo mês. - Apesar de não serem ricos, os pais de Isa tinham uma vida financeiramente estabilizada. - Além disso, você precisa de muito dinheiro, até arrumar um trabalho.
- Olha, vou aceitar, mas com uma condição: quando eu arrumar um trabalho, te devolvo de novo!
- Pode ser, dona orgulhosa.
Rimos e logo a última chamada do ônibus foi dada, abracei minha amiga pela última vez.
- Não se esqueça de trocar de número e me ligar, quero notícias suas sempre, entendeu?
- Pode deixar!
Entrei no ônibus apresentando o papel que Isa me deu. Não precisei mostrar a identidade. Sentei-me na poltrona e comecei a pensar no que faria da minha vida. Me lembrei da minha irmãzinha. Sei que aquele monstro não faria nada com ela, a marcação dele era apenas comigo, mesmo assim não deixei de me preocupar, pois ela estava doente e eu nem pude me despedir.
Agora eu tinha dois mil e trezentos na mão, poderia alugar um quarto de alguma pensão e procurar um emprego o mais rápido possível, mas me senti muito mal, pois não tinha experiência em nada. Minha mãe não me deixava fazer cursinhos profissionalizantes, nem os gratuitos. A única coisa que sabia era cuidar de casa e de crianças.
Era por volta das dezoito horas quando meu celular começou a tocar, era a minha mãe, atendi imediatamente.
- Aurora, onde você está? - Sua voz era séria.
- Mãe, cadê a Alice, melhorou? - Mudei de assunto.
- Não me ignora, menina, estou aqui de frente de casa, se você não chegar em dez minutos, eu vou acabar com a sua raça.
- Por quê? - Perguntei tentando saber o que aquele safado disse a ela.
- Porque, por sua culpa, o Sandro sofreu um acidente, você deixou sua irmã doente sozinha e saiu, ele ficou tão sem saber o que fazer com a menina, que na hora do almoço escorregou com o prato de comida, que além de queimá-lo, se partiu e cortou seu rosto.
- O quê? - Ele não teve coragem de contar a verdade a ela. Aquele sem vergonha estava planejando se vingar de mim de outra forma, com certeza.
- Não, mãe, não foi isso o que aconteceu. Esse homem que você escolheu como marido tentou abusar de mim e eu simplesmente me defendi, jogando a minha comida com toda força do mundo na cara dele.
- Que absurdo é esse que está falando, menina? - Gritou histérica.
- Isso mesmo que acabou de ouvir. Acho muito estranho ele não ter te contado a real versão, já que ele me disse ser um homem de verdade.
- Você tem noção do que está falando, Aurora? Sandro é um funcionário público, conhecido na cidade inteira, quer estragar a vida dele falando mentiras? Eu sabia que não podia confiar em você, na verdade, ele deve ter se queimado se esquivando de suas insinuações. Quer saber de uma coisa? Não volta para casa não, fica aí onde você está, sua ingrata! Ele fez de tudo por você, te criou sem você ser nada dele e você não tinha preocupação nenhuma na vida morando dentro desta casa. Espero que sofra bastante aprendendo com o mundo e chore lágrimas de sangue quando se arrepender do que está fazendo.
- Mãe, em que dia a senhora se transformou neste monstro sem coração? Que deixou de acreditar na própria filha para acreditar em um homem?
- Escuta, a partir de hoje eu não te considero mais como filha, você não é nada minha, entendeu? Meu erro foi ter tido você! Eu era tão nova e estraguei minha juventude, tendo que parar todos meus sonhos para te criar e, no final, você me dá esse desgosto todo!
Após minha mãe dizer todos os absurdos possíveis, desligou o telefone na minha cara. Ouvir tudo aquilo me fez chorar como criança.
Ela engravidou com 16 anos, quando conheceu meu pai, os dois se apaixonaram, foram morar juntos, dois anos depois se casaram no civil, éramos tão felizes, nunca havia visto arrependimento por ter me tido tão cedo.
Infelizmente, numa tarde, meu pai voltava do trabalho, atravessava na faixa de pedestres e um motorista bêbado avançou o sinal e o atropelou. Ele faleceu na hora, o motorista era um menino de dezessete anos que havia pegado o carro do pai escondido, não houve penalidade para ele, pois era filho de um empresário muito rico e influente da região. Eles pagaram uma indenização à minha mãe e ela recebe uma pensão por eu ser menor de idade, só que até hoje não vi dinheiro algum. Quando ela conheceu o Sandro, os dois compraram uma casa num bairro nobre da cidade. Ele trabalhava no Ministério Público e arrumou um emprego de secretária para ela. Os dois, na vista das pessoas, são bem de vida, mas infelizmente, eu nunca usufruí de benefício algum, apenas a escola que mamãe pagava, porque não cairia bem para eles, eu estudar em escola pública.
Era madrugada e a maioria dos passageiros dormia, olhava para a estrada, via aquela escuridão dos lados e imaginava o que iria fazer da vida, pois quem contrataria uma menor de idade?
Na primeira parada do ônibus, às cinco da manhã, usei o banheiro e tomei café numa lanchonete, pois estava morrendo de fome, já fazia quase um dia que estava sem comer, pois estraguei meu almoço na cara daquele ser.
Comprei uns pacotes de biscoitos para levar na viagem, água, suco e uma blusa de frio que vi um ambulante vendendo, pois estava muito frio no ônibus e minha blusa era de manga curta.
Às seis da manhã, o ônibus voltou para a estrada. Eu já estava mais abastecida, não iria passar fome no caminho. Enquanto meu celular carregava, olhava quartos e pensões disponíveis para aluguel, assim, quando chegasse na capital, não dormiria na rua. Procurei por vagas de emprego também, mas todas buscavam pessoas com experiência e referência, infelizmente, não tinha nada disso.
Depois de praticamente um dia e meio de viagem, chegava à capital. Me assustei com os prédios e rodovias enormes. A cidade em que eu morava era tão pequena, em relação a esse lugar. Desci na rodoviária às duas da tarde, procurei informação sobre empregos numa barraca de comida, uma senhora muito educada me atendeu gentilmente e eu perguntei tudo que podia a ela.
- Minha filha, mesmo aqui sendo capital, está muito difícil de arrumar emprego. As vagas estão muito disputadas e, pelo que me disse, você só se sairia bem trabalhando em casa de família. Isso também é difícil, porque eles não querem colocar qualquer um dentro de suas casas.
- Eu entendo, dona Maria, mas sei que vou encontrar algo para mim! - Dizia confiante.
- Pensando bem, sei onde você poderia arrumar um emprego. - Maria parou um pouco, olhando para o céu, pensando. Depois me encarou. - Na fazenda São Caetano, que fica a alguns quilômetros daqui. Sempre contratam por lá, seja para a colheita ou para a limpeza dos galpões, cozinhar para os peões e outras coisas que não precisam de um currículo tão exigente.
- E como faço para chegar lá? - Perguntei esperançosa.
- A vila São Caetano fica a uns quarenta quilômetros daqui, chegando lá, você pode procurar qualquer pessoa e perguntar sobre a fazenda. Na verdade, a vila foi feita pelo dono da fazenda, ele construiu para seus trabalhadores morarem e pagarem um aluguel bem baratinho, descontado do salário deles. Falo isso, porque meu filho mora e trabalha lá há sete anos. Hoje mesmo, ele esteve aqui me visitando mais cedo.
- Onde fica o ponto de ônibus que vai para lá?
- Esse é o problema, lá eles têm seu próprio meio de transporte, que só funciona aos sábados. Lá é praticamente uma cidadezinha, então o pessoal só vem aqui na capital aos sábados, no dia de folga deles. Quem tem seu próprio carro próprio vem o dia que quer, mas o ônibus mesmo só aos sábados. Os táxis não vão mais para lá, pois o dono não gosta de carros estranhos e os proibiu de chegar perto da vila.
- Entendi, eu vou ver o que faço.
- Tente, minha filha. Semana passada chegaram uns cinquenta peões novos para trabalhar, tenho certeza de que estão precisando de gente para auxiliar na cozinha.
- Obrigada, dona Maria, tenha uma boa tarde.
Como ainda iriam dar três da tarde, resolvi me arriscar. Iria a essa fazenda, nem que fosse pegando carona na estrada. Enquanto caminhava em direção à saída da cidade e via alguma mulher com criança, oferecia meus lacinhos para vender. Vi a placa que direcionava à vila São Caetano e continuei. Uma hora ou outra apareceria algum carro e pegaria carona. Era arriscado, mas eu já estava toda lascada mesmo, o que poderia acontecer de pior?
Me interessei no lugar, porque, como dona Maria disse, sempre estão contratando e também há casas para os trabalhadores por um pequeno valor. Seria o que eu precisava naquele momento, andei uns quinze quilômetros pela estrada de terra e nenhum carro havia passado, já estava quase me arrependendo da burrice de andar numa estrada desconhecida, sozinha e sem conhecer ninguém.
Quando deram seis da tarde, o céu começou a escurecer, as nuvens ficaram pesadas, sinal de que uma forte chuva cairia em instantes. Aí, sim, me arrependi, mas não poderia retroceder, não demorou muito e a chuva começou a cair.
A chuva era forte, estava escuro e eu estava encharcada. Tentava cobrir a lanterna do celular para não cair água, pois não enxergava nada. Nesse momento, me arrependi amargamente de não ter esperado o próximo sábado para ir à tal fazenda, mas como ainda era domingo e eu não podia esperar tanto, fiz isso, pois não podia gastar o dinheiro que tinha à toa. Antes, eu havia perguntado a um taxista se ele poderia me levar o mais próximo possível da vila, mas ele simplesmente me encarou perguntando se eu achava que ele era louco. Não havia entendido o porquê, então só me veio essa ideia absurda em mente.
A chuva agora parecia mais fraca, eu estava muito molhada e morrendo de frio. O que me deixava atônita era o motivo de nenhum carro passar por ali. Percebi estar chegando próximo de algo. Quando me aproximei, notei ser uma ponte. Logo, meus olhos avistaram uma luz de faróis de um carro.
O carro era vermelho e tinha um símbolo de um cavalo, parecia um automóvel de luxo, o que era estranho, já que estava parado na ponte. Me assustei quando um raio caiu e vi, de vislumbre, um homem em pé, pronto para se jogar de lá.