Eu era João, um capoeirista dedicado, mas talvez ingénuo demais.
Meu mundo girava em torno da capoeira e de Sofia, a mulher que eu pensava amar e que me apoiava.
Treinei arduamente, sonhando com a apresentação regional, convicto de que era a minha vez.
Então, o golpe veio, duplo e brutal.
Mestre Antunes preteriu-me por Ricardo, o "prodígio" com "conexões".
E no mesmo fôlego, Sofia, com uma frieza cortante, revelou o verdadeiro jogo.
Nosso namoro? Apenas um arranjo, uma moeda de troca para benefícios familiares.
Cada ano de esforço, cada grama de dedicação, diluiu-se numa mentira.
O pai dela, calculista; ela, fria e estratégica.
As lembranças de Sofia e Ricardo a rirem juntos, dos elogios a ele por movimentos que eu já dominava, assaltaram-me.
Uma teia de engano e favoritismo revelou-se, e fui a sua presa.
Senti-me invisível, descartável, como se meus anos dedicados fossem nada.
A traição rasgou-me, duplamente: no profissional e no amoroso.
Desejei que lágrimas surgissem, mas engoli-as com força, não à frente dela.
A academia, antes refúgio, tornou-se um tribunal que me condenava.
Como pude não ver? Como pude ser tão subestimado por quem eu mais confiava?
"Esforço é bom, João, mas às vezes não é o suficiente." A voz de Sofia cortava-me.
Um riso amargo ecoou.
A raiva fria substituiu a dor, a determinação a insegurança.
"Acabou, Sofia. Eu não preciso de ti."
Deixei para trás a cidade, fotos, medalhas, o berimbau.
No terminal rodoviário, um folheto amassado: "Academia Raízes da Terra - Mestra Clara".
Uma nova direção num "Horizonte Belo".
Minha jornada de autodescoberta e vingança apenas começou.
João sentiu o sangue ferver.
Ele parou Sofia perto da saída da academia, o cheiro de suor e madeira encerada pairando no ar.
"Sofia, precisamos conversar."
A voz dele saiu mais áspera do que pretendia.
Sofia suspirou, ajeitando a alça da bolsa no ombro.
"Agora, João? Estou com pressa."
"É sobre a apresentação regional," ele disse, bloqueando a passagem dela sutilmente. "Mestre Antunes escolheu o Ricardo."
Ela o encarou, os olhos castanhos frios.
"E?"
"E? Sofia, treinamos juntos para isso. Era a minha vez."
A injustiça da decisão o consumia. Mestre Antunes mal olhara para ele nos últimos treinos, toda a sua atenção focada em Ricardo.
Sofia cruzou os braços.
"João, seja realista. Ricardo tem mais... presença. O Mestre viu isso."
Ela continuou, a voz firme, quase didática.
"Ele tem um talento natural que chama a atenção. Conexões também ajudam, você sabe. O pai dele..."
Ela não precisou terminar. O pai de Ricardo era influente no circuito da capoeira.
"Então é isso? Talento natural e conexões?" João sentiu o maxilar travar. "E todo o meu esforço? Minha dedicação?"
"Esforço é bom, João, mas às vezes não é o suficiente."
As palavras dela eram como golpes, precisos e dolorosos.
"O Mestre quer o melhor para a academia. Ricardo é a melhor aposta."
Uma dor aguda apertou o peito de João.
Era mais do que a apresentação perdida, era a validação que ele buscava, esmagada.
Lágrimas ameaçaram surgir, mas ele as engoliu com força.
Não na frente dela. Não assim.
Ele se sentia pequeno, desamparado.
A academia, antes seu refúgio, agora parecia um tribunal que o condenara.
Sofia continuou, impassível.
"Ricardo tem futuro, João. Ele vai longe."
A palavra "talento" ecoava na mente dele, cada repetição um novo golpe.
"Ele nasceu para isso," ela acrescentou, como se isso explicasse tudo, justificasse tudo.
O coração de João parecia ter algo cravado nele, uma sensação física de dor e traição.
Ele se sentiu invisível, como se seus anos de dedicação fossem nada.
João riu, um som amargo que surpreendeu até a ele mesmo.
"Então, o que foi tudo isso, Sofia? Nosso namoro... era só para me usar? Para o seu pai, talvez, ter uma 'conexão' com o Mestre através de mim, antes de perceberem que eu não era bom o suficiente?"
A suspeita, antes uma sombra, agora ganhava contornos nítidos.
Ele lembrou-se do pai dela, sempre cordial, mas com um olhar calculista.
Lembrou-se de como Sofia parecia mais interessada em seus progressos na capoeira do que nele como pessoa.
Ele se lembrou de inúmeras vezes.
Sofia e Ricardo rindo juntos após os treinos, olhares cúmplices trocados por cima de sua cabeça.
Mestre Antunes elogiando Ricardo efusivamente por movimentos que João já dominava há tempos, mas que dele passavam despercebidos.
As peças se encaixavam, formando um mosaico de engano e favoritismo.
A dor da traição era dupla: profissional e amorosa.
João respirou fundo, uma onda de raiva fria substituindo o desespero.
Ele não ia se afogar naquela mágoa.
Ele não ia deixar que eles o definissem.
"Sabe de uma coisa, Sofia?"
A voz dele agora era calma, perigosamente calma.
"Você tem razão. Ricardo tem mais futuro... com você."
Ele se endireitou, a insegurança dando lugar a uma nova e frágil determinação.
"Eu não preciso disso. Não preciso de você."
"João..." ela começou, talvez surpresa pela mudança súbita.
Mas ele já tinha se virado.
"Acabou, Sofia."
Ele caminhou para longe dela, sem olhar para trás.
Cada passo era uma afirmação de sua decisão.
Ele não pertenceria mais àquela academia, àquela cidade, àquela vida.
Naquela mesma noite, João arrumou uma pequena mochila.
Roupas, seus documentos, o pouco dinheiro que tinha.
Deixou para trás o berimbau que ganhara de seu pai, um presente relutante.
Deixou para trás as fotos com Sofia, as medalhas de competições menores.
Ele foi para a rodoviária, o coração pesado, mas a mente estranhamente clara.
Salvador, com seu sol e suas rodas de capoeira famosas, ficaria para trás.
Na rodoviária, o painel de destinos piscava nomes de cidades que ele mal conhecia.
Sentia-se perdido, à deriva.
Para onde ir? O que fazer?
A capoeira era tudo o que ele conhecia, tudo o que ele amava, apesar da recente traição.
Então, um nome pequeno num canto do painel chamou sua atenção: "Horizonte Belo - MG".
Um folheto amassado, preso com fita adesiva ao lado do guichê, anunciava uma "Academia Raízes da Terra - Mestra Clara".
A foto era de uma mulher mais velha, olhar sereno, ao lado de um grupo pequeno de capoeiristas sorridentes.
Era simples, humilde, o oposto da ostentação da academia de Mestre Antunes.
Uma lembrança distante surgiu.
Sua mãe, falecida há anos, mencionara uma vez uma tia-avó que vivia no interior de Minas, numa cidadezinha com um nome parecido.
Ela também falava de capoeira, de como era diferente por lá, mais ligada à terra, às tradições antigas.
Seria um sinal? Um chamado?
Ele não sabia, mas uma faísca de curiosidade se acendeu.
Impulsivamente, João caminhou até o guichê.
"Uma passagem para Horizonte Belo, por favor."
A decisão estava tomada.
Ele não sabia o que o esperava, mas qualquer coisa seria melhor do que a sombra de Sofia e Ricardo.
Com o bilhete na mão, ele embarcou no ônibus noturno, deixando para trás a cidade litorânea e a vida que o magoara.
A jornada de autodescoberta havia começado.
Passaram-se algumas semanas.
Na academia de Mestre Antunes, Ricardo pavoneava-se.
Ele era o centro das atenções, especialmente de Sofia.
Dava ordens aos mais novos, corrigia posturas com arrogância.
Mestre Antunes o tratava como um filho pródigo.
A apresentação regional tinha sido um sucesso, claro.
Ricardo brilhara, como esperado.
Sofia, no entanto, parecia distraída.
Durante os treinos, seus olhos frequentemente se perdiam no vazio.
Mestre Antunes notou.
"Sofia, concentração! Seu jogo está disperso."
Ela pedia desculpas, mas a mente dela vagava.
Onde estaria João? O que ele estaria fazendo?
A partida abrupta dele a incomodava mais do que ela admitia.
A ausência de João tornou-se um fato consumado.
No início, Mestre Antunes perguntou por ele, irritado com a "irresponsabilidade".
O pai de João ligou para Sofia, preocupado.
"Ele não disse nada? Simplesmente sumiu?"
Sofia apenas repetia que eles tinham terminado, que João precisava de espaço.
No antigo armário de João na academia, encontraram apenas o berimbau e uma pequena caixa com um anel de compromisso barato que ela lhe dera.
Ela pegou o anel, o metal frio em sua palma.
As últimas palavras de João ecoavam em sua mente: "Acabou, Sofia."
Havia uma finalidade nelas que a assustava.
Ele nunca tinha sido tão decidido, tão frio.
Será que ela o subestimara?
Será que a dor que ela causou foi mais profunda do que imaginara?
Um incômodo sutil, parecido com arrependimento, começou a brotar.
"Foco, Sofia! O estadual está chegando!" Mestre Antunes gritou, interrompendo seus pensamentos.
Ela assentiu, tentando se concentrar no ritmo do berimbau.
Ricardo estava ao seu lado, sorrindo, confiante.
Ela forçou um sorriso de volta.
O futuro era com Ricardo, ela repetia para si mesma.
Mas a imagem de João, com seus olhos magoados e sua nova determinação, teimava em aparecer.
O campeonato estadual chegou.
A equipe de Mestre Antunes era a favorita.
Ricardo, como sempre, esbanjava confiança.
"Vamos esmagar qualquer um que aparecer," ele disse para Sofia, piscando o olho.
Ele mal olhava para os outros competidores, considerando-os abaixo de seu nível.
Um novo time do interior, "Raízes da Terra", era motivo de piada para ele.
"Devem jogar capoeira com as galinhas," ele zombou.
O ginásio estava lotado.
Luzes, música, o burburinho das vozes.
As equipes se apresentavam, uma a uma.
Quando o locutor anunciou "Academia Raízes da Terra, de Horizonte Belo, sob o comando de Mestra Clara!", um pequeno grupo entrou.
Eram simples, uniformes básicos, mas com uma energia contagiante.
E à frente deles, tocando um berimbau gunga com maestria, estava João.
Sofia prendeu a respiração.
João estava diferente.
Mais magro, talvez, mas com os ombros mais largos, a postura mais ereta.
Havia uma calma em seu olhar, uma confiança que ela nunca vira antes.
Ele não parecia o jovem inseguro que ela dispensara.
Quando seus olhos se encontraram, ele apenas acenou brevemente com a cabeça, um cumprimento formal, profissional.
Nenhuma mágoa, nenhuma raiva. Apenas... reconhecimento.
Ele apertou a mão de Sofia brevemente, um toque rápido, quase impessoal.
"Sofia. Ricardo."
Sua voz era firme.
Sofia sentiu um nó na garganta.
Aquele não era o João que ela conhecia.
Era como se uma camada de poeira tivesse sido removida, revelando algo valioso por baixo.
Uma pérola que ela, em sua cegueira, descartara como uma simples pedra.
A musicalidade dele no berimbau era impressionante, cheia de nuances, de malícia.
Ricardo franziu a testa, surpreso e um pouco desconcertado.
"O que ele está fazendo aqui? Com essa gente?" ele sussurrou para Sofia.
Ele não gostou do jeito que Sofia olhava para João.
Havia uma admiração ali, uma curiosidade que o incomodou.
Ele negou para si mesmo, mas uma ponta de insegurança o atingiu.
Como João poderia ter melhorado tanto em tão pouco tempo?
Ricardo passou o braço pelos ombros de Sofia, possessivo.
"Não importa. Ele continua sendo o mesmo perdedor."
Ele tentava reafirmar seu domínio, sua posição ao lado dela.
Sofia não reagiu, os olhos ainda presos na figura transformada de João.
João viu o gesto de Ricardo.
Um sorriso quase imperceptível curvou seus lábios.
Ele não sentia mais a antiga pontada de ciúme ou raiva.
Apenas uma leve diversão, uma constatação de que algumas coisas, ou pessoas, nunca mudavam.
O passado parecia distante, quase irrelevante.
Ele estava focado no presente, na roda que se formaria em breve.
"João! Vamos, a chave já vai sair!"
Uma voz alegre o chamou.
Era Lucas, um rapaz simples de Horizonte Belo, o primeiro a lhe estender a mão na nova academia.
Lucas tinha um sorriso fácil e uma lealdade canina.
Ele o ajudara a se integrar, a encontrar seu lugar.
João sorriu para Lucas.
Foi Lucas quem o apresentou à Mestra Clara, quem o incentivou quando ele pensou em desistir.
Foi Lucas quem o fez sentir parte de uma comunidade novamente.
A gratidão que sentia por ele era imensa.
A equipe de "Raízes da Terra" não tinha estrelas, mas tinha união.
Eles lutavam um pelo outro, pela Mestra, pela honra da pequena academia.
Isso era algo que ele nunca experimentara com Mestre Antunes.
João olhou a tabela de jogos que Lucas segurava.
Seu primeiro adversário: Ricardo.
Um sorriso irônico, desta vez mais visível, surgiu em seu rosto.
O destino, às vezes, tinha um senso de humor peculiar.
Ele sentiu uma descarga de adrenalina, uma antecipação quase prazerosa.
Ricardo se aproximou, o desdém estampado no rosto.
"Olha só quem resolveu aparecer. Achou que podia se esconder no mato e virar capoeirista de verdade?"
A provocação era barata, previsível.
Ele ainda acreditava em sua própria superioridade, cego para a mudança em João.
João apenas o olhou, a calma inabalável.
"Vamos ver na roda, Ricardo."
Ele deu de ombros, um gesto de indiferença que pareceu irritar ainda mais o rival.
Não havia necessidade de palavras. A capoeira falaria por eles.
Ricardo rangeu os dentes.
A falta de reação de João o desestabilizou.
Ele esperava súplica, raiva, qualquer coisa que o colocasse em vantagem psicológica.
Mas João parecia... sereno.
Isso o deixou frustrado, uma semente de dúvida plantada em sua arrogância.
Apesar da calma aparente, uma pequena ansiedade persistia em João.
As mãos, escondidas atrás das costas, tremiam levemente.
O trauma da rejeição, da humilhação, ainda estava ali, uma sombra em seu coração.
Ele precisava vencer, não por Sofia, não para provar algo a Ricardo.
Mas por si mesmo. Para exorcizar seus próprios demônios.
Ele respirou fundo, buscando o centro.
"Eu consigo," ele murmurou para si mesmo.
"Eu vou superar isso."
A imagem de Mestra Clara, com seu olhar sábio e encorajador, veio à sua mente.
Ela acreditava nele. Isso bastava.
Beto e Léo, os irmãos barulhentos da academia "Raízes da Terra", aproximaram-se, dando tapas amigáveis em suas costas.
"É isso aí, João! Mostra pra esse playboy o que é capoeira de verdade!" gritou Léo, o mais novo e impulsivo.
Beto, mais velho e protetor, apenas sorriu e disse: "Estamos com você, irmão."
O apoio deles era genuíno, caloroso.
João sorriu, a tensão diminuindo um pouco.
"Valeu, pessoal. Cadê a Mestra?"
Ele olhou ao redor, procurando por Clara.
Ela tinha o hábito de sumir antes das competições, para fumar seu cigarro de palha em paz, dizia ela.
Lucas riu. "Deve estar lá fora, 'meditando'."
Ele fez aspas com os dedos.
Mestra Clara era uma figura. Sábia, profunda conhecedora da capoeira e suas tradições, mas com um jeito despojado, quase rústico.
Não se importava com formalidades, nem com a opinião alheia.
João balançou a cabeça, um sorriso nos lábios.
"Essa Mestra... às vezes me tira do sério. Deixa tudo nas minhas costas."
Ele era o responsável por organizar a logística da equipe, as inscrições, tudo.
Clara só se preocupava em ensinar e jogar capoeira.
Ele e Lucas revisaram a ordem dos jogos mais uma vez.
Sim, era Ricardo o primeiro.
Não havia como escapar.
O confronto era inevitável.
Lucas colocou a mão no ombro de João.
"Fica tranquilo, cara. Você treinou muito. Você está pronto."
A preocupação genuína em seus olhos tocou João.
Era bom ter amigos de verdade.
João assentiu, a determinação voltando com força total.
"Eu sei, Lucas. E eu vou vencer."
Um sorriso confiante iluminou seu rosto.
Ele estava pronto para a roda.
Ao entrar na área de aquecimento, João sentiu uma nova calma.
O burburinho do ginásio, as luzes, nada disso o distraía.
Seu foco estava no aqui e agora.
O cheiro familiar de suor e a tensão no ar eram quase reconfortantes.
Ele pertencia àquilo.
Então ele a viu.
Mestra Clara estava encostada numa pilastra, um pouco afastada, observando tudo com seus olhos penetrantes.
Usava uma saia rodada simples, branca, e uma blusa de algodão cru. Os cabelos grisalhos presos num coque frouxo.
Um cigarro de palha entre os dedos, a fumaça subindo em espirais lentas.
Havia uma aura de tranquilidade e poder ao redor dela que sempre o impressionava.
Mesmo parada, ela parecia em movimento, como a própria capoeira.
João se aproximou, e ela o olhou, um brilho divertido nos olhos.
"Pronto pra dançar, meu filho?" a voz dela era rouca, melodiosa.
"Só se a senhora prometer não sumir na hora H pra fumar," ele retrucou, entrando na brincadeira.
Ela riu e deu um peteleco na testa dele.
"Menino atrevido."
O sorriso dela sumiu, e ela o encarou seriamente.
"Jogue com a cabeça. Use a malandragem que te ensinei. E lembre-se do berimbau. Ele comanda."
Conselhos curtos, diretos.
Ela confiava nele. Ele sentia isso.
Nesse momento, Sofia e Ricardo se aproximaram.
João notou como Sofia pairava perto de Ricardo, quase como uma assessora.
Uma pontada de ironia o atingiu.
Ela sempre quisera estar ao lado do "vencedor".
Ricardo ostentava um equipamento novo, reluzente.
Sofia o ajudava a ajustar as proteções, a voz dela baixa, íntima.
"Cuidado com o joelho esquerdo, amor. Lembra o que o fisioterapeuta disse."
João desviou o olhar. Aquilo não lhe dizia mais respeito.
A roda se formou. O berimbau chorou.
João e Ricardo se cumprimentaram no pé da cruz.
E o jogo começou.
João surpreendeu.
Ele não era mais o capoeirista defensivo e hesitante.
Seus movimentos eram fluidos, rápidos, cheios de uma agressividade controlada.
Ele atacava, fintava, respondia aos golpes de Ricardo com uma precisão surpreendente.
O primeiro ponto foi de João, uma rasteira bem encaixada que desequilibrou Ricardo.
Mestra Clara, da lateral, apenas balançou a cabeça levemente, um sinal de aprovação.
Ela sabia. Ela sempre soube do potencial dele.
Sofia, na arquibancada ao lado de Mestre Antunes, arregalou os olhos.
Aquele era João?
A velocidade, a malícia, a leitura de jogo...
Ele parecia outro capoeirista.
Mestre Antunes também parecia surpreso, a testa franzida.
A inversão de poder era palpável.
A primeira rodada foi um domínio de João.
Ele pontuou consistentemente, usando a ginga para confundir Ricardo, os golpes certeiros.
O placar final: 5 a 1 para João.
O apito soou, encerrando a rodada.
O ginásio, antes barulhento com a torcida de Ricardo, ficou momentaneamente em silêncio, depois explodiu em aplausos para o "desconhecido" do interior.
Ricardo levantou-se, o rosto vermelho de raiva e humilhação.
Ele não conseguia acreditar.
Como aquele Zé Ninguém o estava vencendo?
A inveja o corroía. Ele olhou para João com puro ódio.
Sofia levantou-se rapidamente, indo em direção à área dos atletas.
"Mestre, peça um tempo técnico para o Ricardo!" ela implorou a Antunes, que parecia atordoado.
Mestra Clara, do outro lado, fez um gesto para o árbitro, permitindo a pausa.
Ela queria ver como João lidaria com a pressão.
Sofia correu para Ricardo, que esbravejava.
"Calma, amor, calma," ela disse, entregando-lhe uma toalha e água.
"Ele teve sorte. Você é melhor. Use aquela sequência que treinamos."
Eles cochichavam, Ricardo assentindo, a raiva ainda em seus olhos.
João, do outro lado da quadra, estava sozinho.
Bebia água calmamente, a respiração controlada.
Não parecia ofegante, nem exausto.
Havia uma serenidade nele que contrastava com o desespero do outro lado.
Ele olhou para Mestra Clara, que lhe deu um sorriso discreto e um aceno de cabeça.
Isso era tudo o que ele precisava.
Mestra Clara observava João.
Um sentimento estranho, uma mistura de orgulho e algo mais quente, talvez protetor, a invadiu.
Ela queria ir até ele, dizer algo, mas se conteve.
Ele precisava encontrar seu próprio caminho, sua própria força.
Uma pontada de culpa a atingiu. Ela o estava usando também, de certa forma? Para provar algo a si mesma, ao mundo que a esquecera?
Afastou o pensamento. João era talentoso. Merecia brilhar.
A segunda rodada começou.
Ricardo veio com tudo, uma fúria renovada.
Ele tentou uma série de chutes altos, agressivos.
João sorriu internamente. Previsível.
Era a tática favorita de Sofia quando ela queria pressionar um oponente.
Ele conhecia aquela tática.
Quantas vezes Sofia a usara contra ele nos treinos, quando ainda namoravam?
Ela sempre fora mais estratégica, mais fria no jogo.
Ele, mais instintivo, mais coração.
Agora, ele aprendera a unir os dois.
João recuou, defendendo os golpes com calma, deixando Ricardo gastar energia.
Permitiu que Ricardo marcasse alguns pontos, para inflar seu ego.
Mestra Clara observava, um leve sorriso no rosto. Sofia parecia aliviada.
Ricardo, por sua vez, começou a se sentir confiante novamente.
Ricardo exultava internamente. "Agora sim! Ele não aguenta minha pressão!"
João, no entanto, via as brechas.
A guarda de Ricardo baixava após cada sequência, a respiração ficava mais pesada.
A arrogância era seu ponto fraco.
"É agora," pensou João.
De repente, João mudou o ritmo.
Começou a bloquear e contra-atacar com velocidade surpreendente.
Cada golpe de Ricardo era respondido com dois de João.
A pontuação começou a virar rapidamente. 3-3, depois 4-3 para João.
O ginásio vibrava.
Desesperado, Ricardo tentou um golpe baixo.
Avançou como se fosse aplicar uma cabeçada, mas com a intenção de usar o cotovelo disfarçadamente.
João viu a malícia em seus olhos.
Ele já esperava algo assim. Mestra Clara o alertara sobre a "malandragem suja".
No último instante, João girou o corpo, esquivando-se do cotovelo.
Ao mesmo tempo, sua perna subiu numa meia-lua de compasso perfeita, atingindo o peito de Ricardo.
O golpe foi limpo, técnico, mas forte.
"Isso é pela sua arrogância," pensou João, com uma pitada de ironia.
O placar marcou 5-3 para João. O apito final soou.
Ricardo caiu no chão, sem ar, a derrota estampada em seu rosto.
O ginásio explodiu.
A pequena equipe de Horizonte Belo celebrava ruidosamente.
João aproximou-se de Ricardo, ainda no chão.
Um sorriso satisfeito brincava em seus lábios.
"Parece que o jogo virou, não é?"
A provocação era suave, mas cortante.
Mestra Clara observava a cena com um misto de diversão e orgulho.
Ricardo olhou para João com fúria impotente, os dentes cerrados.
A humilhação era completa.
Para adicionar um toque final, João estendeu a mão para Ricardo.
"Levanta, campeão. Acontece."
A falsa gentileza era quase cruel.
Ele sabia que Ricardo se importava com as aparências.
Ricardo, o rosto tenso, forçou um sorriso e aceitou a mão de João para se levantar.
Ele não podia demonstrar fraqueza na frente de todos.
Apertou a mão de João com força excessiva.
João inclinou-se e sussurrou, para que apenas Ricardo ouvisse:
"Da próxima vez, jogue limpo. Ou aprenda a perder com dignidade."
O sorriso de Ricardo vacilou. A mensagem fora clara.
O reinado de Ricardo, pelo menos naquele dia, havia terminado.